Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

Vae Soli! – Crônica machadiana




Crônica Curta de Machado de Assis para “A Gazeta de Notícias”. Coluna A Semana. 1892.

Vae soli!

17 de Julho

Um dia d’esta semana, farto de venda vaes, naufrágios, boatos, mentiras, polemicas, farto de ver como se descompõem os homens, accionistas e directores, importadores e industriaes, farto de mim, de ti, de todos, de um tumulto sem vida, de um silencio sem quietação, peguei de uma pagina de annuncios, e disse commigo:

— Eia, passemos em revista as procuras e offertas, caixeiros desempregados, pianos, magnesias, sabonetes, officiaes de barbeiro, casas para alugar, amas de leite, cobradores, coqueluche, hypothecas, professores, tosses chronicas. ..

E o meu espirito, estendendo e juntando as mãos e os braços, como fazem os nadadores, que cahem do alto, mergulhou por uma columna abaixo. Quando voltou á tona, trazia entre os dedos esta pérola :

"Uma viuva interessante, distincta, de boa familia e independente de meios, deseja encontrar por esposo um homem de meia edade, sério, instruído, e também com meios de vida, que esteja como ella cangado de viver só; resposta por carta ao eseriptorio d’esta folha, com as iniciaes M. R…, annunciando, afim de ser procurada essa carta".

Gentil viuva, eu não sou o homem que procuras, mas desejava ver-te, ou, quando menos, possuir o teu retrato, porque tu não és qualquer pessoa, tu vales alguma cousa mais que o commum das mulheres. Ai de quem está só! dizem as sagradas lettras; mas não foi a religião que te inspirou esse annuncio. Nem motivo theologico, nem metaphysico. Positivo também não, porque o positivismo é infenso ás segundas núpcias. Que foi então, senão a triste, longa e* aborrecida experiência? Não queres amar; estás cançada de viver só.

E a clausula de ser o esposo outro aborrecido, farto de solidão, mostra que tu não queres enganar, nem sacrificar ninguém.

Ficam desde já excluídos os sonhadores, os que amem o mystcrio e procurem justamente esta oceasião de comprar um bilhete na loteria da vida. Que não pedes um dialogo ilr amor, é claro, desde que impões a clau-jula da meia edade, zona em que as paixões arrefecem, onde as flores vão perdendo a rõr purpúrea e o viço eterno. Não ha de ser um naufrago, á espera de uma taboa de salvação, pois que exiges que também possua. E ha de ser instruído, para encher com as luzes do espirito as longas noites do coração, e contar (sem as mãos*presas) u tomada de Constantinopla.

Viuva dos meus peccados, quem és tu, |ue sabes tanto"? O teu annuncio lembra a carta de certo capitão da guarda de Nero. Rico, interessante, aborrecido, como tu, escreveu um dia ao grave Séneca, perguntan-do-lhe como se havia de curar do tédio que iciitia, e explicava-se por figura: "Não é a tempestade que me afflige, é o enjôo do mar". Viuva minha, o que tu queres realmente, não é um marido, é um remédio contra o enjôo. Vês que a travessia ainda é longa — porque a tua edade está entre trinta e dous e trinta e oito annos, — o mar é agitado, o navio joga muito; precisas de um preparado para matar esse mal cruel e indefinivel. Não te contentas com o remedio de Seneca, que era justamente a solidão, "a vida retirada, em que a alma acha todo o seu socego". Tu já provaste esse preparado; não te fez nada. Tentas outro; mas queres menos um companheiro que uma companhia.

Pode ser que a esta hora já tenhas achado o esposo nas condições definidas. Não estás ainda casada, porque é preciso fazer correr os pregões, e tens alguns dias dean-te de ti, para examinar bem o homem. Lembra-te de Xisto V, amiga minha ; não vá elle sahir, em vez de um coração arrimado á bengala, um coração com pernas, e umas pernas com músculos e sangue; não vás tu ouvir, em vez da tomada de Constantinopla, a queda de Margarida nos braços de Fausto. Ha d’esses corações, nevados por cima, como estão agora as serras do Itatiaya e de Itajubá, e contendo em si as lavas que o Etna está cuspindo desde alguns dias.

Mas, se elle te sahir o que queres, que grande premio de loteria ! Junto á amurada do navio, vendo a furia do mar e dos ventos, tu ouvirás muitas cousas sérias. Elie te contará a retirada de uma parte da camara dos deputados, muito menos interessante que a dos Dez Mil, e muito menos hábil. Dir-te-ha que a amnistia foi votada, depois que parte d’aquella parte voltou ás suas cadeiras, para não demorar mais a situação dos que ella defendia; e recitará fabulas de Lafontaine, porque todos os ho mens sérios recitam fabulas, e dir-te-ha com a melopéa natural dos que se não conten-tam com a musica dos versos:

Rien n’est plus dangereux qu’un maladroit ami: Micux vaut un franc ennemi.

E tu, querida incógnita, far-lhe-has ou-tras perguntas, e mais outras, se gosta de espinafres, se já leu o ultimo livro de Zola. Quanto ao livro, a primeira resposta será que não; a segunda será que sim, tiral-o-ha do bolso, e ler-te-lia logo os primeiros capítulos. Como todo homem sério gosta de pomparaçÕes, elle dirá que esses regimentos o corpos de exercito que vão e vêm, sem saber nada, dão idéa de outras campanhas de espiritos, que andam na mesma desorienta-ção ; e que assim como os exércitos francezes levavam comsigo, em 1870, as cartas topo-graphicas da Allemanha, e nenhuma da França, que nem conheciam, assim nós temos andado desde 1840 com as cartas cie Inglaterra, da Bélgica e dos da America, e mal sabemos onde fica Marapicú.

N’este ponto, viuva amiga, é natural que lhe perguntes, a propósito de Inglaterra, como é que se explica a Victoria eleitoral de Gladstone, e a sua próxima subida ao poder. E elle enfiando os dedos pela mais séria das suas duas suissas, responderá que é a cousa mais natural do mundo, e que logo que tenhamos republica parlamentar isto nos ha de acontecer frequentes vezes; que a opposição, como agora na Inglaterra, instará para que a câmara seja dissolvida; que o ministério, receioso de cahir, levará a negar a dissolução, como se deu na Inglaterra; que, alcançada a dissolução, o povo elegerá os opposicionistas, e o ministério irá pedir a demissão ao presidente; finalmente, que assim aconteceu até 1889 com a monarchia, e não ha razão para que aconteça depois de 1889, com a Republica.

E irás por esse modo ouvindo mil cousas sérias e graciosas a um tempo, seguindo com os olhos a fúria dos ventos e o tumulto das ondas, livre do enjôo, como pedia aquelle capitão de Nero, e por differente regimen do que lhe aconselhou o philosopho. E a tua conclusão será como a tua premissa ; em caso de tédio, antes um marido que nada.

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