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Resignação de mãe – Antônio Feliciano de Castilho


Resignação de mãe

 

Era uma noite invernosa. Os telhados iam rasos de neve, e

por fora das pousadas, assoprava rijamente o vento. Em uma

eram [1]) então, e em um pequeno aposento, assentadas duas mulhe­res tôdas 3) entregues a seus lavores; uma já de dias 4) e cabelo branqueado, outra nova. E de espaço a espaço a dona anciã aque­cia a um braseirinho as mãos, que as tinha pálidas. Uma candeia de barro alumiava aquela pobre estância e um raio de sua luz ia morrer numa imagem da Mãe de Deus, que na parede estava pen­durada. E a donzela moça, levantando os olhos, os fitou por al­gum espaço na velha sem dizer nada; após o que lhe falou assim:

“Minha mãe, certo que nem sempre vos vistes vós em ta­manho desamparo como êste.”E no seu dizer respirava um afeto e doçura inexplicável.

A dona respondeu:

“Minha filha, Deus é Senhor, quanto [2]) êle faz é por bem.”

Como [3]) isto disse, ficou-se por um pouco calada; e depois volveu a dizer:

“Quando eu perdi vosso pai, não cuidei que de tamanha dor nu houvesse nunca de consolar; e mais ficáveis ainda vós; mas naqueele lance para uma só coisa tinha eu . Entrei depois

a acordar-me [4]) que, se êle fôr vivo e nos visse neste tão grande apuro de miséria, se lhe despedaçaria a alma; e conheci que Deus melara nisto como êle como bom pai.”


 

A moça não respondeu nada, mas baixou a cabeça., e sôbre costura que entre as mãos tinha, vieram de seus olhos caindo Ijjfumas lágrimas, que baldadamente forcejava represar[5]) em si.

A mãe prosseguiu:

“Deus, que para êle foi bom, também foi bom para conosco. Que nos tem a nós faltado, quando outros de tudo carecem? Ver dade é que nos foi mister de nos acostumarmos a viver com pouco- chinho5), e êsse poucochinho ganhado pelo trabalho de nossas mãos; mas não nos chega êle porventura? Não foi desde o prin- cipio geral condenação para todos, sustentarem-se com o suor de seu rosto? Deus em sua bondade nos há dado o pão de cada dia; e não há aí tantos que não o têm? Mercê de Deus6), possuí­mos êste abrigo, e quantos há que não sabem aonde se hão-de re- colher? Por derradeiro, Deus me concede ter-vos a vós, filha mi­nha: de que me posso então lastimar?”

A moça, tôda abalada*) destas últimas palavras, lançou-se em joelhos diante de sua mãe, pegou-lhe as mãos com fervor, co- briu-lhas de muitos beijos, e lhe encostou contra o seio o rosto ba­nhado em lágrimas. E a mãe, esforçando-se por dar à fala, disse: “Filha, no muito possuir não é que anda. posta a j mas sim no esperar e amar muito. Nossa esperança, não' é cá no mundo, nem nosso amor tão pouco; ou se o amor cá se encontra, é só de passagem. Depois de Deus, sois vós, filha, o tudo para mim nesta vida; mas esta vida esvai-se como um sonho; porisso é que o meu aihor para convosco remonta para outro mundo mais durável. Quando vos eu trazia ainda nas minhas entranhas, re­zei um dia com mais fervor à Virgem Santíssima, e ela me apare­ceu por sonhos, e figurou-se-me que, arraiada de um celeste sor­riso, me estava apresentando uma criança. E eu tomei a criança que me ela oferecia, e, como [6]) a tive nos braços, a Virgem Mãe lhe pousou na cabeça uma coroa de rosas brancas. Poucos meses depois nascestes vós, e aquela sua visão; me andava sempre ante os olhos.” ;

Dizendo isto, a dona anciã estremeceu, e apertou ao coração 3) a donzela moça. Passados tempos, viu uma alma justa irerá su­bindo para o céu duas formas luminosas, e uma turba de anjitô as iam [7]) acompanhando, e os ares ressoavam com seus cânticos de alvoroço.

A. F. de Castilho.

 



[1] eram — estavam.

[2] quanto — relativo de tudo; vide a nota 4) à pág. 24.

[3] Como — logo que, é hoje desusado.

[4] acordar-me — lembrar-me, recordar-me; neste sentido é obsoleto.

[5] Ao verbo esforçar-se e outros de significação semelhante, como traballiar, forcejar, lutar, lidar etc. liga-se o infinito precedido de por; portanto deve-se dizer: forcejava por represar.

[6] Como — logo que (pouco usado no português moderno).

[7] O verbo, por silepse, está no plural, estando o sujeito coletivo no singular.

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

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