SÃO MIGUEL ARCANJO: O MITO E SEU PAPEL NO BELICISMO MEDIEVAL

SÃO MIGUEL ARCANJO: O MITO E SEU PAPEL NO BELICISMO MEDIEVAL

SÃO MIGUEL ARCANJO: O MITO E SEU PAPEL NO BELICISMO
MEDIEVAL

HUDSON GUSTAVO DOS SANTOS MOREIRA

 

RESUMO

 

Este
artigo tem o objetivo de analisar o belicismo medieval cristão a partir das
representações do mito de São Miguel, dentro do que se entende como história
das mentalidades e engloba o estudo da cultura medieval. Miguel foi um dos
mitos fundamentais, dentre outros, que se constituiu em aparato simbólico na
estrutura organizada pela Igreja católica medieval, serviu para regular as
ações do homem ocidental na Idade Média e ainda hoje se torna presente em
muitos aspectos da nossa cultura. Utilizaremos como base para a análise do tema
as obras dos grandes teólogos medievais, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino.
Além do Clássico épico Paraíso Perdido, de John Milton, alguns teóricos
da denominada História das mentalidades e que são também especialistas em Idade Média, como Jacques Le Goff e Hilário Franco Júnior e o historiador das religiões
Mircea Eliade. Como fonte primária utilizaremos a Bíblia Sagrada que traz em
seu relatos inúmeras imagens e discursos sobre São Miguel que foram utilizadas
pela Igreja para estimular o combate aos inimigos do cristianismo e, por
conseguinte, aos seus adversários. Na Bíblia São Miguel aparece como o
guardião, o guerreiro e príncipe dos exércitos de Deus contra o mal encarnado
pelo demônio.

 

Palavras-chave:
Mito, São Miguel, belicismo.

 

INTRODUÇÃO

 

Este estudo trata da
estreita relação entre o mito do arcanjo São Miguel e o belicismo medieval
buscando compreender este aspecto relacionando o contexto histórico da Idade
Média à tradição cristã dos anjos, da hierarquia celeste, da importância do
mito na religiosidade e à relevância de São Miguel, tanto no aspecto bélico,
como para o homem do medievo. Além disso, este trabalho nos auxilia também a
compreender o pensamento da sociedade atual, na medida em que São Miguel ainda é muito cultuado, mesmo que hoje os devotos recorram ao seu auxílio
buscando resolução de questões contemporâneas de ordem social, econômica e
tantas outras, como o combate as drogas, ao alcoolismo, busca por um melhor
salário ou emprego. Problemáticas essas, bem diversas das da Idade Média, na
qual o arcanjo/santo era parte importante da guerra cosmológica entre Deus e o
Diabo e na qual sua ajuda era evocada para alcançar a vitória na luta do bem
contra o mal.

Para estudarmos São Miguel
definimos como essencial explorar o âmbito cultural medieval. O ponto de
partida é a percepção da importância que o mito de São Miguel teve na Idade
Média como exemplo de conduta e provedor de uma nova ordem cosmológica.
Tentaremos entender as representações de São Miguel na mentalidade medieval a
partir do estudo das relações entre a cultura cristã e a folclórica, procurando
compreender ainda como imagens desse arcanjo estão relacionadas com a forma que
a Idade Média concebe a violência.

 

Aquela sociedade não louva a
violência por ela mesma. Ela faz de preferência da violência um meio de combate
ao serviço dos valores simples que fundam a ordem social assegurando as leis de
sua reprodução.[1]

 

Provinda da combinação das
sociedades germânicas e romana que tinham na guerra uma das suas bases, a
Europa medieval entendia a violência de forma totalmente plausível desde que
justa, assim era vista a luta contra as representações do mal, justificada no
mito de São Miguel, o arcanjo guerreiro que se encaixa bem como modelo
cosmológico dessa violência terrena.

 

Em primeiro lugar, como a Idade Média
era época de insegurança endêmica, reconhecia-se na prática das armas uma
atividade legítima e necessária, no âmbito da manutenção e da restauração de um
equilíbrio que se via continuamente perturbado ou ameaçado por forças
exteriores a Cristandade ou por forças situadas no interior da própria
Cristandade, mas rebeldes de toda ordem. Em segundo lugar, constata-se ao longo
dos séculos na sociedade medieval uma tendência a considerar e resolver
conflitos por meio de instituições que, a despeito de sua diversidade, seguiram
uma mesma evolução: a passagem de combates desordenados entre domini
(“senhores”) e entre as “mesnadas” de seus milites (“cavaleiros”) durante os
séculos X e XI, para formas primeiro eclesiásticas, depois feudais e por fim
monárquicas de regulamentação e limitação da guerra.[2]

 

Compreender um de tantos
aspectos do hibridismo cultural medieval e esse caráter organizacional que não
excluía a violência das ações justas é o intuito desse estudo, que se encaixa
numa linha que vê o medievo europeu não como período de “engessamento
cultural”, mas como formador do pensamento moderno. Em muitos aspectos a Idade
Média criou inúmeras imagens e conceitos que forjaram nossa cultura ocidental e
povoam nosso cotidiano, mesmos que ressignificados a partir das necessidades do
tempo presente. Por exemplo, diferentemente do católico contemporâneo, que não
tem a guerra como centro de seu mundo, o homem medieval que tinha uma grande
devoção por São Miguel, o via como um santo que representava perfeitamente o
guerreiro exemplar frente à ameaças maléficas empreendidas pelo mal, num tempo
em que o homem se mostrou disposto a salvar a si e aos outros da danação
eterna. Mas por outro lado, o homem cristão contemporâneo ainda empreende
lutas que dependem do plano espiritual, ainda que com um diferente foco, como a
luta contra doenças, contra o cigarro, contra a solidão, a depressão etc, o que
não deixa de demonstrar algumas permanências do universo medieval na sociedade
atual.

Para isso, trabalharemos
com obras que demonstram e renovam o conhecimento que temos do pensamento
medieval, combinadas com algumas concepções da história das religiões, como as
idéias de mito de Mircea Eliade que relacionou estes a partir da definição dos
espaços sagrado e profano, idéias que nos ajudam a compreender o mito de São
Miguel. Utilizaremos também a Bíblia cristã e algumas interpretações desta
realizadas por São Tomás de Aquino, por Eliade e ainda por Guy Lobrichon.

Tomamos a Bíblia como fonte primária
primordial para o nosso estudo por esta reunir todos os cânones e a doutrina
essencial para o cristão guiar sua vida e conduta. Esse livro, sem dúvida alimentou e inspirou a melhor
parte das criações intelectuais no medievo[3],
significando também a lei dos cristãos, um código ou norma intangível,
inexpugnável, marcada por um sinal sagrado[4], visto
que as Sagradas Escrituras foram utilizadas para pronunciar juramentos,
compromissos de fé ou até mesmo promessas essenciais, tornando-se o livro mais
importante da Idade Média, por ser fonte de todo o conhecimento e ser o manual
das comunidades cristãs.

Apesar de grande parte da
população ser analfabeta, a Bíblia e seus ensinamentos são repassadas pela
oralidade, meio eficaz de difusão do cristianismo. Assim, a Bíblia prossegue
sendo uma das bases da intelectualidade que influência sem dúvida o pensamento
popular em sociedades medievais.

 

É que elas eram herdeiras do mundo
greco-romano, que tanto contribuiu com a história da cultura escrita, e,
talvez, mais que isso, em virtude da opção que os reinos da Europa medieval, um
após outro, fizeram pelo cristianismo e sua forma romana.[5]

 

Essa forma romana de
cristianismo é por sua vez herdeira da forma hebraica e das tradições
folclóricas, contribuindo para a construção histórica do Antigo Testamento,
onde estão presentes as primeiras palavras sobre anjos e arcanjos. Nos livros
do Antigo Testamento encontramos a base teórica e religiosa que dá início ao
culto aos anjos como guerreiros defensores e intercessores da vida humana.

 

OS ANJOS NA TRADIÇÃO CRISTÃ

 

Nas Escrituras Sagradas
encontramos em diversas passagens, trechos que tratam da existência e constante
atuação dos anjos no plano terreno: “e o anjo de Iahweh[6]
lhe apareceu e lhe disse: ‘Iahweh esteja contigo, valente guerreiro’!” (JUÍZES,
6, 12)[7]; “pois
em teu favor ele ordenou aos seus anjos que te guardem em teus caminhos todos.”
(SALMOS, 91, 11).

Estes que são colocados
como mensageiros de Deus, embaixadores de assuntos humanos, segundo o vocábulo
hebraico malak[8],
traduzido inicialmente para o grego, manifestam-se trazendo mensagens e dizendo
como devem agir os homens, também atuam na defesa dos humanos e nessa
empreitada formam o exercito de Deus.

 

O Anjo de
Iahweh lhe disse: “Volta para a tua senhora e sê-lhe submissa”. E o Anjo de
Iahweh lhe disse: “Eu multiplicarei grandemente tua descendência, de tal modo
que não se poderá contá-la”. O Anjo do Senhor lhe disse: “Estás grávida e darás
à luz um filho, e tu lhe darás a nome de Ismael, pois Iahweh ouviu tua
aflição.” [9]

 

No Novo Testamento
aparecem os anjos ainda mais vezes e com novas atribuições como louvar a Jesus,
“E ao introduzir o Primogênito no mundo, diz novamente: Adorem-no todos os
anjos de Deus
.” (HEBREUS, 1, 6), obedecer, transmitir e executar a vontade
de Cristo, “o Deus encarnado”, “O anjo do Senhor disse a Filipe: ‘Levanta-te e
vai, por volta do meio-dia, pela estrada que desce de Jerusalém a Gaza.’
[…]”, (ATOS DOS APÓSTOLOS, 8, 26).

Na Bíblia também temos a
afirmação de parte do trabalho do Pseudo-Dionísio, o Areopagita[10],
que definiu uma hierarquia celeste, graus de importância, função e atuação dos
anjos celestes. “Acima dele, em pé, estavam os serafins, cada um com seis asas:
com duas cobriam a face, com duas cobriam os pés e com duas voavam.” (ISAÍAS,
6,2). “Ele baniu o homem e colocou, diante do jardim de Éden, os querubins e a
chama da espada fulgurante pra guardar o caminho da árvore da vida.” (GÊNESIS,
3, 24).

Das divisões hierárquicas
nos interessa os arcanjos que é o mais alto grau angélico, segundo a Bíblia e
teólogos, no entanto, esta afirmação não é unânime, pois existem outras
interpretações. Há também outras visões em relação a existência de mais de um
arcanjo, ainda que no livro sagrado apenas Miguel apareça como arcanjo.
“Quando o Senhor, ao sinal dado, à voz do arcanjo e ao som da trombeta divina,
descer do céu, então os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; […]”. (1
TESSALONICENSES, 4, 16). “E, no entanto, o arcanjo Miguel, quando disputava com
o diabo, discutindo a respeito do corpo de Moisés, […]. (SÃO JUDAS, 9).

O imperador Carlos Magno,
(768-814), em 789 reconheceu e afirmou Gabriel e Rafael também como arcanjos.
No entanto, o importante para o nosso trabalho que é o papel que São Miguel
teve no belicismo medieval é a concepção bíblica no qual este aparece como o
príncipe do exército celeste, principal guerreiro que está ao lado de Deus e do
homem medieval no combate ao mal, este último encanado por Lúcifer,
incumbências essas tão bem demonstradas por Milton:

 

Então do excelso trono o
Onipotente

Seu querer soberano assim
declara:

[…]. Miguel, das ordens
minhas te encarrego;

Dentre os guerreiros
querubins escolhe

A mais luzida flor, contigo
os leva;

Sobre Satã vigia a fim que, ousado,

Perturbando de novo a paz no mundo,

Não tome agora com traição arteira

Sobre seus ombros a defesa do homem

Ou não se aposse do jardim formoso

Que era seu domicílio e fica vago.[11]

 

É interessante frisarmos
que ao contrário de diminuir a importância de São Miguel o fato da sociedade
medieval cultuar outros arcanjos como Gabriel e Rafael fortaleceu o culto a São
Miguel como demonstra Faure, “As capelas altas dedicadas a São Miguel são as
herdeiras desse processo…Os anjos apócrifos desapareceram da devoção em fins
do século VIII.”[12]

Dentre estes anjos, São
Miguel está presente desde o início do cristianismo, durante o combate ao
paganismo, às práticas politeístas até hoje. Nesse sentido, enxergamos São
Miguel como um ponto central por entendermos que ele permeou toda a trajetória
do cristianismo, desde suas raízes orientais até dias atuais. Para nós Miguel é
um grande exemplo que se adapta à uma análise do belicismo medieval.

 

FUNÇÃO E CAMPO DE ATUAÇÃO DO MITO

 

Não avaliaremos aqui a
veracidade da existência de arcanjos e dos anjos enquanto criaturas divinas,
mas sim a influencia prática que esses seres, São Miguel especialmente, tiveram
na mentalidade religiosa e no belicismo medieval. Para isso antes devemos
entender o que é o mito e como o de São Miguel, construído historicamente no
período medieval, foi fundamental como símbolo que se ajustava bem a uma
sociedade guerreira como a medieval que girava em torna da guerra terrestre, espelho
das batalhas celestiais.

Nessa empreitada de compor
um pensamento lógico sobre a aplicação dos mitos na vida humana é importante a
conceituação de mito no trabalho de Eliade[13].
Quando ele faz a separação entre o mundo profano e o mundo sagrado mostra que
há espaço entre os dois que permite a existência de uma comunicação entre eles,
pois esses não estão separados cosmologicamente. Assim, o mito religioso teria
essa função de ligar estes dois mundos.

 

No interior do recinto sagrado, o mundo
profano é transcendido. Nos níveis mais arcaicos de cultura, essa possibilidade
de transcendência exprime-se pelas diferentes imagens de uma abertura:
lá, no recinto sagrado, torna-se possível a comunicação com os deuses;
conseqüentemente, deve existir uma “porta” para o alto, por onde os deuses
podem descer à Terra e o homem pode subir simbolicamente ao Céu. Assim acontece
em numerosas religiões.[14]

 

Essa
comunicação se inicia para revelar ao homem aquilo que se faz verdade no
religioso e o mito que diz o que fundou a existência e assim também traz ao
domínio do profano o “Ser”.

 

O mito proclama a aparição
de uma nova “situação” cósmica ou de um acontecimento primordial. Portanto, é
sempre a narração de uma “criação”: conta-se como qualquer coisa foi efetuada,
começou a ser. É por isso que o mito é solidário a ontologia: só fala
das realidades, do que acontece realmente, do que se manifestou
plenamente. É evidente que se trata de realidades sagradas, pois o sagrado
é real por excelência. Tudo que pertence à esfera do profano não
participa do Ser, visto que o profano não foi fundado ontologicamente pelo
mito, não tem modelo exemplar.[15]

 

Assim vemos que o mundo
profano não faz oposição ao sagrado, e não parece nenhum absurdo enxergar como
possível a interação entre estes dois. Essa relação se inicia com a
manifestação de criaturas sagradas no plano terreno, funda-se então o “tempo
sagrado”, definido por Eliade como habitat do homem religioso que vê nessas
manifestações, as hierofânias[16],
uma oportunidade de se aproximar do sacro espaço de Deus.

 

O mito conta uma história sagrada, quer
dizer, um acontecimento primordial que teve lugar no começo do Tempo, ab
initio
. […]. O mito é pois a história do que se passou in illo tempore,
a narração daquilo que os deuses ou os Seres divinos fizeram no começo do
Tempo.[17]

 

O
mito da criação cristã se encaixa nessa definição exemplar de Eliade, pois a
história cristã mostra que a criação terrena foi iniciada após o expurgo dos
domínios divinos das forças do mal. É a vontade espontânea de Deus em fundar um
novo plano onde Ele tem presença constante e atuante.

 

[…], sendo toda criação
uma obra divina e portanto irrupção do sagrado, representa igualmente uma
irrupção de energia criadora no Mundo. Toda criação brota de uma plenitude. Os
deuses criam por um excesso de poder, por um transbordar de energia. […]. é
por isso que o mito que conta essa ontofania
sagrada, a manifestação vitoriosa de uma plenitude de ser, torna-se o modelo
exemplar de todas as atividades humanas: só ele revela o real, o superabundante,
o eficaz.[18]

 

O
mito é utilizado como modelo exemplar em diversas tradições religiosas.
No cristianismo, onde há diversos mitos tidos como exemplo de conduta, a
atuação do arcanjo Miguel no plano terreno realiza uma reiteração da criação,
pois assim como nessa, há sempre a necessidade de vencer a mal, a fim de
liberar a terra das práticas influenciadas por esse. Também combinando as
características dos anjos e dos mitos, São Miguel traz em suas manifestações
mensagens de Deus, a verdadeira realidade religiosa e vence o mal para abrir a
possibilidade de uma existência sagrada na terra.

O arcanjo Miguel foi para
Idade Média uma das principais representações do ideal cristão de um mundo
sagrado, foi o mito que contou como a realidade veio a existir após a criação,
incentivou, por conta de sua luta com o dragão, o combate ao que se entendesse
como mal. Na obra de Milton vemos o quanto a batalha celeste, para defender as
criaturas de Deus, povoou o imaginário do homem ocidental. Ela é fundamental para
entendermos como São Miguel se encaixa no belicismo medieval, mesmo que
produzida no século XVII, pois esse período apresenta inúmeras continuidades
mentais da cultura medieval. O “Paraíso Perdido” diz muito sobre quem
foi o humano do medievo e como os mitos incutiram em seu cosmo-visão o ímpeto
de lutar por sua salvação.

O homem tendo por
necessidade a imitação dos deuses, numa vontade de se aproximar do real espaço
sagrado, estar mais próximo do Deus criador e protetor, reproduzia o que os
mitos lhe ensinavam, empreendendo na Idade Média guerras contra o pecado,
acabando por materializar o aspecto bélico humano e historicizando o mito de
São Miguel Arcanjo. A Igreja Católica teve papel decisivo nessa utilização do
mito de São Miguel convertido em belicosidade.

 

Em nenhum momento a representação de
anjos foi posta em causa, apesar da querela das imagens, e pôde inclusive se
prevalecer da legitimidade que lhe conferiu o II Concílio de Nicéia (787). O
monaquismo beneditino elaborou uma espiritualidade do anjo, enquanto se
enraizava no Ocidente o culto do arcanjo São Miguel.[19]

 

Desde os primeiros anos de
organização católica buscou-se a proliferação do cristianismo tão fortemente no
ocidente, mais que no oriente. Incisivamente era objetivo incutir nos povos germânicos,
saxões e, “bárbaros” em geral, as práticas cristãs. Em determinações papais e
nas práticas evangelizadoras percebem-se três diferentes formas de tentativas
de cristianização desses povos: A abolição dos ídolos pré-cristãos, sobrepondo
temas e práticas, também a destruição de lendas e templos e a lenta troca ou
complemento de práticas, ídolos e lendas. Comentando a obliteração, Jacques Le
Goff diz que: “A sobreposição dos temas, das
práticas, dos monumentos e das personagens cristãs a antecessores pagãos não é
uma “sucessão”, mas uma abolição. A cultura clerical encobre, oculta, elimina a
cultura folclórica”[20].
Sobre a destruição ele demonstra que: “provavelmente o mais importante processo
de luta contra a cultura folclórica: os temas folclóricos mudam radicalmente de
significado nos seus substitutos cristãos (exemplo do dragão na Vita
Marcelli
de Fortunato” [21].

O mito de São Miguel faz
parte dessas duas frentes, oblitera temas e quando ataca e vence o dragão está
desnaturando a sentido dado a essa lenda medieval, impregnada de maniqueísmo[22].
Nesse sentido, a compreensão das representações de São Miguel passa pelo
entendimento das relações entre a cultura clerical e as tradições folclóricas,
pois quando São Miguel aparece derrotando o dragão, ele simbolicamente derrota
o demônio que está relacionado ao paganismo, mas que foi ressignificado pelo
cristianismo, pois nas culturas folclóricas era sinônimo de força, realeza,
fertilidade, dentre outras[23].

Assim tentamos cercar o
nosso objeto de estudo ao mostrar em primeiro lugar a importância dos anjos na
tradição cristã e na sociedade medieval, depois discutir o papel do mito e
mostrar ainda as relações entre São Miguel, símbolo da cultura clerical com as
tradições folclóricas, tentando demonstrar que ele o desenvolvimento do seu
culto está inserido no contexto histórico de combate ao paganismo. Além disso,
tentamos iniciar as discussões que vinculam São Miguel às guerras terrestres
contra os inimigos de Deus e consequentemente da Igreja que tem como ponto de chegada
a salvação coletiva.

 

SÃO MIGUEL E COMBATE AO PAGANISMO

 

Para entendermos melhor,
como um mito pode influenciar toda uma civilização, é preciso penetrar um pouco
mais na formação da cultura híbrida cristã, que possui elementos de várias
tradições, folclórica, hebraica, grega, romana, etc. A violência medieval, a
luta do bem contra o mal, é justificada e incentivada pela sociedade comandada
clericalmente.

Em seu trabalho analítico
e renovador, “Idade Média: o nascimento do ocidente”, Hilário Franco Júnior
empreende em breves páginas um estudo das relações culturais desse período,
onde encontramos uma definição compartilhada também com a antropologia e que
será de extrema importância para continuarmos, pois o mesmo afirma:

 

[…] entendemos cultura como tudo
aquilo que o homem encontra fora da natureza ao nascer. Tudo que foi criado,
consciente e inconscientemente, para se relacionar com outros homens, com o
meio físico, com o mundo extra-humano.[24]

 

São Miguel faz parte das
produções que busca compreender e se relacionar com o cosmos, pois como já
dito, reproduz o mito da criação e promove a renovação espiritual no mundo.
Inserido no cristianismo como um herói, Miguel passa a ser utilizado, no início
do movimento dominador católico, como substituto de ídolos “bárbaros” e
galos-romanos[25]
pré-cristãos.

Essas tentativas, muitas
delas, bem sucedidas, de influenciar outras culturas foram praticadas e
organizadas por aqueles que tinham em suas mãos os destinos do catolicismo,
pois o objetivo era catequizar quem estivesse em desconformidade com as
interpretações do cristianismo. Uma desses desalinhos era a forma como se
utilizava outro personagem mitológico, pois enquanto os “pagãos” viam no dragão
a representação do equilíbrio entre as forças naturais, os cristãos, pelo
contrário, diziam ser o ele a possível materialização das forças do mal
unicamente, aquele que desequilibra o cosmos, este último criado por Deus e
assim morada do bem. O dragão católico remete a serpente que trouxe o pecado ao
mundo, é a própria representação do demônio.

 

[…], o dragão recebe, com efeito, a
interpretação que se imporá à cristandade medieval. Este dragão é a serpente da
Gênese, é o velho inimigo do homem, é o Diabo, é Satanás: “O grande dragão,
a antiga serpente, a que se chama Diabo ou Satanás”
(XIII, 9). […] É a
encarnação de todo o mal do mundo, é Satanás.[26]

 

Esse mal deve ser
expurgado para o triunfo das forças boas. É
exatamente São Miguel Arcanjo que primeiramente empreende combate contra esse
inimigo. Antes mesmo da criação do homem, esse herói já defendia as coisas de
Deus. O arcanjo é o responsável pelo comando do exército, e por ferir Lúcifer,
no combate que expulsa Satanás do paraíso.

 

Vi então um Anjo descer do céu, trazendo
na mão a chave do Abismo e uma grande corrente. Ele agarrou o Dragão, a antiga
Serpente – que é o Diabo, Satanás – acorrentou-o por mil anos e o atirou dentro
do Abismo, fechando-o e lacrando-o com um selo para que não seduzisse mais as
nações até que os mil anos estivessem terminados. Depois disso ele deverá ser
solto por pouco tempo.[27]

 

A desnaturação e demais
formas de recusa da cultura folclórica, por parte da Igreja católica, continuou
durante os primeiros séculos medievais trabalhou-se para catequizar outras
sociedades européias, mesmo algumas daquelas já cristianizadas que procediam de
forma arbitraria a visão central provinda do papa, a maior autoridade católica,
desde o século IV. Ao longo dos anos essa violência cultural foi dando espaço
para a violência física, por conta da incapacidade de se cristianizar certas
sociedades de melhor organização religiosa e de controlar determinadas camadas
da sociedade.

 

O MITO DE SÃO MIGUEL NA RELIGIOSIDADE BÉLICA MEDIEVAL

 

Decorrentes da organização
da sociedade feudal fundamentadas na guerra, os cavaleiros medievais começam, a
partir do século X-XI, a significar um perigo à pretensa harmonia da
Cristandade. Os seus suseranos já não conseguiam impedir a desejo dos mesmos em
liberar toda sua belicosidade, pois entediados se dedicavam a molestar e
pilhar, principalmente os agrupamentos de camponeses e membros do clero.

O estudo apenas das classes
privilegiadas poderia, entretanto, conduzir a um contra-senso sobre o lugar da
violência medieval. Se a nobreza tem, voluntariamente, comportamentos violentos
e se ela os concebe como um privilégio que lhe é mais ou menos reconhecido, a
violência está bem dividida por todas as camadas sociais.[28]

 

Então a Igreja teve de
agir, através de acordos que regulamentaram o uso da violência por parte dos
laicos, onde, a Paz e a Trégua de Deus[29] foram
o cerne do direcionamento da belicosidade para o combate às heresias e aos
mulçumanos em Jerusalém, durante as Cruzadas. Durante este período de Cruzadas
contra os inimigos do cristianismo, São Miguel é utilizado, agora não com o
intuito de sobrepor, ressignificar, o paganismo como ponto fundamental de
expansão cristã, mas de exterminar por completo os infiéis não apenas dentro da
Cristandade, mas fora dela, evocando através do Arcanjo guerreiro um novo
combate para reconquistar o paraíso perdido.

 

Quando a Igreja pregou a Paz de Deus,
não pretendia negar a validade da atividade bélica, mas apenas colocar os
cavaleiros sob seu controle. Tanto que o sermão papal de 1095, que deu origem à
Cruzada, nada mais foi que um reforço à Paz de Deus na Europa cristã e uma
conclamação à Guerra Santa fora dela, para aqueles que “outrora combateram
contra seus irmãos”.[30]

 

A mentalidade medieval
cristã se apoiou numa dicotomia que colocava o bem e o mal em luta constante e
a Igreja se utilizou dessa característica para incentivar combates que fossem
do seu interesse, mas não os faziam apenas por manipulação política das massas;
é certo que eles compartilhavam da crença e da urgência em fazer o catolicismo
triunfar e que São Miguel Arcanjo estaria do lado cristão e se necessário faria
intervenções violentas, como demonstra a oração abaixo, que mesmo não podendo
afirmar sua data de produção, percebemos nela muito da mentalidade medieval:

 

São Miguel Arcanjo,
defendei-nos no combate, sede o nosso refúgio contra as maldades e ciladas do
demônio. Ordene-lhe Deus, instantemente o pedimos, e vós, príncipe da milícia
celeste, pela virtude divina, precipitai no inferno a satanás e aos outros
espíritos malignos, que andam pelo mundo para perder as almas. Amém.[31]

 

Nessa perspectiva, é de
extrema importância os ensinamentos trazidos por mitos, anjos e santos, etc
para a organização da sociedade terrena, pois estas questões simbólicas têm
influência na realidade material, moldando comportamento, justificando guerras,
sejam na Idade Média ou na contemporaneidade.

Fora dos relatos bíblicos,
os anjos começam a florescer no imaginário e na literatura medieval a partir do
século IV, data de inicio do culto cristão a São Miguel que foi incentivado
pelos monges durante o combate ao paganismo. A principal função dos anjos na
Idade Média corroborada pela Bíblia é serem servidores do rei dos Céus. Segundo
Faure:

 

[…]: celebram a glória
divina, regem todo o universo, as nações, os elementos, os indivíduos e
transmitem a vontade divina. O mundo angélico está, pois, ao mesmo tempo,
voltado para Deus, que ele glorifica, e para o mundo visível, que ele sustém, e
no qual intervém.[32]

 

A Alta Idade Média é
fortemente marcada pela devoção aos arcanjos, em geral, e a São Miguel, em
particular, no século V, com a aparição de São Miguel em terras célticas o
culto ao santo se difunde rapidamente por toda a Europa. Durante o governo de
Carlos Magno este estabelece uma data, a de 29 de setembro, como o dia de São
Miguel, o que fortalecerá ainda mais o culto ao santo, iniciado no século IV, a
partir do trabalho de difusão do cristianismo praticado pelos monges
beneditinos. Os beneditinos tiveram importante papel, organizando o culto e o
sobrepondo a deuses pagãos em locais de tradição politeísta. Esse trabalho
conjunto entre Império e Igreja fechava ou marginalizava o culto de ídolos não
reconhecidos por essas duas forças dominantes.

Dionísio, Orígenes, Santo
Agostinho, São Gregório Magno e São Tomás de Aquino foram os responsáveis pelo
enquadramento dos anjos na teologia cristã, legitimado no II Concílio de Nicéia
de 787. É de conhecimento comum que as imagens eram, em todo medievo, de alta
valia para a evangelização dos leigos, que sem o conhecimento do latim, língua
de uso clerical, aprendia os ensinamentos bíblicos através delas, assim com a
contínua necessidade de representar passagens e personagens, a Igreja acabou
por potencializar utilização da iconografia que tinha uma função pedagógica.

Para Faure[33]
o anjo é considerado um ser cuja vocação é manifestar-se aos homens e
estabelecer relações com eles. Os anjos são representantes maiores do mundo
celeste e tem a função também de incentivar, mostrar aos homens como fazer da
terra um espelho do céu. O anjo é um modelo a ser seguido pelos homens, mas também
um companheiro e iniciador, e nesse sentido, São Miguel é um símbolo
importantíssimo para ensinar aos homens as qualidades essenciais para se
alcançar a salvação, o que inclui a guerra contra o diabo e todos aqueles
humanos que estão ligados a ele.

A partir dos séculos XIV e
XV, devido às crises pelas quais passam a sociedade medieval, os anjos passam a
ter uma função defensiva muito grande, sendo denominados de anjos da guarda. E
nesse contexto histórico São Miguel é também um anjo protetor venerado, um anjo
da guarda e continua tendo sua função guerreira muito ativa, agora inclusive,
não apenas ligado a guerra contra os inimigos do cristianismo, mas as guerras
entre os nascentes estados medievais. Um exemplo disso é que durante a guerra
dos cem anos São Miguel se tornou o protetor da realeza francesa contra a
inglesa[34]. Nessa
perspectiva dois aspectos se unem a figura de São Miguel: o guadião-combatente
e o guia da alma. “O primeiro traço mais precoce, se enraíza na função
guerreira de São Miguel e ocupa o seu lugar na visão do mundo como teatro de um
combate sem trégua entre anjos e demônios” [35].

Enfim, como afirma Faure,

 

O homem medieval viveu sob o
olhar e em companhia dos anjos. A figura celeste aparece não somente nos textos
teológicos, místicos, nos relatos, das visões, das vidas de santos, nos sermões
ou nas coletâneas de milagres, mas também numa iconografia superabundante. Tal
onipresença é, sem dúvida alguma, uma das características maiores do
cristianismo medieval[36].

 

Perceberemos a importância
de São Miguel, se mais uma vez buscarmos na Bíblia as origens de seu culto e se
tentarmos entender as interpretações medievais feitas desses escritos sagrados,
já que possuímos certo conhecimento da mentalidade da época. “Nesse tempo
levantar-se-á Miguel, o grande Príncipe, que se conserva junto dos filhos do
seu povo. […]” (DANIEL, 12, 1), esta é uma das passagens que demonstra o
quanto Miguel pode ser colocado em posto de patrono da Igreja, sua denominação
como “o grande Príncipe” que libertaria o povo escolhido até deixa transparecer
certa semelhança com a missão de Jesus.

Como já dito, a imagem de
São Miguel relaciona-se ao sentimento bélico e a necessidade de expurgar o mal
da terra e este está relacionado com a forma com a qual os homens medievais concebem
o mundo, pois todo o belicismo medieval provém da crença na constante luta já
citada, do bem contra o mal, idéia que corrobora com o maniqueísmo e vai
conceitualmente de encontro com as de dois teólogos que se dedicaram
enormemente a entender a relação entre essas duas forças que supostamente atuam
juntas no plano terreno.

Santo Agostinho que em sua
juventude era maniqueísta, depois viria a mal dizer essa filosofia, convertido
ao catolicismo se recusava a ver em Deus a origem do mal, o criador era a
origem do bem contido em todas as suas criaturas, porém a não perfeição destes
últimos o faz suscetível a corrupção, que é cerne do mal e, portanto fruto de
criaturas imperfeitas. O bem não poderia ser oponente do mal, pois o segundo
era a ausência do primeiro, mas Agostinho admitia a existência comum de
criaturas boas e as corrompidas, o que poderia criar um impasse, chegou a
incentivar o uso da força contra os cultos destoantes ao catolicismo. Seu
objetivo era fazer entender que o mal era uma privação da bem e que resultaria
em nada, pois Deus o criador de todas as coisas, criará somente coisas boas.

Já a Bíblia, em relação à
origem do mal e das demais criações, versa assim: “a fim de que saiba desde o
nascente do sol até o poente que, fora de mim, não há ninguém: eu sou Iahweh e
não há nenhum outro! “Eu formo a luz e crio as trevas, asseguro o bem-estar e
crio a desgraça: sim eu, Iahweh, faço tudo isso.” (ISAÍAS, 45, 6-7). “É Iahweh
quem faz morrer e viver, faz descer ao Xeol[37] e dele
subir. “É Iahweh quem empobrece e enriquece quem humilha e quem exalta.” (1
SAMUEL, 2, 6-7). Então era baseado em passagens como essas que os cristãos se
viam no dever de levar a cabo a vontade de Deus, levar a luz do cristianismo e
as trevas a quem seria de direito.

Ciente da existência de um
constante receio ao sobrenatural, os eclesiásticos do cristianismo medieval,
perceberam que era mais fácil fazer lutar contra as ameaças do mal do que
acreditar que esse não representaria perigo, por ser um não existir. Assim as
diferenças percebidas em relação aos maniqueístas eram apenas na forma de
combater o mal, em meados da Idade Média o cristão já estava totalmente
impregnado dessa dicotomia, ao invés do ascetismo, este acreditava agora mais
no uso da força para exterminar o inimigo.

 

O fosso cultural reside,
aqui, sobretudo, na oposição entre o caráter fundamentalmente ambíguo,
equivoco, da cultura folclórica (crença nas forças simultaneamente boas
e más e utilizando de uma utensilagem cultural de dois gumes) e o
“racionalismo” da cultura eclesiástica, herdeira da cultura aristocrática
greco-romana: é a separação do bem e do mal, do verdadeiro e do falso, da magia
negra e da magia branca, sendo o maniqueísmo propriamente dito evitado apenas
pela omnipotência de Deus.[38]

Enquanto, o já nascido já
inserido num âmbito cristão altamente bélico, São Tomás de Aquino ainda se
esforçou para definir a natureza do mal, sua “Suma Teológica” aborda
especialmente na questão XLIX essa problemática, onde concorda em diversos
pontos com Santo Agostinho: “[…] mal consiste na deficiência da ação é sempre
causado pela deficiência do agente. Em Deus porém não há nenhuma deficiência,
pois Ele é a suma perfeição, como já antes se demonstrou.”[39],define
o mal como a falta do bem, o não ser, resultante de uma deficiência no agente
do bem e acredita na recuperação das criaturas corrompidas.

Desde o início de seu
acolhimento pelos cristãos, o arcanjo Miguel foi posto como o guerreiro que
derrota o dragão e consequentemente o mal e o paganismo por ele representado.
Além disso, São Miguel também se encaixava na luta constante dos homens contra
os males da sua época, no caso aqui da Idade Média.

Nesse sentido, a Igreja
católica soube muito bem fazer o papel de ajudar os indivíduos nesta tarefa,
trazendo para os seus anseios possíveis afagos. Como já dito, a Igreja usa a
iconografia para evangelizar os não letrados, adaptando-se as necessidades dos
fiéis. Assim também foi feito o uso do mito de Miguel, numa sociedade onde os
homens acreditavam em mitos e em sua capacidade de ensinar e os levar a
perfeição divina. Reprodutor do mito da criação o de São Miguel fazia-os crer
numa possível redenção e fuga de tempos tão difíceis. “[…] Será um tempo de
tal angústia qual jamais terá havido até aquele tempo, desde que as nações
existem. Mas nesse tempo o teu povo escapará, isto é, todos os que se encontram
inscritos nos Livros.” (DANIEL, 12, 1). A grande missão seria lutar para estar
entre os salvos, participar do belicismo do lado das forças benéficas, derrotar
o mal e dar início a outra situação cósmica livre da corrupção, assim como fez
Jesus Cristo, quando se fez homem e veio em socorro do povo escolhido. Na
mentalidade medieval, Miguel procederia da mesma forma, interveria em caso de
eminência da derrota do bem, “O Príncipe do reino da Pérsia me resistiu durante
vinte e um dias, mas Miguel, um dos primeiros Príncipes, veio em meu auxílio.”
(DANIEL, 10, 13).

São Miguel, não foi por
acaso, o grande ícone do catolicismo medieval, um anjo guerreiro, que segundo a
Bíblia, expulsara de vez os anjos rebeldes do reino dos céus e que prometia
ação direta em batalhas travadas contra o mal, de modo algum deixaria de ser
reconhecido e cultuado da forma que foi.

Nesta perspectiva, devido
a sua importância, também se torna padroeiro das ordens de cavaleiros
medievais, representantes do mais alto grau bélico, que cumpriam seu papel
guerreiro na sociedade, que no plano divino deveriam lutar para proteger os que
trabalham e oram. A Igreja medieval, ancorada na mentalidade popular, promoveu
um número ainda incerto de cruzadas que libertaria o mundo do mal, representado
pelos hereges e islâmicos. A primeira campanha armada com o aval do papa foi
aprovada em um concílio, alcançou grande adesão devido ao clima de comoção na
Europa feudal, havia a pouco se perdido o poder em Jerusalém e Antioquia e
também indícios de um apocalipse se aproximando, pois catástrofes e epidemias
atingiam o mundo ocidental. Claro que não só a motivação religiosa foi
responsável pelas cruzadas, elas só se tornaram possíveis devido a alguns
fatores sociais favoráveis e um período de relativa estabilidade no sistema
feudal.

Porém, mesmo com essas
condições socioeconômicas não haveria Guerra Santa se estes homens não tivessem
uma natureza e uma mentalidade bélica.

 

Sabedor da unidade cosmológica, mas
assistindo no cotidiano à presença do dualismo (vida/morte, saúde/doença,
amor/traição, dia/noite, etc.), o homem medieval devia posicionar-se de um ou
outro lado dos grupos que ele imaginava em luta.[40]

 

A constante esperança de
ascensão ao reino de Deus, a recuperação do paraíso perdido e a consciência de
que só há possibilidade de salvação numa luta que envolva toda a coletividade
feudal medieval foram decisivas para o culto a São Miguel, guerreiro atuante no
combate universal contra todos os demônios.

 

CONCLUSÃO

 

Ponto de chegada deste
trabalho foi tentar mostrar as relações entre as representações de São Miguel
presentes desde a Bíblia, que contribuíram para incentivar e justificar em
vários períodos as batalhas medievais contra o mal. Num primeiro momento, sendo
utilizado pelos monges e Carlos Magno na luta contra o paganismo e, num segundo
momento nas Cruzadas na luta contra os infiéis, além de ser também apropriada
nas lutas entre as recentes monarquias medievais, como França e Inglaterra.

É inegável que o mito do
arcanjo Miguel contribuiu muito na justificativa religiosa do aspecto bélico
medieval. Á própria imagem do santo demonstra essa relação, pois este é sempre
representado com armadura, seja na época medieval, seja atualmente. A imagem de
Miguel encarna o papel de quem combate na linha de frente, numa mão carrega uma
lança, na outra traz um escudo com a Cruz de Cristo, aos pés, subjugado está o
próprio Lúcifer a quem enfrentou e venceu. Vitória que jogou os demônios ao
abismo cósmico, mas que permite a arquitetura de uma reação, o que fez os
medievais se imaginar no palco da revanche demoníaca.

A questão religiosa
misturou-se com o já costumeiro modelo nobre belicoso que utilizava a violência
a fim de subverter a ordem imposta pela Igreja e o Estado. “A violência é
constitutiva da nobreza.” [41]. O
fato de Miguel ser declarado padroeiro das ordens da Cavalaria demonstra essa
ligação. Nesse sentido, ele é modelo e exemplo a seguir.

Para a mentalidade
medieval fundamentada no cristianismo, seguir o Arcanjo e a seus cavaleiros
seria a maneira mais acertada de emergir ao reino de Deus. Em uma época onde o
mítico, o humano e o sobre-humano eram vistos juntos e se confundiam fica fácil
a transformação do combate cosmológico em combate físico.

 

Houve então uma batalha no céu: Miguel
e seus Anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão batalhou, juntamente com
seus Anjos, mas foi derrotado, e não se encontrou mais um lugar para eles no
céu. Foi expulso o grande Dragão, a antiga serpente, o chamado Diabo ou
Satanás, sedutor de toda a terra habitada – foi expulso para a terra e seus
anjos foram expulsos com ele.[42]

 

Além de toda a importância
de São Miguel para a compreensão da sociedade medieval, podemos também pensar
como foi ressignificado e se encaixa também nas necessidades do mundo atual, no
qual ainda é fortemente cultuado e continua sendo um dos exemplos maiores de
conduta dentro do cristianismo. Continua ainda como defensor das criaturas de
Deus das investidas maléficas, que não são apenas restritas ao demônio, mas
também enxergadas como ameaças que tomam forma de problemas sociais e
econômicos contemporâneos.

 

 

REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS

 

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. Trad.: Antônio José Lima Leitão. São Paulo: Clássicos Jackson,
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PERMANENTE. Novena a São Miguel Arcanjo. Disponível em http://rosariopermanente.leiame.net/devocoes/smiguel_nov.php.
(consultado em 05 de Outubro de 2007).


[1] GAUVARD, Claude. “Violência”. In: Dicionário
Temático do Ocidente Medieval.
LE GOFF, Jacques/ SCHMITT,
Jean-Claude (Orgs.). Bauru: Edusc; São Paulo:
Imprensa Oficial do Estado. 2 vols., 2002, p. 612.

[2] CARDINI, Franco.
“Guerra e Cruzada”. Ibidem, p. 473.

[3] LOBRICHON,
Guy. “Bíblia”. Ibidem, p. 105.

[4] Idem, Ibidem, p. 108.

[5] Idem, Ibidem, p.
105.

[6] Termo hebraico que designa Deus nas Escrituras Sagradas.

[7] BÍBLIA. A.T. Português. Bíblia de Jerusalém. Coordenação
de Gilberto da Silva Gorgulho, Ivo Storniolo, Ana Flora Anderson. São Paulo:
Paulus, 1995. Todas as citações bíblicas foram retiradas desta Bíblia e
organizadas de modo a informar inicialmente o nome do livro, em seguida número
do capítulo e por fim o versículo.

[8] Original hebraico que da sua forma
latina angelus foi traduzida para o português anjo. O termo malak aparece uma
centena de vezes no Antigo Testamento que o classifica como membro e ministro
da corte de Iahweh. Disponível em: http://www.baptistlink.com/solascriptura/Angelologia/Angelologia-LazaroDeAssis.htm.
Acessado em: 22/10/2007.

[9] BÍBLIA. A.T.
Português. 1995, op. cit.,
(Gênesis, 16, 9-11).

[10] Cidadão ateniense membro do Areópago,
conselho de aristocratas que compunham o exército de elite da cidade em tempos
de guerra, na democracia o Areópago exercia a função de tribunal criminal. De
origem incerta, os textos atribuídos a Dionísio, foram provavelmente escritos
na Síria no fim do século V. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Pseudo-Dion%C3%ADsio,_o_Areopagita.
Consultado em: 09/10/2007.

[11] MILTON, John. Paraíso Perdido. Trad.: Antônio
José Lima Leitão. São Paulo: Clássicos Jackson, 1964, p. 330.

[12] FAURE, Philippe. “Anjos”. In: Dicionário Temático do
Ocidente Medieval.
LE GOFF, Jacques/ SCHMITT, Jean-Claude (Orgs.). Bauru: Edusc; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado. 2
vols., 2002, p. 71.

[13] Maior expoente mundial da filosofia e história das religiões, no livro
Sagrado e o Profano: a essência das religiões, Mircea Eliade parte de uma
dicotomia cósmica para explicar as relações que os humanos estabelecem com seus
deuses na busca de explicação para a existência terrena, questões como
simbologia, mitos e manifestações do sagrado são alicerces em seu pensamento
histórico-filosófico.

[14] ELIADE, Mircea. Tratado de
história das religiões.
2ª edição. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

p. 30.

[15] Ibidem, p. 85.

[16] Definida por Eliade como uma
manifestação de algo diferente da realidade profana do nosso mundo. È quando o
sagrado se manifesta, quando há a revelação de uma realidade absoluta,
que se opõe à não-realidade da imensa extensão envolvente.

[17] Ibidem, p. 84.

[18] Ibidem, p. 86.

[19] FAURE, 2002, op. cit., p. 69.

[20] LE
GOFF, Jacques. Para um novo conceito
de Idade Média:
tempo,
trabalho e cultura no Ocidente.
Lisboa:
Estampa, 1980, p. 214.

[21] Idem.

[22] Dualismo religioso sincretista que
se originou na Pérsia e foi amplamente difundido no Império Romano, cuja
doutrina consistia basicamente em afirmar a existência de um conflito cósmico
entre o reino da luz (o Bem) e o das sombras (o Mal), em localizar a matéria e
a carne no reino das sombras, e em afirmar que ao homem se impunha o dever de
ajudar à vitória do Bem por meio de práticas ascéticas, evitando a procriação e
os alimentos de origem animal. Qualquer visão do mundo que o divide em poderes
opostos e incompatíveis. HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro Salles. Dicionário
Houaiss da língua portuguesa
. Rio de Janeiro: Editora Objetiva. 1ª edição,
2001.

[23] Cf. LE GOFF, 1980, op. cit., p. 235-237.

[24] FRANCO JÚNIOR, Hilário. A Idade Média: nascimento do ocidente.
2ª edição. São Paulo: Brasiliense, 2001, p. 102.

[25] Definição dada àqueles deuses cultuados na Gália e em domínios romanos,
também àqueles resultantes da interação cultural entre esses dois ambientes. Os
deuses gauleses eram na sua maioria de origem celta. Cf. HOUAISS, Antônio;
VILLAR, Mauro Salles. 2001, op. cit..

[26] LE GOFF, 1980, op. cit., p. 230.

[27] BÍBLIA. N.T. Português. 1995, op. cit., (Apocalipse, 20, 1-3).

[28] GAUVARD, Claude. “Violência”. In: Dicionário
Temático do Ocidente Medieval.
LE GOFF, Jacques/ SCHMITT,
Jean-Claude (Orgs.). Bauru: Edusc; São Paulo:
Imprensa Oficial do Estado. 2 vols., 2002, p. 608.

[29] Segundo Hilário Franco Júnior, a Paz de Deus foi um conjunto de medidas
tomadas pela Igreja medieval que buscavam trazer de volta a paz social, o
respeito às igrejas, clérigos e aos pobres. Enquanto a Trégua de Deus definia
dias em que seria proibido o uso de armas, esta serviu para aumentar o controle
sobre os laicos cavaleiros, pois a Paz de Deus já se mostrava insuficiente no controle
da ordem política e religiosa. FRANCO JÚNIOR, 2001, op. cit., p. 74-75.

[30] Ibidem, p. 148.

[31] CANÇÃO NOVA. Ladainha de São
Miguel
. Disponível em
http://www.cancaonova.com/portal/canais/formacao/internas.php?id=&e=6692.
(consultado em 05 de Outubro de 2007).

[32] FAURE, 2002, op. cit., p. 70.

[33] Ibidem, p. 72-73.

[34] Ibidem, p. 78.

[35] Idem.

[36] Ibidem, p. 69.

[37] Palavra hebraica que denomina a morada de todos os mortos.

[38] LE GOFF, 1980, op.
cit., p. 215.

[39] AQUINO, São Tomás. “Da processão e da distinção das criaturas”. In: Suma
Teológica.
São Paulo: Faculdade de Filosofia Sedes Sapientiae, 1946, p.
155.

[40] FRANCO JÚNIOR, 2001, op. cit., p. 147.

[41] GAUVARD, 2002, op. cit, p. 612.

[42] BÍBLIA. N.T. Português. 1995,
op. cit. (Apocalipse, 12, 7-9).

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