OS DE FORA
Oliveira Lima
OS DE FORA
Na falta de outros defeitos a assacar-lhe, está-se atribuindo à candidatura do Sr. Barão de Suassuna o de provir de fora do Estado. Na verdade ela irrompeu simultaneamente fora e dentro do Estado, como um protesto contra a imposição de uma candidatura oficial sem recurso nem apelação senão para a convulsão pública e a intervenção federal. Mas quando a prioridade tivesse cabido aos pernambucanos do Rio, como e por que deixaram eles de ser pernambucanos pelo fato de residirem na capital da República? É esta sequer situada em terra estrangeira?
Deixemo-nos de hipocrisia: ali de fato aspira ir viver a maioria dos pernambucanos. Poucos são os que podendo, para lá se não mudam. Nem todos o têm feito voluntariamente: alguns têm sido coagidos a isso pela política, ou que melhor nome tenha. Eis por exemplo o caso de Delmiro Gouveia, que era pernambucano de criação, um verdadeiro gênio industrial, um dos brasileiros mais ousados em negócio, de idéias fecundas e arrojadas, mais benemérito por estas suas iniciativas, aqui perseguido, preso sem crime e homisiado noutro Estado.
Aliás temos dessas injustiças. Somos capazes de num dado momento nos deixarmos arrastar por um aventureiro político e empolgar por um gritador de feira, fechando os ouvidos à linguagem serena de homem sinceramente patriota que desdenhe os processos dos prestidigitadores. Esta comunidade, como de resto muitas outras, cerra-se por vezes de um modo estranho a certas dedicações das mais aproveitáveis e desinteressadas, para ir aclamar especuladores que a seduzem, no dia seguinte a enganam e no terceiro a espancam. A reação vem, não há dúvida, mas às vezes já tarde.
Não há nisso alusões a personagem alguma: estou falando de um modo geral e impessoal. A observação é que é exata e muito mais freqüentemente cabe a culpa aos partidos, com seu horizonte estreito, do que ao gr os piibüc, que por instinto enxerga mais longe. E assim se cometem iniquidades e disparates, o que talvez seja ainda pior. Eis um exemplo.
Eu estava aqui no ano passado quando dhegou do Rio o Sr. Dr. Antônio Carneiro Leão, moço que se constituiu um apóstolo da instrução no Brasil, que tem feito a mais brilhante campanha em favor da educação, não só primária como profissional, para elevação das camadas populares, que, especializando-se nos assuntos pedagógicos, alcançou nos mesmos uma notória autoridade, como tal acatado na capital federal e nos Estados mais adiantados do Sul — São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Minas Gerais. Quando o Sr. Dr.
Carneiro Leão, aqui nascido, criado e formado, veio depois de unia ausência rever a terra natal, vagara justamente a diretoria da ins-trução pública pela transferência do Sr. Dr. Andrade Bezerra para a Camara Federal e do Sr. Dr. Olinto Vítor para a secretaria do Govêrno. O recém-chegado parecia entre todos no país a pessoa naturalmente indicada para o cargo. Pois foi convidado para exercê-lo o Sr. Dr. Arnóbio Marques, médico dos mais conceituados e espírito de boa cultura, mas, como êlc próprio honradamente o disse na ocasião, sem preparo particular para desempenhar as novas funções que lhe arbitraram. Razão demais se lhe faltam aptidões especiais, ter-lhe-ia respondido. O que nós não queremos são inovadores, sujeitos que para aqui venham reformar. Na verdade o abeccdário é um só e não há dois modos de ensiná-lo: é "b a bá, b e bé", e assim por diante até "b u bu".
O Sr. Dr. Caneiro Leão, que não viera procurar emprego, apenas visitar seus parentes e amigos, voltou para o Sul, onde continua honrando o nome pernambucano. Podemos censurá-lo por ser um pernambucano do Rio?
O Sr. Dr. Barbosa Lima é outro pernambucano do Rio, que tem sido até acremente censurado por mostrar interesse pelo nome do Sr. Barão de Suassuna. Negou-se mesmo que lhe houvesse telegrafado no sentido de aceitar a candidatura, o desmentido devendo servir para aplacar adversários. Não há razão para tal. O Sr. Dr. Barbosa Lima instou com o seu velho amigo para que se conformasse com o voto de tantos patrícios, e telegrafou-me também a mim para que eu contribuísse, se tanto me fosse dado, a persuadi-lo da necessidade de cumprir esse dever cívico. Note-se que o Sr. Dr. Barbosa Lima tinha para isso todos os títulos, inclusive o de o ter querido muito para seu sucessor no governo. Somente o não impôs, em primeiro lugar porque o Sr. Barão de Suassuna não quis ser candidato, e depois porque ainda se fazia cerimônia com o eleitorado re-fratário a herdeiros presuntivos. Escusado é recordar que o Sr. Dr. Barbosa Lima, um dos responsáveis pelo regime republicano e um dos seus paladinos mais ardentes, é um dós nomes mais prestigiosos do país pela sua ilustração e honestidade.
É mesmo lícito pensar que os habitantes de um Estado, residentes fora dele, julgarão provavelmente com maior equanimidade o que lá possa ocorrer, do que muitos exaltados c obcecados pela luta doméstica, feita em grande parte de paixão e de falsidade. Muitos desses deracinés serão simplesmente os adeptos de uma situação derrubada, forçados a sair pela mudança tantas vezes revolucionária de governos, acompanhada de intolerância, perseguições e vinganças. Perderam esses filhos distintos da terra o direito de por ela se interessarem acompanhando-lhe as pulsações políticas e procurando até reaver o leme que arrebataram de suas mãos?
Pode dar-se até o caso de um movimento salvador ser concertado em país estrangeiro por asilados políticos — Venezuela é fértil roesses exemplos — e dar-se também o caso — exemplo o movimento monárquico português — de não encontrar êle apoio unânime entre as colonias que entre si mantêm a solidariedade constituída pela saudade e amor do berço distante, sentimento diverso do da preferência pela forma de governo.
Não se refletiu por acaso no Rio, se é que dali não procedeu, a luta entre rosistas e dantistas? E pelo menos não veio do Rio o Sr. Marechal Dantas Barreto? Quantos aqui o conheciam? Não reside lá ainda, como de resto reside o Sr. Conselheiro Rosa e Silva, sendo eles dois os chefes dos dois únicos partidos existentes em Pernambuco, porquanto o borbismo como o bezerrismo não passam de usurpações oficiais do nome do partido dantista, todas essas designações emprestando o cunho pessoal, de que nós brasileiros tanto gostamos, à expressão democrata. Rosismo por sua vez dissimula a imersão da agremiação formada no último período do governo do Sr. Dr. Barbosa Lima no P. R. C.
No tempo do Império, os chefes dos partidos viviam sempre no Rio e eram chefes a valer — Camaragibe, João Alfredo, Vila Bela, Luiz Felipe. Vinham de quando em vez aos seus feudos, como então se dizia — com menos verdade do que hoje. Entretanto, nenhum desses homens públicos deixou jamais de ser muito pernambucano. Basta-me citar um outro que levava este sentimento local ao mais alto grau. Refiro-me ao Barão de Lucena.
Fui amigo e freqüentador da casa do ilustre titular e quando lá passava algumas horas, o meu espírito, sobre cujo particularismo o cosmopolitismo tem necessariamente lançado o seu manto estrelado, estava certo de receber uma dose fresca de bairrismo. Lá só se conversava sobre Pernambuco; só se serviam na mesa pratos de Pernambuco; só se glorificava Pernambuco. Eu creio que o meu maior título à amizade que o Barão de Lucena sempre me testemunhou foi o ter, apesar de estudar e viver na Europa, dedicado o meu primeiro livro à história de Pernambuco escrevendo uma monografia, a qual, malgrado o crescido número de sócios do Instituto Arqueológico aqui residentes, ainda não teve concorrência.
O Barão de Lucena era por tal forma pernambucano que penso que se alguém se lhe apresentasse e dissesse que tinha descoberto o movimento contínuo, êle começaria por lhe perguntar de que terra era e se o inventor respondesse — de Pernambuco, estabelecia ipso facto nove probabilidades sobre dez de crédito em favor da sua invenção.
Assim são em muitos casos "os de fora".
Fonte: Oliveira Lima – Obra Seleta – Conselho Federal de Cultura, 1971.
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