O Sentimento dos Cidadãos – Voltaire

O Sentimento dos Cidadãos – Voltaire

Original em Francês

Tradução de Miguel Duclós

Voltaire – O Sentimento dos Cidadãos

Queixamo-nos de J.J. Rousseau, cidadão da nossa cidade, aqui residente que se limita, em Paris, ao infeliz ofício de um palhaço desprezado em uma ópera, a qual ridicularizaram ao andar nas quatro patas no teatro de comédia. Na verdade, de alguma maneira, estes opróbios recaem sobre nós: foi triste, para um genebrino recém-chegado a Paris, ser humilhado pela vergonha de um compatriota. Alguns de nós advertiram-no, sem conseguir corrigi-lo. Nós perdoamos suas novelas, nas quais não existe puder nem bom senso. Nossa cidade antes conhecia apenas costumes puros e obras sólidas, que atraíam estrangeiros à nossa Academia. Esta é a primeira vez que um de nossos cidadãos faz-se conhecer com livros que afrontam os costumes, desprezados pelas pessoas honestas e condenados pelo sentimento de piedade.

Quando colocou irreligiosidade nas suas novelas, nossos magistrados inevitavelmente viram-se obrigados a imitar os de Paris e Berna, *[* Eu fui banido do Cantão de Berna apenas um mês depois do decreto de Genebra] que promulgaram, e o expulsaram. Mas o Conselho de Genebra, mostrando sua compaixão e justiça, deixou abertura para o arrependimento de um culpado desajustado, que poderia retornar à sua pátria e lá merecer seu destino.

Hoje não se esgota a paciência quando ele publica um novo libelo, no qual desafia com furor a religião cristã, os religiosos que a professam, todos os sacerdotes do Santo Evangelho e todo o corpo estatal? A loucura não pode mais servir de desculpa, pois ele sabe que comete esses crimes.

Ele teria hoje uma bela declaração: reconheçam a doença cerebral em minhas inconseqüências e minhas contradições. Nada será mais verdadeiro do que este delírio, que levou-o ao cúmulo de insultar Jesus Cristo – já que escreveu que o Evangelho é um livro escandaloso, (página 40 da edição de bolso) temerário, ímpio, cuja moral é ensinar os filhos a desoberecem suas mães, seus irmãos, etc. Não repetirei as outras palavras: elas são tremendas. Ele crê disfarçar a repulsa pondo-a na boca de um oponente, mas não responde a esse oponente fictício. Ele nunca foi condenado o bastante por ter feito estas objeções infames e distorcer desta forma maliciosa o sentido natural e divino das parábolas do nosso Salvador. Tornamo-nos, junto com ele, infernais, ao analisar o Evangelho assim. Ah! Quem já analisou assim? Quem é essa alma infernal? Parece que o autor desta peça pode responder melhor do que ninguém à esta questão. [Espero que o leitor não deixe de consultar o que precede e o que se segue nos pontos citados.] La Métrie, com o homem-máquina, diz que conheceu um perigoso ateu, que restaura a racionalidade sem a contestar, vê-se logo quem era este ateu, certamente não está autorizado a apresentar tais venenos sem apresentar o antídoto.

É verdade que Rousseau, neste mesmo escrito, se compara a Jesus Cristo com a mesma humildade com que diz que lhe devemos erigir-lhe uma estátua. Sabemos que esta comparação é um dos seus acessos de loucura. Mas uma loucura que blasfema a tal ponto pode ter outro médico senão a mesma mão que fez justiça aos seus outros escandâlos?

Se ele acredita preparar, com seus escritos obscuros, uma desculpa para suas blasfêmias, atribuindo-as a um delator imaginário, não pode contudo desculpar-se de maneira nenhuma pelo modo que fala dos milagres do nosso Salvador. Ele diz claramente, com seu próprio nome (pág.98) “Existem milagres no Evangelho, que não podem ser intepretados ao pé da letra sem que se renuncie ao bom-senso”. Ele faz ridículo todos os prodígios que Jesus operou em sua consdescendência para estabelecer a religião.

Repetimos então, aqui, a demência que existe em se declarar cristão quando ele subverte o primeiro princípio do cristianismo; esta loucura não o torna mais do que um criminoso. Se é cristão e quer destruir o cristianismo não é apenas de um blasfemador, mas também um traidor.

[120] Após ter insultado Jesus Cristo, não é surpreendente que tenha insultado os ministros do seu Santo Evangelho.

Ele chama as profissões de fé de Amphigouri [ininteligíveis] (pág. 53). Um termo de gíria e de jargão, que significa insanidade. Compara a sua declaração com as de Rabelais, que disse que eles não sabem nem no que crêem, nem o que querem e nem o que dizem.

Não sabemos, diz Rousseau em outra passagem, [pág.54] nem no que eles crêem, nem no que eles não crêem, nem o que parecem saber.

Está aí, então, aquilo que o culpa da mais negra hipocrisia, sem nenhuma prova em contrário, sem nenhuma desculpa. É assim que ele trata quem o perdoou de sua primeira heresia e que não teve a menor culpa na punição da segunda, quando suas blasfêmias, difundidas em um novo romance, foram entregues ao carrasco. Existe apenas um cidadão, entre nós, que tendo pressão no sangue, esfrie diante desta conduta e não fique indignado contra este caluniador?

É permitido que um homem de nossa cidade ofenda a tal ponto nossos padres, em cuja maioria são nossos parentes e amigos, e às vezes nossos consoladores? Consideremos quem os trata assim: é um sábio disputando contra sábios? Não, é o autor de uma ópera e de duas comédias vaiadas. É um homem de bem que, iludido por um falso zelo, reprova indiscretamente homens íntegros? Admitamos com dor e vergonha que é um homem que ainda guarda as marcas horríveis de sua corrupção e que, disfarçado de saltimbaco, arrastou-as de cidade em cidade e de montanha em montanha; o infeliz que fez morrer a mãe e que abandou os filhos às portas de um hospital, renegando os cuidados que uma pessoa caridosa poderia querer ter com eles; renunciando a todos os sentimentos naturais e se despindo de todos sentimentos de honra e religião. Gostaria de declarar com simplicidade o que de mim exige este artigo. Nunca uma das doenças de que fala este autor me atacou – nem pequena, nem grande. Bem o sabe as pessoas que cuidaram de mim quando criança, ainda vivas. Esta doença seria conhecida de Sr. Malouin, Morand , Thierry, Daran, e do irmão Côme. Se ele descobriu o menor traço de corrupção, eu rogo a eles que me surpreendam e façam me envergonhar das minhas palavras. A pessoa sábia, e geralmente estimada, que cura os meus males e consola minhas aflições não é infeliz unicamente porque compartilha da sorte de um homem infeliz. Sua mãe está ainda cheia de vida e com boa saúde, apesar da velhice. Nunca expus, nem deixei que expusessem, nenhuma criança a um hospital ou onde quer que seja. Uma pessoa que tenha a caridade de que se fala deve guardar segredo. Todos sentem que não é em Genebra – onde jamais vivi e de onde tanta hostilidade se espalha contra mim – que deve-se esperar informações confiáveis acerca da minha conduta. Não acrescentarei nada sobre esta passagem, senão que seria melhor ter feito o assassinato que o autor acusa-me do que ter escrito algo similar a ela.

Este é, então, aquele que ousa dar conselhos aos nossos concidadãos! (Veremos logo quais os conselhos) Este é, então, o que fala dos deveres da sociedade!

Certamente ele mesmo não cumpre estes deveres, quando, no mesmo libelo, traindo a confiança de um amigo, [creio dever advertir o público que o teólogo que escreveu a carta da qual fiz um resumo não é, nem nunca foi meu amigo, vi-o apenas uma vez na vida, e ele não tem nada a deslindar, para o bem ou mal, com os ministros de Genebra. Esta advertência me pareceu necessária para prevenir interpretações insensatas] imprimiu uma de suas cartas para melindrar um grupo de três padres. É aqui que pode-se dizer – concordando-se com um dos homens mais importantes da Europa – acerca deste escritor, que escreveu um romance de Educação, que, para se elevar um rapaz é necessário primeiro que ser bem elevado. [todo mundo concorda, penso, que eu e o autor desta peça não temos a mesma educação e nem a mesma religião].

Vejamos o que particularmente nos diz respeito: a nossa cidade que ele quis perturbar, porque foi tratado com justiça. Com qual intenção ele recorda nossos problemas adormecidos? Por quê desperta nossas antigas querelas? Ele quer que nos assassinemos [Pode-se ver na minha conduta os dolorosos sacríficios que fiz para não perturbar a paz na minha pátria e na minha obra, a força com a qual exortei os cidadãos a não perturbá-la nunca com qualquer radicalidade que possa reduzi-la.] porque se queimou um livro ruim em Paris e em Genebra? Quando nossa liberdade e direitos tiverem em perigo defenderemo-os bem sem ele. É ridículo que um homem deste tipo, que não é mais nosso concidadão, nos diga:

“Vocês não são nem espartanos nem atenienses (pág. 340), vocês são comerciantes, artesãos, burgueses ocupados com seus interesses privados e lucros. Não fomos outra coisa quando resistimos à Felipe II e ao Duque de Savoye; adquirimos nossa liberdade pela coragem e pelo preço de nosso sangue para nos mantermos na mesma.”

Que ele pare de nos chamar de escravos (pág. 260) pois não o seremos jamais! Ele chama de tiranos os magistrados da nossa República , quando são eleitos por nós. Ele diz que sempre se viu( pág. 259), no Conselho dos Duzentos, pouca luz e coragem menos ainda. Busca, acumulando mentiras, estimular os Duzentos contra o Pequeno Conselho, e os padres contra estas duas instituições; e por fim, todos contra todos, para nos expôr ao desprezo e ao riso dos nossos vizinhos. Ele quer estimular nossa indecência? Quer inverter nossa constituição ao desfigurá-la, como fez com o Cristianismo, que ousa mencionar? É o bastante avisar que a cidade que ele quer pertubar o desaprova com horror. Se ele acreditou que nós tiraríamos a espada por causa do romance Emílio, é melhor juntar esta idéia com suas outras loucuras ridículas. Mas é necessário que ele saiba que, se punimos levemente um romance ímpio, punimos gravemente um vil sedicioso.

POST SCRIPTUM da obra os cidadãos de Genebra intitulada: Resposta às Cartas escritas no País.

Parece que, depois de alguns dias, ninguém se sentiu ofendido com uma brochura de oito páginas intitulada Os Sentimentos dos Cidadãos; Seria rebaixante para os cidadãos aprovar um escrito deste tipo. Em conformidade com o artigo 3 do título XI do Édito, colocaram-no fogo, como libelo difamatório.

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