João e o pé de feijão – fábula, contos infantis dos Irmãos Grimm

Histórias da Carochinha – Fonte: Ed. Ática

JOÃO
E O PÉ DE FEIJÃO


muitos e muitos anos existiu uma viú­va que tinha um filho chamado
João.

João
e a mãe eram muito pobres e, para se manterem, contavam apenas com uma
vaca, cujo leite vendiam na cidade.

Um dia,
porém, a vaca parou subitamen­te de dar leite, e a pobre mulher,
tendo per­dido assim a fonte de seu sustento, ficou preocupada e sem saber
o que fazer.

João, de sua parte,
começou a procurar um emprego, com o qual pudesse ajudar a mãe.
Mas os dias foram passando sem que ele arranjasse coisa alguma para fazer. As­sim,
a única solução que encontraram foi
 vender a vaca, pois o
dinheiro daria pelo me­nos para viverem por algum tempo.

João
logo se ofereceu para ir vender o animal na cidade, mas a mãe, achando
que ele não saberia negociar, a princípio não con­sentiu.
Entretanto, porque ela própria pode­ria sair de casa naquele dia,
não teve outro remédio senão concordar com a idéia.
Amar­rou então uma corda no pescoço da vaca, para que
João não a perdesse e, depois de dar muitos conselhos ao filho,
deixou-o partir.

E lá
se foi João, com destino à cidade.

Quando estava no meio do caminho, en­controu
um vendedor ambulante que o cum­primentou muito simpático e
perguntou-lhe aonde estava indo com a vaca.

Assim que João contou que estava indo vendê-la
na cidade, o homem tirou do bolso um punhado de feijões, muito bonitos e
de co­res e formatos variados, e mostrou-os ao me­nino, dizendo que
eles eram encantados.

João ficou deslumbrado com a beleza dos grãos
e, ao ouvir as palavras do vendedor,
seus olhos brilharam de alegria. Morrendo
de vontade de possuir os feijões encantados, perguntou ao homem se ele
não gostaria de trocá-los pela vaca.

O vendedor concordou prontamente com a troca. E, horas
depois, João chegava em casa muito satisfeito, achando que havia feito
um excelente negócio.

A mãe o recebeu muito contente, mas, quando o menino
lhe mostrou o que havia conseguido em troca do animal, ficou furiosa e disse:

— Como, meu filho?! Você teve
coragem
de trocar a única coisa que possuíamos por
uma porcaria duns grãos de feijão?

E, quanto mais pensava na situação difí­cil
em que ela e o filho estavam agora, mais nervosa ficava. Até que, num
acesso de rai­va, jogou os feijões pela janela, gritando:

— Veja, seu tolo! Veja para o que ser­
vem seus grãos encantados: para jogar fora!

O pobre menino, desconsolado, ficou olhando para a
mãe sem nada  conseguir dizer. E, como castigo, naquela noite foi
man­dado para a cama sem jantar.

Na manhã seguinte, ao acordar,
João ainda estava muito triste e não conseguia es­quecer o
acontecimento do dia anterior. Es­tava deitado, tentando encontrar um jeito
de remediar o que havia feito, quando notou que havia alguma coisa impedindo o
sol de entrar pela janela. Levantou-se para espiar o que era e, espantado,
descobriu que os grãos de feijão não só haviam
brotado durante a noite, como também haviam crescido assustadora­mente,
transformando-se numa planta enor­me, que subia até o céu.

Admirado e feliz, o menino correu até o
quintal e, sem pensar duas vezes, começou a subir pelo pé de
feijão. Subiu, subiu e subiu; atravessou muitas camadas de nuvens ma­cias
como flocos de algodão e, por fim, des­cobriu que a planta terminava
num estranho país, onde tudo parecia deserto.

Como queria saber onde estava, João resolveu andar
para ver se encontrava alguém por ali. Mas o lugar parecia completa­mente
desabitado, pois, mesmo andando ho­ras em seguida, não viu
ninguém pelo cami­nho. Porém, quando já estava
escurecendo e o seu estômago até doía de fome, João
avis­tou um enorme castelo para onde se dirigiu. Encontrou na porta uma
mulher que pareceu muito assustada em vê-lo ali.

— O que você está
fazendo aqui, menino? — disse ela. — Não sabe que esse
castelo per­
tence
ao meu marido, um gigante muito mau, devorador de carne humana?

Ao ouvir isso, João sentiu as pernas
bambearem de medo. Mas, como a mulher lhe dissesse que o gigante estava fora,
caçando, e também como a fome e o cansaço não o dei­xassem
andar mais, pediu a ela que o abri­gasse e escondesse até o dia
seguinte.

Embora fosse casada com um homem tão mau, a esposa do
gigante era uma pessoa muito bondosa. Assim, ficou com muita pena do menino e
levou-o para dentro do castelo, onde serviu-lhe uma mesa coberta de coisas
 deliciosas.
João, que estava morto de fome, comeu
tudo com tanto apetite e gosto que logo
se esqueceu do perigo que estava
correndo. De repente, porém, ouviu-se um grande barulho na porta,
seguido de passos tão pe­sados que o castelo inteiro estremeceu.

— Oh, meu Deus! — disse a mulher, tre­mendo
como vara verde. — É o gigante, me­nino ! Ele não pode
encontrar você aqui senão vai devorar você e a mim
também!

Ao
vê-la tão assustada, João ficou para­lisado de medo.
Mas a mulher o puxou rapi­damente pela
mão, e mal teve tempo de escon­
dê-lo dentro do forno,
antes que o gigante en­trasse na cozinha, gritando com sua voz de
trovão:

— Mulher! Mulher, estou sentindo cheiro de
carne humana!

Um, dois e
três,

diga-me de uma vez:

onde
está esse abelhudo?

Vou
comê-lo com ossos e tudo!

Mais que
depressa, a mulher explicou que o cheiro de carne era dos franguinhos que ela
havia matado para o jantar.

João, que estava espiando por uma
frestinha do forno, ficou apavorado só de pensar no que aconteceria se o
gigante o encontrasse. Mas a bondosa mulher, que sabia que o ma­rido era
muito comilão, apressou-se em ser­vir a comida, antes que ele
começasse a pro­curar por todos os cantos da casa até encon­trar
o pobre menino.

O
gigante sentou-se então à mesa e, para começar a refeição,
engoliu uma dúzia de frangos assados, com ossos e tudo. Com os olhos
arregalados, João assistiu à mulher tra­zendo para a mesa
pratos e mais pratos, que o gigante engolia rapidamente, sem nunca ficar
satisfeito.

Quando acabou finalmente sua refeição, o
comilão gritou para a mulher:

   Traga-me o dinheiro!

  
Está
bem! — respondeu ela, saindo da cozinha.

E, logo em seguida, voltava com dois sa­cos cheios de
moedas de ouro. Depois de
 ordenar que a
mulher fosse dormir, o gigante colocou os sacos de moedas sobre a mesa e
começou a contá-las, enquanto esperava o sono chegar.

Quando se cansou desse divertimento, guardou as moedas de
novo nos sacos e de­pois colocou-os no chão, perto de si. Só
que, por precaução, amarrou ao pé da mesa um cão de
guarda, e depois recostou-se na ca­deira e pôs-se a dormir.

João, que a tudo assistia de seu escon­derijo,
esperou que o gigante estivesse dor­mindo profundamente e, quando viu que
ele estava roncando como um trovão, saiu de mansinho do forno para
roubar o dinheiro. Entretanto, assim que pôs as mãos sobre os
sacos de moedas, o cão de guarda começou a latir feito louco e o
pobre menino, apavo­rado, julgou-se completamente perdido.

Acontece que o gigante tinha um sono pe­sado demais e os
latidos fizeram apenas com que ele se mexesse na cadeira, sem conse­guir
acordá-lo.

Mais sossegado, o menino subiu na mesa da cozinha e, depois
de pegar um pedação de carne, jogou-o
ao cão, que abanou o rabo e
ficou
em silêncio, deliciando-se com o petisco.

João pôde assim pegar o dinheiro e fugir dali.
Correu sem parar até alcançar o pé de feijão,
descendo habilmente até chegar ao quintal de casa.

Em seguida, chamou pela mãe e, depois de contar-lhe
toda a aventura, entregou-lhe os dois sacos de moedas.

Corri o dinheiro roubado do gigante, João e a
mãe passaram a levar uma vida de rei. Nada mais faltava na casa e eles
não pre­cisavam mais temer a fome e a necessidade.

Mas o tempo foi passando e os sacos de moedas
começaram a ficar vazios. E João pensou, então, em voltar
ao castelo do gi­gante, para se apoderar de mais riquezas.

Contou sua vontade à mãe e ela,
com medo de que alguma coisa pudesse acontecer-lhe, proibiu-o de ir.

— Já pensou se o gigante agarrar
você? — disse ela. — E a mulher dele?   Ela certa
mente o
reconhecerá e poderá entregá-lo ao marido!

Percebendo que a mãe não ia mesmo per­mitir,
João fingiu aceitar o que ela dizia. Mas, na primeira chance que teve,
saiu es­condido e subiu novamente pelo pé de feijão, desta
vez muito bem disfarçado para que a mulher do gigante não o
reconhecesse.

Chegou assim mais uma vez ao estranho
país e, depois de caminhar até o anoitecer, avistou o castelo do
gigante, na porta do qual encontrou novamente a boa mulher.

— Menino! — disse ela, sem
reconhecer João. — O que você faz aqui? Não sabe que
esse castelo é do meu marido, um gigante muito mau, devorador de carne
humana?

João fingiu-se muito assustado, e pediu à
mulher que o escondesse até o dia seguinte, dizendo que não
conseguiria encontrar o ca­minho de casa no escuro.

— Ah, não! — respondeu ela.
— De jeito nenhum! Da última vez que fiz isso me ar­rependi
amargamente!   Já dei abrigo a um menino como você e o
mal-agradecido fugiu, levando dois sacos de moedas de ouro do meu marido. Por
causa disso, quase fui devorada no lugar do malandrinho! E o gigante, desde
então, tem estado com um humor terrível, que eu sou obrigada a
suportar!

Mas João sabia ser convincente e pediu tantas vezes
que a boa mulher acabou con­cordando em escondê-lo. Assim, levou-o para dentro do castelo e deu-lhe de comer e de beber. E,
novamente, mal teve tempo de es­conder João, desta vez dentro de um
quarti­nho de despejo, e o gigante já chegava, com seu andar
tão pesado que fazia o castelo es­tremecer. Dali a pouco, ele
já estava na co­zinha, gritando com voz de trovão:

— Um,
dois e três.

Cheiro de
gente outra vez! Onde está esse abelhudo? Vou comê-lo com ossos e
tudo!

Enquanto dizia isso, o gigante procurava por
todos os cantos da casa.

João, que a tudo
assistia pela fechadura da porta, ficou morrendo de medo de ser en­contrado.
Mas a bondosa mulher mais uma vez convenceu o marido de que não havia
ninguém na casa e, enchendo a mesa de co­mida, conseguiu
distraí-lo.

Novamente o gigante comeu até se far­tar e depois
disse à mulher:

— Mulher,
traga-me a galinha!

Ela, como da outra vez, obedeceu às or­dens e
saiu da cozinha, para voltar logo de­pois, trazendo uma galinha viva. O
gigante colocou a galinha sobre a mesa e, assim que a mulher se retirou,
ordenou:

Bote!

E João viu, espantado, a galinha botar um ovo que
não era nem branco e nem igual aos das galinhas comuns, e sim de ouro,
ouro puro e maciço!

— Bote
outro! — ordenou o gigante.

E a galinha obedeceu. Assim aconteceu
sucessivamente, até que a mesa da cozinha ficou repleta de ovos de ouro,
bonitos e re­luzentes.

De repente, o gigante se cansou de man­dar a
galinha botar os ovos e, debruçando-se sobre a mesa, caiu, logo em
seguida, num sono profundo.

Quando ouviu o gigante roncando outra vez como
um trovão, João saiu em silêncio de seu esconderijo. E,
como desta vez não havia nem o cão de guarda para atrapalhar, foi
muito fácil agarrar a galinha e fugir cor­rendo do castelo,
até chegar ao pé de feijão.

Logo que entrou em casa, João chamou a mãe e,
depois de lhe contar a sua aventura, entregou-lhe a galinha dos ovos de ouro.

Daquele dia em diante, nada mais lhes faltou,
pois, sempre que precisavam de algu­ma coisa, bastava ordenar à
galinha que bo­tasse um ovo, e ela obedecia prontamente.

Mesmo sendo agora rico e feliz, João
voltou a ter vontade de subir outra vez ao castelo do gigante. Mas, sempre que
falava nisso, a mãe o repreendia tão severamente, que o menino
acabava adiando a viagem, sem entretanto desistir da idéia.


Passaram-se assim três anos, no final dos quais
João tomou uma decisão: ia subir de novo, custasse o que
custasse, e não con­taria nada à mãe.

Assim,
esperou pacientemente que che­gasse o verão, quando os dias
são mais lon­gos e, depois de se disfarçar muito bem, subiu
pelo pé de feijão antes que o sol nascesse, para que a mãe
não o visse.

Novamente
chegou ao castelo numa hora em que o gigante não estava, e mais uma vez
não foi reconhecido pela mulher, que voltou a falar-lhe dos perigos que
corria estando ali. Só que, desta vez, foi muito mais difícil con­vencê-la
a recolher um estranho em seu cas­telo, pois o gigante, depois do
último roubo, estava com um humor insuportável e cada dia se
tornava mais malvado.

João, porém, sabia que a mulher
era muito bondosa e continuou insistindo até que conseguiu
convencê-la. Foi então acolhido, e de novo lhe foi servida uma
refeição deli­ciosa.


Mas nesse dia o gigante chegou tão re­pentinamente
que a mulher só teve tempo de colocar João dentro de um
caldeirão, antes que o marido entrasse na cozinha gritando:

— Mulher! Sinto cheiro de carne huma­na!

Um, dois e
três,

diga-me de
uma vez:

onde
está o abelhudo?

Vou
comê-lo com ossos e tudo!

E estava tão furioso e desconfiado, que
começou a procurar por todos os cantos, sem nem ouvir a esposa
chamando-o para o jantar.

Procurou, procurou e procurou até que,
finalmente, chegou bem perto do caldeirão onde João estava
escondido. Ao ouvir aqueles passos que faziam o chão tremer e aquela voz
de trovão gritando furiosamente, o pobre menino achou que estava mesmo
perdido. Por sorte, entretanto, o gigante sentiu uma fome repentina e ficou com
preguiça de levantar a tampa do caldeirão. Por isso, desistiu de
procurar e gritou:


— Mulher! 
Quero jantar!

Dentro de seu esconderijo, João suspirou
aliviado. E ali ficou bem quietinho, esperan­do que o comilão
fizesse sua interminável refeição.

Quando, afinal, estava satisfeito, o gi­gante gritou
para a mulher:

— Traga-me
a harpa de ouro!

E ela, como sempre fazia, obedeceu-lhe prontamente. O
gigante esperou que ela se retirasse para dormir, depois colocou o ins­trumento
sobre a mesa e ordenou:

Toque!

No mesmo instante, a harpa de ouro co­meçou
a tocar sozinha uma melodia doce e suave, que deixou João maravilhado e
que embalou os sonhos do malvado gigante. As­sim, o menino esperou
até que ele estivesse roncando bem alto, saiu em silêncio do cal­deirão
e correu na direção do valioso instru­mento.

Acontece que a harpa era encantada e, ao sentir
que mãos estranhas a tocavam, co­meçou a gritar com uma voz
fininha:

—         Socorro!
Socooorro!

E o gigante, ou porque não estivesse dor­mindo
ainda, ou porque gostasse muito da harpa, acabou acordando. Ao ver que estava
sendo roubado, levantou-se da cadeira, gri­tando, furioso:

— Ah, seu maldito! Desta vez você me
paga! Quando eu o pegar, vou engoli-lo vivo, com ossos e tudo!

Disse isso e veio direto em cima do po­bre João,
que, muito assustado, começou a correr até não poder mais.
A harpa de ouro, por sua vez, continuava gritando, com sua vozinha fina:

— Socorro, meu senhor! Estão me rou­bando
!

E João, ao ouvi-la falar, corria mais ainda, achando
que o gigante o estava alcan­çando.

De repente, no entanto, João percebeu que
havia já alguns minutos não ouvia mais os urros e o barulho dos
passos de seu perse­guidor. Intrigado, virou-se para trás e desco­briu
uma coisa que o deixou muito feliz: o
 gigante, embora
fosse grande e forte, já esta­va velho e não conseguia correr
muito.

Mesmo assim, ainda havia um
longo cami­
nho
para chegar ao pé de feijão, e por isso o menino agarrou de novo
a harpa, que não pa­rava de gritar por socorro, e continuou a
correr.

Horas depois, alcançou de novo seu
pé de feijão e começou a descer. Quando estava já
no meio da haste da imensa planta, porém, João olhou para cima e
viu que o gigante, por ser muito pesado, descia numa rapidez incrível.
Assim, logo que avistou o quintal de casa, o menino começou a gritar
pela mãe:

— Mamãe, mamãe! Traga-me um ma­chado,
depressa!

Quando João pôs os pés no
chão, a mãe já se preparava para dar os primeiros golpes
na planta. Mas a viúva, ao olhar para cima e ver o tamanho do gigante,
ficou paralisada de medo.

João
estava muito cansado, mas conse­guiu reunir todas as suas forças e,
apossando-se do machado, golpeou várias vezes o pé de
feijão. Tendo sido cortada a planta, o gi­gante despencou lá
do alto, caindo ao chão com um grande estrondo. Era tão pesado
que | seu corpo, ao cair, fez uma cratera enorme, que demorou muitos
anos para fechar.

Livre do perigo que o ameaçava, João
nbraçou a mãe alegremente. E, desde aquele dia, os dois passaram
a viver tranqüilos.

Tempos depois, quando se tornou um ho­mem
forte e bonito, João se casou com uma princesa, com quem viveu feliz por
muitos e muitos anos.

Quanto ao pé de feijão, depois de cor­tado,
secou completamente e, como não havia mais sementes, nunca mais nasceu
outro igual.

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