De teístas, idólatras e ateus

De teístas, idólatras e ateus

Do ser e do nada

De teístas, idólatras e ateus

Nelson Castelo Branco Eulálio Filho(*)

“Símile à das folhas, a geração dos homens: o vento faz cair as folhas sobre a terra. Verdecendo, a selva enfolha outras mais, vinda a primavera. Assim, a linhagem dos homens: nascem e perecem”. (Homero, Ilíada – I, VI – 145-150 – Tradução de Haroldo de Campos).

A vida – toda vida – já trás em si mesma o germe de sua morte. É necessária a morte da semente para que nasça o broto que é a continuação da vida – da mesma vida – em outra forma. Por sua vez, a longa transformação do broto em árvore não é mais que uma seqüência de “mortes” e “nascimentos”, isto é, de momentos onde o imediatamente antes “morre” para dar lugar ao imediatamente depois numa constante passagem de um passado que já não existe mais, para um futuro que ainda não existe, mediado pelo presente, este “instante fugidio” que está sempre se transformando em passado. Pois “não se julgue que aquilo que é futuro já possui existência, ou que o passado subsiste ainda” como diz Santo Agostinho no Livro XI de suas Confissões. Ambos (passado e futuro) só existem de fato enquanto “estado” de presente. Fugidio, pois “se fosse sempre presente e não passasse para o pretérito, já não seria tempo, mas eternidade”, como diz o Santo citado. Trata-se de uma questão de movimento como bem percebeu o velho Aristóteles com seus conceitos de ato e potência – a árvore é a semente “em ato” e a semente é a árvore “em potência”. Nascer, crescer, perecer; ser, deixar de ser, ser novamente, é o sentido (cíclico) desse movimento – das estrelas às amebas.

Os homens – cada homem e cada mulher – são apenas centelhas que “piscam”, isto é acendem e apagam no eterno movimento que vem do Ser – ou, se se preferir, de Deus. Para exemplificar esse eterno vir-a-ser, essa eterna transformação das coisas, essa “não permanência”, o filósofo grego pré-socrático Heráclito de Éfeso (século VI a.C.) dizia que “ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”, pois entre uma imersão e outra “nem as águas são as mesmas nem o homem [que mergulha] é o mesmo”. É necessário admitir o efêmero (relativo) que tudo perpassa. Uma estrela tem um ciclo de existência de bilhões de anos; um carvalho chega fácil aos 500 anos e uma tartaruga pode viver 200 anos; o homem, em torno de 80 anos; uma pulga nasce, cresce, reproduz-se e morre em torno de 9 dias. Entretanto o Ser, de onde tudo provém, não tem tempo – é eterno. Incriado, não nasce nem perece. É sempre.

O próprio conceito de monoteísmo exprime um “salto” conceitual enorme no desenvolvimento da consciência humana em busca de suas origens. Percebeu-se que a pluralidade de deuses, própria dos politeísmos, não condizia com a Razão universal (a lógica universal) que nos obriga a admitir a unicidade que abarca e determina a pluralidade das coisas no eterno movimento do Ser – do mesmo e único Ser.

O Ser (em oposição a nada) não teve início e não terá fim. Daí o alerta do professor Roland Corbisier ao nos perguntar: “Como compreender a criação do mundo a partir do nada, ex-nihilo, conforme está dito no Gênesis? Se Deus é tudo, plenitude do ser, como poderia acrescentar a si mesmo o universo, dele permanecendo distinto? Se Deus não se confunde com o universo, deixa de ser a plenitude do ser, porque lhe ficaria faltando, para ser pleno, o universo por ele criado”. (Introdução à Filosofia – Tomo II, Parte Terceira).

Apenas enquanto encapsulados nas respectivas palavras, isto é, enquanto aprisionados na representação gráfica ou fonética, alguns conceitos podem ser pensados como remetendo a “coisas”. É assim por ex. com os conceitos de “ser” e “nada”. A infinita abertura do primeiro e a impossibilidade lógica do segundo negam essa pretensão. Aquele, pela impossibilidade de uma delimitação; e este de uma concretização. Mas as palavras são às vezes tão enganosas que chegam a ponto de nomear o que não existe – o que não é. É assim, por exemplo, com a palavra “nada”. O conceito de nada remete a um hipotético estado de não ser e a uma também hipotética ausência de ser. Mas quando cristalizado na palavra “nada” parece referir-se a um “existente” – o nada. Da mesma forma, o conceito de “Ser” fica de tal forma cristalizado na palavra ser que cristaliza também aquilo a que se refere. Assim, o Ser, que é abertura infinita, reportado por essa palavra “ser” cristaliza-se num “o ser” aparecendo dessa forma como se fora um recorte da realidade representado pela partícula delimitadora “o” e assim, enquanto recorte, nega aquilo mesmo que pretende afirmar, a saber, a totalidade ilimitada que é intrínseca ao conceito de Ser.

Transportada para a teologia, uma situação análoga ocorre com o vulgo religioso relativamente a Deus. O conceito de Deus, o Theos grego – assim como o de Ser ou Natureza (cosmologia), que na minha visão panteísta são sinônimos – remete exatamente a uma situação de abertura infinita, eterna, absoluta e, enquanto tal, incognoscível, pois conhecer é delimitar e delimitar é negar a abertura infinita, eterna, absoluta. Nessa armadilha conceitual o “teísta” que ama Deus, que conhece Deus, que O trata por “Ele”, “Ser Superior” (o que pressupõe um Ser Inferior e nega a absolutidade que é um atributo de Deus), etc., que O qualifica: Deus é amor, Deus é vida, Deus é sei lá o quê, chegando ao limite do absurdo lógico ao colocar em plásticos nos carros que “Deus é fiel”, na verdade, pensando ser teísta é apenas um idólatra e, portanto, verdadeiramente um ateu ou, no máximo, um adorador de um deus muito limitado o que já é em si mesmo uma contradição nos termos.

Para início de conversa, Deus não é uma “coisa”. E também não é uma pessoa (um ego, uma personalidade). Fazê-Lo tal é antropormifizá-Lo, isto é, dar-Lhe forma humana. Esse espelhamento, que é uma redução de Deus a um reflexo ampliado do próprio homem, já havia sido denunciado por Xenófanes, (século VI a.C.) relativamente aos deuses das obras de Homero e Hesíodo, que eram próprios da religião pública e do homem grego em geral. Denunciou o antropomorfismo dos deuses mitológicos dizendo que “se os bois, os cavalos, os leões tivessem mãos e pudessem pintar como os homens, os cavalos pintariam figuras de deuses semelhantes aos cavalos, os bois semelhantes aos bois, em suma imagens análogas às de todas as espécies animais”. E diz ainda: “Os Etíopes dizem de seus deuses que têm nariz chato e são negros; os Trácios dizem de seus deuses que têm olhos azuis e cabelos vermelhos”. Para Xenófanes Deus é um “Deus-cosmos” que “tudo vê, tudo pensa, tudo ouve [e que] sem esforço, com a força de sua mente, tudo faz vibrar”. Em resumo: o ver, o ouvir, o pensar e a onipotente força que faz tudo vibrar são atribuídos a Deus, não numa dimensão humana e sim numa dimensão cosmológica. (G. Reale e D. Antiseri. História da Filosofia Vol. I. São Paulo: PAULUS, 1990, pág. 47/49). Dizia também Xenófanes que o princípio, a essência absoluta, não é de natureza sensível como sustentavam os milesianos [a Escola de Mileto], nem quantitativa e numérica como supunham os pitagóricos. O princípio é um puro inteligível – a unidade simples, igual a ela própria. [Em sentido oposto ao pensamento de Heráclito], dizia também que o movimento, a mudança, a geração e a corrupção são contraditórios, irracionais, mera ilusão dos sentidos, O racional, o real, é o Uno que “permanece sempre sem mover-se, no mesmo lugar, pois não lhe convém passar de um lugar para outro” (Roland Corbisier. Introdução à Filosofia – Tomo II, Parte Primeira. Ed. Civilização Brasileira: 1984 pág. 61).

É doloroso constatar que, para uma enorme parcela da população de nossos dias, em relação aos deuses tudo permanece como denunciado por Xenófanes há mais de 2.500 anos. Assim é que o vulgo de nossos tempos, que não consegue pensar Deus em abstrato, também não pode compreender a sutileza da alegoria bíblica do Jardim do Éden, isto é, não consegue entender que “o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal” que Adão e Eva não podiam “comer” não é outra coisa que a simples significação alegórica da emergência da consciência, isto é, a explicação alegórica do salto ontológico que foi a passagem do hominídeo ao Homem, poeticamente referido no Gênese bíblico. Afinal, o que é o “conhecimento do bem e do mal” senão a consciência? Da mesma forma não compreende a impossibilidade lógica de Deus se fazer presente (como indivíduo) a Moisés sobre a “sarça ardente” no Monte Sinai, sob pena de (por uma questão de coerência interna do conceito de absoluto, um atributo de Deus) imediatamente deixarem de existir enquanto referenciais o monte, a sarça, o deserto e o próprio Moisés. Ora, Deus não é um “outro” do homem, mas sim a totalidade que tudo abarca, que tudo é. Da mesma forma que não é possível Deus “andando” no Jardim do Éden, “falando” com Adão e Eva… Mas o idólatra, coitado, que se pretende teísta, não percebe que no momento mesmo em que “afirma” Deus, individualizando-O (na vida, no amor, etc), conhecendo-O (numa intimidade despropositada), e mesmo amando-O (Como se Deus precisasse do amor dos homens…), tornando-O, portanto, como objeto (de amor), como coisa ou como “outro”, na verdade está negando-O. Da mesma forma que O nega da forma mais vil quando na intimidade do travesseiro, no correr de suas “preces”, barganha com Deus: “Concedei-me tal e tal graça, afinal eu o amo e creio em Ti Senhor”, arrematando, numa cumplicidade indecente com Deus: “… e fulmina o meu inimigo!”.

“Ser” e “não-ser” são conceitos (não são coisas) e enquanto tais sujeitos à relatividade a que todo o nosso conhecimento está limitado. No caso do Ser justamente pela impossibilidade lógico-ontológica de uma totalização absoluta, pois um abarcamento total do Ser (pelo pensamento, pelo intelecto, pela linguagem ou pelo mais que se quiser) pressupõe sempre: de um lado o abarcamento do infinito espacial e, de outro lado, o abarcamento temporal do passado do presente e do futuro. O Ser não tem começo e não tem fim – espacial e temporalmente – é eterno e infinito. O que impõe a necessidade de pensar a partir de duas vertentes: tempo e eternidade. O Ser somente tem um passado e um futuro a partir da perspectiva de um ente temporal e histórico que tem a si mesmo como referencial, a saber, o ser humano. Mas numa macro-perspectiva, numa “perspectiva da eternidade” como diria Espinosa, impõe-se a necessidade de pensar a eternidade e a infinitude; embora não seja possível pensá-las em suas “totalidades”. Somente o eterno “percebe” o eterno; somente o infinito “percebe” o infinito. Eternidade (temporal) e infinitude (espacial) são próprias do Ser, isto é, (numa linguagem teológica), de Deus e, portanto, somente Ele pode perceber – melhor, pode ser – ambos.

De outra parte, “o nada” (o não-ser) tem uma “existência” meramente lógica, isto é, somente pode ser considerado enquanto possibilidade de se pensar um “outro” do Ser; somente é pensável como “negativo” do ser. Assim, “o nada” é um “outro” meramente lógico no sentido de o ser ter sentido – e não um existente enquanto tal. O nada não é uma “coisa” que possa ser pensada, isto é, representada enquanto tal; o que pode ser pensado é o conceito de “nada” que, entretanto, não implica um “existente” equivalente. Dito de outra forma: a existência do conceito não implica, necessariamente, a existência, empírica, daquilo a que [o conceito] se refere. Há uma diferença entre pensar “o” nada (o que é impossível) e pensar a “hipótese” de um [estado de] nada. A partícula “o” implica necessariamente o existente ao qual ela remete na medida em que implica uma particularização da realidade. Você pode dizer “o” sol, “o” ar, “o” mar, e até mesmo “o” existente, “o” real – entendidos os três primeiros como recortes da realidade e os dois últimos como totalidades – mas sempre “o” alguma coisa. Agora, pensar “o” nada é impossível na medida em que o “objeto” ao qual a partícula “o” se refere não existe, não é. Aqui o que existe e que dá sentido à partícula “o” é meramente o conceito que somente é um “existente” precisamente enquanto conceito. Neste caso, a partícula “o” somente pode se referir ao conceito e não à coisa.

Voltando ao existente: se o ser tem “muitas moradas” como querem alguns, não existe uma não-morada do ser no sentido de ausência do ser num determinado espaço (morada) pelo motivo lógico de que o próprio espaço onde o ser não estaria já é ser: precisamente o ser “espaço vazio” (não-morada) o que já implica uma contradição de termos, pois o próprio espaço – embora “vazio” – é também ser e, portanto, não pode haver um espaço vazio no sentido de uma ausência de ser (naquele espaço), pela simples razão que o próprio espaço onde o ser não estaria é ainda ser. Afinal, “ausência” de ser implica ausência de espaço e como já vimos, ausência de ser é nada e o nada não existe.

Saindo do “materialismo” e adentrando (ou permanecendo no) o horizonte da metafísica podemos transpor os mesmos argumentos para a “questão” de Deus. O que quero dizer é que embora o conceito de Deus, pela sua própria estrutura interna remeta ao absoluto, os graus de consciência relativisam-no. Para a criança (dos 5 aos 50 anos) Deus é um (super) homem, velho, sábio, de barbas brancas, que mora no céu e manda no mundo. De outro parte, quando o crente “adulto” pensa Deus – mesmo que seja como um ser superior coisifica-O. E coisifica-O precisamente como “ser superior”; ficando implícita a existência de outros seres (inferiores) o que, como já vimos, acarreta o problema de dar um estatuto ontológico aos tais seres inferiores o que, novamente, cria problemas para o atributo da absolutidade de Deus. A alternativa seria fazê-los criaturas do ser superior; e como “superior” e “inferior” têm, nesse discurso religioso, a conotação, implícita, de graus de perfeição, torna-se uma alternativa absurda e contraditória e adentraríamos aqui na velha aporia de o Bem gerar o Mal. Ora, o conceito de Deus remete exatamente a uma realidade “absoluta” onde não cabem quaisquer vestígios de realidade que não estejam incluídos na realidade absoluta de Deus. Assim, o conceito de Deus remete, em sua essência, ao absoluto, inefável, indefinível, inabarcável… E assim, aqueles que se pensam teístas, no momento mesmo em que argumentam sobre o seu pretenso teísmo se revelam ateus, pois pensam um [conceito de] Deus limitado à sua própria consciência. E também não devemos esquecer que o próprio (conceito de) Deus tem seus limites, como ocorre, por exemplo, com o atributo da onipotência. Há pelo menos uma coisa que o próprio Deus, do alto de Sua onipotência não pode fazer, a saber, deixar de existir; não ser. Seria algo com um Fiat lux ao contrário… Deus não pode (nem que queira) se suicidar. Até porque uma situação hipotética como essa redundaria num “absoluto nada” que, como demonstramos exaustivamente, não “existe” e não é possível “existir”.

(*) Graduado e Mestre em Filosofia.

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