Consciênia - Filosofia e Ciências Humanas
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Sêneca – Biografia e Pensamentos


SÊNECA- ESTUDO INTRODUTIVO
G. D. Leoni

Fonte: Edições de Ouro

I — A vida de

 É ainda hoje opinião comum ver em Sêneca um grande escritor e um homem corrupto; e os poucos que defendem o estudioso ainda estão propensos a separar sua vida de sua obra, não achando possível uma conciliação entre o modo de vida e a moral pregada nos tratados. Na verdade, parece-me que, além de ser vítima de uma injustiça histórica, Sêneca seja também vítima de uma mentira convencional, derivada do servilismo crítico, que repete opiniões seculares. A opinião comum, portanto, faz dele o modelo de todas as baixezas; nem eu pretendo neste breve ensaio torná-lo o modelo de todas as , refutando uma por uma as muitas acusações: desejo unicamente apresentá-lo tal como sai da documentação histórica e, mais ainda, de sua obra, não dando importância à triste lenda, que os séculos cada vez mais aumentaram e que os críticos acolheram com alguma reserva, mas sem tirar o véu da condenação, decretada pela tradição. Estou longe da apologia; contudo, repugna-me aceitar de olhos fechados uma acusação, somente porque não existe uma defesa. O destino foi em parte malvado para com Sêneca: fez chegar até nós as acusações e destruiu as defesas. Por sorte, existe grande parte da obra literária; e da leitura atenta dessas páginas pode surgir um juízo sincero, que as reticências dos historiadores ou dos estudiosos procuram ofuscar. Oportunamente veremos as razões.

Para examinarmos breve e claramente a vida de Sêneca, é necessário dividi-la em quatro períodos: a mocidade, o exílio na Córsega, o preceptor e o conselheiro de Nero, e a velhice. No primeiro século de Cristo, a Espanha dá a Roma os quatro vultos mais eminentes do mundo intelectual: Sêneca, Luciano, Quintiliano e Marcial. Sêneca surge de uma família que tinha por tradição a atividade intelectual: o pai viveu em Roma entre os mais afamados retóricos da época, reunindo numa espécie de antologia ("Oratorum et Rhetorum Sententiae Divisiones Colores") a própria experiência de estudioso; sua mãe Hélvia foi mulher de mentalidade vivaz e severa: a ela o filho erigirá um monumento imortal na célebre "Consolatio". Intelecto vivo, de saber profundo, na vida e nos estudos, o jovem manifesta variedade de atitudes: a poesia e a eloquência o atraem, a filosofia e as ciências o seduzem. Nasce em Córdova no fim da idade antiga (os críticos discutem acerca do ano de nascimento, oscilando entre 4 a.C. e os primeiros anos da era cristã: parece-me muito aceitável a data do primeiro ano antes de Cristo); de constituição fraca, vive, por motivos de saúde, no Egito, onde tinha parentes; e lá estuda as condições e os usos da região. Voltando para Roma, dedica-se ao exercício do foro, especialmente no Senado, onde continuava, após o admirável equilíbrio das reformas de Augusto, o ideal republicano, combatido pelos novos imperadores absolutistas. Entre o foro e o ambiente mundano, sobe pouco a pouco para tornar-se objeto de uma admiração que lhe dá glória, mas lhe suscita também inveja: em particular, a inveja do Calígula, que pensa em desfazer-se dele, e depois consente em deixá-lo viver, porque lhe asseguram que em breve o jovem tísico morreria de morte natural. Como se vê, o ambiente mudou: era de ontem o próvido mecenismo, que abria as portas aos poetas e criava a atmosfera, da renascente literatura; agora a inteligência põe em suspeita os príncipes tiranos, e a obra cultural suscita ciúmes, inveja, terrores.

Muito diferentes de Augusto foram os sucessores. Tibério não teve a doçura e a astúcia, que formaram a característica pessoal do primeiro imperador: era laborioso, estudioso, amante de seu povo, mas altivo; rijo na observação de seus deveres de príncipe, tinha continuamente medo que outros ameaçassem seus direitos e sua vida. Tais suspeitas não eram infundadas, porque entre os nobres romanos não eram poucos os que desejavam o restabelecimento da antiga república; e, como as instituições do império eram quase iguais às da república, uma revolução podia, abolindo somente o cargo de príncipe, fazer voltar o regime precedente. A natureza suspeitosa de Tibério tornou-se ainda mais desconfiada pela malvadez das pessoas que o rodeavam; e o imperador perseguia os adversários e encorajava os delatores, malvados cidadãos que por amor torpe ao dinheiro tinham a crueldade de fazer-se acusadores dos que censuravam o governo imperial.

O Senado e a nobreza foram tratados ainda pior pelo sucessor, Calígula: logo perceberam não ter depositado bem sua confiança quando o escolheram como imperador. Despótico, esbanjador, amado pelo povo e pelos soldados por causa das despesas que fazia em festas e presentes; odiado por todos os que conheciam seu mau governo, Calígula foi talvez um louco. Para livrarem-se dele, mataram-no; e esse foi o primeiro exemplo das mortes violentas dos imperadores romanos, que com o correr do tempo se tornaram tão freqüentes. A morte violenta de Calígula fez conhecer os perigos, aos quais Roma e o império estavam expostos. O império não sendo hereditário, era lícito ao imperador vivente escolher só um herdeiro de seu patrimônio particular, designando-o ao Senado e ao povo para que lhe conferissem depois a autoridade do cargo imperial. Assim, Augusto designou Tibério e este designou Calígula. Mas Calígula não teve tempo de designar seu sucessor. Era preciso eleger, portanto, um sucessor. Muitos senadores eram contrários a isso; e se esse partido tivesse vencido, o império teria voltado a ser uma república aristocrática. Mas a sorte de Roma foi, ao contrário, decidida pela vontade do exército e especialmente dos guardas pretorianos, isto é, a guarda imperial. De fato, os soldados, em particular os pretorianos, eram muito contrários ao governo republicano; por isso, à morte de Calígula, proclamaram imperador Cláudio César Germânico, tio de Calígula: e o Senado teve de aceitá-lo. Foi esse o primeiro exemplo de eleição devida inteiramente aos soldados, exemplo que depois foi seguido numerosas vezes, o que teve grande e funesta influência na sorte de Roma.

O governo de Cláudio mostrou, depois, ainda outros perigos, aos quais Roma estava exposta durante o regime imperial. Cláudio era tímido, feio., muito erudito, mas pouco prático em política; em compensação, era homem de honestos propósitos: respeitou o Senado e atendeu com cuidado à administração, à justiça e à legislação. Seu governo, portanto, teria sido um dos melhores, se Cláudio tão facilmente não se deixasse enredar pelas pessoas de sua família e pelos libertos empregados em sua corte, os quais tiravam ocasião dos cargos a eles confiados para mercadejar favores e fazer vinganças. A primeira mulher de Cláudio, Messalina, foi condenada à morte pelo imperador; a segunda, Agripina, mulher ambiciosa e esperta, conquistou a tal ponto a alma de Cláudio, que o induziu a adotar por sucessor o filho de seu primeiro marido. Quando Cláudio, arrependido, fez entender que teria revogado esse ato de adoção, morreu, provavelmente envenenado. E assim tornou-se imperador o jovem Nero, elevado à honra imperial pélas intrigas de uma mulher, que aspirava governar, sob o aspecto de conselheira do filho ainda moço. A sorte do povo romano tinha sido sacrificada aos interesses de uma família, e o governo confiado a um jovem e a uma mulher, como se o império fosse uma verdadeira monarquia hereditária.

Este era o tempo e o ambiente em que viveu Sêneca durante sua mocidade. Se a aparência da instável saúde salvou-o da inveja do louco Calígula, as relações com o novo imperador Cláudio não o salvaram de uma acusação quase certamente injusta. No ano de 41, Messalina, invejosa da beleza de Júlia Livila (irmã de Calígula e de Agripina) quis levá-la à ruína e encontrou um fácil pretexto no ilustre frequentador da corte. Conforme testemunho do historiador Suetônio ("Claudius", 29), a jovem foi condenada à morte sem que fosse provada a sua culpa ou que lhe fosse concedida a defesa; portanto, embora nada mais conheçamos, também o castigo de Sêneca não parece merecido. Em todo caso, eis Sêneca condenado ao desterro, na ilha de Córsega, naquele tempo habitada por populações quase selvagens. Na terra inóspita do exílio viveu oito anos, o melhor período da vida de um homem ativo e intelectualmente genial, qual era Sêneca. Entre os quarenta e os cinqüenta anos, quando podia não só consolidar mas aumentar sua glória de homem político, de literato e de estudioso, ele vive na desventura do desterro e na solidão de um país bárbaro; contudo, parece que a sorte tenha dado a esse homem a possibilidade de tirar vantagens inestimáveis da dor: faz com que se dedique completamente aos estudos científicos e mais ainda à meditação filosófica. No exílio forma-se a personalidade grandiosa de Sêneca: aqui e acolá, nas obras dessa época, transparece o desespero, que pouco a pouco se acalma em resignação, em nova coragem, em força sublime. Afirmar que a retórica tenha velado a mente do escritor é como admitir que um pobre não possa ser feliz em sua pobreza; na realidade, o filósofo encontrou um equilíbrio espiritual, que lhe servirá para enfrentar novos e mais duros golpes da sorte. Lendo atentamente a "Consolatio ad Helviam Matrem", acharemos que, embora um pouco retórica, ela serve mais para atenuar a dor da genitora do que a do escritor; meditando sobre o "De Brevitate Vitae", encontraremos a sabedoria do viver espiritualmente mais do que materialmente; nas páginas do "De Constantia Sapientis", há a imperturbabilidade do sábio. Também na "Consolatio ad Polybium", onde os críticos quiseram ver um ato de adulação para com o favorito de Cláudio, podemos reconhecer uma serenidade de pensamento que vai além do fácil meio de adulação para obter o perdão.

Em 49, com a morte trágica de Messalina, Sêneca volta para Roma graças à intercessão de Agripina, a nova consorte de Cláudio, que lhe confia a educação do filho Nero, o herdeiro do império. Cinco anos dura este encargo, e nesse tempo o jovem afeiçoa-se ao sábio pedagogo. Mas em 54 o imperador morre envenenado. Voz comum é que a autora do crime tenha sido Agripina: voz confirmada pelas solicitações da própria mulher para que o Senado decretasse honras divinas ao marido, que suprimira muitos familiares e muitos ilustres cidadãos. Esta vileza do Senado excita a indignação de Sêneca, que escreve uma sátira violenta, injustamente interpretada como póstuma vingança contra Cláudio, que o exilara: na realidade, a sátira é de alto entendimento civil, pois não se percebe nela a imprecação contra um morto, mas sim o grito de indignação e de angústia contra a suprema assembléia, última esperança da liberdade romana, reduzida à baixa adulação pelo incitamento de uma imperatriz assassina. Até Nero, que ascendera ao trono com artes dolosas, ria da deliberação senatorial: Cláudio morrera por ter comido cogumelos venenosos; e o jovem imperador chamava os cogumelos alimentos dos deuses, pois também Cláudio, justamente por causa dos cogumelos, tornara-se um deus…

Aos dezessete anos Nero subia ao poder; e Sêneca continuava a seu lado, não mais como pedagogo, mas como benéfico conselheiro, ajudado por Afrânio Burro, prefeito do Pretório. É por todos admitido, mesmo pelos historiadores e críticos hostis, que os primeiros sete anos do governo de Nero lembram o governo de Augusto: mérito exclusivo dos dois homens, que na realidade governaram ao lado do jovem príncipe. A índole ruim de Nero foi mitigada, corrigida, freada; mais tarde a malvadez teve o predomínio. Na realidade, a maior culpa é de Agripina, que se tornara hostil por ambição, capricho e corrupção: queria imperar e mal suportava a influência que Sêneca e Afrânio tinham sobre o filho. Acendeu-se uma luta cerrada: muita verdade deve haver nas páginas dos "Anais" de Tácito, sempre propenso a ver o ruim, o misterioso, o trágico mesmo nos episódios mais comuns. Em breve, contra a raiva de Agripina aumenta a louca vingança matricida de Nero, que não dá mais ouvidos à palavra severa e admoestadora de Sêneca. Chega-se ao matricídio e à loucura de Nero: para inebriar-se e esquecer, após noites de pesadelo e de terror, apaixona-se pelos espetáculos, torna-se poeta e cantor, levando à ignomínia do circo nobreza e Senado, cidadãos e soldados.

Nesse ponto, depois de tentar mais uma vez salvar o império, Sêneca decide-se a um ato de grande energia e não sem perigo (Afrânio morrera, pelo que parece, envenenado): pede a Nero autorização para retirar-se da vida pública; e como tinha recebido do imperador imensas riquezas, pede também autorização para devolvê-las.f1) Nero atendeu ao primeiro pedido, não ao segundo; e Sêneca retirou-se desde aquele momento para uma desdenhosa solidão, vivendo pobremente e dedicando-se aos estudos prediletos. Mas a acusação de ter guardado para si tanta riqueza, que provinha de fonte tão impura (Tácito conta que Nero, para fazer calar as vozes de suspeita ou de, contrariedade, costumava doar quantias fabulosas), atinge também o austero Sêneca; pois bem, contra essa acusação parece desculpar-se o próprio Sêneca, quando, indiretamente, afirma em seu tratado "De Beneficiis" (II, 18): "Às vezes, mesmo contra nossa vontade, devemos aceitar um benefício: quando é dado por um tirano cruel e iracundo, que reputaria injúria que tu desdenhasses seu presente. Não deverias aceitá-lo? Põe no mesmo nível um assassino, um pirata e um rei que tenha alma de assassino e de pirata. Que deverei fazer eu, então? Ele porém não merece que lhe fiques obrigado. Quando afirmo que tu deves escolher a pessoa, pela qual possas ter gratidão, excluo o caso de força maior ou de perigo; se isso acontece, cai qualquer escolha. Se, ao contrário, és livre, se está em teu poder querer ou não, somente então poderás ponderar tua escolha. Mas, se és obrigado a aceitar, sabe que a tua não é aceitação, é obediência. Ninguém tem demérito por ter aceitado o que não lhe era lícito recusar." Portanto, o que importa não é saber que Sêneca era rico, mas se ele se mostrou ávido de riqueza, se viveu no fausto e na potência de tal riqueza, pois que sua doutrina é esta: é lícito ser rico, contudo é preciso viver de tal modo que se possa em cada contingência bastar a si próprio e renunciar a qualquer bem que a sorte pode dar, mas também tirar ("Epistulae Morales ad Lucilium", 18). Rico, não somente pregou a pobreza, mas viveu na pobreza.(2) Eis, em conclusão, como viveu o homem, que foi acusado de ter enriquecido graças a subterfúgios, compromissos e agiotagens: renuncia a tudo, reduz-se a viver longe de todos, numa liberdade material e espiritual que aconselhara com o exemplo e com as obras. Sem dúvida, a posteridade foi injusta, recolhendo contra esse homem só as invejosas acusações de seus inimigos.

Mas chegou o momento de ver quais foram esses inimigos. Todas as vozes odiosas contra Sêneca se acham reunidas na obra de Díon Cássio, historiador grego do segundo século depois de Cristo; e é fácil constatar que suas fontes foram Plínio o Velho (nas histórias civis, agora perdidas) e Tácito. Todavia, foi demonstrado que também Tácito teve por fonte principal Plínio, e que Plínio buscou suas informações em um libelo de Públio Suílio, homem poderosíssimo durante o principado de Cláudio. Contra esse homem, que se tornara rico caluniando as pessoas mais ilustres de seu tempo, Sêneca insurgiu-se, golpeando-o com a "lei Cíncia", apresentada por Marcos Cindo Alimento, tribuno da plebe em 550 de Roma, e posta novamente em vigor por Augusto para impedir a corrupção nos processos e o mercantilismo na administração da justiça. As acusações contra Sêneca, derivando de um homem tão covarde, podiam ser verdadeiras? Infelizmente, Plínio refere sem indagar; e Tácito, que vê sempre o mistério em qualquer acontecimento, suspeita, diz, contradiz-se, mas não nega: e, infelizmente, também ele não acredita nem na defesa de Sêneca, feita por Fábio Rústico, historiador do tempo de Nero e elogiado pelo próprio Tácito, que o põe ao lado de Tito Lívio ("Agrícola", 10: recentium eloquentissimi auctores). Encontra-mo-nos, portanto, na condição de possuir as acusações, mas não as defesas: é possível disso tirar a verdade? Seria como se de Sócrates conhecêssemos somente a sátira de Aristófanes e não as obras de Platão. É melhor ver Sêneca em suas obras e narrar o seu fim, que foi verdadeiramente digno das doutrinas professadas.

Livre do peso de aconselhar o feroz tirano, Sêneca vive os últimos três anos de sua vida escrevendo e meditando. Do isolamento nascem as mais profundas meditações: a moral que ele pregava, torna-se cada vez mais límpida, quanto mais se aproxima o momento de mostrar com o exemplo a verdade sustentada. "Com alma alegre e hílare — escreve ele ao amigo Lucílio ("Epistulae", 12,9) — devemos encerrar nosso dia, dizendo: vivi, cumpri meu curso vital. O amanhã é ganho, se deus no-lo conceder." Em muitas páginas ("Epist.", 70, 14 e 16; "De Ira", III, 15) ele dirige seu pensamento à almejada liberdade do além-túmulo: "Procuras qual seja o meio para chegar à liberdade? — pergunta ao querido Lucílio. — Uma veia qualquer de teu corpo." E uma veia, de fato, abriu-lhe o capítulo desejado.

O ódio de Nero contra o velho preceptor não procurava senão um pretexto. Em 65 foi descoberta uma conjuração contra o imperador: era chefe o nobre Calpúrnio Pisão, rodeado por altas personalidades civis e militares. Não há confirmação de que Sêneca fizesse parte da conjuração ;f3) mas Nero colheu a ocasião que procurava. Tácito conta numa dramática página ("Annales", XV, 60-51 o fim do filósofo. O núncio imperial foi pela tarde à "vila" suburbana de Sêneca, enquanto este jantava com a esposa e dois amigos. Introduzido, o núncio expõe a acusação de ter Sêneca participado da conjuração. O velho nega energicamente e pede ao tribuno que lembre a Nero como ele não tinha espírito dado à mentira, quer por adulação quer por servilismo. Volta daí a pouco o tribuno com a ordem fatal. Sêneca não se abala e pede as tábuas do ; sendo-lhe respondido que isso lhe é vedado, dirige-se aos amigos: "Se não me é dado atestar-vos de outra forma meu reconhecimento, deixo-vos o que posso: a imagem de minha vida virtuosa." E consolando os amigos desesperados, abraça a esposa, Pompéia Paulina: esta pede a graça de morrer com ele. Um mesmo golpe corta as veias de seus braços. Mas do corpo do velho exausto lentamente saía o sangue: outras veias são cortadas para apressar a morte; e ele mesmo continua a falar, ditando palavras que, no dizer de Tácito, se tornaram populares. À esposa, no entanto, transportada para outro quarto, por ordem do imperador lhe foi impedida a morte. Sêneca, vendo que as muitas feridas não bastavam, bebe uma porção de veneno; em seguida, toma um banho de água quente, depois um banho de vapores quentes: faltam-lhe as forças e adormece, placidamente, no sono da morte.

Não lembra a morte de Sêneca as páginas de Platão onde é narrado o fim de Sócrates? Teve razão um anônimo escultor, quando deixou uma herma bifronte, que reproduz(4) de um lado a imagem do filósofo grego e do outro a máscula figura de Sêneca, o único retrato talvez do filósofo romano: se Sêneca deve muitas das suas teorias a Sócrates, também como ele soube morrer.

II — A obra de Sêneca

Se a tradição foi injusta para com Sêneca, a sorte que, como escritor, ele teve na fez chegar até nós muitas das suas obras. O códice da Biblioteca Ambrosiana de Milão reúne com o título de "Dialogorum Li-bri XII" a coletânea, que após a morte do filósofo foi feita das suas obras mais breves, de assunto moral. Realmente, o título de "diálogos" não é exato: não se trata de verdadeiros diálogos, do tipo dos de Platão ou de Cícero, mas de solilóquios, durante os quais um interlocutor faz alguma objeção, breve, sem vivacidade de polêmica. A Sêneca basta uma frase, atirada lá, quase de improviso, para passar a uma elucidação, a um exemplo, a uma conclusão. A personagem, ideal desses diálogos é, pode-se dizer, a própria consciência de Sêneca, que amiúde oscila nas lógicas antinomias do pensamento cotidiano. Estamos bem longe da dramaticidade dos ou da esperta eloqüência das páginas ciceronianas; todavia, Sêneca, embora refletindo a infiltração retórica, que anuncia a decadência do período áureo da literatura latina, consegue obter um estilo novo: parece quase que, em Sêneca, o latim se renova, passa da clássica austeridade de Cícero à eloqüência de uma prosa menos âulica, mais humana. A prosa adere ao pensamento, uniformiza-se, adapta-se a ele; e muitas vezes um subentendido produz um jogo de luzes e de sombras cheio de profunda beleza, amiúde a frase breve produz inesperadas imagens pictóricas, outras vezes antíteses ou anedotas enriquecem as sentenças austeras, a argúcia atenua a trágica solenidade do assunto. Bem se compreende como o juízo dos críticos latinos seja desfavorável: enquanto vivo Sêneca, Calígula compara-o com harena sine calce (Suetônio, "Calig.", 53); e Áulo Gélio lhe é hostil ("Noctes Atticae", XII, 2,1) ainda mais que Quintiliano, o qual se preocupava por ser Sêneca o único autor lido pelos jovens ("instituto Oratória", X, 1, 125), explicando que "sua eloqüência é geralmente defeituosa e tanto mais perniciosa, quanto é rica de vícios atraentes" (idem, 129). Mas, justamente porque abundans dulcibus vitiis, a prosa de Sêneca é vivaz, variada, alegre, moderna, própria para um pensamento moderno, que não podia ser mais compreendido por quem procurava o arcaísmo republicano de Catão, a psicologia histórica de Sálústio, o classicismo liberal de Cícero: a prosa de Sêneca criava o estilo do período em que já se vivia perigosamente. Ainda um passo, e teremos o laconismo de Tácito.

Os doze livros dos diálogos contém dez tratados (o "De Ira" é dividido em três livros), que variam de assunto, embora a moral seja única. De fato, "Ad Lucílium de Providentia" trata quare aliqua mcommoda bonis viris accidant, cum providentia sit, procurando mostrar que as desventuras, pelas quais passam os bons, devem ser consideradas como provas, para melhor pôr em evidência suas virtudes: porque amiúde os bons são infelizes, enquanto os malvados gozam de todas as satisfações. Os deuses põem à prova a virtude e exercitam a força de espírito dos bons, que devem seguir seu destino preestabelecido: o sábio por isso nunca será infeliz. O sábio ("Ad Serenum de Constantia Sapientis"), que possui um único bem ~ a virtude — não pode sofrer ofensa alguma: como o mais fraco não pode atingir o mais forte, assim a fraca covardia não atinge a forte virtude. No "Ad Novatum de Ira Ubri III" (dedicado ao irmão), o primeiro livro faz o diagnóstico geral desta morbosa paixão; o segundo procura a origem da mesma, discutindo utrum indicium an ímpetu íncipiat; o terceiro ensina a dominá-la ou pelo menos moderá-la: a ira, que invade os homens e não os animais, não é uma paixão conforme a natureza. Natural pode ser somente o primeiro sentimento; mas o homem deve deixar-se guiar pela razão, considerando a ira como danosa para si. Não há acordo entre sabedoria e ira: a alma nunca deve perder sua serenidade, embora qualquer ruína sobrevenha ao corpo. Sendo a ira uma paixão danosa, é conveniente premunir-se contra ela. O princípio fundamental da doutrina estóica — o sumo bem está na prática da virtude e não do prazer — é moderado no "Ad Gallionem de Vita Beata", pois são admitidos outros bens (a saúde e a riqueza) como coeficientes da felicidade humana: é necessário praticar o bem, uniformizando a prática à teoria; e mal pensam os que, enquanto com palavras desprezam a riqueza, com os fatos ao contrário a procuram. O "Ad Serenum de Otio" visa justificar a vida retirada e dedicada aos estudos, conciliando-a com os deveres da vida pública: o homem, que deve viver conforme a natureza, pode dedicar-se à meditação (otium), pois também com isso pode fazer coisa útil a todos. O homem, se pode, deve ser útil a muitos; se não, a poucos; se nem a esses, aos mais próximos ou então a si mesmo; e terá feito também assim obra boa. Ê difícil para o homem (e também para o sábio) manter sua serenidade perante o espetáculo da injustiça e da baixeza, do qual todos os dias é testemunha ("Ad Serenum de Tranquillitate Ani-mi"i; mas o sábio não pode odiar os maus, porque em todas as idades as condições morais são mais ou menos as mesmas. Se o mal é uma necessidade da vida, à qual os homens não se podem subtrair, por que devemos odiá-los e não antes, por isso mesmo, aprender a amá-los? O sábio deve conservar-se afastado dos desejos sem limites e insaciáveis, armar-se contra as desgraças, manter-se calmo mesmo perante as injustiças, que vê em seu redor. A vida é breve ("Ad Paulinum de Brevitate Vitae") para quem, perdendo seu tempo em frivolidades, não visa ao próprio aperfeiçoamento moral; é longa para quem, como o sábio, sabe fazer bom uso do tempo.

As três consolationes são talvez a obra mais conhecida e decerto mais interessante de Sêneca. A forma, se não é originalíssima, é ao menos pessoal: o escritor aproxima-se cada vez mais da humanidade, falando com três pessoas afligidas pela dor. O interlocutor ideal não é mais a consciência do filósofo, mas uma criatura viva que sofre. Todavia, a idéia fundamental continua: na "Ad Mareiam de Consolatione" conforta Mareia, filha do historiador Cremado Cordo (vítima do despotismo imperial), pela perda de seus queridos; e o conforto baseia-se nos conceitos da dor universal, à qual ninguém pode subtrair-se, na necessidade da morte e nas virtudes dos entes perdidos. Na "Ad Polibium de Consolatione" conforta o poderoso liberto do Imperador Cláudio pela perda do irmão: escrita durante o desterro na Córsega, parece uma adulação para que Políbio interceda junto a Cláudio em favor de Sêneca. A sombra da desaprovação dos críticos, que quiseram ver nessas páginas uma grave contradição entre as teorias sustentadas pelo filósofo e a prática degradação do homem que especula sobre a dor para dela tirar vantagens, deve ser afastada, considerando a constante unidade da idéia de Sêneca, que também aqui continua a demonstrar como a morte é uma necessidade, à qual ninguém pode fugir; pelo que nada vale a queixa: que nem os mortos recebem de bom grado. Grande conforto é o estudo. Se essa obra pode ser criticada como um momento de fraqueza de um homem, que há anos vivia na inóspita ilha do exílio, a figura de Sêneca aparece límpida na terceira consolatio, também escrita durante a sua estada na Córsega ("Ad Helviam Matrem de Consolatione") e dirigida à mãe: nobres páginas, nas quais o elemento moral (o desterro não é mais que uma mudança de habitação para o sábio, o qual não pode ser infeliz) une-se admiravelmente ao elemento humano, quando incita a mãe a suportar com coragem as desgraças da vida.

De Sêneca, além dos dez diálogos, temos ainda quatro obras, diferentes pela estrutura e quanto à importância, que o tempo fez chegar até nós mais ou menos completas. (5) Escrito nos primeiros anos do principado de Nero (em 55 ou 56 d.C.) e dedicado ao imperador é o "Ad Neronem Cães arem de Clementia": em forma simples e agradável o autor expõe a utilidade, melhor ainda, a necessidade da clemência num príncipe, propondo Augusto como modelo de generosidade. É evidente a intenção do ensinamento; e, 7ios primeiros anos, Nero ouviu benevolamente os conselhos do antigo preceptor. Mais tarde a obra de Sêneca não teve efeito algum sobre o tirano sanguinário, do qual o filósofo se afastou: desse tempo deve ser o tratado "De Beneficiis Libri VII", pois nele achamos manifestadas idéias práticas sobre os benefícios e a gratidão. São muitos os ingratos, mas nem por isso os bons devem desistir de fazer o bem. Muitos são os benefícios, diferentes os modos de concedê-los, diferentes os modos de aceitá-los: a gratidão é um dever, mas muitos por diversas razões são ingratos. Notáveis são os exemplos lembrados nessa obra, onde predomina o sentimento de humanidade social e onde é tratado um moderno conceito sobre os deveres que o homem tem para com a sociedade, da qual faz parte; e notável é também a demonstração de que o sábio não se deve sentir obrigado perante o tirano, do qual recebeu benefícios: o tirano doa conforme seu capricho, sem critério, e o sábio, com os seus conselhos, retribui em maior medida qualquer beneficio recebido. Os críticos pouco benévolos para com Sêneca quiseram demonstrar que ele escreveu essas páginas para desculpar-se de suas imensas riquezas; de qualquer maneira, a tese é geral e o assunto é demonstrado com intenções nobres.

Ao último período da vida de Sêneca pertencem os "Naturalium Quaestionum Libri VII", dedicados a Lucílio, governador da Sicília, e as "Epistulae Morales", dedicadas ao mesmo jovem amigo. A primeira obra nos apre-senta Sêneca cientista: como estóico, admite que, para conhecer a virtude e a divindade, é mister estudar antes a natureza em suas diferentes manifestações e em seus fenômenos físicos. Também ele, como Lucílio (que escreveu um poema sobre o Etna, falsamente atribuído a Virgílio pela tradição), é um entusiasta da ciência em geral e do Física em particular, que indica como base da moral: repreende, portanto, os que perdem seu tempo e gastam o intelecto, narrando migalhas da História, em lugar de voltar a mente para os estudos de Geografia, Meteorolologia e Astronomia. Esta obra, derivada talvez de Posidônio, teve grande sucesso durante a Idade Média como livro de texto: para os modernos contém erros graves; mas tem notável importância para a história da ciência antiga Para o conhecimento da evolução do pensamento de Senêca, são muito interessantes as digressões de caráter moral, que visam atingir a corrupção dos contemporâneos.

 

A Última obra de Sêneca são as "Epistulae Morales ad Lucilium", que constituem um curso completo de ética, desenvolvido em vinte livros;(6) são 124 cartas, escritas num estilo simples, mas profundas no conteúdo moral, quase sempre prático. O escritor publicou os três primeiros livros, o que significa que a forma epistolar era um pretexto, pois ele não se dirige ao amigo Lucílio, mas sim a toda a humanidade contemporânea e futura.

Com a atividade filosófica e científica Sêneca alternou durante a vida uma atividade poética, que pareceria contradizer, à primeira vista, a índole de sua alma meditativa; mas também os epigramas compostos no desterro e as tragédias não nos afastam do seu mundo moral. A tragédia, teatralmente morta com Lúcio Ácio no início do século precedente, era o gênero preferido pela classe aristocrática: escritas para a leitura, nos círculos literários, as tragédias serviam para debater concepções filosóficas ou políticas. Assim, Sêneca compôs nove tragédias: "Hércules Furens". "Troades", "Phoenissae", "Me-dea", "Phedra", "Oedipus", "Agamemnon", "Thyestes", "Hercules Oetaeus" (furioso). Só observando os títulos, vemos a imitação de assuntos gregos já desenvolvidos pelos poetas do período arcaico latino; e o modelo é certamente Eurípedes, o mais filósofo dos trágicos helênicos. Ricas de fatos, de psicologia, de inspirações morais, essas tragédias têm um defeito fundamental: falta-lhes a teatralidade. Sêneca quer levar ao palco não o drama de Hércules, de Tiestes, de Agamenon, de Édipo, mas o drama da sua alma: da atmosfera das grandes paixões heróicas saem as meditações a respeito do destino, do mistério do universo, do trabalho espiritual do homem. As personagens pensam, não agem; falam, não lutam; são interessantes, mas não comovem; e são todas iguais, todas filósofos, que falam como estóicos e como estóicos devem morrer: até morrem estoicamente sobre o palco, contra o costume grego e o preceito horaciano, que negam verossimilhança a esse expediente dramático. A inovação de Sêneca é moderna e servirá de exemplo a todos os autores de tragédias, desde Shakespeare até Corneille, desde Schiller até Alfieri; mas è uma inovação retórica, que leva a humanidade à ação. Sêneca, embora conheça e saiba examinar o coração humano, nessas tragédias ê um filósofo que não sabe encontrar uma forma que se adapte a seus tratados.C)

Não estaria completo o quadro das obras de Sêneca sem um breve aceno a uma sátira, que os críticos modernos, depois de longa hesitação, estão agora concordes em atribuir ao escritor romano. Trata-se de uma "sátira me-nipéia", mista de verso e prosa: os códices lhe dão o título de "Divi Claudii Apotheosis Annaei Senecae per Saturam"; mas Díon Cássio dá-lhe o título de "Divi Claudii Apokolokyntosis",^) isto é, "apoteose daquela abóbora de Cláudio". Ê uma sátira mordaz contra o Imperador Cláudio, ou melhor, contra o Senado que decretou honras divinas ao príncipe. Começa com a descrição da morte de Cláudio, que, como Augusto, Tibério e Calígula, se apresenta no concílio dos deuses para pedir a apoteose. Após longa discussão, na qual tomam parte as principais divindades, Cláudio é rejeitado pela celeste reunião e mandado ao inferno, para onde é levado por Mercúrio, não antes porém de ser obrigado a passar sobre a Terra e assistir em Roma ao seu próprio enterro; no inferno é acolhido pela fileira numerosa de suas vítimas, que o acusam das culpas pelas quais se manchara em vida. Cláudio quer defender-se e procura um advogado; mas Eaco, juiz infernal, não quer ouvi-lo (imitando o próprio Cláudio que em vida costumava ouvir somente o acusador) e o condena a brincar com dados num copo sem fundo, de modo que os dados lhe fogem, sem que ele compreenda nada. Chega Calígula, que quer Cláudio como escravo: chicoteado e esbofeteado, acaba sendo escriturário forense. A sátira, que talvez nos chegou incompleta, não é, artisticamente, uma obra importante: Sêneca não tinha alma de escritor satírico; todavia, sente-se amiúde em alguns episódios a genialidade de um intelecto que, também num gênero pouco adaptável à própria sensibilidade, demonstra a força da indignação contra um tirano e contra uma assembleia corrupta e por isso imoral.

III — A moral de Sêneca

A magnífica intuição dos poetas define de maneira perfeita aquilo que o crítico se esforça por esclarecer e amiúde ofusca. É opinião comum que Sêneca seja um filósofo; Dante, ao contrário, dá-lhe o apelativo de moralista ("Inferno", IV, 141): no limbo, o poeta italiano vê, entre sumos escritores e heróis antigos — Sócrates, Platão, , Diógenes, Anaxágora, Tales, Empédocles, Heraclito, Zenão, Dioscórides, Orfeu, Cícero, Lino e "Sêneca morale".

Provavelmente, no apelativo "morale" Dante considerava implícito o "filósofo"; mas para Dante poesia e filosofia identificavam-se. Nesse sentido também nós podemos aceitar a definição, pois uma atenta leitura das obras faz compreender que o é bem diferente de um verdadeiro filósofo: ele é um entusiasta da filosofia, um estudioso apaixonado e informado de todas as correntes de idéias de seu tempo, mas é demasiadamente contrário a encerrar-se num sistema ou numa fórmula. Ele é filósofo, tanto quanto o é cada homem; mas é também e principalmente poeta, pois o elemento preponderante em suas obras são os sentimentos, mais do que as ideias. Na história do pensamento não contribuiu em nada; nem com uma ideia: contudo, ninguém nunca foi tão compenetrado do sentimento da nobreza do espírito humano e ninguém soube tão poderosamente transmitir esse sentimento em suas palavras.

O que mais causa admiração e entusiasmo nas obras de Sêneca é a simplicidade com a qual este mostra nossas paixões, examina-as de perto, vivisseciona-as, exalta-as ou abate-as, sem nunca sair do campo prático da vida. Mesmo quando retórico, ele é humano, porque sua retórica nasce do entusiasmo da pesquisa ou da demonstração. Não afirma categoricamente senão depois que recolheu abundantes exemplos, circunstâncias, acontecimentos, comparações; e os exemplos, as circunstâncias, os acontecimentos, as comparações são tirados da vida de todos os dias, do quadro natural desta. As idéias abstratas são uma riqueza que não tem valor, uma moeda que não tem curso. Para Sêneca, o homem vive no meio dos outros homens, não separado do mundo.

Enquanto a doutrina de Epicuro encontrara terreno favorável na Roma das guerras civis e depois morrera na renascença de Augusto, o estoicismo renascia nos tempos do império não somente como meio para combater a tirania dos sanguinários imperadores, mas sobretudo como concepção política. De fato, fazendo uma relação historicamente paradoxal, poderíamos reconhecer que em política o epicurismo levado a suas mais afastadas consequências não pode concluir senão com o liberalismo, que é a concepção mais contrastante com o universalismo do direito romano. O estoicismo, ao contrário, embora não podendo encontrar na alma romana a resignação perante a necessidade do destino, podia encontrar em Roma uma grande adesão, graças à proclamada necessidade de fortalecer o caráter perante a dor física e moral, assim como já era na tradição da primeira república. O fato de que os costumes dos cidadãos romanos tivessem perdido a rigidez dos antigos podia até levar a ver na moral estóica uma útil função educativa. O estoicismo romano — o de Sêneca, de Epíteto, de Marco Aurélio, não o estoicismo eclético de Cícero — apresenta justamente a característica de acentuar a finalidade ética: não é só a maior aderência aos problemas da vida da sociedade romana, que afasta decididamente os conceitos físico-teóricos; mas também a exigência da reforma moral de toda a humanidade, reforma auspiciada pelo Cristianismo entre os homens que ainda não podiam ser cristãos por muitas razões e que ao mesmo tempo não estavam mais satisfeitos com uma moral que não reconhecia a eficácia de muitos dentre os mais delicados sentimentos. O estoicismo nascera das exigências éticas; e ética devia ser sua função em Roma, no tempo de Sêneca e depois de seu período, quando o conceito doutrinário físico-teórico não interessava mais a ninguém; mas concorria, com as outras doutrinas menores e sobretudo com outras tendências religiosas, para preparar o terreno onde a palavra de Jesus pudesse dar uma nova consciência moral. Entre a moral de Sêneca e a evangélica há um abismo: para Sêneca, o homem pode remir a si mesmo com a força da razão, para São Paulo só pode ser remido por Deus no abandono da fé; no Cristianismo, Deus é salvador dos homens, na ideia de Sêneca, o homem é o salvador de si mesmo; na visão evangélica, o milagre desce do céu para a humanidade, na de Sêneca sobe da alma humana para o céu. Todavia, tanto São Paulo como Sêneca observavam o homem em sua terrena passagem através das paixões, das dores, do martírio espiritual e material; e ambos queriam remi-lo. Não pode ser considerado Sêneca como o poeta da energia da vida moral?

Por isso Sêneca aparece-nos, a quase dois mil anos de distância, como um moderno: é um homem que vive a nossa vida e se agita em nossas lutas. Mas a modernidade de Sêneca é um dos tantos preconceitos com os quais queremos descobrir verdades fundamentais: os grandes pensadores e os , na realidade, são de todos os tempos, pois eles descobrem um trecho da verdade eterna. Quando os lemos, neles encontramos parte de nosso pensamento, de nossa consciência; e os chamamos modernos. Não são modernos: são grandes, sabem dizer aquilo que nós sentimos e não sabemos manifestar por meio da palavra escrita ou oral. E por isso Sêneca é grande: vive, observa, entusiasma-se, escreve; e suas palavras simples e claras nos chocam. Todos nós estamos convencidos de que a humanidade é uma só grande família; e Sêneca o demonstra com imagens de persuasiva eficácia ("Epist.", 95, 52): "Nós somos como membros de um só corpo, a natureza nos fez unidos, nos fez nascer dos mesmos princípios e para o mesmo fim. A natureza nos deu o instinto do recíproco amor e da vida social. Ela é a base da equidade e da justiça. Ela nos faz sentir que é muito melhor receber o mal que fazê-lo. Ela nos impõe estender as mãos socorredoras para quem precisa… A sociedade é como uma abóbada, que se desfaria toda, se uma pedra não sustentasse a outra." E com esses princípios é natural que ele reconheça como crime as guerras ("Epist.", 95, 30) e que a propósito dos espetáculos sanguinários exclame melancolicamente ("Epist.", 35, 33): "O homem deveria ser sagrado para o homem, e agora ao contrário é matado por brincadeira e deleite. Deveria ser crime ensinar o homem a dar e receber feridas, e ao contrário ele é apresentado nu e inerme, fazendo-se espetáculo de sua morte."

A moral de Sêneca baseia-se no amor humano; e em todas as suas páginas vemos desfilar um grande sentimento de piedade. A respeito de uma desonra social — a instituição da escravidão — ele tem palavras de sentida veemência ("Epist.", 47): "São servos, mas homens; servos, mas nossos companheiros; servos, mas nossos humildes amigos; servos, mas unidos à nossa servidão, somente se considerarmos um instante qual poder tem a sorte sobre nós e sobre eles." Ele reconhece sempre e abertamente o direito humano dos servos e a iniquidade jurídica e moral da escravidão, que não existe na natureza humana, assim como não existe a nobreza: essas duas condições são devidas à injustiça ou à sorte, e são igualmente acidentais, pois de um lado constituem um privilégio, de outro uma injúria. A sociedade quis legalizar o privilégio da nobreza e a injúria da escravidão; mas a consciência moral recusa reconhecer o que impôs a violência legal. O direito positivo negava ao escravo a pessoa jurídica; Sêneca lha devolvia inteira sobre a base do direito natural: "Quem não exclui que o escravo pode ser benfeitor de homens livres, não conhece o jus humano." ( "De Beneficiis", III, 18.) Assim Sêneca, que afirmava contra o direito constituído a imutável existência de um direito de humanidade, dava o exemplo moral à doutrina jurídica, que cinco séculos mais tarde era solenemente codificada nas "Instituições Justinianas". O princípio jurídico que reconhecia a servidão "como constituição do direito dos povos contrária ao direito da natureza" ("Inst.", I, 1, 3) nascia do princípio moral da doutrina estóica de Sêneca, mais talvez que do pensamento cristão de São Paulo, que aceitava a instituição da servidão como jurídica e socialmente válida, e de S. Agostinho, que reconhecia a servidão como elemento providencial da ordem constituída por Deus.

A doutrina moral de Sêneca nasce do amor; e também da dor. É uma contínua tentativa para fortalecer a alma contra as injúrias da sorte e da iniquidade humana; é uma preparação do homem aos combates extremos: deve-se viver entre os próprios bens, entre as coisas mais queridas, como se a todo momento essas pudessem deixar-nos, como se a todo momento a vida mesma viesse a faltar-nos. Ele repete a frase de Demétrio, filósofo cínico: "O ser mais infeliz da Terra é aquele que nunca sofreu adversidades." A maior felicidade está em não precisar de felicidade, está em achar em si mesmo o próprio bem, sem dependência alguma dos casos e das injúrias da sorte e dos homens: assim, somente o sábio, na imobilidade de sua consciência intangível porque interior, incorruptível porque isolada, supera qualquer relação de forças externas, que agem a seu redor, e torna-se e é sempre o único dono e libertador de si mesmo. É preciso sermos sábios, não eruditos: a sabedoria ensina o homem a gozar de seu tempo, a erudição ensina a perdê-lo; a primeira ensina a viver bem e frutuosamente, a outra a viver mal e vadiamente. A cultura pode e deve ser um aviamento para a sabedoria, não um fim. Finalidade da vida humana não é ter tantas noções que não servem para nada: é ter a força de resistir ao mal, de superar as asperezas da existência e de receber a dor como um tesouro do espírito. Nessa contínua elevação moral está toda a humanidade de Sêneca: ele ensina porque tem experiência de ter conquistado a virtude com o drama da própria vida; e pode dizer as palavras necessárias a quem sente a necessidade de não esquecer, nas transações cotídianas, a pureza de sua origem e de sua natureza. Sêneca pode ensinar porque conquistou a virtude dia a dia, momento a momento, e conhece assim as alegrias das vitórias e o abatimento das derrotas. Nas páginas de Sêneca encontramos o homem em colóquio contínuo consigo mesmo: o expediente do fictício contraditor (tão comum na literatura filosófica helenística) é justificado aqui pela íntima necessidade de dirigir uma palavra também às fraquezas humanas. A indivisibilidade desses dois aspectos explica a aparente anomalia, pela qual Sêneca, que geralmente prega a rígida moral estóica, nos aparece moralista não intolerante, até conhecedor de quanto são freqüentes e naturais as lentidões, as demoras, até os passos atrás no caminho da virtude. Pode-se assim não somente explicar mas justificar as contradições, que a aversão dos acusadores ou a míope crítica quiseram ver sempre em Sêneca. Que grande filósofo, mas que péssimo homem, gritam a todo instante; e não se vê que justamente o moralista justificava o homem, assim como o homem procurava salvação no moralista.

Um exemplo prático dessa aparente contradição está na "Consolação a Minha Mãe Hélvia". A ordem exterior é a mesma de todas as obras do gênero: analisar antes a desventura, que atingiu o autor, e demonstrar que ela não o pode abater espiritualmente; mostrar em seguida ao atingido os recursos que ele tem em si ou deve encontrar fora de si para suportar a dor. Mas Sêneca escreve à sua mãe; e a ternura arrebata-o: demonstra que não está sozinho no exílio, e gostaria de estar perto de sua mãe; aconselha a própria mãe a suportar a dor, e lembra a vida familiar com uma saudade que diz claramente quão longe estavam de parecer convincentes os assuntos escolhidos para consolar. Afinal, o consolo nasce de um sentimento sublime, que diz em poucas palavras somente isto: "Querida mãe, nada no mundo me fez esquecer o bem que te quero, mesmo se estou longe de ti, mesmo se estou aflito, mesmo se não posso mudar a sorte; único conforto é o bem que nos une hoje e sempre." Essa é a parte humana da obra; a parte moral está na orgulhosa afirmação de que nenhum golpe externo podia abalar a firmeza de sua alma, pois os perigos estavam todos e somente dentro de si mesmo.

As aparentes contradições desaparecem completamente, quando Sêneca (que prega a virtude, o sacrifício do indivíduo em vantagem dos próprios iguais; que tem grande indulgência e amor para com aqueles que falharam; que combate todas as paixões que entristecem o homem) penetra nas trevas do além-túmulo com celestiais esperanças, extasiando-se no pensamento da verdade eterna, que teria conhecido, da divina e pura luz de onde teria vindo a alegria para a nova consciência. O homem e o moralista chegaram ao equilíbrio completo. Ao amigo Lucílio escrevia ("Epist.", 102): "Desvendar-se-ão para ti os arcanos da natureza, dissipar-se-á essa neblina que agora te circunda: serás ferido por uma luz claríssima. Imagina como deve ser vívido o fulgurar de tantas estrelas, que juntas confundem sua luz. Nenhuma sombra perturbará aquela limpidez: de todos os lados resplandecerá igualmente o céu; noite e dia são somente acontecimentos dessa nossa baixa atmosfera. Então reconhecerás ter vivido nas trevas, quando com todo teu ser verás inteira a luz, que agora pelos angustos meatos dos olhos obscuramente entrevês, e assim mesmo admiras de longe. Que te parecerá aquela divina luz, quando a vires lá, no céu?" A moral romana ainda não conhecia um equilíbrio tão perfeito; e esse equilíbrio nascia num homem que sofrera e lutara, que tirara experiência do pensador e do homem de Estado, sujeito a todas as exigências e conveniências da política; e que todavia soubera elevar-se acima da ruína causada por sanguinários tiranos ou por literatos aduladores. No diálogo "De Providentia" (VI, 3-5) uma suposta voz de Deus assim admoesta os mortais: Ferte fortiter: hoc est, quo deum antecedatis; ille extra patientiam malorum est, vos supra patientiam. Contemnite paupertatem: nemo tam pauper vivit quam natus est, Contemnite dolorem: aut solvetur aut solvet. Contemnite fortunam: nullum illi telum, quo feriret ani-mura, dedi. Contemnite mortem: quae vos aut finiit aut transferi (Suportai com força qualquer coisa: nisso sereis superiores ao próprio Deus; Deus ignora o sofrimento, Boa podeis vencê-lo. Despregai a pobreza: ninguém viveu tão pobre como quando nasceu; desprezai a dor: ou acaba ela ou acabareis vós; desprezai a sorte: não deis a ela arma alguma para ferir as almas; desprezai a morte, fim ou mudança da existência.) Ainda um passo, e a pregação do verbo de Cristo iluminará de uma luz divina as almas, livres da dor humana.

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