Biografia de Erasmo de Rotterdam

Biografia de Erasmus de Rotterdã

Traduzido de uma edição Argentina de "Elogio da Loucura"

    Desidério Erasmo
nasceu em Rotterdã no dia 28 de outubro de 1467 e faleceu na
Basiléia em 11 de junho de 1536. É um pensador humanista
de grande importância, ligado ainda à teologia. Filho
de Gerardius de Präel, que morreu quando Erasmo tinha treze anos,
em 1480. Era chamado de " filho de Geraldo", pois  era comum naquela
época os filhos serem conhecidos pelos nomes dos pais. Começou
seus estudos em Guda, e pouco depois passou para a catedral, como pajém.
Foi então para a célebre escola de Alexandre Hegius, em Deventer,
até que morreu sua mãe. Então parou de estudar, por
falta de recursos.


    A pedido de seus
parentes e tutores, foi para o seminário de Bois-de-Due. Devido
seu caráter introspectivo e por ser um estudioso aplicado, julgavam-no apto para seguir a carreira monástica e tornar-se padre.
Porém, nos três anos em que Erasmo passou como seminarista,
não ocupou-se muito com a filosofia e com a religião, preferindo
a música e a pintura.


    Após este
período, voltou para Guda, onde viveu com seus tutores. Lá,
com 19 anos, decidiu seguir a vida do claustro, junto com seu amigo
Cornelio Verdenius, antigo companheiro em Deventer. Foi então para
o convento de Stéin o Emmaus, nos arredores de Guda. Após
mais um tempo no convento, decidiu definitivamente que não havia
nascido para monge. Mas para não desagradar seus parentes, fez os
votos e continuou estudando. Enquanto seus companheiros de monastério
se dedicavam aos cultos religiosos, Erasmo ia sozinho para a biblioteca
e lá passava horas estudando, fazendo anotações. Isto
levou a formação de uma cultura superior, que mais tarde
tornou-se a causa de seu êxito intelectual e da fama de sua
erudição. Se entusiasmou com as obras do humanista Lorenzo
Valla, e em companhia de seu amigo Guilherme Hermann – que tornou-se poeta
lírico – , aprendeu a língua latina. A língua latina
era a língua escrita por execelência, além de ser básica
na Igreja católica, que ainda dominava em grande parte a cultura
da Idade Média. O conhecimento do Latim possibitou a Erasmo fazer-se
entender em outros países.


    Erasmo, orfão
de pais desde cedo, obrigado a viver a vida regrada dos monastérios,
já exercia no começo de sua juventude a agudez satírica
que o consagraria mais tarde em seu Elogio da Loucura. Por essa
época, divertia-se com pequenos ensaios, como o “De Contemptu Mundi”,
que ironizava  a vida dos monges, relevando o aspecto mundano destes.


    Felizmente, não
precisou continuar muito mais tempo nesta vida, pois graças ao seu
bom latim, foi nomeado por seus superiores para acompanhar até Roma
Enrique de Bergen, bispo de Cambrai, a quem o papa havia concedido o título
de cardeal. A viagem durou bastante e o cardeal foi seu protetor durante
este tempo. Para acompanhá-lo, Erasmo foi ordenado presbítero.
É uma constante da vida de Erasmo a ajuda e o suporte de amigos,
mecenas e pessoas poderosas que se interessavam pela cultura.


    Em 1486, Erasmo
foi para Paris terminar seus estudos. Se instalou no colégio Montaigú,
onde sentia repugnância pelos ensinamentos teológicos e pela
comida, que era basicamente a base de peixe, alimento que lhe fazia mal.
Aguentou durante três meses esta situação, até
que lhe autorizaram a voltar para Cambrai, onde residiu por mais um ano.
Lá se curou das enfermidades que lhe ocorreram durante sua estada
na França.


    Ao cabo deste
ano, voltou a Paris, mas sem a proteção de Enrique de Bergen,
que havia falecido, foi obrigado a se iniciar como professor particular
para sobreviver. Conseguiu alguns discípulos ricos, que lhe davam
excelente pagamento. Entre seus discípulos estava Guilherme Mountjoy,
um inglês, que gostava muito de Erasmo e lhe acolheu em sua casa,
com o consentimento de seus pais, estes muito estimaram a presença
de um professor de maneiras corretas e grande cultura.


    Foi então
que uma grande peste assolou Paris, e centenas de habitantes começram
a morrer diariamente. Erasmo fugiu para o sul da França, onde travou
amizade com a marquesa Ana de Vera, que também ficou encantada com
Erasmo e passou a lhe fornecer uma pensão de cem florins.


    Pouco tempo depois
Erasmo foi para Orleans, onde permaneceu três meses na casa do catedrático
Jaime Tudor, que havia conhecido em Cambrai, onde Tudor lecionava direito
canônico.


    Em 1497, foi com
seu discípulo Guilherme Mountjoy para Londres, onde permaneceu até
1500. Lá visitou a Universidade de Cambridge e Oxford, onde travou
amizade com os mais insígnes humanistas da época, como Thomas
More – de  quem tornou-se grande amigo – , Juan Coleti, Guilhermo
Crocyn e Latimer.

    Thomas More o
apresentou ao rei Henrique VII, que o recebeu com muita estima, pois Erasmo
sempre se fazia simpático e amigável com os poderosos.


    Na Universidade
de Oxford, terminou seus estudos em grego, um idioma que só os eruditos
conheciam na época. Este conhecimento serviu de ponte para sua relação
com o douto filósofo Juan Colet, que lhe deu a conhecer obras importantíssimas,
como a primeira versão da Bíblia. O conhecimento deste manuscrito
foi decisivo para Erasmo se apartar da filosofia escolástica.

    Volta então
à França, passando pelas cidades de Paris, Orleans, e Lovaina,
analisando as obras curiosas das bibliotecas locais.


Vivendo quase que exclusivamente
da escrita, como acontecia com a maior parte dos humanistas.  Começou
a publicar vários livros e tratados, que chamaram a atenção
dos estudiosos e lhe conferiram uma grande autoridade intelectual. Os poderosos
e magnatas passaram a solicitar a companhia de tal estudioso, tão
versado nas ciências filológicas e literárias.


    Em 1504, o encarregaram
de recepcionar o novo governante, o arquiduque Felipe, recebendo por este
trabalho 50 moedas de ouro, o que solucionou seu problema financeiro por
dois anos. Pouco tempo depois, na Louvania, travou relação
com um grupo de teólogos, entre os quais o futuro Alexandre VI e
o fransciscano P. Vitrarius, que se tornou seu amigo íntimo e o
ajudou economicamente depois.


    Graças
a um mecenas de Lovaina, editou as obras de um de seus autores prediletos,
o sábio Lorenzo Valla. Se dedicou às obras sobre o Novo Testamento
deste sábio, e escreveu para elass um prefácio considerado interessantíssimo,
que foi muito comentado em todas as partes.

    Um dos grandes
desejos de sua vida era conhecer bem a Itália, mas as suas ocupações
e problemas financeiros não permitiam a realização
de tal projeto.

    Seus numerosos
amigos de Londres lhe facilitaram uma cátedra em Cambridge, onde
lecionava seu antigo discípulo Guilhermo, que sempre o estimou.


    Em 1506 Erasmo
finalmente realizou seu desejo de viajar para a Itália, passando antes
por Paris e Lion, cidade que lhe agradou muitíssimo. Passou por
Turim, cuja Universidade lhe concedeu o título de doutor em teologia,
sendo muito admiradas as suas aulas, que expunham de forma original e convidativa
os textos cristãos.


    Residiu brevemente
em Bologna – que era um grande centro cultural italiano – passando pouco
depois à Florença, onde também foi homenageado pelas
universidades e centros de cultura. Regressou pouco tempo depois à
Bologna, onde o papa Jacob II o saudou, e lhe disse que seria muito bem
vindo em Roma, se resolvesse lá fixar residência.

    Foi para Roma
e lá ficou durante um ano, sendo estimado por todos, pois o papa
não parava de elogiar os profundos conhecimentos de Erasmo, que
nesta época já era famoso em toda Europa.


    Encaminhando-se
em Veneza, travou amizade com o impressor Aldo Monucio, que pouco
tempo antes, em 1500, havia publicado uma obra sua, chamada Adágios. Aldo
foi seu anfitrião em Veneza, mas Erasmo demonstrou ingratidão
ao satirizar Aldo e sua família.


    Em 1508, Erasmo
abandonou Veneza, e passou uma curta temporada em Pádua, retornando depois para
Roma. No caminho parou por alguns dias na cidade de Siena, onde visitou um antigo
aluno.


    O êxito
de seu adágio lhe valeu novas amizades e o ingresso nos círculos
culturais, e também uma infinidade de alunos, que ansiavam por aprender
suas lições.


    O papa o dispensou
de seus votos clericais, que havia assumido anteriormente. E isso permitiu-lhe
uma maior liberdade para se vestir e uma maior flexibilidade de costumes.


    Quando Henrique
VII  – que  Erasmo conhecera quando este era princípe herdeiro
– assume o trono da Inglaterra, insiste muito para que fique com ele, pois
lembrava das lições de Erasmo na Universidade de Cambridge.


    Por
volta do ano de 1511, permaneceu um ano na localidade de Addington, a convite
do arcebispo de Canterbury. De lá saiu por ser uma província
demasiado pequena e não poder relacionar-se com pessoas mais instruídas,
como costumava fazer.


      Nesta
época começou  a sentir-se mal de saúde, sofrendo
enfermidades e moléstias, por conta do clima nebuloso da ilha.
Passou a pensar em morar num melhor
clima, onde pudesse ainda manter-se estudando.


    Em 1513 foi para
a Alemanha, passando pelas cidades mais importantes até chegar à
Basiléia. Era sempre bem recebido por onde chegava. Na Basiléia
foi chamado novamente pela corte inglesa, onde permaneceu até 1516,
indo então para a Holanda, na corte do jovem monarca Carlos, que
lhe nomeou seu conselheiro, assegurando-lhe uma pensão de 400 florins.
Erasmo não era obrigado a morar com ele e pouco trabalhava. Isto
lhe deu liberdade para que viajasse a vontade às custas do estado.


    Com o dinheiro
da pensão, Erasmo comprou uma casa sossegada num lugar aprazível,
onde se rodeou de comodidades, afim de passar confortavelmente o inverno.
Erasmo sempre sofreu com o inverno, e por isto desta vez equipou bem a
sua casa, com estufa e forros na parede.


    Sua prosperidade
foi crescendo, e com o dinheiro que sobrava, subsidiava jovens estudantes
que mostravam predisposição para a filologia e a literatura.
Aos políticos que lhe vinham pedir conselho, geralmente não
atendia, pois não se considerava político e achava que isso
deveria ser feito só pelos que se dedicavam à essa área,
a qual não tinha vocação. A vida de Erasmo era totalmente
dedicada ao labor intelectual, e tudo que estivesse fora disto era evitado.


     Os lugares
de  preferência de Erasmo era a Lavaina, Basiléia, Bruxelas,
Amberes e Londres. Em Londres ia sempre que o monarca inglês solicitava
seus serviços. Residiu durante muitos anos na sua tranquila propriedade
da Basiléia, estabelecendo notável correspondência
com os filósofos e eruditos mais celébres de seu tempo, como
Escolampadro, beato Rheananus e Gloreano.

    Com a chegada
da reforma na Alemanha, Erasmo se vê obrigado a emigrar, indo pra
Friburgo de Brisgau, onde adquiriu uma casa modestíssima, que preparou
conforme seu gosto, para poder se dedicar à escritura e a à
leitura, únicos prazeres verdadeiros de sua vida de solitário.


    Erasmo, que deixara
a Basiléia por ser contra os protestantes, começa a ser hostilizado também na Holanda, com a instauração das doutrinas
protestantes em sua pátria. Isto lhe fez perder sua serenidade.
Tanto católicos como protestantes vinham pedir seus conselhos sobre
qual era a melhor forma de praticar a religião.

    Aplacadas as lutas
ideológicas, marchou para Roma, onde o papa Paulo III lhe deu um
priorato em Deventer. Marchou para Paris, mas antes deteve-se alguns meses
na Basiléia, onde imprimiu algumas de suas obras. Mas as enfermidades
voltaram a ficar graves e durante  o inverno, que lhe foi terrível,
se viu obrigado a permancer mais tempo. ficou em sua casa na Basiléia
debaixo das cobertas, completamente doente.


    Na convalescência,
chegou a começar uma edição crítica das obras
de Orígenes, mas por pouco tempo. Em 11 de junho de 1536 falecia
aquele que era chamado de ” o príncipe dos humanistas”. Grandes
foram as homenages que lhe foram prestadas em quase toda a Europa. Na Espanha
seu nome gozou de especial predileção, pois muitos discípulos
escreviam inúmeros estudos a seu respeito, o que ficou conhecido
como erasmismo. Seu corpo foi sepultado na catedral da Basiléia.



Outro texto sobre Erasmo.

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