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Capítulo IX (¹)

IDEALISMO

A poesia leva ao idealismo.

Note-se, porém, que a
palavra idealismo não é aqui empregada na acepção comum, não serve para
representar um dos sistemas em voga da filosofia moderna. Por esta palavra
empregada na falta de outra equivalente, quero indicar uma das forças vivas do
homem, a energia criadora do ideal. A poesia é justamente esta energia.

Qual é, porém, o meio
de que dispõe o espírito para elevar-se à concepção do ideal? A ciência, não:
porque a ciência tem por objeto a realidade, isto é, o conhecimento verificado
e organizado: esta missão pertence ao domínio da poesia e da religião. Daí a
distinção que se deve estabelecer entre as funções inferiores dos sentidos e da
inteligência e o vôo sublime do espírito nas livres criações da arte, ou mais
precisamente, entre o pouco que está feito e o muito que se pode fazer.

Fica, pois, assim perfeitamente determinado o papel da
poesia.

O homem tem
necessidade de completar o quadro doloroso e terrível da realidade pela
concepção harmoniosa de um mundo ideal. A realidade o aterra: é preciso
entrever a possibilidade de um mundo melhor. Tal é precisamente a missão da
poesia.

 

(1) pp. 118-131 40

 

Mas em face do
espetáculo doloroso da vida, vendo por toda a parte o mesmo quadro invariável
da luta e do sofrimento, o homem, em virtude de tendências que têm a mesma
origem nas profundezas do ser, é levado a ocultar na harmonia do todo as
imperfeições parciais, elevando-se assim à concepção de alguma coisa melhor.
Vem assim a compreensão de uma regeneração, confundindo-se em uma só idéia o
bem e o belo. Tal é o resultado do espírito do homem e tal é o domínio da
poesia. Quanto à verdade, fica reservada para a ciência.

Em uma palavra: o fim da
ciência é a verdade, o fim da poesia é o belo, o fim da filosofia é o bem. E é,
de uma fusão completa destas três grandes manifestações do espírito, ou melhor,
destes três aspectos distintos, mas inseparáveis de uma só e mesma atividade,
que há de nascer o princípio da regeneração do futuro.

A poesia é, pois,
destinada a exercer uma das mais altas funções do espírito. É "como uma
moral estética, prelúdio da moral propriamente dita"; é "a verdadeira
interpretação da vida", na expressão de Schopenhauer, que adota em relação
ao artista este pensamento dos Vedas: Hae ommes creaturae in totum ego sum
et
praerer me aliud ens non est E assim pensando Schopenhauer coloca
o ponto culminante da poesia na tragédia, "intérprete fiel da der
humana"; mas isto se explica não só pela intuição pessimista do filósofo
que reduz tudo à vontade, mas também porque a dor é em verdade o que há de mais
profundo e substancial na existência .

A poesia é ainda mais do que isto: é
o único consolo de que pode resultar uma compensação eficaz contra as misérias
do mundo, é um refúgio e uma regeneração, é o espírito humano, olhando
além da realidade presente e dando impulso ao progresso.

Mas a poesia assim
compreendida não é a poesia no sentido vulgar da palavra; é a poesia dos livres
sagradas de todos os povos, dos Vedas e do Ksndjur; do Zend-Avesta e dos Edas;
da Bíblia, como das epopeias homéricas; é, numa palavra, a poesia que se
confunde com a religião.

Capítulo X (¹)

FILOSOFIA E RELIGIÃO

Eu chego aqui ao
ponto culminante de meu livro, quando, tratando de estabelecer as condições
características da evolução do pensamento, começo pela filosofia para terminar
pela religião. Também nessa evolução pode-se dizer que a filosofia é o começo e
a religião é o fim, nem outra coisa é permitido deduzir quando, tendo-se dito
em começo que o fim da filosofia é a moral, agora se acrescenta que não há
moral sem religião.

Em verdade, a religião é a
própria filosofia comunicando-se ao povo e deduzindo as leis da conduta, de
modo que, assim considerada, a religião, em sua acepção mais geral, compreende
tudo: governo, legislação, moral.

 

Assim, na elaboração
de meu pensamento, parto do seguinte fato: todas as religiões atuais estão
mortes, são mantidas apenas como uma homens gem às tradições do passado, mas
não têm mais vida na consciência das multidões, nem força para fazer s. paz
entre os povos. Entretanto, sustento com a energia decisiva de uma convicção
profunda e insuperável que a religião é a primeira e a mais importante de tedss
as necessidades públicas, sendo que sem religião não pode haver estabilidade,
nem ordem nas sociedades. De modo que a conclusão a que pretendo chegar é esta:
há de ser criada uma religião nova, sem o que não poderá ser mantida a civilização contemporânea, que terá fatalmente de se
dissolver e morrer.

(1) pp. 132-147

 

Pensando assim, bem
sei que me coloco numa posição extremamente difícil, porque não estou, nem com
os representantes do passado, que defendem as velhas religiões, nem com os
reformadores da sociedade, que combatem toda a religião. Mas também não estou
só, porque há muito quem sustente esta tese que é a tese que defendo: as
religiões passam, as religiões se transformam e morrem: mas o sentimento
religioso é em si mesmo imortal.

Todas as religiões
atuais estão mortas: eis uma verdade dolorosa, mas incontestável, e não é senão
porque isto é uma verdade que se nota o estado de extremo desassossego, de
angustiosa anarquia e profunda perturbação a que se acham reduzidas as
sociedades modernas.

Com efeito a anarquia é a
feição característica do século. Há anarquia política, anarquia económica e
anarquia intelectual. Há mesmo um partido de teóricos anarquistas, e os
estadistas e legisladores de todos os países lamentam este estado de coisas e
sobretudo exagerando o perigo de uma revolução que, promovida nas trevas, já
começa a pôr em ação o terrível expediente da propaganda pelo fato, estranham
que a tal ponto tenha chegado a anarquia mental e a corrupção dos costumes. Mas
como não devia ser assim se o direito público moderno faz guerra a todos os
grandes princípios, que são a garantia da ordem; se combatem as crenças
populares e por todos os meios, se esforça de eliminar a religião do governo
das sociedades? Ora, a religião é a ciência do povo, é o grande princípio que
constitui a atmosfera do mundo moral. Suprimida a religião, desaparece a ordem,
como a tranquilidade nas massas sociais que não tendo convicções, nem idéias
com que possa ser preenchido o vácuo deixado no espírito pela supressão das
crenças tradicionais, entregam-se a toda a sorte de extravagâncias.

Todas estas perturbações,
porém, toda esta anarquia e angustiosa aflição das sociedades modernas não se
explicam senão pela decadência do sentimento moral e falta de religião. Eu
disse no capítulo anterior que o que caracteriza a civilização contemporânea é
a ausência absoluta de poesia e agora acrescento que a poesia que nos -falta é
justamente a poesia da religião. Não há religião presentemente no mundo. Passou
a época das convicções e dos grandes entusiasmos.

 

Em verdade, nada pode ser considerado
isoladamente na história e o presente vem do passado, do mesmo modo que já
contém o futuro, o que melhor se poderia dizer, afirmando que no hoje vai já o
amanhã, segundo a expressão eloquente de um notável poeta alemão. E tudo vem de
longe, prendendo-se o que se passa agora, ao que já se passou em época
imemorável.

De modo que no problema
religioso a questão tem de ser estabelecida sobre bases inteiramente novas e
nada pode ser aproveitado do que nos legou o passado, a não serem os intuitos
morais que são, como já disse, o elemento substancial e imperecível das
religiões.

Esta solução de que as
religiões serão totalmente eliminadas, sucedendo à sua completa eliminação
exclusivamente a ciência, é absolutamente inadmissível. As religiões, como já
disse, passam; as religiões se transformam e morrem; mas a religião c em si
mesma imortal.

Pode-se, pois, dizer que a
religião é eterna, como é eterna a filosofia. Ou por outra e mais precisamente,
a religião é a própria filosofia, porquanto a religião não é senão o
reconhecimento da necessidade que tem o homem de elevar-se a uma concepção do
universo, de saber o que é, de onde vem e para onde vai; de formular uma
explicação da finalidade das coisas. Ora, todos estes problemas só podem ser
agitados na filosofia, não na ciência; e é exatamente quando os agita e
agitando-os acredita poder resolvê-los e resolvendo-os deduz as leis da
conduta, que a filosofia se transforma em religião, razão pela qual afirmo que
a religião é a própria filosofia e era verdade a religião não é senão a
filosofia realizando a moral. É por isto que já no começo deste capítulo disse
que a religião é a primeira e a mais importante de todas as necessidades
públicas e agora acrescento que a religião é propriamente a lei de aliança, o
princípio de ordem, a lei de harmonia entre os povos, numa palavra, a alma das
sociedades. Pode-se mesmo dizer que a sociedade está dentro da religião, do mesmo modo que os corpos estão dentro do espaço, pois é a
religião que constitui propriamente o princípio, a atmosfera do mundo moral. É
por isto que sem religião o governo degenera fatalmente em despotismo
e a comunhão social em pugilato de interesses.

É preciso considerar que nada será realizado e
definitivamente consolidado sem o laço espiritual da religião.

Pode-se dizer assim: —
Homem, lembra-te de que nada és: lembra-te de que um dia morrerás. — Isto só é
suficiente para fazer sentir a necessidade fundamental da religião.

Em conclusão, e para reduzir
a uma fórmula geral e fundamental todas as idéias até aqui desenvolvidas:

No processo da mentalidade
vem em primeiro lugar a filosofia.. que é a operação fundamental do pensamento
ou, em outros termos e conforme ficou já demonstrado, o
próprio espírito humano em sua atividade permanente. A filosofia exerce sua
ação de deus medos: teórica e praticamente. Assim produz duas coisas:
teoricamente, a ciência; praticamente, a moral. Mas a filosofia nasce do pasmo
produzido pelo espetáculo grandioso da natureza. Ora, também da mesma fonte que
nascem a poesia e a religião porquanto, admirando o mundo, o homem emociona-se
e daí a poesia: e esta emoção crescendo transforma-se em culto, daí a religião
Disto resulta que a filosofia para ser verdadeiramente eficaz, precisa de ser
ao mesmo tempo extremamente poética e profundamente religiosa.

Mas aqui apresenta-se uma
questão da maior complicação e gravidade e vem a ser: para ser fundada uma
religião nas condíções de satisfazer as aspirações do espírito humano, é
necessário ultrapassar a esfera da natureza? Em outros termos: existe Deus?

Capítulo XV (¹)

RELIGIÃO
E TEOLOGIA: ESCOLA ASSOCIACIONISTA

Mill contra
Hamilton.
A questão em debate é a seguinte: — temos ou
não uma intuição imediata de Deus? — A palavra Deus corresponde no modo comum
de falar a esta expressão — ser absoluto, como esta outra — ser
infinito.
Assim, a questão pode ainda ser proposta deste modo: — temos ou
não uma intuição imediata do ser absoluto ou do ser infinito?

(1) pp. 219-222

 

Todavia, conquanto
aceite e proclame com Hamilton que o infinito e o absoluto não podem ser objeto
de conhecimento, Stuart Mill nem sempre está de acordo com ele, submetendo suas
doutrinas a uma crítica detalhada e intransigente que a ser rigorosamente
verdadeira em suas deduções pouco deixa subsistir da filosofia do condicionado.
Mas antes de entrar ns apreciação desta crítica, é indispensável determinar a
verdadeira significação das palavras infinito e absoluto.

Isto 6 tanto mais
necessário quanto é certo que uma das maiores dificuldades da filosofia vem da
obscuridade dos termos ordinariamente empregados na discussão dos problemas,
sucedendo não rara vez que entre os representantes de idéias aparentemente
antagónicas a divergência está menos nos princípios que defendem do que nas
palavras de que se servem. Por isto sempre que tenhamos de entrar na exposição
de qualquer doutrina e sobretudo sempre que tenhamos de fazer a crítica de
qualquer teoria, é indispensável, antes de qualquer outra coisa, precisar a
natureza das questões que vamos submeter a exame, e determinar a verdadeira
extensão dos conceitos cujas relações tratamos de estabelecer, sendo de notar
que é não rara vez entre os termos mais comuns que mais frequentemente se
estabelece a confusão.

Quantas vezes, por
exemplo, não nos acontece em nossos centros de literatura tão exageradamente
eivados de positivismo, ouvir, aliás de pessoas perfeitamente esclarecidas,
esta afirmação categórica: — A metafísica está morta. — Entretanto pergunta-se:
— Mas o que é e em que consiste a metafísica? — E não nos sabem responder? E
quando alguns se atrevem a tentar defini-la, é curioso observar que não se
encontram duas pessoas que a compreendam do mesmo modo. E isto que tão
frequentemente se vê entre pessoas que não se dão senão acidentalmente e por
mera distração ao estudo destes problemas, é o que igualmente se observa entre
os autores de longos tratados. Assim para uns, como os escolásticos, a
metafísica é a ciência das primeiras causas e dos primeiros princípios: estes
remontam à definição de Aristóteles. Para outros é a ciência do ser considerado
em absoluto, sendo que nada é mais vago do que isto que nada exprime. Outros
definem ainda a metafísica — o conhecimento das causas sobrenaturais. — Mas o
que é sobrenatural, excede os limites da inteligência, não
pode ser objeto do
conhecimento. Nestas condições têm vazão os sectários do positivismo
quando afirmam que a metafísica está morta. Mas a metafísica, como já vimos
(Cap. VII, "Metafísica
naturalista”), não é nada disto: e o que se deduz desta extrema confusão e
deplorável incerteza é a ignorância que ainda se nota quanto à verdadeira e
legítima significação desta, como de outras palavras.

Tratando-se da
metafísica, nada disto deve parecer estranho, porque o conceito da metafísica é
de si mesmo extremamente obscuro. Mas isto se dá do mesmo modo com palavras
cuja significação não se acredita, à primeira vista, possa ser posta em dúvida. Assim o direito, o dever, noções tão comuns; a filosofia, a moral, palavras tão
conhecidas, são, não obstante, termos que precisam de ser claramente definidos,
nem há entre os diferentes autores, verdadeiro acordo quanto ao modo por que
devem ser interpretadas. Abri um publicista qualquer, abri qualquer tratado de
moral: por quantos modos não é interpretado o dever, quantas opiniões
divergentes e às vezes até opostas não são apresentadas sobre a intuição do
direito? E a palavra liberdade, para terminar com um exemplo decisivo, quantas
pessoas a compreendem do mesmo modo? Entretanto, não há palavra em que mais se
fale, nem há princípio pelo qual mais se lute.

É a palavra de ordem dos
oradores da tribuna política; é o princípio que inflama os patriotas de todos
os tempos e de todos os países, a força que faz as revoluções. Mas quantos
pessoas saberão dizer com precisão e clareza o que é a liberdade?

Tratando-se das ciências
físicas e matemáticas, tudo é claro e preciso, nem há acerca de cada coisa mais
de uma opinião e uma idéia. Mas no domínio moral e psicológico, não: tudo é
vago e incerto, tudo é indefinido e nebuloso, por tal modo que acerca de cada
assunto em rigor não se encontram duas pessoas que pensem absolutamente do
mesmo modo. Por que? Por dois motivos: 1.°) porque sobre os fatos de ordem
moral e psicológica não há ciência ainda; 2.°) porque é tendência geral aplicar
a esses fatos o mesmo critério e os mesmos conceitos com que são ordinariamente
interpretados os fenómenos físicos, e com isto faz-se violência à própria
organização do espírito que, não podendo submeter-se a uma disciplina
incompatível com o mecanismo intelectual, deixa o caminho indicado pela razão
para entregar-se aos vôos desordenados da fantasia.

Daí a falta de
precisão, a dubiedade e fraqueza da fraseologia particular da metafísica, sendo
de notar que estes defeitos chegam ao último grau nos termos ordinariamente em
voga na teologia. Basta considerar que a teologia, tendo por objeto Deus,
começa afirmando que Deus não pode ser compreendido, nem mesmo concebido, sendo
que é princípio comum entre os teólogos que um Deus que pudesse ser
compreendido não seria Deus. Pensa-se que Deus para ser verdadeiramente grande
precisa de andar sempre envolvido no mistério e se amesquinharia se se fizesse
conhecer. Tudo isto prova apenas uma coisa, a nossa ignorância.

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