Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

Essência do mundo e essência da proposição




Essência do mundo e essência da proposição.
por Gilberto Tadeu Garcia Junior

Trabalho feito originalmente para a cadeira de Filosofia dA Lógica – FFLCH - USP, professor Luiz Henrique Lopes dos Santos.

 

     O que é o mundo?

     O mundo é a totalidade dos fatos e não das coisas. O mundo são os fatos no espaço-lógico. Ou seja, as coisas, ou objetos, podem se combinar e formar os fatos. A tal combinação de coisas (objetos), dá o nome de estado de coisas, que nada mais é do que uma ligação entre coisas. O fato é, então, a existência de estados de coisas. Contudo, se uma coisa tem a possibilidade de se combinar com outras, isto é, se ela pode aparecer no estado de coisas, então, essa possibilidade é interna a própria coisa. Segue-se disto que, ao conhecer um objeto (conhecer significa conhecer suas propriedades internas), conhecemos, automaticamente, todas as possibilidades que ele tem de aparecer no estado de coisas. , define a forma do objeto como a possibilidade de seu aparecimento em estados de coisas (aforismo 2.0141). Os objetos por sua vez, constituem a substância do mundo, e só podem determinar sua forma não suas propriedades materiais. Cabe às proposições determinarem estas.

     Figuração

    A existência ou inexistência de estados de coisas, é representada no espaço-lógico pela figuração. Porém, como o mundo são os fatos no espaço-lógico, e os fatos são objetos combinados (estados de coisas), temos que a figuração é um modelo da realidade, pois ela representa no espaço-lógico, justamente a existência ou inexistência de estados de coisas. Isso ficará claro mais adiante.

    A figuração funciona, por analogia, como um espelho, onde aos objetos correspondem aos elementos da figuração, isto é, temos de um lado os objetos e, de outro seu reflexo no espelho, que são os elementos da figuração. Ou seja, ao estabelecermos uma figuração, a ligação entre os seus elementos devem estar representadas da mesma maneira, que a ligação entre os objetos, ou seja, deve haver uma correspondência; a este fato (vinculação de seus elementos), Wittgenstein dá o nome de estrutura da figuração, e à possibilidade desta vinculação, forma da afiguração. Como um estado de coisas é um fato, e a figuração é uma “representação” de estados de coisas no espaço-lógico, então, uma figuração é um fato.     

    Do mesmo modo, que a forma de um objeto é a sua possibilidade de aparecer no estado de coisas, a forma de uma afiguração, é a possibilidade que as coisas estejam concatenadas umas as outras da mesma maneira que os elementos da figuração. Portanto, como na analogia do espelho temos uma correspondência entre objeto e elemento da figuração, temos agora uma nova correspondência, a saber: estado de coisas e forma da afiguração, ou seja, que o estado de coisas, ou como estas se concatenam uma com as outras, esteja representado da mesma forma na figuração. É deste modo que a figuração chega até a realidade. Com isto, torná-se claro, porque foi dito acima que a figuração é um modelo da realidade.

    Ao se estabelecer coordenadas entre as coisas e os seus representantes no espaço-lógico, isto é, e os elementos da figuração, temos uma relação afiguradora. Portanto, fato afigurado e fato figuração mantém algo em comum é a forma afiguradora. Em outras palavras, possibilidade de estar em um estado de coisas (na realidade), e a possibilidade de tal vinculação (na figuração), devem ser idênticas para que um fato seja figuração. Como conseqüência, a afiguração da realidade através de uma figuração se dá pelo fato desta representar uma possibilidade de existência ou inexistência de estados de coisas.
Outra coisa a ser dita a respeito das figurações, é que elas representam situações possíveis no espaço-lógico. E o que ela representa é o seu sentido. Segue-se disto que, quando seu sentido concorda com a realidade, ela é verdadeira, caso contrário é falsa.

    Pensamentos e Proposições 

    Os pensamentos são figurações lógicas dos fatos. A totalidade dos pensamentos verdadeiros são uma figuração do mundo. Ou seja, se tomarmos a totalidade das figurações positivas, isto é verdadeiras, teremos a totalidade dos fatos que é o mundo. Portanto, a totalidade dos pensamentos verdadeiros são uma figuração do mundo.

   A proposição é uma expressão sensível e perceptível do pensamento, ou seja, o pensamento se exprime, na proposição, sensível e perceptivelmente. Por sua vez, fazemos usos dos sinais sensíveis e perceptíveis da proposição como projeção da situação possível. Wittgenstein chama o sinal que expressa o pensamento de sinal proposicional e, a sua relação projetiva com o mundo é a proposição.

    No aforismo 3.14, nos é dito que o sinal proposicional consiste em que seus elementos, nele estão, uns para os outros, de uma determinada maneira. Como vimos acima, esta relação dos objetos de estarem de uma determinada maneira, é exatamente a possibilidade dos objetos em estarem em estados de coisas. E ao entrarem em estados de coisas ele se consituem um fato. Segue-se disso que o sinal proposicional é um fato. Contudo, os elementos do sinal proposicional são nomes, os quais Wittgenstein chama de sinais simples. Assim, a configuração dos nomes (sinais simples) no sinal proposicional corresponde a configuração dos objetos na situação. Ou seja, do mesmo modo que vimos que, os elementos de uma figuração substiuem os objetos da realidade na figuração, os nomes são os substitutos dos objetos no sinal proposicional. Mas, como os objetos são os constituintes mais simples da realidade, e os nomes são, por assim dizer, representantes destes, segue-se que não se pode decompor os nomes em coisas mais simples.
Do conceito de figuração, podemos concluir que: o espaço lógico e o geométrico coincidem no fato de ambos serem a possibilidade de uma existência. Continuando no conceito de figuração, que, como vimos, é um “espelho” da realidade, da mesma forma o é a proposição, na verdade, a proposição é uma figuração da realidade, ou seja, todos os constituintes do mundo (objetos, estados de coisas, possibilidade de estar no estado de coisas) tem um representante, tanto na figuração como na proposição, isto é, do mesmo modo que estabelecemos a figuração como um modelo da realidade, podemos, da mesma maneira, estabelecer a proposição com um modelo da realidade tal como a pensamos.

    A proposição, como dissemos, é, então, uma figuração da realidade. Sendo assim, a proposição mostra como as coisas estão, se for verdadeira, e dessa forma, a realidade, por meio dela, deve ficar restrita a um sim ou não. Como, a proposição nos comunica uma situação, ela deve estar essencialmente vinculada a situação, já que a descreve a realidade pelas das propriedades internas que está possui. Desta maneira, podemos comparar a realidade com a proposição.

    Como as figurações representam as possibilidades de estados de coisas, e a totalidade destes estados de coisas (fatos) são a realidade, e como as proposições, do mesmo que as figurações, também, representam tais possibilidades – como fica claro ao fazermos uma analogia com o conceito de figuração -, podemos concluir que as proposições representam a realidade e podem representar, toda a realidade.

    Conclusão

     No aforismo 5.4711, Wittgenstein diz: “Especificar a essência da proposição significa especificar a essência de toda descrição e, portanto, a essência do mundo”.

    Ora, Wittgenstein mostrou que para descrevermos o mundo, precisamos da noção de figuração, a qual já mostramos que estabelece um vínculo com o mundo. Porém esse vínculo é tal, que ele representa a essência do mundo (a sua forma, a sua bipolaridade), ou seja, as figurações não descrevem o mundo através de um acesso direto a este, mas sim, através da delimitação do espaço-lógico a partir da possibilidade de seus elementos estarem em estados de coisas. 

    Do mesmo modo que ao especificarmos a essência da figuração acabamos por especificar a essência do mundo, podemos agora, analogamente, fazer o mesmo com a proposição.

    Se os sinais proposicionais são os sinais que expressam pensamentos e a proposição é o sinal proposicional em sua relação projetiva com o mundo. Podemos concluir, do fato de que os sinais proposicionais são compostos da mesma forma que a realidade, isto é, de constituintes simples que possuem possibilidades. Na realidade estes constituintes são os objetos, no sinal proposicional são os nomes. A proposição, da mesma forma que a figuração, se torna uma projeção da situação possível.

    E nessa medida, como há um estabelecimento entre os elementos da proposição e os elementos da realidade, os quais fizemos um espelhamento fiel um do outro, seja através da figuração, ou da projeção (que entendo como sendo, uma figuração da proposição), se torna claro, que ao especificarmos a essência da proposição, que é sua forma, especificaremos a essência do mundo (sua forma). Mas isso só é possível porque a proposição é uma projeção de situações possíveis.

    Bibliografia:
    •Wittgenstein, L. – Tractatus Logico-Philosophicus, Edusp, 3º edição – 2001

 

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