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CIPIÃO, O AFRICANO | Plutarco – Vidas Paralelas


Índice

Plutarco – Vidas Paralelas

CIPIÃO, O AFRICANO

Desde o ano 520, mais ou menos, até o 571 de Roma, antes de Cristo, ano 183.

Sobre a família de Cipião.

Públio Cipião, patrício, da muito nobre família dos Cornéhos, que foi o primeiro general romano, contra quem , o Cartaginês, combateu na Itália (1) foi pai de Cornélio Cipião, que por primeiro teve o cognome de Africano, por causa daquela nação, por ele vencida e subjugada. Este, depois de ter obtido várias vitórias na Espanha e realizado belos feitos militares, foi por fim morto por uma fenda que recebera numa batalha, contra os inimigos, quando ia de fileira em fileira, percorrendo as posições, especialmente onde ele via maior necessidade de auxílio e mais grave perigo (2). Pouco depois, seu irmão Cn. Cipião terminou seus dias quase do mesmo modo, pois foi morto quando combatia valentemente. E esses dois generais, além da fama de grandes feitos de armas, que conquistaram, deixaram em pós de si grande louvor pela fidelidade, temperança e virtude, pelas quais eles se tornaram desejáveis e queridos, não somente aos soldados que ainda viviam, mas também às nações espanholas. Ora, Cn. Cipião teve um filho chamado Públio Cornélio Nasica, que foi cônsul e ilustre, o qual, sendo ainda muito jovem, foi contudo considerado o homem mais nobre da cidade, para receber a mãe Idea (3) . Públio teve dois filhos, os mui afamados Cipiões: um dos quais foi cognominado Asiático, por ter dominado a Ásia,- e o outro Africano, por ter subjugado a África, naquela memorável batalha que ganhou contra e os cartagineses, como já tivemos ocasião de dizer. Dele nos dispusemos a escrever a vida, não tanto para tornar a glória do seu nome, tão celebrado por autores gregos e latinos, mais ilustre, por esse nosso escrito, como para apresentarmos, aos olhos dos homens, a ordem dos seus grandes feitos, a disciplina civil, a fim de que todos os príncipes e generais o contemplem como uma viva imagem de excelente virtude, que os possa incitar a imitá-lo e a segui-lo.

Grandes exemplos de virtude que Cipião dá na sua juventude.

II. P. Cornélio Cipião dava, desde sua mais tenra infância, esperança de uma natureza gentil e excelente virtude; começou a sua primeira instrução nas artes militares sob as vistas de seu próprio pai. Foi levado ao acampamento no princípio da segunda guerra Púnica, tendo apenas dezessete anos, mas comportou-se tão bem, em pouco tempo, e mostrava-se tão correto em todas as coisas, quer em pequenos encargos, quer passando as noites sem dormir, quer suportando outros trabalhos e incômodos da guerra, que mereceu grande elogio de seu pai e boa reputação entre todos os que estavam no acampamento. Além disso, mostrou-se de espírito mui gentil e senso atilado, o que lhe dava uma graça singular e amedrontava também seus inimigos. Pois, na batalha da cavalaria que o cônsul P. Cornélio travou contra Aníbal, perto do rio Ticino, Cipião esteve presente; e alguns escrevem que o pai Cornélio nessa ocasião teria sido aprisionado pelos inimigos, se o filho Cipião não o tivesse salvo, conquanto ainda muito jovem. Depois, quando se travou a batalha em Cannes, com grandíssimas perdas e quase ruína total do império romano, quando os dez mil homens que se haviam retirado a Canúsio passaram de comum acordo a chefia das armas a Ápio Pulcro, o qual tinha sido edil, e a Cornélio Cipião, que era ainda muito jovem, o mesmo Cipião declarou, com efeito, quão grandes eram a virtude e a magnanimidade que nele havia. Pois vendo que alguns jovens deliberavam deixar a Itália, ele entrou no meio deles e, desembainhando sua espada, fê-los a todos jurar que não seriam infiéis à causa pública. Tais ações feitas por êle, com vivacidade de espírito e singular magnanimidade, quando ainda muito jovem tiveram tanta influência no , que, sem ter em consideração a sua pouca idade, nem as tradições antigas, confiaram-lhe grandes incumbências e o desempenho de cargos de grande importância. Pedindo o ofício de edil, antes do tempo legal, conquanto os tribunos do povo se opusessem ao pedido, porque êle ainda não tinha a idade exigida, foi-lhe, no entretanto, permitido ser elevado de categoria em categoria e depois, em seguida, declarado edil curul, por maioria de votos.

É nomeado procônsul na Espanha.

III. Mas, depois que seu pai e seu tio, ambos ilustres e grandes generais, foram mortos, um depois do outro, na Espanha, e o povo romano buscava um chefe de singular virtude para colocá-lo em seu lugar, a ninguém encontraram que quisesse continuar esta guerra difícil e perigosa, pois que dois ilustres generais nela tinham já perecido. Por isso, a assembléia foi convocada para nomear um vice-cônsul; os outros encarregados das ; conservaram-se, porém, calados e imóveis nessa alternativa. Cipião, que contava vinte e quatro anos, apresentou-se e disse com grande firmeza que com muito boa vontade assumiria o cargo. Não havia êle acabado de fazer essa proposta, que lhe foi confiada a direção dos negócios na Espanha, por um singular favor dos que votavam (4) . Todavia, os senadores, refletindo um pouco contra que generais e em que regiões dever-se-ia conduzir a guerra, parecia-lhes impossível que, naquela idade, êle pudesse suportar a responsabilidade de tão pesado encargo e de tão difíceis empresas. Houve, então, repentinamente, uma grande mudança de opinião, como se os votantes se tivessem arrependido do seu gesto e do decreto. Vendo isso, Cipião apresentou-se à assembléia e começou a falar da sua idade e dos deveres da guerra, de tal modo que todos os presentes se puseram a observá-lo e o povo lomano recobrou a esperança que nele havia depositado, quanto ao cumprimento dos seus desígnios.

Elogio de Cipião.

IV. Pois êle não somente tinha o coração magnânimo e era exímio em todas as virtudes, mas, ainda, de singular beleza e de perfeitas proporções de corpo, de rosto alegre; o que contribui para conquistar mais facilmente as boas graças de todos. Êle tinha, assim, em sua maneira de agir, soberana majestade. A glória militar estava unida a tais dons de espírito e de natureza, que se podia mesmo duvidar se êle era mais apreciado pelas nações estrangeiras, por suas virtudes civis, do que admirado por suas virtudes bélicas. Tinha, outrossim, incutido no coração de todo o povo uma certa superstição, porque, depois que êle tomara a toga viril, costumava subir todos os dias ao , entrar no templo, sem companhia alguma, de modo que todos estavam persuadidos de que êle recebia em comunicação, no templo, algo de secreto, que a outros não se podia revelar, do mesmo que antes também se pensava que Numa Pompílio tinha sido instruído pela ninfa Egéria. Além disso, no tempo de Cipião, parece que alguns tiveram dele idêntica opinião, como outrora, de Alexandre, rei dos mace-dônios, que muitas vezes se havia visto uma serpente entrar no quarto de sua mãe.

Primeiros feitos de Cipião, a sua chegada na Espanha.

V. Deixando de lado todas estas coisas, P. Cipião, partindo da Itália com dez mil homens de infantaria e uma frota de trinta galeras, que eram de cinco ordens de remos cada banco, velejou para a Espanha: e tendo chegado em poucos dias a Empena (5) retirou os homens do navio e foi por terra a Tarragona (6) . Lá reuniu uma assembléia onde estiveram muitos embaixadores das cidades aliadas, os quais foram bem recebidos e voltaram às suas casas com a resposta pela qual suspiravam. Depois destas coisas, Cipião, atento aos negócios da guerra por êle empreendida, julgou que seria melhor juntar ao seu exército o resto dos antigos grupos que tinham sido salvos por L. Márcio. Após a morte dos dois Cipiões, como a Espanha estivesse quase perdida e as legiões romanas desbaratadas e postas em fuga, L. Márcio, cavaleiro romano, tendo reunido o resto dos dois exércitos, derrotou, contra a expectativa de todos, os inimigos cheios de glória pela vitória que eles tinham conquistado, e com virtude e habilidade incrível sustentou a guerra na Espanha contra três generais cartagineses. Cipião, tendo vindo a este exército que estava nas guarnições para invernar, deu a todos grande esperança, que os negócios decorreriam sem novidade; vendo-o lembravam-se de seus velhos generais, de sorte que não havia soldado que deixasse de saudar a esse moço. Mas êle, depois de ter louvado e encomiado seus soldados, por sempre terem tido bom comportamento, sem perder a esperança nos êxitos dos negócios públicos, prestou grande honra a L. Márcio, para mostrar que aquele que confia na própria virtude não tem motivo para invejar a glória de outros.

Cerca e toma Cartagena.

VI. O inverno havia passado; êle retirou dos alojamentos e os grupos antigos e os novos e determinou, antes de tudo, ir sitiar Cartago, a nova: pois, entre todas as cidades da Espanha, não havia outra mais rica, nem mais própria para se levar a guerra por mar e por terra, do que aquela. Além disso, os generais cartagineses tinham reunido nessa cidade todas as munições e suas maiores riquezas; nela e na fortaleza haviam, porém, deixado uma forte guarnição. Estes, porém, se haviam retirado para diversas regiões, a fim de que, por meio dos três juntamente, o país não fosse devastado; por esse tempo nada menos eles esperavam que o cerco de Cartago. Cipião, tendo pronta toda a sua equipagem, veio atacá-la, com todo o seu exército por mar e por terra. A empresa parecia difícil assaz e de longa duração, porque a cidade era forte e seus habitantes eram corajosos, os quais, não so mente pensavam poder defender a cidade, mas atre viam-se até a atacar os inimigos, fazendo incursões até às trincheiras e muralhas dos . Mas acontece freqüentemente que aquilo que não se pode obter pela força pode-se consegui-lo pela astúcia. Cipião sabia que o lago que está não muito longe dos muros de Cartago aumentava e diminuía com a maré e que se podia passá-lo a vau, do lado em que havia mais fácil acesso às muralhas. Julgando dever aproveitar essa ocasião, que outra melhor não se lhe poderia apresentar para tomar Cartago, quando lhe pareceu oportuno, organizou seus homens para a luta, distribuiu-os por vários batalhões e fêz desencadear-se um furioso ataque à cidade, como nunca antes havia feito. No entretanto, escolheu uma companhia de homens mui valentes, aos quais mandou que passassem o lago e escalassem a muralha do lado onde havia menos vigilância. Os que foram encarregados dessa missão, depois de terem passado o lago sem empecilho algum, encontraram o lugar para onde se dirigiam, sem defesa alguma, porque o mais forte do combate era do outro lado da cidade: subindo então cuidadosamente à muralha, atacaram os inimigos por trás. Os cidadãos e os guardas, surpreendidos, ante tal perigo, abandonaram imediatamente as muralhas e, vendo se atacados de todos os lados, fugiram. Os perseguiram-nos, tão de perto que tomaram a cidade e a saquearam (7) : encontraram grandes des pojos e muitas coisas necessárias para a guerra. Cipião louvou muito seus soldados e os recompensou por terem procedido valentemente: como era, po rém, necessário dar a coroa mural àquele que por primeiro havia escalado a muralha, suscitou-se grau de divergência entre dois soldados por esse motivo: e o mesmo exército correu grande risco de se levantar um contra o outro, por essa razão. Cipião reuniu-os então imediatamente e, em plena assem bléia, disse que êle bem sabia que ambos haviam subido à muralha, ao mesmo tempo, e deu a ambos a coroa mural. Assim foi eliminada a dissensão que havia quase chegado aos extremos.

Continência de Cipião.

VII. Depois destes acontecimentos, êle restituiu os reféns às cidades da Espanha, os quais havia encontrado em grande número naquela cidade, o que lhe granjeou grande fama de humanidade e clemência, e, com esse gesto de bondade, atraiu grande número de cidades para o lado dos romanos, as quais por isso mesmo deixaram o partido dos cartagineses. Mas uma coisa, dentre todas, aumentou-lhe muito a fama e lhe granjeou ainda maior benevolência, a qual foi celebrada por todos os autores como um exemplo de todas as virtudes. Levaram-lhe uma jovem prisioneira, que, sobrepujando a todas em beleza e graça, foi por êle custodiada cuidadosamente e com toda a honestidade: tendo sabido depois que ela era esposa de Luceio, príncipe dos celtiberos (8), mandou chamá-lo e lha entregou intacta. Certamente este é um fato digno de ser registrado por escrito e Cipião mesmo merece receber o prêmio de tão grande gesto de humanidade e continência nos escritos de todos os autores. Luceio, não esquecendo essa graça, comunicou imediatamente, a todos os seus súditos, a liberalidade, a modéstia e a singular excelência de todas as virtudes que possuía o general romano, e, logo depois, voltou ao acampamento dos romanos com um bom número de cavaleiros. Os generais cartagineses Mago, Asdrúbal Barciniano e o outro Asdrúbal, filho de Gisgo, bem sabendo que a perda de Cartago, a nova, lhes causaria grande prejuízo, tanto diminuindo-lhes o crédito perante as nações estrangeiras como pelo juízo que disso se fazia, com relação ao término da guerra, cuidavam primeiro de esconder o fato, depois de diminuí-lo, por palavras, o mais possível.

Derrota a Asdrúbal.

VIII. Ora, Cipião, depois de ter anexado a si mesmo vários povos e príncipes da Espanha, entre os quais estavam dois pequenos reis, Mandônio e Indibile, mandou seu exército marchar para os lugares onde ele pensava que Asdrúbal Barcimano estava, a fim de dar-lhe combate, antes que Mago e o outro Asdrúbal se unissem a êle. Asdrúbal Bar-ciniano estava acampado perto do rio Bétula (9) e desejava combater, porque confiava muito nas próprias forças. Mas, quando soube que Cipião se aproximava, retirou-se da planície para um outeiro bastante defendido pelos acidentes naturais. As legiões romanas seguiram-no e, sem lhe dar descanso, sempre de perto, e atacaram o seu acampamento, logo à chegada (10). Combateram nas trincheiras e nas defesas das muralhas, como se estivessem atacando alguma cidade. Os cartagineses, confiando na fortaleza do lugar e impelidos pela necessidade, que desperta os brios, mesmo aos mais medrosos e tímidos, resistiam aos ataques do inimigo, o mais possível. Os romanos, ao contrário, cheios de entusiasmo e de coragem, combatiam valentemente e procediam como homens de bem, tanto mais que a luta se desenrolava ante os olhos do mesmo Cipião e de todo o exército, de sorte que os grandes feitos e atos de heroísmo não podiam ficar escondidos. Por isso jamais desistiram do assalto, até que, tendo empregado todas as suas forças, subiram às muralhas e, entrando no campo dos inimigos por vários lugares, puseram-nos em fuga. Asdrúbal, general dos cartagineses, salvara-se rapidamente, com poucos dos seus, antes que os romanos entrassem na fortaleza. Depois dessa batalha, Cipião, segundo o seu costume, fez vir à sua presença todos os prisioneiros espanhóis e os mandou ir em liberdade, sem pagar resgate algum. Encontrou entre os prisioneiros um jovem de sangue real, sobrinho de Massinissa, ao qual, depois de haver tratado muito gentilmente, mandou a Massinissa, com grandes e valiosos presentes, querendo assim dar a entender que o chefe de um exército não deve ser menos ornado e rico de liberalidade e de outras virtudes civis, como de todas as artes bélicas. Pois o fim da guerra é a vitória, cujo fruto se cifra principalmente na liberalidade e na clemência. De aí vem a glória e todos os louvores dos generais, como acontece nas coisas de que falamos. Um grande grupo de espanhóis, que estava presente, admirando a clemência do general romano, não se pôde conter, e, para prestar-lhe uma homenagem e recompensar sua virtude, chamaram-no de rei. Mas Cipião abafou repentinamente essa palavra, que era desusada aos ouvidos dos romanos e não quis de modo algum aceitar esse título, que ele sabia odioso aos homens de bem do seu país e à liberdade romana. Somente advertiu os espanhóis de que, se queriam mostrar-se gratos para com ele, usassem sempre de toda lealdade e benevolencia para com o povo romano. Enquanto Cipião fazia estas coisas, os dois outros generais cartagineses, depois de ter sabido da derrota de seus soldados, perto de Bétula, apressaram-se em se reunir e logo depois foram encontrar-se com Asdrúbal Barciniano, para, de comum acordo, pensar nos preparativos da guerra. Depois de terem parlamentado entre si e examinado cuidadosamente todas as coisas, resolveram que Asdrúbal Barciniano iria à Itália, onde estava seu irmão Aníbal e onde se travava o mais forte da luta: Mago e o outro Asdrúbal ficariam na Espanha, fariam vir reforços de Cartago e não se combateria contra os romanos, até que, depois de ter reunido os reforços e os socorros que aguardavam, tivessem formado um poderoso exército. Depois que Asdrúbal se fora para a Itália (11), Hanno foi mandado de Cartago para ocupar o seu lugar: ele, de passagem, quando tentava fazer revoltar-se a Celtiberia, M. Silano veio atacá-lo, por ordem de Cipião, e foi tão feliz que o venceu e o aprisionou.

Tomada de Aurinx.

IX. Havia uma cidade que os naturais do lugar chamavam de Oringe (12), que era muito rica e muito propícia para renovar a guerra. L. Cipião para lá foi mandado com uma parte do exército, para cercá-la: mas, achando o lugar muito bem defendido para poder tomá-lo de assalto, rodeou a cidade e, poucos dias depois, tomou-a e saqueou-a. O inverno aproximava-se muito forte e o tempo parecia admoestá-los a se retirarem aos seus quartéis de inverno. Pelo que, depois de ter tido tanto êxito nessas empresas, Cipião retirou-se para Tarragona, Mago e Asdrúbal, filho de Gisgo, para o mar (13).

Cipião vence o outro Asdrúbal e Magon.

X . No verão seguinte, a guerra recomeçara mais forte do que nunca, na última Espanha; os romanos e os cartagineses reuniram-se perto de Bé-tula e se chocaram em dura batalha. Depois de terem combatido por muito tempo, Cipião venceu, pondo os inimigos em fuga (muitos, porém, ficaram no campo da luta), sem lhes dar oportunidade de se reunir nem de resistir, nem de enfrentá-lo; perseguiu-os com tanta violência que Asdrúbal e Mago foram obrigados a deixar a terra firme e se retirar a Gades, depois de ter perdido quase todo o exército. Havia no exército dos cartagineses um jovem de grande coragem e prudência, de nome Massinis-sa, o qual, tendo ocasião de falar secretamente com Silano, abriu-lhe o primeiro caminho da amizade, quer tenha sido levado a fazê-lo pela liberalidade de Cipião, quer porque julgava ter chegado o tempo mais seguro para seguir o partido dos romanos vitoriosos. Foi esse mesmo Massinissa quem, depois, por meio dos romanos, tornou-se o mais poderoso rei da Numídia e em muitas coisas foi assaz útil sua amizade e proveitosa aos romanos. Por fim, naquele ano (14), que era o décimo-quarto da segunda guerra Púnica, a Espanha foi a primeira nação, das que estão no continente, que foi dominada pela exímia habilidade do vice-cônsul Cipião: foi, todavia, a última a ser reduzida à forma de província, muito tempo depois, por César Augusto.

Vai à África onde faz aliança com Sífax.

XI. Cipião, não contente com os grandes feitos realizados em bem pouco tempo na Espanha (pois já tinha abraçado, em seu espírito, também a África), julgou que seria melhor empregar e tentar todos os meios possíveis para atrair à amizade dos romanos a Sífax, rei dos masesílios. Pelo que, depois de ter experimentado o ânimo do rei, vendo que êle era bastante propenso a fazer aliança com o povo romano, deixou de lado, incontinenti, todos os outros empreendimentos e velejou para a África, somente com duas galeras de cinco remos cada banco. Nesse mesmo tempo chegou, de Gades, Asdrúbal, filho de Gisgo: de sorte que esses dois valorosos e ilustres generais compareceram perante o rei, como estando ambos avisados do fato, a fim de pedir, à porfia, sua amizade e suas boas graças, para os seus interesses públicos. Sífax recebeu-os em seu palácio, muito gentil e atenciosamente, e deu ordem que ambos comessem à mesma mesa e dormissem no mesmo quarto, a fim de que não parecesse que um era preferido ao outro. Diz-se que Asdrúbal, maravilhado pela magnanimidade e bom espírito de Cipião, que êle via agora em sua presença, percebeu o grande perigo que corria então sua cidade e mesmo toda a África, por causa daquele homem. Pois o via ainda jovem, decidido e excelente em todas as virtudes, e que contava já com inúmeras vitórias: pelo que lhe parecia evidente que, na flor da idade, jamais se poderia convencê-lo a preferir a paz antes que a guerra. Temia, portanto, que Sífax, levado pela presença e pela autoridade dele, tomasse o partido dos romanos: e nessa suspeita não foi enganado. Pois embora Sífax a princípio se mostrasse inclinado a favorecer a ambos e tivesse tido o propósito de pôr um fim à guerra entre romanos e cartagineses, todavia, logo depois, quando Cipião lhe disse que êle nada podia decidir com relação à paz, sem o consentimento do senado, êle pôs Asdrúbal de lado e acedeu aos desejos de Cipião, fazendo aliança com o povo romano.

Perturbações causadas por uma enfermidade de Cipião.

XII. Voltando Cipião à Espanha, submeteu e tomou, parte com seu próprio poder e força, e reduziu à obediência, parte também com o concurso de L. Márcio, as cidades de Ilitúrgio (15), Castillo e alguns outros lugares que se recusavam submeter à dominação romana. E, para que nada faltasse em toda sorte de divertimentos, depois de ter levado a cabo tão grandes feitos, chegando a Cartago, a nova, mandou preparar com grande aparato os jogos, as lutas e outros certames ainda, aos quais compareceram grandes personagens, não somente para assistir aos referidos jogos, mas também para exibir-se nas lutas. Dentre tantos espanhóis ilustres, dois se apresentaram chamados Corbis e Orsua, que estavam incompatibilizados por causa da realeza: naquele dia eles terminaram a briga, pois um foi morto pelo outro. O combate foi enfadonho aos espectadores e aos assistentes e a morte de um deles ainda mais enfadonha e aborrecida, pois eram pri-mos-irmãos. Depois disso, Cipião pensava continuamente nos negócios de maior importância, que não aqueles que havia até então realizado, quando adoeceu. Divulgou-se esta notícia por toda a Espanha e, como acontece freqüentemente, tendo-se julgado que a doença era muito mais grave e perigosa do que era pela voz que corria, não somente as nações da Espanha se moveram na esperança de mudanças e novidades, mas também o exército dos romanos, que êle havia deixado em Sucro. Primeiro a ordem e a disciplina militar enfraqueceram pela ausência do comandante, depois a notícia da sua doença e do perigo de vida provocou no exército tal agitação que alguns, não se inquietando absolutamente com a autoridade e o comando dos chefes de grupos, os expulsaram e escolheram para seus comandantes dois simples soldados, que consentiram em receber o título que lhes havia sido dado por homens de nenhuma autoridade, e, o que é pior, mandaram levar diante deles os feixes de varas e os machados. Tal é muitas vezes a ambição e a loucura, que transtorna os corações dos homens . Por outro lado, os espanhóis não ficaram quietos e, principalmente, Mandônio e Indibile, que, aspirando à realeza na Espanha, se tinham refugiado junto de Cipião, seu vencedor, depois da tomada de Cartago, a nova. Mas depois, estando aborrecidos por ver o poder dos romanos estender-se continuamente, procuravam alguma ocasião de dar outro rumo aos acontecimentos. Depois de ter sabido da doença, não somente, mas da próxima morte de Cipião, e de ter acreditado nisso, organizaram imediatamente um exército e foram fazer guerra aos suesitanos (16), que eram aliados e amigos do povo romano.

Como êle castiga os chefes de uma rebelião suscitada entre os soldados.

XIII. Cipião, porém, entrou em convalescença e, assim como pela falsa notícia da sua morte haviam sido suscitadas muitas desordens, assim também todos se viam agora atemorizados quando vieram a conhecer a verdade e ninguém mais ousou pensar em qualquer modificação ou novidade. Cipião, mais habituado a tratar de assuntos de guerra externa do que destas sedições internas, civis e particulares, embora estivesse muito aborrecido com os soldados faltosos, todavia, a fim de que, dando largas à sua ira, não se pensasse que êle exorbitara dos limites da razão, punindo-os, êle relatou tudo ao conselho. A maior parte era de opinião que se devia castigar a todos os que haviam sido causa do tumulto e perdoar aos demais: "Porque, por este meio, diziam eles, far-se-á que o castigo atinja apenas uns poucos e que a todos servirá de exemplo". Cipião seguiu este conselho e mandou imediatamente chamar a Cartago, a nova, os grupos sediciosos, para virem receber o castigo. Os soldados obedeceram a esta ordem, uns fazendo sua falta mais leve do que realmente era, como habitualmente os homens se desculpam reciprocamente, outros confiando na bondade do general, que eles sabiam não ser muito rigoroso em castigar. "Pois se costumava dizer que êle preferia salvar a vida de um cidadão do que matar mil inimigos". Corria assim a voz que Cipião tinha ainda um outro exército pronto, que êle esperava para juntar ao seu, e depois ir atacar os reis que faziam a guerra aos suesitanos. Por isso, partindo de Suero, com esperança de alcançar perdão, eles vieram a Cartago. Mas no dia seguinte, quando já haviam entrado na cidade, mandaram-nos vir à praça, tiraram-lhes as armas e as legiões os rodearam. Então, o general romano, subindo ao assento do juiz, apresentou-se a todos com tanta saúde e tão boas disposições como nunca antes tivera em sua vida e na sua juventude. Depois fêz um discurso, muito severo e cheio de amargas queixas, de sorte que não havia um sequer dentre os soldados desarmados que ousasse levantar os olhos do chão e fitar seu comandante, pela grande vergonha que sentiam. O remorso pela falta cometida e o temor do suplício os espantavam ti-rando-lhes o juízo e a razão, e a presença de seu general os fazia corar de vergonha, tanto os inocentes como os culpados. Havia em todos um triste silêncio. Depois de ter acabado o discurso, fêz trazer à presença de toda a assembléia os principais autores da sedição, aos quais, depois de ter feito açoitar do modo costumeiro, mandou cortar as cabeças; este espetáculo foi espantoso e horrível aos circunstantes.

Derrota Mandônio e Indibile.

XIV. Acalmado este incidente, Cipião fêz os soldados proferirem outro juramento e logo declarou guerra contra Mandônio e Indibile. Estes, refletindo de como os soldados romanos que haviam provocado a sedição no acampamento haviam sido castigados, perderam toda esperança de perdão: pelo que, tendo organizado um exército de vinte mil homens de infantaria e dois mil de cavalaria, marcharam contra os romanos. Cipião, tendo sabido disto, antes que os reis pudessem aumentar a sua força e que outras nações se rebelassem, apressou-se em partir de Cartago e o mais depressa possível correu para enfrentar o inimigo. Os reis estavam acampados num lugar bem defendido e confiavam de tal modo em seu exército, que tinham deliberado nao provocar o inimigo, nem tampouco recusar a batalha se fossem provocados. Mas aconteceu, por causa da proximidade dos dois acampamentos, que, poucos dias depois, aqueles irritados e provocados pelos romanos atacaram-nos em batalha organizada e chocaram-se ambos os exércitos, de modo que durante algum tempo a luta foi áspera e dura. Mas, os espanhóis, vendo-se cercados pela retaguarda e obrigados a combater em círculo, para mostrar a frente a todos os lados, foram afinal vencidos. Com grande dificuldade a terceira parte deles salvou-se na fuga. Mandônio e Indibile, vendo que para eles tudo estava perdido e que não havia mais remédio nem esperanças, mandaram embaixadores a Cipião para suplicar-lhe humildemente que os recebesse para uma entrevista e para pedir-lhe perdão. Mas Cipião, ainda que bem soubesse quanto eles o haviam insultado, a ele e ao povo romano, todavia, julgando que não era menos honroso vencer os inimigos pela doçura e pela clemência, do que pelas armas, perdoou-os, ordenan-do-lhes apenas que fornecessem o dinheiro para pagar os soldados.

Entrevista e aliança entre Cipião e Massinissa.

XV. Nesse mesmo tempo Massinissa partiu de Gades e veio para terra firme, a fim de confirmar pessoalmente a amizade que, ausente, havia oferecido a Cipião, por meio de M. Silano; ao mesmo tempo, para falar-lhe pois o julgava excelente pessoa, pelos seus gestos e grandes feitos. Massinissa não ficou desiludido, quanto à opinião que havia formado, da virtude de Cipião e achou que, na realidade, êle era como o havia imaginado, o que todavia acontece raramente. Pois, além dos grandes dons de espírito que Cipião tinha acima dos demais, êle ostentava não sei que de beleza unida à majestade soberana, digna mesmo de um grande imperador. Era ainda muito afável e gracioso, delicado para com os que a êle se dirigiam, eloqüente em seu falar, e possuía um encanto singular para conquistar o coração de todos. Era venerável em seus costumes e em sua maneira de agir, tinha cabelos compridos. Massinissa, tendo vindo saudá-lo, logo que o viu, foi tomado de tal admiração, como se diz, que dele não podia afastar os olhos, nem contentar-se em fitá-lo. Êle agradeceu-lhe sentidamente, por ter-lhe restituído o sobrinho, e prometeu-lhe que confirmaria deveras a amizade firmada entre eles: e certamente a conservou inviolável, ao povo romano, desde então até à morte.

Cipião volta a Roma.

XVI. Tod os os povos da Espanha já reconheciam o império dos romanos, ou eram seus aliados, por isso os de Gades, seguindo o exemplo dos demais, vieram também entregar-se aos romanos. Ê esta uma nação muito antiga e, se nos é lícito crer na fama, assim como Cartago na África, Tebas na Beócia, são repovoamento dos tinos, assim igualmente Gades que está junto do mar. Cipião, depois de ter reconquistado a Espanha e expulsado os cartagineses, vendo que nada mais lhe restava a fazer na sua empresa, deixando o governo da província a L. Lêntulo e Mânho Acídio, voltou a Roma. Tendo chegado, o senado deu-lhe audiência, fora da cidade, no templo de Belona, onde, depois de ter relatado ponto por ponto toda a empresa por êle valente e felizmente levada a cabo, de ter notificado da sua vitória em batalhas organizadas, sobre quatro grandes generais, de ter derrotado quatro exércitos dos inimigos, de ter expulsado os cartagineses da Espanha, e que não restava nação alguma daquelas partes que não estivesse sujeita à dominação romana, o senado julgou que esse feito era digno de magnífico triunfo (17) . Mas, como ainda não era permitido a ninguém entrar em triunfo na cidade, por feitos de valor, pois êle era apenas vice-cônsul, e não tinha ofício de magistrado, os senadores foram de opinião contrária e Cipião mesmo não fêz caso algum disso, não querendo que, por sua causa, se viesse a mudar um antigo costume.

É nomeado cônsul.

XVII. Depois que entrou na cidade, êle foi declarado cônsul de comum e voluntário acordo, por toda a assembléia (18). Diz-se que jamais se reuniu em Roma tanta gente, como então, não tanto para participar da assembléia, como para ver P. Cornélio Cipião. Pelo que, não somente os romanos mas também os estrangeiros, tinham seus olhares fitos nele somente e diziam, em público e em particular, que êle devia ser enviado à África, para fazer de perto a guerra aos cartagineses. Cipião era da mesma opinião e disse que pediria a opinião do povo, se o senado se opusesse a essa louvável empresa. Pois havia mesmo alguns dentre os padres que resistiam, e muito, a essa opinião, e dentre outros principalmente Fábio Máximo, homem de soberana autoridade. Cipião opinava em contrário, mostrando com vivas razões que era aquele o único recurso para se vencer os cartagineses e de poder expulsar Aníbal para fora da Itália, e que todos os outros meios eram inúteis.

Passa para a Sicilia.

XVIII. Depois de terem longamente debatido o assunto, a Sicília foi entregue a Cipião e lhe foi permitido, pelo senado, passar com todo seu exército à África, se êle julgasse útil e proveitoso para as coisas públicas. Este decreto do senado foi publicado e todos já imaginavam grandes feitos que pensavam conseguir na África e tinham grande esperança de pôr um fim a essa guerra. Mas Cipião via grandes dificuldades em fazer os seus preparativos, por causa da pobreza do erário público e pela falta de moços, cujo flor e elite estava assaz dizimada pelas perdas anteriores, quando das lutas contra Aníbal. Todavia, para satisfazer à confiança que tinham nele, e no que esperavam dele, empregou todos os seus esforços para ultimar os seus preparativos e as coisas necessárias para a guerra. Vários povos da Toscana e da Um-bria ofereceram-se para ajudá-lo na medida de suas posses, uns dando-lhe madeira para os navios, outros, armaduras, outros, ainda, o trigo e toda espécie de munição de víveres para o sustento do exército. Estando terminados os navios e equipada a esquadra, em apenas quarenta e cinco dias, o que para alguns poderia parecer incrível, Cipião partiu da Itália e tomou o caminho da Sicília. Mas, quando ele passou em revista o exército, escolheu principalmente os que há longo tempo haviam já manejado as armas, sob o comando de M. Marcelo, e que eram tidos como excelentes soldados.

Como conquista o coração dos sicilianos.

XIX. Mas os sicilianos, êle os conquistou parte pela sua amabilidade, parte pelo seu rigor, obrigando-os a dar socorro e auxílio para a guerra que êle tinha a empreender e que haviam determinado levar a cabo na África, logo que a estação do ano o permitisse. Diz-se entre outras coisas que Cipião escolheu, em diversas cidades, trezentos moços, os mais nobres de toda a província, e mandou que comparecessem, certo dia, com armas e cavalos. Eles se encontraram no dia aprazado, como lhes fora mandado, e o cônsul lhes propôs a escolha, ou segui-lo para a África ou dar armas e cavalos a tantos outros quantos eles eram. E como todos pediam dispensa da guerra, Cipião substituiu-os por trezentos jovens romanos, que êle tinha levado consigo sem armas, para fora da Itália, a fim de os equipar às expensas dos sicilianos, como aconteceu. Depois serviu-se deles muito bem na África, em vários encontros. Era tempo de levar o exército aos quartéis para invernar, quando Cipião, querendo dar ordem não somente aos aparatos de guerra mas também aos negócios da Sicília, veio a Siracusa. Lá veio a saber, por queixas de vários, que havia naquela cidade uma quantidade bem grande de soldados italianos que não queriam restituir a presa de guerra, embora já por várias vezes lhes houvesse sido ordenado que o fizessem, isto é, restituí-la aos siracusanos, por ordem do senado; êle os obrigou imediatamente por editos e decretos a cumprir o que o senado tinha determinado. Por esse fato êle conquistou as boas graças do povo de toda a Sicília, e a fama e o renome de ser justo e amigo da honestidade .

O negócio de Plemínio.

XX. No entretanto, êle foi avisado por C. Lélio que voltara da África, com grandes despojos, de que o rei Massinissa esperava sua volta com grande afeto e devotamento e lhe pedia mesmo que passasse à África o mais depressa possível, se o pudesse fazer sem prejuízo dos negócios públicos. Que várias nações da África o desejavam igualmente, as quais, detestando a dominação dos cartagineses, não pediam outra coisa senão a oportunidade de realizar uma reviravolta na situação. Esta viagem não tinha sido diferida por falta ou negligência de Cipião, pois dificilmente se encontrará um comandante mais diligente do que êle, no desempenho dos negócios públicos. Mas os interesses da Sicília e a oportunidade de retomar Locres im-pediram-no e êle não pôde realizar a empresa segundo sua vontade. Além disso, o assunto de Ple-mínic, seu lugar-tenente, interessava-o de perto, pois, tendo-o deixado em Locres, êle tinha praticado toda espécie de ultrajes, de imoralidade e de rapina contra os pobres cidadãos, de modo que todos eles, irritados por aquelas ofensas e vilanias, resolveram suportar tudo, antes que ficar submetidos à dominação de homem tão mau e tão hostil. Os embaixadores de Locres chegaram a Roma e queixaram-se em pleno senado das ofensas e ultrajes recebidos de Plemínio; os padres tomaram-no tanto a peito que foram publicados severos decretos, não somente contra Plemínio, mas também contra P. Cipião.

O senado manda uma comissão para examinar o proceder de Cipião.

XXI. Por isso os inimigos e invejosos tomaram motivo para caluniar a Cipião e ousaram mesmo afirmar que êle bem soubera dos ultrajes de Plemínio contra os locrenses, bem como da rebelião dos soldados, e que tinha tolerado todas essas coisas com muito pouco caso, o que não era, nem digno, nem próprio de um cônsul. Eles acrescentavam, ainda, que o exército que êle tinha na Sicília esta va todo desorganizado e era inútil, que êle não se incomodava com as determinações do seu campos que o mesmo comandante fazia pouco caso, e que se havia entregue a toda ociosidade e luxúria. E, dentre todos os outros, Fábio Máximo mostrava-se tão ofensivo em suas palavras, que ultrapassava os limites da razão; êle era de opinião que se devia tirá-lo da Sicília e privá-lo do governo. Esta deliberação pareceu muito forte e excessivamente rigorosa. Pelo que, seguindo o conselho de Q. Me telo, os senadores enviaram dez embaixadores à Sicília, para indagar, cuidadosamente, se as acusações feitas contra Cipião procediam e eram verdadeiras; se eles o julgassem culpado, fizessem-no imediatamente regressar à Itália, por ordem do senado: mas se injustamente o houvessem acusado, somente por instigação dos invejosos e caluniadores, que eles o enviassem ao seu exército e o animassem calorosa e corajosamente, a começar a guerra. Chegaram os embaixadores à Sicília e, depois de diligente indagação a respeito do que haviam sido encarregados, nada puderam constatar de que Cipião fosse culpado, a não ser que êle havia tido em pouca conta as injúrias e ultrajes feitos por Plemí-nio aos locrenses. Cipião era liberal em recompensar seus homens, mas suave e clemente em castigar. Mas, quando eles viram o seu exército, seus navios, todos os seus aparelhos e equipagem de guerra, diz-se que ficaram tão maravilhados da abundância e boa ordem de todas as coisas, que, ao depois, voltando à cidade, louvaram muito a Cipião e, rejeitando todas as calúnias dos invejosos, deram soberana esperança da vitória ao senado e ao povo romano.

Embaixadores de Sífax a Cipião.

XXII. Eliminados então todos os impedimentos, por aquele lado, vieram outras atrapalhações do exterior, que lhe perturbaram muito o espirito. Pois os embaixadores do rei Sífax lhe vieram dizer que êle tinha feito nova aliança com os cartagineses e tinha contraído parentesco com Asdrúbal, cuja filha havia desposado; e por isso êle o advertia de que, se queria favorecer os interesses próprios, nada empreendesse na África, porque êle tinha deliberado ter como amigos os que os cartagineses considerassem como tais e atacar, também, os que atacassem aos cartagineses, considerando-os como inimigos. Cipião despediu imediatamente esses embaixadores mandando-os de volta a Sífax, a fim de que a causa, pela qual eles haviam vindo, não se divulgasse no seu acampamento e entregou-lhes cartas pelas quais êle lhe pedia que, lembrando-se da aliança e da palavra dada, cuidasse de nada fazer indigno do nome romano e de sua palavra de rei.

Passa para a Africa.

XXIII. Depois, mandando reunir seus homens, disse-lhes que os embaixadores de Sífax tinham vindo à Sicília para queixar-se de sua longa demora, como Massinissa havia feito antes. E por isso era necessário apressar-se para passarem à África; ordenava, pois, a todos os soldados que se preparassem e se munissem de todas as coisas necessárias para a viagem. Este edito do general romano foi publicado por toda a Sicília e chegou imediatamente a Lilibeu uma grande multidão de gente, não somente dos que deviam partir para a África, mas também daqueles que tinham vindo ver a frota e a esquadra dos romanos, porque jamais haviam visto outra mais bem equipada do que aquela, nem mais bem provista de tudo o que era necessário, nem mais bem guarnecida de soldados. Cipião, vendo que tudo estava preparado, partiu de Lilibeu (19) com tão grande desejo de atravessar o mar, que lhe parecia que, nem os ventos, nem os remos cumpriam fielmente o próprio dever. Em poucos dias, porém, ele foi levado até o promontório a que chamam de Beau (20) e lá fêz desembarcar todo o exército.

Obtém uma vitória contra Hanno.

XXIV. A notícia da sua chegada foi logo levada até Cartago e toda a cidade ficou terrivelmente perturbada, tanto que logo deram o alarme e puseram guardas às portas e sobre as muralhas, como alguns deixaram escrito. Pois desde M. Régulo até aquele dia, haviam-se passado quase cinqüenta anos, que nenhum general romano entrava na África com o seu exército. Não sem motivo, portanto, todos estavam cheios de medo e de terror. O nome de Cipião aumentava-lhes ainda mais o medo, pois os cartagineses não sabiam que general opor contra êle ou mesmo que a ele se comparasse. Asdrúbal, filho de Gisgo, era então considerado um grande general, mas eles bem sabiam que êle fora vencido e expulso da Espanha, por Cipião. Todavia, tinham grande esperança de salvar a cidade com êle e com Sífax, rei mui poderoso, e, assim, nao deixaram de rogar a um e de incitar ao outro, que os ajudassem e prestassem assistência aos interesses da África, o mais depressa possível. E quando eles estavam para reunir seus exércitos, Hanno, filho de Amílcar, que fora destacado para defender o país vizinho, apareceu diante dos romanos. Cipião, depois de ter saqueado a planície da região e enriquecido seu exército com grandes presas, tinha acampado perto da Útica, para reduzir ao seu poder, se fosse possível, tão poderosa cidade, tão nobre, cômoda e propícia para a guerra, por mar e por terra. Nesse mesmo tempo Massinissa chegara ao acampamento dos romanos, ardendo num desejo insaciável de levar a guerra a Sífax, porque pouco antes havia sido expulso por êle do seu reino paterno. Cipião, que o havia conhecido na Espanha, como jovem de bom espírito, decidido e valente, mandou-o observar o exército inimigo, antes que os cartagineses reunissem uma tropa maior e ordenou-lhe que por todos os meios possíveis procurasse atrair Hanno à batalha. Massinissa, como lhe fora mandado, começou a provocar e a irritar o inimigo, atraindo-o pouco a pouco, levou-o para onde Cipião estava, com suas legiões armadas, aguardando a ocasião propícia. O exército dos inimigos estava já cansado, quando os romanos se apresentaram diante dele, com seus homens descansados e dispostos à luta, e assim os atacaram. Hanno foi vencido ao primeiro ímpeto dos soldados e morto com uma parte de seus homens. Todos os outros, voltando as costas, começaram a correr para cá e para lá, cuidando cada qual em se salvar como podia.

Como Cipião vem a saber das condições do acampamento de Sífax e de Asdrúbal.

XXV. Depois desta vitória, quando Cipião voltava para sitiar Útica, a repentina chegada de Asdrúbal e de Sífax fizeram-no desistir da empresa, os quais traziam também consigo um grande e poderoso exército de infantaria e cavalaria, e puseram seu acampamento bem próximo do dos romanos. Cipião, vendo isso, levantou imediatamente o cerco e foi fortificar seu acampamento, junto de um promontório, do qual podia enfrentar o inimigo, provocar e cansar os habitantes de Útica e defender seus navios que lá estavam ancorados. Mas a estação fria havia chegado e eles tiveram de retirar seus exércitos, para recolhê-los aos quartéis de inverno; determinou, então, mandar embaixadores a Sífax, para sondar-lhe a vontade e afastá-lo da amizade dos cartagineses, se possível. Pois bem sabia que ele era de tal modo incitado pelas núpcias de Sofonisba, impelido a tal excesso pelas carícias e palavras dela, que não somente havia deixado a amizade dos romanos, mas, o que ainda era pior, queria destruí-los contra a sua palavra dada. E, se êle começasse a se aborrecer e a se saturar dela, pensava que então poderia ainda retratar-se. Sífax, tendo sabido o que Cipião lhe mandava dizer, respondeu que verdadeiramente era tempo, não somente de deixar a aliança dos cartagineses, mas até de deixar todo e qualquer pensamento de guerra e prometia ser um bom medianeiro de paz. Cipião escutou de boamente estas advertências, mas suspeitou de nova artimanha. Escolheu os melhores soldados do seu exército, aos quais vestiu como escravos, e os mandou em companhia dos embaixadores, dizendo-lhes o que eles tinham que fazer. Eles, enquanto os embaixadores e Sífax parlamentavam, discutindo os artigos e as condições da paz, como a conversa se prolongava por muito tempo, mais do que de costume, foram-divertir-se no acampamento dos inimigos, observando todas as entradas e saídas, como Cipião lhes havia mandado. Depois de ter feito iss,o várias vezes, voltaram a Cipião.

Derrota a ambos, completamente.

XXVI. Houve tréguas por um certo tempo; expirado este, Cipião fingiu (como desesperando-se de poder entrar num acordo) fazer preparar as armas, equipar a esquadra e aprontar as máquinas de guerra para voltar a sitiar Útica, como já havia feito antes. Fez correr essa notícia por toda a região, para induzir seus inimigos a acreditar nela; mandou, porém, chamar todos os seus oficiais e declarou-lhes, de verdade o seu projeto. Avisou-os de que os dois acampamentos dos inimigos não eram separados um do outro, um deles tinha as tendas e os alojamentos feitos de madeira, e o outro, de juncos, que facilmente poderiam ser queimados. Assim, tendo feito chamar Massinissa e C. Lélio, deu-lhes o encargo de atacar à meia-noite o acampamento de Sífax e de incendiá-lo, e êle por outro lado, iria atacar os cartagineses. Fizeram eles sem demora quanto lhes fora ordenado, foram à hora aprazada atacar o campo dos númidas e atearam fogo nos caniços e juncos; imediatamente levantou-se uma grande chama, que se estendeu por todo o acampamento. Os númidas, pensando, a princípio, que o fogo havia sido casual, correram sem muita preocupação para extingui-lo, mas, quando se encontraram entre as legiões, que os iam matando sem dó, vendo-se cercados de todos os lados, resolveram fugir. Por outro lado, no exército onde Cipião se encontrava, o acampamento dos cartagineses foi quase totalmente incendiado do mesmo modo e os inimigos, repelidos, deram-se à fuga, com tal mortandade, que, como alguns escrevem, naquela noite ficaram mortos no campo bem uns quarenta mil homens cartagineses e númidas (21) .

Nova vitória de Cipião.

XXVII. E sta derrota foi conhecida em Cartago e de tal modo assustou e encheu de terror os camponeses e os habitantes, que muitos foram logo de opinião que se chamasse a Aníbal da Itália: outros, que era preciso pedir a paz a Cipião. O partido Barciniano, porém, que era poderoso e rico, e de todo contrário aos que queriam a paz, tanto fez, que novamente arrolaram homens, para se continuar a guerra. Sífax então e Asdrúbal reuniram grande multidão de homens de infantaria e cavalaria, refizeram o exército, mais depressa do que se poderia ter imaginado, e logo vieram acampar bem em frente ao inimigo. Cipião, vindo a saber deste fato, não quis também protelar e veio imediatamente dar-lhes combate, enquanto seus homens ainda estavam animados e cheios de esperança. Aconteceu, no início, por causa da proximidade dos dois exércitos, que se deram algumas escaramuças: mas, finalmente, os exércitos se entrechocaram e os romanos combateram com tal violência, que, ao primeiro ímpeto, puseram em fuga os númidas e os cartagineses e fizeram era pedaços uma grande porção deles. Asdrúbal e Sífax salvaram-se fugindo às pressas daquela mortandade. Cipião mandou Massimssa e C. Lélio com a cavalaria ligeira para persegui-los.

Sífax é ainda vencido e feito prisioneiro.

XXVIII. Sífax ch egou à Numídia e, de lá, ao seu reino paterno e hereditário; reuniu às pressas um exército de toda a espécie de gente e veio encontrar Massinissa e C. Lélio, não hesitando em dar-lhes combate. Todavia, ele o fêz impensadamente, porque não estava tão bem preparado quanto seu inimigo, nem era tão forte como ele, nem em número de combatentes, nem em igualdade de soldados: porque nem estes, nem os oficiais do seu exército podiam ser comparados aos soldados e aos oficiais dos romanos. Por isso, êle foi facilmente vencido por homens tão belicosos e, o que foi pior, caiu prisioneiro na luta, com outros grandes personagens: o que Massinissa teria jamais ousado imaginar e desejar: trouxe-os depois à presença de Cipião. A princípio todos se admiraram e se alegraram quando se soube que traziam Sífax e outros, como prisioneiros: mas, quando o viram amarrado e manietado, todos se compadeceram, pelo seu miserável estado e pela recordação que tinham da sua grandeza e majestade. Ainda, lembravam-se de como fora grande a fama desse rei, quão ingentes as suas riquezas e a potência do seu reino: e vendo-o precipitado de tão alto a este estado de miséria, eles sentiram piedade. O general romano os recebeu cordialmente e com humanidade, falando com ele, perguntou-lhe que motivo o havia feito mudar de resolução e o tinha levado a fazer a guerra aos romanos. Então o rei, lembrando-se da antiga amizade e da palavra dada, respondeu-lhe, francamente, que o amor que dedicava à sua esposa Sofo-nisba o havia incitado a proceder com tanta fraqueza e injustiça contra os romanos mas bem logo teria recebido o castigo, que aos outros serviria de exemplo, para evitarem de faltar à palavra dada. Todavia, foi-lhe de grande alívio, em sua adversidade extrema, ver seu inimigo mortal, Massinissa, tomado também pela mesma raiva e furor que êle.

Massinissa casa-se com Sofonisba e manda-lhe veneno.

XXIX. Depois que Sífax fora vencido e aprisionado, Massinissa dirigiu-se a Cirte, capital do seu reino que êle capturou, e aí encontrou-se com Sofonisba, da qual se apaixonou: logo que ela começou a afagá-lo com mil carinhos, êle prometeu liyrá-la das mãos dos romanos e, a fim de melhor poder realizar a sua empresa, tomou-a como esposa. Cipião logo veio a saber de tudo isto, ficou bastante aborrecido. Sífax tinha sido vencido pelos romanos e, portanto, tudo o que lhe pertencia estava subordinado ao seu juízo: se, portanto, Massinissa, sem o seu consentimento, determinara defender a causa de Sofonisba, parecia com isso desprezar a sua autoridade de general e a majestade do povo romano. Além disso sua sórdida luxúria, que parecia intolerável, agravava tanto a sua falta, quanto a continência do general romano era maior, e que Massinissa tinha diante dos olhos, para poder imitá-lo. Pois Cipião, além de outras declarações e demonstrações de sua virtude, tinha-se sempre abstido das mulheres prisioneiras, por todos os lugares onde sempre fora vencedor. Estando, pois, muito indignado com Massinissa, embora nada manifestasse aos demais, recebeu-o amavelmente, quando êle voltou ao acampamento; todavia, pouco depois, chamando-o à parte, recriminou-o tão asperamente, que êle percebeu que tinha de obedecer a um general ao mesmo tempo assaz moderado e severo. Retirou-se, então, à sua tenda, chorando, não sabendo que deliberação tomar; mas, logo depois, vendo que lhe era impossível manter a promessa feita a Sofonisba, e que isso lhe causava grande angústia, mandou-lhe veneno com algumas indicações; ela bebeu-o e, assim, voluntariamente morreu.

Aníbal volta à Africa.

XXX. Finalmente, os cartagineses, depois de terem recebido tantas e tão graves perdas, vendo que as coisas tinham chegado ao extremo, de tal modo que eles já não podiam aspirar a aumentar seus domínios, mas unicamente cuidar em prover-se dos meios com que defender o próprio país, chamaram Aníbal, da Itália. Voltou êle apressadamente à África; antes do mais, pensou ser útil parlamentar com Cipião, relativamente à paz, quer porque temia o feliz êxito presente do jovem general, quer porque duvidava de poder de outra forma defender os interesses públicos do seu país, que estava prestes a se desmantelar. Determinou-se assim um lugar, onde se encontrariam, conforme êle havia pedido (22) : e, tendo lá chegado, conversaram longamente a respeito do término da discórdia. Finalmente, Cipião propôs a Aníbal condições tais, que parecia claramente que o povo romano não se aborrecia com a guerra e que êle mesmo, sendo jovem, tinha mais esperança de obter a vitória, do que grande desejo de fazer a paz. Pelo que, toda esperança de poder entrar em entendimento foi eliminada, o colóquio, interrompido, e, no dia seguinte, preparam-se para a batalha dois dos mais valentes, ilustres e nobres generais que se poderiam encontrar, para perder num momento ou dar aos seus países, o domínio e o império de todo o mundo.

É vencido em Zama por Cipião.

XXXI. o lugar onde dispuseram todas as suas forças e onde se travou tão memorável batalha foi perto de Zama (23), como se diz: na qual os romanos foram vencedores, pondo em fuga, primeiro, os elefantes, depois, a cavalaria e, depois, com incrível violência desbarataram todo o exército. Dizem que mais de quarenta mil cartagineses foram ou mortos, ou aprisionados pelos romanos. Aníbal, de tal morticínio, escapou são e salvo, depois de ter naquele dia feito o dever de um valente e ilustre general. Pois para esta batalha êle tinha organizado e preparado seu exército melhor ainda que para as batalhas anteriores, e o tinha reforçado, com a comodidade do lugar e com outros subsídios; no mais forte da contenda conservou-se ao lado dos soldados, tanto que os próprios inimigos louvaram-no como um soberano general. Depois desta vitória, Cipião, encontrando Vermina, filho de Sífax, que levava socorro aos cartagineses, pô-lo em fuga e levou seu exército até os muros de Cartago, julgando, como aconteceu, que os cartagineses lhe viriam suplicar a paz. Pois como os cartagineses haviam sido prontos e rápidos a encetar a guerra, agora eram fracos e sem coragem, principalmente vendo que seu general Aníbal havia sido derrotado, e porque nele depositavam todas as esperanças de poder conservar o seu país.

Cipião concede a paz aos cartagineses.

XXXII. Por isso, tendo perdido toda coragem, mandaram embaixadores a Cipião para implorar-lhe que usando da sua costumada clemência, lhes oferecesse a paz. Ora, havia em Roma grandes dissensões com relação à província da África e um dos novos cônsules apressou-se em vir para fazer a guerra com entusiasmo igual à sua dignidade. Por isso, Cipião, temendo que a glória de ter posto fim a tão difícil luta fosse atribuída a outro, deixou-se facilmente convencer pelos embaixadores dos cartagineses. As condições e os artigos da paz foram feitos aos cartagineses, segundo a vontade do vencedor, e, além de todas as demais coisas, toda a esquadra e todos os seus navios, nos quais eles depositavam ainda suas esperanças, lhes foram tirados. Quando a queimaram, ninguém pôde suportar semelhante espetáculo; ouviam-se choros e lamentações por toda a cidade, como se a mesma Cartago estivesse sendo destruída. Pois, segundo alguns, quinhentos navios de várias espécies foram queimados. Tais coisas nos devem prevenir, sobre a^ fragilidade humana, que nós esquecemos facilmente quando as coisas correm como nós queremos. Pois aqueles que antes tinham em suas mãos o império do mundo, depois de ter conquistado sobre os inimigos tantas vitórias, reduzido quase toda a Itália ao seu poder, sitiado tão atrevidamente a mesma cidade de Roma, em pouco tempo, foram depois reduzidos a tal extremo que, sendo esmagado quase todo o seu poder, nada mais lhes restavam que os muros de Cartago, e ainda esses mesmos não tinham eles muita certeza de os poder conservar, se não fosse por uma graça especial do inimigo.

Triunfo de Cipião.

XXXIII. Feito isto, Cipião, por decreto do senado não somente restituiu o rei Massinissa ao seu reino paterno, mas acrescentou-lhe uma boa parte do riquíssimo reino de Sífax e o fez um dos reis mais poderosos de toda a África; depois deu presentes a cada qual, segundo os próprios méritos. Finalmente, depois de ter ordenado os negócios na África e firmado a paz, reconduziu seu exército para a Itália: nesse tempo, afluiu a Roma uma grande multidão para ver o soberano general que voltava de tão extraordinária expedição, depois de tantos feitos de valor; por isso, êle entrou em Roma (24), num magnífico triunfo, seguindo-o Terêncio Culeo, senador, com uma coroa, porque, por meio dele, tinha sido livrado da . Políbio escreve que. o rei Sífax foi levado em triunfo, mas alguns dizem que êle morreu antes do triunfo de Cipião. É bem verdade, que muitos dos que também haviam triunfado, durante a guerra Púnica, e outros, durante a guerra Macedônica e Asiática, fizeram levar diante deles, em seu triunfo, muito mais vasos de ouro e prata, e levaram maior número de escravos. Mas, um Aníbal vencido e a glória de ter terminado essa guerra tornaram o triunfo de Cipião tão grande e tão célebre, que êle sobrepujou facilmente o ouro, e o aparato, e a pompa de todos os outros. Depois de subjugada a África, nenhuma outra nação houve que se envergonhasse de ser vencida pelo povo romano. Pelo que se fêz dessa província uma como espécie de degrau, para se aumentar e estender a potencia do império romano, tanto na Macedónia, como na Ásia e nas outras partes do mundo.

Cipião nomeado continuamente príncipe do senado.

XXXIV. Estando Cipião (que agora pos-so com muita razão chamar de Africano, depois da conquista da África) de volta a Roma, ele não deixou de receber dignidades e honras civis. Em assembléia que se teve, para a eleição dos censores, embora houvesse outros dentre as primeiras e mais nobres famílias da cidade, que pretendiam tal cargo, todavia ele e Élio Peto foram os preferidos a todos os demais: tendo sido criados censores, desempenharam seu cargo como homens dignos e de pleno acordo. Depois, os censores seguintes elegeram continuamente, um depois do outro, o Africano, para príncipe do senado, cuja dignidade se costuma somente atribuir aos que chegaram à suprema dignidade e honras por seus grandes feitos e benemerencias para com a causa pública. Pouco tempo depois ele foi de novo eleito cônsul (25) e lhe foi dado por companheiro Semprônio Longo, filho do mesmo Semprônio que Aníbal vencera naquela grande mortandade junto do rio Trébia. Foram os primeiros, diz-se, que colocaram separadamente os padres ou senadores, por trás do povo, em lugares reservados, para assistir aos jogos. Essa separação e distinção tornou-se assaz odiosa ao povo romano e o fêz muito hostil aos cônsules: porque parecia que com is. o se queria aumentar a honra dos senadores e diminuir e rebaixar a deles. Diz-se também que o Africano, mesmo, arrependeu-se de ter eliminado o antigo costume e introduzido o novo.

Cipião faz tocar a seu irmão Lúcio a província da Asia, oferecendo-se paru ser seu legado.

XXXV. Havia naquele tempo grande discórdia entre Massinissa e os cartagineses, com relação aos limites de suas terras; para apaziguá-los, o senado mandou Cipião com dois outros comissários, os quais, depois de terem ouvido a causa da discórdia, deixaram o assunto como estava, sem nada decidir. Isso fizeram, para que os cartagineses, preocupados com as discórdias civis, não se sobrecarregassem com outros problemas e tivessem que atender a outras coisas ainda. Havia mesmo uma grande guerra contra o rei (26), e Aníbal, o Cartaginês estava com êle, o qual não deixava de irritar os velhos inimigos, contra os romanos, de solicitar e de granjear outros, de aconselhar de todos os modos aos cartagineses que sacudissem o jugo da servidão que os romanos lhes haviam imposto sob o nome de paz, e a gozar a amizade dos reis. Mas, pouco depois, os romanos, tendo obtido a vitória, expulso a da , determinaram conquistai a África; e tinham assim posto seus olhos sobre o Africano, como pessoa a mais indicada para pôr um termo às guerras de grande importância. Mas L. Cipião e C. Lélio eram cônsules (27), e ambos porfiavam em ter o governo e a administração da Ásia. Foi o assunto posto em deliberação: o senado estava em grande dúvida de como daria o seu juízo sobre dois tão grandes personagens. Todavia, porque Lélio tinha maior prestígio perante os padres e os senadores e era mais estimado» o senado começou a se inclinar para o lado dele e queria entregar-lhe tal incumbência, quando P. Africano, irmão mais velho de L. Cipião, rogou o senado de não cometer tal vergonha contra sua família; disse que seu irmão tinha também grandes virtudes unidas à prudência e que êle mesmo seria seu ajudante. Não havia acabado de dizer estas palavras, que os senadores o receberam com grande alegria e desapareceu imediatamente toda dúvida. Determinaram, pois, em pleno senado que L, Cipião fosse à para fazer a guerra aos etólios, e de lá velejasse para a Ásia, se lhe parecesse bem, para fazer a guerra a , e levasse consigo a P. Cipião, a fim de o opor a Aníbal, que estava com o exército de .

Elogio da piedade fraterna e filial deCipião.

XXXVI. Quem não admiraria a piedade de P. Cipião, a qual desde sua juventude êle manifestou para com seu pai Cornélio, depois, também para com seu irmão Lúcio, estando os fatos neste pé? E, embora esse Africano houvesse vencido a Aníbal, triunfado sobre os cartagineses e sobrepujasse a todos os demais em louvor e nas virtudes bélicas, êle se submeteu de boa vontade ao comando do seu irmão, a fim de que êle fosse preferido na honra de ter a província, ao seu companheiro, que também era estimado e tinha grande prestígio. L. Cipião, como cônsul, granjeou para seu país grande glória com aquela guerra, tendo-se servido dos conselhos e da fiel mediação de seu irmão. Passando primeiramente pela Grécia, fêz seis meses de tréguas com os etólios, a conselho do Africano; o qual o aconselhava a deixar de lado todas as coisas, e a se dirigir imediatamente à Ásia, onde estava o forte da guerra. Depois, afastou da amizade de Antíoco a Prúsias, rei da Bitínia, que estava indeciso, sem saber a que lado pender, ainda por meio do Africano.

Antíoco restitui a Cipião, seu filho que tinha sido feito prisioneiro

XXXVII. Era também a autoridade do Africano bastante grande e todos os que queriam alcançar alguma coisa do cônsul dirigiam-se a êle, para que intercedesse perante o cônsul, e fosse igualmente seu advogado. Chegando à Ásia, o embaixador de Antíoco e Heráclides Bizantino vieram trazer-lhes palavras de acordo e de entrevista e, depois de terem publicamente declarado seu encargo, vendo que não podiam obter condições de uma paz equitativa, dirigiram-se particularmente ao Africano, como lhes fora ordenado, e procuraram por todos os meios trazê-lo à amizade do rei. Disseram-lhe que Antíoco lhe devolveria seu filho, que êle tinha aprisionado, que ainda o receberia de boa vontade como companheiro no governo e na administração de todo o seu reino, reservando-se somente o título de rei. Mas P. Cipião, não menor em lealdade e em bondade, do que soberano em todas as outras virtudes, depois de tudo, respondeu-lhe que, quanto ao filho, êle o receberia como um presente muito agradável e que a esse favor particular êle procuraria também retribuir com outro semelhante.. Todavia êle advertia ao rei de que, sobre todas as coisas, deixando qualquer cogitação de guerra, recebesse as condições de paz que o senado lhe oferecia, juntamente com o povo romano. Logo depois, Antíoco restituiu a P. Cipião o filho, como havia prometido, o qual havia sido aprisionado, como se diz, desde o começo da guerra, quando êle passava de Cáldide para Onco (28): ou, como dizem outros, quando êle atravessava em uma fragata. Ainda outros dizem que êle foi aprisionado quando fora espionar o conselho dos inimigos, e então restituído ao seu pai, que estava enfermo em Eléia.

Antíoco dá combate aos romanos

XXXVIII. Esta gentileza e cortesia do rei foi muito agradável ao Africano, e não sem motivo, pois, vendo seu filho, depois de tão grande ausência, seu espírito se reanimou e também o corpo, debilitado pelas doenças. P. Cipião, para dar um sinal de sua gratidão, mandou agradecer muito a Antíoco, por meio dos embaixadores, que tinham vindo com êle, pela ação gentil que praticara com ele, restituindo-lhe o filho. Depois o aconselhou a não empreender a luta, até que ouvisse que êle tinha voltado ao campo. Antíoco, movido pela autoridade de tal personagem, conservou-se por algum tempo em seu campo e deliberou fazer prolongar-se a guerra, por muito tempo, esperando poder ter alguma aproximação com o cônsul, por meio do Africano. Mas, depois, o cônsul estando acampado perto de Magnésia, irritando e provocando o inimigo, o rei não se pôde conter e veio ao seu encontro em batalha organizada. Diz-se que Aníbal esteve presente a essa batalha, sendo um dos chefes do rei.

Condições com as quais Cipião concede a paz.

XXXIX. Antíoco foi vencido e seu exército desbaratado; vendo que não havia mais remédio, dirigiu-se ao Africano, que, restabelecido de sua enfermidade, havia ido ao campo, depois de vencida a batalha, e, por meio dele, impetrou do cônsul poder tratar da paz. Chegando os embaixadores de Antíoco ao campo e tendo pedido perdão em nome de seu rei, rogaram que lhes apresentassem as condições de paz que quisessem; o Africano respondeu, em nome de todos, que não era costume dos romanos sucumbir ante a adversidade, nem se elevar ante a infelicidade dos outros: que êle lhe fazia as mesmas ofertas e as mesmas propostas que tinha feito antes da vitória; que o rei nada empreendesse sobre a Europa, que abandonasse toda a Ásia, desde o monte Tauro até o no Tanais (29), que pagasse tributo durante vinte anos, que lhe entregasse como reféns os que êle quisesse escolher e que antes de tudo lhe entregasse Aníbal, o Cartaginês, que era a causa e o autor de toda a guerra. Mas este, como já dissemos na sua vida, vendo que o poder de Antíoco havia sido aniquilado, tanto por mar como por terra, havia escapado das mãos dos romanos e se refugiara na ccrte de Prúsias, rei da Bitínia; Antíoco aceitara as condições da paz e disse que o povo romano usava para com êle de grande bondade, hvrando-o assim de grandes apreensões, concedendo-lhes tão pequeno reino. Pois os grandes reinos e as enormes riquezas, que todos no entretanto desejam, estão sempre tão cheios de preocupações, de aborrecimentos e imprevistos; que o que Teócrito escreveu não é menos verdade do que belo e elegante:

 

Eu não desejo ter todas as riquezas
do filho de Tântalo, menos ainda, saber
que os Ventos ligeiros e fugazes alcançam velozmente;
mas, que me seja permitido, ao longo de algum regato
claro e límpido, cantar a meu bel-prazer,
isento de toda preocupação, depois ter a satisfação
de contemplar do alto de um outeiro
as vagas do mar, por maiores e mais fortes que sejam.

Cipião chega ao auge das honras.

XL. Vencido o mais poderoso rei da Ásia e terminada, mesmo contra a opinião de todos, uma tão grande guerra, com relativa facilidade, o cônsul voltou a Roma e entrou na cidade (30) com grande e extraordinário triunfo. Mereceu ser chamado pelo nome da província por ele dominada, de modo que, como antes seu irmão tinha sido chamado de Africano, por ter subjugado a África, assim seria êle chamado de Asiático, por ter reduzido a Ásia à sua sujeição. E P. Cipião, por cujo conselho seu irmão Lúcio tinha levado a bom termo suas empresas, não ficou sem honra. Logo depois, dois nobres censores, T. Q. Flamínio e M. Cláudio Marcelo, elegeram-no príncipe do senado, pela terceira vez. Naquele tempo a família dos Cipiões e dos Cornéhos tinha recebido toda espécie de honras e a autoridade do Africano tinha chegado a tão alto grau, que um homem particular jamais teria desejado maior em uma cidade livre.

Acusado por dois tribunos do povo; como êle se defende

XLI. A inveja que se havia ocultado em corações mesquinhos, não podendo por mais tempo suportar esta sua grandeza, veio por fim a se manifestar e a recair sobre os autores de tão grandes coisas. Dois tribunos do povo, subornados, pelo que se diz, por Pórcio Catão, citaram a P. Africano (31), acusaram-no de ter retido as riquezas do rei Antíoco, de não as haver entregue ao tesouro público. Êle, porém, estando certo de sua inocência, mostrou-se obediente ao Magistrado e com singular tranqüilidade e absoluta segurança compareceu ao tribunal, onde pronunciou um discurso, falando dos seus empreendimentos, em proveito e utilidade das coisas públicas: a descrição dessas ações não foi tomada em má parte pelo povo, que estava presente, porque êle o havia feito mais para evitar a cilada que lhe haviam preparado do que por vã glória. Todavia, os tribunos, não contentes com isso, perseguiram-no forte e vivamente com injúrias e o acusaram de ser culpado, mais por suspeita do que por verdadeiras razoes. No dia seguinte, sendo de novo citado, êle compareceu à hora marcada, acompanhado de seus amigos; passou através da assembléia e subiu à tribuna dos discursos. Quando viu que todos haviam feito silêncio, êle disse: "Lembro-me, meus senhores, de que, certo dia como este, eu obtive uma grande vitória sobre Aníbal e os cartagineses; por isso, deixando de lado todo atrito e contenda, eü sou de opinião que vamos todos ao Capitólio, para dar graças a Deus por tão grande vitória" . Depois, partiu e toda a assembléia o seguiu, não somente ao Capitólio, mas a todos os templos da cidade, deixando o magistrado sozinho com seus auxiliares.

Retira-se para Linterno.

XLII. Aquele dia foi como o último do feliz êxito da fortuna do Africano, o qual brilhou mais que nenhum outro antes, pela grande multidão de gente que o acompanhava e pela grande benevolência que o povo lhe demonstrou. Depois daquele dia, êle retirou-se à sua casa de campo, longe de toda ambição e da multidão dos homens. Partiu para Linterno (32), grandemente aborrecido, por ter granjeado somente vergonha e ignomínia, como prêmio de tantos benefícios que havia feito à causa pública; coberto de honras e de glória êle julgava ser coisa mais virtuosa ceder de boamente à inveja de seus inimigos, do que manter sua grandeza pela força das armas. E assim como os tribunos o acusavam de contumácia e seu irmão Lúcio desculpava a sua ausência, por enfermidade, assim, Tibério Graco, um dos tribunos que estavam incompatibilizados com o Africano, recebeu como boa aquela desculpa, contra a opinião de todos, e defendeu tão bem a causa de Cipião, quer louvando-o honrosamente, quer amedrontando seus inimigos, que o senado, depois, o reconheceu muito bem e agradeceu muito; pois estava muito aborrecido por causa da injúria que lhe haviam feito. Alguns até escreveram que Públio Cipião rasgou com suas mãos o livro que seu irmão levara ao senado para prestar contas de sua administração e que antes de êle sè retirar a Linterno, não por malícia ou arrogância, mas pela mesma confiança de que- êle havia às vezes usado para com os questores, quando lhe pediram, contra as ordens e determinações, as chaves do tesouro público, para atender à necessidade das causas públicas. Outros ainda dizem que não foi o Africano, mas o Asiático, quem foi chamado a juízo pelos tribunos e que P. Cipião, tendo então sido mandado em comissão à Toscana, voltou depressa à cidade quando o soube, e que, encontrando à sua volta seu irmão Lúcio condenado e os auxiliares prestes a levá-lo, atado, à prisão, êle se inflamou de tal modo de ira, que arrancou à força seu irmão das mãos dos guardas e dos tribunos do povo. Dizem ainda que Tibério Graco, , queixando-se ao magistrado, de que o poder do tribuno tinha sido violado e calcado aos pés por um particular, deixando de lado toda ira e inimizade que nutria contra os Cipiões, tomou a sua defesa, a fim de parecesse que os tribunos haviam sido vencidos por outro tribuno, que não por um indivíduo particular.

Filhos de Cipião.

XLIII. Dizem igualmente que, naquele mesmo dia, quando o senado ceava no Capitólio, haviam persuadido ao Africano a dar sua filha mais nova em casamento a Tibério Graco (33) . Esta promessa não foi feita senão quando P. Cipião, voltando à casa, disse à sua esposa que tinha feito casar-se sua filha, pelo que ela ficou muito aborrecida e lhe disse que não a devia fazer desposar, sem o seu consentimento, como mãe, embora êle a tivesse podido dar em casamento a Tibério Graco. Esta resposta agradou imensamente a Cipião, quando êle viu que sua mulher era da mesma opinião que êle, quanto ao casamento da filha. Eu bem sei que o que acabo de dizer é atribuído por alguns a Tibério, filho, e a Ápio Cláudio, seu sogro. Pois Políbio e outros autores autênticos escrevem que Cornélia, que criou Caio e Tibério, foi esposa de Graco, depois da morte do Africano. O Africano teve por mulher Emília, filha de L. Paulo, que fora cônsul, morreu perto de Cannes pela causa pública. Dela teve duas filhas, uma das quais se .asou com P. Cornélio Nasica e a mais moça, com Tibério Graco, antes ou depois da morte do pai. Quanto aos filhos, pouca coisa se pôde encontrar por escrito, que se tenha em conta de verdade. Falamos desse moço, que fora aprisionado por Antíoco e depois restituído liberalmente ao pai, de que os autores não fazem absolutamente n*?nção, que eu saiba, senão alguns que dizem que êle depois foi pretor e que obteve esse cargo, por intermédio de Cicereio, secretário de seu pai. Encontra-se ainda, por escrito, que o Africano, o Moço, foi adotado pelo filho de P. Cipião. M. Cícero, no livro que intitulou Catão Maior: Como era fraco, diz êle, o filho de P. Africano, aquele que te adotou? E no sexto livro da República, Emílio, o pai, adverte a Cipião, seu filho, que observe a justiça e a piedade, como fêz o Africano, seu avô.

Morte de Cipião.

XLIV. Quanto à morte de P. Cipião, os autores dela falam de maneira diversa. Uns dizem que êle morreu e foi sepultado em Roma: e, como testemunho disso, apresentam um monumento que lhe foi erigido perto da porta Papena, sobre o qual havia três estátuas, duas das quais eram de P. e L. Cipiôes e a terceira de Q. Ênio, poeta. Com isto parece concordar o que Cícero escreve: Nosso Ênio, diz êle, foi muito estimado por Africano, o Grande: por isso, julga-se que êle foi posto no túmulo de Cipião. Outros autores (e a voz é mais comum) escrevem que o Africano morreu em Linterno e que lá foi sepultado, segundo o seu desejo, a fim de que seu país, que tão mal reconhecia os benefícios recebidos, da parte dele, não celebrasse seus funerais: e que lá lhe ergueram um sepulcro, sobre o qual havia sido colocada uma estátua, que pouco depois foi abatida pela tempestade, a qual Lívio afirma ter visto. Além disso, perto de Cajete, encontram-se gravados estes versos, em um vaso de bronze que está em um sepulcro de mármore:

Depois de ter vencido Aníbal, tomado Cartago,
Aumentado o patrimônio do império romano,
Encerrado sob este mármore jaz o corpo mortal
De Cipião, o Grande, não o espirito imortal;
E aquele a quem outrora a Europa fértil
Não soube resistir, nem a África monstruosa,
Repousa bem no meio deste pequeno túmulo,
Tão pouco a dos mortais se detém em

certo lugar.

Seu elogio.

XLV. Quanto à época da sua morte, depois de ter buscado por muito tempo, encontrei, em alguns oradores gregos, que o Africano viveu cinqüenta e quatro anos e que, pouco tempo depois, ele morreu (34) . Finalmente, foi um personagem digno de todo elogio, belicoso e excelente em todas as outras virtudes, as quais ele alimentava de tal modo em seu espírito, que estava habituado a dizer que jamais se sentira menos ocioso que quando estava descansando, nem jamais tão sozinho, que quando estava sem companhia. Algumas vezes, ele se retirava de propósito da multidão e do convívio dos amigos, para ficar isolado como num porto. Mas a glória dos seus grandes feitos era extraordinária, de modo que, por toda a parte onde êle ia, toda a espécie de gente acorria para vê-lo. A fama era comum e, quando êle se estava retirando em Lin-terno, veio até mesmo ao seu recanto um grupo de bandidos para saudá-lo, para conhecer tão grande personagem, para apertar-lhe a mão, tantas vezes leal e vitoriosa. Grande é a força.da virtude e de grande autoridade, para com todas as espécies de homens, pois atrai ao amor e à admiração de si mesmo, não somente os bons, mas também os maus.

 

  • (1) No ano 536 de Roma.
  • (2) No ano 542 de Roma.
  • (3) No ano 550 de Roma.
  • (4) No ano 543 de Roma.
  • (5) Cidade marítima, hoje Ampúrias, na Catalunha.
  • (6) Na mesma província, sobre a costa do Mediterrâneo,
  • (7) No ano 544 de Roma; ela foi atacada e tomada no mesmo dia.
  • (8) Estabelecidos no norte da Espanha, perto do Ebro, estendiam-se para sudeste, até Sagunto.
  • (9) Veja as Observações.
  • (10) No ano 546 de Roma.
  • (11) No ano 547 de Roma.
  • (12) Aurinx, na Bética, ao sul da Espanha, perto de Bétula, onde Cipião havia vencido a Asdrúbal.
  • (13) Isto é estranho, como se Tarragona não estivesse à beira-mar. Tito Lívio diz que Asdrúbal, filho de Gisgo, havia-se retirado para-o lado do Oceano e de Cádiz e que Hanno, recém-chegado da Africa, estava com Mago na Celtiberia.
  • (14) O décimo-terceiro.
  • (15) Perto do Betis.
  • (16) À esquerda do Ebro, do lado dos Pireneus.
  • (17) No ano 548 de Roma.
  • (18) No ano 549 de Roma.
  • (19) No ano 550 de Roma.
  • (20) Perto de Cartago, o mesmo, talvez, que Mercúrio.
  • (21) No ano 551 de Roma.
  • (22) No ano 552 de Roma.
  • (23) No ano 552 de Roma.
  • (24) No ano 553 de Roma.
  • (25) No ano 560 de Roma.
  • (26) No começo do ano 564 de Roma.
  • (27) No ano 564 de Roma.
  • (28) No Épiro.
  • (29) Que separa a Europa da Asia.
  • (30) No ano 565 de Roma.
  • (31) No ano 567 de Roma. Vimos, ademais, que eles eram irmãos e se chamavam Petílio.
  • (32) Na Campânia.
  • (33) Veja a Vida de Tibério Graco, em Plutarco, no tomo VII.
  • (34) No ano 571 de Roma. Êle tinha 24 anos, no ano de Roma, 543, quando foi mandado como procônsul à Espanha, acrescentem-se 28 e teremos 52 ou 53 anos.

 


Fonte: Edameris, PLUTARCO, Vida dos Homens Ilustres, Tomo IX.Tradução brasileira de Padre Vicente Pedroso.

 

 

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