Ilíada de Homero – Canto XVIII

Ilíada de Homero – Canto XVIII

Ílíada de Homero
Resumo e apresentação da Ilíada
Prefácio a Ilíada de Homero
Canto I
Canto II
Canto III
Canto IV
Canto V
Canto VI
Canto VII
Canto VIII
Canto IX
Canto X
Canto XI
Canto XII
Canto III
Canto XIV
Canto XV
Canto XVI
Canto XVII
Canto XVIII
Canto XIX
Canto XX
Canto XXI
Canto XXII
Canto XXIII
Canto XIV
Canto XV
Canto XVI
Canto XVII
Canto XVIII
Canto XIX
Canto XX
Canto XXI
Canto XXII
Canto XXIII
Canto XXIV

Ilíada de Homero –
Versão brasileira de Manoel Odorico Mendes


Canto 18




ARGUMENTO DO  LIVRO XVIII

Antíloco dá a Aquiles a notícia da
morte de Patroclo. — Dor

profunda de Aquiles. — Tétis com as
Nereidas vem consolar seu

filho. — Vendo-o animado do desejo
de vingança, ela promete-lhe

para o dia seguinte uma nova armadura
fabricada por Vulcano. —

Despede as Nereidas e dirige-se para
o Olimpo. — Durante este tempo

o combate se reanima em redor dos
restos de Patroclo. — Heitor se

apoderaria do cadáver, se, impelido
por Juno, Aquiles não houvesse

lançado o terror entre os Troianos.
— Ao anoitecer os Gregos tomam o

cadáver e o levam para a tenda de
Aquiles. — Os Troianos reúnem-se

para deliberar. — Heitor repele os
prudentes conselhos de Polidamas.

— Os Gregos lamentam a morte de Patroclo
e lbe fazem as honras

fúnebres. — Tótis vai ter com Vulcano.
— Benévolo acolhimento que

teve a deusa, — Vulcano fabrica para
Aquiles as melhores almas,

cuja descrição vai no fim deste canto.

Arde a peleja, e
Antíloco despede.

No já completo a
meditar, Aquiles

Ante as naus esporadas
suspirava

Dentro em sua alma
nobre: "Hui! por que os Dânaos

Turbados pelo campo
as naus procuram?

É que os numes o
trago me preparam

Por minha mãe predito;
ela afirmava

Que mão Troiana ao
Mírmidon mais forte

Roubaria, inda eu
vivo, a luz diurna:

Certo jaz morto o
mísero Menécio!

Cá voltar o mandei,
remoto o incêndio,

E nunca expor-se
do Priâmeo à fúria."

Enquanto assim pensava,
o bom Nestório

Chega-se, em quentes
lágrimas lavado:

"Ai! Pelides
sem-par, ouve o mais triste

Fúnebre anúncio,
que oxalá não fora:

Nu disputa-se o corpo
de Patroclo,

E Heitor brilhante
lhe possui as armas."

O herói súbito enubla-se:
aos punhados,

De pó suja a cabeça
e o rosto afeia,

Denigre em cinza
a túnica olorosa;

Carpindo e lacerando
as gentis faces,

Por grande espaço
o grande corpo estira.

As que ele cativara
e o seu Patroclo,

Mestas lamentam,
saem fora e o cercam,

A punhos contundindo
o seio belo,

Laxos os membros.
O Nestório aflito

Chora, nas suas tendo
as mãos de Aquiles,

Receia que este a
ferro se degole.

O urrar medonho ouviu-lhe
a augusta madre

Com seu pai no áqueo
pego, e ulula e geme.

Logo a torneiam Glauca,
Toa, Acteia,

Néscia, Espio, Cimódoce,
e Talia,

Olhipulcra Hália,
Jera, Agave e Doto,

E Mélita e Cimótoe,
e Linória,

Proto, Ferusa, Dinamene
e Dórís,

Calianira, Anfínome,
Dexâmene,

Nemerte, Apseude,
Calianassa, Anfítoe,

Panopeia, e a famosa
Galateia,

Mais Climene, Oritia,
Ianassa e Mera,

E Janira e Amatia
auricomada;

Quantas Nereidas
há nos fundos mares

Enchem-lhe a gruta
argentea, os peitos ferem.

Tétis seu luto exala:
"Irmãs, as penas

Sabei que me angustiam.
Miseranda!

O maior dos heróis
pari mesquinha!

Criado como planta
em horto ameno,

Forte medrava e belo,
quando a Ilion

Mandei-o em naus
rostradas. Ahl mais nunca

Posso abraçá-lo no
Peleio alcáçar!

Enquanto à luz do
sol inda boceja,

                             Não
me é dado abrandar seus pesadumes:

Mas parto a ver na
ausência dos combates

Que desgosto assaltou
meu caro filho."

Então saiu da gruta,
e as mais com ela

Vão lagrimosas dividindo
as vagas;

Sobem de Tróia à
praia, onde varadas

As numerosas naus
de Aquiles eram.

Do imo ele soluçava,
e a deusa um grito

Soltando agudo, abraça-lhe
a cabeça,

Dorido o coração:
"Tu choras, filho?

Que amargor sentes?
Fala, não mo encubras.

Fez Jove o que pediste
alçando as palmas:

Opressos, rebatidos
e acuados,

Os Aquivos sem ti
por ti suspiram."

"Sim, minha
mãe, responde gemebundo;

Mas que prazer terei,
se é morto aquele

Que eu tanto como
a vida apreciava ?

Heitor, ao trucidá-lo,
da armadura

O despojou, pasmoso
dom celeste

Feito a Peleu, no
dia em que os Supremos

No toro de um mortal
te colocaram.

Oh! também com mortal
fosse ele unido,

E entre as marinhas
deias habitasses!

Não te causara dor
imensa um filho,

Que não hás-de rever
no lar paterno.

Nem respirar o peito
me consente

No meio de homens,
sem que a lança minha

A alma arranque de
Heitor, vingue a Patroclo."

"Ah! torna Tétis
alagada em pranto,

Que dizes, filho
meu ? Se Heitor sucumbe,

Tens iminente o fado."
— "Pois morramos,

Diz soluçando Aquiles,
já que ao sócio,

Que tão longe expirou
do pátrio ninho,

Remir do bronze hostil
não me era dado;

Já que voltar a Ftia
me é defeso;

Já que a tantos Grajúgenas
amigos

Das mãos Hectóreas
preservar não pude;

Já que, excedendo
na peleja a todos,

Quanto no parlamento
alguns me excedem,

Fiquei-me aqui na
terra inútil peso.

Dos numes, dos mortais,
vá-se a discórdia,

Vá-se a ira que cega
ao mesmo sábio:

Ela mais doce do
que o mel estila,

Evapora-se e cresce
e os peitos incha;

Tal ma acendeste,
poderoso Atrida.

Mas deslembremos
a cruel injúria,

Submissos à fatal
necessidade.

Do meu Patroclo ao
matador já corro,

Embora os Céus a
morte me acelerem.

Hércules a esquivou,
tão caro a Jove?

A Parca e Juno em
cólera o domaram.

Eu jaza onde cair,
se é tal meu fado;

Porém colha primeiro
ingente glória.

De seio airoso as
Dárdanas e Tcucras,

Em mestos ais, das
faces delicadas

Às mãos ambas as
lágrimas enxuguem;

Sintam que eu repousava.
Nem mo empeças,

Que nisto, minha
mãe, não te obedeço."

A Argentípede logo:
"É bom, meu filho,

Que dos consócios
teus o exício afastes:

Ora, a exultar, o
insigne Heitor ombreia

A énea tua armadura
coruscante;

Mas não exultará
sobejo tempo.

Tu não entres no
marte, sem que eu volte

Aos olhos teus: ao
rei Vulcano parto:

Haverás na arraiada
o que precisas."

E às Nereidas virou-se:
"Ao fundo aquoso

Ide, irmãs, e a Nereu
contai meus males:

Ao celso fabro subo,
que a meu filho

Tempere e forje lampejantes
armas."

Cessa; as Nereidas
súbito mergulham.

E ao celso Olimpo
se encaminha Tétis.

Fremindo às praias
do Helesponto os Gregos,

Do fero Heitor batidos,
se acolhiam,

Sem livrarem Patroclo d’entre as lanças:

Pois, como chama,
eqüestres e pedestres

E o fulmíneo Priâmeo
o perseguiam:

Três vezes pelos
pés ávido o agarra

E brama aos seus;
de esforço revestidos,

Os Ajax vezes três
do morto o expelem:

Ele ardido, ora investe
e escala as turmas,

Ora tem-se a bradar,
mas não recua:

Sempre aos dois campeões
tenaz resiste,

Qual faminto leão
se aferra à presa,

Apesar dos pastores
que a vigiam.

E glorioso a rastos
a levara,

Se, da corte celeste
às escondidas,

De Juno por mandado,
não descesse

A núncia proeclípede
ao Pelides,

A quem rápido clama:
"Eia, ó dos homens

O mais terrível,
a Patroclo salva,

Por cujo corpo-,
acérrimos contendem,

Mortes reciprocando,
uns a retê-lo,

Outros querendo a
Pérgamo arrastá-lo;

Heitor mormenta que
num poste almeja

Espetar-lhe a cabaça
decepada.

Sus, de ócio basta;
pese-te a vergonha

De jogo o amigo ser
aos cães de Tróia:

Opróbrio é teu, se
ultrajam-lhe o cadáver."

"Íris, que deus,
pergunta-lhe o Peleio,

Te envia aqui?"
— Responde-lhe a Taumância:

"Do Satúrnio
a consorte soberana.

Sublime ele o não
sabe, ou qualquer outro

Que habite os cumes
do nevoso Olimpo."

"Como, Aquiles
tornou, pelejar posso?

Eles me têm o arnês;
a mãe querida,

Antes que volte,
proibiu-me a guerra:

Prometeu-me trazer
Vulcâneas armas.

E não sei que outras
vista, excepto o escudo

Do Telamónio Ajax;
mas este, creio,

Pelo Menécio luta
e a morte espalha."

"Oculto não
nos é, replicou Íris,

Que roubaram-te o
arnês: mesmo sem ele

Vai-te ao fosso e
aos Troianos apareças;

Da acção talvez atônitos
se abstenham,

E os Gregos marciais
do afã respirem:

O mais breve respiro
é proveitoso."

Dali sumiu-se. Ergueu-se
o divo Aquiles;

A grã Minerva a égide
franjada

Pôs-lhe aos válidos
ombros, de áurea nuvem

Refulgente o coroou:
qual monta o fumo

De ilha distante
e praça, em morte horrível

Dos cidadãos no dia
propugnada,

Onde, ao cadente
Sol, nas atalaias

Acendem fogaréus,
por que os vizinhos

Tragam naval socorro;
assim da nobre

Cabeça o resplendor
feria os ares.

Ei-lo ante o fosso,
obediente à madre,

Sem mesclar-se no
prélio, alteia o grito,

E o da mesma Tritónia
inda o reforça.

Pelos Teucros lavrou
tumulto e espanto.

Como o clangor da
tuba, em duro cerco

De hostes exiciais,
o alarma soa,

A voz soou de Aquiles
érea e clara:

Treme o inimigo;
retrocedem coches, .

Dano os frisoes cornados
pressagíam;

Assustam-se os aurigas,
do Pelides

Ao ver sobre a cabeça
o fogo horrendo,

Mais por Minerva
ccrula inflamado.

Vezes três sobre
o fosso grita Aquiles,

Três debandam-se
os Teucros e aliados;

Na confusão, feridos
por seu bronze,

Nos coches próprios
doze heróis perecem.

Ledos os Dânaos a
Patroclo salvam,

E deposto em seu
leito, em roda o choram

Amigos seus. O Eácida
com estes

Mistas lágrimas verte,
contemplando

No féretro a jazer
dilacerado

O fido sócio que enviara à pugna,

Para não mais o receber
com vida.

O infadigável Sol,
da augusta Juno

Constrangido, mergulha
no Oceano,

E hão no cruel conflito
os Gregos trégua.

Os Troianos também,
cessada a lide,

Os tiros desjungindo
a ceia esquecem

E em pé se ajuntam,
que nenhum se assenta;

Inda os assusta o
aparecer Aquiles,

Do funesto combate
há muito fora.

A mão toma o Pantóida,
único atento

Ao passado e ao futuro,
à mesma noite

Nascido com Heitor,
seu companheiro,

Mais eloqüente, se
inferior na lança:

Cordato orou: "Cautela
agora, amigos:

Não se aguarde no
campo a ruiva aurora:

Toca a entrai na
cidade, é longe o muro.

Irado esse homem
contra o fero Atrida,

Menos acres os Dânaos
combatiam;

Ledo eu-cá-pernoitava,
na esperança

De rendermos as naus
dupliagitadas:

Hoje me temo do veloz
Pelides.

Bravo como é, não
ficará na liça

Do esforço marcial
de Aqueus e Troas;

Irá dentro as mulheres
disputar-nos.

Segui-me, isto não
falha, eia, marchemos.

A alma noite o retém:
se aqui nos colhe,

Crástino alguém terá
de exprimentá-lo.

Feliz do que se escape
em Ílio santa !

Muitíssimos serão
de abutres pasto.

Nunca eu ouça tal
nova I Em que vos pese,

A concordar-se, à
noite nos munamos

De valioso conselho:
propugnemos

Das torres nossas,
reforçando as portas

Com travessas e barras
bem travadas.

N’alva aos merlões
em armas resistamos:

Ser-lhe-á mais árduo
contender conosco;

Se as praias deixa,
voltará confuso,

Saciados os corcéis
de vãos tentames

E correrias, sem
pedir-lhe o peito

A cidade assolar:
antes o faça,

De vagabundos cães
será tragado."

Austero Heitor: "Despraz-me,
Polidamas,

Na muralha encerrarmo-nos
de novo:

Não vos cansais de
estardes clausurados?

De ouro, de bronzes
rica, humanas línguas

De Príamo a cidade
apregoavam;

Mas vender as alfaias
e os tesouros

Foram-se à Frígia,
foram-se à Meónia,

Depois de infesto
Júpiter: e agora,

Que rebater e encurralar
os Gregos

Ele outorgou-me.
. . Insano, cal-te e cessa:

Ninguém há que te
escute, e eu não permito.

Obedecei-me à risca:
ceie em ranchos

Todo o exército;
vele homem por homem,

Rondem, patrulhem.
Quem receia e cuida

Perder seus bens,
à tropa os distribua;

É melhor que ela
os goze do que os Dânaos.

Ao luzir da manhã,
batalha seva

Excite-se ante as
naus. Se o divo Aquiles

Surge, o caso talvez
será mais grave:

Do horríssono conflito
eu não lhe fujo;

Hei-de firme arrostá-lo,
e um de nós haja

Claro triunfo. A
todos Marte ajuda,

E o que matar espera
às vezes morre."

Cegos os Teucros
por Minerva, aplaudem

Este fatal arbítrio,
e o bom rejeitam

Que expendera o sisudo
Polidamas.

Ceia depois o exército.
— Os Aquivos

Lastimando a Patroclo
a noite gastam,

E ao luto a suspirar
o herói preside,

Postas as sevas mãos
do amigo aos peitos.

Qual barbudo leão,
que à densa furna

Chega tarde e acha
faltos os cachorros,

Triste e em sanha se atira pelos vales,

Buscando o roubador
e os seus vestígios;

Tal geme e brada
aos Mírmidões Aquiles:

"Céus, que promessa
vã 1 Dentro em seu paço

Ao grã Menetes segurei
que ovante

A Opunta voltaria
o filho amado,

Da rasa Tróia com
porção da presa!

Nem sempre cumpre
Jove humanos votos.

Ambos fadado está
que rubriquemos

A mesma terra; e
aqui terei jazigo,

Sem que à mãe deusa
torne e aos pátrios lares.

Já que após ti, Menécio,
à campa desço,

Teus funerais espaço,
até que eu mesmo

Tire ao teu matador
a vida e as armas,

E em desafogo Teucros doze ilustres

Na pira tua imole.
Entanto, junto

Fiques das negras
n/ius, e dia e noite

Carpindo-em cerco,
as Dárdanas formosas

De reguados seios
te pranteiem,

Essas que à lança
ardidos conquistamos,

Opulentas cidades
assolando."

Então faz pôr ao
fogo trípode ampla,

Onde a sangueira
expurgue-se a Patroclo:

Assentam prestes
num brasido o vaso,

Enchem-no, acendem
por debaixo lenha,

E a chama em roda
lambe e aquece o bojo.

A água mal ferve
no sonoro cobre,

Lavado e ungido esparzem-lhe
nas chagas

Um bálsamo novene,
e em lençol fino,

Da fronte aos pés
o envolvem sobre o leito,

Alvo manto por cima.
Inteira a noite

Choram-no os Mirmidões,
geme o Pelides.

Jove à consorte e
irmã: " Juno olhipulcra,

O ardor enfim de
Aquiles inflamaste:

Certamente os Aqueus
amplo-comados

Provêm de ti."
— Responde a augusta Juno:

"Terrífico Satúrnio,
que proferes?

Mortal e a nós somenos
em cordura,

O homem consegue
o intento contra o homem;

E eu que as deusas
precedo, eu sangue e esposa

Do nume soberano,
eu só não devo

Dano aos Teucros
urdir e encher meu ódio!"

Chega, entanto, a
argentípede Nereida

À Vulcânea estrelada
e incorruptível,

Estupendo lavor do
coxo mestre;

Suado e azafamado
aos foles o acha,

Trípodes vinte a
fabricar, adornos

Da aénca regia: em
roda áureas pousam,

Com que espontâneo
ao divinal congresso

Vão-se e tornem-se
à casa, oh maravilha!

Perfeitas quase,
as pegas só lhes faltam,

Cujos cravos aguça.
Ao tempo que ele

Isto engenhava, aproximou-se
Tétis.

Eis Cáris, de Vulcano
a bem toucada

Gentil consorte,
a mão lhe aperta e fala:

"Deusa louça
de flutuante peplo,

Eras aqui mui rara;
a que vens hoje?

Anda, vou pôr-te
hospitaleira mesa."

Já, de escabelo aos
pés, dentro a coloca

Em primorosa claviargêntea
sela;

Depois chama a Vulcano:
"Vem, que Tétis

Algo há mister."
— O artífice responde:

"Quê! Vejo a
deusa que salvou-me aflito,

Quando ocultar este
aleijão querendo,

Me fez do céu cair
indigna Juno!

Quanto eu sofrerá,
a não me dar asilo,

Mais do Oceano refluente
a prole

Eurínome formosa!
Por nove anos

Em cava gruta lhes
forjei colares,

Anéis, fivelas, braceletes,
brincos:

Roncava espúmeo em
torno o imenso pego;

Homem nem deus algum
de mim sabia,

Porque Eurínome e
Tétis me velavam.

Procura-me a pulquérrima
Nereida;

Pagar-lhe devo obrigações tamanhas.

Tu lhe apresenta
opíparos manjares,

Enquanto os foles
e instrumentos guardo."

Já deixa a incude
o monstruoso fabro,

A vacilar nas bambas
frouxas pernas:

Retira os foles,
mete em arca argêntea

Os utensis; de esponja
a cara enxuga,

Pulsos, cachaço e
cabeludos peitos;

E, com túnica limpa
e um grave ceptro,

Vem coxeando; o rei
trôpego esteiam

Moças de ouro que
às vivas assemelham

Na força e mente
e voz, por dom celeste;

Ladeiam-no cuidosas.
Tardo o passo,

Vizinho a Tétis,
em brilhante sólio

Senta-se, a mão lhe
cerra acaricioso:

"De roçagante
peplo ó deusa; augusta,

Raro aqui vinhas;
que pretendes hoje?

Fala segura; o coração
me pede

Fazer tudo por ti,
se for possível."

E ela a chorar: "Do
Olimpo qual das deusas

Tem curtido, Vulcano,
as amarguras

Que me propina Jove?
Entre as Nereidas

Fui só quem de um
mortal entrei no toro,

Do Eácida Peleu forçada
esposa:

Velho jaz e abatido;
eu, mesta e aflita.

Parir deu-me e criar
o herói mais bravo,

Que medrou como planta
em horto ameno:

Crescido, o enviei
mesma em naus rostradas

Contra esses Teucros.
No Peleio alvergue

Não mais hei-de abraçá-lo,
e enquanto vejo

E goza a luz do sol,
vive em tristezas.

Nem consolá-lo sei:
roubou-lhe o Atrida

A quem houve em prêmio,
e a dor e o pejo o ralam

Dante as popas os
Dânaos, rechaçados,

Nem saíam; deprecam-lhe
os melhores

E honrosos dons prometem:
nega-se ele,

Mas no seu mesmo
arnês manda a Patroclo
E os
Mirmidões, que às portas Ceias pugnam

O dia inteiro. E
então caíra Tróia,

Se Apoio entre a
vanguarda não matasse,

Para glória de Heitor,
ao bom Menécío,

Que amplo estrago
esparzía. A teus pés rogo

Faças ao filho meu
de curta vida

Elmo, escudo, loriga
e afíveladas

Grevas gentis: perdeu-lhe
o amigo as armas;

E ele opresso e no
pó jaz consternado."

Diz Vulcano: "Sossega,
não te aflijas.

Pudesse à minaz Parca
subtraí-lo,

Como lhe hei-de aprestar
brilhantes armas,

Dos humanos espanto."
Eis vai-se aos foles,

VÍra-os ao fogo,
e ordena-lhes que operem.

Eles em vinte forjas
respiravam,

Ora com sopro lento,
ora apressado,

Segundo o que há
na mente e quer o artista.

Cobre indômito ao
fogo e estanho e prata

E ouro pôs fino,
ao cepo vasta incude,

A tenaz numa mão,
noutra o martelo.

Sólido forma o escudo,
ornado e vário

De orla alvíssima
e triple, donde argênteo

Boldrié pende, e
lâminas tem cinco.

Com dedáleo primor,
divino engenho,

Insculpiu nele os
céus e o mar e a terra;

Nele as constelações,
do pólo engastes,

Oríon valente, as
Híadas, as Pleias,

A Ursa que o vulgo
denomina Plaustro,

A só que não se lava
no Oceano.

Duas cidades povoou.
— Solenes

Bodas há numa: as
noivas, entre fachos,

Vêm dos talamos,
guiam-nas chamando

Por himeneu; de giro
dançam moços,

Tocam flautas e cítaras;
mulheres,

Dos vestíbulos seus,
estão pasmadas.

Apinham-se no foro,
a ver o pleito

Que por causa da
multa as partes erguem

Do Um recente homicídio; afirma ao povo

Um tê-la pago à risca,
o outro o nega,

Produzir ambos testemunhas
querem;

Divide-se o favor,
soa o tumulto,

V, impõe silêncio arautos;
sobre lisa

Pedra, em círculo
sacro, estão juizes,

Que em varas dos
arautos clamorosos,

Por seu turno opinando,
em pé se encostam;

Ali no meio há de
ouro dois talentos,

Para quem proferir
melhor sentença.

Na outra cidade,
exércitos se acampam

A reluzir. Os cercadores
traçam

Destruí-la, ou metade
saquear-lhe

Do que há no soberbíssimo
castelo.

Os de dentro, insistindo,
armam ciladas;

Em guarda ao muro
os velhos e as mulheres

E os meninos deixando,
uma sortida

Fazem com Marte e
Palas, ambos de ouro

E de ouro as vestes,
cujo brilho e talhe

Dos humildes mortais
os distinguiam.

Eles, já de emboscada
ao pé de um rio

E onde o armento
bebia não se despem

Do fulguroso bronze,
e avante postam

Vigias dois que da
chegada avisem

De negros bois e
ovelhas. Já descobrem

Uns pastores que,
alheios das insídias,

Na avena divertiam-se,
e improvisos

Aos míseros matando,
se apossavam

Do alvo rebanho e
gado. Os cercadores,

Em assembléia, a
bulha e o mugir fere,

E montando os corcéis,
rápido às abas

Do rio empenham férvida
batalha:

Vaga a Discórdia,
o Susto; aferra a Parca

De fresco um vulnerado
e um são e um morto,

E os roja pelos pés,
e tinto em sangue

Ata aos ombros o
manto. Os combatentes

Parecem vivos; de
uma e de outra parte,

Dos sócios os cadáveres
carregam.

Mole alqueive insculpiu,
largo, abundoso,

Três vezes amanhado,
e o lavram muitos,

Aqui e ali dos bois
virando o jugo;

Ao fim de cada sulco,
um homem sempre

Lhes verte um copo
de suave baco;

Eles outros começam,
desejosos

De profundá-los todos.
Bem que de ouro,

Atrás negreja o alqueive,
nem que arado

Verdadeiro o fendesse:
oh grã prodígio!

Insculpiu loura messe,
e dos ceifeiros

Foice a talha afiada:
em linha os molhos

Por terra vão caindo;
enfeixadores

Seguem três para
atá-los, e uns meninos

Lestos atrás colhendo,
os acumulam.

Numa paveia, o rei
ceptrado assiste,

Silente e alegre;
à sombra de um carvalho

Arautos põem-lhe
a mesa, espostejada

Enorme rês; mulheres
aos ceifeiros

Mesclam vária farinha
e a ceia aprontam.

Áurea vinha insculpiu
de roxos cachos,

Que ao peso verga,
e arrima-se em argêntea

Fieíra de tanchões;
de estanho sebe,

Fosso de esmalte
a cinge; uma azinhaga

Só tem para a vindima;
adolescentes

E donzelinhas, de
ânimo sinceros,

O doce fruto em canistréis
apanham.

Tange um menino harmônico
alaúde,

E canta com voz meiga
ao som das cordas;

Bailam tripudiando
os vinhateiros,

A repetir a ponto
as melodias.

Manada ali gravou
de altivos cornos:

De ouro e de estanho
os bois, mugindo rompem

Do curral para o
pasto, indo-se às margens

De ressonante caniçoso
rio;

De ouro há vaqueiros
quatro e mastins nove;

Dois medonhos leões
na frente empolgam

Um touro berrador,
que a rastos geme;

Segue a matilha e
a gente, mas as feras

Chupam-lhe o sangue
e as láceras entranhas;

Os vaqueiros seus
cães debalde açulam;

Os cães morder as
feras não se atrevem,

Bem que de perto
ladrem. — Pôs Vulcano

Em vale ameno cândidas
ovelhas,

E redis e tapigos
e tugúrios.

Coréia ali gravou,
qual na ampla Cnosso

Fez Dédalo à pulcrícoma
Ariadna.

Moços e virgens palma
a palma enlaçam.

A terra pulsam: tênue
linha as veste,

Veste-os guapo tecido
azeitonado;

Elas flóreas grinaldas,
eles trazem

Áureos alfanjes em
talins de prata.

Com mestra e leve
planta, ou já discorrem

Qual do oleiro tocada
ao móbil torno

Rápida volve a roda,
ou já desfilam:

Deleita-se o tropel
que em cerca pasma.

Dois adiante uma
toada rompem,

A voltear e aos pulos.
— Em remate,

Na orla esculpiu
do enorme rijo escudo

A ingente força do
Oceano rio.

Depois forma a coiraça
mais que o fogo

Resplandecente, e
à fronte acomodado

Grave brunido casco
de áurea crista,

E de dúctil estanho
as grevas tece.

Completo alçando
o arnês, à mãe de Aquiles

O deus o oferta;
ao gavião parelha,

Toma as Vulcâneas
coruscantes armas,

Do alto nevoso Olimpo
se despenha.

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