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Um homem triste de coração – conto curto


Um triste

„ Vereis a um dêstes, quando ainda se conta no número dos vivos, descorado, pálido, macilento, mirrado, as faces sumidas, os olhos encovados, as sobrancelhas caídas[1]), a cabeça derrubada para a terra, e a estatura tôda do corpo encurvada, acanhada, di­minuída. E, se êle se deixasse ver dentro da casa ou sepultura onde vive como encantado, ve-lo-íeis, fugindo da gente e esconden­do-se à luz, fechando as portas aos amigos e as janelas ao sol, com tédio e fastio universal a tudo o que visto, ouvido ou imaginado pode dar gôsto. E êstes efeitos tão desumanos cujos são? a) de que procedem? Sem dúvida da melancolia venenosa e oculta, que a passos apressados leva o triste à morte.

Considerai um cadáver vivo, morto e insensível para o gôsto, vivo e sensitivo para a dor, ferido e lastimado, chagado e lastimo­so, cercado por tôdas as partes de penas, de moléstias, de aflições, de angústias, imaginando todo o mal e não admitindo pensamento de bem, aborrecido de tudo, e muito mais de si mesmo, sem alívio, sem remédio e sem esperança de o ter, nem [2]) ânimo ainda para o desejar: isto é um triste de coração.

A. F. de Castilhos.


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[1] As faces sumidas, os olhos encovados, as sobrancelhas caídas… construção elegante, subentende-se a prepos. com.

[2] nem — e sem.

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

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