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OS CAMINHOS ANTIGOS E O POVOAMENTO DO BRASIL – Capistrano de Abreu

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OS   CAMINHOS   ANTIGOS E   O   POVOAMENTO   DO   BRASIL*

Na era de 1 530 o território entre o e Santa Catarina foi dividido em 12 , desiguais em superfície, limitadas toda a Este pelo Atlântico, o Oeste pela linha fantástica de Tordesilhas.

Até então o Brasil estivera entregue a degredados, a desertores, a traficantes da madeira que lhe deram o nome. Seu povoamento fora descurado inteiramente, embora Diogo de Gouvêa e Cristóvão Jaques apontassem, como meio único de impedir as incessantes incursões francesas, a fundação de pcvoações e fortalezas, que não deixassem carga para as naus de contrabandistas. Com o ano de 1 535 se iniciou um movimento capital, que ainda hoje continua.

Como se deu? Pode-se apanhá-lo em algumas linhas principais, qual de um país se reúnem todas as águas em poucas bacias preponderantes? E’ o que se pretende averiguar neste ligeiro   esboço.

* Estudo publicado no "Jornal do Cornmercio de 12, 29 de agosto e 10 de setembro de 1 899 e reproduzido, refundido e ampliado, na "America Brasileira"’, ns.   32,  33  e 34  de agosto, setembro e outubro  de  1 924.

 

 

1

Começaremos eliminando das 12 primitivas capitanias as que demoravam além do cabo de S. Roque.

João de Barros, Fernão Álvares de Andrade, Ayres da Cunha, Antônio Cardoso de Barros passaram sem deixar sinais. A ponta arenosa e sáfia, descoberta em agosto de 1 501, resistiu à onda colonizadora tão rijamente como o Bojador e o Tormentório aos que procuravam o caminho marítimo das índias. A ocupação permanente da costa de Nordeste, ou Leste-Oeste segundo mais geralmente se dizia, só vingou no século XVII.

Eliminemos também o território entre o Sul da baía de Todos os Santos e a capitania de Santo Amaro. Por todo êle se estendia mata grossa e enredada, que vedava passagem. A via única de penetração somava-se em rios encachoeirados, que era possível vencer e foram de fato vencidos: Sebastião Touri-nho, Adorno, Azeredo, atestam-no. Da passagem de tantos homens audazes apagava-se, porém, o efeito com a esteira das canoas que montavam. Seus nomes pertencem antes à erudição que à história. Ilhéus, Porto Seguro, Espírito Santo, parte de S, Vicente e Santo Amaro pouco diferiram em 1 801 do que foram em 1 601. Rio de Janeiro figurava uma exceção, por motivos indicados adiante.

Feitas estas eliminações, restam Pernambuco e S. Vicente, e os troços da capitania de Pero Lopes, que sempre gravitaram para as cie Duarte Coelho e Martim Afonso, e finalmente nelas se absorveram. São estes os dois primeiros focos do povoamento da nossa terra.

A posição de Pernambuco, na parte mais oriental do novo e mais vizinha do velho mundo, facilitava as comunicações com a Europa de onde viriam capitais e braços a explorar suas riquezas. Duarte Coelho, donatário primitivo, soube aproveitar enérgico a situação e firmar sòlidamente seu domínio. Os sucessores o imitaram. Até a invasão holandesa Pernambuco se avantajava em população, riqueza e cultura a todas as irmãs.

 

Duarte Coelho se estabelecera em Igaraçu, na divisa de Itamaracá, capitania de Pero Lopes, passando depois para Olinda, mais ao Sul.

Para o Sul continuaram Jerônimo de Albuquerque, Duarte Coelho II, Jorge de Albuquerque. No mesmo sentido trabalharam particulares, como João Paes, que fundou oito engenhos junto ao cabo de Sto. Agostinho, como o fidalgo alemão Cristóvão Lins, cuja viúva, D. Adriana de Olanda, vivia ainda na era de 1640, com 110 anos de idade, cercada de cinco gerações de descendentes; trabalharam ainda outros, cuja lembrança não se conservou com o mesmo cuidado.

A tendência de todos esses povoadores era evidentemente o rio de S. Francisco, que o primeiro donatário se oferecera a conquistar, seduzido) pelas riquezas dele fabuladas. Pelos anos de 1 630 estava repartido todo o espaço entre Igaraçu e sua foz, e ainda além; Duarte Coelho III elevou Penedo à categoria de vila.

A invasão holandesa sustou o avanço. Bagnuoli, Camarão, Henrique Dias, Vidal, Barbalho, abriram caminhos que lhes permitiam passar longe do mar de um a outro extremo de Pernambuco. Com a capitulação de Taborda, a evacuação do Recife e a vitória final dos patriotas, o desuso os tornou obsoletos e por fim fecharam-se, para não se abrir senão muito tarde, quando o primeiro impulso colonizador divergira para outros rumos.

Na segunda metade do século XVIII não se penetrava no Recife além de Bezerros, a quinze léguas para o interior: o que ficava além entendia-se com a Bahia. O Bispo Azeredo Cou-tinho alegava como um dos serviços de seu governo interino (1798-1804) ter aberto um caminho comunicando a praça de Olinda com os sertões de S. Francisco.

Esse caminho serôdio que, a julgar por uma indicação vaga de frei Caneca, acompanhava o Capiberibe até Taquaritinga, de onde demandava o Brejo da Madre de Deus, isto é, sertões batidos por baianos um século antes talvez, explica exuberantemente por que motivo os limites pernambucanos recuaram de Carinhanha, hoje divisa de Bahia e Minas Gerais, para Pau de Arara, cento e cinqüenta e quatro léguas rio abaixo, segundo as medições de Halfeld, e, ao contrário, a Bahia se estendeu até as fronteiras de Goiás. Pouco repara quem vir nisto apenas efeitos do decreto de 7 de julho de 1 824, que desligou de Pernambuco a comarca de S. Francisco, e da resolução de 15 de outubro de 1 827, que a incorporou à Bahia. Estes dois atos apenas apuram a Nêmesis da história.

Os serviços superiores de Pernambuco, avultam em direção muito diferente. De lá partiu a assistência perene para Itamaracá, tantas vezes premida pelos potiguares irreconciliáveis; as numerosas expedições que trouxeram a conquista árdua da Paraíba e do Rio Grande do Norte, onde franceses e potiguares fincaram pé mais de trinta anos antes de se darem por vencidos; o avanço arrastado para o Ceará, a , a , a investida do .

A situação oriental de Pernambuco, tão favorável a outros respeitos, designava-o de preferência aos ataques vindos do Oriente. O último partiu dos holandeses, que só abandonaram o território heróico depois de um quarto de século de ocupação pertinaz. E a incorporação de Fernando de Noronha, no alternar, a Nordeste, prolongamento antegeográfico de Pernambuco, em desafio ao Oriente ultramarino, não é menos instrutiva do que a sua atrofia irreparável a Sudoeste.

O influxo de Pernambuco foi efêmero em todas as terras situadas além do Paraíba, e mesmo aquém, no Piauí que, apenas começadas a povoar, constituíram logo o estado do Maranhão, isolado inteiramente do resto do Brasil por circunstâncias que depois indicaremos1; quando se reataram novamente os laços, já estava esquecida a que se pode chamar, a segunda metrópole. Ao contrário, Paraíba, Rio Grande do Norte, e mais tarde Ceará, depois de desligado do Maranhão, Alagoas, conservaram-se em maior ou menor dependência comercial, econômica e política até nossos dias.

 

1.     Pernambuco.

Embora em menor escala, que da Baía de Todos os Santos para o, Sul, as serras   e   inatas   opuseram-se   ao   povoamento   normal   de   Pernambuco.

A existência e resistência dos quilombos de Palmares seriam impossíveis em outras  condições.

As páginas do texto, como saíram primeiro no Jornal do Commercio, e agora vão ligeiramente atenuadas, provocaram as seguintes linhas de Aníbal Falcão, grande e luminoso espínto, que a morte atingiu em plena floração. Para apanhar bem seu alcance convém lembrar que Aníbal professava as crenças do positivismo mais ortodoxo.

"Paris, Domingo, 15 de Outubro de 1S0P, — 1, rue Merlon (Avenue Marceau). — Aproveito estes momentos de repouso, a que me obrigam a doença e a necessidade de dar outro alimento à cabeça, para escrever-te dum artigo que li no Jornal do Commercio, acerca do . Não julgo que seja teu o trabalho, mas é evidentemente inspirado nos teus estudos, de que ern conversa  me  deste notícia.

Na publicação a que aludo são acusados os’ pernambucanos de não haverem completado  o  reconhecimento  de  sua  terra.

O fato ê incontroversível, mas a inculpação imerecida. Sobretudo quando se  enaltecem  os méritos  dos paulistas.

Não haverá nisso resquícios da ingratidão dos cearenses para conosco? De tua província raros representantes de algumas excepcionais famílias se mostraram, por atos políticos, ligados aos pernambucanos; a essa solidariedade parece agora   atribuir-se  a   comunhão  no  ódio  ao  poder  adverso.

Donde vem esse sentimento hostil? Provavelmente da preponderância etnológica  do  caboclo.

Digo etnológica justamente porque a influencia sociológica dos antigos Incolas do   Brasil   foi  quase   nula   na  constituição   de  nossa   nacionalidade.

Podes procurá-la por toda parte, e em nenhuma lograrás achá-la. — Xo indianismo literário? — Mas é, em Alencar, seu grande representante, um produto de imitação de que foram modelos Fenimore Cooper e Chateaubriand. Em Gonçalves Dias — mulato — é pura erudição. Esse grande poeta devera ter cantado os   negros,   cujos   ternos   sentimentos   revelou   em   formas"  eruditas.

Antes desses, que são o autor do Caramuru e Basilio da Gama? Artífices estrangeiros.

O cearense ficou desconfiado por ser da insociâvel raça do Floriano; ao passo que o pernambucano íêz triunfar na Terra Papagallorum a missão dos Portugueses.

Tu, que deves ser o historiador da Fundação do Brasil, ouve estas razões que  te  vou  dizer.

Os pernambucanos não escudrinharam o país em cuja orla marítima elegeram sua habitação, por muitos motivos dos quais descobriste um: a inavegabilidade dos rios (salvo — e ainda assim! — o S. Francisco) pelos quais deveriam subir ao sertão. Os outros motivos — muito mais importantes- — podem resumir-se no seguinte: eles tinham coisa mais importante a fazer, que era, após se terem estabelecido em pontos que lhes pareceram favoráveis, e depois de haverem, percustrado  o  litoral  vizinho,   defender  as   suas  posições.

Só isto lhes custou esforço meritório de grande reconhecimento nosso. Mas muitíssimo benefício nos deram maior que esse: o da pronta constituição de uma nova Pátria — a nossa. Tudo eles da Europa transportaram às regiões vizinhas do Iguaraçu, e defenderam-no com heroísmo: costumes, leis, indústrias, literatura científica e poética, — o conjunto, enfim, da mais adiantada civilização do mundo  atual.

Que  fizeram os teus paulistas?

Em primeiro lugar, porque eram já habitadores do sertão, não tinham que lutar com os fortes competidores europeus; em segundo lugar, descobriram apenas o que se lhes deparou na sua caçada aos índios para a exploração do ouro. Nisso não os guiava o primeiro impulso dum brasileirismo espontâneo: a cobiça devastou-lhes terras cujos íncolas eles exterminaram pelo arcabuz ou pelo cativeiro.

Ainda que eu pudesse demonstrar essas afirmativas, nem tenho tempo de o fazer, nem tu de tal precisas. Mas, Capistrano de Abreu, historiador do Brasil, carece de justiça e de verdade. Que o Tietê não se lhe represente, melhor do que é e, sobretudo, foi: o rio da escravidão dos índios está muito longe de haver sido o Nilo,  em cujas margens se fundou  a nossa civilização."

 

18 — C. H. Colonial

 

 

 

A falta de bons portos e rios navegáveis, ou pelo menos perenes, em toda essa zona ingrata do Nordeste e a proibição, vigente mais de cem anos, de comerciarem suas capitanias subalternas diretamente com o reino, influíram bastante para o resultado.    Não menos concorreria o fato dos pernambucanos aqui não terem tido repugnância de entrar pelo sertão.

No avanço para o sertão defrontaram os índios, em que sobressaíam os cariris, antigos dominadores do litoral, então acuados entre o S. Francisco e a Ibiapaba. A sua resistência foi terrível, talvez a mais persistente que os povoadores encontraram em todo o país; mas atacados no rio S. Francisco, no Piranhas, no Jaguaribe, no Parnaíba, por gente de S. Paulo, da Bahia, de Pernambuco, da Paraíba, do Ceará, foram uns mortos, outros reduzidos a aldeamentos, outros agregados a fazendas, fundindo-se e confundindo-se com os colonizadores alienígenas.

A pacificação dos cariris, mais ou menos completa nos primeiros decênios do século XVIII, deixou livre uma grande área e por ela alastraram numerosas fazendas de gado. Dos povoadores alguns se corresponderam principalmente com a Bahia ou Minas Gerais, outros demandaram do Acaraú, do Jaguaribe, do Piancó, através da Borborema, o litoral pernambucano.

Antonil calculava em mais de oitocentas léguas a extensão ocupada por currais pernambucanos, a contar de Carinhanha. A maior parte escoava para fora da capitania. Excluindo o S. Francisco, alista nos centros pastoris o rio das Cabaças, o rio de São Miguel, as duas alagoas com o rio do Porto do Calvo, o da Paraíba, o dos Cariris, o do Açu, o do Podi, o do Jaguaribe, o das Piranhas, o Pajeú, o Jacaré, o Canindé, o Parnaíba, o das Pedras, o dos Camarões e o Piaugui.

Nos primeiros tempos Piauí pertencia a Pernambuco e a freguesia da Mocha dependia da de Cabrobó.

Dos pontos extremos a que chegou a ascendência de Pernambuco para o Norte podemos indicar Lavras, no Jaguaribe, em cujas cercanias estavam a fazenda do Juiz, pertencente ao mosteiro de S. Bento de Olinda, e Caiçara ou Sobral, na ribeira do Acaraú. Ligando Sobral às terras de Parnaíba, tornou-se viagem relativamente fácil vir do Maranhão e Piauí a Pernambuco pelo caminho indicado.

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