O ENTRE-LUGAR: A REPRESENTAÇÃO DO PURGATÓRIO NA BAIXA IDADE MÉDIA

O ENTRE-LUGAR: A REPRESENTAÇÃO DO PURGATÓRIO NA BAIXA IDADE MÉDIA

O ENTRE-LUGAR: A REPRESENTAÇÃO DO PURGATÓRIO NA BAIXA IDADE
MÉDIA

NICOMEDES
DA SILVA ROCHA NETO

RESUMO

 

Este trabalho tem como
objetivo compreender o nascimento do Purgatório durante o século XII, buscando
relacioná-lo as concepções anteriores elaboradas por Santo Agostinho e ainda
entendê-lo a partir de alguns aspectos culturais da Baixa Idade Média. A
compreensão do purgatório é fundamental para o entendimento de uma nova
concepção espiritual medieval e das influências que ainda hoje sofremos da introdução
na geografia do além desse terceiro lugar. Se antes do século XII somente havia
Inferno e Paraíso com o surgimento do purgatório, a possibilidade de salvação
se alarga e depende cada vez mais da intermediação da Igreja, o que aumentou
seu poder na Idade Média.

Palavras – Chave: Morte –
Purgatório – Idade Média

 

 

1
– INTRODUÇÃO

O objetivo deste trabalho é compreender
algumas representações do Purgatório presentes na Idade Média e suas relações
com a mentalidade religiosa medieval. O tema do Purgatório está intimamente
relacionado às concepções sobre a Morte, o Paraíso e o Inferno, presentes no
medievo, sendo uma invenção do século XII que se insere nas transformações
políticas, econômicas e sociais da Baixa Idade Média. As características do Purgatório
já haviam sido pensadas, anteriormente, por Santo Agostinho. Mas, apesar da
importância considerável deste pensador para formação da doutrina do
Purgatório, serão os teólogos do baixo medievo que sistematizarão a idéia do
Purgatório e estabelecerão suas funções.

A Morte na Idade
Média não é apenas cessação de todas as funções orgânicas, mas a possibilidade
de uma vida eterna. Se antes do nascimento do Purgatório existiam apenas dois
caminhos no mundo do além: o Inferno e o Paraíso, com o seu surgimento é
introduzido um terceiro caminho, o que possibilitaria ao individuo uma
exeqüível redenção.

A pesquisa utilizará como fontes
bibliográficas fundamentais, as obras de Jacques Le Goff, O Nascimento do
Purgatório[1]
;
Em busca da Idade Média[2],
e alguns verbetes do Dicionário Temático do Ocidente Medieval[3], organizados por ele. Além disso,
serão utilizados ainda o livro de Jean-Claude Schmitt, Os Vivos e os Mortos
na Sociedade Medieval[4].
Faremos
uso também de dois estudos de Phillipe Áries, História da Morte no
Ocidente[5]

e o artigo Uma Antiga Concepção do Além[6], bem como do livro de Jean
Delumeau, História do Medo no Ocidente[7]. Por fim, será utilizada a Bíblia[8] que é importante para mostrar que
não há menções neste livro da palavra Purgatório, o que favorecerá criticas a
este respeito.

O Purgatório, segundo Jacques Le Goff, é
uma sala destinada aos medíocres, destino de pecadores médios e ordinários, que
não merecem a salvação direta, mas que, contudo, também não terão suas almas
levadas ao Inferno. Portanto era uma suposição recorrente na Idade Média de que
todos, no mundo cristão, iriam parar neste entre-lugar, antes de ter definido
por Deus o destino final da sua alma. Conforme salienta Le Goff,

Assim, é através do modo de vida que
cada um levou durante a existência corpórea, que se determina a utilidade ou
inutilidade desses auxílios que lhes são piedosamente dedicados após a morte.
Se o mérito da proveitosidade foi nula durante a vida, permanecerá estéril
também após a morte[9].

Sobre o Purgatório,
segundo Jean-Claude Schmitt a cristandade é tomada no século XIII por um grande
fervor contra a heresia. Para refutar os heréticos é que se encoraja a formação
de novas ordens religiosas para que elaborem um sermão que pudesse chegar ao
maior número de cristãos. As heresias dos séculos XII-XIII foram essencialmente
movimentos sociais contestadores, que assumiam forma religiosa por ser, é
óbvio, produto de seu tempo. Noutros termos, o discurso ideológico dominante,
clerical, só poderia ser negado por um discurso que partisse dele. Só poderia
ser quebrado por dentro. Eis o sentido das heresias.

O modelo utilizado é o exempla,
uma espécie de relato curto, e na maioria das vezes são histórias de mortos e o
lugar para onde suas almas iriam, uma característica que o exempla
carrega é a aparição cada vez maior de pessoas simples, pois relatos mais
usados até então os miracula tinham como personagens a cavalaria e o
clero. O exempla traz traços inéditos nele é toda a sociedade leiga que
se abisma, tanto quanto os mortos. As histórias são concentradas no morto
individual, em seu pedido de sufrágios aos seus parentes ou ao cura da
paróquia. O lugar de onde vem o morto é claro, individualizado e localizado o
Purgatório. O terceiro lugar põe um fim nas divagações incertas. Com isso a
população por saber de onde vêm os fantasmas, trazendo uma calmaria aos centros
urbanos que viam crescer o número de mendicantes e isso trazia um grande medo
que seus fantasmas pudessem voltar a terra, com seu lugar certo suas almas já
não teriam destino infernal.[10]

As concepções de morte e por conseqüência
do surgimento do Purgatório traçam ao longo da História Ocidental uma divisão.
Antes de seu nascimento, o Purgatório não tinha um lugar no imaginário social,
pois os indivíduos medievais viviam com a certeza da morte que os levaria
conseqüentemente para o céu ou para o Inferno a depender de como foi o seu
comportamento em vida. Porém, com o passar dos séculos, a necessidade humana de
explicações maiores acerca do além fez, antes do século XII, cogitar-se um
terceiro lugar. Toda uma estrutura de como era esse lugar e suas funções foram
difundidas para os cristãos católicos pela Igreja, tomando por base os estudos
de teólogos medievais, como foi o caso de Santo Agostinho que é considerado por
Le Goff “o verdadeiro pai do Purgatório[11]:
o local liminar onde algumas pessoas estacionavam antes de terem sua entrada
garantida num lugar para poucos, o reino celeste.

Essa garantia só poderia ser obtida
através das orações e intercessão dos fiéis, parentes, amigos e irmãos de
confraria. Os séculos, a partir do XI, foram nos países católicos, os séculos
do Purgatório, nos quais se construiu a idéia da possibilidade de diminuição do
tempo de provação dos mortos na espera da passagem definitiva para o céu, além
de ter aumentando o desejo dos vivos de reencontrar no além-túmulo os seres
amados. Uma das provas dessa expectativa seria a criação de cemitérios no
interior dos santuários.

A importância desse
trabalho consiste em mostrar o evento do nascimento do Purgatório, algumas de
suas bases feitas por Santo Agostinho ainda no século IV, a repercussão de seu
pensamento para os estudiosos do santo no século XII e XIII, onde, se
anteriormente, não havia a existência do terceiro lugar, fixou-se a sua
invenção, através de textos escritos não por Agostinho, mas por seguidores de
suas idéias. O Purgatório foi um grande alívio para a as massas camponesas que
viam nos fantasmas ameaças latentes da tranqüilidade temporal.

2 – O Nascimento do Purgatório

O Purgatório é uma
criação da Idade Média e representa um lugar intermediário entre o céu e o
Inferno no qual os pecadores teriam a chance de ficar temporariamente enquanto
pagam os seus pecados, podendo inclusive após um certo período obter a
salvação. O Purgatório é uma criação do século XII. Antes desse período
existia apenas a idéia da existência do Paraíso e do Inferno.

No entanto, apesar da
sistematização da idéia de Purgatório ser uma realidade da Baixa Idade Média,
já existiam relatos da ocorrência de um lugar no pensamento judaico-cristão,
denominado de Shéol que terá elementos importantes, que serão
constituintes na idéia do Purgatório desenvolvida posteriormente. O primeiro
deles é a noção de trevas que envolve todo o mundo dos mortos. Depois a
presença da montanha e do rio[12]. Há
relatos também da ocorrência de um lugar intermediário, como no Livro de Esdras
e no Apocalipse. Segundo Le Goff, estes dois livros se referem a um lugar de
descanso após a morte.

Esdras pergunta ao Senhor: “Se em ti
encontrei a graça, Senhor, mostra também ao teu servo se depois da morte ou
agora, quando cada um de nós entrega a alma, seremos deixados em repouso até
que chegue o dia que ressuscitarás a criatura ou se em seguida, depois da
morte, seremos castigados[13].

Conforme trata Le Goff,
“Padres da Igreja do século IV, Ambrósio, Jerônimo e Agostinho – que as almas
de certos pecadores poderiam talvez ser salvas durante a morte e o Juízo Final,
sofrendo provavelmente uma provação[14].” No
entanto, segundo o autor essa crença não conseguia localizar com precisão essa
situação e essa provação[15].

Todavia, Santo Agostinho
também forneceu elementos para o desenvolvimento da idéia da existência de um
espaço que se localizava entre o céu e o Inferno e que foi fundamental para a
concepção da salvação das almas no período medieval. Nesse sentido, Santo
Agostinho é importante como um dos primeiros pensadores a desenvolver algumas
idéias que vão estar presentes na concepção de Purgatório que será desenvolvida
no século XII. Além disso, Le Goff o denomina “o verdadeiro pai do Purgatório”[16].

Um dos mais célebres filósofos da Igreja
Católica, Santo Agostinho (354-430), demonstrou em suas idéias alguns pontos
relevantes para pensar o Purgatório. Agostinho foi o primeiro a afirmar a
eficácia dos sufrágios pelos mortos. Para Le Goff, depois da morte de sua mãe,
Agostinho, em sua obra Confissões, demonstra o papel preponderante
exercido por Santa Mônica na crença de que as preces podem comover Deus e
influenciar a decisão divina no tocante a salvação da alma. Porém, Agostinho
diz que as orações só podem fazer efeito positivo nesse sentido se o morto
tiver uma vida não tão pecadora.

Além disso, segundo Ricardo Costa a
própria mãe de Agostinho em um sonho estabeleceu a relação de ajuda dos vivos
para com os seus entes queridos mortos. Segundo Costa, Santa Mônica teve um
sonho no qual se via de pé sobre uma régua de madeira, quando um jovem veio ao
seu encontro e perguntou-lhe porque estava tão triste e amargurada. Ela
respondeu que chorava a perdição de seu filho. No entanto, o rapaz pediu que
ficasse sossegada, pois, onde ela estivesse, ele estaria junto. Nesse momento,
o rapaz viu Agostinho ao lado dela, na mesma régua. [17]`

Ou seja, tal passagem pode ser
interpretada como o estabelecimento de uma relação intrínseca entre o mundo dos
vivos e dos mortos e que uma pessoa ao pedir e orar por seu ente querido que
morreu poderia ajudá-lo e contribuir para a sua salvação, mesmo este estando no
mundo do além.

Jean Delumeau explicando as manifestações
dos mortos para a Igreja Católica afirma que eles só apareciam para os vivos
por permissão de Deus. Isto quer dizer que as interpretações de Agostinho sobre
as ligações entre os homens e o mundo do além vão ser lidos e relidos pela
Igreja. Os vivos então podem ajudar os mortos a se salvarem. Os mortos vêm
pedir orações ou admoestar os vivos para que vivam de maneira melhor para que
sua alma vá ao Purgatório e não para a danação.[18]

Jean Claude Schmitt estudou vários
relatos de fantasmas medievais, cujo objetivo era reclamar os sufrágios que os
libertariam dos tormentos do Além. Nas narrativas produzidas na abadia de Cluny
eram apresentadas as necessidades de esmolas e da celebração da alma dos
mortos, além de apresentar a Virgem Maria como principal auxiliar das almas
quanto à salvação. As visões também atacam os padres, alertando sobre a
necessidade da prece individual pelo morto. Os relatos existentes insistem que
é melhor dar esmolas aos pobres que aos indignos. Atestam ainda a continuidade
da solidariedade entre vivos e mortos e as orações monásticas como forma
superior e eficaz para ajudar os defuntos.[19]

Um episódio crucial para que Agostinho
desenvolvesse algumas idéias relacionadas ao Purgatório foi o pedido do bispo
Paulino de Nola a respeito da vantagem de se sepultar um cristão junto ao
túmulo de um santo. Tal resposta originou o livro "De Cura pro Mortuis
Gerenda" (O Cuidado Devido aos Mortos
) escrito por Agostinho, em 421.
Conforme o filósofo medieval,

Caro
Paulino: consideras que, caso a opinião que diz ser útil sepultar os entes
queridos junto a sepulturas de santos seja verdadeira, então existe uma
controvérsia com relação às palavras do Apóstolo que diz: "Todos nós
certamente nos apresentaremos diante do tribunal de Cristo, para recebermos a
retribuição de acordo com aquilo que fizemos durante nossa vida corporal, seja
para o bem ou para o mal"[20].

Tal trecho demonstra que Agostinho se contrapõe a
idéia costumeira de que ao serem enterradas perto ou redor de túmulos de
santos, tais mortos obteriam para suas almas algum tipo de benefício. Para ele,

Para alguns, tais auxílios são
totalmente inúteis, pois a conduta destes durante a vida foi tão má que
simplesmente se tornaram indignos de os aproveitarem. Também existem outros que
viveram de forma tão irrepreensível que não têm necessidade desses socorros[21].

Na carta a Paulino de Nola, Agostinho
enfatiza também que:

Contudo, isso não significa que a
Igreja e os fiéis perdem seu tempo, ao inspirar, pela religião, o piedoso
cuidado aos defuntos – ainda que seja verdade que cada um receberá de acordo
com o que praticou de bom ou de mau durante a sua vida, já que o Senhor
retribui a cada um conforme as suas obras; logo, para que o cuidado tomado em
relação a um ente querido seja-lhe útil após sua morte, é necessário que essa pessoa tenha adquirido a
faculdade de torná-lo útil ainda durante o tempo em que viveu no seu corpo[22].

Essa idéia de Agostinho se pauta na
Bíblia quando o apóstolo Paulo diz que “todos nós nos apresentaremos para o
tribunal de Cristo, recebendo a retribuição de acordo com aquilo que fizemos
durante nossa vida corporal, para o bem ou para o mal”. [23]

Ainda que as palavras de Agostinho e do
apóstolo Paulo não sejam de fato uma incitação à existência do Purgatório,
estas também não geram em absoluto a negação da existência deste lugar. Além
disso, são algumas das idéias desses dois pensadores centrais para a Igreja que
influenciaram na concepção do Purgatório, a partir de fins do Século XII, pois
esse era concebido como um espaço onde se espera por sufrágios dos vivos para
obter, pela piedade Divina, o reino dos céus.

Em sua
obra A Cidade de Deus, Santo Agostinho busca convencer os cristãos de que a
queda de Roma faz parte da vontade divina. Nessa obra mesmo que de forma,
muitas vezes conflitantes, Agostinho coloca idéias que serão fundamentais para
a posterior concepção do Purgatório. Primeiro descreve que todos os homens
seriam salvos, mas antes teriam de ir ao Inferno. Também fala que as preces
santas levariam as almas aos céus sem que estas fossem ao Inferno e que todos,
mesmo os heréticos e cismáticos que comungassem poderiam ser salvos. Depois,
nega tal concepção e afirma que só os católicos e não mais os hereges e
cismáticos seriam salvos. Outra idéia importante é a de que se salva quem mesmo
com uma vida pecadora professasse fé ao fim de seus dias e por fim quem dentre
eles oferecesse esmolas.[24]

No pensamento de Agostinho também existe a idéia de que a ida
ao Inferno para os condenados ao fogo purgatório é certa e que esse fogo é
bastante doloroso. E que a condição futura do condenado dependerá de sua
vivência terrestre. Nesse sentido, quem fosse inteiramente mau seria levado,
com certeza, ao Inferno. Ao contrário, quem tivesse comportamento basicamente
bom, poderia galgar, por sufrágios dos vivos, sair deste fogo purgatório.
Assim, o julgamento após a morte baseado na vida terrena implica as hesitações
de Agostinho, que indica que o fogo eterno deveria ser em essência “moral”,
embora não negue “real”.

O santo faz diferença entre os tipos de pecados que levariam
o indivíduo direto para o Inferno. Os pecados mais graves são considerados para
ele como “crimes” e levariam irremediavelmente ao Inferno seus praticantes. Já
os pecados menores são considerados bagatelas, trocos da existência, estes são
considerados por Agostinho situações fáceis de contornar desde que não se deixe
acumular e, assim, invadam o espírito.[25]

Para Agostinho, então, existe a possibilidade de que as almas
dos mortos possam ter suas penas progressivamente aliviadas de sua condição
pecadora, pelas preces, esmolas e missas dos vivos, sendo assim vista uma
melhora, pelos sufrágios.[26]

Apesar de não ter pensado especificamente no Purgatório
pode-se concluir como veremos a seguir que muitas das idéias de Agostinho
estarão presente no desenvolvimento do conceito de Purgatório elaborado na
Baixa Idade Média.

3 – O
PURGATÓRIO NO SÉCULO XII

 

Até o fim do século XII, como bem
analisou Le Goff, a palavra purgatorium não existia como substantivo. O
Purgatório não existe[27].Antes
desse período existiam dois caminhos possíveis para o homem no Além: o Paraíso
e o Inferno.

Os medievais percebiam o
Além como uma realidade: a Idade Média foi o tempo do Além. A preocupação com o
pós-morte foi uma constante em suas vidas e este espelhou, em certa medida,
todo o emaranhado imaginário de esperanças, de expectativas e de angústias de
toda a sociedade medieval.

A busca pela salvação da alma era o
objetivo mais importante para os medievais e para alcançar a salvação era
necessário seguir o caminho correto dentre as vias possíveis para o período. O
mundo é apresentado pela Igreja de forma dualista, cristãos x não-cristãos, bem
x mal, Deus e o Diabo e tanto leigos quanto clérigos saem em busca da salvação
da alma.[28] E o
mundo era considerado
como um local de combate contra o Diabo, um combate pela salvação da alma[29].
A salvação era a preocupação fundamental
dos medievos mais pelo pavor do castigo que pelo anseio do Céu. Quanto a
atingi-la, representava uma árdua batalha para a alma humana, que se debatia
entre o desejo dos prazeres e o terror do abismo infernal.[30]

O conceito de salvação na Idade Média era
vinculado à idéia de viagem. Imprensado entre dois mundos, o da carne pecadora
e o da alma, entre o mundo terrestre efêmero e a eternidade do mundo celeste, o
homem medieval se via como um viajante, homo viator, um caminhante entre
dois mundos. Deste modo, a terra era entendida essencialmente como um lugar de
passagem[31]. O dilema da finitude humana sempre
fez parte do âmbito religioso; as religiões lidaram com a questão da morte e do
Além. Da imagem da morte e suas representações – um tema cheio de silêncios
voluntários e involuntários[32] – o
Além é um espaço-espelho da sociedade que o imagina. Espaço-reflexo perfeito
(Paraíso), mas também invertido (Inferno).

O Além cristão é inicialmente um local
binário, dividido em Paraíso e Inferno. O Paraíso está no alto, é o lugar da
transcendência, sede das entidades celestes e morada de Deus e o baixo, é o
Inferno lugar de castigo dos condenados no Além, localizado embaixo da Terra. O
baixo é dominado pelo Diabo, sendo também chamado de geena [33]
ou geena do fogo. Em latim a palavra Inferno, infernus significa
inferior. Quem para lá fosse estava condenado a castigos eternos no fogo que
não se apaga, a tortura aplicada pelo Senhor do Mal e seus auxiliares.

O Reino de Deus para os Cristãos era o
Reino Celeste. Lá seria onde se localizava o Paraíso de verdade. Para este
local de felicidade iriam os justos e bem-aventurados nesta vida quando
chegasse o fim dos tempos. Assim é descrito o Reino Celeste na Bíblia no Apocalipse
de João
, obra produzida no século I, momento de intensas perseguições aos
cristãos:

É
por isso que estão diante do trono de Deus, servindo-o dia e noite em seu
templo.Aquele que está sentado no trono estenderá sua tenda sobre eles: nunca
mais terão fome, nem sede, o sol nunca mais os afligirá, nem qualquer calor
ardente; pois o Cordeiro (Cristo) que está no meio do trono os apascentará,
conduzindo-os até as fontes de água da vida.E Deus enxugará toda lágrima de
seus olhos[34]

O Paraíso é o local de Salvação, para
isso Deus é auxiliado por anciãos e por anjos e envia avisos à humanidade para
que se arrependam dos pecados, pois no Juízo Final haverá a definitiva
separação, com a felicidade suprema aos bons e a danação eterna aos maus.

Ramon Llull[35]
escreve seu livro Doutrina para crianças [36], dedicado a seu filho Domingos, com
uma descrição do Inferno e do Paraíso. Na pedagogia medieval, a lembrança do
Além domesticava os espíritos, buscando torná-los mais serenos e, ao mesmo
tempo, mostrando-os que esse tempo era efêmero e que deveriam se preocupar com
a salvação de suas almas.[37]

No Paraíso segundo Ramon Lull as almas
dos bem-aventurados têm suas capacidades estendidas e plenamente realizadas e
ocorre uma complementaridade perfeita entre a Trindade de Deus e a alma e o
corpo humano. No Jardim do Édem, conforme descreve Llull, para o filho este
verá além de Cristo e Maria diversos homens santos, anjos, ou seja, todos os
bem-aventurados:

Filho, tu verás Nossa Senhora Santa Maria
diante de Nosso Senhor Deus Jesus Cristo, e verás uma procissão e uma fileira
de todos os anjos, arcanjos, mártires, profetas, virgens, confessores e abades;
e ouvirás que todos, louvam e bendizem Nosso Senhor Deus, por todos os tempos,
como Deus estará no céu e durará em Sua glória, perduravelmente sem fim[38].

Além disso, o Paraíso era descrito como
um lugar no qual o eleito se deliciaria com a música dos astros e, nesse
espetáculo harmônico, o corpo seria glorificado com a liberdade total,
liberdade de espaço, de movimento, de ausência de qualquer necessidade. Era um
lugar de grandiosidade da felicidade pela possibilidade de contemplação de Deus
em Sua glória, pois a glória celestial nunca terá fim[39].
Segundo Le Goff o Paraíso era concebido como lugar de clima sempre agradável,
árvores opulentas, um ou mais rios, uma fragrância deliciosa no ar, uma
barreira que o aparta do mundo, um jardim e a morte. O paraíso não é para os
vivos, mesmo sendo para os homens.[40]

Segundo Llull o Inferno
é:

O Inferno é como um mar borbulhante
e cheio de fogo ardente, com grande peixes que devoram os homens … os gritos,
as vozes e o pavor daqueles homens que não poderão se defender daqueles peixes,
dragões infernais, dos quais não se poderá fugir nessa água borbulhante, os
danados, como os legumes no óleo fervendo, sentirão muita dor. A porta do
Inferno é como a boca de um dragão, cheia de dentes: pecadores e infiéis nunca
cessam de cair ali. [41]

Llull explica para seu
filho que no Inferno os diabos devoram os homens. E para que este compreenda o
que ele diz recorre à imagem dos cães devorando a carniça:

Quando fores para fora dos muros da
cidade e encontrares as bestas mortas que o homem expulsa para o vale, verás
muitos cães, grandes e pequenos, que roerão aquelas bestas, as orelhas, os
olhos, a cara, os braços e as pernas, e entrarão do ventre e roerão teus ossos
e comerão teu coração e tuas entranhas, então é certo, filho, que cogites nos
infernados, que estarão pelos campos e virão os demônios semelhantes aos cães,
leões e serpentes, e morderão aqueles homens, suas cabeças, seus braços e seus
membros e não poderão morrer nem escapar daquela pena. [42]

A intensidade do sofrimento no Inferno
dependerá do número e da grandeza dos pecados cometidos e a pena sofrida jamais
será diminuída. O que importava era que os condenados compreendessem que foram
criados só para Deus e que por causa de sua perversidade e orgulho, o perderam
e estarão para sempre separados.[43].

Ao descrever o Inferno
para seu filho, Llull informa sobre a existência do Purgatório. Sua geografia
infernal é bem hierarquizada. Logo de início ele divide o Inferno em quatro
espaços um deles é denominado de Inferno
Purgatório, onde o homem cumpre penitência pelas coisas que não cumpriu neste
mundo.[44] É
interessante notar que Llull considera o Purgatório como parte do Inferno e não
um terceiro lugar, como faz Dante na Divina Comédia.[45]

Nesse sentido, já está presente nos
relatos de Llull a idéia de que se homem conseguisse manter o corpo puro,
conseguiria a salvação [46]. Caso
o maculasse, sua alma sofreria a danação com castigos eternos no Inferno ou
provisórios no Purgatório. De qualquer forma o castigo seria sentido pela alma
de uma forma quase corpórea e era caracterizado por torturas no fogo e gelado [47].

 

 

 

4 – O nascimento do
Purgatório, o contexto da Baixa Idade Média e os mercadores.

O Purgatório, como lembra Le Goff, se
instala na crença da cristandade ocidental entre 1150 e 1250[48].
O Purgatório é um além intermediário onde certos mortos passam por uma provação
que pode ser abreviada pelos sufrágios – a ajuda espiritual dos vivos.

A existência do
Purgatório implica na crença da imortalidade da alma e na ressurreição, ou
seja, no fato de que algo de novo podia acontecer entre a morte do indivíduo e
a sua ressurreição. Baseia-se também na existência de um julgamento dos mortos
e na responsabilidade que cada um tem na sua própria salvação ou condenação.
Além disso, ainda está relacionado às transformações ocorridas entre os séculos
XII e XIII.

No século XII já se falava em "penas
purgatórias" no sentido de limpeza espiritual e aprimoramento religioso em
direção à ressurreição ou como resgate de penas e pecados por meio de
sofrimentos físicos. Assim, apesar do lugar da purgação permanecer incerto, já
existiam idéias que influenciariam a concepção de purgatório. Como afirma Lê Goff, “as visões dos mortos, se por um lado comprovaram a existência de penas e castigos e o
valor das intercessões dos vivos em favor dos mortos, por outro não precisavam
um espaço e uma cartografia. [49]

Até esse momento, a
reflexão sobre o destino após a morte parecia orientada pelo desejo de justiça
e não necessariamente pela salvação espiritual. A justiça divina devia corrigir
as injustiças terrenas, oferecendo uma esperança vista como uma possibilidade
de superar os pecados e alcançar a Vida Eterna mesmo depois de morto. A difusão
da prática da confissão auricular para redimir as culpas e a valorização do
sofrimento são indícios importantes para se intensificar a tendência de clericalização da morte
por parte da Igreja que passa cada vez mais utilizar inúmeros recursos para
garantir a salvação da alma no momento do Juízo, ou seja, assegurar a “boa
morte” aos indivíduos.

A existência de um
julgamento dos mortos e a responsabilidade que cada um tem na sua própria
salvação ou condenação é outro fator essencial para o entendimento do
Purgatório, pois a existência do Purgatório modificou profundamente a relação
entre os vivos e os mortos. Estes últimos não dispunham de nenhum controle sob
seu destino, nem sobre sua salvação, ainda que sua a ida de alguns para o
Purgatório pudesse significar uma possibilidade de ser acolhido no Paraíso.[50]

O desenvolvimento do
Purgatório cristão articulou-se com o julgamento dos mortos, impondo aos
cristãos um duplo tribunal: no dia de sua morte e no Final dos Tempos. Ficou
estabelecida uma estreita ligação entre o Além intermediário, o Purgatório e a
idéia de responsabilidade individual e livre-arbítrio. Ou seja, o homem é
responsável por sua salvação ou não. Além disso, a depender das suas atitudes
na terra poderia ir para o Purgatório e ter uma nova possibilidade de salvação.
Além disso, a medida que o saber clerical vai se desenvolvendo nesse sentido,
vai se organizando, se estruturando, se aperfeiçoando e se definindo “o caráter
devocional e dogmático do Purgatório, das penas, dos direitos e deveres do
pecador”.[51]

As transformações ocorridas entre os
séculos XII e XIII também são relevantes para o conhecimento do Purgatório,
pois com o crescimento das cidades e do comércio surgem novas demandas sociais
e novos desafios que a Igreja tem de enfrentar. Um deles é o crescente
alargamento do rol dos hereges e a necessidade de incluí-los novamente no seio
da Cristandade. Dentre esses pecadores se encontra a figura do mercador. Com o
desenvolvimento das cidades surgiram novas corporações de ofício nas quais os
mercadores passam a ser um tipo significativo, tornando-se uma figura do
viajante do intercessor de bens e de notícias e associados à fortuna e a paz
desde que mantenha sua função de “abastecedor”. Para Jacques Le Goff “o
mercador transformou-se gradativamente numa figura de primeiro plano” [52].

Nesse sentido, o
mercador é um personagem extremamente promissor e próspero nesse novo contexto
social e econômico da Baixa Idade Média. Devido a necessidade que o comércio
possuía em trocas de moedas, tornando-as reconhecidas, o mercador foi
responsável pela criação da letra de câmbio, que permite a um mercador pedir
emprestado a outro mercador por documento escrito, uma soma que lhe será
reembolsada mais tarde em algum lugar[53].

O mercador sempre foi tratado de forma ambígua pela
Igreja que se, no inicio favoreceu sua atividade, em seguida, fez-lhe pesadas
acusações sobre a legitimidade de seu ofício. Para uma parte dos pensadores
eclesiásticos, o mercador seria um herege, pois venderia um tempo que só
pertence a Deus. Ou seja, ao cobrar juros sobre o tempo do dinheiro emprestado,
ele estaria tomando para si uma prerrogativa divina e nessa perspectiva, cometendo
uma heresia. Segundo um frei franciscano da Baixa Idade Média,

Podem os
mercadores, para um mesmo negócio, fazer pagar mais aquele que não pagar de
imediato, do que aquele que paga logo? A argumentação é: Não, pois assim estava
a vender tempo e cometendo usura, vendendo o que não lhe pertence. [54]

Um
dos temas mais recorrentes na iconografia medieval a respeito da morte foi à
morte do usurário, mercador quando abusivo com suas práticas de juros,
caracterizando a usura ao se colocar pagamentos maiores que os aceitos na
sociedade. Maldito entre os malditos, pecador entre os pecadores, o usurário
era o grande exemplo para moralizar o cristão. Sua pena por esta prática sem
dúvida seria o Inferno.

Um exemplo de como a sociedade medieval

via o mercador é a descrição da morte do usurário riquíssimo que começando a
lutar contra a morte, pôs-se a afligir, a sofrer e a implorar à sua alma para
que esta não o deixasse. Para tal, ele a oferecia ouro, prata e as delícias
deste mundo. No entanto, não aceitava que essa lhe pedisse, em seu favor,
dinheiro nem a menor esmola para os pobres. O resultado foi que ele foi enviado
direto pro Inferno. Como
cita Le Goff,

Preparei-lhe uma boa residência com
abundância de riquezas, mas você se tornou tão louca e tão miserável que não
quer repousar nessa boa residência. Vá embora! Eu a entrego a todos os demônios
que estão no Inferno. Pouco depois entregou o espírito nas mãos dos demônios e
foi enterrado no Inferno.[55].

A prática da usura
modificou as relações medievais atingiu os estratos sociais que, de alguma
forma, estavam inseridos nesta atividade. Seja como beneficiário, seja como
membros da Igreja, ou membros da realeza, ou ainda, aqueles que sofriam com a
ação dos usurários. Em virtude do retorno lucrativo, muitas pessoas desejavam
exercer esta atividade, pois seu objetivo era abdicar de suas vidas difíceis e
pouco estáveis.

Na Idade Média o empréstimo
de dinheiro a juros era proibido por uma potência cuja palavra constituía lei
para toda a cristandade, a Igreja. Emprestar a juros, no medievo era prática de
usura, e esta ação considerada pecadora pela ortodoxia eclesiástica. Naquela
sociedade, por costume cristão, a possibilidade de investir dinheiro com lucro
praticamente não existia, se alguém desejava um empréstimo, certamente não
tinha por objetivo o enriquecimento, mas precisava dele para viver. De acordo
com a mentalidade da Igreja, a pessoa que, nessas circunstâncias, o ajudasse,
não deveria lucrar com sua desventura. A pregação da Igreja versava que o bom
cristão ajudasse o vizinho sem pensar no lucro. O justo seria apenas receber o
que se emprestara nada mais, nada menos. Ainda o clero ensina que, o lucro do
bolso representava a ruína da alma de todos e que o bem-estar espiritual estava
em primeiro lugar.

A Igreja se posicionava contra a usura
dos árduos por lucro, suas vidas eram condenadas, repudiava os usurários com
sua prática que revertiam lucros de forma que contrariavam os ensinamentos
religiosos, inclusive mencionados nas passagens Bíblicas, onde tais escritos
condenavam os praticantes da usura.

Os usurários pecam contra a natureza
querendo fazer dinheiro gerar dinheiro, como cavalo com cavalo ou mulo com
mulo. Além disso, os usurários são ladrões, pois vendem o tempo, que não lhes
pertence, e vender um bem alheio, contra a vontade do possuidor, é um roubo.
Ademais, como nada vendem a não ser a espera do dinheiro, isto é, o tempo,
vendem os dias e as noites. Mas o dia é o tempo da claridade e a noite o tempo
do repouso. Portanto, não é justo que tenham a luz e o repouso eternos [56].

A igreja condena o usurário
por ganhar sobre um tempo que não lhe pertencia, pois considerava que o fruto
de seu dinheiro não vinha de um trabalho justo. O procedimento da Igreja seria
de condenar as pessoas que se preocupassem mais com o dinheiro do que com sua
própria família, sua vida e sua religião. A Igreja condena a prática excessiva
dos usurários, mas como todos os pecadores, os mesmos possuíam suas chances de
se redimirem, mediante suas confissões, que podiam levá-los ao Inferno ou ao
Paraíso. Nessa perspectiva se delineia a idéia de que aquele pecador que se
convertia ao cristianismo se tornava honrado e não seria mais chamado de
usurário, mas de penitente, “de misericordioso e servidor de Nosso Senhor Jesus
Cristo que vive”[57].

A Igreja considera
um pecador quem cobra juros em determinados negócios. No século XI, condena a
prática da usura e perpetua a idéia de que para alcançar o Paraíso seria
necessário o desprendimento de toda e qualquer riqueza, dos lucros e do egoísmo
que cercava este ofício. A Igreja tinha como finalidade não a punição aos
apegados excessivamente ao dinheiro, mas de convertê-los e persuadi-los. Os
pecadores possuíam chances de se redimir, mediante confissões, que poderiam
levá-los ao Inferno ou ao Paraíso. Segundo o trecho bíblico que se refere ao
Salmo 15, o usurário não pode ser hóspede de Javé pois,

Quem será
digno, Javé, de habitar no Teu Tabernáculo?

Quem será
digno habitar no Teu santo monte?

Quem vive
na inocência e justiça, nem empresta dinheiro com usura.[58]

A usura era um
ajuste da economia, por se tratar de finanças e religião controlada pela Igreja
Católica, podendo ser considerada uma grande polêmica na Idade Média. O homem
que cometia a usura iria contra os princípios da Igreja medieval, pois esta é
considerada uma prática financeira proibida, cobrança de juros por alguém em
operações nas quais não deveria haver juros.

O mercador vende, de
fato, senão o tempo que se passa entre o momento em que empresta e aquele em
que é reembolsado com juros. No entanto, para a Igreja, como vimos, esse tempo
pertence somente a Deus.

O usurário
não vende ao devedor nada que lhe pertença, somente o tempo, que pertence a
Deus. Ele, portanto, não pode tirar proveito da venda de um bem alheio, contra
a vontade do possuidor. Afirma que se o teu irmão achar-se em dificuldade, não
lhes darás empréstimo a juros, nem lhe darás alimento para receber usura[59].

O mercador vive numa
dualidade de consciências, o tempo profissional e um tempo religioso. Na
expectativa de salvação concilia seu tempo com ao tempo da Igreja, buscando ir
ás missas, cumprir com as normas eclesiásticas e fazer doações a Santa Sé na
expectativa de que a hora ameaçadora do Inferno se afaste. Antes do nascimento
do Purgatório, a ida do mercador/usurário para o Inferno era quase certa. Com o
surgimento do terceiro lugar, o mercador poderia se sentir menos ameaçado com
esta passagem, pois além das possibilidades de diminuir suas penas com doações
e boas obras, o estabelecimento da confissão obrigatória, em 1215, com o
Concílio de Latrão, permitiu como lembra Le Goff, “para que o mercador unisse o
tempo dos negócios com o tempo da salvação”.[60]

A racionalização da
idéia de castigo temporário no Purgatório possibilitou que novas categorias
sociais, como a dos mercadores, que exerciam uma atividade contrária ao
pensamento da Igreja, temendo por este motivo o seu destino na outra vida,
pudessem obter a salvação através das missas e outras medidas empreendidas
pelos vivos para abreviar o tempo no Purgatório.[61]

Diante do número excessivo de usurários
que iam para o Inferno, pois em vida exerciam outra prática a não ser explorar
os mais necessitados. Por outro lado havia o Purgatório para aqueles que em
algum momento da vida demonstraram piedade ou intenção em devolver seus ganhos.
Para evitar que fossem direto para o Inferno os usurários precisavam redimir-se
de coração e não apenas com falsas palavras, ou promessas que não seriam
cumpridas, assim poderia se livrar do Inferno.

Os homens da Igreja
julgavam ver uma insuportável oposição simplista
entre o Paraíso e o Inferno, e quando havia condições para definir um terceiro
lugar do além onde os homens podiam ser purgados do que restara de seus
pecados, surgiu uma palavra, purgatorium, para designar esse lugar afinal
identificado: o Purgatório [62].

 

5. Conclusão

 

Como se viu antes do século
XII, apesar das idéias de Santo Agostinho e de outros pensadores cristãos, não
existia o Purgatório. Só havia dois caminhos possíveis: o céu e o inferno. Foi
apenas durante a Baixa Idade Média que com as transformações próprias desse
período que o entre-lugar, o terceiro caminho pode existir dentro da geografia
do além e se incluir entre o Paraíso e o inferno. Essa via intermediária foi
importante para a nova concepção da salvação. A certeza de salvação ou danação
das almas perpassa pelo domínio exercido pela Igreja através dos exemplos que
deveria ser seguidos para que o homem pudesse alcançar o Reino do céu ou não.
Esta prática possibilitou o nascimento e a grande difusão da crença do
Purgatório.

Quando se rezava pelas almas
do Purgatório, quando se mandava dizer missa pelos mortos, quando se fazia um
esforço para obter indulgências, tudo isso para a Igreja contava para os fiéis
em forma de dias. Os cristãos obtêm, assim, enquanto estão vivos, para si
mesmos ou para os outros, uma redução em seu tempo de espera. Segundo as
orações, as penitências e somas depositadas, podem diminuir em centenas de
dias, longos como sejam esses dias no Além.[63]

Uma das conseqüências desta
espacialização do Purgatório foi o crescimento do poder da Igreja, cuja
intermediação era fundamental para que o indivíduo pecador pudesse ter
diminuída a duração das temporadas no Purgatório. Com a construção do
Purgatório o homem medievo dependia, na terra, do foro eclesiástico. O homem
morto unicamente do foro divino. Com o entre-lugar as almas dependiam de um
foro conjunto de Deus e da Igreja. A Igreja assim transborda seu dominium,
para além da morte.[64] Nesse
sentido, o estudo do Purgatório é essencial, como reflete Le Goff,

A inserção durante muito tempo lenta e aleatória de um além
intermediário entre o Inferno e o Paraíso, depois do seu desabrochar como
elemento capital da nova ideologia que se colocam no limiar do mundo moderno
ocidental por volta de 1200, é um dos grandes episódios da história espiritual
e social do Ocidente[65].
6. Fontes primárias

LLULL, Ramon. >Doutrina para crianças (trad. de Ricardo da Costa, e Grupo de Pesquisas Medievais da UFES III [Felipe Dias de Souza, Revson Ost e
Tatiana Nunes]). Tradução feita a partir da edição de Gret Schib. Ramon Llull. Doctrina
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7. Referências
Bibliográficas

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Salvação da Alma (séc. XII), disponível em http://www.revistamirabilia.com/Numeros/Num2/tundalo.html. Acessado em: 27/03/2008.


[1] LE GOFF, Jacques. O Nascimento do
Purgatório.
Lisboa: Estampa, 1995.

[2] LE GOFF, Jacques. Em busca da Idade
Média
. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2005.

[3] LE GOFF, Jacques; SCHMITT,
Jean-Claude (coord.) Dicionário
Temático do Ocidente Medieval
.
Bauru, SP. EDUSC; São Paulo, SP. Imprensa Oficial do Estado, 2002. 2v

[4] SCHIMITT, Jean-Claude. Os vivos e os mortos na sociedade medieval. São Paulo, Companhia das Letras, 1999.

[5] ÀRIES, Phillipe. História da Morte no
Ocidente:
da Idade Média aos nossos dias. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003.

[6] ARIÈS, Philippe. Uma Antiga Concepção do
Além. In: BRAET, Herman,
VERBEKE, Werner (eds.). A Morte na
Idade Média
. São Paulo: Edusp, 1996.

[7] DELUMEAU, Jean. História do medo no
Ocidente:
uma cidade sitiada (1300-1800). São Paulo, Companhia das Letras,
1989.

[8] A Biblia de Jerusalém. São Paulo:
Edições Paulinas, 1995.

[9] LE GOFF, Jacques. O Nascimento do
Purgatório.
Op. cit., p.
165.

[10] SCHIMITT, Jean-Claude. Os vivos e os mortos na sociedade medieval. Op.
cit., p. 146-147.

[11] LE GOFF, Jacques. O Nascimento do
Purgatório.
Op. cit., p.
84.

[12] Ibidem, p.45.

[13] Ibidem, p.50.

[14] Ibidem, p.17.

[15] Idem.

[16] Ibidem, p.84.

[17] Disponível em: http://www.ricardocosta.com/pub/stamon.htm. Acessado em: 27/03/2008.

[18]
DELUMEAU, Jean. História do medo no
Ocidente…
Op. cit., p. 87-89.

[19] SCHMITT, Jean-Claude. Op cit.
p. 83-86.

[20] Cf. PATRISTICA, Santo Agostinho. Cuidado Devido aos Mortos. Paulus, 2003.

[21] Idem.

[22] Idem.

[23] Idem.

[24] LE GOFF, Jacques. O Nascimento do
Purgatório.
Op. cit., p.
84-86.

[25] Ibidem, p. 92-93.

[26] SCHIMITT,
Jean -Claude. Op. cit.,
p. 109 -110.

[27] LE GOFF, Jacques. O nascimento do
Purgatório
. Op. cit.,
p.17.

[29] LE GOFF, Jacques. Além. In: LE GOFF, Jacques & SCHIMTT, Jean-Claude
(coord.). Dicionário Temático do
Ocidente Medieval I
. São Paulo:
Imprensa Oficial / EDUSC, 2002. p. 21-34.

[31] BRAET, Herman
& VERBEKE, Werner (eds.). A Morte na Idade Média. SP: Edusp, 1996. p. 211.

[32] VOVELLE, Michel. “A História dos Homens no
Espelho da Morte”. In: BRAET, Herman & VERBEKE, Werner
(eds.). A Morte na Idade Média. São Paulo: EDUSP, 1996, p.18-19 -.

[33] Mc 9, 43; Mt 5, 25; 10, 28.

[34] Ap 7, 15-17.

[35] Ramon Llull foi o mais importante escritor, filósofo, poeta, missionário e teólogo da língua catalã. Foi um
prolífico autor também em árabe e latim, bem como em Langue d’Oc (occitano). É beato da Igreja Católica.

[36] LLULL, Ramon. Doutrina para crianças (trad.
de Ricardo da Costa, e Grupo de Pesquisas Medievais da UFES III [Felipe Dias de Souza, Revson Ost e Tatiana Nunes]).
Tradução feita a partir da edição de Gret Schib. Ramon Llull. Doctrina Pueril. Barcelona: Editorial Barcino, 1972.

[37] ZIERER, Adriana. Op cit.

[38]
LLULL, Ramon. Op. cit.

[39] Idem.

[41] RAMON
LLULL. Op cit

[42]
Idem.

[43] A Bíblia de Jerusalém, Mt: 7, 23;
25, 10.41

[44] RAMON LLULL.Op. cit.

[45] Idem.

[46] LE GOFF, Jacques. O Imaginário Medieval.
Lisboa: Estampa, 1994. p. 145-146.

[47] LE GOFF, Jacques. O Nascimento do
Purgatório
. Lisboa: Estampa, 1993.

[48] Ibidem,
p.18.

[49] SILVA, Eliane Moura, Vida e Morte:
O Homem no Labirinto da Eternidade, tese obtida em http://www.unicamp.br/~elmoura/biblio.htm#tese, no dia 23
de maio de 2008.

[50] LE GOFF, Jacques. Em busca da Idade
Média
. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. p. 146.

[51]
SILVA, Eliane Moura, Op cit.

[52] LE GOFF. Jacques (Dir). Os Mercadores.
In: O homem medieval. Lisboa: Presença 1989 p. 165.

[53] LE GOFF, Jacques. Em busca da Idade
Média
. Op Cit p. 97.

[54]
LE GOFF, Jacques. Na Idade Média:
tempo da Igreja e o tempo do mercador. In: Por um novo conceito de Idade Média.
Lisboa: Editorial Estampa, 1980, p. 43.

[55] LE GOFF, Jacques. A Bolsa e a Vida: economia
e religião na Idade Média. São Paulo: Editora Brasiliense, 1989. p. 13.

[56] LE GOFF, Jacques. A bolsa e a vida: economia
e religião na Idade Média. Op.
cit., p. 40-41.

[57] Ibidem, p.23-26.

[58] LE GOFF, Jacques. A bolsa e a vida: economia
e religião na Idade Média. Op.
cit., p.22.

[59] Ibidem, p.22-23.

[60]
LE GOFF, Jacques. Na Idade Média:
tempo da Igreja e o tempo do mercador. Op. cit., p. 55-56.

[61] ZIERER, Adriana. Paraíso versus Inferno: a Visão de Túndalo e a Viagem Medieval em Busca da
Salvação da Alma (séc. XII), disponível em http://www.ricardocosta.com/pub/stamon.htm. Acessado em: 27/03/2008.

[62] LE GOFF, Jacques. A bolsa e a vida:
economia e religião na Idade Média
. Op. cit., p.97

[63]
LE GOFF, Jacques. Em busca da Idade Média.
Op cit. p. 145.

[64] Ibidem, p. 145-146.

[65] Cf. LE GOFF, Jacques. O nascimento do Purgatório. Op. cit.

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