Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

EL-DORADO – Paulo Setúbal



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SEGUNDA PARTE:
O SONHO DAS MINAS

D. RODRIGO DE CASTEL BLANCO

Senhor! "O governador do Rio de Janeiro Duar-te Teixeira Chaves, dá conta a Vossa Alteza em como tivera aviso do sertão de S. Paulo que, em 28 de Agos-to do anno passado, mataram a D. Rodrigo de Castel Blanco". . .

Assim, em 1683, com essas desenfeitadas palavras, comunicava o Conselho Ultramarino ao Príncipe Regente, que haveria de ser em breve o rei D. Pedro II, a notícia verdadeiramente espantosa daquele longínquo assassínio. Espantosa, não há dúvida. Mas que era a realidade nua: alguém, no sertão de S. Paulo, com um desrespeito que assombrara o reino, havia ma-tado a D. Rodrigo de Castel Blanco, o enviado do Príncipe. E quem fora esse alguém? Não tardou a voar para Lisboa o nome do matante atrevido: Borba Gato. Sim, fora Borba Gato! Fora o genro de Fernão Dias Paes Leme, o bandeirante das esmeraldas. E por que razão cometer Borba Gato o estranho delito? Ecoaram também em Portugal, com o nome do assassino, todos os detalhes do acontecimento chocante.

Soube-se então que D. Rodrigo de Castel Blanco, o famoso prático de metais, aquele que viera para o Brasil averiguar as rumorosas minas de prata de Ita-baiana, havia em S. Paulo, com as suas soberbias e ga-bolices, criado em redor da sua personalidade um ambiente carregado de rancorosa desestima. Matias Cardoso, honrado sertanista que fora lugar-tenente de Fernão Dias, chegara mesmo a endereçar ao Príncipe, certo papel escrito, assinado de seu punho, em que dizia com destemor coisas agressivas contra o castelhano fanfarrão. Entre essas coisas, contava-se aí que o ave-riguador da prata de Itabaiana, ao invés de entranhar-se pelos matos empós às minas, como era da sua obrigação, há muito que se quedava negligentemente no povoado, a receber, sem nenhum trabalho, aquela enormidade de seiscentos mil réis — seiscentos mil réis! — que abocanhava gordamente da fazenda do Príncipe. À vista desse papel acusatório, o castelhano, temeroso de perder as boas graças da corte, deliberou ir-se por aquelas terras bárbaras ao encontro de Fernão Dias.

Fernão Dias, há sete anos já, andava com acirramento, pelas bandas dos Cataguazes, no encalço daquelas duas velhas e escandentes miragens: a "Serra das Esmeraldas" e a "Serra do Sabarabuçu". Oh, a Serra das Esmeraldas! Oh, a Sabarabuçu! Uma era a fas-cinadora montanha das pedras verdes; outra, a montanha encantada da prata. Atrás das duas quimeras, isto é, atrás dessas esmeraldas e dessa prata, vivia o paulista, há sete anos, turronamente, rompendo e desbravando as lombas selvosas de além-Mantiqueira. E não dava sinal de si.

Foi quando D. Rodrigo partiu.

Mal partiu, eis que estronda em S. Paulo a boa-no-va, tão longamente e tão ansiadamente esperada, de que o grande paulista havia — enfim! — descoberto as sonhadas pedras verdes. Havia-as descoberto à beira da lagoa Vapabuçu. Havia-as já cosido e lacrado num saquinho de couro. E havia até mandado, como amostras, meia dúzia delas aos homens-bons de São Paulo. Que júbilo o da vilota! Que festa! Que alvoroço entre as gentes da Câmara! No entanto, em meio daquelas quenturas, chega precipitadamente um próprio do sertão. E cessam de golpe aquelas alegrias e reboliços. Que aconteceu? Voa pelo povoado, como um relâmpago, esta notícia esmagadora: Fernão Dias Paes Leme morrera. Morrera, inesperadamente, brutalmente, comido de febres ruins, junto à pestilen-ta lagoa Vapabuçu. Imensa era a desgraça! E imensa foi a desolação da terreola. . .

Uma pergunta, no entanto, uma pergunta em meio daquele luto, aflorou ansiosa na boca de toda a gente: e as esmeraldas? Onde estavam as esmeraldas? Principiaram a correr notícias inquietantes. Diziam (e era bem verdade) que D. Rodrigo de Castel Blanco havia já, com a sua gente, alcançado o arraial onde perecera o bandeirante. E que Garcia Paes, o filho de Fernão Dias, fora logo entregando o saquinho dás esmeraldas, assim como o governo do arraial, ao castelhano falso. Mais ainda: que D. Rodrigo de Castel Blanco, e.não Garcia Paes, era quem ia enviar as pedras verdes ao Príncipe. E ia enviá-las (afirmavam-no todos com indignação) como sendo ele, D. Rodrigo, e não Fernão Dias Paes Leme, o descobridor das esmeraldas!

O padre João Leite, irmão do bandeirante morto, correu logo à Câmara com o seu protesto;

"Eu, o Padre João Leite da Silva, por mim e como irmão do defunto, o Capitam Fernão Dias Paes, descobridor das esmeraldas, e em nome da viuva, sua mulher, Maria Garcia, requeiro as suas mercês, huma e muytas vezes, da parte de S. Alteza q. Deus guarde, que atalhem, pelos meios convenientes, a Dom Rodrigo Castell Blanquo os intentos que tem de apoderar-se das minas de esmeraldas q. o dito meu irmão descobriu"…

Esse protesto do padre foi a faísca elétrica: desencadeou contra o castelhano malquisto todo um bravio temporal de cóleras e de ódios.

DE SANGUE

Enquanto, em S. Paulo, iam essas cóleras e esses Ódios contra D. Rodrigo de Castel Blanco, no sertão bruto, ao pé do Sumidouro, as mesmas cóleras e os mesmos ódios escaldavam o ânimo chucro dos sertanejos. Daí, dessa aversão ao forasteiro, derivou-se a violenta tragédia de Borba Gato.

Essa tragédia principiou na primeira fala que leve o paulista com D. Rodrigo. E principiou atrevidamente. O encontro dos dois homens foi áspero e sa-colejante.

D. Rodrigo:

— É preciso que Vosmecê, Borba Gato, uma vez por todas, fique sabendo bem claramente disto: de hoje em diante sou eu, e mais ninguém, o governador
destas paragens!

Borba Gato:

—  E é preciso que Vossa Senhoria, D. Rodrigo de Castel Blanco, uma vez por todas, também fique sa-bendo bem claramente disto: depois da morte de Fernão Dias sou eu, e mais ninguém, o governador destas paragensl

—  Vosmecê?

—  Eu!

 

—  Como? Pois Vosmecê se atreve por acaso a disputar a mim o governo das minas? Quase não quero acreditar no que estou a ouvir, senhor paulista! Eu tenho — e Vosmecê bem o sabe! — um alvará do Príncipe nomeando a mim, D. Rodrigo de Castel Blanco, administrador geral de todas as minas descobertas e por se descobrirem!

—  E eu também tenho — Vossa Senhoria bem o sabe! — um alvará do Príncipe nomeando a Fernão Dias governador das minas de esmeraldas e prata, e, por morte dele, o imediato da entrada. Ora, como Vossa Senhoria não desconhece — o imediato sou eu!

Os dois homens desandaram a altercar com violência. E não foi possível, naquele encontro, entendimento algum sobre o ponto melindroso. Separa-ram-se ambos com raiva.

O castelhano, no entanto, era astuto e labioso. Ao outro dia, depois de longa noite bem pensada, D. Rodrigo fingiu ceder. Mandou pedir, com boas maneiras, novo encontro com o sertanejo. E deu-se, nesse mesmo dia, a entrevista dos dois homens. Deu–se à beira duma cata, escancelada e funda, rasgada na terra como imenso boqueirão.

— Vosmecê, Borba Gato, diz-se governador das esmeraldas, assim como governador deste sertão, como substituto que é de Fernão Dias. Pois seja! Não dis
cutamos mais o ponto. . .

 

—  Ainda bem, senhor D. Rodrigo. Não discutamos mais o ponto.. .

—  Vosmecê, pois, ficará aqui neste seu arraial do Sumidouro e eu continuo a minha jornada terra adendo. Tenho fé que ainda vou descobrir novas minas por esses matos. No entanto, como Vosmecê sabe, eu trago comigo pouca provisão. Pouca provisão e pouca ferramenta. E como, por alvará do Príncipe, é direito meu requisitar de qualquer vassalo o de que ca-reço, eu ordeno a Vosmecê, em nome de S. Alteza, que me forneça a ferramenta de minerar que Vosmecê traz aí na bandeira. E também um barril da pólvora que Vosmecê carrega nas suas cargas.. .

—  Ferramenta e pólvora?

—  Ferramenta e pólvora. E não queira Vosmecê, desta vez, desobedecer ao Príncipe. Eu posso desculpar, como desculpo, algumas arrogâncias que se me fazem a mim. Mas desobedecer ao Príncipe — não! Ali, isso não. ..

Borba Gato coruscou no castelhano dois olhos raiventos. E seco:

—  Pois é bom que Vossa Senhoria, com o seu alvará, e com o seu Príncipe, saiba que eu não forneço liem uma só ferragem da bandeira e nem um só grão de pólvora que eu tenho aí.

—  Não fornece?

—  Não!

 

E com grande ira:

— Era só o que me faltava! Dar a Vossa Senhoria a minha pólvora e a minha ferramenta! E onde vou eu, ao depois, achar ferramenta neste cabo do mundo? E como deixaT, no meio destes matos, os meus homens sem munição? Era só o que me faltava!

E azedíssimo:

— Isso, aqui neste sertão, nem é ordem que um homem dê a outro homem. Isso, senhor D. Rodrigo,é até desaforo que Vossa Senhoria faz a mim!

D. Rodrigo, picado:

—  Desaforo? Vosmecê é fácil de língua, moço! Não se esqueça, porém, que está falando com o enviado do Príncipe.. .

—  Desaforo, sim senhor! E eu — Vossa Senhoria de certo já ouviu falar! — eu não sou homem de se acomodar com desaforo de ninguém. Nem do enviado do Príncipe!

D. Rodrigo, ao ouvir aquilo, não se contém:

— Que está tu dizendo aí, perro? Eu vou te ensinar, boca do diabo. . .

E leva a mão à espada. Mas Borba Gato não dá tempo ao castelhano de arrancá-la: cai sobre ele com um pulo de onça. E ali, numa cena de relâmpago — agarra-o, enrodilha-o, ergue-o no ar, e, no seu desvario, arremessa-o com fúria pelo boqueirão abaixo. "… tra-vando-se de razões menos comedidas (conta-o com a sua autoridade e com a sua sobriedade o velho Taques) Borba Gato se precipitou tão arrebatado pelo furor que, dando em D. Rodrigo um violento empuxão, o deitou ao fundo de uma alta cata, na qual o castelhano

cahiu morto" (1).

(1) — Bento Fernandes, na Memória, compilada por Silva Pontes, diz que D. Rodrigo, em meio à altercação que teve com Borba Gato, f«i alvejado e morto por dois pajens deste. Taques, porém, que é muitíssimo fidedigno, dá ao caso a versão que acima perfilhamos.

* * *

Morto D. Rodrigo de Castel Blanco! Morto o enviado régio! Não podia suceder, como remate à jornada das pedras verdes, acontecimento mais arre-piador. Tinha ali um epílogo de sangue, e, mais do que um epílogo de sangue, terminava em crime de lesa-majestade a fulgurante bandeira do Caçador de Esmeraldas.

Bem sabia Borba Gato, diante daquela desgraça, o destino cru que o aguardava. Bem sabia das cóleras que iriam trovejar sobre a sua cabeça! E por isso não esperou que estalasse contra ele a sanha régia: naquele mesmo dia, fugindo às justiças, o paulista embre-nhou-se às correrias por aqueles ermos de além-Manti-queira. Foi viver, segregado dos homens, como hirsuto bicho de mato, dentro do sertão terrificante daquelas lombas.

Dispersou-se ali, com o incidente fatídico, a rumorosa bandeira de Fernão Dias. Dispersou-se, é bera verdade. No entanto (eis o grande resultado concreto daquela dura avançada) os paulistas, que a formavam, são os primeiros que, tornando em breve àqueles mesmos montes e àqueles mesmos rincões por onde perlustrara, errático, o visionário das minas verdes, vão devassar e povoar essa larga região brasileira que é hoje o Estado de Minas Gerais. Entre os nomes desses velhos paulistas povoadores, ecoará em breve, pelo Brasil inteiro, acatado e reverenciado, o nome do bandeirante criminoso. E não ecoará sozinho: dois outros nomes, dois outros companheiros da jornada das esmeraldas, dessa jornada inútil quanto às pedras, mas enormes quanto às consequências, surgirão, num alto relevo, ao lado de Borba Gato, nesse rude palco do Brasil que nascia: Matias Cardoso e Garcia Paes. Matias Cardoso, cuja ação se desdobrará em cenário diverso do cenário do . não entrará nesta crónica. Mas Garcia Paes e Borba Gato, o filho e o genro do grande Fernão Dias Paes Leme, esses, que são personalidades básicas na página inaugural das Minas Gerais, esses aparecerão nesta história como pioneiros, e dos mais ilustres, da descoberta do EL-DORADO brasileiro: — "os dois inolvidáveis epigonos (na frase exata de Basílio de Magalhães) os dois inolvidáveis epigonos do grande ciclo de revelação das riquezas auriferas do hinterland mineiro".

SOL-DA-TERRA

—  Garcia Paes andou topando ouro no sertão dos Cataguazes!

—  Que?

—  Sim, senhor! Andou topando ouro no sertão dos Cataguazes. . .

Era essa a fala que principiou a andar na boca do povo. E principiou a andar com razão. Garcia Paes fitara de novo àqueles matos dos Cataguazes onde andara com o pai. E lá, metendo-se a provar águas e areias, havia dado com uns granetes de ouro em certo Ribeirão que bateara. Mas eram (comentavam os de Paulo) eram granetes sem importância, ouro solto, simples ouro-de-lavage, como se dizia então. "Garcia Paes (há de em breve afirmar d. Pedro II em carta régia) Garcia Paes foi o primeiro q. descobrio ouro de lavage nos Ribeiros q. correm para a serra de Sabara-bussú". Foi o primeiro que descobriu ouro nas Ge-rais, é bem verdade. Mas a descoberta do paulista não teve eco maior. Não houve ruído de monta em torno daquelas vozes que vinham dos Cataguazes.

 

Ouro de lavagem! Há mais de cem anos que os de Piratininga catavam esse ouro pelo sertão. Se fosse ouro de mina, ouro de beta, sim! Mas ouro de lavagem? Os paulistas não se importavam mais com esses grãosinhos atoas. O que os paulistas agora queriam, o que andavam buscando pelos matos com frenesi, eram minas de ouro. Ah, as minas! Veios e madres de grosso rendimento! Mas onde estavam essas minas? Onde? Atrás delas é que talavam agora os piratinin-ganos, cupidamente, todos os rincões da sua terra quase virgem.

Era voz comum que as brenhas de S. Vicente estavam cheias de tais minas. E não era voz do momento. Há quanto tempo já, pelas vilotas de S. Paulo, se falava com quentura em minas de ouro! "Muitos annos avia que voava a fama de aver minas de ouro, e de outros metaes, na Capitania de S. Vicente", diz frei Vicente do Salvador. E era verdade. Esse ouro, porém, segundo a fala do povo, tinha um mau agouro: ninguém podia tocá-lo. Quem o tocasse, morria. E o bom do frade conta, para bem confirmar a crendice fúnebre que — "em certa paragem, dalli a três dias de jornada, estava hua mina de muyto ouro limpo, e des-cuberto, donde se podia tirar o ouro em pedaços". Um velho bugre, que morava no povoado, sabia do sítio onde se escondia tal riqueza. Mas o bugre não tinha coragem de revelar aos brancos a mina: "receava a morte si a fosse mostrar". Os brancos insistiram. E insistiram tanto que "o indio prometteo que a iria mos-irar. Assentaram todos de partir no dia seguinte pela manhã; e com isso se apartou o indio para o seu rancho. Mas eis que, quando amanheceo, acharam o indio mor-to no dito rancho! E não houve mais quem tivesse animo de ir a descobrir aquella riqueza". . .

Não houve mais quem tivesse ânimo? Puro engano do frade! Houve gente — e quanta! — que se arremessou pelo mato atrás dos veeiros amarelos.

E esse arremesso empós o ouro vinha de longe. Vinha de há mais de um, século. Por isso mesmo não será desinteressante o relembrarmos aqui, neste passo, justamente no instante em que Garcia Paes descobre os primeiros granetes dourados de Minas Gerais, o que foram esses cento e muitos anos de buscas de minas no sertão brasileiro.

* * *

O sonho do ouro foi, no passado paulista, a obses-ssão mais aguilhoadora da raça bandeirante. Em S. Vicente, com a bandeira de Pêro Lobo, isto é, desde a página inaugural da capitania, madrugou a ambição da riqueza. A partir de então, pelos tempos afora, as entradas, buscadoras do metal cobiçado, saíam ininterruptas pelo sertão. Vinham, com tais entradas, umas sobre outras, notícias alviçareiras de descobertas de grãos. As notícias dessas descobertas voavam céleres aos governadores gerais. Os governadores as recebiam com alvoroço. Ouro! E aquela palavra era-lhes como um aguilhão em brasa. Estimulava-os, Ferfe-toava-os.

O próprio Tomé de Sousa, homem sisudo e prático, deixou-se arrastar pela miragem tentadora. Na Bahia, mal desembarcara, já o governador fora se enfronhando dos ecos que vinham de S. Vicente. E nem só dos ecos que vinham de S. Vicente. O castelhano Felipe de Guilhem, antigo boticário em Sevilha, inventor de umas regras para se tomar altura, "homem, no dizer de Gil Vicente, que os sabedores muy folgavam de ouyir" — botou-se logo a referir ao velho coisas de assombrar.

Contava-lhes que uns bugres, chegados do sertão, falavam sem cessar de "hum grande Rio, alem do qual ha uma serra que resplandesce muyto e que he muy to amarella". Que essa estranha serra, assim amarela, coruscava de tal jeito, com tal fulgor — "que os Índios não ousavam passar junto delia, dizem que he muyto temerosa, e, por causa do seu resprandor, a chamam Sol-da-Terra". Que no rio, que lhe serpenteava ao pé, se encontravam pedaços e pedaços de ouro que despenca vam de tal serra. E que havia ali tanto daquilo, tanto, "que os naturaes apanham os ditos pedaços de Ouro e fazem com elles gamellas para darem de comer a porcos… (1)" O austero governador ouvia aquelas vozes extraordinárias. E ficava cismático. Vi-nham-lhe à mente, escutando-as, as rumorosas notícias que Américo Vespúcio, depois de correr a costa da terra nova, mandara, em mais de um passo, nas cartas que escrevera a Sonderini: ". . . metaes nenhuns ahi se encontram, excepto o ouro, do qual ha abundância. Deram-nos noticias delle os índios, affirmando que nos sertões havia muyto ouro, mas que não o estimavam e nem o apreciavam". Sol-da-Terra, gamelas de ouro, sertões tão cheios de riqueza que os índios não faziam conta dela, e, com isso, a aguilhoar o governador, ain-da a palavra grave de Nóbrega: "dizem que aqui se encontrará grande quantidade de ouro; e que só pelas poucas forças dos christãos ainda não está descoberto"… Tomé de Sousa não resistiu a tanto fascínio. Era pre-ciso, não havia dúvida, averiguar o que ia pelo sertão. Sol-da-Terra! Que casta de montanha resplendente seria essa? "… desejo eu muito saber o que vae por esta terra a dentro, para ver si posso descobrir alguma boa ventura para Vossa Alteza", mandou dizer sem tar dança o enviado real ao amo.

(1) – Carta de Felipe de Guilhem a D. João III.

Levado por aqueles boatos alvoroçantes, tratou o governador de aprestar uma entrada para descobrir a serra do ouro. E aprestou-a com cuidado. Solicitou até um padre para acompanhar os expedicionários. "Thomé de Souza me pediu um padre para ir com certa gente a descobrir ouro; e eu lho prometti", con-ta-o Nóbrega ao Rei (1). E Tomé de Sousa, municiada e petrechada a leva, mete-a com desassombro pelo rio de S. Francisco acima. A leva é comandada por um certo Miguel Henriques. E Miguel Henriques sobe, numa galé, por aquelas águas ermas, à busca da serra amarela que resplendia. Sol-da-Terra! Montanha de ouro! Em que sítio, dentro daquele sertão bravio, ficava a maravilha? Miguel Henriques lá vai, rompendo águas e matos, duramente, rumo a esse tentador Sol-da-Terra de que falavam os bugres. Como é forte o prestígio duma lenda, quando essa lenda acena aos homens com uma serra de ouro! Arrastada pelos prodígios do morro encantado, a velha expedição não tentou a corredeiras, nem a parcéis, nem a flechas ervadas, nem a bichos peçonhentos. Lá foi. E que é que lhe sucedeu? Apenas isto: nunca mais voltou!

(1) — O. padre, que é o jesuíla Aspilcueta Navarro, não pôde partir daquela feita. Partiu mais tarde na expedição de Bruno Spinoza.

Tomé de Sousa, diante do golpeante fracasso, esfriou. Nada mais de entusiasmos! Os povoadores que cá vieram eram poucos, escrevia ele ao Príncipe com marcado bom-senso. Não se podia, por isso mesmo, ir lançando à aventura, ligeiramente, para serem devorados pelo mato, as vidas tão preciosas dessa escassa gente. E soubesse também o amo que, de então para diante, "eu não hey de fallar mais em ouro se o não mandar a Vossa Alteza". Pois, neste negócio, rematava pitorescamente — "por muito que madruguemos, não é que ha de amanhecer mais azinha".

 

BRAZ CUBAS

Esse cauteloso esmorecimento de Tomé de Sousa não refreara a ânsia de descobertas que andava cá pelo sul. A busca de ouro, em S. Paulo, ia sempre assanhada. Mato adentro, sem desfalecimentos, lá partiam os piratininganos à cata da riqueza dourada. E do fundo dos sertões, por onde aqueles mamelucos rijamente se atufavam, continuavam a chegar boatos e mais boatos sobre achados de grãos. Verdadeiros? Falsos? Ninguém poderia dizê-lo. Mas o certo era que, como escrevia à corte, tão chistosamente, o governador Duarte da Costa — cada dia se esquentavam mais as novas "… e quanto, Senhor, ás cousas do ouro, nunca deixo de inquerir e procurar sobre o negocio. E cada dia se esquentam mais as novas". Esquentavam, realmente! O próprio D. Pêro Fernandes Sardinha, que fora o nosso primeiro bispo, mandava a El-Rei, açodadamente, a boa-nova da descoberta, em S. Paulo, do flavo metal. "Senhor! Hontem, que foram onze deste Julho (1), chegou hum navio da Capitania de San Vicente e deu certa a nova que era muito ouro achado pela terra a dentro. Devia Vossa Alteza mandar logo assoalhar esta nova pelo reino, pe-ra os homens se moverem a vir cá de melhor vontade". Ouro! Ouro em S. Paulo! Que palavra auspiciosa e vencedora! E essa palavra, tão de empavonar o coração de El-Rei, não era só o bispo que mandara. An-chieta, numa de suas cartas quadrimensais, confirmava a notícia fúlgida. Essa carta é para a gente bandeirante saborosamente evocativa. Basta dizer que vem datada assim:

"Piratininga, na casa de S. Paulo, 1554..."

E diz: "… agora, finalmente, descobriu-se uma glande copia de ouro, prata, ferro, e outros metaes, até aqui inteiramente desconhecidos (como afirmam todos)".

(1) – Julho de 1552.

E onde se descobriu esse ouro, de que assim davam conta o bispo e Anchieta? No lugar chamado Caatiba. "Cahatiba, donde se tirou o primeiro ouro…"^ mandavam, de S. Paulo, dizer ao Rei os homens-bons da Câmara (1).

As notícias esquentavam, não havia dúvida. E esquentavam tanto, que o governo determinou a Braz Cubas tratasse de sair, sem tardança, empós a esses achados que assim estrondavam com rumores tão ridentes.

(1) — Caatiba ficava, no dizer de Azevedo Marques (Apontamentos), distante três léguas de Biraçoiaba, isto é, a atual cidade de Sorocaba.

Braz Cubas é um velho reinol. Viera ele com Martim Afonso na frota povoadora. Fora quem fundara a vila de Santos. Tinha sido, por duas vezes já, capitão-mor da Capitania. Mal recebeu Braz Cubas a ordem governamental, lançou-se com valentia aos trabalhos de pesquisa. E atacou de rijo o sertão: ata-cou-o (diz ele) por trezentas léguas a fio. Em que região do Brasil andou o desbravador essas trezentas léguas? Ninguém poderá dizer ao certo (1). Conje-tura-sc apenas que Cubas, nessa áspera avançada, explorou quanto riacho encontrou no caminho. Provou quanta areia fuzilou diante dos seus olhos. Duras e longas canseiras as do reinol! Mas não foram canseiras perdidas: Braz Cubas achou ouro! Sim, daquelas terras desertas, daquelas confusas terras por onde errou, teve o explorador a boa fortuna de trazer um sur-rão rebrilhante de folhetas. Veio doente, veio comido de febres — não importa! — mas veio com ouro dentro da sacola! E escreveu logo ao Príncipe: "Senhor!… vindo a esta Capitania o governador Mem de Sá, lhe parecco de vosso serviço que fosse eu por este certão dentro a buscar minas de ouro e prata. Do ouro que truxe já mandey as mostras a Vossa Alteza". Mandou as amostras e, contudo, não pôde tornar àquelas paragens onde topara o ouro promissor. Ordenou a um dos seus parceiros, Luiz Martins, que saísse à cata dele. "Por vir eu muyto doente do campo, e não poder lá voltar, torney a mandar o mineiro Luiz Martins ao sertão em busca daquelle ouro", . . Este foi. E não andou muito. Andou apenas, pelas cercanias de Santos, umas escassas trinta léguas. Mas que jornada feliz! "Quiz Nosso Senhor (escreve Cubas á corte) que Luiz Martins achasse ouro em seis partes, a trinta legoas desta villa, tão bom como o ha em mina e dos mesmos quilates". O mineiro venturoso trouxe grossa borracha de folhetas. E essas folhetas, segundo o escrito que le lavrou perante testemunhas, nas notas do tabelião Jácome da Mota, deram (o que já é para amostras, um peso respeitável) três marcos e seis grãos, isto é, cerca de um quilo de ouro puro. De novo, ouro! E ouro ali, à mão, trinta léguas em derredor de Santos, Os colonos meteram-se a explorar avidamente aquelas redondezas: e em Santos, em Apiaí, pela serra do Cupa-tão, por todo um largo trecho do litoral, até Paranaguá, principiaram os de S. Paulo, com surpresa e festa, e achar e a catar ouro. Ouro de lavagem, é verdade. Mas ouro! (2).

Tais eram, no sul do Brasil, as primeiras e alvo-roçantes descobertas do metal sonhado. E no norte? No  norte,  a  esse   tempo,   falava-se  pouco  em   ouro.

(1) — Vide nota A in fine.

(2) — Vide nota H in fine.

Andava por lá, muito atiçada, a miragem da prata e a miragem das pedrarias. Uns sonhavam com essa tal "Serra das Esmeraldas", toda verde, perdida no sertão bravio, que faiscava ao sol como esmeralda monstruosa. Outros sonhavam com uma tal serra branca, a Sabara-buçu, que (também diziam) faiscava no fundo dos matos, alva e toda de prata. Foi por causa dessas duas lendas, levado pela cálida fantasmagoria das pedras c da prata, que Martim de Carvalho aventurou larga entrada pelos matagais de Sergipe. Não encontrou o sertanista as jazidas verdes. Nem os veeiros brancos que buscava. Mas, ao que dizem — oh, país de encantamentos! — teve ele a boa dita de encontrar ouro num ribeirão daquelas paragens broncas (1). Eis o que conta o velhíssimo Gandavo: "… foram dar num ribeirão onde acharam entre as areias uns grãos miúdos, amarellos, os quaes alguns homens apalparam com os dentes, acharam-nos brandos, mas não se desfaziam. Assentaram todos ser aquillo ouro; nem podia ser outro metal, pois o mesmo ouro desta maneira nasce na parte onde os ha". É verdade que, nos vaivéns episódicos daquela jornada, Martim de Carvalho, ao vencer as águas aparceladas dum rio chamado Cari-caré, constatou, com muitos desgostos — "que se perdera numa cachoeira a canoa onde vinham os grãos de ouro que trazia para amostra".

(1) — Vide nota B in fine.

A notícia dessa aventura, porém, não teve ressonância lá pelo norte. Grãos de ouro! Que era lá isso, esses grãozinhos à-toa, para os que sonhavam achar, dentro do mato, aquela serra alterosa, amarela, toda de ouro, que os bugres chamavam de Sol-da-Terra? Ninguém ligou a mais mínima importância àqueles pobres granetes, naufragados no Caricaré, descobertos nas areias dum ribeirão desconhecido. Mas isso era no norte. No sul, a esse tempo, os paulistas ainda corriam desabalados atrás de tais grãozinhos. Dentro em breve hão de eles, por seu turno, desprezá-los também. E só ambicionarão, com a cobiça acendida, descobrir minas de ouro. Mas por essa época, no alvorecer das descobertas, arrojavam-se eles ardorosamente atrás desses pozinhos chispantes. E quando tinham a ridente fortuna de os encontrar, punham-se a catá-los com es-braseamento. Entupiam com eles, o quanto podiam, os seus surrões de couro. E mal, à flor da terra, ou na areia dos riachos, os pozinhos secavam, demandavam logo outros sítios, por mais ermos que fossem, buscando com sofreguidão outros granetes amarelos. É natural que essa gente, plasmando assim o cará ter, desde o nascimento da capitania, nessa cúpida ambição de ouro, conservasse pelo tempo afora, como ainda hoje conserva, essa acentuada fome de riqueza, tão marcante, que é um dos traços altamente incisivos da raça piratiningana.

OURO E RAPINA

O ouro descoberto por Braz Cubas deu o toque de alarma. Foi ele, certamente, o que incentivou Eliodoro Eobanus, um alemão, a também sair em busca de minas (1). Havia ouro aí pela beirada do mar? Pois toca a buscá-lo! E o novo farejador de riquezas lançou-se, margeando o oceano, a caminho do atual Estado do Paraná. Dizem papéis velhos de Eobanus — terra prodigiosa era essa terra do pau-de-tinta! — teve uma jornada das mais radiosas: achou ouro em grãos por toda a rota! Achou em Iguape, achou em Paranaguá, achou em Curitiba. Grandes e quentes deveriam ter sido as vozes desses achados. Pois, seduzido por elas, Jerónimo Leitão, capitão-mor de S. Vicente, também se botou, com uma leva de mamelucos, atrás dessas riquezas do litoral (2). E como Eobanus — país fabuloso esse país que nascia! — andou o capitão-mor, entre alvoroços e festas, a catar granetes e folhetas por vários sítios. Catou-os, certamente, em Iguape. Catou-os, sem dúvida alguma, em Paranaguá.

(1)       — Vide nota C in One.

(2)       — Vide nota D in fine.

 

Não havia mais, portanto, que vacilar: por todos aqueles sertões, vizinhos ao mar, havia ouro. Ouro de lavagem, é certo; mas ouro! As pesquisas de Braz Cubas, de Eobanus, de Jerónimo Leitão, davam dele provas estridentes e cabais.

* * *

O rumor desses achados, no entanto, trouxe para S. Paulo consequências sérias. Sérias e sangrentas. É que o ouro e o crime são irmãos gémeos. Andam sempre juntos. O ouro foi sempre, desde o mais remoto dealbar da humanidade, o candente incentivador da rapina. O açulador sem entranhas de carnagens. Por isso mesmo, sem escapar à lei inexorável, muitas páginas de sangue há de escrever, nos anais toscos da terra–dos-papagaios, o ouro do Brasil. A primeira contudo, escreveu-a em S. Vicente o ouro de Braz Cubas e de Jerónimo Leitão. Como?

Morava em Santos, a essa época, um inglês de nome John Whitall. O povo, em vez de chamá-lo, custosamente, de John Whitall, simplificava-lhe o apelido arrevesado: chamava-o de João Leitão. "Here, in this countrey (dizia ele) instead of John Whitall, they haue called me John Leitoan…" Ora, este John Whitall, ou melhor, este João Leitão, ao escrever a vendish coroou belamente o seu atrevimento: conseguiu, na última investida, assenhorear-se francamente da vila. Saqueá-la. E — o que é mais — apoderar-se de grande cópia de ouro. Era o ouro da carta de João Leitão! O famoso ouro que os moradores de Santos andavam catando nas redondezas do povoado. "Achamos também em Santos muito ouro, que os indios trouxeram dum certo logar chamado Mutinga. Os por-tuguezes são ao presente senhores do logar onde existem essas minas".. . (1).

 

OS PRIMEIROS RICOS

Mas que importava para os paulistas o assalto de Fenton? Que importava o assalto de Cavendish? Aqueles mamelucos já tinham o sangue envenenado pelo gosto da riqueza. E lá prosseguiram eles sem esmorecer, antes com mais escandente afã, a procurar minas por toda a parte. ". . .’ os paulistas continuaram na diligencia de descobrir Minas de ouro, e de prata, e de ferro, e de pedrarias", conta o velho Taques na sua "Informação". E continuaram nessa diligência com um vigor e uma tenacidade que assombravam. Guiava-os um faro singular. Levados por esse faro é que iam eles, pelos matos, descobrindo grão de lavagem a cada passo. Descobrindo e enriquecendo. Pois data de então o aparecimento, nas crónicas vicentinas, dos dois primeiros homens ricos de que há memória nas terras de S. Paulo. São os dois mais vetustos Cre-sos piratininganos: Afonso Sardinha, pai e Afonso Sardinha, filho. Foram estes paulistas os exploradores venturosos do Jaraguá (1).

(1) — Jaraguá é um pico nas redondezas da cidade de "… Afonso Sardinha, e seu filho, foram os que tiveram a gloria de descobrir ouro de lavagem nas serras do Jaraguá; na serra do…" E o saboroso Pedro Taques enumera, com os seus nomes bárbaros, os sítios da cidade de S. Paulo, as serras da vizinha Parnaíba, os sertões brutos de Sorocaba, por onde os dois Sardinhas andaram. E nem só por onde andaram, mas (o que é o importante) onde abarrotaram muita canastra de barras amarelas.

Afonso Sardinha, o pai, morreu, opulentíssimo, fundindo os granetes que tirava das suas catas do Jaraguá (2). O filho herdou-lhe as lavras minerais. Opulento como o pai, mas insaciado, meteu-se pelo sertão, com cem índios, à busca de mais riqueza. Ia o ricaço, dizem as atas da Câmara, — "correr terra cõ intensão de irem tirar ouro". . . No sertão, varado por um flechaço, morreu. Ao morrer, porém, fez ao Padre João Álvares o seu testamento. E nele declarou Afonso Sardinha, o moço, esta coisa enorme: possuía, além de lavras, de terras, de escravos, de mais bens, a quantia de "oitenta mil cruzados de ouro em pó". Oitenta mil cruzados de ouro em pó! Era riqueza, em 1604, verdadeiramente estupefaciente. Não há, pois, que admirar tenha o ruído dessa grandeza estrondado aos ouvidos de D. Francisco de Sousa. D. Francisco de Sousa, nesse momento, é o governador-geral do Brasil. É o tão falado senhor de Beringel. "Deo–se então conta desses descobrimentos a D. Francisco de Souza, governador". . ., relata-o Taques.

(2) — Hoje   ainda   lá   existem   alguns   buracos.   São  os   últimos   remanescentes  dessa  feliz  mineração  na cidade  de  São   Paulo.

* * *

A Bahia, mais do que nunca, escaldava do delírio da prata. Melchior Dias ateara por lá a febre das minas brancas. Sabarabuçu! SabaraDuçu! E toda a gente tinha a alma e o corpo voltados para o delirante romance do baiano.

Mas D. Francisco de Sousa, ao que parece, não acreditava muito nas minas de metais que diziam existir no norte. E muito menos nas apregoadas minas de prata da Bahia. Para D. Francisco de Sousa (ao que se depreende dos seus atos) era no sul, e não no norte, que existiam as riquezas metálicas do Brasil. E é por isso que o senhor de Beringel, mal recebe as notícias de ouro que chegaram rumorosas de S. Paulo, envia para lá, pressurosamente, a Diogo de Laço, com dois mineiros experimentados, a averiguar os descobertos que se alardeavam. Laço parte. E as notícias de ouro continuam a vir cada vez mais insistentes. Cada vez mais firmes. D. Francisco de Sousa não resiste. E decide-se a ir, pessoalmente, ver aquele ouro. Um dia, largando o governo, deixando a Bahia, abandonando as minas de prata que por lá incendiavam os ânimos, embarca alvoroçadamente rumo a Piratininga. Chega a Santos. De Santos, subindo a serra pela estrada do padre José, entra enfim, circundado por vistosa cavalgada, triunfalmente, no velho burgo de João Ramalho.

D. FRANCISCO DE SOUSA EM S. PAULO

O S. Paulo de 1600… Era um povoadozinho bárbaro. Tudo quanto podia haver de mais rústico. A Bahia e o Recife, recebendo a cada nau os chega-diços que vinham do reino, crescendo sob as asas aparatosas dos governadores gerais, em frequente con-tato com a gente da governança, já haviam tomado hábitos mais aprimorados, enfeitavam-se, tinham mesmo o prazer custoso das baixelas, e dos móveis, e das tafu-lices, e dos panos finos. Aquele famoso Melchior Moreira, um mameluco, descendente de Caramuru, possuía, em S. Salvador, nessas remotas eras, a copa de prata mais famosa que já viu o Brasil! E S. Paulo? Enlurado na sua toca de além-serra, longe do mar, S. Paulo, a esse tempo, era uma vilota selvagem, habitada por hirsutos rompedores-de-sertão, homens bar-baçudos, Vestidos broncamente de couro, bravios como porcos-do mato. Gente tosca, não tinham os paulistas um só objeto de gala. Não trajavam sequer um estofo menos grosseiro. Só havia, segundo o que refere frei Vicente, em todo o lugarejo, como garridices célebres, uma pobre capa de baeta e um desvalioso manto de sarge. Os paulistas guardavam aquelas peças como tesouros de preço. Pois aquelas peças tinham este destino preciosíssimo: "… esta capa de baeta e este manto de sarge, só se emprestava aos noivos para irem se casar á Igreja!"

Mas o aparecimento de D. Francisco, com o aparato e a pompa do seu séquito, deslumbrou aqueles chucros caçadores de ouro. E operou-se, com o deslumbramento, uma transformação mágica nos costumes despolidos daquela grei. "… depois que chegou D. Francisco de Souza, e viram as suas galas, e as de seos creados, e as de suas creadas, tudo mudou". Tudo mudou, sim! Principiou aí, com D. Francisco, o sentimento da elegância piratiningana. A partir de então, nas festas, adeus gibão de couro! adeus botas de vaqueta! adeus sapatorras de cordovão! "… houve logo tantas librés, e tantos periquitos, e tantos mantos de soprilhos, que já parecia outra cousa!"

Mas D. Francisco de Sousa, ao mesmo tempo em que assim civilizava os piratininganos, corria, sôfrego, a visitar as lavras donde eles arrancavam ouro. Esteve, em pessoa, nas catas do Jaraguá. Nas de Par-naíba. Nas de Sorocaba. Nas de Santos. E o governador viu — viu com seus olhos! — aqueles caboclos explorarem com fartura ouro de lavagem. Pôs-se então, como prova provada do que via, a arrecadar os grãos, maiores e mais bonitos que eram achados nas lavras. Fez com eles um rosário opulento. E, para mostrar ao rei, com fatos e não com palavras, o que já ia de riqueza pelo sul, mandou ao soberano, eloquentemente, aquele galantíssimo rosário de ouro, mimo paulista, ensartado de camândulas maciças. "… como o ouro he de lavagem, ás vezes se catava pouco ou nenhum, mas outras vezes se achavam grãos de peso e de preço; com elles enfiou um rosário, assim como sahiam, redondos, quadrados, compridos — e o mandou a S. Magestade".

Foi então, em S. Paulo, que D. Francisco de Sousa, o grande incentivador das buscas metálicas do Brasil, armou duas bandeiras memoráveis que se arremessaram pelo hinterland com intrépido arrojo: a de Nicolau Barreto e a de André de Leão. Uma saiu à busca de ouro; outra saiu à busca de prata. A de Nicolau Barreto partiu de São Paulo em direitura ao sertão do Peru, olhos postos nas jazidas amarelas, sonhando topar naquelas solidões com as riquezas que os espanhóis arrancavam dos seus domínios (1). A de André de Leão partiu de S. Paulo em direitura ao sertão dos Cataguazes, o atual Estado de Minas Gerais, olhos postos nessa tentadora montanha branca, a Sabarabuçu, que se dizia ser a montanha resplandecente da prata. A bandeira de Nicolau Barreto foi, quanto ao ouro, dum fracasso integral: não trouxe do Peru o mais leve indício do metal dourado. A de André de Leão, quanto à prata, foi, por sua vez, do mais fragoroso insucesso: não trouxe o mais leve indício dos veeiros da Sabara-buçu. No entanto esta bandeira de André de Leão tem, mais do que qualquer outra, um lugar de marcado destaque na história da descoberta do ouro. Como? Expliquemo-nos. Mas, antes de explicarmo-nos, dete-nhamo-nos dois instantes sobre essa lendária serra do Sabarabuçu (2).

(1) — Ellia  Júnior   "O   recuo  do   Meridiano".

(2) – Vide nota G in ftne.

SABARABUÇU

Sabarabuçu! Pedra-grande-que-resplende . . . Eis uma das quimeras mágicas da terra ingénua do pau-de–tinta. No alvorecer do Brasil, di-lo saborosamente muito papel velho, formou-se aquela espicaçadora lenda, trazida por bugres, de que havia pelos sertões uma serra extraordinária — muy fermosa e resplandèscente. Para uns, essa encantada serra, assim formosa e resplandecente, era uma serra amarela, toda dourada, que fulgia dentro do mato como um grande sol. "… junto de hum Rio, alem do qual dizem que está uma serra que resplandesce muito e que he muy to amarella; nesse Rio vão ter pedaços de ouro que dessa serra caem. Dizem que a serra he muito temeroza e que, por causa do seu resprandor, chamam-lhe de Sol-da-Terra".

Era a Serra do Ouro.

Para outros, essa encantada serra, formosa e resplandecente, era uma serra verde, toda de pedras verdes, que resplendia com um resplendor verde. "… chegavam indios do sertão a dar novas de huma serra que havia muitas léguas pela terra dentro; a qual serra era muy fermosa e resplandescente. E os indios traziam dessa serra humas pedras verdes, aos quaes eram esmeraldas". . . (1).

Era a Serra das Esmeraldas.

Para outros ainda, essa encantada serra, formosa e resplandecente, era uma serra argêntea, toda alva, a fulgir dentro das selvas como uma torre branca. "Nós nos contentamos em ver de longe a serra maravilhosa: e nos pareceu uma torre branca e muito alterosa". . . conta-o Raleigh no "El-Dorado". Ao que o sertanejo baiano acrescenta: "toda a Serra se compõe de huma terra tão branca, e tão fina como a cal, e, segundo os signaes da terra onde se acha a prata, por este sinal mostra que esta Serra o tem". . .

Era a Serra da Prata. Era a Sabarabuçu.

Sabarabuçu! Graal brasileiro, perdido dentro das brenhas, essa montanha prodigiosa foi a lenda quei-mante que, na aurora da terra nova, mais do que o ouro — notai-o bem! — mais do que o ouro, c muito mais do que as esmeraldas, afogueou a imaginativa cândida dos rompedores-de-mato. Foi ela que se tornou, ao tempo de Francisco de Sousa, a obsessão alucinadora dos bandeirantes no norte. Melchior Dias, apregoando aos quatro ventos que descobrira no sertão imensas jazidas de prata, açulara na Bahia a ambição da riqueza albente. E os sertanistas, uns após outros, numa febre que tocava às raias do delírio, talavam as selvas baianas em busca dessa serra branca e resplandecente. Ora, D. Francisco de Sousa, ao vir para S. Paulo, trazia os ouvidos cheios das mil histórias que se contavam sobre o morro lendário. Já havia mesmo recebido, ainda na Bahia (conta o holandês Glimmer no seu preciosíssimo relato) — "um certo metal extraído dos montes de Sabaroason". Sabaroason? Mas isso era evidente corrutela, em lábios flamengos, da palavra Sabarabuçu. E o tal metal, extraído de Sabaroason, que os bruxulas logo examinaram deu como resultado possuir — "em hum quintal trinta marcos de prata pura". Prata? Ah, não havia mais dúvida: era a prata da Sabarabuçu! A prata da montanha branca que resplendia. . .

(1) – Gandavo.

Eis por que D. Francisco de Sousa, mal chega em S. Paulo, apresta logo a bandeira de Leão. Era a primeira bandeira buscadora de prata que partia de S. Paulo. "… e não perdendo tempo, D. Francisco fez entrar no certão a tropa de André de Leão, a solicitar as minas de prata de Sabarabussú" (1).

* * *

 

(1) — Taques, "Informarão".

 

E André de Leão partiu.

A jornada foi longa e áspera. O sertanista, correndo atrás dessa Sabarabuçu enfeitiçada, meteu-se pelo vale do Paraíba afora. Atravessou-o até as gargantas do Embaú. Principiou a galgar a serra da Mantiqueira. Transpô-la. E lançou a bandeira através dos matos mineiros (1). Sabarabuçu! Onde ficava essa montanha branca que resplendia? í Onde as minas de prata? O bandeirante, arrastado pela miragem escaldante, vagueou errático, longos meses, por aqueles socavões bárbaros. Mas vagueou baldadamente: o buscador da Sabarabuçu voltou com as mãos vazias. André de Leão não descobriu sequer traço de prata. Nem vestígio da serra resplandecente. Pouco importai O bandeirante, sem o suspeitar, fez urii trabalho imenso: foi ele — e eis o ponto básico daquele feito — foi ele quem rasgou o caminho que vai do atual Estado de S. Paulo ao atual Estado de Minas Gerais, o El-Dorado brasileiro. Daí é que decorre a importância dessa fracassada bandeira da prata. Essa importância é capital na história da pesquisa do ouro. Desvendado o caminho, rompida no sertão a trilha primitiva, os paulistas certamente haviam de se enveredar por ela à busca das jazidas..

(1) — Esta rota, que o professor Derby reconstitui com rara agudeza, deixou-a referida detalhadamente, com os seus nomes bárbaros, num documento altamente valioso, Guilherme Glimmer, o holandês que acompanhou, como prático de metais, a arrancada de Leão.

Haviam certamente de se enveredar, não há dúvida. Mas antes de se enveredarem, os piratininganos careciam, em meio àqueles mil estorvos que lhes empeciam a conquista do ouro, vencer ainda mais um estorvo. E este carrancudíssimo: os cataguazes. Índios ferocíssimos, estes gentios infestavam, além Mantiqueira, um sertão medonho, muito aterrorrizante, que exatamente por causa deles, ficou chamado — Certam dos Cataguazes. Tornava-se imprescindível, pois, antes de alcançar a terra das minas, que se limpassem aqueles matos de selvagem tão cru. Foi o que fez Lourenço Castanho Taques.

Mas não antecipemos os acontecimentos.

E AS MINAS? ONDE AS MINAS?

Entusiasmadíssimo ficou D. Francisco de Sousa com o que vira no sul. Por isso embarcou-se de S. Paulo para Madri (estávamos ainda sob o domínio da Espanha) a fim de entabular as negociações necessárias para que a corte incrementasse em S. Vicente a descoberta de novas minas. Que grandes e ferventes coisas, em Madri, não teria D. Francisco dito de S. Paulo e de suas lavras! Pois a corte, ouvindo-o, dividiu logo o Brasil em dois pedaços: um o do norte, que continuava submetido ao Governador geral; outro, o do sul, criado especialmente para melhor incen-tivar-se a pesquisa do ouro, que conglomerava num só bloco as capitanias -do Rio de Janeiro, de S. Paulo e S. Vicente, sob o nome eloquente de — "Administração geral das Minas descobertas e por se descobrirem". Ah, com que açodamento, com que entusiasmos, não teria vindo o senhor de Beringel a Piratininga, pela segunda vez, tomar conta do cargo de administrador dessa Repartição do Sull Contudo, apesar das justificadas esperanças que trazia, não pôde o enviado régio desenvolver os planos que visava. Não lho permitiu a dureza dos fados: D. Francisco de Sousa, por fatalidade, morreu logo após a sua chegada. E — sarcástico pormenor! — tão desvalido morreu o homem que mais cuidara no Brasil das minas de ouro, tão miserável finou-se aquele que mais se dedicara no Brasil à descoberta das riquezas metálicas, que, "segundo me afirmou hum Padre da Companhia, que se achava com elle á sua morte (conta-o frei Vicente), morreo Dom Francisco de Souza tam pobre, tam pobre, que nem sequer hu-ma vella tinha para lhe metterem na mão" (1).

Morreu D. Francisco de Sousa, o senhor deJ3e-ringel. Mas a morte do caloroso animador do ouro, não tolheu a investida dos paulistas empós às riquezas. Continuaram eles, com o mesmo cúpido acirramento, buscar pelos matos as suspiradas minas amarelas. Sim, as minas? Onde estavam as minas?

O rei, sôfrego por descobi-las, mandava dizer às gentes do Tietê num pitoresco desabafo de intimidade, que as despesas feitas por D. Francisco de Sousa resultaram inúteis — "por não se poder averiguar ainda a certeza de ditas minas e não se ter tirado delias nenhum proveito para a minha fazenda".

(1) — Vide nota M in fine.

Os piratininganos, ao receberem tais letras, respondiam ao soberano que "… estes certões da Capitania de S» Paulo eram ricos de haveres encobertos; e ficavam os vassallos paulistas dispostos a penetrarem-nos para os descobrimentos de ouro" (1). O monarca, encantado com aquelas disposições, mandava do seu próprio punho, como honra marcante, a cada paulista de prol, uma carta aduladora. Pedia a cada um, com muitos louvores matreiros, que "pela experiência e pelo bem com que até agora me serviu" e — mais ainda — "pelas noticias que me teem chegado do vosso zelo", tudo fizesse para a descoberta dos veeiros. "Hei de ter muito particular lembrança o que obrardes nesta matéria, para vos fazer amizade e honra". . . Para fazer-lhes amizade e honra, dizia aos paulistas. Mas era só: não lhes dava, o que se tornava bastante cómodo, um só real da sua fazenda para os ajudar no custeio das jornadas. Embora! Os piratininganos, com as cartas aduladoras dentro das bruacas, botavam-se pelo Brasil afora atrás daquelas minas tão ardentemente cobiçadas. Sim, onde estavam as minas? Onde?

(1) — Taques, "Informação".

E os bandeirantes saíam por todos os rumos. No sul, ao que dizem velhos papéis, Manuel Pereira, paulista, foi logo descobrindo ouro em grão numas rechãs de Paranaguá. Gabriel de Lara, outro paulista, o povoador de Curitiba, principiou a minerar com grandeza nas suas lavras de Peruna. E outro paulista ainda, João de Araújo, topou com tanto ouro no lugar chamado Itambé, que só uma cata, a que de direito pertencia ao Rei, fora arrematada pela enormidade de 155$000! (1).

Mas esses ouros, que assim se estavam colhendo no Paraná — acentuemo-lo bem — eram ainda ouro de aluvião. Grãos e folhetas que se achavam à flor da terra. E esses grãos e folhetas, ou porque fossem poucos, ou porque os descobridores os sonegassem ao quinto de el-Rei, não satisfaziam, nem de longe, as descompassadas esperanças da corte. Tornava-se necessário, inadiavelmente necessário, que se descobrissem as minas, onde se criava esse ouro. Ah, as minas! Onde estavam elas? Onde?

(1) – Vide nota H in fine.

RAIDS FABULOSOS

Foi então que aqueles sertanistas encoscorados, vestidos de gibão de anta, lançaram-se, como bandos de queixadas, pelos rincões mais espantosamente longínquos do Brasil. Homens épicos! Corriam eles, à busca do metal fascinante, toda a bárbara e desmarcada terra de pau-de-tinta. Cortavam-na palmo a palmo. De extrema a extrema. Havia, nessas jornadas sur-preendedoras, investidas que assombravam pelo atrevimento. Assombravam no século XVII; hoje no século XX, esmagam. Assim, "para a revelação de minas de ouro e prata", António Pedroso de Alvarenga, saindo de S. Paulo, andou, numa acometida memorável, dum só rush, centenas e centenas de léguas por matos aspérrimos: foi estacar nos sertões brutíssimos dos Goiazes. E não foi o primeiro! Já Sebastião Marinho havia botado, muitíssimos anos antes, nesses mesmos chucros sertões dos Goiazes, uma pequenina mas impávida entrada de ouro. Marinho não teve resultados. Também não os teve Alvarenga. Não importa! Mal, nessas arrancadas, tombava um gigante, logo surgia outro maior. Por isso, António Castanho da Silva, que ouvira, deslumbrado, os relatos que se contavam das longínquas minas do Potosi, embrenhou–se também por aqueles rincões selvagens a sua cata. Venceu longas serranias dentadas, águas incontáveis, chãos longíssimos, e, na sua ciclópica investida, foi ter um dia, saindo de S. Paulo — vede que estirão arro: jado! — às terras famigeradas do Peru. Daquele refulgente Peru das minas de ouro e de prata! E aí morreu. "… faleceu António Castanho nas minas do Potosi, província de Chiquitos", diz o genealogista. Mas não morreu com ele o sonho do ouro. Nem a coragem de realizar viagens assim fulgurantes e desassombradas. Eis que aparece Sebastião Paes de Barros. Paes de Barros encabeça, tentado por aquela mesma obsessão de riquezas, uma jornada atrevidíssima. Foi o raid mais grandioso, mais desempenadamente arrojado, de quantos rasgou no sertão a audácia pasmosa dos paulistas. É verdade que, mal iniciada a rota, Paes de Barros tombou morto. Embora! Substitu-indo-o, assume a chefia da bandeira o imediato da tropa, Pascoal Paes de Araújo. E Pascoal Paes de Araújo, levando avante a investida do bandeirante morto, vara essa imensidão de léguas amedrontadoras, essa arrepiante largueza de chãos bárbaros, que eram as terras de São Paulo, as terras de Minas Gerais, as terras de Goiás, e surgindo às margens do Tocantins, vai despontar enfim — assombro de penetração e de desbravamento! — nas brenhas remotíssimas do Piauí e do Grão-Pará!

Diz a fama que o bandeirante intrépido achou muitas jazidas de ouro. Taunay, sempre tão austero e fidedigno, conta que "… chegou Paes de Araújo ao Piauhy, donde seguiu para o rio Tocantins, descobrindo por aí imensas jazidas". Um documento coevo, porém, revela apenas "haver a cabo achado algum mineral como a Vossa Alteza se faz presente". . . Jazidas de ouro, ou apenas algum mineral, verdade é que ninguém soube jamais do local exato onde se acoitavam esses, descobertos. "A morte o surpreendeu, continua o insigne Taunay; e á posteridade ficaram ignorados os tesouros descobertos por Pascoal Paes de Araújo".

* * *

Com essas arremetidas fantásticas, buscando minas de ouro, os piratininganos talavam, de norte a sul, o Brasil que alvorecia. Iam eles tão longe, tão longe, através daquele jornadeio inacreditavelmente penoso. No entanto — curioso detalhe! — todos esses buscado-res de minas, que assim realizavam raids fenomenais, passavam descuidosos pela verdadeira terra do ouro, pisavam com menoscabo as glebas pródigas -das futuras minas gerais; e — é interessante o constatá-lo! não se detinham um só minuto a provar os ribeiros daquelas paragens opulentas! Como explicar a singularidade? Difícil responder. Talvez os bugres cataguazes, de tão crua fama, que povoavam aqueles silvedos inóspitos, os atemorizassem. E, talvez, com medo ao bugre, talvez evitando-o atravessassem eles às correrias aquelas ásperas serras que escurentavam os céus. Mas esse estorvo, embora amedrontador, não era assim tamanho, nem invencível, para aqueles velhos ciclopes devassadores de matos. O berço das minas suspiradas, das minas que os piratininganos procuravam por todo o país com tanta perda de sangue e teres, não podia, quaisquer que fossem os perigos, permanecer ali, rente a S. Paulo, ignorado daqueles tremendos farejadores de ouro. E foi então que, saindo a descobrir ouro, Lourenço Castanho Taques — enfiml — desempeceu, a tiro de trabuco, o caminho do El-Dorado brasileiro.

 

O CAMINHO DE ELDORADO

O Rei de Portugal, escrevendo a Lourenço Castanho, como escrevera a outros paulistas de prol, roga-va-lhe, com muitas e saborosas palavras, que o seu bom vassalo também se fosse pelos matos atrás dafe minas. E ficasse o seu fiel súdito bem certo (dizia o Rei, astutamente, como dizia a todos os demais) "que hei de ter em muito particular lembrança tudo o que obrardes nesta matéria, para vos fazer amizade e honra". Amizade e honra! Aquelas blandícias reais agui-lhoaram o sertanejo. E Lourenço Castanho atacou o sertão onde se enlurava a cataguá. Onde se enlurava aquele gentio sanguinário, odiento, um dos mais cruamente selvagens do Brasil primevo. E atacou-o desabusado. Ateou-se então, por aqueles desertos, acirrada guerra carniceira. O matagal daquelas emaranhadas paragens ouviu, a sacudir lambas e socavas, largo estrondo de bacamarte e copioso zarguncho de flecha ervada. Quanto tempo durou a luta? Anos a fio. Ao fim deles, era o paulista triunfador. Mas unicamente triunfador quanto ao índio. Quanto ao ouro — nada! Lourenço Castanho não descobriu um só grânulo amarelo. Que importa? O guerreiro desbravara o caminho das Gerais. O precioso caminho que vai agora conduzir os piratininganos às jazidas mais dadivosas que já viram as Américas. Por esse caminho, que é a mesma rota de André de Leão, ou quase exatamente a mesma, foi que se enveredou, buscando esmeraldas c prata, a rumorosa leva de Fernão Dias Paes Leme!

Fernão Dias Paes Leme!

Na cordilheira do bandeirismo, onde refulgem os Raposos, os Pascoal Moreira, os Manuel Preto, os Anhangueras, nessa alta e atrevida cordilheira do bandeirismo, é Fernão Dias Paes Leme um dos picos mais fascinadores. Não cabe aqui, nesta crónica do ouro, historiar-lhe a tumultuada e romântica jornada. Essa jornada, sabe-o toda a gente, é uma página belamente ilustre nos anais primitivos de S. Paulo. Digamos, no entanto, duas palavras sobre a sonhadora arrancada às pedras verdes. A notícia dela é imprescindível para o fio desta crónica.

* * *

Fernão Dias Paes Leme botou um dia a sua tropa de arcos rumo aos Cataguazes. Levava consigo o filho e o genro. Garcia Paes e Borba Gato. E foi-se à busca da prata e das pedras. À busca das duas famosas miragens tentadoras: a "Serra do Sabarabuçu" e a "Serra das Esmeraldas". "… tenho já dado conta a Sua Alteza do grande serviço que Vossa Mercê lhe vae fazer no descobrimento da prata da "Sabarabussú" e no descobrimento da "Serra das Esmeraldas" — escrevia ao paulista o Visconde de Barbacena, governador geral. Ao que Pedro Taques acrescenta: "Fernão Dias sahiu de S. Paulo para a conquista e descobrimento das minas de prata da Sabarabussú e da serra das esmeraldas do sertão". . . Pedras e prata! Sabarabuçu e Serra das Esmeraldas!

Sete anos, com a flâmula atrevida desfraldada à frente da tropa, o sacudido rompedor-de-mato vagueou por aquelas selvas atrás dos dois sonhos. Sete anos de sertão! Ao cabo deles, não achou traço de prata. Nem vestígio sequer da Sabarabuçu. No entanto, sem que o esperasse, eis que um dia, à beira de limosa lagoa, o paulista encontra umas pedras verdes, bem criadas, que fuzilavam ao sol com rebrilhos fúlgidos.

— Esmeraldas! Esmeraldas!

E o visionário, deslumbrado, enche aqueles bosques com a sua larga alegria entontecida. Mas ai! — a alegria do velho dura pouco. Fernão Dias, mal descobre as esmeraldas, é bruscamente atacado de maleita. E morre, feliz, mimoso da fortuna, esse imenso Fernão Dias Paes Lemel Ao expirar, depois daqueles sete anos de fadigas, tinha o bandeirante, apertando entre as mãos a sacola entupida de pedraria, a confortadora ilusão de que morria vencedor. Mas era ilusão apenas! Filtro mentiroso com que os deuses complacentes lhe adoçavam o trespasse: as pedras verdes — verificou-se ao depois em Portugal — não eram esmeraldas. Eram pedras falsas. Eram turmalinas atoas.

Dura e tremenda decepção! Redundara em desolador fracasso a tão falada bandeira das esmeraldas. E nem só redundara em fracasso quanto às pedras. Ela teve também, quanto aos homens, aquele epílogo de sangue, inesperadamente trágico, que já foi trasladado para estas páginas: o assassínio de Rodrigo Castel Blanco, o enviado do Rei, por Borba Gato. Com o assassínio, fugiu para os matos o criminoso. E dispersou-se a bandeira.

No entanto, apesar de infrutífera, a leva de Fernão Dias foi, como agudamente acentuou um ilustre bandeirógrafo — "a mais importante do Brasil, senão de toda a América do Sul" (1). É bem verdade! E por quê? Porque dela faziam parte Garcia Paes e Borba Gato. Esses dois caboclos, que são duas belas e nobres figuras sertanejas, vão, neste momento, abrir nos Cataguazes a idade dourada. André de Leão não encontrou a prata. Fernão Dias não encontrou as esmeraldas. Mas Borba Gato e Garcia Paes vão encontrar ouro. Sim, ouro! Minas de ourol Eles vão ser, não há dúvida, os dois grandes reveladores do El-Dorado brasileiro.

 

(1) — Dr. Francisco Lobo Leite Pereira.

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Um homem, ao depenar um rouxinol e vê-lo tão pobre de carnes, exclamou: és voz somente, nada mais.. — Plutarco

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