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Resenha do livro Martin Heidegger – Fenomenologia da Liberdade, de Günter Figal




Resenha do livro Martin Heidegger – Fenomenologia da Liberdade, de Günter Figal

FIGAL, Günter. Martin Heidegger – Fenomenologia da Liberdade. Trad. Marco Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005.

Roberto S. Kahlmeyer-Mertens[*]

Publicado pela Editora Forense Universitária, o livro Martin Heidegger – Fenomenologia da liberdade revela ao Brasil a principal obra de Günter Figal. Professor da Universidade de Freiburg e um dos principais estudiosos da obra de Heidegger, Figal ocupa atualmente a cátedra que pertenceu ao filósofo e possui publicações especializadas sobre Platão, Nietzsche e Gadamer.

Reconhecido como uma importante referência nas bibliografias sobre Heidegger, o livro apresenta um estudo refinado daqueles que seriam os principais conceitos da obra . Figal apresenta aspectos genéticos desse que é considerado o trabalho central do referido filósofo, enfatizando seus conceitos, argumentos e comentando criticamente sua recepção na literatura filosófica que o cerca. Esta literatura é considerada reduzida pelo autor (se proporcialmente comparada à amplitude da filosofia heideggeriana) que acena a “falta de comentários capazes de facilitar a compreensão dos textos de Heidegger que são certamente carentes de elucidação” (p.11).

Nesse contexto, encontramos ainda críticas agudas feitas a alguns intérpretes de Heidegger, como exemplo: ao norte-americano W. Richardson, que propõe a divisão da obra do filósofo em dois períodos distintos, ou, a W. Schulz, concordando com a interpretação de que Heidegger seria um autor que, ao se distanciar da tradição filosófica, constituiria uma nova figura da mesma.

Isso evidencia que o livro não deve ser considerado uma introdução didática à filosofia; por isso, o leitor brasileiro não deve esperar encontrar nele uma leitura facilitaria de Heidegger. Embora sua linguagem sintética contrarie qualquer expectativa nesse sentido, suas interpretações são lúcidas quando abordam conceitos filosóficos como fenômeno, fenomenologia, temporalidade e liberdade; aplicando-lhes grande rigor sem prescindir da clareza.

É justamente em torno do último dos conceitos mencionados que se apoia a estratégia de leitura do autor; que tem seu ponto forte na tese de que: o problema relativo à liberdade estaria no centro do pensamento de Heidegger. Esta busca ser sustentada ainda que Heidegger nunca tenha proposto uma filosofia da liberdade humana e nem formulado textualmente nada que indicasse isso em suas primeiras obras. Contudo, para Figal, haveria um espaço para esta consideração nos textos anteriores a Ser e tempo, escritos na época em que Heidegger ainda compartilhava da fenomenologia de Husserl. Em uma das etapas da validação deste argumento (Cap. I), nosso autor elabora uma rica comparação entre os dois filósofos à luz do conceito husserliano de intencionalidade.

A avaliação do papel da filosofia de Husserl não é a única presente na Fenomenologia da liberdade. Vê-se, também, a apreciação da relevância de Kierkegaard (de quem Heidegger apropria diversos temas e conceitos) apontado como mais decisivo à filosofia heideggeriana do que Fichte, Schelling e Hegel.

Entre essas e outras passagens interessantes, são dignos de nota os §§.6-8, nos quais o autor discorre sobre noções pertencentes à análise existencial heideggeriana, entre elas: o comportamento impessoal, a impropriedade e a propriedade, articuladas à temática da liberdade e demonstrando toda sua complexidade em meio ao universo conceitual ali delimitado. Embora a principal tese do tratado (tese que sustenta que a obra de Heidegger teria o problema da liberdade como centro de suas preocupações ontológico-existenciais) seja considerada controversa por muitos estudiosos, o texto de Günter Figal constitui reflexões de alto nível, sendo recomendado ao público acadêmico por servir de útil ferramenta de pesquisa.



[*] Doutor em filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, autor de Heidegger & a educação.

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