História da Alemanha. — Guerra dos Trinta Anos

História da Alemanha. — Guerra dos Trinta Anos

Césare Cantu – História Universal

CAPÍTULO XXVI

Alemanha. — Guerra dos Trinta Anos

Se a reforma tinha posto em desordem todos os países onde havia penetrado, aquele onde ela nascera sofria ainda mais em meio da desordem geral. Carlos V tinha partilhado seus Estados hereditários com seu irmão Fernando, que, tornado senhor da Hungria por sua mulher, e do reino da Boêmia por eleição, se esforçou por firmar de novo nestes dois países a autoridade real, ao mesmo tempo que combatia os privilégios. JoãoZapoly tinha deixado, como dissemos, o trono da Hungria e João Sigismundo, ainda criança, sob a regência de Isabel, sua mãe, e de Jorge Martinuzzi. Este último, bispo do Grande Varadin, homem notável por suas qualidades e por sua ambição, tinha sustentado o seu pupilo, e, para lhe conservar a coroa, tinha chegado a fazer o reino vassalo da Porta. Fernando, que pretendia ter este trono a todo o custo, rivalizou em vileza com Martinuzzi, e fêz-se tributário do sultão. O monarca turco, prevalecendo-se da sua inimizade, desterrou o jovem príncipe para Transilvânia com sua mãe, e reuniu a Hungria ao seu império. Martinuzzi, não podendo exercer o poder absoluto na Transilvânia como o teria desejado, entendeu-se com Fernando, ao qual ajudou a obter este país assim como direitos à Hungria; e prestou-lhe, tanto na guerra, como na paz, assinalados serviços. Pelo seu auxílio, o príncipe austríaco pôde enfim declarar esta coroa hereditária em sua casa, não conservando à dieta senão o direito de escolher a pessoa do soberano (1547).

Martinuzzi recebeu em recompensa o capelo de cardeal; mas vendo depois que Fernando, ocupado com os negócios da Alemanha, não tratava de defender o seu novo reino contra os otomanos, enviou aos diversos cantões na Transilvânia um homem a cavalo coberto com a armadura e outro a pé, segundo o antigo uso, para chamar os habitantes às armas; e intimou a Fernando que se preparasse para combater os inimigos da cristandade. O monarca austríaco saiu do perigo por meio de um assassinato (1551), e procurou justificar-se dele imputando graves crimes à sua vítima; porém Júlio III opôs a essas usurpações os elogios infinitos que êle mesmo ainda há pouco fazia para obter a promoção de Martinuzzi ao cardinalato; e, reconhecendo que Fernando tinha procedido por simples suspeitas ou por cobiça para se apossar das imensas riquezas que se atribuía ao cardeal, excomungou-o. Como o príncipe se submeteu à sentença e Carlos V intercedeu por êle junto da Santa Sé, êle foi afinal abençoado de novo pelo pontífice; porém não teve dos pretendidos tesouros de Martinuzzi senão uma orelha que lhe trouxe o assassino. Neste entretanto, o país sublevou-se; a Transil-vânia conseguiu subtrair-se à sua obediência, e só pôde conservar a posse da Hungria fazendo homenagem dela à Porta.

Fernando reduziu a Boêmia à obediência por meio do terror. Porém logo que restabeleceu o arcebispado de Praga, terror dos hussitas, e levantou, sem autorização dos Estados, um exército para socorrer Carlos V contra os confederados de Smalkalde, os calistinos declaram-se contra êle. Ofendido com esta oposição, voltou suas armas contra Praga (1547), no momento em que a vitória de Muhlberg inspirava aos príncipes austríacos confiança para tudo ousarem. Tendo então disposto tropas na cidade, chamou à sua presença os magistrados, e reteve-os presos até que eles renunciassem, em nome dos cidadãos, a todos os seus privilégios.

Alguns desses magistrados morreram de susto, e outros enlouqueceram. Fernando fêz mercê da vida aos que restavam; depois convocou uma dieta que foi chamada dieta de sangue, porque foi precedida do suplício de quatro personagens ilustres, e serviu-se dela para desarmar o povo, e impor-lhe uma pesada contribuição. Seis magnatas, nas três principais cidades da Boêmia, foram fustigados "como traidores, por terem amotinado o povo contra o seu soberano hereditário"; era esta uma nova denominação que a vitória lhe permitia de se arrogar sobre um trono até ali eletivo. Êle

introduziu depois os jesuítas ao país, e estabeleceu a censura; mas o que demonstra que a perseguição ali foi toda política e não religiosa, é ter êle tolerado o uso do cálice.

Depois da abdicação de Carlos V (março de 1558), Fernando tomou o título de imperador sem o assentimento do papa, que se demorou a reconhecê-lo, pretendendo que só a êle pertencia aceitar a renúncia do chefe do império, e que os príncipes protestantes não tinham voto na eleição. Êle teve sempre em vista aplacar as dissensões religiosas; porém, houve-se de tal modo que a guerra civil rebentou em Grumbach (23 de julho de 1564). Ao terminar seus dias em Viena, repartia seus domínios por seu testamento entre seus quinze filhos, aos quais recomendava manterem a religião católica: "Se os reformados, diz ali, em vez de concordarem entre si, são a tal ponto desunidos, obscuros, altercadores, como pode ser justo e bom aquilo que eles crêem? As verdadeiras crenças não podem ser múltiplas, não há mais do que uma; ora, como existe uma infinidade delas entre eles o Deus de verdade não pode achar-se em suas fileiras".

Seu filho mais velho, já rei da Boêmia e dos romanos, sucedeu-o com o nome de Maximiliano II. Homem probo e prudente, cheio de bondade com sua família, este príncipe, que amou a paz apesar da sua valentia, tolerou na Áustria o protestantismo, e permitiu esse culto aos barões e aos cavaleiros no interior de seus castelos e no território que lhes pertencesse.

Todavia os germens das discussões religiosas estavam longe de terem sido extirpados pela paz de Augs-burgo. Os bispados e as abadias já secularizadas tinham sido deixadas aos protestantes pela reserva eclesiástica, com a condição de que se algum possuidor de terras da igreja, dependente imediatamente do império, viesse a separar-se da comunhão romana, perderia por esse fato as suas dignidades e benefícios. Os protestantes tinham aceitado esta condição; mas depois proclamaram-na contrária à igualdade, e destruidora da liberdade de consciência. Portanto, como o jus sacro-rum lhes atribuía o direito de reformar a religião, eles regularizavam as doações eclesiásticas e apropriavam-se de seus bens. Esta obra foi consumada na baixa Alemanha; mas na alta, os católicos, que eram superiores em número, opuseram-se a que se fizesse o mesmo. Os príncipes violentavam as consciências no exercício desse direito religioso; é assim que o Palatinado foi primeiramente calvinista, depois luterano, depois novamente calvinista, e cada mudança introduzia a desordem nas consciências, como nos empregos e nas existências.

O bispo de Colônia (1582), tendo-se apaixonado da cônega Inês de Mansfeld, apostatou para a esposar, pretendendo todavia conservar o seu bispado; mas o clero elegeu outro prelado em seu lugar, o que produziu um cisma. O caso era grave, por isso que em conseqüência dele quatro eleitores dos sete teriam sido protestantes, o que excluiria do império a casa de Áustria. Porém o bispo tinha-se feito calvinista; este título atraiu-lhe o ódio dos luteranos, e, fê-lo ser mal sucedido em seus projetos. Já os luteranos, reunidos em Nurem-berg (1560), tinham condenado os dogmas calvinistas que se haviam introduzido em sua confissão; o eleitor de Saxe fazia torturar os dissidentes até morrer, e promulgava uma fórmula que todo aquele que queria escapar ao banimento devia subscrever. Estas fórmulas, que se multiplicavam, tornavam em germe de novas dissensões. Os calvinistas, cujo número tinha crescido,

pretendiam participar do benefício da paz de religião (1566); as queixas abundavam em cada dieta contra a parcialidade da câmara imperial, contra a negligência do imperador, e abusos da paz, o que retardava cada vez mais as embrulhadas decisões desta assembléia, ao passo que de toda parte os ódios prorrompiam em sangrentos conflitos. Os protestantes, alegando que os católicos não observavam a paz da religião (1608), formaram uma União evangélica, e formularam uma infinidade de agravos. Os Estados católicos opuseram-lhe outra, mais poderosa em forças, em unidade de política e de crenças, à qual se associou o próprio imperador.

Rodolfo II (1576-1611), homem pacífico por indolência, e tão rico de virtudes privadas como pobre de méritos públicos tinha sido feito imperador. Ocupado em estudar a natureza e cultivar a alquimia, restaurou a astronomia física e a verdadeira mecânica celeste. Em vez dos bobos da corte, que constituíam as delícias de seus predecessores, êle acolheu Kepler, assim como Tycho-Brahe, banido da sua pátria; e deveu-se-lhe assim as Tábuas Rodolfinas, que representaram com precisão os movimentos dos planetas.

Mas, absorto como estava pelas harmonias celestes, não prestava atenção às desordens terrestres, que aumentavam enormemente durante esta paz, prenhe de guerras terríveis. Tendo-lhe Tycho-Brahe vaticinado que um de seus parentes mais chegados atentaria contra a sua vida, êle se isolou de toda a sociedade, ousando apenas aparecer na capela; e as únicas distrações a que se deu foram os bons cavalos, os animais raros, e amores efêmeros. Desposado com a filha de Filipe II, esperou dezessete anos sem ir reclamar a sua mão, que foi dada a outro, do que êle se consolou fazendo uma

coleção de retratos das princesas mais belas tanto no físico como no moral.

Êle não mostrou vontade senão na intolerância. Vendo a nobreza austríaca abusar da liberdade que Maximiliano lhe tinha concedido relativamente ao culto, quis privá-la dela; porém a nobreza clamou contra a perseauição, e, insurgindo-se, justificou os rigores de Rodolfo.

A Transilvânia e a Hungria, flutuantes entre a dominação da Áustria e da Turquia, cujos ataques jamais tinham cessado, mostravam-se mais obstinados em sustentar seus direitos. Depois da morte de João Siqismundo. que se vira obrigado a curvar-se à Áustria, a dieta da Transilvânia elegeu a Estêvão Batori (1571), aue jurou fidelidade à coroa da Hungria. Feito rei da Polônia, Batori deixou a vaivodia transilvânia a seu irmão Cristóvão, que a transmitiu a seu filho Siqismundo. Êle se libertou da vassalagem turca, e ajudou depois Rodolfo a repelir os otomanos. Êle lhe cedeu mesmo a Transilvânia, e quando tentou recuperá-la, foi submetido pelas armas do conde Basta, que foi encarregado de governar o Dais. mas cuia tirania causou um descontentamento geral. Os transilvanos, resolvidos a se rebelarem, deram aiuda aos húngaros, que a má administração de Rodolfo tinha exasperado contra êle mais ainda do que contra os turcos. Efetivamente, este monarca, absorto exclusivamente pelo cadinho e pelo telescópio, não tomava medida alguma, ou não pensava em tal senão depois do acontecimento, e confiava os carqos principais a estrangeiros. O descontentamento subiu ainda de ponto quando êle aiuntou, arbitrariamente, aos atos de uma dieta onde tinha sido proibido tratar de matéria alguma religiosa um artiqo pelo qual declarava vãs todas as reclamações dos protestantes, e escandaloso o seu modo de proceder. Estêvão Botskay, primeiro magnata do país e tio materno de Sigismundo, que tinha vindo apresentar à corte as queixas de seus compatriotas e aí tinha sido maltratado, fêz-se chefe de uma insurreição dirigida primeiramente não contra o imperador, mas contra os seus oficiais, cuja capacidade não tinha limites; e foi reconhecido príncipe dos tran-silvanos e rei da Hungria pelo Grão-Senhor.

Os príncipes austríacos, vendo que a grandeza da sua casa se desmoronava pela negligência de Rodolfo, cuidaram de lhe tirar o governo. Matias, seu irmão e seu herdeiro presuntivo, homem astuto e ávido de dominação, tinha aceitado dos holandeses a soberania que eles lhe haviam oferecido, dando assim o escândalo de ver um arquiduque austríaco à testa de súditos revoltados contra a Áustria. Êle abdicou todavia (1580), logo que viu os perigos deste posto; mas o imperador, para o punir, teve-o na humilhação, e afastou-o do trono da Polônia, que êle ambicionava. Instado no entanto pelas circunstâncias, confiou-lhe o governo da Austria e encarregou-o de comandar o exército na Hungria, onde adquiriu a afeição popular combatendo felizmente contra os turcos.

Em conseqüência disto, seus irmãos e seus primos da Estíria lhe transferiram secretamente o poder do incapaz Rodolfo, tendo êle pacificado os húngaros e os turcos; porém, Rodolfo, informado deste pacto de família, indignou-se, e quis abater o irmão que se tinha feito seu rival: Matias então levantou a máscara e obrigou-o a ceder-lhe o reino da Hungria (1608), o arqui-ducado de Áustria e a Morávia. Matias concedeu aos húngaros calvinistas ou luteranos a liberdade de culto, e tirou aos jesuítas os seus bens de raiz; deixou na Transilvânia o principado a Sigismundo Ragotsky (1613), cuja sucessão foi disputada ao pretendente, o feroz Gabril Batori, pelo calvinista Bethlen Gabor. Este último, sustentado pelos turcos, foi afinal reconhecido geralmente; mas os austríacos, a quem Matias tinha ensinado a desobediência, recusaram obedecer-lhe enquanto êle não prometesse a liberdade de religião.

As coisas correram ainda pior na Boêmia. Este reino, uma vez submetido à Áustria, prosperou em virtude da exploração de suas minas e da introdução de novas plantas. Praga elevou-se à altura das cidades mais florescentes. Porém o país era violentamente agitado pelas seitas religiosas, que tinham sobrevivido desde o tempo dos hussitas. Os utraquistas estavam de acordo com os católicos, com a diferença de que, por causa da condescendência do Concílio de Basiléia e dos imperadores, eles recebiam a eucaristia sob as duas espécies. Porém tinha-se formado outra seita, chamada dos irmãos Morávios, que rigidíssima em seus princípios, reunia os dogmas dos luteranos, dos calvinistas e dos anabatistas. Os ódios eram irritados pelo privilégio reservado às cidades que fabricavam cerveja que só elas forneciam e que os senhores tornavam a vender nas tavernas de seus senhorios. Rodolfo tinha extorquido os utraquistas da paz de religião; mas, quando se achou sem meios, recorreu aos Estados da Boêmia, dos quais obteve subsídios, recompensando-os todavia com ilimitadas concessões e cartas de majestade, que reconheciam a confissão da Boêmia e a liberdade do culto, sob a proteção de oficiais eleitos pelos Estados, e declaravam nulo todo ato contrário que de futuro se publicasse. Isso foi a justificação das revoltas ulteriores da Boêmia, e Matias regozijou-se de abater ainda na opinião pública seu irmão, que êle privava de toda autoridade.

Por outro lado, surgiam novos fermentos de discórdia. Os ducados de Juliers, de Cleves e de Berg, os condados de Marck e de Favensberg assim como a Ravenstein, tinham-se achado pouco a pouco reunidos numa só família; tendo esta vindo a extinguir-se na pessoa de João Guilherme (1609), cem pretendentes se apresentavam, em cujo número se achavam quatro irmãs do defunto, com as lindas Ernestina e Albertina de Saxônia, que representavam duas de suas tias-avós.

O feudo era feminino? era divisível?

Sendo o litígio feudal, a decisão pertencia ao imperador e ao conselho áulico. Mas se o eleitor da Saxônia aceitava essa jurisdição que prometia ser-lhe favorável, não acontecia outro tanto, pela razão contrária, ao eleitor de Brandeburgo e ao conde palatino de Neuburgo, ambos protestantes. Fêz-se, portanto, desta contestação uma questão de luteranos e de católicos, do mesmo modo que se vê numa epidemia todas as afecções mórbidas tomarem o seu caráter. A casa de Áustria, sempre alerta para adquirir, alegou o pretexto de que seria perigoso deixar a um protestante esse feudo contíguo às Províncias Unidas, e seqüestrou-o por precaução. A União evangélica, a França, a Inglaterra, todos os que o engrandecimento da Áustria assustava, opuseram-se a essa violência por meio de negociações, e depois com a guerra declarada. Henrique IV preparava-se para fazer justiça, quando a faca de Ravaillac veio salvar a Áustria.

Matias foi posto (1612) à testa de um império cujos negócios, caídos numa desordem extrema, a sua moderação não podia restaurar, tanto mais que os diferentes Estados esperavam dele a recompensa dos socorros que lhe tinham prestado em sua rebelião. Êle portanto não fêz mais do que agravar com um reinado vergonhoso a afronta de ter tão mal adquirido o poder soberano. A questão de Juliers ficou intacta: e havia nove anos que a União católica e a União evangélica se observavam com a mão no punho da espada. Os reformados, que faziam incessantemente novas aquisições, começaram, a fim de rasgar a púrpura imperial, por sublevar a Boêmia. Este país, já despojado de seus antigos direitos, tinha a temer além disso a perda da sua religião, porque o imperador proibia de lá edificar igrejas; porém os utraquistas as construíram à força (1618). Os Estados reunidos em Praga, para deliberar sobre a violação das cartas de majestade, receberam de Viena resposta desfavorável. Então Guilherme Slawata e Joroslaf de Martinitz, conselheiros de Matias, foram acusados de ter sido os inspiradores de tal, e segundo um antigo costume, arremessados pela janela fora (1).

(1) Este episódio é conhecido na História por "Defenestração de Praga" (Nota do Revisor).

Foi esse o primeiro ato da Guerra dos Trinta Anos, guerra em que tomou parte a Europa inteira, menos a Inglaterra, e que fêz da Alemanha o centro da política, do mesmo modo que a Itália o tinha sido no século precedente. Ela a princípio parecia fácil de extinguir, e não se descobria bem o seu fim; porém novos acidentes vieram alimentá-la, e, fazerem convergir a ela todos os ódios, todas as ambições, todos os interesses. O imperador queria estabelecer o seu direito supremo à sombra da dupla coroa política e religiosa; os eleitores luteranos invocavam a independência do império e da fé; os eleitores católicos ligavam-se à unidade da religião, ao mesmo tempo que se separavam dela quanto ao direito político; os Estados dominados pela Áustria esperavam sacudir o jugo; os que se lhe tinham subtraído, consolidar a sua liberdade; toda a Europa libertar-se da supremacia que esta casa ameaçava adquirir. A religião servia de pretexto e de bandeira, e durante éste tempo o império ia-se em retalhos, de sorte que, a contar do ano 1613, não houve mais assembléias.

Desde logo os protestantes, reconhecendo a necessidade de sustentar a revolta pela força, tomaram para chefe o conde de Thurn, e pediram socorros aos Estados de Morávia, de Silesia, de Lusácia, da Áustria e da Hungria, que todos tinham sido enganados pelas promessas de Matias. Este príncipe viu abrir-se o precipício para a sua casa sem poder confiar-se mesmo em seus próprios irmãos, que se preparavam para o tratar como êle tinha tratado Rodolfo, quando êle morreu de repente (1619).

Como a linha direita da Áustria acabava nele, Fernando da Estíria, já coroado rei da Boêmia e da Hungria, pediu o império. Os eleitores Palatinos e da Saxônia, ambos protestantes, o administravam na qualidade de vigário, e se esforçavam, de combinação com a União evangélica, por tirar o trono à casa de Áustria; mas, como não achassem ninguém que o aceitasse com as condições que eles propunham, consentiram em ver Fernando ocupá-lo. Este príncipe, dotado de coragem e educado em sentimentos religiosos, dispôs-se a afrontar o ódio geral para restituir à sua família o seu esplendor eclipsado. A Boêmia foi a primeira contra quem êle se declarou. Tinha aí corrido o boato de que à sua chegada muitas cabeças seriam decepadas, que muitas fortunas mudariam de dono; fazia-se circular imagens em que o leão boêmio e a águia morávia jaziam agrilhoados, e em que ao pé deles uma lebre dormia, com os olhos abertos, alusão satírica aos Estados, ao mesmo tempo perspicazes e tímidos. Em conseqüência, os boêmios rejeitando Fernando, proclamaram rei Frederico V, eleitor palatino. Impelido, malgrado seu, a aceitar esta coroa pelas instâncias de sua mulher, que "preferia comer pão seco e ser rainha, a nadar em delícias como eleitora", Frederico deixou-se ir atrás da sua natural indolência, e não cuidou de evitar os perigos. O luxo de que se cercou, os bailes, as frivolidades da corte, foram vistos de má mente pelos boêmios, aos quais parecia que uma revolta feita em nome da religião reclamava hábitos de outro modo severos.

No entanto, Bethlen Gabor, príncipe da Transil-vânia, entusiasta calvinista, estava sendo o árbitro da Hungria. A sua influência era vãmente contrariada pelo jesuíta Pedro Pozman, do Grande Varadin, primaz da Estrigônia, que ostentava um zelo extremo em converter as grandes famílias, para cujo uso escrevia um guia {Kalauz) em língua magiar (1619). Gabor, tendo-se aliado com os boêmios e os morávios, conduziu sessenta mil homens até Viena, e bombardeou o castelo em que Fernando se sustentava. Uma deputação de rebeldes chegou a penetrar no seu aposento, onde lhe prodigalizou insultos; mas, ajoelhando diante do seu crucifixo, êle permaneceu impassível, e pretendeu depois ter ouvido uma voz que lhe anunciava socorro. Efetivamente, foi libertado por um corpo de couraceiros.

Gabor, proclamado rei da Hungria, só aceitou o título de príncipe, e confirmou diferentes editos apresentados contra os católicos, Fernando atraiu-o ao seu partido, cedendo-lhe metade de suas possessões neste reino; mas, como Bethlen era incessantemente estimulado pelos protestantes, pelos ingleses e pelos turcos, resultou daí uma alternativa continuada de guerras e de tréguas.

Fernando salvou-se de tão difíceis circunstâncias pela atividade que desenvolveu, e pela resolução que tomou de não descer do trono, mas de cair dele, se preciso fosse. Felizmente para êle, havia pouca harmonia na União, enquanto que Paulo V e a corte de Madri lhe forneciam socorros em homens e em dinheiro. Maximiliano, duque da Baviera, alma da liga católica, tinha-se declarado, por ambição, vivamente a seu favor; protegido também pela França depois da morte de Henrique IV, pôde entrar na Boêmia com um forte exército e reduzi-la à obediência, graças ao valor de Bucquoy e do marquês Spínola. Frederico V fugiu cobardemente, ao passo que os boêmios combatiam ainda a seu favor: vinte e sete chefes que ousaram confiar-se à clemência que lhes era prometida foram mandados matar, dezesseis sofreram o exílio ou a prisão, independentemente dos que foram condenados por contumácia; e foi determinado, sob penas rigorosas, que se assinalassem todos os proprietários que tinham tomado parte na rebelião. Tendo sido designados mais de setecentos barões e quase todos os proprietários, fêz-lhes mercê da vida, mas todos os seus bens foram confiscados.

Então Fernando aboliu as cartas de majestade; suprimiu toda a liberdade de culto, excluiu os não católicos das cidades reais, nas quais restringiu a faculdade de exercer o comércio e os diferentes ofícios; determinou que os dissidentes não tivessem nem entrada nos hospitais, nem sepultura eclesiástica, ainda que tivessem de ser obrigados a pagar os direitos às paróquias; que seus casamentos e testamentos fossem nulos:

finalmente, os soldados foram repartidos pelas casas para aí viver à discrição, e os croatas, convertidos à força da espada. Fernando procedia assim por política e não por zelo religioso, por isso que êle mesmo concedeu privilégios aos judeus. Depois, em meio do terror geral, fêz proclamar rei a seu filho, tirando aos Estados o direito de eleição; desde este momento a Boêmia caiu no estado miserável de que não faz apenas senão convalescer. Muitos dissidentes emigraram; outros se esconderam nas montanhas; e quando José II publicou em 1781 o edito de tolerância, achou-se que diferentes aldeias tinham conservado até ali seus ritos.

Até então Fernando tinha procedido em sua defesa; e se, satisfeito dos triunfos obtidos em uma guerra particular à Áustria, tivesse metido a espada na bainha, teria podido merecer ainda bênção por ter dado à Alemanha uma paz que dependia dele. Porém o feliz êxito da sua empresa, e os tesouros que ela lhe tinha obtido, o tornaram vingativo e intolerante. Êle exilou do império diferentes príncipes, entre outros o eleitor palatino, e deu ordem a Tilly de se pôr em marcha com um exército que tomou Heidelberg, pôs a cidade a saque, e destruiu a preciosa Biblioteca do Espírito Santo (1). Bethlen Gabor foi vencido por Alberto de Waldstein, e a União evangélica dissolvida. O eleitorado foi conferido em recompensa ao duque da Baviera; e o imperador, para o reembolsar de treze milhões de despesas que reclamava, abandonou-lhe o alto Palatino. Os católicos chegaram assim a possuir quatro votos na eleição, ao passo que os protestantes só conservaram dois. As potências queixaram-se; mas Fernando soube ou ganhá-las à sua causa, ou enganá-las.

(1) O papa mandou recolher por Leão Allacci parte dela, consistindo em quatrocentos e trinta e um manuscritos gregos, mil novecentos e cinqüenta e oito latinos, e oitocentos e quarenta e sete alemães dos tempos médios, que, levados ao Vaticano, formaram a Biblioteca Palatina. O resto foi incendiado por Louvois, em 1693. Dos quinhentos que os franceses tiraram de Roma em 1797, trinta e oito gregos e latinos provinham de Heidelberg entre outros o exemplar único de Anacreonte e da Antologia de Constantino Cefalas. Esses manuscritos foram restituídos a Heidelberg, com oitocentos e quarenta • sete em alemão, pelos tratados de 1815.

Não se tratava portanto já de reprimir os revoltosos e de consolidar o jugo da Áustria, mas de perturbar o império. Então Viena e Madri combinaram-se para destruir as liberdades da Alemanha e da Holanda. Fernando deixou perceber o projeto de enviar uma frota ao Báltico, o que causou receio a Cristiano IV, rei da Dinamarca e duque de Holstein, parente do eleitor palatino desapossado. Este monarca, um dos príncipes mais notáveis por sua coragem e talentos, temendo por seus Estados se o equilíbrio germânico viesse a romper-se, desejoso ao mesmo tempo de investir seus filhos no arcebispado de Bremen e nos bispados de Minden e de Werden, cujo imperador parecia disposto a tirar o direito aos protestantes fêz-se chefe do último partido, de acordo com o rei da Inglaterra, sogro do eleitor.

Fernando queria poder opor a esta confederação, um exército seu, e não, como precedentemente, tropas fornecidas pela liga e que obedecessem ao duque da Baviera; mas como havê-lo sem dinheiro?

Alberto de Waldstein, boêmio convertido, tinha estudado em Pádua, e depois servido a soldo de Fernando, que lhe prodigalizou as terras confiscadas aos rebeldes. Enriquecido por um casamento, feito conde do império e duque de Friedland, aspirou a realizar as grandezas que tinham vaticinado os astros, a cujos augúrios dava inteiro crédito. Como lhe pareceu então manifesto o caminho que devia conduzi-lo ao seu intento, propôs a Fernando que reunisse um exército; e brevemente o seu crédito, os avultados soldados prometidos, a esperança de oprimir e de roubar impunemente, lhe fizeram achar cinqüenta mil homens. Êle não pensou desde então senão em os fazer viver no território inimigo. À testa deste exército (1626), que só dele dependia, êle deu à guerra um novo aspecto; e, em vez de favorecer os movimentos dos outros generais, lançou-se sobre a baixa Saxônia.

No entanto, os príncipes do partido oposto tinham reunido quatro exércitos por sua própria conta, e faziam da Alemanha o teatro de violências e de pilhagens tais, que a população morria de fome, depois de ter consumido a erva para se saciar. Ernesto de Mansfeld distinguia-se à sua frente. Tendo Waldstein feito em postas o seu exército, êle criou outro, porém foi ceifado pela peste e minado pelas deserções; Ernesto então licenciou o resto, vendeu a sua artilharia ao paxá de Buda, e, penetrando na Hungria, propôs-se a alcançar o Adriático, passando por entre os turcos, com a intenção de lá embarcar de novo para a Alemanha; porém morreu em Zara.

Cristiano IV, derrotado também em Luther, abandonado por seus aliados, viu os imperiais se apossarem da margem do Báltico até Stralsund, a sexta das cidades hanseáticas. Waldstein, nomeado almirante do Báltico; e investido em compensação de soldo nos ducados de Meclemburgo confiscados a seus possuidores, assim como no título tão desejado de príncipe, sitiou Stralsund e jurou tomar a praça, "ainda que ela estivesse presa ao céu, ou cercada pelo inferno com um muro de diamante". Porém, concebendo depois o projeto de formar para si uma soberania nestas costas, tratou de se conciliar com o rei da Dinamarca, e ajustou com êle a paz em Lubeck (1629), restituindo-lhe tudo quanto êle tinha perdido, com a promessa unicamente de êle não se intrometer nos negócios da Alemanha.

Waldstein mostrou-se tanto mais fácil nestas convenções, quanto que, tendo-se aberto por esta época a sucessão ao ducado de Mântua, a corte de Viena não quis permitir que um príncipe francês, que pretendia ter direitos a êle, adquirisse este senhorio, o que pôs em hostilidade a Alemanha e a França. Os alemães nada desejavam tanto como aproveitar esta ocasião para restabelecer a autoridade imperial no outro lado dos Alpes: Vamos, diziam eles, mostrar aos italianos que há ainda um imperador; Roma não é saqueada há cem anos, há de estar hoje mais rica de que o estava então. Assim, quando o interesse religioso exigia união, a política introduzia a discórdia entre a França e a Áustria, por interesse de dominação; Viena combatia os católicos e o papa: tão pequena parte tinha a religião em uma guerra que se fazia, em seu nome, à liberdade do pensamento!

Waldstein, a quem o imperador prometia a Marca de Treviso com o título de duque de Verona, mandou que as suas tropas partissem a toda à pressa. Atravessando a Valtelina e a Lombardia, elas devastaram da maneira mais horrível as regiões que percorreram, assim como o território de Mântua, onde introduziram, para cúmulo dos males, uma peste mortífera.

Nessa época os eleitores católicos pediram a Fernando mandasse restituir os bens eclesiásticos ocupados pelos príncipes protestantes. Então o imperador, que, ensoberbecido de suas vitórias (1627), tinha decretado o banimento da Boêmia de toda pessoa que não tornasse a entrar no grêmio da igreja, degradado o duque de Meclemburgo e despojado o de Pomerânia, promulgou o Edito de Restituição (1629). Em conseqüência, os príncipes protestantes foram obrigados a renunciar aos bens eclesiásticos, imediatos ou não, invadidos depois da paz de 1555. Fernando não dissimulava além disso a sua intenção de reduzir os eleitores à condição de Grandes da Espanha, e os bispos à de grandes capelães da corte.

A Alemanha foi, pois, percorrida por duzentos mil veteranos: vários príncipes foram espoliados e obrigados a fugir, outros inquietados sob pretexto desse edito; e Fernando viu-se no apogeu do seu poder. Êle se preparava já para inclinar sobre a França a torrente de seus panduros cossacos, porém o cardeal de Richelieu, então árbitro do governo francês, voltando à política de Henrique IV, constituiu-se grande inimigo da Áustria, e organizou contra ela secretas maquinações, ao passo que um grande guerreiro afiava a sua terrível espada.

Fernando esperava fazer eleger, pela dieta, seu filho, rei dos romanos; porém, tanto os protestantes como os católicos se reuniram para se queixar do exército de Waldstein, das violências a que êle se abandonava para alcançar alojamentos e forragens, das exações arrogantes do insaciável general, "escória e execração do gênero humano". Em conseqüência disto, Fernando resolveu destituí-lo. Todavia debalde esperaria consegui-lo, em meio de cem mil guerreiros dedicados de corpo e alma ao seu chefe, se Waldstein não tivesse visto então no céu o astro do imperador tomar ascendente sobre o seu; êle se resignou, portanto, e retirou-se a suas terras para viver suntuosa-mento do fruto de tantas misérias, mas não sem ocupar a sua idéia com imensos projetos e sombrias vinganças.

O imperador, levado assim a dois atos contraditórios, o Edito de Restituição e o apartamento de Waldstein, ficou enfraquecido, e os Estados apoiaram-se sobre o estrangeiro. Richelieu (1630) mandou à dieta o padre José, seu confessor, que dissuadiu secretamente os seus membros de elegerem o rei dos romanos: Um pobre capuchinho, dizia o imperador, desarranjou os meus planos; o pérfido teve habilidade para fazer com que houvesse em seu capuz seis barretes de eleitores.

O capuchinho tinha feito mais, porque tinha procurado a aliança de Luís XII com Gustavo Adolfo, rei da Suécia. Subindo ao trono aos dezessete anos, Gustavo herdara três guerras que conduziu com glória. A ruína que ameaçava a constituição germânica assim como seus correligionários, determinou-o a tomar parte na guerra da Alemanha. Animado do sentimento religioso, êle compôs alguns cânticos sagrados em alemão; falando com uma força e clareza admiráveis, sabia inspirar o entusiasmo às populações com ações heróicas. Porém nenhum dos príncipes temia esse pequeno soberano, a quem chamavam em Viena Sua Majestade de neve (1630). Esse estudantezinho pode vir, exclamava Waldstein, porque será posto fora a açoute, e não quis receber em Lubeck os seus embaixadores. Isto foi mais um estímulo para o gênio de Gustavo. Tendo-se ligado estreitamente com Richelieu, desejoso de abater uma potência rival, êle desembarcou na Alemanha, aliou-se com a Saxônia, com a Pomerânia, com Brandeburgo; e, combatendo como um homem que nada tinha a perder, frustrou generais obrigados a conformar-se com as intenções e ordens dos gabinetes, de sorte que restituiu aos ânimos abatidos a coragem e a esperança.

A força da guerra aventurava-se então na Pome-rünia e na Marca, onde Tilly sitiou Magdeburgo: esta «idade, defendida até à extremidade por seus cidadãos, Eoi tomada à viva força, e entregue à mais horrível pilhagem. Os croatas, tripudiando sobre os cadáveres, solenizavam diziam eles, "as bodas de Magdeburgo". Tilly, ao qual suplicaram que fizesse cessar o morticínio, respondeu: Deixai-os continuar ainda uma hora, finde depois falar-me de novo a esse respeito: é preciso que o soldado obtenha a sua recompensa. Êle mandou cantar um Te Deum, e anunciou a seu amo que depois tlc Tróia e de Jerusalém não se tinha efetuado empresa Ião famosa.

A indignação cresceu extremamente contra o imperador. Gustavo, apesar das dissensões dos príncipes, encarregou-se da vingança; e a batalha de Leipzig, que êle ganhou, mergulhou os católicos na consternação, de que tirou os protestantes. Seus amigos, tampouco como seus inimigos, não esperavam d êle tanta habilidade; Gustavo tornou-se portanto em alma do seu partido, desorganizou a liga católica, e achou-se senhor de toda a extensão das costas do Báltico até Baviera, e do Reno até à Boêmia. Fernando conheceu que "o rei de neve" não se derretia ao Sol imperial; e quando Torquato Conti pediu uma trégua para invernar, Gustavo respondeu: Os suecos não conhecem inverno.

Efetivamente, a arte da guerra sofria então uma revolução. Os exércitos que combatiam na Alemanha eram recrutados por uma nova espécie de capitães aventureiros, a quem os príncipes forneciam dinheiro para levantar soldados. Menos fáceis de mudarem de amo do que esposar um partido religioso, eles não desciam até à baixa venalidade de mercenários. O modo feudal não podia servir quando muito senão para um levantamento em massa. O mister de soldado tornava-se então em uma profissão, com sua hierarquia determinada; começava-se por ser moço {bube), passava-se a escudeiro {knappe), e chegava-se a ser homem de armas, o que formava uma lança.

O soldado tinha afeição ao seu oficial: a êle é que obedecia, e não ao imperador, que nem lhe pagava, nem o recompensava. Seu soldo era pequeno; porém êle se indenizava pilhando, e não era menos terrível para os amigos do que para os inimigos. Findo o prazo do seu ajuste os lansquenetes e os retres eram autorizados a mendigar por privilégio imperial, ao que se chamava atirar flechas, dar estacadas (garden e fle-chten): para este fim, eles se reuniam em bandos, e saqueavam como veteranos o que tinham podido deixar atrás de si como soldados.

Ainda não se tinha compreendido todo o poder das armas de fogo. Na França, a liga possuía apenas quatro peças de artilharia; os realistas não tinham mais de seis na batalha d’Ivry. O arcabuz de mecha era incômodo para a cavalaria, à qual impedia de se servir de outras armas ofensivas, não menos para a infantaria, que era obrigada a carregar essa pesada arma, com o seu cavalete e munições, na azêmola destinada dantes a levar o seu despojo. Conservavam-se ainda os chuços e as lanças, assim como as carabinas, as pistolas, os arcabuzes; e serviam-se sempre para armas defensivas de couraças, de morrões e de escudos. O uso da cavalaria ligeira, armada unicamente com espada e carabina, estendia-se de dia para dia; isto é, arcabuzeiros a cavalo, pondo sempre pé a terra no princípio, mais tarde por momentos, como os que tinham criado na Itália o marechal de Brissac, no tempo de Francisco II.

Maurício de Orange e Gustavo, que foram os restauradores da arte militar, aplicaram-se a melhorar as ordenanças que estavam em uso no seu tempo, e a combinar a legião romana à macedónia renovada pelos suíços. A longa guerra dos Países-Baixos foi uma continuada escola de tática, e grandes generais se formaram no campo de Maurício, que conhecia tanto como Montecuccoli a arte dos acampamentos e das marchas, entendia tanto como Vauban de fortificar as praças, tanto como Eugênio de fazer viver grandes exércitos em países hostis ou devastados, tanto como Carlos XII de tornar os soldados insensíveis à fadiga, tanto como Turenne dos meios de poupar suas vidas. Não se contentando com aproveitar as invenções dos outros, êle introduziu novas descobertas tanto para a defesa como para o ataque das praças. Êle desejava opor às lanças os grandes escudos dos antigos; mas não ousou tentar semelhante inovação, que teria exigido a autoridade de um príncipe absoluto.

Gustavo juntou a suas outras qualidades a vantagem de ser amado, e de comandar homens cheios de fervor pela causa que defendiam. Êle introduziu (coisa nova então) o fardamento uniforme, e, por prevenção do inverno, forneceu às suas tropas um sobretudo forrado de pele de cordeiro. Cada um deles devia, para subir postos, ter sido simples soldado e percorrer a escala regular do adiantamento, o que os habilitava a se formarem por si mesmos quando tivessem sido destroçados. A sua coluna de infantaria compunha-se de dois regimentos de dois mil e dezesseis homens, dos quais mil e cem armados de mosquetes, e novecentos de chuços; estes regimentos subdividiam-se em corpos menores de noventa e seis a duzentos e vinte e oito homens quanto aos mosqueteiros, e de duzentos e dezesseis quanto aos lansquenetes. Êle imaginou mandar fabricar peças de artilharia de couro muito leves, ao passo que a artilharia dos alemães, por ser muito pesada e não poder mudar de frente, era obrigada, uma vez em bateria, a atirar sem necessidade, e às vezes mesmo sobre os seus.

Não menos hábil em seus planos do que rápido na execução, Gustavo desorganizou os movimentos regulares e premeditados do inimigo, fazendo o que Napoleão chamava guerra dos pés; e sacrificava homens para abreviar a guerra. Êle ocupou as fortalezas situadas ao longo dos rios, e garantiu a Suécia contra um ataque, assenhoreando-se do Báltico. Tirou à Áustria os seus aliados, cercou-a antes de a assaltar, fêz-se considerar como o vingador do império contra o imperador, e arrastou em sua rapidez os indolentes, amigos ou inimigos, não porém os neutros.

As coisas estavam a ponto de fazer temer uma nova invasão dos godos na Itália e na Espanha. Efetivamente, se Gustavo Adolfo tivesse avançado pela Boêmia e pelos Estados austríacos, desguarnecidos de tropas e descontentes, teria podido ditar a paz ao imperador em sua capital, e fundar, como tinha em vistas, um império evangélico, em oposição ao império católico. Porém êle teve de dividir a guerra a seus aliados, e, por outro lado, seus generais estavam longe de o igualar em ardor e em lealdade.

Fernando tinha renunciado à sua linguagem arrogante; mas o papa, por êle ofendido, recusou a princípio tomar partido a seu favor. Waldstein, do fundo do seu faustoso exílio, observava os furiosos estragos de guerra. Êle recebia na sua corte os homens mais distintos: a sua mesa não contava menos de cem talheres; sessenta pajens das primeiras famílias o serviam, ricamente vestidos de veludo azul celeste agaloado de ouro; trezentos cavalos escolhidos estavam enfileirados cm suas cavalariças diante de manjedouras de mármore. Êle não levava em viagem menos de doze carruagens, cinqüenta carros, e outros tantos carros cobertos para a sua baixela de prata e para as suas bagagens. Seis barões e outros tantos cavaleiros o acompanhavam; um barão de alta classe desempenhava as funções de primeiro oficial da sua casa, e um de seus camaristas tinha passado do serviço do imperador para o seu. Artistas italianos o representavam puxado em uma quadriga triunfal, coroado de louros, e tendo por cima da cabeça uma estrela. Era efetivamente nos astros que êle procurava ler as grandezas futuras.

Na irritação do seu desvalimento, êle tinha meditado sobre a desorganização do corpo germânico, sobre o poderio da sua clientela, sobre a necessidade que se teria da sua espada, e sobre a sua possibilidade de a empregar em reconstituir o centro da Europa. As suas liberalidades o habilitavam para saber tudo quanto fazia o gabinete de Viena. Ora, êle se consolava vendo aproximar-se a hora em que o imperador seria obrigado a humilhar-se diante dele, e em que a sua estrela retomaria ascendente sobre a da Áustria. Efetivamente, logo que o temível Tilly morreu, o orgulhoso Fernando foi obrigado a desculpar-se para com Waldstein e a reclamar o seu socorro. Porém êle respondeu que se achava muito bem no seu retiro para querer deixá-lo, e só anuiu a tirar-se dele com um poder igual ao do imperador.

Êle foi, portanto, autorizado para nomear todos os oficiais, para levantar contribuições à sua vontade, para recompensar e para punir, para dispor de tudo aquilo que fosse confiscado. As províncias austríacas foram-lhe abertas; prometeu-se-lhe de não fazer paz nem trégua sem sua participação; e como o imperador quisesse pôr junto dele um arquiduque, êle exclamou: Não toleraria companheiro no comando, ainda que fosse o próprio Deus,

Uma vez estipuladas as condições, Waldstein, ornado com o título de generalíssimo de toda a casa de Áustria, do império e da Espanha, mandou arvorar a sua bandeira de alistamento; e viu-se acudirem em chusma esses numerosos aventureiros acostumados a vencer com êle ou aqueles que a cobiça da pilhagem atraía. Êle prometeu aos cavaleiros nove florins por mês, seis aos soldados de cavalaria ligeira, quatro aos homens a pé, além das rações de pão, de vinho e de carne. Quarenta mil homens foram assim reunidos em três meses, não contando quatro mil moços, outras tantas mulheres, e trinta mil cavalos para as bagagens. Êle sabia inspirar a esta soldadesca uma confiança ilimitada. Orgulhoso porque tinha a certeza do favor das estrelas, punia e recompensava com excesso; uma ação parecia-lhe bela quando era ousada, e êle achava em abundância expedientes engenhosos. Como dizia que cem mil homens eram mais fáceis de manter do que dez mil (1), isso o levava a transportar a guerra para um país que não tivesse ainda sido devastado. Schiller calculou (arbitrariamente talvez) que aquele exército tirou de metade da Alemanha a soma de 60 bilhões de "thalers". Êle não procurava nem as batalhas, nem uma solução, e contentava-se com assentar obstinadamente o seu acampamento em frente dos suecos. É assim que no sítio de Nuremberg êle deixou morrer em dois meses, sem nunca aceitar combate, dez mil cidadãos, vinte mil suecos e trinta mil de seus soldados. Qual é o feito de armas que custou jamais tanto como esta inação mortífera?

(1) Napoleão dizia também a Junot, quando o enviou a Portugal: "Vinte e quatro mil homens acham sempre com que se sustentar, ainda que seía num deserto". Enganou-se muito.

A sorte voltou portanto a favor dos imperiais, principalmente quando Gustavo Adolfo sucumbiu em Lutzen, ferido provavelmente por um assassino, em um momento tão oportuno para a salvação da Áustria como para a sua própria glória (1632): Gustavo, na verdade, morreu chorado como libertador da Alemanha, antes que ela tivesse direito a amaldiçoá-lo como seu opressor. Não obstante seus soldados terem vingado a sua perda derrotando os católicos, Viena, Munique e Roma regozijaram-se com este acontecimento como de um triunfo. Fêz-se festejos em Madri por espaço de onze dias, e viu-se ali meter a ridículo nos teatros feirais o príncipe que deixara de existir.

A causa dos protestantes teria então sido arruinada, se eles não tivessem para os sustentar Áxel Oxenstiern, chanceler da Suécia, e o cardeal de Richelieu. O ministro francês não procedia por convicção como Gustavo, Fernando e mesmo Waldstein, mas por cálculo vil e imoral, na intenção de humilhar a Áustria. Graças ao seu acordo com os Estados protestantes, estes continuaram a ser vencedores. Waldstein, árbitro do exército por convenção expressa, superior aos ministros de Fernando, a tal ponto que, tendo-se exprimido dúvida na sua presença a respeito da retificação do tratado da Silésia pelo imperador, ele se pôs a dizer: Se o não ratificar, hei de mandá-lo ao diabo; Waldsíein, que a aprovação dos astros confirmava em suas pretensões altivas, acabou, à força de audácia, por despertar o ciúme, e por se fazer suspeitar de harmonia com os inimigos para ser feito rei da Boêmia.

Otávio Piccolomini, espião e assassino, que foi seu confidente, atesta que êle tinha feito, em prejuízo da Áustria, uma conjuração com os inimigos. As suas cartas que foram impressas, e o processo que se deixou sair ultimamente dos arquivos de Viena, não fornecem prova alguma de conspiração; porém tudo atesta o desejo de a fazer. O imperador (1634), que já não podia tolerar que êle fosse seu amo, proscreveu-o sem o ouvir sequer, apesar de príncipe soberano, apesar de ter entrado para o seu serviço nos termos de uma convenção livre, e com tropas levantadas por êle mesmo. Êle prometeu recompensa a quem o matasse; e três oficiais de Waldstein lhe arrancaram a vida (24 de fevereiro de 1634), e àqueles que lhe eram mais afetos. Fernando apertou a mão de Butler, principal autor do assassinato, deu chaves de camaristas e colares a outros, mandou dizer três mil missas pelo descanso da alma do general, e fêz publicar um bando para anunciar que êle tinha deixado de existir, declarando que no caso de alta traição não havia necessidade de pleito.

O arquiduque Fernando, rei da Hungria e da Boêmia, foi posto à testa dos exércitos, o que mudou de novo a face da querrá, entregando-a outra vez às mãos da Áustria. Os suecos, derrotados em Nordlin-que (6 de setembro), nunca mais puderam resistir; o eleitor da Saxônia, reconciliando-se com ela, aumentou as forças do imperador, e deu aos protestantes o exemplo de aceitar a paz, mesmo com condições pouco honrosas.

Então a França, livre de seus inimigos internos pelo enérgico ministério de Richelieu, entrou por sua vez na lide, desejosa de abater a Áustria e de lhe arrebatar a hegemonia na Europa. Ela tomou portanto uma parte direta na guerra, não só na Alemanha, mas na Holanda e na Itália, e pôs em pé de guerra sete exércitos, envolvendo a Europa inteira no litígio a resolver. A Suécia, Parma, Mântua, Vítor Amadeu de Sabóia, a Holanda, Hesse-Cassel, tomaram o partido da França, que mirava a despojar a Espanha do que lhe restava dos Países-Baixos, e a conquistar o Milanês. Ela tomou, além disso, a seu soldo, mediante quatro milhões de libras por ano, Bernardo Weimar, ilustre discípulo de Gustavo Adolfo, que era obrigado por este preço a sustentar doze mil homens de infantaria e seis mil cavalos. Os austríacos, que tinham invadido o país dos grisões, já tinham sofrido grande morticínio, e as ligas entre os cantões tinham sido renovadas. O duque de Rohan entrou então no território herético e ocupou a Valtelina, sempre preciosa para a Áustria, como anel de cadeia que prende as suas possessões da Itália às da Alemanha.

Em meio destes preparativos, morreu Fernando II, príncipe de uma grande constância na adversidade, mas arrogante nas circunstâncias prósperas. Êle dizia que três coisas lhe não tinham nunca parecido compridas: as caçadas, as conferências com seus ministros e o ofício divino. Êle amava os jesuítas como os inimigos mais temíveis da heresia, declarando mesmo que entraria para o seu grêmio se o seu dever lho permitisse. Mostrava-se brando para com os criminosos, à exceção dos adúlteros e dos hereges; porque não se julgava mesmo obrigado para com estes últimos a sustentar a palavra dada. Admitia na sua presença até mendigos suspeitos de estarem infeccionados de peste, mas nunca mulher sem a presença de testemunhas.

Fernando III, mais moderado, era amigo da paz; porém foi obrigado a continuar uma guerra (1637) que, de uma à outra extremidade da Europa, se prosseguia com ardor, não menos pela intriga e manejos ocultos do que pelas armas. A Catalunha, o Roussillon, a Sardenha sublevaram-se contra Filipe IV; Portugal recuperou a sua liberdade: as frotas francesas e holandesas dominaram nos mares, e a Espanha sucumbiu mesmo na Itália, sob o esforço da França. À guerra violenta de revolução sucedeu a guerra de arte e de tática entre Piccolomini, Banner, Torstenson, Conde e Turenne. O duque de Weimar, que parecia querer combater por sua conta e aspirava ocupar a Áustria, morreu (1639) a propósito como Gustavo, como Wal-dstein; e a França apropriou-se do seu exército, assim como das praças de que êle se tinha assenhoreado. Banner, que conduzia os suecos a novas vitórias, derrotou os imperiais e os saxônios em Wittstock, e logo depois terminou também a sua carreira.

Via-se sucederem-se alternativamente as batalhas e os tratados, iludidos ou violados por ambição, por etiqueta e por conveniência; os povos estavam sepultados na miséria, e os reis ou não queriam pôr fim a este estado de coisas, ou julgavam a tarefa impossível.

Diversas circunstâncias os obrigaram no entanto a parar com as matanças. A Espanha tinha Portugal por inimigo; a Catalunha tinha-se insurgido contra ela, e via na sublevação de Masaniello. assim como na expedição do duque de Guise sobre Nápoles, fatos ameaçadores para a sua dominação na Itália. Os católicos não podiam esperar triunfo, por isso que os

dois ramos da casa de Áustria não estavam de acordo, que o papa não era respeitado, e que a França favorecia os inovadores. Seus adversários não podiam tampouco contar com a vitória, porque se fraccionavam em partidos políticos e seguiam projetos diferentes, tendendo a estabelecer a República na Holanda e a monarquia na Suécia. À Alemanha, único país em que a independência, sem caráter próprio, teria podido desenvolver-se, faltava-lhe chefe, e ela tinha constantemente de mendigá-lo fora. Depois da morte de Gustavo Adolfo, que talvez conseguisse ligar toda Alemanha a um centro comum, não surgiu nenhum homem capaz de obter este resultado.

As armas tinham sido menos, funestas ao império (1640) do que o livro de Ratione status in Império Romano Germânico publicado por Filipe de Chimnitz, pomerânio ao serviço da Suécia. Esta obra tinha por fim demonstrar que os príncipes da Alemanha não formavam na realidade um império, mas uma República aristocrática, pertencendo a soberania aos Estados, não ao imperador. O autor excitava-os por conseguinte a se reunirem todos contra a casa do tirano defunto, flagelo do império e da liberdade. Não se poderia dizer a influência deste livro, cujas regras foram adotadas geralmente pelos publicistas protestantes. Resultou daí que os príncipes, vendo uma usurpação em cada ordem emanada do trono, não concordaram mais com o imperador para prejuízo do inimigo. Pretendendo fazer a guerra e a paz, eles quiseram enviar seus deputados a um congresso a que a França os chamava, para consolidar a liberdade civil e religiosa contra as invasões da Áustria.

As negociações tornaram-se por conseguinte longas e complicadas; porque era impossível, em meio da desconfiança geral dos partidos, que se assinasse limites precisos aos territórios e aos direitos. A guerra continuava portanto, e a Baviera esteve toda em fogo até o momento em que os suecos se apossaram da Nova Praga, último ato da longa tragédia cujo primeiro tinha tido os mesmos lugares por teatro.

Richelieu, que ateara o incêndio, já não existia. Os príncipes austríacos pouco se inquietavam com a prolongação de carnificinas que não se passavam à sua vista; mas o aumento de Frederico Guilherme, eleitor de Brandeburgo, lhes tirava, assim como à Suécia, a esperança de se engrandecerem por este lado. Finalmente, reuniu-se em Munster e em Osnabrück o congresso mais importante que ainda se vira. Os plenipotenciários do imperador, do papa, da França, da Espanha, de Portugal, da Suécia, da Dinamarca, dos Países-Baixos, da Suíça, de Mântua, da Sabóia e da Toscana, aí se ocuparam de resoluções de uma alta gravidade. A Suécia estava em guerra com a Áustria, com a Baviera e com a Saxônia; a Áustria, com a Suécia e com os Estados protestantes; a França, com a Áustria e com a Espanha; a Espanha com a França, com Portugal e com os Países-Baixos. Era preciso dar indeni-dades aos potentados estrangeiros e aos Estados do império, era preciso fixar as relações de política e de religião quer entre estrangeiros, quer entre nacionais. Independentemente das inimizades manifestas, existia uma desconfiança oculta entre aqueles que seguiam a mesma bandeira; e ninguém queria enfraquecer seus inimigos de tal modo, que seus aliados pudessem com isso adquirir demasiada força. O caráter dos diferentes ministros que misturavam suas paixões particulares com as paixões públicas aumentaram as dificuldades: os espanhóis mostravam-se orgulhosos, os imperiais obstinados, os franceses astutos, os suecos arrogantes; o legado pontifício Chigi, homem conciliador, e único animado do desejo desinteressado da paz, punha tudo em prática para aplacar os mútuos ciúmes.

Discutiu-se durante quatro anos. Afinal, o congresso terminou com a paz de Vestfália (15 de agosto de 1618), espécie de declaração da impossibilidade de congraçar os partidos. Por isso ela limitou-se a restabelecer as relações legais, sem dar atenção com o direito e com a justiça; diversas pretensões foram disfarçadas, porque a ameaça de prosseguir as hostilidades voltava a cada instante, e bem se previa que os termos vagos dariam lugar a novos litígios. Porém havia trinta anos, ou antes oitenta, que duravam as violências e as guerras, não na Alemanha somente, mas na Europa inteira, onde quase todos os países tinham sido furados por exércitos estrangeiros, todos por exércitos devastadores.

Só a França e a Suécia obtiveram as satisfações que pediam; a primeira adquiriu a Alsácia em prejuízo da Áustria, e foi além disso confirmada na posse de Metz, Poul e Verdun, de que ela até ali se intitulara protetora; a praça de Pignerol, no Piemonte, foi-lhe também distribuída. A Suécia teve a Pomerânia Ocidental e uma parte da baixa Pomerânia, a ilha de Rugen. Wismar, Bremen, Werden, três votos na dieta do império, e cinco milhões de escudos para o soldo das tropas que ela devia despedir. Era Gustavo Adolfo que triunfava do fundo da sua sepultura, assegurando à Suécia poderio maior do que ela podia esperar.

Para indenizar os príncipes, secularizaram-se os bens eclesiásticos; o eleitor de Brandeburgo obteve assim Magdeburgo, Halberstadt, Camin e Minden; o Meclemburgo obteve Schwerin e Ratzeburgo; Hesse-Cassel, Hirschfeld e seiscentos mil escudos; o eleitor da Saxônia conservou os bailiados subtraídos ao arcebispo de Magdeburgo; foi instituído um oitavo do eleitorado em favor do conde Palatino, cuja autoridade o imperador tinha transferido para o duque da Baviera. A questão relativa à sucessão de Julier tinha sido resolvida em 1610, quando o príncipe de Orange expulsou de lá os austríacos; porém as desinteligências que com ela tinham conexão não puderam ser conciliadas.

A Espanha tinha favorecido com todo o seu poder a Áustria e os católicos, na confiança de que o seu triunfo reconduzisse a Holanda à sua obediência; porém ela tinha sido obrigada, para voltar todas as suas forças contra a França, a reconhecer a independência das províncias rebeldes, e esta independência foi ratificada. Os suíços tinham-se sublevado desde séculos contra as usurpações da Áustria, ficando todavia submissos para com o império, que tinha reconhecido a sua insurreição. Contudo, na época em que a dignidade imperial ficou afeta à casa de Áustria, os antigos laços soltaram-se, e os suíços acharam-se independentes de fato sem o serem de direito. O império tinha tentado, nos momentos prósperos da guerra religiosa, exercer aí alguns atos de autoridade, mas pelo tratado de Vestfália a independência helvética foi declarada como direito.

Não foi possível alcançar conciliação para a guerra entre a França e a Espanha, nem para a que havia entre a Espanha e Portugal. Muitos outros litígios, ocorridos durante as hostilidades, ficaram sem solução.

Quanto à religião, causa ou pretexto de uma tão longa luta, não havia a esperar tolerância: isso era uma idéia estranha a este século, tanto mais que o papa, tendo-se de alguma sorte constituído mediador, se recusava a tratar com hereges. Limitaram-se, portanto, a confirmar a convenção de Augsburgo, compreendendo os calvinistas; foram estas as duas únicas confissões de que se ocuparam. A câmara imperial teve de compor-se de vinte e seis católicos, o conselho áulico de receber seis reformados, e a dieta um número igual de protestantes e de católicos. Foi decidido que as ordens religiosas conservassem as suas possessões, se as tivessem, nos países protestantes; mas que não se introduzisse nenhuma ordem nova, o que tinha especialmente por objeto excluir os jesuítas. Toda a dependencia eclesiástica e diocesana foi declarada suspensa entre os Estados católicos e protestantes, ou entre os protestantes só. O ano 1624 foi considerado como normal quanto aos bens de igreja, por atenção com o reservatum ecclesiasticum, conservando cada príncipe o jus sacrorum, isto é, a faculdade de dispor das coisas religiosas em seus Estados. Resultava daí o direito de expulsar aqueles que professavam uma outra crença; eles porém podiam pedir para emigrar, o que os preservava de perderem os seus bens de raiz.

Mais graves obstáculos se apresentavam para repor o império em uma situação conveniente. Maximiliano tinha-se esforçado, e Carlos V depois dele, com mais coragem, para impedir a sua dissolução e para lhe dar alguma dignidade. Porém no tempo de Rodolfo e no de Matias êle caiu de novo, sem que os dois Fernandos pudessem dar-lhe remédio, em meio de tão grande desordem, e nos embaraços que a nova política da França lhes causava. A Espanha tinha excitado em toda a Europa o desejo ou mesmo a necessidade de o humilhar, deixando perceber o projeto de reunir a França a suas imensas possessões; ora, coisa alguma era mais própria para fazer alcançar este fim do que atacar o ramo alemão, vindo em socorro dos protestantes. Exagerou-se por conseguinte a tirania de Fernando, assim como a ambição sistemática dos austríacos; e Fernando não pôde salvar na paz senão as aparências do império.

Os príncipes tinham reduzido pouco a pouco o império a uma confederação de Estados quase independentes, apesar de não haver nada de reconhecido a este respeito. Ora, a paz tornou legal o que havia de irregular na posição de cada um deles, de modo tal que eles puderam dizer-se verdadeiramente soberanos, unindo o direito ao fato. Resultou disso que a dignidade imperial não aumentou em coisa alguma o poderio efetivo da casa que a tinha chamado a si. Ter-se-ia querido, a fim de impedir a Áustria de tornar esta dignidade hereditária, que o rei dos romanos fosse eleito pela dieta e não pelos eleitores; mas este ponto foi concordado. Fêz-se uma capitulação perpétua para ser jurada pelos imperadores; porém esta formalidade não foi jamais realizada até Carlos VI. Convencionou-se que a dieta, que acabava de se separar, fosse de novo reunida, e a partir de 1663 ela ficou permanente em Ratisbona até 1806; mas a sua lentidão e a sua irresolução tinham passado a provérbio. A composição da câmara imperial foi determinada, para que a justiça fosse melhor administrada; e aboliu-se a concorrência de jurisdição, que permitiu às partes de levarem à sua vontade suas contestações perante o seu próprio senhor, ou ao tribunal do império (1).

(1) Nós reunimos aqui, às disposições do tratado, as medidas tomadas pela dieta pouco tempo depois.

Este tratado teve, portanto, o duplo caráter de paz e de constituição do império, e como resultado regular melhor a confederação germânica e fixar melhor seus direitos. Os Estados obtiveram para sempre a soberania territorial, que foi extensiva às matérias eclesiásticas e políticas; as cidades imperiais tiveram voto deliberativo nas dietas; elas puderam fazer alianças entre si ou com os estrangeiros, contanto que não fossem contrárias ao imperador nem à paz pública. Uma verdadeira confederação se achou assim constituída, com o fim de ajudar a manter o equilíbrio e a formar uma barreira entre a Áustria e a França. A primeira ficou vivamente ofendida por isto; a outra, crigindo-se em protetora da constituição alemã, procurou desgraçadamente a ocasião de se envolver nos negócios internos do país, e daí se pôs à testa de um poderoso partido.

O papa Inocêncio X protestou contra esta paz, como pouco religiosa; a Espanha protestou porque a Áustria tinha cedido a Alsácia; Fernando III protestou contra os títulos tomados pelo embaixador de Portugal; e posto que obrigado, como imperador e como arquiduque, a ceder sobre muitos pontos, êle não se sujeitou nunca a permitir aos reformados o livre exercício da sua religião em seus Estados hereditários, consentindo somente que eles fossem aos países contíguos para as suas devoções. Êle recusou também obstinadamente a seus súditos rebeldes, prevendo talvez a desordem que resultaria da volta dos proprietários dos bens cuja posse passara a outros, sobretudo na Boêmia, onde metade das terras tinha sido confiscada.

A Áustria, contra quem toda a guerra tinha sido dirigida, perdeu a Alsácia e a esperança da soberania européia. O maior prejuízo foi para a Alemanha, onde se dizia que o terço, a metade mesmo da população tinha perecido. As manufaturas, que faziam a sua grandeza, eram destruídas ou transportadas para fora; as cidades tão florescentes da Hansa, decaídas

desde então, não ficaram superiores em força às da liga sueca. O desmembramento, a humilhação, a fraqueza, sucederam às devastações e à anarquia. A separação do poder secular ficou estabelecida, o que produziu a ruína da vida política; duas divisões se perpetuaram, profundas como todas as que nascem das opiniões religiosas. Toda a centralização do poder cessou, ao mesmo tempo que se fortaleceu o poder de pequenos senhores que, cuidando só em se engrandecerem e em encherem seus cofres, administravam as populações como um patrimônio submetido ao direito privado; de sorte que aqueles mesmos que se mostravam bons e humanos não conheciam o verdadeiro dever de um governo. Estas populações não mais tiveram pátria para servirem com dedicação; e o país, que, durante toda a Idade Média, tinha estado à testa da política européia, tornou-se daí em diante teatro das intrigas e da corrupção dos estrangeiros.

No entanto, como não deviam os povos abençoar essa paz que os arrancava à ferocidade da soldadesca e a hostilidades eternas! Todavia ela não foi mais do que uma trégua, que felizmente se perpetuou. Deixando indecisos certos pontos que não podem receber solução senão da eternidade, ela ficou mais efetiva do que o parecia exteriormente. Ela assentou solidamente diferentes princípios fundamentais de direito público, por exemplo o de que a conservação do Império Germânico era em vantagem da Europa inteira. Uma vez escusada a política religiosa da Idade Média, este ato tornou-se para todos os homens de Estado um assunto de estudo, a nova base do sistema político e do direito das gentes. As potências do Norte começaram a possuir importância no Ocidente, e estampou-se na Áustria esse caráter de pacificadora, que ela desmente raras vezes.


Fonte: Edameris. Trad. Savério Fittipaldi.

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