A demonstração da imortalidade da Alma no Fédon de Platão

Platão – Fédon

Págs. 77 – 87

§69-e 77-d

PRIMEIRA DEMONSTRAÇÃO SOBRE A IMORTALIDADE DA ALMA.

(Argumento da Reminiscência – Teoria dos Contrários)

Paulo Ignacio

Como havia sido demonstrado na primeira parte do diálogo, Sócrates acreditava que em vida, tendo se dedicado às coisas do espírito e ignorado as vulgaridades referentes ao corpo havia assim reservado para si um bom lugar no Hades.

Lembremos da mitologia grega, onde Hades era o rei do mundo das sombras, aquele que dominava o mundo subterrâneo para onde se dirigiam as almas dos mortos quando estas separavam-se dos corpos. Hades é a figura de um deus, irmão de Zeus e Poseidón, que juntamente com eles ajudou a destronar o poder absoluto do pai, Cronos. Dividiram entre si o domínio do mundo: A Zeus coube o reino dos céus e da terra, a Poseidón todos os mares e Hades, as profundezas terrestres.

Ao se separarem dos corpos, as almas, ao chegarem ao Hades, ainda seriam julgadas, sendo as piores delas destinadas a vagar pelo Tártaro (o pior lugar do Hades), e as boas almas destinadas aos Campos Elíseos, “lugar de temperatura amena, suaves brisas e constante felicidade”. (Coleção Mitologia Grega – Volume Primeiro – Abril Cultural, 2ª Ed.,1976).

Aqueles que realmente acreditassem nesse mito deveriam dedicar suas vidas aos deuses (seus senhores, seus donos), e preocupavam-se em sempre agradá-los para ocuparem um bom lugar no Hades após a morte.

A SOBREVIVÊNCIA DA ALMA

(Quando Sócrates procura demonstrar a existência da alma antes do nascimento do corpo).

Sócrates parte do princípio mitológico para demonstrar a Cebes e Símias que as almas já existem e possuem uma consciência antes do nascimento, pois durante a vida somos impelidos ao aprendizado, mas há noções universais as quais não se pode ensinar, mas que sabemos e já nascemos com elas, como por exemplo o belo.

  1. Cebes questiona Sócrates, dizendo que a imortalidade da alma pode ser apenas uma “opinião” dele, já que não pode ser demonstrada. Ele afirma que a alma pode padecer juntamente com a morte do corpo, pois assim como há o PNEUMA (designação dos gregos para explicar a existência de um “sopro de vida”, algo que deu origem à vida, por exemplo, quando algo está para nascer, vêm o pneuma e lhe dá vida, é como um espírito), pode existir um Pneuma para designar um “sopro de morte”. Pois afirmar que acontece o PNEUMA é o mesmo que afirmar que nada havia antes desse sopro, isso implica em dizer que não havia vida antes do nascimento, e consequentemente, não haverá vida após a morte. Ele pede então para que Sócrates procure demonstrar como a alma em si mesma, no estado puro (ou seja, não misturada ao corpo), ainda manteria a capacidade de pensar, a consciência, já que Sócrates havia afirmado que a alma iria para um bom lugar (noção de bom ou ruim pressupõe consciência), e já que a consciência nós utilizamos com o auxílio dos sentidos.

OS CONTRÁRIOS

Durante a antiguidade grega, havia uma forte crença nos mitos, que em relação à morte implicavam em afirmar que as almas que se separavam dos corpos encaminhavam-se diretamente ao Hades. Havia também a crença de que essas almas renasciam depois no mundo dos vivos, e ao morrer voltavam para o Hades, e assim sucessivamente.

Sócrates vai partir deste princípio como argumento inicial, explicando que, se as almas dos vivos nasceram das almas dos mortos, elas terão necessariamente que retornarem para o lugar de onde vieram.

O nascimento de todas as coisas da natureza surge através de seus contrários. O maior existe porque temos a noção do menor para comparar. A força contrária que separa o maior e o menor é a força ordenadora, já que se ela não existisse, maior e menor seriam uma só coisa e tudo seria assim, um emaranhado de coisas, seria o caos já descrito por Hesíodo na Teogonia*. Assim, para que exista o quente, é necessário o frio, para que exista o justo, é necessário o injusto, e esse é o princípio geral de toda a geração.

*Conhecida como a Genealogia Dos Deuses, foi escrita em cerca do séc. VIII aC.

Anaxímenes, no Séc. V aC já havia pensado uma teoria do nascimento através da geração dos contrários, pensou uma força maior que separava as coisas, dando origem à dupla geração. Ele dizia que tudo era ar, já que o PNEUMA era o sopro inicial da vida espiritual. Questionava também se o ilimitado poderia de alguma forma ser físico.

Sócrates, em seu argumento, diz que há, em todos os casos, uma dupla geração.

§ 71-b

“-E agora dize-me, além disso, não ocorre com essas coisas mais ou menos o seguinte: entre um e outro contrário não há, em todos os casos, uma vez que são dois, uma dupla geração, uma que vai de um desses contrários ao seu oposto, enquanto outra, inversamente, vai do segundo para o primeiro? Observemos, com efeito, uma coisa maior e uma coisa menor: não há entre as duas crescimento e decrescimento, o que permite afirmar, de uma, que ela cresce, e de outra, que ela decresce?” “Há, em todos os casos, essa mesma necessidade, tanto de engendrar-se mutuamente como de admitir em cada termo uma geração dirigida para o outro”.

Partindo do pressuposto de que a teoria da força dos contrários se aplica a tudo o que nasce na natureza, também poder-se-ia dizer que há o contrário de viver, que é estar morto. O que daria origem à vida seria o seu contrário, a morte. Ou seja, para Sócrates, estar morto provém de estar vivo, e ESTAR VIVO PROVÉM DE ESTAR MORTO. Esses dois estados, vida e morte, se engendram um ao outro. É a dupla geração da teoria dos contrários.

Portanto, se a morte dá origem à vida, ela existe no Hades, e sendo o contrário de morrer estar vivo, então morte implica em re-viver, que é a geração dos mortos para os vivos, ou seja, se há um lugar para os vivos, deve haver também um lugar para sua força contrária, os mortos.

Assim mesmo, Sócrates admite a possibilidade da não-compensação da teoria dos contrários, já que no argumento ele partiu desse princípio.

Se não existisse a compensação da teoria dos contrários, tudo seria uma só coisa, um caos, já que não haveria uma força contrária para separar as coisas. A separação através da força dos contrários é a ORDENAÇÃO DO CAOS.

Platão remete aqui ao pré-socrático Anaxágoras, que no séc. IV aC. Afirmava: “No princípio do mundo todas as moléculas formavam uma mistura desordenada, um caos no qual o Espírito (nous) introduziu ordem”.

(Nous então seria o nome dessa força que separa os contrários, e que dá origem a tudo).

Anaxágoras afirmava então que o nascimento das coisas é a mistura ordenada, e a morte a separação dessa mistura. Segundo ele, havia as homeomerias, que eram os originários qualitativos de cada mistura, por exemplo, se dividíssemos o ouro em infinitas partes, encontraríamos em alguma dessas partes o indivisível originário qualitativo. Isso era difícil de provar, já que, por mais que se divida o ouro em inúmeras partes, ele continuará sendo um pedaço do ouro, e ouro continua sendo a mistura de outros elementos da natureza.

Sócrates então vai prosseguir com a defesa da sobrevivência da alma: se tudo o que é ordem no mundo dos vivos voltasse para o caos, se não existisse um lugar também ordenado para a morte, então morrer significaria perder tudo o que há, o que não explicaria o renascimento de tantas coisas na natureza. Com isto, ele procura demonstrar a veracidade da teoria dos contrários.

Cebes o compreende, e tenta reduzir a argumentação do Sócrates a uma única frase do Menão, que diz que “APRENDER É RECORDAR”. Cebes quis dizer que aprender é recordar do que já se sabia antes de nascer.

Por exemplo, se um homem aprende algo hoje, amanhã, se questionado, ele saberá responder, portanto a rememoração é o objeto do conhecimento.

Sócrates desenvolverá melhor este argumento, pois ainda que seja verdadeiro, não prova a existência do saber antes do nascimento.

Para recordar, é preciso antes conhecer, saber. Em determinadas circunstâncias, o saber é uma rememoração:

§73-c: “Se vemos ou ouvimos alguma coisa, ou se experimentamos não importa que outra espécie de sensação, não é somente a coisa em questão que conhecemos, mas temos também a imagem de uma outra coisa, que não é objeto do mesmo saber, mas de outro”. Para recordarmos algum objeto que conhecemos, nos valemos de outros objetos, que podem ser semelhantes àquele ao qual queremos recordar, ou dessemelhantes.

Por exemplo, uma vestimenta pode lembrar uma pessoa. Um pedaço de tecido nada tem a ver com o ser humano, mas podemos utilizar esse meio para recordar.

Assim podemos dizer que o ponto de partida da recordação pode ser tanto algo semelhante ao objeto recordado, como algo dessemelhante.

Quanto à utilização do semelhante para recordarmos, Sócrates faz uso do argumento do IGUAL EM SI MESMO. São os conceitos universais. Por exemplo, sabemos que há diferentes tipos de pedras, de tamanhos e formas diferentes, mas sabemos o que é pedra, e o conceito universal que caracteriza a todas como pedras. Esses conceitos universais, podemos chamá-los de IGUAL EM SI MESMO. As pedras possuem diferentes características que não são necessariamente o igual em si, mas que nos permitem identificá-lo.

Porém, independentemente da utilização do semelhante ou dessemelhante para associações do conhecer, sabemos que o resultado final, a produção dessas associações é a recordação.

§ 74-d: “(…) Desde que, vendo uma coisa, a visão desta faz com que penses numa outra, desde então, quer haja semelhança ou dessemelhança, necessariamente o que se produz é uma recordação”.

Há neste parágrafo uma nota do tradutor, onde implica uma alusão de Platão ao diálogo Fedro*, que diz: “as idéias eternas são o verdadeiro, os objetos materiais não passam de imitações insuficientes daquelas. As almas, antes de entrar nos corpos, contemplaram as idéias eternas, e a percepção sensível dos objetos materiais lhes desperta uma recordação dessas idéias”. (Teoria da Reminiscência).

(*Diálogo entre Sócrates e Fedro sobre a Retórica, ou melhor, sobre a genuína arte de falar, que se deve basear na filosofia).

Sócrates prossegue afirmando que para conhecermos, temos que comparar objetos, e que a comparação entre os objetos através das associações pressupõe que tenhamos o conhecimento de outros objetos, ainda que inferiores.

§ 76-a: “É possível, com efeito – e assim pelo menos me pareceu – que ao percebermos uma coisa pela vista, pelo ouvido ou por qualquer outro sentido, essa coisa nos permita pensarmos num outro ser que tínhamos esquecido, e do qual se aproximava a primeira, seja ela semelhante ou não”.

Para conhecer verdadeiramente o IGUAL EM SI MESMO, é preciso que tenhamos adquirido antes de nascer o conhecimento das noções universais, ou seja, conhecemos o igual em si antes de estarmos dotados de sentidos, portanto, é o IGUAL EM SI MESMO EM ESTADO PURO. Esse conhecimento das coisas verdadeiras e puras, sem a utilização dos sentidos (que nos tornam impuros) é o que Sócrates chama de realidade.

Ou seja, só é possível conhecer as coisas verdadeiras sem os sentidos, ou sem a mistura da alma com o corpo, é necessário a alma no estado puro para o saber verdadeiro.

Ora, o saber é o desejo de todo o filósofo, o saber verdadeiro, portanto Sócrates deseja libertar-se do seu corpo o quanto antes para tomar posse desse conhecimento. Assim ele demonstra que existe a consciência das almas antes da morte, pois, uma vez tendo adquirido o conhecimento do IGUAL EM SI MESMO, e uma vez que jamais nos esquecemos dessas noções, é provável que já tenhamos nascido com elas.

Podemos supor que ao nascer, nos esquecemos das noções do IGUAL EM SI, mas que, com o auxilia dos nossos sentidos, ainda que impuros, nos lembremos dele, e nisso consiste o aprendizado, e daí a importância da frase “APRENDER É RECORDAR”.

Dessa forma, instruir-se significa reaver o conhecimento que já nos pertencia.

Para provar a veracidade de seu argumento à Símias, Sócrates admite duas possibilidades:

  1. Adquirimos o saber inteiro do IGUAL EM SI ao nascermos.
  2. Nos recordamos do IGUAL EM SI que já conhecíamos antes de nascer.

Se adquiríssemos esse conhecimento ao nascer, então quando é que os perdemos? Pois somos impelidos durante a vida ao aprendizado, o que significaria que teríamos perdido o conhecimento adquirido logo ao nascer.

A não-existência da alma consciente antes do nascimento implicaria necessariamente na não-existência da vida, porque a vida consiste em aprendizado, que é a conscientização através dos sentidos. E a necessidade do aprendizado provêm do conhecimento das almas antes de nascer.

Por exemplo, ao aprender algo, nós sentimos a necessidade de nos recordarmos depois do que foi aprendido.

Conceitos universais como o belo, bom, etc. possuem o mais alto grau de existência e pureza, tendo adquirido esses conceitos, as almas também possuem um alto grau de existência. Somente elas, em estado puro (não misturadas ao corpo e não dotadas de sentidos) podem conhecer esses conceitos verdadeiramente.

Sócrates, até agora, demonstrou que as almas existem antes do nascimento, e que são dotadas de consciência.

Na seqüência, ele demonstrará que as almas existem não somente antes do nascimento do corpo, como também após a morte deste, que consiste na SEGUNDA DEMONSTRAÇÃO SOBRE A IMORTALIDADE DA ALMA, na qual ele começa seu argumento partindo do mesmo princípio da teoria dos contrários, como havia feito na primeira demonstração.

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