Por Amor da Terra – Viriato Corrêa
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Por Amor da Terra – Viriato Corrêa
In “Meu Torrão”.
QUANDO O CAVALEIRO estacou no pátio do velho engenho arruinado, Dona Maria de Sousa
correu vivamente à cancela para recebê-lo.
— Alguma novidade? indagou inquieta.
— Nenhuma, respondeu ele tristemente.
Era Henrique Dias, o herói negro, que vinha de Serinhaém, onde se concentravam as forças defensoras da terra pernambucana.
Passava-se aquilo em começo de 1635. Havia cinco anos que durava aquela desgraça. Havia cinco anos que, invadido, espezinhado, ferido no fundo de seus brios, vivia Pernambuco de armas na mão lutando loucamente para libertar-se do jugo de Holanda que o ocupara pela força.
Vinha sendo um verdadeiro milagre aquela resistência. Parecia incrível que gente- tão mal armada, como a gente pernambucana, pudesse bater-se por tanto tempo com o poder formidável dos invasores.
Havia cinco anos que os patriotas, concentrados no Arraial de Bom Jesus, sem roupa, sem munições, sem ví-veres, mostravam aos holandeses que não era fácil tomar-se um pedaço da terra brasileira.
Já as forças nacionais se sentiam fatigadas. A Holanda, com o poder estupendo de suas armas, cada vez se apoderava mais da terra.
Agora as vitórias lhe sorriam dia a dia. A sua bandeira triunfante ia tremulando aqui, ali, neste e naquele reduto. Já a Paraíba caíra, caíra Porto Calvo, caíram as outras fortalezas e tudo mais com certeza ia cair. Restavam apenas o Arraial de Bom Jesus com o milagre de sua bravura e Serinhaém onde, agora, se reuniam os mais bravos combatentes.
Foi nesse momento amargo de infelicidade para as nossas armas, que a mulher pernambucana mostrou uma rara grandeza d’alma. Não houve esposa que chorasse o marido que morria na guerra. Não houve mãe que não mandasse o filho para as batalhas.
Foi nessa ocasião que Dona Maria de Sousa pôs uma espingarda no ombro do seu filho mais velho, rapazote ainda, e o enviou a Matias de Albuquerque, em Serinhaém.
E agora, ao ver chegar Henrique Dias ao terreiro de seu engenho, dizia-lhe o coração que ele ali viera trazer-lhe uma notícia má.
E sentada em frente ao herói negro, no avarandado da casa grande que o sol da tarde redourava, ela sentia claramente que ele tinha alguma coisa para lhe dizer.
— Diga, fale! pediu com ansiedade.
O negro curvou a cabeça, e, com voz pungida, baixinho, como se assim ferisse menos aquele pobre coração de mãe, murmurou:
— O seu filho morreu em combate.
Ela ficou sem um pingo de sangue no rosto. Quis falar; não pôde. Quis levantar-se, mas estava chumbada ao chão. Veio-lhe uma doida vontade de chorar, mas nenhuma lágrima lhe molhou os olhos cansados. Sentiu que ia desmaiar. O herói amparou-a.
— Paciência,
minha senhora, disse ele docemente.
Vamos pedir a Deus que tenha pena de Pernambuco. Che
gamos ao nosso Calvário(1); cada um de nós deve car
regar a sua cruz.
Ela passou a mão pelo rosto, como que acordando. Reanimou-se. Uma onda de sangue tingiu-lhe a pele clara.
Sentiu-se envergonhada por aquele instante de fraqueza.
Tinha direito de desanimar?
Não estavam todas as mães vendo morrer os filhos em defesa da terra invadida? Não estavam de luto todos os lares e todos os corações? Como ia mostrar-se fraca, se era da fortaleza das almas que Pernambuco esperava a salvação?! Não estava diante daquele negro, exemplo de dedicação e de sacrifício? Não estava diante do grande Henrique Dias, que até um braço havia perdido em combate, na defesa de Pernambuco?!
(1) Calvário — monte em que Jesus Cristo foi crucificado.
Por que desanimar, por quê? Por ter perdido um filho na guerra? Mas onde estava o seu brio de brasileira

— O mais velho morreu. Agora vai este. Se morrer, também irá o outro que ainda é menino,
e de pernambucana? Onde estava a dignidade de sua terra? Havia chegado o momento de cada um carregar a pesada cruz de seu Calvário!
Dona Maria sentiu forças para erguer-se.
Henrique Dias ergueu-se também para ampará-la.
— Não é
necessário, disse ela. Aquilo foi um instante
apenas, sinto-me bem agora.
E desapareceu por uma porta.
Momentos depois, voltou. Trazia pela mão um rapazinho de quinze anos. E, encarando Henrique Dias, disse:
— Diga a
Matias de Albuquerque que eu nada mais
tenho que dar à guerra. Os escravos já dei todos. Dinheiro
já não possuo desde o dia que os invasores arruinaram o
meu engenho. Agora só me restam filhos.
E firme, de olhos secos, e voz clara:
— O mais
velho morreu. Agora vai este. Se morrer,
também irá o outro que ainda é menino.
E estendendo o braço para o herói negro:
— Leve-o, que é o que eu tenho!
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