PARALELO  ENTRE  PIRRO  E MÁRIO – Plutarco – Vidas Paralelas

PARALELO ENTRE PIRRO E MÁRIO – Plutarco – Vidas Paralelas

PARALELO ENTRE  PIRRO  E MÁRIO – Por Du Haillan

Baseado na tradução em francês de Amyot, com notas de Clavier, Vauvilliers e Brotier. Tradução brasileira de José Carlos Chaves. Fonte: Ed. das Américas

I. Para rematar devidamente as Vidas de Pirro e de Mário, resta estabelecer um paralelo entre elas, o que, por acaso, poderá parecer fora de propósito, per não haver nenhuma relação, nem no começo nem no meio, nem no fim, entre a vida de um e outro. Mas, pensando bem, veremos que, se existem grandes diferenças entre estas duas personagens, existem também semelhanças, em várias coisas.

II. Mário e Pirro têm de comum o seguinte: ambos atingiram altas posições, nelas se mantendo por longo tempo, não obstante os ventos desfavoráveis e o fato de haverem iniciado as suas carreiras sem grandes esperanças de êxito; além disso, não obstante os reveses por eles sofridos, de quando em quando, tiveram a ocasião de restabelecer o seu poderio, e até mesmo de castigar rudemente os seus inimigos. Mostraram-se ambos possuidores, nas numerosas empresas em que se envolveram, de um grande vigor de espírito, tudo prevendo de um só golpe, diante das maiores dificuldades, mostrando-se sempre dispostos a novos combates. Deve-se ainda notar que seus governos decorreram de maneira vantajosa. Ambos foram valentes, trabalhadores, pacientes, excelentes generais, e assim foram julgados, um por Aníbal, outro através de uma sentença notável do grande Cipião. Ambos saíram vitoriosos de batalhas de grande importância, sendo cabos de guerra sempre prontos a planejar e a levar a efeito novas empresas.

III. E, se forem comparados tendo-se em vista os seus defeitos, verifica-se que um foi arrogante e o outro ambicioso até o fim; ambos sempre se robus-teceram com novas esperanças, e, muitas vezes, quando já empenhados numa empresa, mostraram-se prontos a deixá-la, para tentar uma outra, jamais sentindo-se satisfeitos, pois que queriam tornar-se cada vez maiores.     Um era perigoso,  outro  cruel, causando ambos ruínas e desgraças, coisa que também conheceram.

IV.      Quanto às particularidades, verifica-se que Mário se apresenta como o próprio artífice de sua fortuna, pois que, fazendo esquecer, com a sua
grande bravura e a estudada obediência aos comandantes, a sua origem obscura, êle se enobreceu, tanto pelos seus valorosos feitos, quanto pelo fato de haver ocupado por sete vezes um dos mais elevados postos de honra do mundo; enquanto que Pirro, saído da nobre estirpe de Hércules, não se contentando com o seu reino do Épiro, do qual se apoderou apenas por ter sido favorecido por um casamento, e onde não permaneceu senão por haver eliminado seu companheiro, desejando atacar uns e outros e combater incessantemente pelas vantagens deste mundo, sem se assegurar de nenhuma delas, não soube jamais dizer o que pretendia entre os homens, tal a esperança que o enfeitiçara em relação a não sei que grandezas, as quais não viu senão através de representações que êle mesmo criava, desprezando as advertências de seu sábio conselheiro Cíneas. Mário, ao contrario, levando uma vida verdadeiramente
ativa, lançou-se às suas empresas com conhecimento de causa, sem se agitar, ao contrário de Pirro, cuja cabeça não dava repouso aos pés.

V.     E, como o fim coroa a obra, Mário, tendo verificado como a inconstância caracteriza as atividades dos homens, agiu com sabedoria, e, no momento exato, após despedir-se de seus amigos, recolheu-se ao seu leito, para ali morrer logo depois; enquanto que Pirro, ansiando sempre por novas empresas, foi precipitar-se no interior de Argos, onde não devia ter penetrado, para ali perder a honra, o reino e a vida, num só golpe; e, se não fosse a bondade de Antígcnc, sua estirpe desapareceria com êle. Deste modo apesar de parecer muito grande, sua força foi sempre diminuindo, até ser completamente aniquilada. Mário, ao contrário, após sair de uma pequena oficina e de ganhar a vida trabalhando com suas próprias mãos, foi-se elevando de degrau em degrau, atingindo, cem prodigiosa rapidez, os grandes postos da República, e, como já se disse, obteve por sete vezes o consulado, coisa acontecida a muito poucos homens no decorrer do grande período de tempo em que subsistiu a grandeza romana.

VI, E não devemos esquecer o belo gesto de Mário, contra o seu próprio sobrinho, Caio Lúcio, morto por Trebônio, quando todos esperavam que êle tomasse posição contra o assassino e o mandasse exterminar através de um suplício . qualquer; ao contrário, êle próprio coloccu~lhe na cabeça uma coroa de louros, em sinal de reconhecimento pela sua virtude. Este ato, na verdade, compensa muitas das imperfeições de Mário, e se seus inimigos não o tivessem irritado tanto, antes e depois de seu banimento,  talvez  não  tivesse  havido  estas  tragédias sangrentas, que êle e os seus promoveram depois. Em Pirro, entretanto, não encontramos nenhum ato particular de justiça ou de virtude que se possa aproximar do acima citado, mas um caráter estranhamente altivo e que não podia permanecer em paz, bem como um coração marcial. Prova disto é o que êle disse a um de seus filhos, ou seja, de que deixaria o reino àquele dentre eles que possuísse a espada mais aguçada. E foi agitado até à morte por esta febre de glórias vãs, que jamais lhes permitiu repouso. Mário, ao contrário, teve em sua vida vários períodos de inatividade, e, também, triunfos notáveis. Eis o que tinha a dizer em favor de Mário.

VII Quanto a Pirro, pode-se alegar, em seu favor, que, tendo saído de uma família das mais ilustres, mostrou-se um digno sucessor de seus antepassados, tendo sido reconhecido como tal pelos seus coetâneos, apresentando provas de sua bravura em maior número de vezes do que Mário. E, no entanto, considero que a bravura não figura entre as maiores qualidades deste príncipe; não obstante, se se considerarem os seus êxitos, seus conhecimentos da arte militar, traduzidos em livros, sua habilidade em planejar e executar os seus planos , os inimigos de todas as espécies que derrotou, as batalhas de que participou, e, sobretudo os seus belos feitos contra os romanos, povo muito diferente dos cimbros, ver-se-á que foi um cabo de guerra muito superior a Mário.

VIII.Entretanto, sem insistir muito nessas formas de atividade, que, aliás, segundo parece foram as que mais os atraíram, e cujo exame mais particular é preciso deixar aos que lidam com as armas, digo que os vícios fcram menores em Pirro do que em Mário, e ouso mesmo acrescentar que os vícios de Pirro são virtudes comparados aos de Mário. Por exemplo, a ambição de Pirro é veemente, obstinada, e, se se quiser, furiosa; mas que é isso diante das tragédias provocadas por Mário, que tudo subverteu para chegar, ao sexto e ao sétimo consulados? Pirro causou grandes males, levou a guerra à Macedônia, à Itália, à Sicília e à Grécia, onde muito sangue foi
derramado; mas, em todo caso, na maior parte de suas ações, descobre-se algo ditado pela necessidade e pela eqüidade. Ao contrário, Mário jamais deveria ter pegado em armas contra a sua pátria, e mesmo se em toda a sua vida não houvesse outras ações más, bastaria o que fêz para obter o sexto consulado e o fato de permitir que o assassino Sulpício agisse livremente, para torná-lo infame.

IX.      Entretanto, jamais se poderia detestar demais maldades que cometeu após o regresso da África, quando ensangüentou Roma, e que, em vez de se saciar de sangue e atenuar a sua cólera, como Cina, demonstrou uma sede de vingança cada vez maior, e poupando menos os grandes do que os peque nos. Poder-se-ia ler esta dolorosa história sem lágrimas?    Poder-se-ia deixar de maldizer uma tão cruel ambição, sobretudo quando se considera os atos destes cruéis bardeus e seus revoltantes crimes? Ao contrário, lede as conversações de Pirro e de Cíneas, e vereis que este último procurou desviar de tantas guerras e conquistas o primeiro, e tereis piedade da imbecilidade humana. Pobre príncipe, direis, ccmo êle teria sido feliz se tivesse ouvido o seu sábio conselheiro!

X.      E quando consideramos Pirro em suas atividades, encontramos um coração generoso, que procede com alguma sinceridade, que honra a virtude
em seus inimigos, que faz a guerra honestamente, e podemos dizer, em resume, que a sua ambição é antes ridícula do que detestável. Se ela por vezes
se desencadeia, êle como que se contém, condenando-se a si mesmo, por assim dizer. Como exemplo, temos a insistência com que concitou os romanos a
se pacificarem e todo o seu procedimento diante deles.
Se perturbou a paz em países estrangeiros, êle a manteve no seu. Mário, ao contrário, parece não ter tido outro pensamento senão o de deixar os homens sossegados, menos aqueles a quem devia sua vida e sua grandeza.

XI,      Quanto à cupidez, dela não havia nenhum traço em Pirro, mas era extrema em Mário: com efeito, este subverteu Roma e se empenhou desgraçadamente para obter a direção da guerra contra Mitrídates somente para ter um meio de encher a sua casa com, os despojes do reino do Ponto e as grandes riquezas daquele rei. Quase o mesmo se pode dizer no que se refere à cólera e à crueldade. Pirro jamais se mostrou inimigo muito rancoroso, nem se entregou à prática de atos sangrentos fora da guerra, e nesta dava provas de uma força sobre-humana, quando o perigo ou a dor o excitavam; Mário, ao contrário, tinha um coração irreconciliável, e praticou atos que não podem ser superados, tal a sua desumanidade e ferocidade. A inveja de Pirro é, de certo modo, nobre; a de Mário, vil e indigna em todos os seus aspectos. Pirro não foi ingrato, ou o foi pouco, para com seus amigos ou seguidores, e se abandonou ou tratou mal os taren-tinos e os sicilianos que o chamaram e homenagearam, isto aconteceu mais por culpa deles, e os serviços que êle lhes prestou compensam a maior parte de suas faltas. Há ainda a considerar que, voltando a socorrer Tarento, êle fêz o possível para auxiliar os seus moradores; entretanto, tendo sido vencido pela boa fortuna dos romanos, não lhe restou outra coisa senão retirar para seu reino.

XII. Mas este vício foi dominante em Mário; pois que, tendo sido promovido, em Roma, por Metelo, o qual o levou depois para a África como seu lugar-tenente ,voltoiu~se contra êle, privando-o das honras da campanha, fazendo condenar a morte seu hóspede e amigo Turpílio e vangloriando-se de haver lhe atado uma fúria ao pescoço. Além disso, mandou-o  banir,  revelando uma  maldade  singular.

E, quanto a Catulo, que fora seu companheiro no consulado, e derrotara os cimbros, fê-lo morrer de maneira indigna, juntamente com uma infinidade de outras pessoas, em Roma, Pirro, ao contrário, era de um natural suave e perdoava facilmente, mos-trandc-se bom em relação a seus súditos, amável com os amigos e modesto com os inimigos.

XIII, E Mário? Sua própria fisionomia mostrava este rigor e esta severidade, de caráter e de costumes, que o caracterizavam, mesmo depois de haver passado por mil perigos, durante o seu exílio. E, mesmo após ter completado setenta anos, seu olhar era mais terrível e amedrontador do que o de qualquer outro homem; jamais perdoou, como tanta gente verificou, os que haviam, favorecido Silá, por pouco que fosse, e de nada adiantavam os rogos e as lágrimas, como o demonstrou eloqüentemente a morte de Catulo. Jamais demonstrou amar os romanos ou prezar muito seus amigos; ao contrário, foi tomado de tal fúria, no decorrer dos morticínios de Roma, que os seus próprios amigos se sentiam invadidos pelo medo quando dele se aproximavam para cumprimentá-lo. E, em seu período de maior prosperidade, foi odiado pelo povo e pela nobreza, por motivo dos prejuízos que lhes causava com seus atos, e muitas vezes atentou contra a vida e a honra daqueles que lhe tinham prestado serviços. Era, finalmente, um homem de duas caras, de uma natureza vil e desregrada,    E se, através de certos atos particulares, tornou seu nome merecedor de estima por algum tempo, pode-se observar que não agiu simplesmente por amor da virtude, mas para aumentar o seu crédito e poder alcançar os seus objetivos.

XIV.Quem examinar de perto o fim de Mário e de Pirro, verá o primeiro mortificado de uma maneira estranha, em seu espírito, morrendo mil vezes em cada hora de seu último consulado. A ambição o atormenta sem cessar, e de tal modo que, com a morte a dois passos, ainda se preocupa com a guerra contra Mitrídates; e, sem se lembrar das honradas de que foi objeto, sem se mostrar saciado de tantas riquezas, as quais bastariam para muitos reis juntos, e dos inúmeros anos que viveu, êle morreu enraivecido, lamentando-se da fortuna, como se tivesse morrido antes de tempo, antes de realizar aquilo que ambicionava.

XV.       Não quero me referir a estes terríveis temores, piores do que a própria morte, de que foi vítima tantas vezes durante a sua fuga, tanto no mar
como em terra. Imaginai um homem extremamente avaro, ambicioso e cruel, perseguido por toda gente, suplicando auxílio a marinheiros, pescadores e a toda gente que encontra, prosternando-se aos pés de um pobre camponês, escondendo-se entre caniços, nu dentro da lama, à espera de que o venham matar; e, depois arrastado ignominiosamente, como prisioneiro, e pronto a receber o golpe mortal das mãos de seu inimigo.   Não é difícil de imaginar as palavras que proferiu e a dor que sentiu em sua alma, quando ouviu a notícia do regresso de Sila. Haverá quem possa compreender o infortúnio de uma tal consciência, manchada por tanto sangue, trabalhada por tantos horríveis pensamentos, quanto ao futuro? E diante do perigo que corria, pode-se dizer que o seu leito, durante a última enfermidade, foi uma espécie de cadafalso, no qual, no decorrer de sete dias, esperou a vinda de uma morte impiedosa. E como os criminosos desesperados se embriagam a fim de não sentir com demasiada, intensidade o rigor do suplício, êle também quis mergulhar no vinho o seu corpo e as suas preocupações, para poder dormir mais facilmente e para não ver a lâmina que lhe pendia sobre a cabeça.

XVI. Pirro, ao contrário, sem grandes apreensões, combateu até o fim, não perdendo’ jamais a esperança. E mesmo quando a espada desembainhada brilhou sobre êle, rebateu o golpe com um único olhar, e, (se é que posso dizê-lo) causou medo à própria morte; e lutou corajosamente contra ela, sem que a coragem lhe faltasse por um só momento. Ainda que estas duas personagens tenham apresentado várias semelhanças, em diversas particularidades de suas vidas trágicas, parece-me que Pirro foi menos vicioso, mais virtuoso, menos infeliz, na vida e na morte, do que Mário. Este, por sua vez, foi bem sucedido ao lutar contra todas as espécies de inimigos, teve maiores intervalos de repouso; e, (se considerarmos os últimos momentos de sua vida) um desfecho menos sangrento e mais honesto que o de Pirro. Em compensação pode-se dizer que Pirro deixou um sucessor para seu reino, enquanto que o filho de Mário, não agindo melhor do que o pai, pereceu miseravelmente, e nisto a vingança divina parece ter executado na pessoa de um aquilo que ambos haviam merecido.

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