Egas Moniz – obra de FREI ANTÔNIO BRANDÃO

Egas Moniz – obra de FREI ANTÔNIO BRANDÃO

FREI ANTÔNIO BRANDÃO. Foi um dos historiadores da Monarquia Lusitana.

Esta vasta composição divide-se em oito partes.

As duas primeiras são obras de Frei Bernardo de Brito, que no século tinha o nome de Baltasar de Brito e Andrade. Era um monge cisterciense e cronista-mor do Reino, nascido na vila de Almeida (província da Beira), a 20 de agosto de 1569, e aí também falecido a 27 de fevereiro de 1617. A 1.a parte foi publicada em 1597, e abrange as histórias de Portugal desde a criação do mundo até ao nascimento de N. S. Jesus-Cris-to. E a 2.a estampou-se doze anos depois (1609), continuando as ditas histórias até Portugal dado em dote ao Conde D. Henrique. Por isto escreveu Costa e Silva, no seu Ensaio Biográfico-Crítico, ter sido — "Frei Bernardo de Brito um arquiteto que, encarregado da edificação de um templo magnífico, traçou dele uma planta tão vasta que, trabalhando toda a sua vida, apenas conseguiu levantar-lhe o peristilo".

Sete anos depois de publicada a 2.a parte da Monarquia Lusitana (1616), padeceu acerba crítica por parte de Diogo de Paiva de Andrade, filho de Francisco de Andrade, no seu livro Exame de Antiguidades. Respondeu-lhe o cisterciense Frei Bernardo da Silva em dois volumes, Defensão da Monarquia, publicados de 1620 a 1627. A crítica naqueles tempos andava devagar, e a polêmica mui compassada.

Continuador da Monarquia foi Frei Antônio Brandão, também cir-terciense e cronista-mor do Reino, nascido em Alcobaça a 25 de novembro de 1584 e falecido a 27 de novembro de 1637. A 3.a parte contém a história de Portugal desde o Conde D. Henrique, e todo o reinado de el-rei Afonso Henriques. A 4.a vai do tempo de D. Sancho I até o fim do reinado de D. Afonso III. Ambas estas partes foram estampadas em 1632.

Frei Francisco Brandão, igualmente cisterciense e cronista-mor, nascido em Alcobaça a 11 de novembro de 1601, e falecido em Lisboa a 20 de abril de 1680, é o autor da 5.a e da 6.a parte, estampadas, uma em 1650, e a outra em 1672. Abrange a 5.a parte os sucessos dos primeiros 23 anos do reinado de D. Dinis; e a 6.a a história dos restantes anos do mesmo reinado.

A 7.a parte da Monarquia foi escrita por Frei Rafael de Jesus (Guimarães, 1614-1693). Era monge beneditino e historiou o reinado de D. Afonso IV.

Finalmente, foi autor da 8.a parte o cisterciense Frei Manuel dos Santos (Cantanhede, 1672-1748) que levou a narrativa até à eleição de D. João I.

O excerto que para aqui transladamos é de Frei Antônio Brandão, de quem Alexandre Herculano afirmou ser — "uma das mais nobres inteligências que Portugal tem gerado, e um ilustre restaurador da História pátria".

 

Egas Moniz

Mui celebrada é em nossas histórias a ida de Egas Moniz a Castela com sua mulher e filhos, por dar satisfação ao Imperador D. Afonso da promessa feita no cerco de Guimarães. E foi o* caso, segundo dizem, que, sentido o Imperador da desgraça passada na rota de Valdevez, e desejando sanear-se desta quebra, fêz preparação de gente de guerra com o mor segredo possível, e, entrando em Portugal pela parte da Galiza, se veio quase repentinamente lançar sobre a vila de Guimarães, aonde (378) então residia a corte e assistia (379) o infante D. Afonso.

Neste cerco não pode haver dúvida, porque o confessa el-rei D. Afonso Henriques, sendo ainda infante, em uma doação do cartório de Pedroso, que faz a Mem Fernandes, de certas herdades no Couto de Osseloa, em terra de Vouga, cuja data é no mês de maio da era de 1167, que é ano de 1129; e diz que lhe faz esta polo haver bem servido (380) com Sueiro Mendes, o Grosso, e outros de sua geração no cerco de Guimarães, que lhe pusera el-rei de Castela, seu parente. São as palavras formais que declaram isto… Assi que já em maio de 1129 tinha precedido o cerco em Guimarães.

Havia pouco que esta vila fora ganhada (381) pelo mesmo infante, que, segundo dão a entender nossos escritores, deviam seguir as partes da rainha D. Tareja; e assi se conquistaria, ou entregaria, com o castelo de Lanhoso e mais forças da sua parcialidade; e por esta causa e brevidade do tempo não estava ainda tam bem fortalecida como convinha, nem havia nela a gente de guerra necessária. Por estas razões julgou o prudente capitão Egas Moniz, aio do infante e principal ministro de suas coisas, seri convenicnte usar então de cautela com o inimigo. E assi, passndo algum tempo do cerco, saiu fora da vila, (382) e, pedindo audiência particular do Imperador, lhe soube propor uma tão boa ordem o estado das coisas presentes, como a empresa era de grão dificuldade (383) pela fortaleza da vila, valor .In infante D. Afonso e da gente portuguesa que dentro estava, a qual era pela maior parte exercitada em guerras, e com a memoria fresca da vitória de Valdevez estava mais animada. Que considerasse, como príncipe católico, não serviam para mais Mtas dissenções entre os reis cristãos que de consumirem as suas loiças, de propor aos Mouros alegre espetáculo e lhe facilitar as empresas. Com estas e outras razões obrigou Egas Moniz ao Imperador levantar o cerco; ajuntando-se, segundo dizem, a promessa que fêz de obrigar o infante a ir às cortes de Leão nas ocasiões que as houvesse. (384). O que eu não aprovo, fundado no que fica dito da soberania de Portugal, e só admito a promessa de se restituírem algumas terras que os Portugueses possuíam em Leão e Galiza.

Não soube o infante D. Afonso destes tratos, e assi ficou admirado, quando viu repentinamente levantar-se o cerco; e cheio de indignação, quando lhe constou da promessa que fizera o seu aio. Mas êle, como tinha traçado o cumprimento dela por ordem diferente do que se imaginara, soube aplacar a ira do príncipe na ocasião presente com razões eficaces, (385) e pelo tempo adiante dar satisfação ao que havia prometido, por um modo raro, qual foi ir-se a Toledo (386) com sua mulher e filhos, e aparecer ante o Imperador D. Afonso em trajos humildes, com cordas ao pescoço, oferecendo sua vida própria, e dos seus, a troco da palavra mal cumprida. E posto que este espetáculo causasse ao princípio indignação naquele príncipe, contudo, tomando melhor acordo, e com parecer dos grandes de sua corte, fêz bom acolhimento à ilustre família e deu por quite o leal vassalo de sua promessa. E com isto fizeram volta a Portugal, e todos alegres pelo bom sucesso, (387) e com exemplo de fidelidade, e imitação pouco vulgar aos futuros.

Reprovam alguns autores esta história, e se persuadem ser equivocação ou engano de outra semelhante, que poucos anos acontecera em Castela. E foi que, quando el-rei D. Afonso de Aragão fazia guerra em Castela contra sua mulher a rainha D. Urraca, o conde de Peransures, não obstante que havia feito homenagem a el-rei de algumas fortalezas, as entregou depois à rainha. E ainda que a ação parecia justificada, por ser aquela princesa rainha proprietária, a quem seus vassalos deviam obediência, cuidadoso, despois, da fé que a el-rei de Aragão tinha dado, se foi oferecer como réu, com uma corda ao pescoço, para que lhe desse o castigo merecido. Alterou-se el-rei ao princípio com aquela vista, e, reportando-se despois, e ainda advertido pelos seus, como aquele cavaleiro cumprira bem com o que devia a sua lealdade, o tratou bem, e com palavras de louvor e honra lhe perdoou aquela ofensa. Com este sucesso querem se enganassem nossos historiadores, referindo outro semelhante de Egas Moniz, o qual têm por fabuloso. Mas não sei que con-tradição ou dúvida pode haver no exemplo de lealdade que deu Egas Moniz, por haver precedido outro no conde Peransures, quando a verdade do primeiro facilita mais a possibilidade e verdade do segundo.

Reprovam mais a ida de Egas Moniz a Castela na forma referida, por notarem indecência em êle e seus filhos irem meios despidos, (388) e a mulher em trajo pouco decente, não vendo que, além do exemplo do conde D. Peransures, varão insigne e venerável daquela idade, já antigamente precedera outro no Cônsul Mancino, sem o julgar por indecente a antiguidade. Es-tando no cerco de Numância o cônsul Mancino Hostílio, se mandou entregar despido e maniatado (389) aos inimigos, vendo que faltavam os Romanos aos de Numância em alguns concertos que tinham feito. Porém eles, que se não prezavam menos de vencer os Romanos com primores que com esforço e armas, deixaram ir o cônsul livremente, dizendo se não satisfazia bem a quebra da fé pública com o castigo de uma particular pessoa, ainda que tão principal como era o cônsul. Feito insigne e bem–afortunado, e de igual louvor a ambas as partes, a que não ficou inferior a ida do ilustre Português a Castela; a qual não é bem que se negue só por conjeturas mal fundadas.

Já tenho advertido que as histórias antigas não devem ser reprovadas com facilidade, pois a tradição é de muita força, e só se devem emendar quando houver escrituras e doações autênticas que as contradigam. Mas querer anular o que elas dizem sem fundamento de escrituras, por parecer próprio e discurso particular (como fazem alguns) nem merece louvor nem deixa de ser atrevimento. Esta ida de Egas Moniz a Castela está fundada na tradição antiga, escrita por nossos autores, e pelos estranhos, não contém indecência ou impossibilidade alguma, nem se reprova por escrituras ou doações: não vejo por que se haja de negar.

(Terceira Parte da Monarquia Lusitana, Lisboa, 1632, pp. 95 v. e 96 obra por FREI ANTÔNIO BRANDÃO.).

Glossário Gramatical

  • (378) aonde em vez de onde. É comum nos clássicos tal alteração: "Gidá •se chama o porto aonde o trato / de todo o Roxo mar mais florescia". (Lus., IX, 3); …"me tornei ao castelo, aonde achei meu filho morto"… (Sousa, Anais, Parte II, Cap. X); "Aonde o fogo ardeu, sempre um brasido fica". (Castilho, As Sabichonas, ato I, cena I).
  • (379) assistia = morava, residia. V. n. 28.
  • (380) polo haver bem servido = por havê-lo bem servido.
  • (381) Ganhado, gastado, safado, pasmado, pagado, salvado, são participios verbais regulares, que vêm sendo suplantados por formas menos boas, algumas puramente substantivas: ganho, gasto, safo, pasmo, pago, paga, salvo. O povo diz pego por pegado e também se lê empregue por empregado, à semelhança de entregue (V. n. 41). A língua possui mais de duas centenas de participios duplos, alguns arcaizados, como comesto (de comer),’ tolheito (de tolher), concesso (de conceder), cozeito ou coito (de cozer; cfr. biscoito), volto (de volver): outros usados, hoje, apenas como adjetivos: completo, torto, falto, grato, boto, perverso, cativo, perfeito, resoluto, quieto, curvo, culto, bento etc.
  • (382) saiu fora da vila — esse reforço pleonástico foi muito de uso entre os antigos. Lembre-se o verso camoniano: Não entra para dentro obedecendo (Lus., II, 5).
  • (383) grão dificuldade — grão (ou, sob as formas iniciais, gran e gram) é apócope de grande e não sofre flexões. Tanto se diz grão-duque como se diz grão-cruz e grão-vizires. Os antigos escreviam gram mas pronunciavam grão (como não, são, vão, hão, dão que escreviam nam, sam, vam, ham, dam, e como escrevemos ainda hoje os paroxítonos verbais amam, vieram, fugiram, com o som ão. Nas quarenta vezes em que se encontra gram (grão) em Os Lusíadas, quinze deparam essa forma junto a nomes femininos: genealogia, fidelidade, vitória (2 vezes), mercê, soma, corrente (3 vezes), viagem, glória, verdade, valia, rainha e tormenta. Mas, escrito embora gram e junto a nome feminino, a pronúncia deve ser sempre grão e não grã. Assim devera dizer-se Grão-Bretanha* ainda que escrito Gram. Na Ulisséia lê-se grão fereza (II, 85), grão beleza (VII, 6); no Caramuru: grão parte (VI, 46).
  • (384) nas ocasiões que as houvesse [em que houvesse as cortes). Nas orações adjetivas ligadas a expressões de tempo, o pronome relativo dispensa às vezes a preposição em, que o antecede. Diz-se: duas vezes em que o vi, ou que o vi; à hora em que chegaste ou que chegaste; um dia em que, ou um dia que. Na linguagem atual prefere-se a preposição: No momento em que, na hora em que, no tempo em que. Outrora os clássicos não poucas vezes a omitiam. Em Camões: "No tempo que do reino a rédea leve / João, filho de Pedro, moderava"… (Lus., VI, 43); "Um dia que pregando ao povo estava"… (Ibld. X, 127); em Lucena: "um dia que a disse… (a mima) ap. João Ribeiro, Sei. Cláss., p. 164); em Luís de Sousa, nos Anais de D. João Hl (Parte I, Livro I): em tempo que o sono mais senhor está dos membros e sentidos (cap. XI, In fine); na hora que saísse a acometê-lo (cap. XX); (Livro II): no mesmo dia que êie apareceu (cap. XVIII); (Parte II, Livro I): ao tempo que a tumba chegou (cap. II).
  • (385) eficaces — forma anterior do adjet. eficaz (do lat. efficace-). O — ce —, ci, latino dá z no vernáculo. Cfr. voce, pace, aíroce, dece(m), cicatrice, felice, veloce, cruce, luce, étimos dos vocábulos correspondentes, com — z — final.
  • (386) ir-se — V. n. 370.
  • (387) bom e mau sucesso, como boa e má saúde, bom e mau êxito, boa e má fortuna, boa e má sorte; a tendência para o favorável faz que, eliminado o adjetivo, se diga o sucesso, o êxito, a sorte, a saúde, sempre tomados à boa parte.
  • (388) meios despidos — V. n. 186.
  • (389) maniatado = de mãos atadas. Também se diz manietado.

Seleção e Notas de Fausto Barreto e Carlos de Laet. Fonte: Antologia nacional, Livraria Francisco Alves.

 

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