Continued from:

6

Excluindo desta revista os territórios das fronteiras
que obedeciam a outras considerações e foram ocupados segundo princípios que
não é agora ocasião de estudar, repetiremos nossa pergunta inicial: pode
reduzir-se o povoamento de nossa terra a algumas linhas principais, como num
país as águas se somam em algumas bacias preponderantes?

A resposta
afirmativa decorre do que fica expendido: e quatro centros apuram-se do estudo
da nossa história.

Começa o
movimento na capitania de São Vicente, onde a mata litorânea se estreita, os
campos se avizinham e amiúdam, os rios avançando para o sertão procuram o mar
depois de longos meandros para o Nordeste, os índios dos campos são os da
praia. O fundador de São Vicente é o próprio fundador da vila, que afinal ficou
sendo a cidade de São Paulo.

A
população estende-se pelo litoral da Angra dos Reis a Laguna. A gente de
Paranaguá transpõe a serra e liga-se a Curitiba, desce a serra e alcança São
Francisco do Sul. Mais tarde chegada, a gente de Santa Catarina não se abalança
a tanto, e por isso perde parte do território.

A
cidade de São Paulo aproveita-se de sua posição, valorizando ao mesmo tempo a
bacia do Prata, de cujas águas bebe, a Mantiqueira de aquém e de além e o
Paraíba do Sul.

Em poucos
anos se desenvolvem tanto as bandeiras que os paulistas à procura do sertão se
embatem contra os jesuítas do Paraguai à procura do mar e ensangüentam as águas
do Paraná. O Paraíba do Sul, o Sapucaí e a Mantiqueira levam pelo São Francisco
a Minas Gerais, à Bahia, a Pernambuco, à Paraíba, ao Rio Grande do Norte, ao
Ceará, ao Piauí, ao Maranhão. Evitando o salto do Urubupungá chegam a Goiás e
descem ao Amazonas; evitando o das Sete Quedas, passam ao Paraguai e pelo
Cuiabá-Mato Grosso chegam igualmente ao Amazonas. Entre o Ocidente da serra do
Mar e as matas do rio Paraná, ligam-se precariamente a lagoa dos Patos e o Missões com os
ribeirinhos do Tietê.

Mas
as vilas da serra não são bastante populosas: além de Sorocaba, ou de Itu, ou
de Guaratinguetá começa o deserto, a população termina bruscamente, como
montanha em talhado. E quando, descobertas as minas, se tratou de povoar os
territórios antes tantas vezes talados pelas bandeiras, as vilas do Tietê e do
Paraíba do Sul ficam exaustas. Os bandeirantes, esquecidos de sua pátria e
alheios a considerações sentimentais, procuram de preferência Bahia e Rio de
Janeiro, já prósperos e que mais prosperam ainda com suas correntes que vinham
fecund antes; para aí caminharam os povos de Goiás, Cuiabá, Mato Grosso, que
não demandaram o deserto do Amazonas.

A Bahia, a
Bahia de Coutinho e Tomé de Sousa, não a que resultou de tantas anexações e
hoje nos é familiar, estende-se primeiro pela praia, do Sul a Norte, à
distância em que os rios dão vau, ocupa o rio São Francisco de Este a Oeste, de
Nordeste a Sudoeste; mas não se limita a uma só margem, abarca logo acima de
Paulo Afonso, a que pertence a Pernambuco e vai povoando-as ininterruptamente,
enchendo-as de gado, que encontra seu optimum no terreno salitrado, nos
campos mimosos e por fim se adapta às catingas, aos agrestes e carrascos. O
gado transporta o dono. E pululam fazendas e nascem estradas e o povoamento
quase contínuo se torna ao menos no sentido longitudinal. A população baiana
transborda para Maranhão, Piauí; remonta depois para todos os descobertos
auríferos que sem gado teriam perecido no nascedouro.

Desde
que recebe o rio Grande pela margem esquerda até fenecer no mar, o São
Francisco não conta afluente perene, porque as divisórias de águas se
multiplicam, e os quocientes minguam em igual proporção; o mesmo sucede aos
rios que correm entre o São Francisco e o Parnaíba. E esta circunstância, tão
prejudicial a outros respeitos, teve um lado bom: — o de facilitar a passagem
de uma para outra bacia, favorecendo assim a unificação econômica.

 

20 — C. H. Colonial

 

Os
baianos, não conseguindo vencer o Paraguaçu, acompanharam-no até as origens.
Aí bifurcaram-se rumo do São Francisco, onde afluíam as boiadas de Pernaguá em
busca de Jacobina, e não tardou muito que as minas de ouro tudo incendiassem;
ou transpassaram para as cabeceiras do rio das Contas, do rio Verde, do
Jequitinhonha, demarcando a fimbria ocidental da mata litorânea, facilitando
sua ruptura para o mar, ligando-se às esticadas mineiras idas do Rio e São
Paulo. De Araçuaí ao Rio a distância é aproximadamente a mesma que à Bahia,
porém, as comunicações para esta se faziam com mais comodidade, ou
menos tempo e obtinham a preferência.  

Pernambuco,
a primeira capitania no século XVI,
adormece sobre os louros colhidos na
guerra holandesa. No São Francisco vê apenas uma margem, nesta margem vê
apenas o trecho desimpedido, a cachoeira de Paulo Afonso amedronta-o. Por isso
Alagoas diferencia-se, e é simbólico o limite pelo Moxotó, bem junto ao
sumidouro. Além do sumidouro abandonou-se tudo aos baianos, e o limite atual
pelo Pau da Arara ou Pau da História relembra a pungente história perpétua da
justiça imanente das coisas.

Para o
Norte, desde a Paraíba a ação pernambucana direta ou indireta aparece mais
eficaz; o nome pernambucano repercute muitas vezes nos territórios de
Borborema, Cariri, Ibiapaba: vai-se pelo interior desde Piauí até Recife e
Olinda, mas mesmo aí as comunicações com a Bahia se estabeleceram e continuaram
sempre, continuam ainda hoje muito reduzidas, embora; e Pernambuco, que algum
tempo alcançou de Carinhanha a Amarração, teve de dividir sua herança pelo
Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Alagoas e Bahia.

Fundado
já no século XVII, o Maranhão procurou unir-se à Bahia e Pernambuco, e
conseguiu-o, utilizando o Parnaíba e o São Francisco; mas o seu movimento
próprio deu-se no décimo nono século, consistiu na procura do rio Tocantins,
isto é, de Goiás e do Pará. Graças a este esforço pertence-lhe o território que
vai do Manoel Alves Grande ao Gurupi. Não é muito; mas ao passo que Pernambuco
minguava, o Maranhão crescia.

Assim
no princípio do século último estava todo o país ligado, imperfeitamente
embora, por meio de vias terrestres ou fluviais. Chegar-se-ia a formar um
conjunto, uma nacionalidade? O sistema colonial era a divergência, o
particularismo; o centro ficava além mar.

Por
circunstâncias conhecidas, a corte portuguesa transplantou-se, e ficou
intrínseco o centro que estava fora. Treze anos reinou D. João VI, dez
anos reinou D. Pedro I, e tão suave começou a convergência das partes, e tão
naturalmente correu o processo de unificação que, apesar das revoluções
profundas realizadas nestes dois reinados, tudo se pautou por uma evolução
gradual e legítima. Tão cimentada ficou a obra nacional que desafiou as crises
que acompanharam a regência e ainda entraram pelo segundo reinado.

A
cidade de São Sebastião, mais moderna que São Paulo ou Pernambuco ou Bahia,
menos ilustre que qualquer delas, prospera verdadeiramente só depois que os paulistas
rasgaram a cintura de matas ambientes, contra a qual os cariocas não se animaram,
foi escolhida para a corte e residência. Assim decidiu-se a seu favor a
questão da primazia que as outras três com muito mais razão podiam reclamar,
questão que em outras condições seria causa de lutas desesperadas e
sangüinolentas, como foi por exemplo no Prata.

Por
ter sido uma vez a cabeça continua ainda e continuará muito tempo ainda, apesar
da ameaça goiana: se não foi aqui que primeiro se concebeu a idéia de uma
nação, aqui pelo menos se realizou este sonho que bem perto esteve de esvair-se
como sonho.

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.