FERNÃO MENDES PINTO

FERNÃO MENDES PINTO

FERNÃO MENDES PINTO (Monte Mor-o-Velho, 1509-1580) foi um grande viajante que percorreu a Índia, a China, o Japão e outras regiões asiáticas, tendo sido cativo três vezes e vendido dezessete. Todas essas aventuras são contadas na sua Peregrinação, obra em que o interesse, aliás seu tanto diluído nas prolixidades da narração, pede meças à correta singeleza do estilo.

Um Tribunal Chinês

Toda a gente entrou de roldão em uma grande casa de forma de igreja, pintada toda de alto a baixo de diversas pinturas e estranhos modos de justiças, que algozes de gestos medonhos e espantosos faziam em todo o gênero de gente, com letreiros, ao pé de cada uma das pinturas, que diziam: Por este tal caso se dá este gênero de morte; — de maneira que na diversidade destas horrendas pinturas em que se punham os olhos, se declarava o gênero de morte que se devia a cada gênero de culpa, e o grandíssimo rigor da justiça com que as leis ordenavam estas tais mortes. Na frontaria desta casa atravessava outra como cruzeiro, muito mais rica e de maior custo, toda cosida em ouro, (518) em cuja vista os olhos se puderam ocupar com muito gosto, se o nós então pudéramos ter de alguma coisa. No meio desta casa estava uma tribuna de sete degraus, fechada em roda com três ordens de grades de ferro e latão, pau preto com traços marchetados de madrepérola, e por cima um dossel (519) de damasco branco franjado de ouro e verde, com umas rendas muito largas do mesmo, debaixo do qual estava o Chaém (520) com grande aparato e majestade, assentado numa rica cadeira de prata, e uma mesa pequena diante de si, com três meninos ao redor assentados de joelhos, ricamente vestidos c com cadeias de ouro aos pescoços, um dos qnais, que estava no meio, servia de dar a pena ao Chaém, que assinava, e os dois dos cabos, tomavam as petições aos requerentes e as apresentavam na mesa para se lhes dar despacho. À mão direita, em outro lugar mais alto, quase igual com o Chaém, estava um moço pequeno, que parecia de dez ou onze anos, vestido de cetim branco coberto de rosas de ouro, e ao pescoço um rico fio de pérolas, que lhe dava três voltas, e os cabelos muito compridos como mulher, trançados com uma fita de ouro e carmesim, com sua guarnição de pérolas de grande preço, e nos pés umas alparcas ouro e verde guarnecidas por cima de aljôfar grosso, e na mão, por divisa e demonstração do que representava, tinha um ramo pequeno de rosas de seda e fio de ouro, e em partes pérolas muito ricas, e êle era tão gentil homem e bem assombrado (521) que qualquer mulher, por formosa que fora, lhe não pudera levar vantagem. Este moço tinha o cotovelo encostado na cadeira do Chaém, onde parecia que descansava o braço da mão em que tinha a insígnia, e este representava a misericórdia. À mão esquerda, pelo mesmo modo, estava outro menino também mui formoso e riquissimamente vestido, o qual tinha o braço direito arregaçado e tinto de vermelho, e que parecia como sangue, e na mão direita tinha um rico traçado nu, (522) também tinto do mesmo vermelhão, e na cabeça uma coroa a modo de mitra, guarnecida toda de navalhinhas como lancêtas de sangrar, e este representava a justiça; porque dizem eles que o julgamento que está em pessoa do rei, o qual representava a Deus na terra, lhe é necessário ter estas duas partes de justiça e misericórdia; e que o que não usa de ambas, vem a ser tirano, sem lei e usurpador da insígnia que traz na mão.

(Peregrinação). Obra de FERNÃO MENDES PINTO

Muralha da China

Já que tratei da origem e fundação deste império chim e da cerca desta grande cidade de Pequim, também me pareceu razão tratar o mais brevemente que puder de outra coisa não menos espantosa que cada uma destas.

Um rei, por nome Crisnagol-Dacotaí, que reinou no ano do Senhor de quinhentos e vinte oito, vindo a ter guerra com o Tártaro por diferenças que teve com êle sobre o estado de Xen-xinapau, o desbaratou e ficou senhor do campo; porém o Tártaro, refazendo-se logo de outro maior poder, que ajuntou por meio de uma liga e confederação que fêz com outros reis seus inimigos, tornou sobre o Chim daí a oito anos, e se afirma que lhe tomou trinta e dois lugares notáveis, dos quais foi um a grande cidade de Ponquilor. Ora, o rei que então reinava na China, receando-se de outro poder e confederação semelhante à passada, a que êle não pudesse resistir, determinou de fechar com muro toda a raia de ambos estes impérios. E, chamando os povos todos a cortes, lhes deu conta desta sua determinação, a qual a todos pareceu muito bem e muito necessária, e para ajuda desta obra tão importante lhe deram dez mil picos de prata, que por nossa conta são quinze contos de ouro, à razão de mil e quinhentos cruzados cada pico, e afora isto se diz que lhe deram mais duzentos e cinqüenta mil homens, para trabalharem nesta obra, enquanto ela durasse, de que os trinta mil dizem que eram oficiais examinados, e os mais gente de serviço. E, depois de se ajuntar tudo o que era necessário para esta tão insigne obra, se começou a pôr a mão nela, e diz a história que em vinte é sete anos se fechou todo o extremo destes dois impérios de ponta a ponta, que é distância de setenta jaus, que por nossa conta, à razão de quatro léguas e meia por jau, são ao todo trezentas e quinze léguas, na qual obra dizem que trabalharam contínuos setecentos e cinqüenta mil homens. Este muro vi eu algumas vezes, e o medi, que é por todo geralmente de seis braças de alto, e quarenta palmos de largo no maciço da parede. (523).

(Idem). (Peregrinação). Trecho da Obra de FERNÃO MENDES PINTO

  • (518) cosida em ouro — ligada, enlaçada, envolta em ouro. V. n. 79.
  • (519) dossel, com dois — ss — porque deriva de dorsellu (Cotesão). Houve assimilação do — r.
  • (520) chaém — magistrado judicial chinês.
  • (521) bem assombrado = de agradável aspecto, de boa aparência; decorre da velha expressão: homem de boa sombra, oposta a homem de má sombra, de má catadura.
  • (522) um rico traçado nu — traçado (também treçado) por terçado — espada curta, curva e larga, como o define Morais no Dicion.; nu = desembainhado. Cfr. espada nua, fora da bainha.
  • (523) Neste trecho: pico, peso antigo da China, do valor de pouco mais de 61 quilogramas (Figueiredo); jau, antiga medida itinerária da índia.

 


Seleção e Notas de Fausto Barreto e Carlos de Laet. Fonte: Antologia nacional, Livraria Francisco Alves.

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