DAMIÃO DE GÓIS

DAMIÃO DE GÓIS

DAMIÃO DE GÓIS (Alenquer, 1501…) passou vinte anos de sua vida a viajar e conversar com todos os reis, príncipes, nobres e povos de toda a cristandade — como dele diz Antônio Galvão. Privando com Lutero e outros heresiarcas, de tais relações se ressentiu a sua ortodoxia, pelo que em 1571 foi encarcerado pela Inquisição. Obtida a liberdade e volvendo a seu domicílio, aí o encontraram morto. Sete anos esteve proso, e assim à sua morte se deve atribuir data posterior a 1578. Compus várias crônicas em que se faz notar, pelas tendências que lhe cornuni-cou a freqüência de Erasmo.

Antigualha na Ubá do Corvo

Constrange tanto o testemunho das coisas antigas aos escritores que, por delas darem fé, posto que não façam muito a propósito do que tratam, são às vezes forçados saírem algum tanto fora da ordem do que escrevem, para assim alumiarem o descuido e esquecimento em que a antiguidade dos tempos as pôs. E porque eu a esta lei e obrigação tão honesta não posso fugir, necessário será dizer algumas particularidades das ilhas dos Açores, posto que fossem achadas antes do. nascimento d’el-rei D. João, para no fim deste capítulo descobrir uma antigualha assaz antiga, que -em uma delas em nossos dias se achou.

Destas ilhas a que mais está ao norte é a do Corvo, que terá uma légua de terra; os mareantes lhe chamam (511) ilha do Marco, porque com ela (por ser uma serra alta) se demarcam, quando vêm demandar qualquer das outras. No cume desta serra, da parte do noroeste, se achou uma estátua de pedra, posta sobre uma laje, que era um homem em cima de um cavalo, em osso, e o homem vestido de uma capa como bedém, (512) sem barrete, com uma mão na coma (513) do cavalo e o braço direito estendido, e os dedos da mão encolhidos, salvo o dedo grande, a que os Latinos chamam índex, com que apontava contra o poente. Esta imagem, que toda saía maciça da mesma laje, mandou el-rei D. Manuel tirar (514) pelo natural por um seu criado debuxador, que se chamava Duarte d’Armas; e, depois que viu o debuxo, mandou um homem engenhoso, natural da cidade do Porto, que andara muito em França e Itália, que fosse a esta ilha, para com aparelhos que levou tirar aquela antigualha; o qual, quando dela tornou, disse a el-rei que achara desfeita de uma tormenta (515) que fizera o inverno passado. Mas a verdade foi que a quebraram por mau azo, e trouxeram pedaços dela, a saber: a cabeça do homem, e o braço direito com a mão e uma perna, e a cabeça do cavalo, e uma mão que estava dobrada e levantada, e um pedaço de uma perna; o que tudo esteve na guarda-roupa d’el-rei alguns dias; mas o que se depois fêz destas coisas, ou onde se puseram, eu não o pude saber. Esta ilha do Corvo e Santo Antão foram de João da Fonseca, escrivão da fazenda d’el-rei D. Manuel, e dele as herdou seu filho Pero da Fonseca, escrivão da Chancelaria do mesmo rei e d’el-rei D. João III, seu filho; o qual Pero da Fonseca no ano de 1529 as foi ver, e soube dos moradores que na rocha abaixo, onde estivera a estátua, estavam entalhadas na mesma pedra da rocha umas letras, e por o lugar ser perigoso para se poder ir aonde o letreiro está, fêz abaixar alguns homens por cordas bem atadas, os quais imprimiram as letras que ainda a antiguidade de todo não tinha cegas, (516) em cera, que para isso levaram; contudo, as que trouxeram impressas na cera, eram já mui gastadas e quase sem forma; assim que por serem tais ou porventura por na companhia não haver pessoa que tivesse conhecimento mais que de letras latinas, e este imperfeito, nenhum dos que ali se acharam presentes souberam (517) dar a razão, nem do que as letras diziam, nem ainda puderam conhecer que letras fossem. Espanta-nos tanto esta antiguíssima antigualha, por se achar no lugar em que se achou, que se pode com razão dizer o que diz Salomão: Não haver coisa que já não fosse, e que houve outros que já fizeram o que nós agora fazemos; — e, se as opiniões de alguns filósofos se hounverem de crer, ou aos históricos gentios nesta parte se houvera de dar algum crédito, facilmente se pudera cair em muitos erros, se deles nos não desenganara a Sagrada Escritura.

(Crônica do Príncipe D. João, Cap. IX). Obra de DAMIÃO DE GÓIS

Glossário

  • (511) lhe chamam. Vide n. 472.
  • (512) bedém (are.) = espécie de túnica.
  • (513) coma (do gr. kómi) — do cavalo: crina; do homem: cabeleira; do leão: juba; das árvores: copa. Coma é também vírgula (do gr. Kômma) e letargo (do gr. kôma): estado comatoso, de sonolência mórbida. São três formas homeotrópicas ou convergentes, isto é, produtoras de uma só voz, conservados, porém, os três sentidos originários.
  • (514) tirar — voz passiva com o infinitivo verbal, preso ao v. mandar; agente da passiva claro: por um seu criado debu-xador.
  • (515) ãe uma tormenta — agente da voz passiva, com a prepos. ãe, muito de uso outrora e ainda em pleno vigor na linguagem literária.
  • (516) as letras que ainda a antiguidade de todo não tinha cegas = as letras que o tempo, ou a velhez, não tinha ainda de todo obliterado, ou delido.
  • (517) souberam em vez de soube: concordância no plural referida ao complemento, posto nesse número. Os clássicos incidiram não poucas vezes em semelhante construção, levado o espírito pela proximidade do restritivo no plural. é a concordância psicológica, de que Sousa da Silveira, a propósito do verso de Cristóvão Falcão "a jrol dos anos se vão", reúne várias amostras (na sua nota n.° 732 de Cristal, 1936, p. 48), trasladadas de trabalho do Dr. José Maria Rodrigues. Aqui fica uma delas: "Só a graça desses olhos venceram os brutos animais". Na linguagem de hoje não se aceitam sentenças dessa feição. Em orações cujo sujeito seja, por ex., algum de vós, nenhum deles, cada um dos três, um de nós, cada qual dos concorrentes, o verbo ficará sempre no singular.

Seleção e Notas de Fausto Barreto e Carlos de Laet. Fonte: Antologia nacional, Livraria Francisco Alves.

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