As mudanças com a transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro e os movimentos nacionais



Gottfried Heinrich Handelmann (1827 – 1891)

História do Brasil

Traduzido pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (IHGB) Publicador pelo MEC, primeiro lançamento em 1931.

TOMO II

 

CAPÍTULO XIII

A colônia e o reino absoluto (continuação)

 

* * *

Com isso ficava inteiramente sepultado o velho passado colonial; entre Portugal e Brasil não podia daí em diante ser mais questão das relações de Estado-filho com a mãe-pátria: agora eram dois reinos irmãos com igualdade de direitos!

Ao mesmo tempo, foi o Brasil reorganizado interiormente; até aqui, enquanto o ponto central do Estado era no exterior, em Lisboa, apenas havia unidade geográfica, formada de províncias estranhas entre si; agora porém fundiam-se estas províncias numa unidade política e achava-se o ponto central natural do Estado na própria capital do país, Rio de Janeiro, onde residiam o rei, a corte e o gabinete. Em suma, estava consumada a organização política do Brasil como reino autônomo, e a ligação política existente com Portugal não significava mais que uma união pessoal indissolúvel, sob um monarca absoluto.

Além das providências que acabamos de relatar, de significação histórica extraordinária, trouxeram a transmigração da família real portuguesa e a emancipação política do Brasil ainda muitas importantes inovações; em todos os ramos de serviços do Estado houve criações novas e ampliações do que existia; instituições de toda espécie, que até então faltavam ao país, foram adotadas; mencionamos aqui somente a primeira imprensa real e a primeira fábrica de pólvora, ambas organizadas a 13 de maio de 1808, e o Banco Nacional do Brasil, a 12 de outubro de 1808, todos no Rio de Janeiro; também ali a Academia Militar, a 4 de dezembro de 1810, a Biblioteca Nacional, inaugurada em 1814, e outros estabelecimentos de ensino, etc.; finalmente, procurou o governo estimular de muitos modos também a navegação, o comércio e a indústria, e, sobretudo, a agricultura e colonização do país.

Temos que desistir de fazer aqui enumeração minuciosa; o que aconteceu, nesse sentido, já foi citado no lugar competente, na história individual da colonização das províncias (seção II); todavia, podemos, em geral, notar que os resultados foram, em todos os sentidos, medíocres, como não podia ser de outro modo com os meios existentes; num império tão colossal não se podia num momento criar nada de especial. Sem embargo, fez-se muito alarde com o que se empreendeu, como se se houvessem alcançado as maiores coisas.

"O governo de então, — assim informa o coronel engenheiro real português e superintendente das minas W. L. von Eschwege, que, de 1810 a 1821, funcionou no Brasil, e as suas definições podem aplicar-se a tempos posteriores, — facilmente tomava o feitio do brasileiro, o modo de falar em hipérbole; tudo no Brasil devia ser grande, a natureza devia ser diferente, mais gigantesca e mais maravilhosa do que nos outros países. Fábricas, estradas de arte, navegabilidade dos rios, civilização dos índios, tudo, segundo os relatórios, surgia num instante, era obra de um momento; devia-se pasmar ao ler nos jornais os passos gigantescos da civilização. Por exemplo, num relatório do intendente da polícia do Rio de Janeiro lia-se: "A grande estrada para Minas Gerais, passando por São João dei Rei, está concluída e é tão excelente, que cinco seges podem passar alinhadas a galope". Por aí dever-se-ia crer maravilhas da magnífica estrada; porém, dois anos depois desses toques de trombeta, tive eu a infeliz idéia de viajar por essa nova estrada, e encontrei nada mais do que um caminho largo, aberto através do mato, e este já havia crescido de novo, e só com grande dificuldade se podia passar a cavalo.

"Também outro pomposo relatório do governador provincial do Espírito Santo informou certa vez que ele havia inaugurado a comunicação e comércio com a província de Minas, graças à regulação do leito do rio Doce para a navegação, e que as mercadorias vinham de lá diretamente por água. Esse relatório, traduzido para a linguagem da verdade, reduzia-se ao seguinte: havia o governador a custo arranjado homens e canoas, carregado estas últimas com sal, havia navegado com infinito esforço rio acima, vinte e três vezes havia tido necessido de descarregar as canoas, puxando-as por terra e à carga, para transpor as cachoeiras, havia sofrido ataques dos Botocudos bravios e, afinal, chegado com grande dificuldade a Minas, onde ele havia vendido o sal, recebido como frete de retorno algum algodão, e com as mesmas indizíveis canseiras havia regressado, de sorte que depois ninguém mais quis meter-se em semelhante empresa. E a isto se chamava inauguração da navegação e comércio direto com a província de Minas.

"E mais: — 200 índios da tribo dos Puris, atraídos por meio da força e de astúcia para fora da mata, foram levados para Vila Rica de Ouro Preto (província de Minas Gerais) e depois repartidos como gado entre aqueles que os desejassem para o serviço como escravos, separando com isso os filhos dos pais; a esse fato chamava-se nos relatórios: "haver civilizado 200 puris". Note bem: ao cabo de um ano, desses duzentos só restavam poucas crianças, e os outros haviam na maioria sucumbido aos maus tratos.

"Muitos exemplos desses poderíamos citar; mas, para honra do governo, quero crer que ele próprio não dava crédito a tais relatórios, e suponho que secretamente se dera a entender aos governadores provinciais e outros funcionários que por motivos políticos, o rei e os seus ministros apreciavam esses exageros; e daí não haveria que admirar se, por fim, todos os interessados chegavam a acreditar no que diziam. Devo admitir que havia nisso o dedo da política, tanto a do Estado, como a particular; pois, quando, ao cabo da minha viagem ao rio Doce, apresentei o meu relatório a respeito do que lá havia visto e aprendido, com o que destruía todos anteriores relatórios mentirosos sobre a navegabilidade do rio, sobre o progres das estradas e sobre a civilização dos índios, o governador provincial irritou-se com as minhas verdades, informou ao ministro, e este me escreveu, por seu próprio punho, que eu não precisava mandar-lhe os meus interessantes relatórios, pelo pelo governador já havia sido cientificado do assunto!"

Vê-se, portanto, que a monarquia absoluta, procurando intervir diretamente de modo vivificante no desenvolvimento brasileiro, experimentava os mesmos ei traves, quais antes os sofreram os seus representantes, revestidos com o mesmo p( der absoluto; por toda parte, a sua atividade encontrava nas condições naturais c país, na indolência da população e sobretudo na inexatidão do funcionalismo, ob táculo insuperável; e se, de fato, conseguiu, chamando em seu auxílio o tráfk mundial, insuflar vida nova nas regiões da costa, no interior continuavam, todavi; inteiramente inalteradas as antigas condições.

Isso quanto à administração interna do rei d. João VI. Volvamo-nos agora a outro ramo de sua ação de governo.

A sua política exterior sempre teve em essência feição européia e deixa-se guia fundamentalmente pelas especiais conveniências portuguesas; porém, acessória mente, viu-se ele, pelo andamento das coisas, colocado na conjuntura, e de cert modo forçado a retomar os planos de engrandecimento sul-americano de sei antepassados, que pretendiam levar as fronteiras do Sul do Brasil até à foz do Prat;

Sabe-se que o imperador francês Napoleão, imediatamente depois de hav< expulsado a casa real portuguesa, também obrigou os Bourbons espanhóis à r< núncia e elevou ao trono vago da Espanha e índias um de seus irmãos (maio-junh de 1808); e que as conseqüências dessa mudança nos tronos não se estenderam m( nos a todo o império colonial hispano-americano; quase instantaneamente s desmembrou este, e cada uma das colônias hesitou, umas mais, outras menos, s deviam içar outra vez a bandeira do antigo rei ou arvorar a do novo, ou declarar sua independência. Diante desses acontecimentos, não podia ficar de todo indife rente o gabinete do Rio de Janeiro; embora a maioria das colônias espanhola estivessem muito afastadas, todavia o grupo do Rio da Prata, o vice-reino de Bue nos Aires, confinava estreitamente com o Brasil, e o que ali acontecia poderia acas repercutir também aqui; de sorte que ele se via coagido, pela preocupação de su própria segurança, a acautelar-se deste lado, quanto possível, contra um desenvol vimento revolucionário republicano.

E, para uma intervenção nesse sentido, achou-se um pretexto no parentesa próximo entre os Braganças e os Bourbons espanhóis. Tinha d. João VI por espos; a filha mais velha do rei abdicado Carlos IV, a infanta Carlota Joaquina, e mesmo ( filho do irmão desta última, o infante d. Pedro Carlos, achava-se aqui na sua corte de sorte que se reuniam no Rio de Janeiro (depois da renúncia de Carlos IV e di seus filhos) os herdeiros legítimos mais diretos da coroa espanhola. Assim, pois intimou d. João VI, logo que recebeu notícia dos acontecimentos na Espanha, c vice-rei e o magistrado de Buenos Aires a que se colocassem sob sua proteção e go verno, pelo fato da derrocada da velha monarquia espanhola; todavia recebei peremptória resposta negativa, e com ela se tranqüilizou, tanto mais que as populações das províncias do Prata provisoriamente ainda conservavam de pé a bandeira realista dos Bourbons espanhóis.

Porém, em breve se tornou crítica a situação: constituiu-se em Buenos Aires um que, embora logo reconhecesse como soberano o rei d. Fernando VII de Espanha (prisioneiro em França), todavia reclamava do da mãe-pátria plena liberdade (maio de 1810); com isso, ficava dado o primeiro passo para a completa declaração de independência. E assim o compreendeu a corte brasileira e tomou providências; o infante d. Pedro Carlos publicou um manifesto aos seus fiéis vassalos da coroa espanhola; e d. Carlota Joaquina, na sua qualidade de princesa espanhola, pediu com todas as formalidades o auxílio de seu esposo, para a manutenção dos direitos hereditários dos Bourbons nas colônias espanholas, e d. João VI deu-lhe resposta favorável (19 de agosto de 1810).

Já ele havia reunido no limite sul de seu reino, na província de São Pedro, um corpo de observação, de 4.000 homens; agora, no correr do ano seguinte, fez o mesmo penetrar na chamada Banda Oriental, onde o velho general espanhol Elío ainda se sustentava com felicidade na cidade de Montevidéu, contra os independentes de Buenos Aires.

Colocaram-se os brasileiros, como tropas aliadas e pacificadoras, ao lado desse oficial; contudo, recordando a antiga ambição brasileira de anexação da terra, não podia Elío, com razão, confiar inteiramente nesses protestos; preferiu concluir com Buenos Aires um ajuste (20 de outubro de 1811), no qual, entre outras coisas, foi estipulado que tanto as tropas argentinas como as brasileiras deviam retirar-se do território de Montevidéu e deixá-lo entregue a si mesmo.

Na verdade, os brasileiros, a princípio, não queriam ouvir falar em semelhante cláusula; porém, em breve, se viram constrangidos, pela intervenção conciliadora da Inglaterra, a ceder e assinar.um armistício com os independentes (2 de junho de 1812), pelo qual tiveram que regressar para além das fronteiras de São Pedro.

Ficou então a Banda Oriental entregue a si mesma, primeiramente sob a administração do general Elío, depois do seu sucessor, Vigodet; porém, já ao cabo de um ano, os independentes do Prata renovaram o ataque e obrigaram finalmente à capitulação o comandante espanhol (20 de junho de 1814), passando a cidade e província de Montevidéu a constituir um Estado independente, sob um chefe natural do país, José Artigas; assim, surgiu, na imediata vizinhança da fronteira do Brasil, uma pequena república inteiramente independente.

Então o gabinete do Rio de Janeiro resolveu de novo fazer a pacificação e ocupação, e pretextos não faltaram; por um lado, havia Artigas em diversas invasões inquietado as fronteiras da província de São Pedro; por outro lado, na Europa tardava, sempre obstinado, o rei restabelecido no trono, d. Fernando VII de Espanha, a cumprir a estipulada restituição de uma antiga parte do território português (a cidade de Olivença com o município); declarou o rei d. João VI que ia, por isso, tomar posse provisória da Banda Oriental, para cuidar da própria segurança e como penhor contra a Espanha. Dois exércitos brasileiros puseram-se em marcha, dos quais um pelo caminho de terra transpôs as fronteiras do sul, o outro por mar entrou na foz do Prata, a 23 de outubro de 1816, e desembarcou perto de Maldonado; depois de alguns combates, fizeram ambos a junção e, em seguida, apoiados por uma esquadra, passaram a sitiar a cidade de Montevidéu. A 20 de janeiro de 1817, capitulou esta cidade e colocou-se sob a proteção da coroa de Portugal-Brasil; o mesmo aconteceu em breve com as outras restantes praças da costa, ao passo que no interior Artigas ainda se manteve muitos anos e, com alternativas da sorte, fez guerrilhas, ao mesmo tempo contra o Brasil e Buenos Aires, até que, no princípio de 1820, completamente batido, procurou asilo no Paraguai164. Assim acabou submetida a Banda Oriental.

A nova região conquistada ficou, de resto, ainda por muito tempo, numa posição mal definida de direito público. De um lado, continuava o gabinete do Rio de Janeiro a reconhecer de nome os direitos de posse da coroa de Espanha, e queria dar à sua tomada de posse somente o cunho de pacificação militar, tanto que o general Lecór, visconde da Laguna, comandante das tropas de ocupação, devia abster-se de qualquer intromissão nos negócios internos. Mas, por outro lado, consentia-se que o cabildo de Montevidéu, composto de homens inteiramente dedicados, assumisse sem autorização alguma o poder supremo sobre toda a Banda Oriental; e tratava-se, de fato, com o mesmo, como com um governo independente; assim, por exemplo, quanto à definição dos limites de ambos os lados (1819).

Ao mesmo tempo, procurava-se de todo modo obter partidários no país, e, para esse fim, tomava-se a liberdade de vender por vil preço os domínios do Estado, ainda rico em terras públicas; quem passasse do partido de Artigas para as bandeiras brasileiras podia tomar terras onde as quisesse; o mesmo era concedido aos soldados e súditos brasileiros (e desse tempo até à atualidade ficaram algumas mil léguas quadradas do solo da Banda Oriental nas mãos de proprietários brasileiros) 165

Aonde, com isso, se queria chegar, não havia quem duvidasse, e assim ambos os governos, que se julgavam com direitos sobre a margem norte do Prata, tanto o real espanhol em Madri, como o republicano em Buenos Aires, formularam protestos contra a maior demora da ocupação; todavia,’ as suas reclamações não foram tomadas em consideração; indiferentes continuaram os brasileiros as suas maquinações, até afinal se julgarem em posição de retirar de todo a máscara, tanto tempo conservada.

Abertamente declarou então o comandante Lecór a já desde muito alimentada cobiça de anexação, e o dedicado Conselho Municipal de Montevidéu prestou-se de boa vontade como instrumento, resolvendo numa sessão solene a união política da antiga Banda Oriental espanhola com o reino do Brasil (19 de iulho de 1821). 

A legitimidade dessa decisão era, certamente, bastante duvidosa; porque, mesmo que se quisesse, com base no princípio da soberania popular, abstrair dos direitos de posse da coroa espanhola, não estava de todo autorizado o Conselho Municipal da capital, Montevidéu, a decidir sobre a sorte de todo o país; por tal escrúpulo, entretanto, não se deixou o gabinete do Rio de Janeiro estorvar; de boa vontade aceitou a oferecida união, e a Banda Oriental foi incorporada, com o nome de "Província Cisplatina", no reino do Brasil, nome aquele que parecia trair ainda a cobiça sobre outras terras, do outro lado do Prata.

Assim, finalmente, se realizava no governo do rei dom João VI o a que muitos de seus antepassados haviam aspirado e tentado: o Brasil estendia-se até à foz do rio da Prata 166.

166 Na região norte havia o rei d. João VI conquistado, durante a guerra geral, a Guiana francesa 1809); porém a restituiu, já em 1817. (Nota do autor).

De importância não menor que as precedentes disposições do governo no interior e no exterior, era a mudança da atmosfera política do Brasil, que se efetuou durante a estada do rei d. João VI. Já narramos antes como, no princípio do século XIX, a população brasileira estava submersa na mais profunda apatia política e, ainda, como apenas havia sido tocada pelo sopro das novas idéias liberais do tempo. Habituada à mais incondicional obediência, não podia imaginar para si outra forma de Estado.

Agora, as coisas haviam mudado; os acontecimentos que abalaram o mundo e que por fim obrigaram à transmigração da casa real, à emancipação comercial e política da colônia de até então, afinal o tráfico mundial que continuamente desembarcava nas costas novos homens e novas idéias, — tudo isso despertara os brasileiros da sua modorra; surgiram os inícios de vida política que, naturalmente, a princípio ficaram limitados às grandes cidades dos portos, e mesmo aí aos círculos mais cultos. Todavia, o espírito novo não era, em geral, hostil à monarquia, nem ao rei; todas essas benéficas reformas eram devidas à livre mercê do monarca, e lhe eram em geral recompensas pela mais viva gratidão.

Demais, o rei d. João VI se havia tornado pessoalmente popular; pois, não sendo dotado de grandes talentos, fanático, e pouco instruído, erá ele bem intencionado, bondoso e sobretudo generoso, tanto quanto os seus meios permitiam, mormente com títulos, ordens honoríficas e doações de terras (tanto que no espaço de poucos anos ele dissipou quase completamente os domínios públicos de três províncias, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais). Porém, essa afeição à pessoa não podia, por outro lado, proteger o sistema do rei contra os ataques. Apesar das múltiplas inovações benéficas, de fato, permanecia d. João VI inalteradamente fiel aos princípios e formas do reino absoluto, e na constituição e administração internas deixara tudo como dantes; continuavam a dominar nas províncias os governadores com poder incondicional e não eram bastante fiscalizados, embora o fossem mais do que antes.

Não podiam mais estar de acordo por muito tempo, de um lado este antiquado absolutismo do governo, de outro o novo espírito político, que se despertava no povo, o qual procurava os seus ideais nas monarquias constitucionais da Europa ou mesmo nas condições constitucionais da América do Norte. O jugo que antes, pelo velho hábito, se julgava leve, começava agora a pesar de modo insuportável; e assim despontou, primeiro nas grandes cidades dos portos do Brasil, uma perigosa fermentação, que se manifestava, a princípio, como era da índole dos povos latinos, escondidamente, em sociedades secretas e sob formalidades maçónicas, e, por fim, surgia à luz, pouco a pouco, publicamente.

Estes princípios de oposição tomavam, porém, ao mesmo tempo, feição especial americana antiportuguesa.

Já referimos como, desde muito tempo, se havia formado uma viva hostilidade nacional entre os descendentes da mais antiga imigração, os brasileiros propriamente ditos e os imigrantes mais recentes, os "filhos do reino" ou "Portugueses de Portugal —"; estes últimos, superiores em geral aos seus concidadãos americanos, em cultura científica, em atividade e habilidade, costumavam monopolizar os cargos do Estado, tanto como o comércio, e eram, por isso, olhados com antipatia por todas as classes da população, pelos ilustrados e pelos ignorantes, pela aristocracia rica dos fazendeiros e pela gente pobre.

Agora, isso ainda mais se acentuara, porque a imigração portuguesa ultimamente ia crescendo: a guerra, que estorvava em Portugal o comércio e a indústria, havia induzido muitos portugueses a procurarem a sorte no Brasil; a família real, quando transmigrou, trouxe consigo não só um desproporcionado número de cortesãos e funcionários, também arrastou atrás de si uma turba de aventureiros pobres, que agora reclamavam, alegando a sua lealdade, uma compensação; superavam assim os portugueses, mais do que nunca, aos brasileiros, no comércio e nos cargos públicos.

Também isso agora se sentia mais do que antes; assim como, desde sempre, o comércio exercera grande força de atração sobre os brasileiros, também agora o serviço público entrava a seduzi-los; contraíam o contágio da caçada ao emprego público, à qual assistiam diariamente, e usavam, na caçada às colocações, títulos e dignidades, a mesma insistência descarada daqueles que lhes davam o exemplo167. Se não eram servidos, queixavam-se, não menos patéticos, da imerecida preterição. E inteiramente injustas não eram essas queixas; já antes mencionamos que os negociantes portugueses procuraram amparar-se mutuamente contra todos os concorrentes brasileiros; como se pode compreender, o mesmo faziam os funcionários portugueses, e eles haviam ocupado primeiro toda a escala hierárquica do serviço público, formavam o imediato círculo do rei. Assim crescia cada vez mais a geral aversão de todas as classes contra os portugueses e uma grande parte recaía sobre o governo, que, como se afirmava, favorecia os "filhos do reino", de modo injusto, em detrimento dos nacionais.

167|Vejamos como um observador contemporâneo, … L. von Eschwege, se exprime sobre essa caçada aos empregos públicos; embora a sua narração seja um tanto maldosa, não se pode, entretanto, duvidar de sua veracidade, e, com pequenas modificações, ela se adapta também aos tempos mais modernos:

"O maior empecilho para uma regular exploração das minas é o caráter nacional dos brasileiros, herdado dos portugueses, com falta de inclinação para se dedicarem e sacrificarem exclusivamente a um ramo de ciência, a uma profissão especial. Somente os juristas e os eclesiásticos seguem uma carreira, porque nas mesmas podem ter esperanças de tudo conseguir. Todos, tanto o clero, como os militares e os civis, tratam de arranjar ocupações acessórias, que lhes prometam maior ganho, sejam elas as mais heterogêneas e das quais nada entendam. O militar não se envergonha de solicitar uma colocação na música do palácio; um amanuense não se arreceia de pedir um cargo de governador; um simples aplicador de ventosas e de sanguessugas pretende o posto de cirurgião-mor do reino; o jurista tem em mira ser ministro de Estado, o eclesiástico ser comissário do exército; mesmo os empregados das lojas de comércio almejam altos cargos do Estado. O alferes de linha sobe aos pulos a major e a coronel na milícia, e cogita, depois em voltar para a tropa de linha com essa graduação, o funcionário público se esforça por obter colocação de engenheiro e o mais talentoso engenheiro militar abandona a sua carreira, para ocupar o cargo de arrecadador de direitos da alfândega. O oficial de marinha aspira a transferir-se para a cavalaria; religiosos de alta graduação vestem o uniforme de chefe da esquadra. Ocupar cinco a seis cargos ao mesmo tempo e não exercer nenhum, é coisa nada rara; mesmo nenhum emprego é considerado sujo demais, contanto que seja garantido o lucro, para que não se empenhem por obtê-lo as pessoas de mais alta qualidade.

"Tal modo de pensar é o geral; ninguém procura seguir o curso natural da carreira iniciada, porém cada qual almeja alcançar aos saltos os altos postos e cargos rendosos; e não raro o conseguem; pois os exemplos citados se apresentam continuamente".

As revoluções dos tempos modernos e as alternativas partidárias de um governo parlamentar não se prestavam naturalmente, de modo especial, a melhorar esse estado de coisas. (Nota do autor).

A fermentação oposicionista, que foi surgindo de ambos esses elementos, tomou especial feição americana, chegou a seu auge, naturalmente, nas grandes cidades brasileiras da costa.

Menos forte no Rio de Janeiro, onde a presença do rei e as múltiplas vantagens decorrentes da sua posição de capital do país reconciliavam muitos com as existentes circunstâncias, tomava na Bahia e Pernambuco feição muito mais pronunciada, porque ali, além dos dois elementos citados de descontentamento, apareceu um terceiro.

Ê que estas duas províncias ricas e de antigo renome se sentiam não pouco magoadas e feridas no seu orgulho provincial, por haver o rei, quando escolheu a sua capital brasileira, dado preferência à irmã mais nova, o Rio de Janeiro; e expandiam-se em altas vozes: que, na verdade, haviam sido colônia de Portugal, porém não queriam ser tratadas como colônia do Rio dejaneiro.

A Bahia, por seu lado, tendo passado justamente antes por um levante de escravos de curta duração, porém muito sério, em 1813, estava sob a vigilância de um capitão-general solícito e muito enérgico, o conde dos Arcos; por outro lado, em Pernambuco estava o bastão do poder em mãos fracas, e a crescente riqueza, que o excepcionalmente favorável tráfico comercial do momento proporcionava, fazia, sem dúvida, crescer de modo muito notável o sentimento, já forte, de dignidade própria da população.

Assim, foi aqui que em primeiro lugar o fermento da oposição se manifestou em ação; a 6 de março de 1817, declarou-se na cidade de Recife terrível revolta, na qual os portugueses residentes foram saqueados e assassinados, os funcionários reais expulsos; estabeleceu-se um governo provisório, que agiu inteiramente ao modo da primeira Revolução Francesa e mesmo pensou em declarar a independência de Pernambuco; porém a tanto não chegou; usou de meias medidas, que não podiam entusiasmar ninguém, e, como se manifestasse a idéia de fazer a abolição, isso arrefeceu a aristocracia de fazendeiros, detentores de escravos.

Assim o incêndio revolucionário logo se apagou; com pouco trabalho, pôde o conde dos Arcos acautelar a Bahia contra essas perturbações da ordem, e em breve mesmo marchar com um exército contra os rebeldes.

Quando chegou ao Rio de Janeiro a notícia dos acontecimentos do Recife (25 de março), não se ouviu uma só manifestação de aprovação, nem de desculpa; unânime, reuniu-se a população da capital em torno do rei, forneceu dinheiro e voluntários, e, em breve, estava equipada uma expedição, que, de conjunto com o contingente baiano, extinguiu completamente a revolta de Pernambuco, a 25 de maio de 1817; por toda parte flutuavam de novo as bandeiras reais.

Estava assim submetido Pernambuco e foi duramente castigado; porém com isso não se acabou absolutamente a oposição nacional liberal.

E uma nova disposição do governo real contribuiu não pouco para fazê-la crescer ainda mais. Até aqui, o serviço de guarnição das praças no Brasil era provido exclusivamente por tropas nacionais e milícias brasileiras; porém à notícia dos acontecimentos em Pernambuco, resolveu o gabinete do Rio de Janeiro chamar para reforço uma parte do exército nacional português, que, em vista da paz geral, podia ser dispensada em Portugal; e essa medida se executou, não obstante em breve houvesse cessado a sua razão de ser: a 18 de outubro de 1817, chegaram ao Rio de Janeiro cinco batalhões portugueses, dos quais foram destacados um para Pernambuco e um para a Bahia, ficando os outros três, com alguma artilharia, no Rio.

Por toda parte, então, onde essas tropas, denominadas "a Divisão Auxiliar", aquartelavam, ocorreram em breve entre elas e as tropas nacionais atritos violentos, o que já em parte podia ser atribuído ao geral antagonismo nacionalista existente; todavia, a culpa principal recaía na presunção militar dos portugueses, que, orgulhosos de sua melhor escola e equipamento e da glória de suas armas, ganha na guerra contra os franceses, olhavam com desdém para os brasileiros e quase não os queriam considerar como camaradas; mesmo essa presunção chegou a tal ponto, que o general português Vicente Antônio de Oliveira apresentou formalmente uma proposta à corte, para que, por lei, a graduação dos brasileiros fosse limitada ao posto de capitão e que se reservassem todos os postos de oficiais superiores aos portugueses natos.

Em parte alguma eram essas relações tão pouco amigáveis como no Rio de Janeiro, onde as tropas, de ambos os lados em maior número, se enfrentavam, e onde de contínuo se provocavam reciprocamente com alcunhas. Vangloriavam-se os portugueses de serem os "Heróis de Talavera" (Nova Castela), por sua participação naquela batalha; também os brasileiros queriam ser chamados "Pernambucanos", porque haviam auxiliado a abafar a revolução de Pernambuco; ainda mais usualmente eram os portugueses, por causa de seu modo pesado de andar, chamados "pés de chumbo", contra o que os brasileiros, de andar saltitante, eram escarnecidos com a alcunha de "pés de cabra" ou, como mulatos, com a de "cabrada".

Rixas e altercações eram da ordem do dia. Uma vez quando se faziam manobras com combate simulato, queriam os brasileiros carregar as suas armas com balas e pedras, ao passo que os portugueses estavam de seu lado resolvidos a atacar ao primeiro choque com as baionetas; por felicidade, a coisa foi ainda a tempo descoberta e foi suspensa a manobra.

Está claro que, nessas contendas entre militares, o povo brasileiro se colocava no partido das tropas nacionais; encarava-se em geral, tanto a divisão de socorros portuguesa como a burocracia portuguesa, como um resto do antigo constrangimento colonial, em contradição com a emancipação política do reino do Brasil, e que por isso devia acabar.

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