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O passarinho preso – Fábula de Manuel Maria Barbosa Du Bocage


 



 


Na gaiola empoleirado,

Um mimoso passarinho Trinava brandos queixumes Com saudades do seu ninho.

“Nasci para ser escravo, (Carpia o cantor plumoso) “Não há ninguém neste mundo “Que seja. tão desditoso.

“Qu’é do que passava, “Ora descantando amores,

“Ora brincando nos ares,

“Ora pousando entre flores?

“Do entendimento! ah malignos! “Vqs possuindo a razão,

“Tendes de vícios sem conta “Recheado o coração.

“Ah! se a vossa liberdade “Zelosamente guardais,

“Como sois usurpadores “Da liberdade dos mais?

“O que em vós é um tesouro, “Nos outros perde o valor? “Destrói-se o jus do oprimido “Pela fôrça do opressor?


 


“Mal haja a minha imprudência! “Não tem por base a justiça, “Mal haja o visco traidor! “Funda-se em nossa fraqueza

“Um raio, um raio te abrase, “A lei que a vós nos submete,

“Fraudulento caçador! “Tiranos da natureza!


 


“Em que pequei? por ventura “Fiz-te à seara algum mal? “Encetei, mordi teus frutos, “Como daninho pardal?

“Agrestes, incultas plantas “Produziam meu sustento, “Inútil aos que se prezam “Do alto dom do entendimento…

“Em ofensa das deidades,

“Em nosso dano abusais “Da primazia que tendes “Entre os outros animais.

•*r

“Mas, ah triste! ah malfadado! “Para que me queixo em vão? “Que espero, se contra a fôrça “De nada serve a razão?”

Aqui parou de cansado O volátil carpidor:

Eis que vê chegar da caça O seu bárbaro senhor.

Trazia encostado ao ombro O arcabuz fatal e horrendo E alguns pássaros no cinto, Uns mortos, outros morrendo.

Das penetrantes feridas Ainda o sangue pingava,

E do cruento verdugo As curtas vestes manchava.

O prêso, vendo a tragédia, Coitadinho! estremeceu;

E de susto e de piedade Quase os sentidos perdeu.

Mas apenas do sossobro Repentino a si tornou;

Co’os olhos nos seus finados Estas palavras soltou:

“Entendi que dos vrventes "Eu era o mais infeliz:

“Que outros têm pior destino “Aquêle exemplo me diz.

“Da minha sorte já ’gora “Queixas não torno a fazer; “Antes gaiola que um tiro, “Antes penar que morrer.”

M. M. B. du Bocage.


 


Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

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