Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

ELEVAÇÃO DO BRASIL A REINO – Dom João VI no Brasil – Oliveira Lima




D. João VI no Brasil – Oliveira Lima
CAPÍTULO XIIIELEVAÇÃO DO BRASIL A REINO

Refere Mello Moraes, sem documentos aliás que comprovem sua asserção, que a idéia de elevação do Brasil a reino foi sugerida pelo príncipe de Talleyrand ao conde de Palmela, o qual transmitindo-a sem demora para o Rio de Janeiro, determinou a sua adoção pelo governo de Dom João VI. O fato encontra-se realmente assim na correspondência reserva­da dos plenipotenciários portugueses ao Congresso de Viena.

Segundo esta correspondência,343 Talleyrand conversando com um deles e após o interrogar longamente sobre os recursos, governo e condi­ções do Brasil, teria instigado o príncipe regente a não deixar então a América, por algum tempo mais pelo menos, ainda que mandando o filho primogênito para a Europa, a fim de satisfazer Portugal. "Convém a Portugal e convém mesmo à Europa toda — comentaria o sagacíssimo diplomata na aludida palestra — que se mantenha por um prazo tão longo quanto possível for, o enlace entre as nossas possessões européias e americanas. O transtorno que causou no edifício europeu a revolução da América inglesa, que nós tão imprudentemente auxiliamos, vai-se já experimentando agora, e experimentar-se-á cada dia mais. As colônias espanholas, pelo mau governo atualmente daquela monarquia, podem-se contar quase como perdidas para a Europa, e em tais circunstâncias eu consideraria como uma fortuna, que se estreitasse por todos os meios possíveis o nexo entre Portugal e o Brasil; devendo este país para lisonjear os seus povos, para destruir a idéia de colônia, que tanto lhes desagrada, receber o título de reino, e o vosso soberano ser rei do Reino Unido de Portugal e do Brasil."

"Podeis, — rematou Talleyrand no dizer dos plenipotenciários — se julgardes conveniente, manifestar que eu vos sugeri estas idéias e que tal é o meu voto bem decidido." Não se me afigura contudo a idéia tão espontânea dele quanto o quiseram fazer acreditar os diplomatas portugue­ses, os quais nesta ocasião até esqueceram a sua praxe invariável de referir individualmente aquele com quem ocorrera tal ou qual conversação política.

A harmonia que entre os três plenipotenciários habitualmente reina­va; a dissimulação que no aludido caso fazem do nome de Palmela; aque­le súbito e deslocado interesse de Talleyrand, que nas suas memórias das questões portuguesas apenas faz passageiras referências ao tráfico de es­cravos, pelas questões coloniais e pelo estado de alma das populações ul­tramarinas; o seu ardor no conselho encaminhado, quando de ordinário os dava num tom de indiferença, posto que as mais das vezes postiça; a sofreguidão com que os seus colegas portugueses do Congresso, de costu­me mais timoratos ou reservados, acolheram a lembrança: tudo leva a crer que a sugestão atribuída a Talleyrand pode ter emanado dele, mas previa­mente acordada com o primeiro plenipotenciário português, que de fato seria o seu inspirador local. Ao receber as felicitações do encarregado de negócios de França pela deliberação tomada, Barca disse-lhe, o que redo­brou o calor das congratulações de Maler, que a medida da elevação do Brasil a reino tivera o vivo apoio da opinião do príncipe de Talleyrand,344 não que partira dele.

A autoria de Palmela explica que se aproveitassem os três plenipo­tenciários, sem esperarem a resposta do Rio de Janeiro sobre assunto por vários motivos melindroso, da primeira ocasião que se lhes deparou — que foi a acessão de Portugal ao tratado de aliança ofensiva e defensiva provocado pelo desembarque de Napoleão no golfo Juan — para mencio­narem oficialmente a designação e fazerem reconhecer indiretamente, desta forma, pelas quatro grandes potências contratantes o título de Reino do Brasil.

Palmela assumia desembaraçadamente a responsabilidade porque ti­nha consciência de bem agir e também, sem que o dissesse, consciência de enxergar mais longe e melhor do que o comum dos homens de estado da sua terra. Ali em Viena, acabava ele justamente de ter um excelente ensejo de verificar quanto diminuíam a importância de Portugal, sua exigüidade territorial e sua escassez de população, pelas quais quase se vira excluído da comissão preparatória e diretiva do Congresso. As vas­tíssimas dimensões e os apregoados recursos do Brasil eram que forne­ciam ao velho reino o maior da sua consideração exterior, e como aque­las condições davam tom à sede da monarquia portuguesa, que a colônia passara a ser por tempo indefinido, convinha quanto antes, fácil é compreendê-lo, realçar-lhe a categoria, salientando assim aquela circunstân­cia auspiciosa.

Palmela opinaria poucos anos depois, em vista das conseqüências que poderia trazer a revolução portuguesa e mais ainda talvez por um senti­mento egoísta de comodidade pessoal, faltando-lhe além-mar todos os en­cantos e requintes da civilização européia de que libara todas as sensa­ções, pelo regresso da corte para Lisboa. O seu colega Saldanha da Ga­ma, porém desde 1815 desaconselhava tal medida por se achar de fato a Europa submetida a um diretório, cujas imposições facilmente se fariam sentir em qualquer ponto do próprio continente, mas dificilmente se lo­grariam exercer na América, onde outros eram os meios de ação — nesse caso antes de isenção — “e muito mais se para esse fim V. A. R. se ligar com o governo dos Estados Unidos".345

Convinha notar, e sobre isto se fundava Saldanha da Gama com dis­cernimento para entender que devia permanecer a corte no Brasil, que o Congresso de Viena nada resolvera, nem lhe era dado resolver, de forma definitiva e imutável sobre questões que cedo dariam lugar a contestações e guerras, e sobretudo nada podia haver tentado com êxito para a extin­ção do espírito revolucionário que minara a antiga existência política e religiosa da Europa.

Na Rússia, país de servos ainda por longos anos, já rosnavam contu­do ameaças de reformas e a Polônia ali estava como um grande foco de per­turbação, tendendo sempre a reconstituir-se e tendendo a Rússia com não menos constância a absorvê-la integralmente como o melhor meio de serená-lo. Prússia e Áustria continuariam a disputar a hegemonia germânica, só resolvida em 1866. Suécia e Dinamarca tinham a dividi-las a Noruega, for­çada a uma união de que acabou por se emancipar. Bélgica e Holanda tam­pouco lograriam permanecer unidas, durando muito menos a ligação. A Ale­manha parecia um tabuleiro de xadrez jogado por loucos: era um arsenal de ciúmes e intrigas, que reclamava a dureza e a perspicácia de um Bismarck para se converter num perfeito aparelho de força e de cultura. A Inglater­ra, ainda não completamente transformada em potência industrial e colo­nial, conservava seus sonhos tradicionais de potência continental, imagi­nando reunir, por meio do casamento da princesa herdeira Carlota com o Príncipe de Orange, os Países-Baixos ao Hannover, que exigia sucessão mas­culina. A Áustria excluíra a França da Itália, mas nesta fora buscar sua co­roa de martírio, adquirindo uma fonte caudal e perene de dissabores e de complicações. Nápoles ficava sendo um terreiro para pugnas liberais, co­mo a Espanha um campo para reações absolutistas. 

A tutela tirânica da Santa Aliança, que substituíra a de Napoleão; a energia com que continuava a lavrar nos ânimos a conflagração revolucionária, e o desassossego latente que depressa se converteria em discórdia sangren­ta, eram ou deviam ser motivos de sobejo para dissuadirem Dom João de sair da América do Sul, onde o Brasil exercia por assim dizer a hegemonia, sendo o único país relativamente compacto, organizado e tranqüilo até en­tão, parecendo aí bastante fora de questão as idéias de liberdade política e não se supondo quase possíveis as lutas civis no seu ameno ambiente.

Quando o príncipe regente se trasladou em 1807 para a América, a impressão geral, a que ele dera aliás corpo no seu primeiro manifesto, fo­ra de que tinha ido criar um novo império. Rei do Brasil denominava-o numa das suas primeiras cartas para o Rio D. Domingos de Souza Coutinho, o qual em 1813 figurava no Annual Directory como representante di­plomático do Brasil, não mais de Portugal.346 E o príncipe regente parti­ra decidido não somente a se transformar em monarca transatlântico, co­mo a dilatar as fronteiras da sua monarquia.

A conquista de Caiena, para trunfo diplomático muito embora, e a ocupação da margem setentrional do rio da Prata não foram absoluta­mente filhas das circunstâncias do momento, idéias que acudiram a Dom João ou planos que formou o seu governo depois de tomarem pé, medi­rem a situação e ajuizarem do esforço necessário para aquelas empresas. Tais intenções constam de instruções verbais dadas no momento do em­barque pelo próprio regente a lord Strangford, a fim de serem transmiti­das para Londres a D. Domingos de Souza Coutinho. Os papéis confiden­ciais deixados pelo embaixador não permitem dúvidas sobre isso.347

Assim, numa carta ao príncipe regente de 15 de janeiro de 1808, dizia D. Domingos depois de se referir ao empréstimo de 600.000 libras que Por­tugal desejava que a Inglaterra lhe fizesse, e também à restituição da pro­priedade portuguesa confiscada ou apresada quando por um momento estiveram rotas as relações entre os dois países, e que logo foi devolvida aos interessados que estavam fora do reino, ou no caso contrário deposi­tado o seu valor no Banco da Inglaterra, à espera da repulsa dos invaso­res, a fim de escapar à cobiça francesa, pejada de imposições: …"parece-me pelo que me disse lord Strangford que V. A. R. não pode deixar de desejar que a cidade e fortificações de Caiena sejam destruídas, de modo tal que ainda no caso da restituição da Guiana pelo tratado de paz, tenha a França que principiar tudo de novo o estabelecimento de uma colônia que por felicidade para V. A. Real nunca pôde prosperar, e que só uma vez custou a França o sacrifício de 30 milhões de libras e de 13 mil pessoas que para lá mandou no ano de 1763".

A conquista de Caiena estava, pelo que se vê, projetada desde a mu­dança da corte e na forma por que logo depois se realizou, pelas armas combinadas de Portugal e da Inglaterra: pouco importa para o caso de quem partiu a iniciativa do projeto. Da mesma carta resulta que espanhóis de Buenos Aires, onde a fermentação já começava, tinham pedido ao em­baixador português em Londres para rogar ao governo britânico que não mandasse mais navios, nem de guerra nem mercantes, ao rio do Prata, a fim de não acirrar a animosidade suscitada contra os ingleses pelos acon­tecimentos de 1806 e 1807.

A Espanha estava ainda oficialmente de mãos dadas com a França, portanto no campo oposto à Portugal e à Inglaterra. Podia porém o blo­queio, originado nessa situação, ser feito por ordem do governo portu­guês e com navios portugueses: "na inteligência e esperança bem fundada que sendo este bloqueio nominal, V. A. Real permitirá aos espanhóis do rio da Prata de vir com bandeira portuguesa traficar no porto ou portos que for servido determinar no Brasil, e por este modo as fazendas ingle­sas teriam venda, e V. A. Real acostumaria aqueles vizinhos a reconhecer a sua proteção, e talvez a vassalagem porque suspiram".348

Ao governo inglês agradava muito esse plano que redundava em alargar-se a expansão mercantil britânica, favorecendo por conseguinte os interesses dos seus súditos. É claro que a aplicação da idéia pressupunha a franquia dos portos brasileiros às exportações da Inglaterra: nem seria possível conservar o Brasil trancado aos ingleses. Os contrabandistas não esperariam que ele se abrisse oficialmente para o invadirem aos bandos, e desta forma melhor era abri-lo espontaneamente, apurando o fisco os direitos bem vindos para um erário depauperado. "Ser-me-á impossível, Senhor, e até mesmo ao governo inglês coibir os especuladores ingleses dentro dos limites que devem a autoridade real, e a conservação da Mari­nha Mercante dos Súditos do Brasil se V. A. Real não facilitar a admissão de alguns dos gêneros que antes eram de contrabando — principalmente os algodões."349

O bloqueio que se sugeria para o rio da Prata, dado mesmo que não fosse nominal, não equivalia forçosamente à guerra declarada à Espanha. Ignorante por certo da mísera situação militar da colônia, entendia D. Do­mingos que as tropas portuguesas do Brasil podiam até "da parte do Rio Grande e de Mato Grosso entrar, e estender-se como se achar conveniente até o rio da Prata, e até as minas do Potosi, publicando as mesmas proclamações de não cometer hostilidades que o general Junot, e o marquês del Socorro publicaram entrando em Portugal na frente de franceses e de espanhóis, e este equivalente sem declaração de guerra será o penhor mais seguro do respeito que se terá ao seu reino, e aos seus vassalos da Euro­pa".350

Porque pelo fato de ser transferida a sede do trono para o Brasil, não se seguia que devesse correr à revelia a sorte do velho reino. D. Domingos andava encarregado de atender com o maior cuidado a que, na paz sem­pre iminente, se não deixasse de incluir a restituição de Portugal à sua di­nastia, e até de pedir que, mesmo durante a ocupação francesa, Lisboa não sofresse bloqueio inglês, evitando-se aos habitantes da capital, muito embora a primeira junta de regência obedecesse servilmente a Junot, os tormentos da fome.

Portugal andava naquele tempo feito roupa de franceses, mas era pre­ciso tomar as cautelas devidas para que não virasse também roupa de in­gleses, cuja política nunca passou pela sensaboria de ser tachada de al­truísta. Nem podia Portugal descansar cegamente na lealdade do país seu aliado. Por ocasião da convenção de Cintra, que, como é sabido, excitou pelos seus termos vergonhosos para os vencedores a maior celeuma na Inglaterra, tendo Junot, apesar de sem recursos para resistir, capitulado com todas as honras de guerra e vantagens possíveis numa rendição, rumorejou-se que aos ingleses cabia a culpa da sua posição não ser indiscutivelmente superior, como alegavam os que tinham concedido aquela convenção. Disse-se que os ingleses estavam na sua marcha para o sul, deixando propositalmente atrás os portugueses e retardando a entrega das armas que lhes deviam ser fornecidas, no intuito de apressarem a tomada de Lisboa, efetuarem-na sós e venderem caro a sua conquista ao príncipe regente, escambando-a por favores comerciais no Brasil, cessão de algumas ilhas como a Madeira, da qual se tinham chegado a apossar no curto tempo das hostilidades, e Santa Catarina etc.351

Não seria contudo lógico que, pretendendo iniciar justamente na Amé­rica do Sul uma política imperialista, fosse o governo de Dom João con­cordar em ceder terras brasileiras à Grã-Bretanha. O embaixador Souza Coutinho que, segundo o prova a sua correspondência secreta, tratou o mais que pode de obter melhores termos para o tratado de 1810, cujos de­feitos bem reconhecia, achando porém impraticável alcançar outros ter­mos, dadas a situação muito crítica então de Portugal, onde continuavam a dar-se invasões francesas, e a notória debilidade militar do Brasil, inca­paz de sérios esforços mesmo defensivos enquanto se não verificasse me­lhoria,352 logrou ainda assim preservar para o seu soberano o domínio da ilha de Santa Catarina, que a Inglaterra cobiçava.353

Os desígnios da Inglaterra sobre o sul do continente meridional mantiveram-se aliás mais ou menos claramente, pode dizer-se que até a in­dependência política dessas regiões. Santa Catarina no Brasil parece ter si­do um ponto preferido de mira, e tanto se estava no Rio de Janeiro geral­mente convencido disso que alguns pensavam a princípio ser a organização da expedição de 1816 não contra Montevidéu, mas destinada a defender ali a integridade do Reino. Marrocos escrevia a propósito ao pai:354 "Agora es­tá entrando o comboio, que traz a última tropa de Lisboa, que me dizem ser de dez embarcações; e todos esperam que eles se portem tão bem, como os outros. Foi admirável o pretexto, com que se mandou vir este socorro do nosso exército de Portugal, que todos julgavam ser o destino da guerra do sul; mas tudo foi urdido em segredo por causa dos ingleses. O destino ver­dadeiro (segundo me tem chegado a idéia) de toda esta tropa é guarnecer e fortificar magistralmente a nossa ilha de Santa Catarina, que por sua si­tuação vantajosa, grandeza e mais circunstâncias há muito que tem sido o ponto fixo das pretensões da Inglaterra, em questão da sua posse; para te­rem neste lugar do mundo também seu palmo de terra para estenderem e conservarem perpetuamente o seu comércio, e talvez para outros fins, que eu ignoro. A política do nosso ministério neste ponto tem sido assaz subli­me, assim como o foi o casamento das Sras. infantas."

A elevação do Brasil a reino, além de ser uma afirmação solene da sua integridade territorial, foi a derivação lógica e a conseqüência neces­sária de um estado de coisas criado por circunstâncias fortuitas, mas não menos imperiosas. Em primeiro lugar era impossível esquecer mais que um momento houvera, já passado felizmente porém bem assinalado, em que o Brasil fora a tábua de salvação da dinastia portuguesa, a âncora da monarquia batida pelas tempestades, que permitiu ao baixei desman­telado dar fundo e ver raiar no horizonte uma luz tão esperançosa que até lhe descobria uma perspectiva gloriosa.355

A mesma consideração que presentemente se impõe ao historiador ou ao simples observador do período histórico a que Dom João VI presi­diu, com muito mais intervenção pessoal do que se poderia à primeira vista esperar do seu temperamento apático, plena responsabilidade das decisões tornadas e perfeita consciência da trajetória percorrida, deviam tê-la feito os homens de estado de então: se Portugal, como tudo fazia crer em 1807, ficasse absorvido no sistema napoleônico, a Casa de Bragança não desa­pareceria como contingente dinástico, nem desapareceria a coroa portu­guesa, continuando a vicejar, além-mar, a velha monarquia européia; e com ela se perpetuava a vida independente da nacionalidade avassalada.

Num período de um dos ofícios de Rodrigo Navarro de Andrade, en­carregado de negócios de Portugal em São Petersburgo, quando se deu a trasladação da corte de Lisboa para o Rio de Janeiro, encontra-se , em incolor linguagem oficial, a viva fórmula diplomática da operação. "Apro­veito esta ocasião de portador seguro, para pedir a V. Ex? instruções even­tuais sobre o que deverei praticar, quando aconteça que a França, seguin­do o sistema que tem manifestado, disponha provisionalmente, ou de qual­quer outro modo, de Portugal, antes da paz geral; e que participando à Rússia uma tal disposição, esta corte, em razão das suas íntimas relações com a França, tenha alguma dificuldade em reconhecer-me como encar­regado de negócios do príncipe regente de Portugal N. S. posto que ne­nhuma terá em reconhecer-me e considerar-me como e. de negócios de S. A. R. o p. regente do Brasil."356

É preciso notar que este ofício era escrito depois de Tilsitt, quando a Rússia estava em guerra com a Inglaterra, sendo defesa a entrada nos portos russos de navios, mesmo de nações amigas e sem mercadorias., vindos de portos ingleses, e proibida toda exportação para Inglaterra. O czar enfeudara-se à França, sendo o embaixador de Napoleão tratado em São Petersburgo com deferências quase tão especiais como as que o rei de Túnis pode hoje reservar para o residente francês. Com Portu­gal, apesar da guerra do Reino com a França, não havia rompimento por parte da Rússia e, se bem que não pudessem ser cordiais as rela­ções, mantinham-se num pé de correção, igualmente persistindo em tese as relações mercantis.

O representante português possuía entretanto direito de queixar-se: como repetidamente o fez ao conde de Romanzoff, ministro dos negócios estrangeiros do czar, de não haver a Rússia obstado, como lhe teria sido possível, à invasão de Portugal, e de não querer naquele momento mesmo tomar o compromisso de assumir na paz geral a garantia dos estados da coroa de Portugal, segundo os termos do tratado vigente de aliança de 1799; nem sequer anuir a abrir os portos russos ao comércio português — somente ao comércio brasileiro — enquanto fosse o reino teatro de guer­ra entre a França e a Grã-Bretanha. Navarro de Andrade mais insistia nas suas reclamações por ver que a harmonia com a França era antipática ac sentimento geral da nação russa, bem entendido da parte mínima dela que contava em matéria de opinião. Essa harmonia aliás determinou a guerra russa contra a Suécia e sustentou-se durante a campanha francesa contra a Áustria, que culminou em Wagram, mas fizeram-na logo estremecer a fidelidade jurada pela Galícia a Napoleão e os intentos emprestados ao Imperador dos franceses de restaurar o reino da Polônia, surgindo por fim, como é sabido, das desconfianças a discórdia.

Não foi portanto a elevação do Brasil a Reino mais do que a consa­gração de um fato consumado, a legitimação de uma situação a que não havia fugir. Quando mesmo Palmela não tivesse astuciosamente posto es­ta sugestão na boca de Talleyrand, fatalmente acudiria ela a um homem como Barca, com quem o instinto público associou desde logo a resolu­ção real, indicando-o como seu inspirador e assim firmando uma tradi­ção que nada mais abalaria porque corresponde plenamente à intenção, que em caso tal é quase lícito que prime a realidade.

Barca não podia deixar de ser o primeiro partidário da elevação de categoria da colônia que a corte escolhera para sua residência temporária — quiçá definitiva — e de onde estava derivando a monarquia lusitana segurança e grandeza. Tanto assim sucedia com Barca que, quando ele fa­leceu, Rocha Loureiro, o redator do atrevido Português de Londres, compendiou o modo de pensar do político sob o título de "sistema pródigo de destruir Portugal para aumentar o Brasil".

Não valeria a pena ser um homem de valor excepcional no meio cor-tesão do Rio para não enxergar distintamente a situação nacional. E tal confiança inspirava a Dom João o talento diplomático de Barca que lhe entregou, apesar de estar Aguiar encarregado da pasta de estrangeiros, o preparo das importantes instruções para os plenipotenciários ao Congres­so de Viena.

Da sua larga e variada cultura dão testemunho simultâneo e inequí­voco os seus contemporâneos, a sua nomeada e as suas predileções quan­do não as suas produções, porque além da prodigalidade mental de fidalgo artista, Barca teve sempre a saúde franzina e depressa ficou valetudinário: chegou aos 63 anos graças às cautelas com que vivia, sendo de resto freqüente o regime prolongar inesperadamente a existência de doentes. Por­ventura um diletante, diletante em todo caso de gênio, ninguém contudo

foi mais verdadeiramente estudioso, mais profissionalmente amigo da leitura do que ele: igualmente dado às letras, às artes, à história e às ciências naturais, cujo curso começara em Coimbra e concluiu, mais prática e proveitosamente do que na universidade, no seu laboratório de químico, onde procedeu a numerosas experiências de alcance utilitário, e no seu viveiro de  horticultor, onde reuniu 1.200 a 1.400 pés de plantas indígenas e exóticas, das quais organizou um catálogo tão meticuloso quanto o das suas magníficas coleções bibliográfica e iconográfica, reunidas em demoradas viagens.357

Barca passou fora de Portugal muitos anos da sua vida européia. Em Lisboa pode dizer:se que foi onde menos viveu, porque a sua primeira mocidade correspondeu a uma residência provinciana, sã e, o que mais difícil é, inteligente, no lugar de que era natural. Aí, em Ponte de Lima, preten­deu, muito novo ainda, desenvolver a cultura do bicho para fabrico dos tecidos de seda, dividindo o tempo entre assuntos econômicos e os bons autores que foram o seu constante enlevo.

Em 1789 foi como ministro para a Haia, onde continuou a estudar e aprender e, o que era lógico na terra de Rembrandt e de Hobbema, adi­cionou aos seus gostos o das artes, do qual se aproveitaria o Brasil, com a fundação da Academia e Belas-Artes e importação da colônia de artis­tas franceses.

Em seguida à sua conhecida e acidentada missão diplomática em Pa­ris junto ao Diretório, e à anexação à Francesa das Províncias Batavas, andou Antônio de Araújo dois anos a viajar pela Alemanha na companhia do seu amigo e secretário de legação Silvestre Pinheiro Ferrei­ra, aumentando os seus conhecimentos literários e científicos, especial­mente químicos e botânicos, e alargando o seu círculo de relações de cortes e academias. Ainda foi ministro na Rússia (1802), percorrendo a Dina-marca e a Suécia, até o chamar o príncipe regente em 1804 para ministro dos negócios estrangeiros e da guerra, e depois cumulativamente, do reino, cargos que exerceu por três anos, perdendo-os com a invasão francesa, da qual quiseram os inimigos, D. Rodrigo de Souza Coutinho à frente, torná-lo responsável, denunciando-o como nimiamente afeiçoado às idéias liberais, que o império simbolizava.

Dom João VI teve sempre o excelente e raro costume entre soberanos, expressão de sua natureza generosa, de não repudiar os servidores leais e de merecimento pelo fato de serem acusados pela opinião ou perseguidos por adversários. O ostracismo a que a ascensão do partida inglês condenou Araújo, não o fez exilar do Conselho d’Estado, a cujas sessões continuou a assistir, nem o privou de receber grã-cruzes e outras demonstrações honoríficas da estima regia, culminadas pela mercê do título. De 1808 a 1814 o afastamento do poder deu-lhe porém seis anos de lazer político, que outros não tiveram a dita de possuir e que ele empregou no aprofundar seu vasto, quase enciclopédico saber, interessar se pela indústria da serraria, fabrico da louça e outras muitas manufaturas, fundar sociedades, mandar fabricar modelos industriais, propagar o ensino e disseminar o amor das coisas úteis ao progresso nacional.358

Como nunca cessou de ter veleidades de praticar as letras, ao mesmo tempo que fazia diplomacia ou indústria, traduzia odes de Dryden, hinos, odes e elegias de Gray, e até odes de Horácio numa versão que Filinto Elisio, seu pensionista, comensal e amigo, a quem albergou carinhosamente na Ho­landa, achava culposa dê’ ‘versos engoiados e língua d’etiqueta”, o que abona a independência de estômago do crítico; defendia Camões contra La Har-pe, e editava opúsculos políticos. Tudo isto fazia sem ruído e sem ostenta­ção. Homem de sociedade, português algum do seu tempo o foi de mais fi­no quilate, com seu perfume afrancesado; nem mesmo Palmela, cujos hábi­tos e gostos eram mais ingleses.

Falava fluentemente as línguas francesa, inglesa e italiana; tinha rela­ções nas melhores rodas dos centros cultos, rodas aristocráticas e rodas intelectuais; usava amplamente dos dons de trato ameno e engraçado, me­recendo que a duquesa d’Abrantes fixasse nas recordações que escreveu a impressão do seu olhar esperto e espirituoso e da sua inteligência encan­tadora (sonpetit o eilgris noir, malin et spirituel, et son charmant esprit). Indolente no agitar-se pelas coisas públicas, o inverso de D. Rodrigo, essa espécie de indiferença cética mais do que sobranceira realçava a sua natu­ral distinção, que tudo nele contribuía para modelar, porque era instruído sem ser pedante, sagaz sem ser velhaco, mecenas sem se dar ares de prote­tor, antes aspirando a pertencer à grei profissional.

Luxemburgo, que não votava simpatia a Barca porque o culpava de ter que regressar com a pasta de embaixador vazia, quando de tão longe viera, não podendo negar-lhe o bem conhecido merecimento, vingava-se em escrever que achara bastante mudadas "as idéias que na Europa lhe valeram uma reputação de homem de espírito e de luzes". Descrevia o en­viado de Luiz XVIII o ministro de estrangeiros de Dom João VI como rodeado de intrigantes e subalternos de que fosse o joguete. "A doença que acaba de padecer, enfraquecendo suas faculdades, apenas lhe deixou a paixão de intrometer-se em todas as questões, e como nem mais pode assinar papéis, parece somente empenhado em impedir seu colega de con­cluir negócios que com pesar vê colocados fora de suas atribuições."359 Quando mesmo fosse verdade, e o quadro é traiçoeiro porque Debret e outros descrevem diversamente a agonia plácida do esmerado diletante, o triste declínio não excluiria o meio-dia brilhante que teve o colaborador de Dom João VI na emancipação escrita do Brasil.

A elevação da colônia a reino obedeceu também, entre seus motivos complexos, de sugestão e de aceitação, à idéia de pôr obstáculo ao des­contentamento que mesmo no Brasil já se estava formando. As capitanias do norte queixavam-se por exemplo, ou melhor, nelas se queixaram alguns dos espíritos que entravam a nutrir aspirações e manifestar opiniões, de que a residência brasileira da corte podia ser uma honra, mas trazia àquelas terras encargos adicionais (additional burdens, escreve Armitage), sem que colhessem comparativamente as vantagens conferidas à metró­pole brasileira pela permanência da família real.

A tal estado de espírito não seria dentro em pouco alheio o movi­mento pernambucano de 1817, gerado nas sociedades secretas que passa­ram a funcionar no Brasil, e do qual foi outro elemento importante o im­pulso português no intuito de determinar pelo ressentimento o regresso de Dom João. Em Portugal o azedume acelerara o seu curso com a equi­paração política, tão a propósito aplicada para estimular o orgulho dos brasileiros e distrair sua atenção de algumas vexações existentes, e que con­tribuíam conjuntamente para o descontentamento nacional que Mrs. Gra­nam faz remontar tão longe como 1813. A viajante inglesa recorda que, apesar das exações e mercê justamente das irregularidades em cada depar­tamento, estavam por pagar muitos dos salários dos funcionários civis e militares e tinham sido mandados regressar para suas províncias vários empregados que, pelo tempo da revolução pernambucana, tinham ido ao Rio de Janeiro representar sobre as injustiças públicas {to remonstrate on public wrongs).

As festas que a elevação da colônia determinou no Rio foram motivo de vaidosa exaltação para os brasileiros e de rancoroso despeito para os portugueses. Marrocos, português dos quatro costados, buscava achinca­lhá-las num parágrafo típico de uma de suas cartas:360 "Pelas Gazetas que ultimamente remeti a V. Mcê, lhe será constante o brado, que aqui se ou­viu, pela elevação destes estados a reino, incorporando-se paralelamente aos de Portugal e Algarves; e as funções que houveram por este motivo. O Senado, que em tudo se quer distinguir, em tudo dá a conhecer que é o Senado do Brasil; e por isso fez a função mais porca, que eu não espe­rava ver. Em despique a mesquinhez do Senado, o corpo do comércio, to­do basofia, reserva para depois da Páscoa a sua função, alusiva ao mes­mo objeto, e em que prometem o maior aparato e grandeza, a imitação das Festas Reais de Lisboa, para o que já se acha atualmente em cofre de depósito mais de 100 contos de réis, finta que se vai recebendo de to­dos os Negociantes para aquele fim. Quanto a mim, o extremo também é vício."

A elevação do Brasil a reino foi ainda uma hábil e eloqüente resposta de Dom João VI às instâncias feitas pelas potências coligadas para que. cimentada a paz geral, regressasse a corte para Portugal — uma resolução que ao príncipe regente repugnava tomar e provocara cisão no seu gabine­te, onde Barca opinava pelo Brasil e por Portugal o velho Aguiar, advoga­do tão convencido de tudo quanto prolongasse o sistema antigo do gover­no que merecia ser retratado para Londres sob os seguintes traços: "Ele considera o povo em geral formado para uso da família real, e da nobre­za; e, ainda que lhe custasse a vida, ele não faria uma cortesia, para res­ponder ao homem não nobre, que o tivesse saudado."361

Segundo se depreende da correspondência pública por ordem da Ca­sa dos Comuns a 12 de março de 1817, teria Dom João em 1814 pensado um instante em voltar para Portugal, chegando a falar na conveniência de ser outra vez escoltada a esquadra portuguesa pela britânica ao minis­tro Strangford, que imediatamente o comunicou para Londres, pelo que pediu lord Bathurst os necessários navios de guerra aos lords do Almiran-tado. Haveria, porém, mudado logo de resolução ou melhor de projeto, decerto apoiando sua preferência na opinião de Barca, indo muito embo­ra contra o pensar da quase totalidade da corte.

Em maio de 1815 já lord Castlereagh deixava perceber suspeita dessa mudança em despacho a Mr. Canning, o qual aceitara o cargo de ministro e futuro embaixador em Lisboa na persuasão de que o príncipe regente aban­donava o Brasil. Em junho era a deliberação de ficar conhecida como defi­nitiva, e pouco depois voltava só a esquadra de três embarcações comanda­da por sir John Beresford e que obedecera ao chamado de lord Strangford. O chamado fora sem dúvida precipitado, tendo Strangford convertido nu­ma intenção assente do príncipe regente o que não passava do seu próprio desejo e alvitre, pois que a informação do Foreign Office para a Casa dos Comuns rezava que o embaixador português em Londres, partidário como era do regresso, não fizera comunicação alguma por escrito sobre tal objeto.

Pela troca de notas entre lord Strangford e o marquês de Aguiar, mais tarde publicadas, se vê que o representante britânico procedeu efetivamente com leviandade no negócio. Mandou dizer para Londres que o príncipe regente ambicionava muito voltar, quando Dom João apenas lhe havia vaga e matreiramente dito que o levaria a cabo, sempre que as circunstâncias lhe permitissem.

A ida da esquadra britânica ao Rio, a qual escrevera Strangford ao seu chefe ser do agrado do príncipe regente, não passou de outra impru­dência ditada pelo singular empenho do diplomata estrangeiro "em re­compensar os valorosos vassalos portugueses do príncipe, por tudo quan­to tinham sofrido na sua ausência, com o maior benefício, que lhes podia S. A. R. fazer, isto é, com a presença do seu adorado soberano".362

Na nota de 2 de janeiro de 1815 teve Strangford que se explicar com o governo português a respeito da falada e, segundo suas palavras, solici­tada proteção dos navios ingleses: "O objetivo da expedição do cavalhei­ro Beresford não tem outro fim, senão o de facilitar a S. A. R. os meios de acelerar a sua partida deste país, no caso que julgue conveniente servir-se dela. Nem em caso algum ela se deve considerar como uma escolta para proteger a Pessoa sagrada de S. A. R.; porque seus próprios navios pode­riam amplamente exercer este honroso emprego.” Respondendo anterior­mente a uma pergunta de elucidação da parte do gabinete português, já Strangford se vira forçado a declarar "que não tinha avisado coisa algu­ma positiva a respeito do regresso do príncipe, mas unicamente participa­ra por várias vezes os desejos, que S. A. R. manifestara de voltar a Portugal"363

Não querendo insistir muito no assunto para não parecer que procu­rava torna intolerável a incômoda posição do diplomata britânico, o mar­quês de Aguiar inseria todavia os seguintes maliciosos dizeres na sua nota de 15 de janeiro: "E ainda que, em data de 3 de novembro, comunicou a esta Corte o conde de Funchal, que em conversação com Mr. Canning este lhe dissera, que tinha lido o despacho formal em que S. Exª lord Strangford pedia a imediata partida da esquadra inglesa, S. A. R. apesar desta contradição, e de haver grande diferença entre a expressão de seus desejos, e a declaração da época, em que lhe convém cumpri-los, se per­suade que houvera algum mal entendido, de onde resultou esta acelerada determinação."

O ministro de estrangeiros de Dom João aproveitava a ocasião para oficialmente justificar a atitude do seu príncipe, com as seguintes vagas explicações e asserções: "A medida que as forças combinadas das outras potências da Europa contribuíam com as de S. A. R., para debelar as do inimigo, se lisonjeava o mesmo senhor progressivamente de se aproximar daquela feliz época, em que satisfizesse os seus verdadeiros desejos, de patentear com a sua real presença o seu afeto paternal e a justa gratidão, de que o seu ânimo está ocupado, para com tão beneméritos vassalos. Ape­sar destes constantes sentimentos, tão naturais ao coração de S. A. R. ten­de resolvido deferir por algum tempo a sua retirada para Portugal, per­suadido de que esta determinação é não somente útil e indispensável para o bem geral da monarquia, de que a Providência lhe confiou a direção, mas muito particularmente o é para os interesses dos seus vassalos em Por­tugal, o que certamente eles hão de reconhecer, em conseqüência das pro­vidências, que S. A. R. houver de dar, seja para a segurança, seja para a ligação de interesses entre os estados, que constituem a mesma monar­quia. Entretanto espera o mesmo senhor a tranqüilidade do mundo, extingüindo-se o resto das dissenções produzidas por uma revolução, cu­jos horrorosos efeitos não têm paralelo na história humana."

Estas afirmações pronunciadas a contra-gosto pelo ancião a quem sorria a idéia de ir morrer em Portugal, nada importavam afinal a não ser delas se poder com bastante segurança concluir que era intenção de Dom João não voltar para a Europa. As cartas de Marrocos representam um documento precioso na sua sinceridade e confiança para ajuizarmos do estado da alma da roda portuguesa do príncipe regente, no tocante ao anunciado regresso da corte, dos diferentes estádios do projeto, e da dissi­mulação com que, conhecendo aquelas disposições, procedeu Dom João em todo o negócio.

Já em 1812, liberto o velho reino da última invasão francesa e empalidecida a estrela napoleônica na Península, se falava no regresso como iminente e ao mesmo tempo problemático. A carta de Marrocos de 17 de novembro assim se exprime a respeito: "Tem-se espalhado aqui a notícia de que cedo vamos para Lisboa; mas este cedo não pode ser menos que daqui a dois anos: algumas embarcações estão se atamancando, para po­derem navegar para a Bahia, a fim de se aprontarem; entre elas a fragata Carlota. Estas vozes vulgares tem seus fundamentos, mas quem sabe a cer­teza deste destino cala-se; S. A. R. mesmo ouve que se quebram as cabe­ças com os cálculos, que se formam, e deixa-os nos seus desatinos: entre­tanto posso assegurar a V. Mcê. que o barão do Rio Seco está edificando um soberbo Palácio no Largo dos Ciganos, onde é o Pelourinho; e outras pessoas mais vão criando raízes muito fortes neste país."

Em 1814 as esperanças pareciam ter diminuído muito. "Sobre o pon­to essencial, em que aí tanto se ventila, da ida da família real para esse reino, devo dizer a V. Mcê. para fazer calar os que falam; que aqui nunca se pensou menos nessa matéria do que agora. Deixe gritar quem quiser ao contrário, e deixe vir propostas dos governadores do reino; porque aí aão hão de sabê-lo mais depressa, do que eu aqui: e enquanto V.Mcê. não tiver participação minha clara e desenganada, não acredite ninguém que afirme o contrário."364

Tal desânimo coincidia porém com os esforços de Strangford junto ao regente, pois que muito poucos dias depois,365 deles tratava desenvolvidamente Marrocos: "A respeito da súplica dos governadores do reino para que S. A. R. se recolha ao reino, é tudo aqui notório e patente, e por isso não há nisso segredo; e eu acrescento que Strangford teve há tempos uma audiência pública de S. A. R. perante toda a corte, por ordem do governo britânico, a fim de ler uma carta do príncipe regente de Inglaterra a S. A. R., em que lhe manifestava que, havendo sido o gover­no inglês censurado de algumas cortes, por haver sido a causa do incô­modo geral da família real portuguesa, e de toda a nação, pela separação repentina e tão amarga do seu soberano para os estados do Brasil, era isto ao contrário de muita satisfação ao governo inglês, por salvar seu primeiro aliado e amigo das garras francesas. E para complemento desta obra desejava concorrer também para a sua restituição ao reino, visto que as coisas da Península estavam seguras e permanentes para o future por conseqüência convidava a S. A. R. e a sua corte para quando e como intentasse recolher-se ao reino; e para esse fim mandaria aprontar a esquadra competente que S. A. R. pretendesse, com os transportei necessários para de uma vez conduzir-se tudo o que fosse relativo a Casa R. e que ficava ao arbítrio de S. A. R. escolher dos almirante; Ingleses aquele que mais lhe agradasse, a não querer o mesmo Sidney Smith que a conduziu aqui.

Além desta carta, depois dos agradecimentos e parabéns recíprocos advertiu Strangford que seria bom aprontarem-se as embarcações de guerra portuguesas, para nelas se transportarem as pessoas reais e a sua corte porque a esquadra inglesa se destinava ao estado e acompanhamento

Ignora-se qual foi a resposta de S. A. R. a isto tudo: mas há todo o fundamento para se julgar, que menos que as coisas da França não estejam em estado de pacificação, Luiz XVIII e Fernando VII nos seus tro­nos, e o Santo Padre na sua cadeira, não se resolva S. A. R. a recolher-se ao reino, mesmo até por obséquio político. De nada disto há certeza, e| só há de não se mexer ainda em coisa alguma e estar tudo em um letargo e silêncio profundo: pelo que ainda se afirma persistirmos aqui estes 3 em 4 anos próximos: Deixo de referir fatos particulares, que confirmam esta opinião, por serem de mais segredo, e só digo que este descanso combina com a obra do Palácio da Ajuda: e quem afirmar agora o contrário, anathema sit."

No Rio de Janeiro, pelo contrário, a progressão de muitas obrai zia supor desígnios de demora. "Antônio de Araújo está com grandes o<: nas suas casas, que lhe levarão uns poucos meses.366 O conde de Cav~ ros há poucos dias comprou umas boas casas com sua chacra. Tudo o está em sossego ou antes mortuório, que denota muito longa perma cia neste país, e quase que há proibição política de falar-se na ida Lisboa: Deus sabe quando será."367

Outros muitos indícios levavam a crer na permanência da corte. ‘ ‘Es­tá para sair a curveta Voador, com.Antônio de Saldanha, veador de S. A. R. a senhora princesa Dona Carlota, e que foi governador no Maranhão e em Angola; afirma-se que vai a Inglaterra com comissão particular, que até hoje se ignora368 e de lá passa a França e a Itália e dali retornará para aqui… O secretário do Núncio vai neste Navio Vitória para Lisboa; e daí vai pelo Mediterrâneo a Nápoles para passar-se a Roma a cumprimentar o Santo Padre, e receber as suas ordens, e dali retornará para aqui."369

Para fins de 1814 cresciam as esperanças dos que almejavam pela vol­ta para Portugal. A carta de Marrocos, de 1? de novembro, assim se ex­pande em considerações que seriam de todo jubilosas, se a continuada re­serva do príncipe regente e algumas outras circunstâncias não fossem de natureza a esfriar-lhes o entusiasmo. "Quanto a novidades, a que eu, co­mo povo, possa chegar, devo dizer a V. Mcê. que vai a nascer uma fermen­tação oculta, que solapadamente vai minando em preparativos da nossa ida para Lisboa: no Arsenal da Marinha trabalha-se em aprestos para as embarcações de guerra; estas estão se concertando e aparelhando; dos di­ferentes portos deste Estado têm chegado aqui várias embarcações com 40 oficiais de machado para ajudarem os poucos que aqui há; tem-se com­prado bom número de pipas para a Ribeira, e há um edital para se com­prarem quantas aparecerem; ouvi dizer que manda prender gente para marinhagem aqui, e por todos estes portos, Lisboa, e ilhas, de onde também virão todas as embarcações, que não tiverem já carga e destino; que de Inglaterra vem todos os marinheiros portugueses que ali serviam, e a quem ali agora se lhes dá baixa. Entretanto no Público não há nada de novo: S. A. R. não fala, nem consente que se fale nisso; e é essa a razão por que ninguém se prepara nem cuida em tal. Uns dizem que a 17 de dezem­bro é que vem a publicar-se nossa retirada, e que esta se verifica para mar­ço; outros que para todo o ano futuro; outros finalmente afirmam que esta se não efetua, enquanto for viva S. Majestade, ou enquanto se não preencher o tempo deste último tratado com a Inglaterra. Daqui pode V. Mcê. concluir o quanto ainda estamos às cegas neste ponto; pois vemos continuar grandes obras e grandes despesas; no sítio de Andrahy (21/2 léguas distante desta cidade) se está preparado um bom palácio, com 50 oficiais, para a senhora princesa D. Carlota ir ali residir, e deixar o sítio de Botafogo. Na Livraria continuam as obras com o mesmo vigor…"

Não é de estranhar que em 1815 houvesse reaparecido o desânimo. "A respeito da nossa ida para Lisboa, vem a ser uma questão como a Seita dos Sebastianistas: Dizes que aí se está preparando o Palácio da Ajuda, para a família real, quando para aí for. Também te digo que aqui se está preparando o Palácio de S. Cristóvão, e aumentando-se com mais da me­tade, para nele vir a assistir para o futuro, em tempo de verão, toda a fa­mília real; e acabado ele, vai a fazer-se o mesmo trabalho de aumento no Palácio de Santa Cruz, distante daqui 14 léguas, para toda a família real vir a acomodar-se ali nas suas jornadas anuais de fevereiro, julho e no­vembro. Além disso, já se mandaram examinar os caminhos daqui para a cidade de S. Paulo; pois tem havido lembranças de se ir estabelecer a corte para ali, em razão dos bons ares serem semelhantes aos de Portugal. O concerto atual das nossas embarcações de guerra tem dado que falar a muita gente, tirando disso argumento para a breve saída da família real destas terras: prouvera a Deus que isso assim fosse! mas infelizmente não são ainda para esse destino: basta só que conheças que as coisas vão se pondo outra vez feias. Dá-me riso ou raiva, quando vejo dizer a algum tolo que quem fala deste modo é aquele que não tem vontade de ir a Lis­boa: ora quem sabe as coisas e não as pode dizer, por serem de segredo, ouvindo isto, ou se ri, ou lhe chama tolo; porque é a desforra que tem. À vista disto o melhor é ouvir e calar, porque este sistema não pode cau­sar dano a quem o usa."370

Justamente pelos dias em que Marrocos assim exprimia seu descon­solo, deixava o porto do Rio a esquadra britânica cuja gorada missão mo­tivou a retirada de Strangford simultaneamente: "Ontem é que saíram da­qui Strangford e o vice-almirante Beresford na nau destinada para S. A. R. ir daqui a Lisboa. S. A. R. ficou deles tão zangado e aborrecido, que, quando eles arribaram a primeira vez por falta de vento, foi logo para a Ilha do Governador, de onde não intentava vir, enquanto eles aqui se de­morassem, para os não ver mais."371

Não se pode descrever mais concisa e cabalmente o mau humor que em Dom João havia provocado a insistência inglesa, sem consideração pela sua repugnância ao projeto de abandonar a nova sede da monarquia. Strangford tinha-se aliás tornado mal-visto do príncipe regente, muito cioso de fato das suas prerrogativas, pela constante ingerência que pretendia exer­cer em assuntos de pura administração e até na escolha do alto pessoal governativo. Diz-se por exemplo que ele fez decidida oposição à última entrada de Barca no ministério, ainda que esta increpação ao diplomata esteja de algum modo em desacordo com um episódio narrado pelo pró­prio Barca em carta ao Dr. Abrantes e Castro, quando retirado em Lisboa e desavindo com Vicente Nolasco o antigo redator do Investigador Por­tuguês.

A propósito da sua conhecida rixa com os Souzas, refere Barca com sua habitual tolerância que "pouco tempo antes da morte do conde de Linhares, tinha lord Strangford disposto uma entrevista em sua casa entre mim e ele para nos explicarmos, e nela fazia eu tenção de lhe mostrar por cartas que conservo do duque de Serra Capriola, ministro de Nápoles em Petersburgo, quanto era falso, que eu movesse aquela corte para não rece­ber D. José Maria;372 a causa não foi outra senão sua mulher,373 como era fácil de ver; tentei eu mesmo particularmente saber se o receberiam em Viena, e a resposta foi a mesma".374

Seja como for com relação ao episódio da chamada de Barca aos con­selhos da coroa, é corrente que Dom João fez queixa ao príncipe regente da Grã-Bretanha do seu representante no Rio de Janeiro, parecendo toda­via apócrifo o documento publicado por Mello Moraes375 como o dirigi­do pelo príncipe regente de Portugal: a linguagem mesma está longe de ser a de cartas dessa natureza. Tão cônscio estava contudo Strangford do desagrado em que incorrera e das circunstâncias todas da sua retirada, que recusou numa carta muito digna376 o mimo de doze barras de ouro que lhe foi mandado, como presente de estilo.

Strangford voltou para Inglaterra numa má situação diplomática: caíra em desfavor cá e lá, o que já era infortúnio completo, e para o cúmulo também dele se queixava ao mesmo tempo, e oficialmente o governo es­panhol. Um tanto extemporaneamente, mas decerto pela força do rifão de que atrás dos apedrejados correm as pedras, acusava-o uma nota de Fernan Nunez a lord Castlereagh, de 17 de julho de 1815, de haver feito retroceder três anos antes o socorro militar português desejado e solicita­do pela Espanha para sufocar a revolução platina, e que constituiria pon­to de origem e serviria de base para a nova intervenção, menos apetecida e menos reclamada.

Segundo a nota do embaixador da Espanha ao governo britânico, a retirada das tropas portuguesas a cuja marcha Strangford levantara obs­táculo, dera naquele tempo em resultado o cair Montevidéu nas mãos dos insurgentes, não podendo então a metrópole, no mais aceso da luta con­tra a dominação estrangeira, acudir à praça fiel, e também o estender-se daí o movimento separatista na direção do vice-reinado do Peru. Fernan Nunez chegava a classificar Strangford de "author of de numberless evils which the spanish government has suffered and is still suffering in that part of the world".377

O positivo é que a posição de Strangford se tornara pouco invejável. "Tenho razões suficientes para supor — escrevia Cipriano Ribeiro Freire ao marquês de Aguiar — que lord Strangford não esteja bem visto nesta corte e governo. Sei que faz" as maiores diligências para ser nomeado su­cessor de Mr. Liston, embaixador britânico em Constantinopla, no caso deste se retirar com licença como tem pedido, a fim de representar ou fa­zer ver em público, como declara, com esta sua nomeação imediata, nãc estar no desagrado do seu governo." E para não faltar à intriga pessoal tão freqüente na diplomacia, ajuntava o ministro português em Londres, que não esquecia as desfeitas do seu predecessor: "Entretanto, porém, des­de que chegou, com breve intervalo partiu para Cheltenham, aonde tem estado até a semana última na mais íntima amizade e confidência com o conde de Funchal."378

Strangford retomou serviço ativo um ano e meio depois, sendo no­meado para Estocolmo em março de 1817, quando foi nomeado ministre junto a Dom João VI o representante inglês na Suécia, Thornton, o qual veio mais tarde para Lisboa e recebeu o título de conde de Cacilhas por seus serviços na ocasião da Villafrancada e da fuga do monarca portu­guês para bordo da nau Windsor Castle. Até a chegada de Thornton exer­ceria uma longa interinidade de encarregado de negócios o cônsul-geral Chamberlain.379

Não era razoável que se prolongasse sobremaneira o ostracismo de um diplomata cujo valor era incontestável e cujos defeitos eram contras­tados por qualidades sólidas: aliás esses defeitos ou eram da natureza dos que na Inglaterra passam por pecados veniais, ou eqüivaliam a predica­dos positivos em certos postos e quando se representa uma nação que as circunstâncias tornaram protetora. A duquesa d’Abrantes, ao mencionar lord Strangford como primeiro secretário em Lisboa em 1805, ao tempe da embaixada de Junot, relembra os seus talentos literários, a sua tradu­ção de Camões, a sua miopia, a sua distração e especialmente a sua corte­sia e amabilidade, "sobretudo quando acontecia ser encontrado antes de jantar". Nada dizem as Memórias da sua impertinência e autoritarismo que mais tarde, em cargo superior e de própria responsabilidade, se te­riam desenvolvido.

No Rio de Janeiro Strangford viveu fidalgamente e ao mesmo tempe corretamente, como é comum entre os diplomatas ingleses. Não imitava, nem o seu colega americano, que comparecia a enterros e não a festas (Ma-ler só faz quase menção dele no funeral de Barca), nem o embaixador da Áustria por ocasião do casamento de Dom Pedro, Eltz, que pedia dinhei­ro emprestado a Dom João VI e o que é pior, ao partir e apesar de haver recebido do seu governo um milhão para pagar as contas da embaixada só restituiu 45 contos dos 60 tomados ao monarca: "de cette manière S. E. a conserve en partant Phonneur d’être debiteur du roy, de 15 contos de réis."380

Marrocos faz menção de uma das festas da legação inglesa:381 "No dia dos anos do príncipe regente da Inglaterra fez aqui o ministro da­quela corte, Mr. Strangford, uma função esplendíssima, consistindo esta em baile e ceia, a que foi toda a corte: para se prepararem salas competentes lançaram-se abaixo paredes divisórias interiores e além de ser espantoso e admirável o aparato, até desembarcou tropa da Marinha Inglesa para guarnecer por dentro e fora as suas casas, além da nossa infantaria e cavalaria. Não posso descrever a Função, que V. Mcê. pode­rá conjeturar em todas suas circunstâncias: a marquesa de Bellas foi a mestre sala das senhoras, Strangford o dos homens; e S. A. R., que então se achava em Santa Cruz, mandou dali o seu camarista, D. Mi­guel de Valadares, a cumprimentar Strangford por um tão plausível dia."

Se Strangford recobrou as boas graças do seu governo, não tardou por seu lado Dom João em felicitar-se da resolução tomada de mostrar sua preferência pela permanência no reino por ele, para esse fim entre outros, criado. A breve trecho chegavam com efeito ao Rio notícias do regresso da ilha d’Elba, que deviam ter robustecido no ânimo do príncipe regente o sentimento da própria segurança. "Ontem de noite entrou neste porto o paquete Inglês, que trouxe a infaustíssima notícia da entrada de Bonaparte em França, onde se diz que já fora segunda vez aclamado; e que Luiz XVIII apenas tivera tempo de escapar-se. Eu não sei se aqui há algum engano ou aumento da notícia; pois que ainda hoje ninguém podia contar o caso com individuação. O certo é que a nímia humanidade dos soberanos aliados, que destronizaram este mons­tro, foi a principal causa da presente catástrofe. Que se perdia na vida deste diabo? Ganhava-se o sossego geral da Europa. Por ora nada posso dizer; mas parece-me que o projeto de virem para aqui os 5.000 homens do nosso Exército transportados em embarcações de guerra, que estando aparelhando aqui, e nas que existem no Tejo, se suspenderá até ver o rumo, que vai tomando este novo acontecimento; o mesmo creio que sucederá na resolução da nossa volta para Lisboa, que cada vez se ia verificando com bastante regozijo nosso; ainda que neste ponto sempre houveram disputas pró e contra: e a retirada de Strangford para respon­der ao Parlamento de Inglaterra, e com ele o almirante Beresford com a grande nau e esquadra adjunta fazem confirmar a opinião dos janeiristas. Agora é que se sabe com fundamento a história de toda esta desordem dos ingleses, que até fez ir lord. Canning para Lisboa, o que se prova da carta que ele escreveu aos governadores do Reino."382

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