Polônia, Lituânia e Livônia – História Universal de Césare Cantu

Polônia, Lituânia e Livônia – História Universal de Césare Cantu

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Césare Cantu – História Univertsal

CAPÍTULO XXX

Polônia, Lituânia e Livônia

Eis aqui mais um país que se subtrai ao movimento monárcmico deste século, e que conserva, com um reino eletivo, os privilégios de uma aristocracia zelosa da sua independência.

Os nobres polacos, de acordo para prejudicar o poder público e não deixar os burgueses elevarem-se, não toleravam entre si nenhuma distinção de classe. Tanto a população das cidades como a do campo estava inteiramente sujeita, ainda que a condição do cidadão fosse um pouco melhor do que a do aldeão: efetivamente, êle não tinha a pagar senão uma renda anual, ao passo que o camponês, além da capitação em dinheiro, era obrigado a numerosas corvéias. Preso à gleba, não podia abandoná-la sem licença do senhor, que tinha direito de vida e de morte sobre todos, exceto sobre aqueles que se davam às letras ou ao ministério sagrado.

Os dezenove vigésimos dos habitantes estavam assim privados de toda liberdade política, e a soberania residia nos nobres, únicos que constituíam a nação. Dois arcebispos, sete bispos, quinze vaivodas, sessenta e cinco castelões, formavam o senado, conselho principal da República, que dirigia o poder real no sentido dos interesses aristocráticos. Os outros nobres e os cidadãos de Cracóvia, que constituíam uma comuna nobre, eram representados por núncios, cujo consentimento era necessário para a arrecadação dos impostos. Os nobres podiam também reunir-se em assembléia geral para deliberar sobre os negócios mais importantes.

O rei que eles elegiam não era nada mais do que um instrumento seu; porque não era nem o centro do governo, nem o comandante dos exércitos, nem o chefe da administração; e não podia, sem seu assentimento, fazer a paz ou a guerra, nem arrecadar impostos, nem promulgar leis, nem decidir nos negócios graves. Ainda mais, no tempo do reinado de Alexandre, foi-lhe proibido dispor dos rendimentos da coroa {statutum alexan-drinum) e de cunhar moeda.

Casimiro IV, casado com Isabel da Áustria, viu seu filho Vladislau eleito rei da Boêmia e da Hungria, (1490); concluiu com Bajazeto II o primeiro tratado feito entre os polacos e os turcos (1492). Pouco chorado quando morreu (1501), êle deixou o reino a João Alberto, seu filho, o qual teve por sucessor seu filho Alexandre, já duque de Lituânia. Assim se efetuou a união desta província com a Polônia, conservan-do-lhe seus tribunais, e assegurando-lhe direitos e privilégios iguais aos dos reinícolas.

Alexandre favoreceu o saber; porém os grandes puseram limites a suas liberalidades, e diminuíram a influência real, nos julgados e na política. Foi proibido, durante o seu reinado, à nobreza aceitar a dignidade de cidadão ou exercer o comércio.

Casimiro tinha estado constantemente em guerra aberta ou em relações hostis com a Rússia. Esta potência, não podendo esquecer as circunstâncias em que a Lituânia tinha tirado vantagem da sua humilhação, aspirava a recuperar a Rússia Branca, a Ucrânia e a Sevéria. Ivã III, que não tinha ousado romper abertamente com Casimiro, assaltou Alexandre quando êle ainda não era mais do que duque da Lituânia, e tirou-lhe diferentes províncias. Êle obteve a cessão regular de alguma pelo tratado de Moscou (1494), que o reconheceu autócrata de todas as Rússias; e casou com uma filha de Alexandre. Porém Ivã era tão entusiasta pelo rito grego quanto Alexandre lhe era oposto. Em conseqüência disso, muitos lituanos se entregavam ao príncipe russo, que a guerra tornou também senhor da Sibéria. Alexandre aliou-se com Plettenberg, o mais poderoso dos grão-mestres da Ordem Teutónica; porém as brilhantes vitórias deste valente guerreiro (1503) não impediram a Rússia de exigir, na época da trégua de cinqüenta anos, concluída pela intervenção do papa, o tributo que antigamente era devido à verdadeira fé.

Ficaram ainda então à Polônia 7.838 milhas geográficas, depois de ter perdido 1.117, e à Lituânia 11.097, isto ê, mais do que a França e a Espanha reunidas. As florestas tinham sido arroteadas; a exportação dos grãos aumentava a riqueza; mas a condição servil dos aldeões punha obstáculo a toda a indústria, não se sabia preparar as matérias-primas, e todo o comércio estava nas mãos dos judeus. Tendo os tártaros invadido o país, Alexandre, atacado de paralisia, fêz-se levar contra eles nas fileiras do exército Comandado por Glinski, que, descendente de uma família tártara, tinha sido educado na Alemanha, e tinha vindo a ser seu ministro e seu general. Apenas o rei soube a notícia da vitória exalou o último suspiro. Tendo-lhe sucedido seu filho Sigismundo, Glinski, ofendido por este príncipe, refugiou-se junto de Wasali IV Ivano-vitch (1506-1548), autócrata das Rússias, e o resolveu a romper a trégua. Da primeira vez, Wasali IV contentou-se com consolidar as conquistas de Ivã (1508), seu pai; porém voltando de novo à carga, apossou-se de Esmolensk (1514), perdido havia cento e vinte anos. Glinski, enganado em sua esperança de obter esta cidade como feudo, voltou-se para Sigismundo. A batalha dada ao pé de Orja (8 de setembro) custou aos russos trinta mil soldados, além de dois generais, trinta príncipes e mil e quinhentos nobres feitos prisioneiros. Esta assinalada vitória foi devida a Constantino, príncipe de Ostrowski, que Ifentou também recuperar Esmolensk (1522); porém uma trégua de cinco anos veio suspender a guerra.

Por outro lado, a Polônia era ameaçada pelos moldávios, pelos turcos, pelos tártaros da Criméia, vencidos muitas vezes por Ostrowski; mas, não achando nem fortunas, nem exércitos, para os reprimir, corriam o país e o devastavam audaciosamente. Eustáquio Dasskiewic, súdito de Ostrowski, tinha obtido em recompensa do seu valor as sarostides de Cerkassy e Kaniet. Êle aí encontrou, em meio das ilhas inacessíveis do Dnieper, uma nova raça que devia depois influir ativamente nas vicissitudes da Europa Setentrional.

Constantino Porfirogeneta fala de um oaís chamado Kazakia, entre o mar Negro e o mar Cáspio, na vertente meridional do Cáucaso, onde hoje habitam os circassianos. É talvez desta região que vieram os cossacos, com o monqol Batou, à Rússia, onde, tendo formado diferentes hordas, confundiram-se com os turcos polovteses, que desapareciam da história nesta época. Também se misturavam com eles polacos, litua-nos e outras populações afugentadas quer pela invasão, quer pelas perseguições políticas e religiosas, ou atraídas pelo gosto da pilhagem e pelos encantos de uma vida aventurosa. Foi desta mistura que se formou, com o nome de Sécia, um estabelecimento em uma ilha do Dnieper, por cima das cascatas (Potogues) que cerram este rio sobre longo espaço; é por isso que se lhes chamou Zaporogues.

Os homens casados habitavam a pouca distância das aldeias situadas entre a Dnieper e o Bug: reuniam-se quando havia alguma expedição a fazer, e escolhiam um chefe. No ano 1500 tinham formado uma Reoública militar com chefes eletivos, e foram chamados malos-russos, que quer dizer pequenos russos: o nome de cossacos pertencia aos zaporogues não casados. Mais tarde, houve os cossacos da Lituânia, de Vitepsk, de Polotzk, de Azof, da Criméia (1).

Dasskiewic pensou em se servir destes homens no interesse da Polônia, do mesmo modo que se emprega, para opor dique a este rio os materiais que ele acarreta. Depois de os ter reunido em um corpo, dividido em regimentos e companhias, armado e disciplinado, deu-lhes por praça de armas a ilha Chortica, inspirou-lhe o gosto do trabalho, o desprezo da morte, uma obediência cega, experimentou-os contra os tártaros.

Os cossacos são, portanto, um anel entre os nômades da Ásia e os exércitos regulares da Europa; com eles se fundiram povoações que dantes se tinham combatido entre si. Afeiçoados pouco ao solo pela religião e pelo hábito, eles renunciaram à vida errante, e, encar-regando-se só do serviço militar, deixaram os primitivos habitantes aplicar-se tranqüilamente à agricultura.

Eles em breve foram temíveis para os inimigos da Polônia, e deveu-se-lhes a célebre derrota que Ostrowski fêz sofrer (1527) aos tártaros ao pé de Kiev.

(1) Os cossacos do Orda, do Azof e do Don não parecem ter a meana origem; alguns os julgam arsim chamados, unicamente porque o seu gênero de vida é o mesmo que os dos cossacos de Dnieper,

Sigismundo (1530), pai da justiça e filho do valor promulgou na dieta de Wilna o Estatuto da Lituânia, em língua polaca. Vinte anos depois, foi decretado legislativamente que ninguém seria coroado rei, sem ter sido eleito pelos Estados. Este direito, considerado pelos polacos como um precioso sinal de liberdade, devia tornar-se para eles, por não ser regulado por boas instituições, em origem de longos males e por fim da sua ruína. Sigismundo tinha esposado Bona, filha de Galeas Sforza, a qual desprezava soberanamente a barbárie setentrional; ela foi suspeitada de ter envenenado suas duas noras, para que elas não pudessem diminuir a sua influência sobre o filho.

Sigismundo fêz com felicidade a guerra contra a Ordem Teutônica (1525); e, por ocasião da paz de Cracóvia, tendo obtido que lhe cedessem a Prússia, de que os cavaleiros estavam de posse há três séculos, deu a sua investidura ao grão-mestre Alberto de Brandeburgo, que tinha traído a religião e a sua ordem. Com o patrimônio deste apóstolo, a reforma penetrou primeiramente na Prússia Polaca, de onde ganhou o resto da Polônia já preparada pelos hussitas para a receber, depois a Lituânia, sem que Sigismundo se desse a grande incômodo para lhe tolher o passo. Ela foi pregada secretamente em Cracóvia por João Tricessio; e Lismanino célebre franciscano, confessor de Bona Sforza, adotou as suas doutrinas. Outras seitas se introduziram também nestes países, especialmente os Irmãos Boêmios, expulsos por Fernando I. Os calvinistas foram aí introduzidos (1547), por Francisco Stancaro de Mântua, professor de língua hebraica em Cracóvia. Os unitários, cujas opiniões foram propagadas pelos italianos, puderam dentro em pouco lá formar uma seita distinta da dos protestantes. O primeiro núncio pontifício na Polônia foi Luís Lippo-mane, bispo de Verona; êle foi substituído por João Francisco Commendone, que, menos violento que o seu predecessor, conseguiu fazer adotar o Concílio de Trento.

Sigismundo Augusto, tendo sucedido a seu pai, esposou, sem o consentimento dos Estados, Bárbara Radzivil, viúva de um simples gentil-homem: como encontrasse resistência da parte dos luteranos, chegou-se para os católicos, por cujo motivo a oposição tomou um caráter religioso.

Êle tinha encarregado Lismanino de percorrer a Europa, em procura de melhor sistema de reforma; porém, como o seu enviado se casasse na Alemanha, por sugestão de Calvino e de Socino, o rei concebeu cirande desgosto por isso, e ligou-se ao catolicismo, Êle declarou entretanto todos os cristãos aptos para os empregos públicos, reuniu com muito custo as três seitas inimigas (1570), e autorizou os protestantes a terem uma igreja em Cracóvia (1572), a fim de evitar os males que êle via resultarem em toda a parte da intolerância. A reforma não adquiriu assim predomínio; porém foi um partido que trouxe novo alimento às discórdias intestinas.

Os cavaleiros porta-espadas, que dependiam então da Ordem Teutónica, possuíam a Livônia, com a Courlândia e Estónia; essa soberania lhes tinha sido concedida (1459) pelos cavaleiros teutónicos, em recompensa dos socorros que deles tinham recebido na guerra com os confessores prussianos; porém eles tiveram de a disputar contra o arcebispo, posteriormente contra a cidade de Riga (1491), que por fim foi submetida à ordem.

Guálter de Plettenberg (1493-1535), o mais notável de seus arão-mestres, elevou a Livônia ao fastígio da sua qrandeza. Êle soube conseguir que Riga fosse dócil à servidão, sustentou briosamente a guerra contra a Rússia, e elevou-se à dignidade de príncipe do império (1502). Tendo deixado a reforma introduzir-se no país (1527), resultou daí que os cidadãos de Riga não reconheceram mais o arcebispo, e que o grão-mestre ficou, por assim dizer, como soberano da Livônia.

As guerras civis multiplicaram-se então no país com uma ferocidade digna dos bárbaros; porque tais eram efetivamente os livônios, inteiramente alheios às artes e às ciências. A Rússia, muitas vezes inquietada por eles, resolveu conquistar o seu território (1556); e Ivã IV enviou um embaixador a Dorpat, encarregado de oferecer ao bispo uma rede de seda para a caça, dois galos, dois tapetes e de pedir o tributo. O prelado prometeu um marco por cada um dos homens do seu bispado; mas, como o não pagasse, Ivã atacou a cidade e apossou-se dela (1559). Os estonios deram-se à Suécia, para se subtrair aos russos (1560). O vestfálio Gothardo Kettler, então grão-mestre, aliou-se com o rei da Polônia, e negociou com êle para secularizar o ducado. Efetivamente, a ordem, o arcebispo, os deputados dos nobres e da cidade ajustaram com Sigismundo Augusto o primeiro privilégio nos termos do qual a Livônia foi submetida a este príncipe, que se obrigou a manter nela a confissão de Augsburgo, e a respeitar os bens, feudos, direitos, jurisdições e imunidades. A Courlândia e a Semigalle foram elevadas a ducado a favor dos Kettler, que aí dominaram até à extinção da família em 1737.

Riga pretendeu obter condições particulares (1582), para formar uma República independente da Lituânia; mas, afinal submeteu-a também, e a Livônia cessou de ter história própria.

Ivã IV, exasperado por este engrandecimento da Polônia (1562) e pela recusa que Sigismundo lhe tinha feito da mão de sua irmã, lhe declarou a guerra que tratados vieram suspender. Em meio das loucuras a que se abandonava o furioso Ivã, dois livônios que tinham ganho a sua confiança lhe sugeriram a idéia de erigir a sua pátria em reino, para acabar de uma vez com as pretensões alegadas pela Suécia, pela Dinamarca, pela Polônia e por êle mesmo. Êle seguiu o seu conselho, e ofereceu essa coroa a Magno, irmão mais novo de Frederico II, rei da Dinamarca, que entrou na Livônia (1570), à testa de vinte mil russos. Porém, vencido (1571) por Pôncio de la Gárdia, grão-general, tão hábil como valente, êle não pôde fazer mais do que devastar a Estônia.

Durante esta guerra, Sigismundo Augusto, como não pudesse obter da nobreza uma retribuição anual destinada à sustentação de uma milícia permanente (1563) para defesa da fronteira, instruiu-a à sua custa, aplicando-lhe a quarta parte do produto líquido de seus bens; estes soldados foram em conseqüência disso chamados quartuários. Seu constante objeto foi consumar a união da Polônia e da Lituânia. Êle renunciou, para este fim, a seus direitos hereditários sobre esse ducado, ao qual cessou de considerar como apanágio de família; e não obstante os nobres repugnarem nos dois países à comunidade das dietas e das leis, êle conseguiu formar um só corpo político.

A raça dos jagelões (1571) que tinha fornecido sete reis à Polônia, acabou com Sigismundo Augusto. Então surgiram os pretendentes e as facções, verdadeira tempestade em que se agitaram nobres, religiosos, nacionais, estrangeiros; a paz dos dissidentes os pôs contudo de acordo, e formulou-se pacta conventa para os fazer jurar ao novo rei. Esses pacta estipulavam que êle não poderia, em sua vida, propor candidato ao trono; que não receberia, às ocultas do senado, nenhum enviado das potências estrangeiras; que conservaria à dieta a unanimidade de votos; que dezesseis senadores eleitos em seu seio estariam sempre junto dele para velarem pelas liberdades nacionais; que os produtos das minas e das salinas pertenceriam aos nobres nas suas terras; finalmente, que os empregos e as dignidades seriam conferidas só aos indígenas.

Entre os concorrentes ao trono havia Ivã IV, que, se tivesse reunido debaixo do seu poder a Moscóvia, a Polônia e a Lituânia, teria posto fim às guerras inevitáveis entre as nações de raça eslava, e assegurado o seu predomínio sobre os tártaros e otomanos. Porém o orgulho deste furioso, e o rito grego que êle professava, o fizeram rejeitar pela dieta. Alguns príncipes alemães da religião protestante foram também rejeitados. A casa de Áustria esforçava-se havia algum tempo por se introduzir entre as nações eslavas, como formando um anel entre as raças do Norte e do Meio-dia; mas os naturais temiam que ela reduzisse o país à servidão, como o tinha feito à Boêmia e à Hungria. A escolha do filho do rei da Suécia, produzindo a união deste reino com a Polônia, teria assegurado a sua preponderância sobre a Rússia. Afinal, eles se decidiram por Henrique de Valois, que reinou posteriormente na França (1573), com o nome de Henrique III. Este príncipe teve de se mostrar generoso em promessas para com a dieta, que não reunia menos de cem mil eleitores; quando lhe acontecia hesitar acerca de algumas das condições, o grão-marechal dizia-lhe friamente: Si non jurabis, non regnabis. Acrescentou-se a estes pacta conventa um artigo contendo que, logo que o rei viesse a faltar ao ali estabelecido, cessaria de direito a obrigação de lhe obedecer; e eles serviram de modelo para o que se fêz subscrever a seus sucessores. A igualdade perfeita dos nobres entre si era assegurada, assim como o direito de não serem presos, mesmo por crime, senão depois de convencidos.

Henrique, que a princípio agradara por suas maneiras e por sua intrepidez em beber, fêz-se depois malvisto, em razão do desgosto e do enfado que manifestava; e logo que, pouco tempo depois, Carlos IX morreu, fugiu de noite, para ir ocupar um trono mais brilhante, mas não menos tormentoso. A dieta declarou-o como tendo perdido os direitos ao trono; e Estêvão Bathori, príncipe da Transilvânia, foi nomeado para lhe suceder. Como êle era favorecido por Selim, que reinava então sobre os otomanos, podia lisonjear-se de obter por intervenção dele a vantagem de viver em paz com este povo. Por outro lado, êle era um bom guerreiro de bela presença, instruído, e que, subido ao trono não por herança mas por seu mérito, havia restituído a tranqüilidade ao seu país, onde tinha captado a estima dos’ católicos e dos protestantes. Esta escolha parecia tanto mais oportuna, quanto que cem mil tártaros da Criméia acabavam de se arremessar sobre a Polônia sem defesa, de onde tinham levado cinqüenta e cinco mil pessoas, cento e cinqüenta mil cavalos, quinhentos mil animais cornígeros e duzentos mil carneiros (1575). Bathori foi portanto pedido em altos brados; mas como se achasse inconveniente eleger um vassalo da Porta, o título real foi dado a Ana, com quem êle devia casar (1578). Bathori teve muito trabalho para vencer ou persuadir os facciosos; êle instituiu uma corte soberana de juízes anuais escolhidos dentre os nobres, para estatuir em última instância sobre apelações das sentenças proferidas pelos tribunais da nobreza.

Ivã, não podendo obter dele a cessão da Lituânia, começou a guerra, e conduziu um exército contra a Polônia e a Suécia. Em breve êle se apossou da Livô-nia. Magno, que era seu rei, tinha tentado subtrair-se à dependência do czar; caiu porém em poder deste, e foi posto em ferros; restituído depois à liberdade, renunciou a um titulo vão.

Bathori não desmentiu o seu renome de valentia. Os russos foram afinal derrotados debaixo dos muros de Wenden, e seus artilheiros, como perdessem a esperança de salvar suas peças, enforcaram-se. O despotismo tem também heróis. Os polacos, os russos, os suecos pareciam rivalizar em bravura, em encarniçamento feroz e atrocidades. Bathori recusava anuir a composição alguma fora do território russo, e suas pretensões iam sempre em aumento. Afinal Ivã IV, desanimado, recorreu ao imperador e ao papa Gregório XIII, a quem lisonjeou com a esperança de entrar para o grêmio da igreja latina. O jesuíta Antônio Pos-sevino foi quem ultimou o tratado, do qual escreveu uma relação, em que se lê com vivo interesse essas convenções com povos recentemente constituídos. Conquanto fosse penoso a Ivã, que, por meio do Báltico, queria começar a ligar-se à Europa pelo comércio e pela política, renunciar à Livônia, êle teve de se resignar a isso; e a paz (1582) foi confirmada da sua parte, beijando a cruz.

Estêvão, a fim de preservar o país das incursões dos tártaros, deu aos cossacos melhor organização, pondo-os debaixo das ordens de um hetman, com o soldo anual de um ducado e de uma peliça, sem desprezar de lhes destinar praças fortes.

Êle dizia que Deus tinha reservado para si três coisas: criar de nada, saber o futuro e dirigir as consciências. Não pôs restrições à liberdade dos cultos. Os protestantes aumentavam em número, apesar do clero e dos jesuítas; o socialismo estabelecia-se; Constantino Ostrowski, o herói polaco, esforçava-se ativamente por dar alguma instrução aos russos, submetidos à Polônia. Possevino procurou persuadir a Bathori de estabelecer o cristianismo; porém uma missão de jesuítas, que veio a Riga, fêz rebentar contra ela um motim que se converteu em rebelião; e Bathori fulminado por uma apoplexia a semelhante notícia (1586), terminou a sua carreira.

A incerteza da sucessão aumentava os desastres internos e externos. Os nobres voltaram às suas pretensões, os partidos ligaram-se de novo, e se venderam em leilão; afinal tomaram as armas, divididos entre Maximiliano da Áustria e Sigismundo, príncipe da Suécia. A guerra rompeu, e o arquiduque entrou com um exército na Polônia; mas a sorte das armas foi-lhe desfavorável, apesar dos dobrões espanhóis e dos soldados húngaros. Sigismundo III foi coroado (1587), ganhou nova vitória sobre o arquiduque, e fê-lo prisioneiro; depois, obrigou-o, na paz, a renunciar a toda pretensão.

Este absurdo sistema de eleição extinguiu o sentimento da nacionalidade, submetendo o país a estrangeiros: êle promovia a ambição e a venalidade; além de que não era porventura de temer que no momento em que as facções estavam desencadeadas, algum poderoso vizinho viesse conquistar o reino? Tais eram as reflexões que Sigismundo expunha aos nobres, que lhe deram razão, mas não mudaram. A esperança déles era que, se Sigismundo vivesse muito tempo, o escandaloso hábito dos interregnos tempestuosos viesse a perder-se. Êle reinou efetivamente quarenta e cinco anos; mas como? Seu pai, que previa, pelas condições que lhe impunham, rompimentos inevitáveis, o tinha desde logo dissuadido de aceitar a coroa. Efetivamente, êle perdeu de repente a afeição de seus súditos, por não saber conformar-se com seus usos. A prerrogativa principal dos reis da Polonia consistia em nomear para todos os cargos, cujo número era de cérea de vinte mil, assim eclesiásticos como seculares. Sigismundo não os conferiu senão a católicos. Ao mesmo tempo, os jesuítas empregavam-se em instruir a mocidade; eles fizeram voltar à antiga fé as famílias Dzialinski, Kostka, Kono-pat, e também grande número de gregos: o padre Possevino foi ajudado nestas últimas conversões pelo valente Ostrowski. Porém isso não fêz mais do que aumentar o número dos descontentes. Estes sublevaram os cossacos que passaram a ser um perigo para essa República, a cuja defesa tinham sido destinados, e tudo foi desordem e combates.

Sigismundo achou-se chamado à coroa da Suécia por morte de seu pai; porém ela lhe foi arrebatada em meio das desordens deste reino, onde se instituiu uma festa anual em memória da conservação da verdadeira fé, a despeito das intrigas dos jesuítas.

Sigismundo efetuou então o que êle recusava havia doze anos aos polacos (1600); reuniu a Estônia à Polônia e à Lituânia. Porém o regente da Suécia tomou esse pretexto para declarar guerra aos polacos, cujas costas setentrionais, sem defesa, atacou, ao que se seguiu uma guerra de sessenta anos. Ela foi continuada por Carlos IX da Suécia, que, favorecido pelos lituanos bem dispostos pelos protestantes, fêz com eles um tratado particular. Zamoyski, general hábil, que comandou em todas as guerras de Sigismundo, fazia prodígios; mas, para que podiam eles servir com um exército sem soldo e sem disciplina? As tropas suecas não eram menos indisciplinadas e a Livônia, pisada pelos dois exércitos, estava reduzida à condição mais deplorável, Sigismundo, dividido entre a superstição e as voluptuosidades, entre o amor das artes e o galanteio, esquecia-se dos interesses públicos; e sua mulher, como austríaca (1606), era mal vista pela nação. Afinal, os nobres formaram um rokoss como eles chamavam uma união contra o rei, para defesa de seus direitos, e armaram cem mil homens. A guerra demorou-se dois anos; mas a discórdia veio por fim meter-se entre os rokossia-nos, e os pôs na necessidade de implorar o seu perdão.

No entanto, a guerra da Livônia só tinha sido interrompida por tréguas momentâneas; então sobreveio a guerra com a Rússia. Um dos Demétrius, que surgiam como pretendentes ao trono dos czares, foi ajudado por Sigismundo: sessenta mil polacos e oito mil cossacos zaporogues sitiaram Moscou e Esmolensk, Sigismundo tinha em vista não sustentar um impostor, mas pôr a coroa russa sobre a cabeça de seu filho Vladislau (1610), que efetivamente foi proclamado czar em Moscou. No entanto, como era preciso que êle abraçasse o culto grego, seu pai não o mandou para os russos; porém apossou-se de Esmolensk, cujos oitenta mil habitantes se achavam reduzidos, depois de um longo cerco, a menos de dez mil almas. Era sua intenção tornar esta praça dependente da Polônia; mas, longe de se submeterem ao jugo estrangeiro, os russos insurgiram-se, e mataram seis mil polacos. Os que escaparam ao morticínio lançaram fogo a Moscou, mataram cem mil habitantes e roubaram o que acharam de tesouros. Os cossacos assolaram o interior da Rússia. Finalmente ajustou-se uma trégua de catorze anos com o novo czar, nos termos da qual os polacos conservaram Esmolensk, Czernikov e a Sibéria.

Exasperados também pelas continuadas incursões dos cossacos, os turcos acometeram por seu turno a Polônia. O "padischah" Otman II atacou os polacos na Moldávia, à testa de quatrocentos mil homens; porém as moléstias e a indisciplina, mais ainda do que as batalhas, consumiram o seu exército. Depois, pela paz de Choczim (1621), convencionou-se que a Polônia seria defendida dos tártaros, a Turquia dos cossacos, e que a Porta nomearia o príncipe da Moldávia, mas escolhendo sempre um cristão.

Era mais difícil travar harmonia com a Suécia, porque, além da contenda da Estônia, Sigismundo pretendia essa coroa que Carlos IX primeiro possuíra, e que depois dele cingiu Gustavo Adolfo. Gustavo entrou na Livônia, teatro e objeto desta guerra, com uma infantaria escolhida, e a vitória o acompanhou. Êle transportou depois a guerra para a Prússia, e adiantou incursões até Varsóvia. Os austríacos sustentavam a Polónia para dar que fazer a Gustavo Adolfo; porém as tropas de Waldstein, tão indisciplinadas como rapiñantes, causaram exasperação no país; e tendo a peste e a fome vindo ajuntar-se a estes males, os nobres polacos desejaram a paz. Sigismundo reconheceu que as forças austríacas não lhe bastariam para suplantar um rei amado pelos seus; pela sua parte Gustavo Adolfo desejava vingar-se dos católicos alemães; e via ao mesmo tempo que a paz de Choczim ia deixar mais forças livres ao seu inimigo: em conseqüência disto êle tratou (1629) de ajustar uma trégua de seis anos.

Sigismundo foi substituído no trono por seu filho Vladislau (1632); mas o título de czar, que tomou também este príncipe, forneceu a Miguel Romanoff pretexto para recuperar as províncias perdidas por seus predecessores. Esmolensk, cujo cerco êle fêz por dilatado tempo, já estava reduzida à última, quando Vladislau, vindo em seu auxílio, atacou os russos pela retaguarda, e os obrigou a se renderem. Animado oor esta fortuna, êle pensou em assaltar a capital da Rússia; mas, tendo-lhe os turcos declarado guerra para operarem uma diversão, êle teve de prestar ouvidos a propostas de composição e, pelo tratado de Wiazma, renunciou a toda pretensão à coroa da Rússia, do mesmo modo que o czar lhe cedeu Esmolensk e Czernikov, assim como todos os seus direitos sobre a Livônia, a Estônia e a Curlândia.

As hordas de tártaros, impelidas pelos turcos sobre a Polônia, retiraram-se quando a paz foi assinada.

Os cossacos, que se tinham revoltado diferentes vezes no tempo de Sigismundo, haviam sido dissolvidos por causa da sua insubordinação com a faculdade para cada habitante de lhes dar a morte. Eles entraram então a fazer de corso ousadamente pelo mar Negro, tomaram Caffa, queimaram o arsenal de Tre-bizonda e mataram todos os habitantes que encontraram em Sínope, sem que o rei pudesse conseguir aquietá-los. Depois continuaram a levar alternadamente a assolação à Rússia, à Turquia e à Polônia; este último reino era obrigado a sustentar um exército permanente para os repelir. Ainda mais, eles pretenderam votar para a eleição do rei, e foi preciso vir à guerra aberta com eles. Afinal, foram dispersados, privados de seus privilégios, declarados iguais aos aldeões, e oprimidos com toda a tirania da nobreza polaca. O descontentamento os levou a pegar de novo em armas (1640), e o próprio Vladislau excitou o seu ódio, pelo desejo de aumentar a autoridade real e de a tornar hereditária. A sua intenção, era, em caso de necessidade, captar a afeição dos soldados, levando-os a fazer guerra aos turcos. Não tendo podido induzir a dieta a assoldadar tropas estrangeiras, êle resolveu restituir aos cossacos os seus privilégios, e deixá-los inquietar os tártaros; êle os impeliu mesmo a atacar a República. A morte o deteve em seus projetos; no entanto, os tártaros já se tinham levantado em armas (1648); os cossacos entraram, à porfia deles, a roubar e a sitiar as cidades, pelo que este interregno foi ainda mais horrível que os precedentes.

Assim os reis da Polônia, incessantemente em guerra com os russos, com os turcos, com os tártaros e com os suecos; constantemente atormentados por facções e por questões religiosas, e tendo entre si os indomáveis cossacos, não puderam jamais estabelecer uma organização boa no país, que ficou pisado, dividido, miserável. A classe baixa definhou pobre e oprimida debaixo da desumana tirania dos nobres, que o rei não tinha forças para conter; e os estrangeiros espreitavam os movimentos desta República, como o corvo espreita os do suicida, com que espera poder em breve alimentar-se.


Fonte: Edameris. Trad. Savério Fittipaldi.

 

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