Fundação do Rio de Janeiro – FREI VICENTE DO SALVADOR

Fundação do Rio de Janeiro – FREI VICENTE DO SALVADOR

FREI VICENTE DO SALVADOR (Maruim, perto da cidade da Bahia) nasceu em 1564 e faleceu entre 1636 e 1639. Era graduado in utroque jure pela Universidade de Coimbra, e ordenou-se na Bahia, entrando depois para a Ordem franciscana. Catequizou nas capitanias do Norte e foi um dos fundadores do Convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro. Em 1624, ao entrar na barra da Bahia, foi capturado pela esquadra holandesa, e esteve prisioneiro dois meses. Escreveu uma Crônica da Custódia do Brasil, obra extraviada, e uma História do Brasil, pela primeira vez estampada em 1889, no vol. XIII dos Anais da Biblioteca Nacional.

Não repousa ela sobre estudos arquivais — opina o Sr. Capistrano de Abreu; — mas esta pecha é resgatada pelo tom popular e quase folclórico em que foi escrita. Quanto ao estilo, é simples, desataviado e familiar.

Fundação do Rio de Janeiro

Posto que o governador Mem de Sá não estava ocioso na Bahia, não deixava de estar com o pensamento nas coisas do Rio de Janeiro, e assim, sacudindo-se de todas as mais, (369) aprestou uma armada, e com o bispo Dom Pedro Leitão, que ia visitar as capitanias do Sul, que todas em aquele tempo eram da sua diocese e jurisdição, e com toda a mais luzida gente que pôde levar desta cidade, se embarcou (370) e chegou brevemente ao Rio, onde em dia de S. Sebastião, vinte de janeiro do ano mil quinhentos e sessenta e sete, acabou de alcançar os inimigos de toda a enseada, e os seguiu dentro de suas terras, sujeitando-os ao seu poder e arrasando dois lugares em que se haviam fortificado os Franceses, posto que em um deles, que foi na aldeia de um Índio principal chamado Iburuguassú-mirim. que quer dizer "pau grande pequeno", lhe feriram seu sobrinho Estácio de Sá de uma mortífera frechada, (371) de que depois morreu.

Sossegadas as coisas da guerra, escolheu o governador sítio acomodado ao edifício de uma nova cidade, a qual mandou fortalecer com quatro castelos, e a barra ou entrada do Rio com dois: chamou à cidade — de S. Sebastião; não só por ser o nome de seu rei, senão por agradecimento dos benefícios recebidos do Santo, pois a vitória passada se ganhou (372) em dia de S. Sebastião; e em este dia, dois anos antes, partiu Estácio de Sá, de S. Vicente para o Rio de Janeiro, e começou a guerra invocando o seu favor, o qual reconheceram bem os Portugueses, assim em a batalha naval das canoas como em outras ocasiões de perigo. Pelo que, ainda em memória da vitória das canoas, se faz todos os anos em aquela baía, defronte da cidade, no dia do glorioso S. Sebastião, uma escaramuça de canoas com grande grita dos Índios, que as remam e se combatem, (373) coisa muito para ver. (374).

O sítio em que Mem de Sá fundou a cidade de S. Sebastião, foi o cume de monte, donde facilmente se podiam defender dos inimigos, mas depois, estando a terra de paz, se estendeu pelo vale ao longo do mar, de sorte que a praia lhe serve de rua principal; assim, sendo lá capitão-mor Afonso de Albuquerque, se achou uma manhã, defronte da porta do Convento do Carmo, que ali está, uma baleia morta, que de noite havia dado à costa; e as canoas que vêm das roças ou granjas dos moradores, ali ficam desembarcando, cada um à sua porta, ou perto dela, com o que trazem, sem lhe custar trabalho de carretos, como custa pela ladeira acima. Nem eles próprios lá subiram em todo o ano, e menos as mulheres, se não fora estar lá a igreja matriz, e a dos padres da Companhia, pela qual causa mora ainda lá alguma gente.

Fundada, pois, a cidade pelo governador Mem de Sá, em o dito outeiro, ordenou logo que houvesse oficiais e ministros da milícia, justiça e fazenda; e, porque haviam ido na armada mercadores, que entre outras mercadorias levavam algumas pipas de vinho, mandou-lhes o governador que o vendessem ataver-nado; (375) e pedindo eles pusesse a canada por um preço excessivo, tirou êle o capacete da cabeça com cólera, e disse que sim, mas que aquele havia de ser o quartilho, e assim foi, e é ainda hoje por onde se afilam (376) as medidas, donde vem serem tão grandes que a maior peroleira (377) não leva mais de cinco quartilhos.

(História do Brasil, livro III, cap. 12.°, obra de FREI VICENTE DO SALVADOR ).

 

Notas gramaticais

  • (369) sacudindo-se = desprendendo-se, desligando-se, desviando-se, desistindo.
  • (370) se embarcou — Embarcar, como ir, vir, partir, subir, rir, descer, sorrir, cair e outros verbos intransitivos acompanham-se, muitas vezes, do pronome reflexivo, que é um como reforço enfático, usado dos melhores escritores. Em Os Lusíadas: embarcar-se (II, 92; IV, 61, 93); ir-se (V, 91; VI, 62); vir-se (IX, 9); partir-se (I, 41, 72; III, 80; VII, 36); rir-se (II, 38; V. 57). Cair-se: …"não sei como, se caiu morta… (Bernardim Rib°., Menina e moça, nesta Antologia. Subir-se: "E após isto, subiu-se a um teso sobre o mar, donde fosse visto"… (L. de Sousa, Anais, Liv. I, cap. XVIII). Descer-se: "…chamou-o e disse-lhe que se descesse abaixo para a lapa…" (Idem, Vida do Arceb., neste vol.
  • (371) frechada = golpe de frecha ou flecha (formas sincréticas). O suf. ada aí indica pancada ou choque, como em paulada, facada, bicada, pedrada, palmada; mas pode trazer a idéia de quantidade: mesada, garfada, fornada, temporada, carroçada; de coleção: boiada, canzoada, carneirada, ninhada, rapaziada; de confeição: laranjada, goiabada, cocada, feijoada; de ação, decorrente da raiz do verbo: chegada, jogada, queimada, tomada, arrancada, criada, coalhada etc.
  • (372 se ganhou — voz passiva (= foi ganhada); e também, seis linhas abaixo: se faz (= é feita) e ainda, dez linhas depois desta: se achou (= foi achada).
  • (373) se combatem — se — objeto direto recíproco.
  • (374) coisa muito para ver (= para ser vista) voz passiva pelo sentido com o infinitivo verbal.
  • (375) atavernado — a varejo, a retalho, a miúdo, no balcão da taverna.
  • (376) afilar as medidas = aferi-las, isto é, cotejar e ajustar pesos e medidas com o respectivo padrão. O verbo afilar (de filum, fio) tem outras significações, consignadas nos dicionários.
  • (377) peroleira (vocáb. desusado no Brasil) é vasilha de barro, afunilada, de boca estreita e em que se guardam azeitonas, como dizem os léxicos da língua.

Seleção e Notas de Fausto Barreto e Carlos de Laet. Fonte: Antologia nacional, ciclo colegial Livraria Francisco Alves.

 

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