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Na
arenosa costa Nordeste do Brasil sopram os ventos, cursam as correntes em
direção invariável durante certa parte do ano. Lê-se isto na forma das dunas
abruptas para Este e brandamente inclinadas para Oeste, nos leques dos rios,
cujas bocas orientais, como as primeiras que apanham a areia, são menos
profundas que as bocas ocidentais. Decorreu daí com igual clareza a elevação
do Maranhão a Estado independente logo depois da conquista, devido à
impossibilidade de ligá-lo de maneira constante ao território de Este e
Sueste.

A
ilha do Maranhão, tomada aos franceses em 1 615, e até certo ponto centro de
comunicações e povoamento, nulo nos primeiros tempos e nunca muito
considerável pela ralidade de sua população.

A
situação primitiva, descreve o missionário incansável, o jesuíta glorioso que
subiu as primeiras cachoeiras do Tocantins e respirou os ares da Ibiapaba.

"Uma
das mais dificultosas e trabalhosas navegações de todo o mar Oceano, escreve o
ilustre Antônio Vieira, é a que se faz do Maranhão até o Ceará por costa, não
só pelos muitos e cegos baixios, de que toda está cortada, mas muito mais pela
pertinácia dos ventos e perpétua correnteza das águas. Vem esta correnteza
feita desde o cabo da Boa Esperança com todo o peso das águas do Oceano na
travessa, onde éle é mais largo, que dentre as duas costas de África e América,
e começando a descabeçar desde o cabo de Santo Agostinho até o cabo do Norte, é
notável a força que em todo aquele cotovelo de costa faz o ímpeto da corrente,
levando após si não só tanta parte da mesma terra que tem comido, mas ainda aos
próprios céus e os ventos que em companhia das águas e como arrebatados delas,
correm perpètuamente  de Leste a  Oeste.

"Com
esta contrariedade contínua das águas e dos ventos, que ordinariamente são
brisas desfeitas, fica toda a costa deste Estado quase inavegável para
barlavento, de sorte que do Pará para Maranhão de nem um modo se pode navegar
por fora e do Maranhão para o Ceará com grandíssima dificuldade, e só em
certos meses do ano que são os de maior inverno.

"Navega-se
nestes meses pela madrugada com a bafagem dos terrenos, os quais como são
incertos e duram poucas horas, todo o resto do dia e da noite,  e às vezes 
semanas  e  meses  inteiros,  se está  esperando  sobre ferro na costa descoberta e sem abrigo, sendo este um
trabalho e enfada mento maior do que toda a paciência dos homens; e o pior de
tudo é que, depois desta tão cansada porfia, acontece muitas vezes tornarem as
embarcações arribadas ao Maranhão."

E o
admirável escritor cita o caso de dois jesuítas que indo em uma sumaca de São
Luís para o Camocim, gastaram cinqüenta dias em montar só até o rio
Preguiça, viagem que, quando desenganados, resolveram tornar, desandaram em
doze horas.

Relativamente
ao Pará a situação do Maranhão era mais favorável. Entre as duas capitanias
chanfram-se numerosas baías, trinta e duas segundo as contas do tempo;
conquista, devido à impossibilidade do local se a navegação por fora era impraticável,
a navegação interna por canoas era sempre mais ou menos possível.

Além disso,
mais de uma vez se recorreu a caminhos terrestres para anular o segregamento.

Mencionam
certos cronistas que os primeiros colonos abriram um de Belém a São Luís.
Assegura Paula Ribeiro ter distinguido ainda vestígios de antiga estrada, em 1 811,
na vizinhança da vila de Viana, que passava da ilha à terra firme pela Estiva,
Anajatuba, e depois de atravessar o Mearim, o Pindaré e o Turi, entrava na
cidade do Pará. Entretanto, esta parece antes a que por 1770 abriu com êxito
não muito satisfatório Evaristo Rodrigues, natural de Pernambuco, para
introduzir no Pará gado do Maranhão e Piauí.

Como
subsistem todos os mais obstáculos das inundações e falta de pasto, escrevia
por aquele tempo o original autor do Roteiro do Maranhão a Goiás vela
capitania do Piauí,
e subsistiram de novo também os mesmos que ele
removeu, pela facilidade com que costumam cair das matas as mesmas árvores e
madeiros, nunca esta estrada se fará praticável enquanto a dita mata não fôr
por toda ela povoada.

Refletindo
no que diz Vieira sobre a navegação por fora, e em seu silêncio quanto a
qualquer via terrestre que desviasse os obstáculos, parece razoável a opinião
de Varnhagen, que apenas fala de ter sido a Pedro Teixeira "confiada a
missão de abrir ou fazer mais praticável a comunicação terrestre-fluvial até
Maranhão". Esta existiu até o século XIX: descreve-a
Oliveira Bastos, descreve-a Romualdo Antônio, que mais tarde devia realçar o
nome paraense no sólio da Bahia. Partia de Belém, subia o Guamá, passava por
Ourem e Bragança, e saía na costa junto ao Turi-Açu.

Bem diversa
apresentava-se a situação para o Ceará e mais capitanias de baixo, donde por
mais antigas e cultivadas, podia vir auxílio que a Amazônia ainda virgem
recusava.

 

Logo
depois da batalha de Guaxenduba, Jerônimo de Albuquerque mandou portadores por
terra do Maranhão a Pernambuco; a Olinda recolheu-se por terra André Vidal de
Negreiros, terminado o seu governo; pelo mesmo caminho foi o padre Vieira da
ilha de São Luís a Ibiapaba.

Podemos,
pois consultar o missionário com toda a confiança sobre as vantagens desta via
de comunicação.

"Um
dos perigos e trabalhos grandes que tem este caminho é a passagem de quatorze
rios mui caudalosos que o atravessam e se passam todos por meio da foz, onde
confundem e encontram suas águas com as do mar; e porque não há nestes rios
embarcação para passagem, é força trazê-la do Maranhão com imenso trabalho,
porque se vem levando às mãos por entre o rolo e a ressaca das ondas, sempre por
costa bravíssima, alagando-se a cada passo, e atirando o mar com ela e com os
que a levam, com risco não só dos índios e da canoa, se não da mesma viagem que
dela totalmente depende.

Muitas vezes
é também necessário arrastá-la por grande espaço de terras e montes para a
lançar de um mar a outro e talvez obrigam estas dificuldades a tomar a mesma
canoa em peso às costas, com toda gente e levá-la assim por muitas léguas: de
modo que para haver embarcação para passar os rios, se há de levar pelo mar,
pela terra e pelo ar."

Destes
apuros resultou que o Ceará se desligou desde as guerras flamengas do estado do
Maranhão, e tão insensivelmente que ainda não se fixou a data do fato nem mais
se encontrou decreto ou alvará mandando isto. Resultou mais que o Pará, apesar
da proximidade, persistiu intato e segregado, de preferência estanque do
vizinho, procurando a metrópole. Resultou felizmente efeito mais perdurável e
fecundo: afastados dos seus vizinhos do Norte, do Sul e Este, por tantos
obstáculos invencíveis, os moradores do Maranhão procuraram contorná-los e
conseguiram.

Primeiro
passo neste sentido pode considerar-se a exploração do rio Punaré ou Parnaíba,
realizada em 1 670, por Vital Maciel Parente, filho de Bento Maciel. Outro,
foram as guerras feitas no governo de Ignácio Coelho da Silva (1 678-1 682) aos
tremembés, talvez vedetas avançadas dos cariris, guerras que deixaram livres
as praias onde aqueles tapuias atacavam a gente que passava por terra e por
mar. Mas o passo decisivo deve-se a Gomes Freire de Andrada (1685-1687).

Reprimida
a revolta de Bequimão, Gomes Freire tratou de deixar de si melhor e mais
duradouro testemunho nas terras confiadas a seu governo. Quatro cidadãos cie
São Luís, um piloto, um engenheiro e alguns soldados, — ordenou que numa canoa
"navegada a costa para a parte do Ceará, fossem sondando todas as baías,
enseadas e rios que descobrissem e assinalados os baixos, penetrassem aquelas barras em que sem o
perigo de serem acometidos dos bárbaros pudessem surgir, procurando examinar as
qualidades do país e achando sítio acomodado à fundação de uma vila a
desenhassem no lugar que parecesse aos moradores melhor defensável, aos
socorros mais fácil."

O
ponto escolhido foi entre os rios Icatu e Monim, que explorados até suas
cabeceiras, mostraram logo grandes vantagens: proximidade da cabeça do governo,
ausência de índios, fertilidade do solo e posição própria à cobertura do
Itapicuru. Enquanto mandava consultar a metrópole sobre a conveniência da vila
nova, Gomes Freire concebeu plano mais arrojado: descobrir caminho por terra
para a Bahia. Falavam os índios num rio Praguaçu, que se julgava o São
Francisco, e de fato era. Para verificá-lo despediu João Velho do Vale.

Duas
viagens fêz João Velho do Vale. Na primeira chegou à serra do Ibiapaba, onde
deixou três estradas conhecidas apenas pela afirmação vaga de um contemporâneo.
Da segunda chegou até à Bahia, naturalmente partindo da mesma serra, o que
indica um traçado bastante oriental, talvez pelas ribeiras do Poti e contra
vertentes do São Francisco, a Cabrobó e Geremoabo. Na Bahia, afirma frei
Domingos Teixeira, biógrafo de Gomes Freire de Andrada — "depois de dar,
em larga relação, notícia exata dos sertões que penetrou, assinalando pelos
graus a altura do pólo, mais gasto dos trabalhos que dos anos, veio a acabar
João Velho do Vale em benefício da pátria, com serviços maiores que a gratidão".
Descansam suas cinzas em jazigo humilde, na cidade do Salvador.

Com
esta façanha se conseguiu, finalmente, vencer os ventos alísios pela única
maneira possível, antes do vapor.

O
roteiro de João Velho do Vale foi para Portugal e El-Rei confiou-o a Gomes
Freire: talvez por isso não produziu logo efeito nem na Bahia nem no Maranhão.
Do Maranhão, em 15 de julho de 1 694, Antônio de Albuquerque escrevia sobre a
possibilidade do caminho entre as duas capitanias, uma carta que Antônio da
Cunha Soutomaior entregou na Bahia a D. João de Lencastro, a 19 de abril do ano
seguinte.

Dois dias
depois chegava o sargento-mor Francisco dos Santos com quatro soldados e vinte
índios que tinham acabado de descobrir o caminho, e trouxeram uma carta de
Antônio de Albuquerque, datada de 17 de dezembro. Para retribuir a fineza e
ver se podia encurtar o caminho, o governador geral mandou o capitão André
Lopes ao Maranhão com carta para Antônio de Albuquerque, datada de 21 de maio.
André Lopes chegou a seu destino em novembro, mas teve de demorar-se até que o
governadar daquele estado viesse ao Pará. Com resposta de
15 de março de 1 696, chegou à Bahia em 22 de setembro.

Já o
Piauí estava povoado por baianos e pelo Piauí, mais próximo, naturalmente se
encaminhavam os esforços do Maranhão. Padre Malagrida, que fez estas viagens
missionando, atravessou o Parnaiba em seu curso inferior, esteve em Maratoã e
Piracuruca, de onde foi a Mocha (Oeiras) e finalmente ao rio São Francisco,
certamente pelo caminho de Domingos Afonso ou seus sucessores.

Mais
tarde, não muito antes da expulsão dos jesuítas, o caminho do Maranhão à Bahia
chegou a seu traçado definitivo. As aldeias catequizadas, que alcançavam apenas
a barra do Codó no Itapicuru, quando o mártir dos furores de Pombal apostolava
os Tabajaras e Caicases, foram subindo este rio: fundaram-se as Aldeias Altas
ou Caxias e Trizidelas, onde os jesuítas instituíram um seminário e começaram
a ensinar latim aos filhos dos moradores vizinhos.

Conhecida
a pouca distância que nesta altura separa o Itapicuru do Parnaiba, averiguadas
as excelentes condições de navegabilidade oferecidas por aquele, que tinha
ainda mais a vantagem de desembocar na baía de São José, tornou-se este o
caminho preferido. A via-férrea que liga Caxias a São João de Cajazeiras figura
um resto deste estado de coisas que o vapor veio derruir, e agora se procura
reconstituir pelo mesmo agente.

O
território de Pastos Bons, povoado por baianos, só com a Bahia se comunicou até
1760; neste ano começou a navegação do Parnaiba, na escala mínima que permitia
o uso exclusivo de balsas de buriti. Quando se aldearam os índios na bacia do
rio Preto, a gente de Pastos Bons demandou Guaiás. No Duro trif urcavam-se as
estradas para Traíras, Vila Boa e Natividade; a estrada principal acompanhava o
Gurgueia e passava por Per-naguá.

Uma
circunstância merece reparo no Roteiro do Maranhão a Goiás pela capitani    a
do Piauí
escrito por 1 770 e
tantos. Diz-nos o autor que o Parnaiba não recebe afluente importante pela
margem esquerda depois do Uruçuí, e que o Balsas conflui no Itapicuru: isto
prova que ambos os rios foram primeiramente conhecidos no curso superior ou
médio. De fato, se o Uruçuí fora conhecido na foz, a importância do Balsas
saltara logo aos olhos. Sabemos por outro lado que acima de Caxias começaram a
espalhar-se fazendas de gado, nos pingues campos derramados pelas pontas do
Itapicuru, do Balsas, do Grajaú e do Manoel Alves Grande. Só com o tempo
ficaram conhecidas as relações que havia entre umas e outras ribeiras.
Naturalmente foi primeiro conhecida a de São Félix, nome do Balsas na
confluência do Parnaiba, como se deduz da importância e
antigüidade da passagem de Nossa Senhora da Manga, por onde ia gado até Minas
Gerais; seguiu-se o Manoel Alves Grande navegado em 1 804 por Elias Ferreira de
Barros até o Tocantins e por este até Belém. Veio por último o Grajaú, navegado
em maio de 1 811 por Antônio Francisco dos Reis, desde o lugar em que está hoje
a cidade da Chapada até o porto da Vitória. Graças a criadores que se
estabeleceram naquela região, os maranhenses conseguiram. dilatar seus limites
e tomar a Goiás o território de Carolina: e movimento exclusivamente maranhense
é este, que desde Manoel Alves Grande foi descendo o Tocantins e alcançou as
águas do Gurupi.

O
povoamento do Maranhão em 1 817 resume nos seguintes termos o homem que mais
conheceu e viajou aqueles sertões, em que deixou a vida, porque, soldado
português, não quis aderir à independência do Brasil e contra ela se bateu no
Tocantins. Além desse crime, passava o major Francisco de Paula Ribeiro por ter
consigo 18 mil cruzados. Nem tanto era preciso para que José Dias de Mattos,
presidente da Independência, como se chamava, o trucidasse entre Carolina e
Pastos Bons. Diz êle:

"Povoada
assim em toda a largura somente nos distritos vizinhos ao mar, a capitania vai
levando pela banda de Leste encostada aos rios Parnaiba e Balsas quase em todo
o seu comprimento S. O. uma única tira da terra habitada, que principia a
estreitar-se desde o meio baixo Itapicuru até a passagem do rio Neves, porque
daí suas povoações tornam a estender-se para Oeste, rodeando as mesmas
cabeceiras do Itapicuru e as do Alpercates até se encostar ao Tocantins pelas
fazendas Boqueirão, fazenda grande de Elias Ferreira Barros e outros. A parte
que menos se alarga é das alturas, do lugar capital Pastos Bons para o Sul até
o Riacho Batateiras, aonde entra o arraial do Príncipe Regente (Carolina) lhe
fica para Oeste um desconhecido de mais de oitenta léguas."

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