O homem como alma em Platão – História da Filosofia Antiga – Johannes Hirschberger



História da – Johannes Hirschberger

C.  O     HOMEM


Depois de termos consideradoa posição geral de Platão no concernente ao problema ontológico e teorético-epistemológico, voltemo-nos para algunsproblemas concretos e, em primeiro lugar, para o seu pensamento sobre o homem.


α)    O   homem   como   alma


"Ao legislador não podemos, em nenhum ponto, lhe recusar a nossa, fé; e assim será também quando nos assegura ser a alma algo de completamente diferente docorpo e que,  na vida, é justamente a alma, e não outro ser, que nos torna a cada um de nós o que propriamentesomos. Ocorpo, pelo contrário, nos segue a cada um somente como uma espécie de sombra, dizendo-se, por isso, com razão que, sobrevindo a mor te, os cadáveres não são mais do que simulacros dos mortos; pois, o verdadeiro homem é um ser imortal, cujo nome próprio é a alma, que entra na comunhão dos deuses para dar contas de si" (Leis, 959). Também para Platão o homem é uma união do corpo e da alma. Mas como é concebida esta união? Ela é um laço bem frouxo. O corpo é, para a alma, uma espécie de veículo e, portanto, mantém com ela relações apenas acidentais. Por isso não há um justo equilíbrio.entre ambos; a alma é propriamente o homem, sendo o corpo apenas uma sombra. E, afinal, a união de uma com o oütrò é infeliz. A. alma está encerrada no corpo comonuma prisão, sendo este um lastro para. aquela. "Enquanto estivermos presos ao corpo e a nossa almaestiver conglutinada. com este  mal, nunca poderemos atingir plenamente a verdade do que buscamos. Pois, mil e uma inquietações nos causa o corpo, pelas exigências de sua nutrição, sem falar ainda em toda espécie de paixões eróticas, desejos, temores, e um sem número de imaginações e infinitas ninharias. Em suma, ele nas coloca num estado no qual não temos um momento de quietação. Pois, também as guerras, as revoltas e batalhas são conseqüências do corpo e das suas concupiscências. Porque todas as guerras nascem do desejo de adquirir haveres e bens. E haveres e bens somos forçados a adquirir por causa do corpo, cujas exigências devem ser satisfeitas" (Fédon-, 66 b). Por isso, Platão repete a expressão dos pitagóricos, que consideravam o corpo como o túmulo da alma (σωμα — σημα ). E assim compreendemos a sua exigência, de entretermos a nossa união com o corpo na medida do absolutamente necessário, sem nos deixarmos penetrar por êle e pela sua natureza, mas em nos purificarmos dele "até Deus nos livrar dele completamente". Todo o interesse de Platão pelo homem se concentra, portanto,_ na alma, e a sua antropologia" é, essencialmente, uma psicologia. Ouçam os pois a sua resposta sobre a questão da origem da alma, sua essência e seu destino. Há muita roupagem mitológica na doutrina que nos dá a conhecer, mas o cerne filosófico não é difícil extraí-lo.


b)    Origem   da   alma


A alma recebe a sua existência do Demiurgo, que é quem fornece  "a semente  e  o começo". A   alma humana  não  é tirada da alma do mundo, como parte, defluência  ou broto. São, na verdade, empregadas as mesmas partes componentes das quais resultou, como um "misto", ã alma do mundo: dá um lado, o indivisível. o, eterno e o imutável e, de outro, a realidade mutável; embora não na mesma proporção. Mas as almas humanas são feitas pelo próprio Demiurgo, como êle feza alma do mundo (Tim. 41 ss). E, assim, Platão não é  emanacionista nem panteísta.  Cada alma é algo de individual, cada .uma tem a sua estréia, onde tem a sua morada. e há tantas almas quantas estrelas. Por isso, o Demiurgo as cingiu a um carro, permitindo-lhes, assim, contemplar a natureza do todo e a revelação da lei fatal do destino das coisas. Não é isto nenhuma aplicação astrológica, mas exprime a convicção de PLATÃO, do que a alma, a priori, conhece as eternas verdades e valores e. por isso, pode prescrever ao mundo eà vida, o seu caminho ideal. Também Platão pensa que a contemplação do céu estrelado enche o coração do homem do uma admiração sempre renascente, e lhe dá um pressentimento de normas supra-temporais. Tal o alcance do devir da alma, nas mãosde Deus. Setudo nela tivesse sido obra sua, certamente teria sido ela totalmente divina. Mas isto não pode ser. Por issooDemiurgo a confiou, para a seqüência do seu destino, aos "deuses criados", i. é, á Terra e aos planetas, esses "instrumentos do tempo", para introduzirem a alma na existência, revesti-la de um corpo, nutrir o homem e  deixá-lo crescer,  e,  de novo,  recebê-lo quando deixar  esta vida. Esse foi o nascimento primeiro da alma neste mundo espácio-temporal. Porque outros nascimentos .sucederão a esse. como logo o veremos.


c)  Essência   da   alma


α) A alma como espírito. — Antes de tudo, queremos frisar o que se conclui do que acaba de ser dito quanto à essência da alma. A alma é, para Platão, conforme resulta imediatamente da sua imortalidade, uma, substância invisível, imateriaj, espiritual, supra-terrena; e isto o é tanto a alma do mundo como a dos homens. E isto deve ser dito pela declaração de que foi o Demiurgo mesmo que a formou; e o que êle formou é uni ser imortal. Só  quando ela é entregue ao "instrumento do tempo", é que se une com o corpo, e só então, nascem as percepções sensíveis. A imaterialidade e a imortalidade são, em particular, o tema do Fédon; a pátria supra-terrestre da alma e sua natureza, o do Fedro.


αα) E a sensibilidade? — Parece contradizer a imortalidade o admitiu Platão uma alma sensível. os deuses criados, na verdade, diz êle, "formaram em derredor da alma o corpo mortal, como uma espécie de veículo, que muniram ainda_ com, outra espécie de alma — a mortal, sede de perigosas e inevitáveis perturbações. Tais o prazer, o máximo sedutor para o mal; depois a dor, que afugenta o bem; em seguida, a audácia e o temor, dois incessantes conselheiros; e a cólera, o grande perturbador dificilmente domesticável; e a esperança, mãe das ilusões. A tudo isto ‘acrescentaram ainda percepções irracionais, e a paixão do amor, que a tudo se atreve, de modo a formarem uma aliança Indestrutível, constituindo assim o gênero dos mortais"   (Tim. 69 c d).


ββ) Unidade da alma? —Falar de outra alma, sensível e mortal, não significa, tenha ohomem mais de uma alma, mas exprime, somente, o que Platão, na República, chama as três partes da alma, São elas: a alma racional ou espiritual (λογιστικον), que se manifesta—no pensamento puro e na contemplação supra-sensível; a _alma irascível. (θιμοειδεσ), à qual pertencem as nobres excitações, como a có1era, a cobiça, a coragem e a esperança; e a alma concupiscível (επιθυμητικον), onde tem a sua sede os instintos da nutrição e do sexo, como o prazer e o desprazer, e a necessidade do repouso. Embora no Timeu estas partes da alma sejam, localizadas na cabeça, no peito e no baixo ventre. Platão, contudo, sóadmite uma única alma humana. O homem compõe-se de uma alma e um corpo e não de almas e corpo. Esta unidade da alma humana é afirmada muito claramente do Fedro; que a compara a uma "força ativa natural que une ao auriga um jugo de corcéis alados" (246ss.). O auriga é a alma espiritual; os dois corcéis são as duas outras partes da alma — a mais nobre é a irascível, a menos nobre é a concupiscível. Mas, se à alma são conaturais essas três partes, parece; por aí, perigar a sua imaterialidade, pois já então a sensibilidade nela se inclui. Mas, por outro lado, é evidente que aalma, para. Platão,  é imaterial. Como pois é isto possível? Evidentemente por ser a alma, para êle. no sentido próprio e estrito, o que designa com o nome de alma espiritual. O Fédon o mostra muito claramente. A alma espiritual imortal, de que esse diálogo trata, já se libertou de toda sensibilidade. Neste inundo isto é certamente impossível, mas assim o será depois da morte. Por onde vemos que, quando Platão fala das duas partes inferiores da alma, pretende, apenas, obviar ao fato de estar a nossa, alma espiritual, unida ao corpo. Os néo-platônicos freqüentemente discutiram se a alma sensível  sobrevive ou não à morte do corpo. Jâmblio resolveu a questão pela afirmativa; Plotino, Porfírio e Proclo pela negativa.  Platão participa desta última opinião, porque a expressão alma sensível, para êle, era apenas  uma imagem na sua concepção de que a alma espiritual pode afirmar-se, não somente como espírito, mas ainda deve elaborar um mundo sensível. "Infelizmente" deve elaborar, como êle naturalmente pensa. Pois, muito de boa vontade, consideraria o homem como um ser puramente espiritual. Mas tem uma idéia bastante objetiva para, compreender que, neste mundo pelo menos, é preciso contar com o corpo e as percepções e desejos sensíveis. Platão não é nenhum materialista ou sensualista. Mas também não se alinha entre os espiritualistas e panlogistas. Mantém-se numa posição média, mas tendendo sempre mais para a alma. espiritual; pois, o sensível, é para êle, algo de obscuro, enigmático, apenas objeto de fé, em todo caso, porém, não um puro ser. Mas omiti-lo de todo, isso não o podia, e daí o admitir a existência de uma "parte da alma" irascível e concupiscível das partes da alma não simboliza outra coisa senão essa passagem do espiritual para o sensível. Ela é uma superação do dualismo, do "chorismos". isto se vê muito claramente no Timeu; onde, expressamente, a alma concupiscível é concebida como princípio de vida (77 ab). Digno seria de saber-se como Platão pode fundir os dois elementos na alma — espírito e movimento.    Que têm ambos esses elementos de comum?


d) Destino da   alma


α) Encarnação. — Uma concepção particularmente típica do pensamento platônico é a sua doutrina da transmigração das_ almas. Depois de ter a alma saído das mãos do Demiurgo. é ela entregue ao "instrumento do tempo"; vive a sua primeira encarnação sobre a nossa, terra.  Este primeiro nascimento é igual para todos, para nenhuma alma ficar prejudicada. Ao cabo desta primeira vida, apresenta-se a alma, junto com o corpo, ao tribunal dos mortos, para dar contas da vida nesta terra Conforme o juízo, entrará ela no campo dos bem-aventurados ou será transladada para lugares de castigo no mundo subterrâneo. Mil anos durará esta sua peregrinação, seguindo-se-lhe então o seu segundo nascimento.


β) Escolha do caminho da vida. — Cada alma já esco-lhe, ela própria. o seu gênero de vida futura. Do além irrompem as almas, no prado dos asfódelos para escolherem cada qual a sua sorte, e, solenemente, um arauto anuncia: "Efêmeras almas! Este é o começo de um novo período mortal para toda a vossa mortal linhagem. A vossa sorte vos será determinada por nenhum demônio; vós próprias havereis de escolher o vosso demônio; a que tiver sorte de eleger primeiro, escolha logo o gênero de vida onde deve permanecer irrevogavelmente. A virtude não é propriedade de ninguém. Conforme a honrardes ou a desprezardes, assim dela recebereis mais ou menos. A culpa é de quem escolhe. Deus é inocente" (Rep. 617 d). Na escolha da forma de vida está_o verdadeiro perigo do homem. Poderá um escolher um destino que lhe aparece como belo ou magnífico (a tirania) para depois descobrir que ele implica vir a matar os seus próprios filhos. Queixa-se então—da divindade, e a culpa. Mas Deus é inocente, pois nós mesmos escolhemos o nosso demônio. A virtude não é propriedade de ninguém; i. é to dos podem adquiri-la.    Quem não o fêz é por ter sido vencido pela "sem razão e pela, cobiça".    Pois a eleição estava nas suas mãos, porque a alma, na sua vida anterior, conduziu-se e   formou-se   de  modo   tal,   que  pré-determinou   o  seu  modo atual de agir.    A maior parte faz a sua escolha  de acordo com  a sua anterior vida habitual  (Rep. 620a).    É por auto- determinação  que um   homem,   no  seu   segundo  nascimento, recebe  a  natureza  de  uma  mulher;  pois já  antes  deixou  a sensibilidade dominar a razão, tornando-se feminino.    Se Ajax se decide por um leão, é por ter antes vivido como um animal rapaz; se Tersites se faz mono, é que, antes, o charlatão já era um mono.    Tudo vem  a dar nisto:  que,  no  decurso da nossa vida, o auriga do carro da nossa alma, espírito e razão,  tome as rédeas nas mãos e domine, para dirigir, reta e acertadamente,   na nossa vida,  tudo quanto há em nós de  irracional e emocional — sentimentos, estados de ânimo, paixões e desejos.    "Armado  desta  convicção,  como  de uma  couraça de  aço devemos entrar no Hades, para, também lá, estarmos mundos de inabalável serenidade de ânimo contra a ânsia das riquezas e de outros males, e não nos aconteça cairmos na. violência dos tiranos e outras ações semelhantes e, assim, nos preparamos males insanáveis"  (Rep. 619 a).    Na medida em que a alma, no decurso da vida, contemplou as eternas Idéias e verdades,  e se apropriou mais  ou  menos  delas,  alcançará nas   suas futuras encarnações um grau mais elevado ou baixo de vida.


γ)  Tabela de valores das formas de vida. — Platão traça uma tabela de valores das várias formas de vida, muito instrutiva para se compreender a sua. valoração dos homens. A alma que mais contemplou as verdades eternas se encarnará no corpo de um filósofo ou servidor da beleza, ou das Musas, ou do Eros..   A segunda, se encarnará no corpo de um rei fiel cumpridor da lei,   A terceira, no de um bom estadista, chefe-de-família ou negociante.   A quarta, na de um ginasta amante do esforço, ou de um hábil representante da arte médica.     A quinta vem à terra para viver a vida  de um vidente ou de  um sacerdote sacrifícios.    A sexta  terá,  em  partilha,  a vida   um poeta.   A sétima a de um artíficie ou lavrador. A oitava, a de um sofista ou demagoga     A nona,  a de um Após a alma, depois, da primeira   encarnação, ter EScolhido, ainda por nove vezes,  o destino de   sua vida, torna Ela, passados dez  mil   anos,   â   sua   primeira   estréia,   donde veio. Só o filósofo, depois de ter escolhidopor três vezes a mesma vida, volta, após três mil anos, à sua pátria estelar. E então começa de novo a peregrinação, "A alma do homem é semelhante à água que vinda do céu sobe de novo ao céu para tornar  a cair sobre a terra,  assim numa peregrinação perpétua".


δ) Sentido da doutrina da metempsicose. — PLATÃO não deu, nunca, uma prova estrita da metempsicose. Com ela êle não faz senão nos repetir" o antigo mito, animado de um alto "ethos" e “athos", envolvendo-o na roupagem definha inigualável forma artística. Era, para êle, a tradição pitagórica donde deriva o andamento do seu pensar, um fundamento suficiente? Ou não deu tanta importância à doutrina da transmigração das almas, só lhe importando evidenciar a liberdade da vontade e a consciência da responsabilidade? Liberdade e responsabilidade são, na_ verdade, as duas grandes idéias filosóficas, que o mito encerra. "Tu mesmo és o autor da tua sorte e do teu caráter", poderíamos pôr, como título, ao mito da metempsicose. O pensamento de Platão nos desperta o conceito de Kant sobre o caráter inteligível. A amostra da vida a ser escolhida, e em que se deve irrevogavelmente permanecer, outra coisa não é senão a essência e o caráter de um homem. Que o caráter significa uma certa necessidade parai o agir do homem, Platão bem o viu quando disse que êle deve, irrevogavelmente, permanecer no caminho da sua vida.. Mas o caráter mesmo. segundo êle, é escolhido. Enquanto que, pelo caráter inteligível de Kant, não vemos como possamos ter qualquer influência na sua formação, e a liberdade, que êle deve assegurar, por sua vez, se   torna   ilusória,   PLATÃO declara,   expressamente,   que nós mesmos fazemos o oque somos; não é o demônio quem nos escolhe, mas nós o escolhemos a ele, pois está em nosso po der proceder dêste ou daquele modo. O primeiro nascimento foi igual para todos, sem a escolha de uma amostra de vida. Então podia cada um escolher a verdade ou a virtude que quisesse. Mas logo foram adensando-se, aos poucos, as decisões em torno de um núcleo pessoal, com um peso cada vez mais acentuado, de maneira a cada ura vir a traçar o seu próprio gênero de vida. A liberdade, porém, se faz sempre sentir nesse gênero de vida. E, assim, o determinismo não encontra, em Platão nenhumponto de apoio; éle é um adepto da liberdade da vontade, e, portanto, também um pronunciado arauto da consciência da nossa responsabilidade. Ele a proclama com seriedade, e uma elevação moral, como os grandes profetas das religiões mundiais. Os mitos escatológicos na Górgias (524 ss.), no Fédon (107 ss.) e na República- (614 ss.), pertencem aos mais puros monumentos da moralidade humana, e não os podemos ler sem nos sentirmos comovidos e enobrecidos.


e)    Conduta   da   vida


Se tais destinos estão em jogo, naturalmente importa, antes de tudo, orientar devidamente a vida. Pois. Platão não era, somente, um moralista, teórico, mas também fixou regras práticas de vida.    Todos as homens querem ser felizes.


α) A verdadeira felicidade. — Mas, adverte Platão, buscam sempre a felicidade por caminhos transviados. Mas, a buscam conforme as exigências dos desejos naturais, da parte Inferior da alma, fazendo-a consistir nas riquezas, no bem estar, no prazer e nas paixões. Mas nisso não pode consistir n verdadeira felicidade. Homens dessa natureza são sempre uns insatisfeitos," consomem-se nos seus desejos, por serem escravos das paixões, tornando-se assim os seus próprios carcereiros. Pensam outros poderem tornar-se felizes pela cobiça e a busca do poder. É a parte irascível da alma neles predominante.  São algo melhores que os primeiros. Mas o que apenas conseguem, na melhor hipótese, é se tornarem valoro-nos soldados ou uns bons esportistas, ou, outras vezes, e fre-quentemente, uns empreendedores dinâmicos e coroados de sucesso. A verdadeira felicidade só existe onde se tem em vista e se realiza a verdade e o valor. Orgulha e soberba são maus conselheiros; ainda piores, porém, os desejos. Só a razão Cria consegue a verdadeira felicidade, pois só ela indica o caminho da verdade.


β) A nossa primeira tarefa. — o caminho para a felicidade pressupõe as Idéias eternas. Por isso a ignorância é a verdadeira doença da alma. Saber e contemplar a verdade é a verdadeira saúde psíquica. Se rastrear o pensamento de Deus, manifestado na criação, e se conhecer a ordem divina, então encontrará a alma o alimento de que necessita. Ainda mais, por aí ela se iguala à riqueza interior de Deus, cuja natureza se exterioriza nas suas Idéias e na sua atividade criadora;  e com ele se assemelha.   "Semelhança com Deus, tanto quanto fôr possível, i. é, santificar-se o homem e justificar-se, fundado na inteligência e na sabedoria" (Teet. 176 b), é o seu alto destino. Protágoras tinha dito ser o homem a medida de todas as coisas. Platão diz: "Deus é a medida de todas as coisas"  (Leis, 716 c). Toda a concepção moral se resume num ethos do real, da verdade e da retitude. Ele condena tanto o prazer e a paixão como a cobiça e o orgulho, guias completamente cegos. O arbítrio subjetivo, com sua insaciável avidez, (πλεονν εχειν), tem que calar-se. É aqui que se aplica a norma relativa ao Estado: "Fazer cada um o seu dever" (τα εαντον πραττειν). Mas este devemos conhecê-lo com clareza; por isso, aprender, e aprender sempre, é a nutrição da alma.


γ) O homem harmônico. — Mas isto não vem a cair no tão censurado intelectualisino? Platão fala a linguagem que lhe é própria, sem dúvida. Mas, na realidade, não é nenhum intelectualista. Quem faz do Eros o objeto de dois diálogos, o Simpósio e o Fedro, e considera, na sua República-, a coragem e o domínio sobre si próprio como as virtudes fundamentais da comunidade, tem consciência muito clara de que o homem não pode ser feliz só por meio da ciência. Platão decide-se, e em seu favor fala a mais madura experiência da vida, por uma harmônica e equilibrada formação de todo o homem. Uma travação desajeitada entre as forças da alma e do corpo é algo de não belo e não bom para o todo. Uma alma forte pode provocar a doença num corpo fraco, tanto por um inconsiderado esforço no aprender e indagar, como também pela cobiça e pela paixão. Inversamente, pode uma educação unilateral do corpo arruinar a alma e o espírito, levando-o a pensar mal, o que é a máxima doença do homem. Por isso, quem aprende e estuda não deve olvidar a ginástica; quem, de outro lado, cultiva o corpo, não deve também deixar o espírito em plano inferior; do contrário, não merecerá o nome de homem verdadeiramente educado. Platão também sabe. que o homem precisa de alegria e felicidade, e de uma certa soma de prazeres. Nas Leis e no Filebo os toma em consideração e se decide por uma ‘"vida mista de inteligência e prazer. Mas Platão tem, além disso, consciência muito clara de que nenhum princípio irracional pode erigir-se num princípio ético, isto é, no guia da nossa vida, chame-se isto sangue ou raça, honra ou orgulho, instinto ou sentimento, vontade de poder ou humanidade de senhores.    O carro da alma sempre há de dirigi-lo a razão, e só ela. Só ela deve ter as rédeas nas mãos. Deve ela governar tudo, mesmo o sentimento da honra, do prazer e do gozo. Os cirenaicos, com o seu hedonismo, pospuseram a dignidade moral; e os cínicos, com a rudeza da sua virtude, a necessidade de se ser feliz. "Platão foi o primeiro a nos ensinar como o homem pode ser, ao mesmo tempo, bom e feliz (ωζ αγαθοζ τεκαι ενδαιμον αμα γιγνεται ανηρ), diz Aristóteles no elogio fúnebre de seu mestre.


f)    Imortalidade


Os pensamentos de Platão sobre a imortalidade da alma constituem a conclusão da sua doutrina sobre, o homem. Acham-se desenvolvidos sobretudo no Fédon, ao qual se deve acrescentar o Fedro 245 c, a República. 608 d e as Leis 895 f. Três são os argumentos que aduz. Primeiro, a imortalidade resulta da existência dos conteúdos a priori do pensamento, que, não provindo da experiência da nossa vida terrestre, já devem ter sido adquiridos antes, e isso pressupõe uma vida anterior da alma. Este argumento, estritamente falando, conclui apenas a preexistência da alma. Mas a sua pós-existência resulta da reflexão ulterior, de que todo devir e perecer supõem uma transição entre estadas opostos: ao. sono sucede o despertar; ao despertar, o sono; ao frio, o calor; ao calor, de novo o frio, etc. Poderíamos, assim, conceber a preexistência da alma como um sono, a que deve corresponder um despertar, de novo sucedido pelo sono, e assim indefinidamente. E, com isto, estaria assegurada a imortalidade. Além disso, a alma deve ser imortal por ser simples. Um cessar de existir só é possível onde há uma separação de partes, e esta só existe nos corpos. O não ser a alma dessa espécie resulta da sua afinidade com as idéias. As Idéias são algo de "uniforme", sempre iguais a si mesmas, E oconhecem um "fluxo e um refluxo", como acontece com os corpos. São simples. Ora, a alma é o lugar de conhecimento das Idéias; portanto, devemos concluir que ela, estruturada do mesmo modo, é também simples. Finalmente, a imortalidade da alma resulta da sua essência, Alma, segundo d indica o seu conceito, significa vida. Ora, esta é auto-movimento. Mas o auto-movimento deve ser imortal; pois, o cessar dele acarretaria  o   cessar   de  todos  os  demais  movimentos,   que, em última análise, se reduzem ao auto-movimento, ao psíquico. Ora, se tal se desse, o céu, na sua totalidade, e o processo do mundo, em geral, cairiam na inércia. Donde devemos concluir que a alma é algo de imortal.


g)    Influências


As provas platônicas da imortalidade da alma prestam o flanco a objeções. O último modo de raciocinar é um argumento que lembra a prova do argumento ontológico. Quanto à primeira e segunda provas, não são cogentes, por só chegarem a uma conclusão analógica. Todavia, essas reflexões de Platão ficaram imortais. Pensadores que lhe sucederam voltaram sempre a elas, melhorando-as e buscando-lhes novos fundamentos. Sob uma forma- ou outra, elas sempre vêm à. tona, até em nossos dias. Mas a sua concepção, que realmente veio a exercer influência, é a. de que o homem é, essencialmente, a alma; e de que a sua verdadeira pátria não é este, mas o mundo do além. Esta tese do platonismo encontra-se com a do Cristianismo. Quando Tomás de Aquino, servindo-se de conceitos aristotélicos, concebe a felicidade eterna (visio beatifica) como vita contemplativa, êle se socorre apenas das palavras, e não do espírito, de Aristóteles, que põe a felicidade do homem neste mundo. Mas, é_ bem certo que é nos mitos escatológicos de Platão, e particularmente no Fédon, que se afirma a crença — oriunda dos pitagóricos, como já sabemos — de que só depois da morte teremos a plena visão da verdade, e que só poderá tornar a alma perfeitamente feliz, depois de ter vivido bem e passado, com êxito, por um justo juízo. A palavra de Agostinho, sobre as relações entre o Platonismo e o Cristianismo, recebe a sua mais plena verdade à luz da concepção do homem: "Nunca ninguém esteve tão próximo de nós como os Platônicos" (De civ. Dei, VIII, 5).


h)    Bibliografia


B. Hoffmann, Methexis und Metaxy bei Platon. Jahresber. des Philol. Berlin (1919). J. Souilhé, La notion platonicienne d’in-termédiare (Paris-, 1919). H. Barth, Die Seele in der Philosophie Platon- — As Almas na Filosofia do Platão (1921). Do mesmo: Eidos und Psyche in der Lebensphilosophie Platons — Eidos & Psyche na Filosofia da Vida,  de Platão   (1932).   M. de Corte, Anthropologic platonicienne et   Anthropologie    ariitotecieenne.ÉtudesCarmélitain   23 (1938),     R.   Schaerer,  Dieu,   l’homme  et   lavie  d’apres Platon   (Neuchatel,   1944).    J.   Wild,   Plato’s   Theory  ofMan-   (Cambridge,   Mass., 1947).

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