Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

O CORPO HUMANO – MÁQUINA MARAVILHOSA


LIVRO SEGUNDO – O LIVRO DAS MARAVILHAS DA CIÊNCIA

Henry Thomas

O HOMEM, MÁQUINA MARAVILHOSA

O mistério do

QUE é o corpo humano? Nada mais que uma combinação de produtos químicos. Reduzido a seus mais simples elementos, contém, a das seguintes matérias: 75 velas, 100 ovos, um bocado de ferro, um pedaço de sabão, o fósforo suficiente para fabricar cerca de 100.000 palitos fosfóricos, um quilo de açúcar, 38 litros dágua e um punhado de sal.

Estas substâncias comuns estão, porém, juntas de tal maneira, que produzem o milagre vivo que come, cresce, planeja, aspira, cultua e ama. Este pacote humano de produtos químicos é uma máquina vivente e pensante, muito mais maravilhosa que qualquer maquinismo de ferro e aço.

Lancemos o olhar por momentos para esse maravilhoso mecanismo do corpo humano. Tomai uma moça, de pele cintilante de saúde, de olhos fulgurantes de beleza, com a esbelta figura envolta num traje encantador, e colocai-a debaixo dum fluoroscópio. Que acontece? Não vereis mais uma linda moça, mas um sombrio esboço de ossos, músculos e vasos, uma máquina estranha e fascinante.

Essa máquina tem uma armação, ou esqueleto, de ossos. Estes ossos são as vigas do corpo. Contudo são diferentes das vigas de um edifício ou de uma máquina, visto como se mostram ocos. Cada osso é um tubo ôco que contém seu próprio fluido vital ou medula. Os ossos, que são 214, no corpo humano, mostram-se engenhosamente protegidos por tecidos cartilaginosos, ou pára-choques, e são constantemente lubrificados pelo seu próprio inesgotável reservatório de óleo.

Se lançardes agora a vista para o interior dessa armação de ossos, vereis um mecanismo interessantíssimo de fornalhas, foles, artérias e bombas, que trabalham sem cessar para conservar o corpo vivo e saudável.

Em primeiro lugar, vejamos os músculos. Os músculos executam o trabalho pesado do corpo. São os operários da fá brica e se lhes dispensardes o devido cuidado nunca se declararão em greve. Estranhos e eficientes trabalhadores são eles, firmes e elásticos, como presilhas de borracha. Há 500 deles no corpo humano, 500 dispostos trabalhadores, sempre prontos a executar as ordens de seus chefes, os rins, o fígado, os pulmões e o .

Os rins, situados (grosseiramente falando) de cada lado da extremidade da espinha, servem de aparelho de purificação. Separam os venenos do sangue, eliminam os venenos por meio da bexiga e enviam o sangue purificado para o coração.

O fígado serve não somente de importante dente numa máquina, mas também de eficiente armazém de provisões. Faz quatro coisas. Cria a bilis para auxiliar a digestão; auxilia os rins a eliminar os venenos; manufatura algumas das gorduras que são necessárias ao corpo e faz as vezes de despensa para o açúcar, nas ocasiões em que o corpo possa dele precisar.

Os pulmões respiram o ar pelas narinas e o distribuem para os músculos, os ossos e o sangue através de todo o corpo. A capacidade dos pulmões é bastante grande: aspiram cerca de 400 pés cúbicos de ar, o conteúdo de um pequeno dormitório, cada 24 horas. Por aí vereis quão necessário é conservar as janelas de vosso quarto abertas, afim de garantir um constante suprimento de ar fresco.

O coração é talvez o mais importante órgão do corpo. E’ o capataz da fábrica humana. Marca o ritmo de vossa vida e espalha o sangue para todas as partes do corpo. Cada 24 horas a coração de um homem sadio perfaz 103.000 batidas e cada uma delas impele 170 gramas de sangue. Por outras palavras, arremessa nada menos de 12.000 toneladas de sangue cada dia, enorme tarefa para uma pequena máquina que pesa justamente um pouco mais de meia libra!

Considerando o maravilhoso mecanismo do corpo, não devemos esquecer os pés e as mãos. Os pés, ou antes, as pernas, são os raios do corpo. Estão ligadas ao corpo justamente como os raios de uma roda estão presos ao eixo. Mas o corpo é uma roda incompleta. Tem somente dois raios. Imaginai quanto poderíamos correr se tivéssemos um jogo completo de raios, ou pernas, irradian-do-se do eixo do nosso corpo! Estaríamos continuamente "dando cambalhotas", todas as vezes que andássemos pela rua.

Um dos mais maravilhosos dentes da nossa máquina humana é, porém, a mão. O homem difere dos animais inferiores em ter um cérebro e duas mãos. A mão é movida por meio de músculos do antebraço, 30 pares de fortes e elásticos trabalhadores, que se combinam harmoniosamente para dar à mão seu poder e sua delicadeza. E que poder, e que delicadeza! A mão pode levantar imensas rochas e manipular as pequenas molas de um relógio. Pode descarregar um pesado golpe inutilizador e escrever um poema aéreo. Pode manejar um martelo e deslizar veloz nas cordas de um violino.

Estes são alguns dos maravilhosos dentes da mais maravilhosa das máquinas, a máquina humana. Alguns dos outros importantes dentes, tais como o estômago, os olhos, oi ouvidos, a língua e o cérebro, serão considerados em outras partes deste livro.

A dos

ATUALMENTE, temos mais de cinco sentidos. Para sermos exatos, onze. Estes onze sentidos são: vista, ouvido, tacto, olfato, gosto, calor, frio, fome, dôr, movimento e equilíbrio. Os mais importantes, contudo, são os cinco primeiramente mencionados. Espreitemos pelo mágico buraco de fechadura da ciência o mistério desses cinco sentidos.

Vem em primeiro lugar a vista. Vemos, não com o olho, mas através do olho. O olho é simplesmente uma câmara. Apanha os quadros e envia-os ao cérebro. Na realidade vemos com o cérebro. Mas necessitamos da câmara; sem ela, nosso cérebro seria cego.

Para que nosso cérebro possa ver não somente os quadros, mas medir as distâncias, somos dotados de dois olhos, ou câmaras. Estas duas câmaras estão combinadas de tal maneira que nos mostram não somente a extensão e a largura de um objeto exterior, mas também sua profundidade. É um dos muitos milagres da natureza vermos uma só coisa com dois olhos, do mesmo modo que ouvimos só um som com dois ouvidos e sentimos um só cheiro com duas narinas. Apenas quando o homem está doente ou intoxicado é que sua visão se torna anormal e êle vê dobrado.

Felizmente, muita gente tem (ou pode ter por meio de lentes) visão normal. Contudo, fato interessante, cada uma dentre cincoenta pessoas é daltônica, isto é, incapaz de distinguir o vermelho do verde. E os que sofrem de daltonismo em geral desconhecem o fato até que sua atenção seja chamada para isso.

E eis aquí outro fato interessante. As mulheres podem distinguir melhor as cores que os homens. E’ por isso que se mostram tão bons desenhistas e decoradores domésticos. Há algumas mulheres cujo senso da côr é tão apurado que podem diferençar cerca de cincoenta gradações diversas de cinzento.

Consideremos agora o segundo dos cinco importantes sentidos: o ouvido. Ouvimos como vemos, com o cérebro. O instrumento que possibilita ao cérebro a audição é o ouvido. O ouvido consta de três partes: a inútil, porém bonita concha externa; o ouvido médio, ou tambor de ar, logo dentro do crânio e o ouvido interno, ou labirinto de delicadas passagens, que transportam as mensagens sonoras do tímpano até o cérebro. O ouvido interno tem outra função peculiar. Dá-nos o sentido do equilíbrio. Quando perdemos esse sentido do equilíbrio, começamos a sentir-nos vacilantes, isto é, com enjôo de mar. O enjôo de mar, porém, não é uma doença do estômago, como se acredita geralmente, mas do ouvido. Diz-se que os surdos nunca sofrem de enjôo.

A pergunta tem sido muitas vezes feita: "Pode haver som numa floresta em que não existam criaturas vivas ? A resposta é negativa. As árvores podem cair e partir-se; a luz pode relampaguear e o trovão estrondar, mas não haverá som. Um som só é produzido quando uma onda de movimento, causada pelo deslocamento do ar, fere o tambor do ouvido de alguma criatura viva. E a intensidade do som depende da qualidade do tambor auditivo. O grande poeta americano, , tinha, segundo se conta, ouvidos tão sensíveis que podia ouvir até mesmo a relva crescer.

Vem em seguida o terceiro sentido. Examinemos o mistério da pele, que nos capacita a conservar-nos em "contacto" com o mundo exterior. A pele nos presta três espécies de serviços:

1. Cobre os músculos do corpo com uma luva macia, bonita e elástica.

2. Regula a temperatura do corpo. Quando faz frio, a pele fecha seus poros e dessa forma tende a conservar o calor interno do corpo. Quando faz calor, a pele abre seus poros e expele para fora o excesso de quentura na forma de respiração.

3. A pele é o instrumento do tacto. Diz-nos se um objeto é áspero ou macio, duro ou mole, quadrado ou redondo, pontudo ou boleado, quente ou frio.

De certo modo, o tacto é o mais importante de todos os sentidos. Podemos ver, ouvir, provar e cheirar as coisas, mas na realidade só as ficamos conhecendo quando as tocamos. Só podeis apreciar o encanto dos lábios de vossa amada depois de os haver tocado com um beijo.

A diversidade do sentido do tacto difere nas várias partes da pele. As partes mais delicadas da pele estão na fronte, nas fontes e nas costas do antebraço. Mesmo, porém, as peles mais sensíveis podem sofrer os mais curiosos enganos. Por exemplo: a pele é incapaz de distinguir entre o extremo calor e o extremo frio. Uma estufa muito quente e um frigidíssimo pedaço de gelo, dar-vos-iam à pele se vos vendassem os olhos, a mesma sensação. Não sentiríeis nem quentura nem frio. Sentiríeis simplesmente dôr.

O sentido do tacto produz as nossas mais enérgicas reações. Podemos ficar indiferentes ouvindo uma voz colérica ou vendo uma face enraivecida. Mas se sentimos um golpe furioso isto é, uma bofetada, um pontapé ou um murro, lançamo-nos em imediata ação. Nossa vida é guiada, numa extensão muito maior do que imaginamos, pelo sentido do tacto.

O quarto sentido importante é o do olfato. Neste particular alguns animais inferiores são superiores ao homem. O faro de um cachorro, por exemplo, é muito mais agudo que o de seu dono. Um dos grandes mistérios da vida é o poder que tem o cão de rastrear um fugitivo, através de matas e brejos, contando apenas com o seu delicado sentido do olfato. O cão reconhece as pessoas, não pelo seu aspecto, mas pelo seu cheiro. Para um ser

humano, não há duas pessoas que aparentem exatamente o mesmo aspecto; para um cachorro, não há duas pessoas que tenham o mesmo cheiro.

O sentido do olfato tem desempenhado um grande papel na literatura. Os poetas gostam muito de identificar as coisas belas pelo seu perfume. Diz-se que eles possuem, na verdade, um sentido do olfato mais delicado que o de seus menos poéticos irmãos da família humana. Conta-se que Walt Whitman podia sentir o odor dos flocos de neve.

Nosso sentido do olfato é uma coisa característica. Um cheiro pode ser extremamente agradável para um homem e extremamente detestável para outro. Há certos selvagens da África que adoecem ao cheirar uma rosa, mas só podem despertar o apetite quando inhalam o fedor de uma comida em decomposição ou de restos de cozinha.

E agora chegamos ao último dos cinco importantes sentidos: o gosto. Sentimos o gosto por meio da língua, notável instrumento, visto como nos dá não só o gosto, como a fala. A língua, por mais estranho que pareça, pode distinguir apenas quatro gostos: doce, azedo, amargo e salgado. Como é então que saboreamos tão diversas espécies de gosto nos alimentos que comemos, desde a aristocrática delicadeza do caviar até as delícias democráticas da carne de porco assada? A resposta é que não saboreamos todas as diferentes espécies de gosto em nossa comida, mas as olfateamos. E’ coisa comum a todos nós confundir cheiro com gosto. Por exemplo, quando dizemos que a cebola e a maçã têm gosto diferente, queremos realmente significar que elas têm cheiro diferente. Para o gosto somente, desajudado dos sentidos do olfato, da vista e do tacto, não há diferença entre cebolas e maçãs. Ambas têm o mesmo gosto ácido.

São estes, pois, os cinco mais importantes sentidos, os cinco mensageiros que nos falam a respeito do mundo em que vivemos e do melhor modo de nos adaptarmos a esse estranho mundo.

Nossa interna fábrica alimentícia

CONSIDEREMOS a espantosa fábrica interior que transforma o alimento em sangue. Observai os vários processos automáticos que se movimentam, desde o instante em que o alimento penetra em nossa boca até o momento em que a última etapa envia a parte nutritiva do alimento para a corrente sanguínea e lança fora o remanescente, como um refugo desnecessário. Quando nos sentamos para comer, pomos em movimento, por assim dizer, as rodas de uma fábrica inteira. Quase todas as partes do corpo cooperam na ação de comer e digerir os alimentos.

Em primeiro lugar, o nariz olfateia a comida e nos diz se é agradável ou não ao nosso gosto. Se o nariz aprova a comida, a boca começa a "aguar" em resposta. Começa então o da digestão, por meio de uma agradável antecipação, mesmo antes de havermos provado o primeiro bocado.

Quando o alimento entra na boca, os dentes moem-no em forma de pasta e a* língua o faz escorregar, como numa calha, para o esôfago e daí para o estômago. Aqui é ele misturado com sucos gástricos para ajudar a digestão, e depois toda a massa é agitada como numa desna-tadeira, até se transformar numa pasta delgada e mole, chamada quimo.

Nesta forma semilíquida o alimento é então remetido ao vizinho departamento da fábrica humana, os tubos de destilação, ou intestinos. Esses tubos intestinais têm 9 metros de comprimento. Novos sucos são acrescentados para tornar a massa ainda mais líquida e dividir a parte aproveitável nos produtos já preparados: açúcar, gordura, "sabão" e especialmente sangue.

A fábrica completa então quase toda a sua misteriosa tarefa. Restam apenas mais alguns processos: a colocação da parte desnecessária do alimento. Esta é enviada para fora por meio do tubo de resíduos (o intestino grosso, ou cólon) que, por sua vez, lança para fora do corpo.

E todo esse complicado fabril trabalha sem um perito-chefe, sem um contador, sem relógio e sem uma junta de diretores. Tudo está em seu lugar e cada operação é executada pronta, eficiente e economicamente, sem nenhuma perda de tempo, de trabalho ou de material. Milagre? Que outra coisa poderíamos chamar a isso?

O enigma da vida

QUE é a vida? E quando é que, na complicada escala da criação, a não-vida acaba e a vida começa? Para estas perguntas não há respostas. Alguns filósofos têm tentado resolver o enigma negando que haja um enigma. Todas as coisas, dizem eles, até mesmo as rochas das montanhas e as águas do mar, são seres vivos. Se não descobrimos a vida numa pedra ou numa gota d’água é porque os nossos sentidos (assim afirmam eles) são demasiado grosseiros. Esta é uma engenhosa teoria que, a ser verdadeira, responderia a muitas perguntas embaraçosas. Até agora, porém, não temos provas lógicas dessa teoria e as duas questões permanecem: que é a vida? e quando começa?

A mais baixa forma de vida conhecida pelo homem é o micróbio, esse molesto pequenino organismo que ocasiona muitas de nossas doenças. Um desses micróbios, chamado bacillus botulinus, resulta da ingestão de peixe ou carne em decomposição. E’ tão terrível que uma simples gota de veneno Eeita desse micróbio mataria toda a população do globo.

Do micróbio ao homem — tal é o âmbito da ciência chamada biologia, o estudo da vida. A da vida é a perpetuação da vida, isto é, o propósito de todo ser vivo é reproduzir-se e transmitir a preciosa herança da vida à sua descendência. Como se reproduz um ser vivo? Para ser mais explicito, como se reproduz o homem? Um ser humano, da mesma forma que um pássaro, é filho de um ovo. Mas notai este fato maravilhoso: o ovo de uma galinha tem cerca de uma polegada e meia de diâmetro, mas o ovo de um ser humano tem apenas 1/100 de polegada de diâmetro. Desse minúsculo fragmento de matéria nasceu o belo corpo de I [elena de Tróia e o ainda mais belo cérebro de Shakespeare!

Para poder vir a .nascer, o óvulo (na mãe) deve ser fertilizado pelo germe vivo (no pai). Se julgais minúsculo o óvulo, que não direis do germe? São precisos 3.000 germes para perfazer o tamanho de um simples óvulo! E eis um fato curioso, que ilustra a prodigalidade da natureza. Para cada óvulo feminino, a natureza provê 850 bilhões (850.000.000.000) de germes masculinos.

Uma vez fertilizado o óvulo, forma-se o embrião humano. Durante os nove meses anteriores ao nascimento, o embrião realiza um maravilhoso processo de evolução. A princípio é apenas uma simples célula viva. Depois desenvolve as características físicas do verme. Em seguida, assume as guelras de um peixe. O estágio seguinte é o crescimento de pêlos de animal sobre o corpinho que ainda não nasceu e de uma cauda de animal no fim da espinha.

Finalmente o embrião vê-se transformado em criatura humana, com duas mãos, dois pés e um cérebro. E então está pronto para nascer e crescer, dependendo do ambiente que o cerca e da graça de Deus, o tornar-se um bandido ou um Beethoven. Tal é o mistério da vida.


Fonte: Maravilhas do humano, 1949. Tradução e Adaptação de Oscar Mendes.

 

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