Gombé – história curta de lenda do mato grosso

Gombé – história curta de lenda do mato grosso

ilustração ossada urubu

GOMBÊ

Nas cercanias de Poconé, a linda cidade pantaneira, existiu outrora, no tempo das brilhantes cavalhadas, um guapo mancebo, que era o terror dos "mouros" no arrebatamento das argolinhas.

Chamava-se Leonel o altivo centauro. Era, de fato, um seguro peão, mas possuía uma qualidade, aliás muito rara naqueles austeros tempos: era um inveterado "queima–campo".

Conheci-o já velhusco, alquebrado, porém sempre disposto para pregar uma tora. E que tora…

— Conte-nos um caso dos seus, seu Leonel.

E êle, sem se fazer de rogado, logo principiava:

— "Uma vez…" e ia desfiando um rosário de casos, cada qual mais gozado.

De uma feita, fomos, eu e o Pancrácio, filar uma chicara de café em casa do incorrigível contador de lorotas. Enquanto esperávamos passar o pó pelo coador, saiu-se o Leonel com esta pilhéria:

— Este bule foi comprado por minha viúva, logo depois da minha morte____

— O senhor, então, já morreu alguma vez?…

— Pois não sabiam? Já faz um tempão. Talvez seu Pancrácio ainda não era nascido.

— Quantos anos tem mesmo você seu Pancrácio?…

— Posso lhe garantir que já fiz trinta e seis… respondeu o eirado causídico, um impenitente.

Pois foi mesmo antes de você vir para o mundo.

Nessa época eu possuía um cavalo de nome Gombê. Era um animal perfeito; apenas tinha as pernas dianteiras — cambaias, mas as traseiras eram juntouras, de sorte que um defeito anulava o outro. Também era caolho, mas quem olhava de banda não dava pela coisa. Mas não havia cavalo para correr como Gombê. Depois que ganhei um dinheirão em corridas, não achei mais um "pato", todos já conheciam a força do meu "quatro pés". Um dia saí campo afora, olhando o gado.

Ia montado no baio malacara, que era a côr do animal. Vaiando a lagoa do Faval, naquele largo onde hoje fica a olaria do Chiquinho Cearense, estava parado um veado branco. Eu quis experimentar as pernas do cavalo. O dogue que me acompanhava, viu também o campeiro e sobre o mesmo se lançou velozmente. Eu ainda encostei num landi e cortei um virote.

Era com aquela varinha que eu queria sapecar as ancas do Chifrudinho. E soltei as rédeas do Gombê. Instantes após já eu ia colhendo o veado na "iapa" e o cachorrinho também, de sorte que o bicheco, vendo-se apanhado, começou a pular e a berrar. E quando armei o galho do landizeiro para começar a surra, deu-se a catástrofe. O cachorro embaraçou-se nas gâmbias do Gombê, este tro-picou no veado e todos nós fomos ver o barro de perto. Que rodada!

Acordei-me de um pesado sono. Olhei vagarosamente em torno de mim, e o que eu vi arrepiou-me a espinha. Santo Deus! exclamei, será possível? Junto a mim estava uma ossadazinha, branca e muito limpa. 0 pescoço ainda trazia uma coleira, muito minha conhecida. Era o dogue. Logo adiante um esqueleto maiorzinho brilhava ao sol nascente. Conheci o veado pelos chifres. E ao redor de mim, espalhados, estavam os ossos de um cavalo.

Recompus a carcassa, e uma lágrima furtiva veiu-me ao canto dos olhos. Era, sem dúvida alguma, a do Gombê, com os ossos das pernas dianteiras tortos para dentro e os das pernas traseiras embodocados, com a abertura para fora. Que tristeza…

Saí tonto, a caminho de casa e então reparei que um "potossim" de urubus, certamente os comedores do Gombê, do dogue e do infeliz veado me acompanhava, com esse passo malandro de negro vestido de fraque… Apanhei o virote, que embora já seco, estava ali à mão, e dei uma "rabanada" sobre o fúnebre acompanhamento de corvos, que se dispersou, grasnando, por todos os lados. Os ladrões como é sabido, não comem bichos vivo, e esperavam seguramente eu morrer, para servir-lhes de sobremesa. Alguns até lambiam os bicos, antegozando o sabor da minha pacuera…

Quando fui chegando ao sítio, pálido e magro, barbudo e trôpego, o meu povo pôs-se a bradar por socorro. Parecia que estava vendo um defunto fugindo da cova. E foi aquela disparada mato a dentro; mulher, sete filhos, dois camaradas, afora uns cinco ou seis aderentes. Entrei, encabulado, na cozinha encontrei este bule, que eu não conhecia ainda, cheiozinho de café, aliás bem quente. E quando me confortava com o precioso líquido a minha mulher regressou, sarapantada, do bamburrão, a fim de se certificar do ocorrido. Somente, então, reparei que ela estava de luto.

— Quem foi que lhe morreu, para estar assim vestida?, perguntei-lhe.

— Pois você, tendo desaparecido, e o Ernesto, o moleque campeador, tendo participado que havia encontrado quatro corpos na várzea do Faval, sendo um de gente, e todos sendo comidos pelos urubus, vi logo que você tinha morrido…

— E por quê não cuidou do meu enterro?

— Estava fedendo muito e ninguém queria ir fazer o serviço, nem sendo pago…

— Quantos dias fazem que eu saí de casa, então?

— Pois já tem dois meses!…

Eu e o Pancrácio, tendo saboreado o cafezinho, saímos satisfeitos com o caso e prometemos ao Leonel voltar qualquer dia, para ouvirmos outra história.

Ulisses Cuiabano: Revista da Academia Matogrossense de Leiras Tomos 15 e 16, 1940, pp. 33-34.

Fonte: Estórias e Lendas de Goiás e Mato Grosso. Seleção de Regina Lacerda. Desenhos de J. Lanzelotti. Ed. Literat. 1962

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