DO CLIMA E TERRA DO BRASIL –  Tratados da Terra e Gente do Brasil – Fernão Cardim

DO CLIMA E TERRA DO BRASIL – Tratados da Terra e Gente do Brasil – Fernão Cardim

Fernão Cardim (1540? – 1625) – Tratados da Terra e Gente do Brasil

DO CLIMA E TERRA DO BRASIL

O Clima do Brasil geralmente he temperado de bons, delicados, e salutiferos ares, donde os homens vivem muito até noventa, cento e mais annos, e a terra he cheia de velhos; geralmente não tem frios, nem calmas, ainda que o Rio de Janeiro até São Vicente ha frios, e calmas, mas não muito grandes; os céos são muitos puros e claros, principalmente de noite; a lua he mui prejudicial á saúde, e corrompe mui­to as cousas; as manhãs são salutíferas, têm pouco de crepúsculos, assi matutinos, como vespertinos, porque, em sendo manhã, logo sae o sol, e em se pondo logo anoitece. O inverno começa em Março, e acaba em Agosto, o Verão começa em Se­tembro e acaba em Fevereiro; as noites e dias são quasi todo o anno iguaes.

A terra he algum tanto malencolica, regada de muitas águas, assi de rios caudaes, como do céo, e chove muito nella, principalmente no Inverno; he cheia de grandes arvoredos que todo o anno são verdes; he terra montuosa, principalmente nas fraldas do mar, e de Pernambuco até á Capitania do Espirito Santo se acha pou­ca pedra, mas dahi até S. Vicente são serras altíssimas, mui fragosas, de grandes penedias e rochedos. Os mantimentos e águas são geralmente sadios, e de fácil digestão. Para vestir ha poucas commodidades por não se dar na terra mais que algodão, e do mais he terra farta, principalmente de gados e açúcares.1

I

DOS ANIMAIS

Veado Na lingua brasilica se chama Sugoaçú; ha huns muito grandes, como formosos cavallos; têm grande armação, e alguns têm dez e doze pontas; estes são raros, e achão-se no Rio de S. Francisco e na Capitania de S. Vicente; estes se cha-, mão Suaçuapara, são estimados do Carios, e das pontas e nervos fazem os bicos das frechas, e humas bolas de arremeço que usam para derrubar animaes ou homens.

Ha outros mais pequenos; também têm cornos, mas de huma ponta só. Alem destes ha três ou quatro espécies, huns que andão somente nos matos, outros somente nos campos em bandos. Das pelles fazem muito caso, e da carne.

Conf. Anchieta Informações do Brasil (Rio de Janeiro, 1886), pp. 45-46.

Tapyretê Estas são as antas, de cuja pelle se fazem as adargas; parecem-se com vaccas e muito mais com mullas, o rabo he de um dedo, não têm cornos, têm huma tromba de comprimento de num palmo que encolhe e estende. Nadão e mergulhão muito, mas em mergulhando logo tomão fundo, e andando por elle saem em outra parte. Ha grande copia dellas nesta terra.

Porco montes Ha grande copia de porcos monteses, e he o ordinário manti-mento dos índios desta terra, têm o embigo nas costas e por elle lhe saem hum chei­ro, como de raposinho, e por este cheiro os seguem os cães e são tomados facilmen­te. Ha outros chamados Tayaçutirica, se, porco que bate, e trinca os dentes, este são maiores que os communs, e mais raros, e com seus dentes atassalhão quantos animaes achão.

Outros se chamam Tayaçupigta, se. porco que aguarda, ou faz finca-pé. Estes acommettem os cães, e os homens, e tomando-os os comem, e são tão bravos que he necessário subirem-se os homens nas arvores para lhes escapar, e alguns esperao ao pé das arvores alguns dias até que o homem se deça, e por que lhes sabem esta manha, sobem-se logo com os arcos e frechas às arvores de lá os matão.

Também ha outras espécies de porcos, todos se comem, e são de boa substância.

Acuti Estas Acutis se parecem com os coelhos de Espanha, principalmente nos dentes: a côr é loura, e tira a amareila; são animaes domésticos, e tanto que andão por casa, e vão fora, e tomão a elIa; quando comem tudo tomão com as mãos e assi o levão á bocea, e comem muito depressa, e o que lhes sobreja escondem para quando têm fome. Destas ha muitas espécies, todas se comem.

Páca Estas Pácas são como leitões, e ha grande abundância dellas: a carne he gostosa, mas carregada; não parem mais que hum só filho. Ha outras muito brancas, são raras, e achão-se no Rio de São Francisco.

lagoáretê Ha muitas onças, humas pretas, outras pardas, outras pintadas: he animal muito cruel, e feroz; acommettem os homens sobremaneira, e nem em arvo­res, principalmente se são grossas, lhes escapão; quando andão cevadas de carne não ha quem lhe espere principalmente de noite; matão logo muitas rezes juntas, desba-ratão huma casa de gallinhas, huma manada de porcos, e basta darem huma unhada em hum homem, ou qualquer animal para o abrirem pelo meio; porém são os índios tão ferozes que ha índio que arremette com huma, e tem mão nella e depois a ma­tão em terreiro como fazem aos contrários, tomando nome, e fazendo -lhes todas as ceremonias que fazem aos mesmos contrários. Das cabeças dellas usão por trombe-tas, e as mulheres Portuguezas usão das pelles para alcatifas, maximé das pintadas, e na Capitania de São Vicente.

Sarigué Este animal se parece com as raposas de Espanha, mas são mais pe­quenos, do tamanho de gatos; cheirão muito peor a raposinhos que as mesmas de Espanha, e são pardos como ellas. Têm huma bolsa das mãos até as pernas com seis ou sete mamas, e ali trazem os filhos escondidos até que sabem buscar de comer, e

parem de ordinário seis, sete. Estes animaes destruem as gallinhas porque não andão de dia, senão de noite, e trepão pelas arvores e casas, e não lhes escapão pássaros, nem gallinhas.


Tamanduá Este animal he de natural admiração: he do tamanho de hum grande cão, mais redondo que comprido; e o rabo será de dous2 comprimentos do corpo, e cheio de tantas sedas, que pela calma, e chuva, frio, e ventos, se agasalha todo debaixo delle sem lhe apparecer nada; a cabeça he pequena, o focinho delgado, nem tem maior bocca que de huma almotulia, redonda, e não rasgada, a lingoa será de grandes três palmos de comprimento e com ella lambe as formigas de que somen­te se sustenta: he diligente em buscar os formigueiros, e com as unhas, que são do comprimento dos dedos da mão de hum homem o desmancha, e deitando a lingoa fora pegam-se nella as formigas, e assi a sorve porque não tem bocca para mais que quanto lhe cabe a lingoa cheia dellas; he de grande ferocidade, e acommette muito a gente e animaes. As onças lhe hão medo, e os cães sobremaneira, e qualquer cousa que tomão com suas unhas espedação; não se comem, nem prestão para mais que para desençar os formigueiros, e são elles tantos, que nunca estes animaes os desba-tarão de todo.

Tatu Este animal he do tamanho de hum leitão, de côr como branca, o fo­cinho tem muito comprido, o corpo cheio de humas como lâminas com que fica armado, e descem-lhe huns pedaços como têm as Badas. Estas lâminas são tão duras que nenhuma frecha as pode passar se lhe não dá pelas ilhargas; furão de tal maneira, que já aconteceu vinte e sete homens com enxadas não poderem cavar tanto, como huma cavava com o focinho. Porém, se lhe deitão aguí na cova logo são tomados; he animal para ver, e chamão-lhe cavalloarmado:a carne parece de gallinha, ou leitão, muito gostosa, das pelles fazem bolsas, e são muito galantes, e de dura; fazem-se domésticos e crião-se em casa.

Destes ha muitas espécies e ha grande abundância,

Canduaçú Este animal he o porco espinho de África: tem também espinhos brancos e pretos tão grandes que são de palmo e meio; e mais; e também os despe­dem como os de África.

Ha outros destes que se chamão Candumiri, por serem mais pequenos, e tam­bém têm espinhos da mesma maneira.

Ha outros mais pequenos do tamanho de gatos, e também têm espinhos ama­relãos e nas pontas pretos. Todos estes espinhos têm esta qualidade que entrando na carne, por pouco que seja, por si mesmo passão a carne de parte a parte, e por esta causa servem estes espinhos de instrumentos aos índios para furar as orelhas, porque mettendo hum pouco por ellas em huma noite lhas fura de banda a banda.

Ha outros mais pequenos, como ouriços, também têm espinhos, mas não nos despedem; todos estes animaes são de boa carne e gosto.

Twice or thrice, em Purchas his Pilgrimes, vol. IV, p. 1.301.

Eirara Este animal se parece com gato de Algalia: ainda que alguns dizem que o não he, são de muitas cores, se. pardos pretos, e brancos: não comem mais que mel, e neste officio são tão terríveis que por mais pequeno que seja o buraco das abelhas o fazem tamanho que possão entrar, e achando mel não no comem até não chamar os outros, e entrando o maior dentro não faz senão tirar, e dar aos ou­tros, cousa de grande admiração e exemplo de charidade para os homens, e ser isto assi affirmão os Indios naturaes.

Aquigquig Estes bugios são muito grandes como hum bom cão, pretos, e muito feios, assi os machos, como fêmeas, têm grande barba somente no queixo debai­xo, destes nasce ás vezes hum macho tão ruivo que tira a vermelho, o qual dizem que he seu Rei. Este tem o rosto branco, e a barba de orelha a orelha, como feita á tesoura; têm huma cousa muito para notar, e he, que se põem em huma arvore, e fazem ta­manho ruido que se ouve muito longe, no qual atura muito sem descansar, e para isto tem particular instrumento esta casta: o instrumento he certa cousa concava como fei­ta de pergaminho muito rijo, e tão lisa que serve para burnir, do tamanho de um ovo de pata, e começa do principio da guella até junto da campainha, entre ambos os queixos, e he este instrumento tão ligeiro que em lhe tocando se move como a tecla de hum cravo. E quando este bugio assi está pregando escuma muito, e hum dos pequenos que ha de ficar em seu lugar lhe alimpa muitas vezes a escuma da barba.

Ha outros de muitas castas, e em grande multidão se. pretos, pardos, amarelos; dizem os naturaes que alguns destes quando lhes tirão uma frecha a tomão na mão e tornão com ella atirar á pessoa; e quando os ferem buscam certa folha e a mastigão, e metem na ferida para sararem: e porque andão sempre nas arvores, e são muito li­geiros, quando o salto he grande que os pequenos não podem passar, hum delles se atravessa como ponte, e por cima delle passão os outros, o rabo lhe serve tanto co­mo mão, e se algum he ferido com o rabo se cinge, e ao ramo onde está, e assi fica morrendo dependurado sem cair. Têm outras muitas habilidades que se vêem cada dia, como he tomar hum páo, e dar pancadas em alguém que lhes faz mal: outro achando um cestinho d’ovos e dependurou pela corda ao pescoço, e subindo a hum telhado fazia de lá.muitos momos ao senhor que o ia buscar, e quebrando-os os sorveo todos diante delle, tirando-lhe com as cascas.

Coatí Este animal he pardo, parece-se com os texugos de Portugal, tem o focinho muito comprido, e as unhas; trepão pelas arvores como bugios, não lhes escapa cobra, nem ovo, nem pássaro, nem quanto podem apanhar; fazem-se domés­ticos em casa, mas não ha quem os soffra, porque tudo comem, brincam com gati-nhos, e cachorrinhos, e são maliciosos, aprazíveis, e têm muitas habilidades.

Ha outras duas, ou três castas maiores, como grandes cães, e têm dentes como porcos javaris de Portugal; estes comem animaes e gente, e achando presa, acercam huns por huma parte, outros por outra, até a despedaçarem.

Gatos bravosDestes ha muitas castas, huns pretos, outros brancos assafroa-dos, e são muito galantes para qualquer forro; são estes gatos muito terríveis e ligei­ros: vivem de caça e pássaros, e também acommetem a gente; alguns são tamanhos como cães.

laguaruçú Estes são os cães do Brasil, são de hum pardo almiscarado de branco, são muito ligeiro, e quando chorão parecem cães; têm o rabo muito felpu-do, comem fructas e caça, e mordem terrivelmente.


I

Tapiti Este animal se parece com os coelhos de Portugal, estes ladrão cá nesta terra como cães, maxime de noite, e muito a miúde. Os índios têm estes ladridos por agouro; criam três e quatro filhos: são raros porque têm muitos adversários, co­mo aves de rapina, e outros animais que os comem.

laguacini Este animal he tamanho como raposa de Portugal, tem a mesma côr de raposa, sustenta-se somente de caranguejos, e dos canaveaes d’açúcar, e des­truem muitos delles; são muito dorminhocos, e dormindo os matão, não fazem mal.

Biarataca Este animal é do tamanho de hum gato, parece-se com Furão, pe­lo lombo tem huma mancha branca, e outra parda, que lhe ficam em cruz muito bem feita; sustentão-se de pássaros, e seus ovos, e outras cousas, maxime de âmbar, e gosta tanto delle que toda a noite anda pelas praias a buscal-o, e onde o ha elle he o primeiro; he muito temido, não porque tenha dentes nem outra arma com que se defenda, mas dá certa ventusidade tão forte, e de tão roim, que os páos, pedras, e quanto diante de si acha, penetra, e he tanto que alguns índios morrerão já de tal fedor; já cão que a elle se achega, não escapa, e dura este cheiro quinze, vinte, e mais dias, e he tal que se dá esta ventusidade junto dalguma aldêa logo se despovoa para não serem sentidos, cavão no chão, e dentro dão a ventusidade, e a cobrem com a terra; e quando os achão para não serem tomados, sua defensa he disparar aquella ventusidade.

Ha outras castas destes animaes que não têm tão má cheiro; crião-se em casa, e ficão domésticos, e os índios os estimão.

Preguiça A preguiça que chamão do Brasil, he animal para ver, parece-se com cães felpudos, os perdigueiros; são muito feios, e o rosto parece de mulher mal toucada; têm as mãos e pés compridos, e grandes unhas, e cruéis, andão com o pei­to pelo chão, e os filhos abraçados na barriga, por mais que lhe dêem, andão tão de vagar que hão mister muito tempo para subir a huma arvore, e por isso são tomados facilmente: sustentão-se de certas folhas de figueiras, e por isso não podem ir a Por­tugal, porque como lhesfaltão, morrem logo.

Ratos Nestas partes ha grande numero de ratos, e haverá delles algumas dez, ou doze castas, huns pretos, outros ruivos, outros pardos, todos se comem, e são gos­tosos, maxime alguns grandes que são como coelhos; em alguns tempos são tantos que dando em uma roça, a destruem.

II

DAS COBRAS QUE ANDÃO NA TERRA E NÃO TÊM PEÇONHA

Gibóia ~ Esta cobra he das grandes que por cá ha, e algumas se achão de vinte pés de comprido; são galantes, mas mais o são em engullir hum veado inteiro; não têm peçonha, nem os dentes são grandes conforme ao corpo; para tomar a caça de

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