Gógol – O Diário de um Louco



GÓGOL

(1809 — 1952)

Considerado como o primeiro representante verdadeiro do realismo russo, NIKOLAI VASILIEVITCH GÓGOL nasceu na região de Poltava em 1809, de uma, família de cossacos ucranianos tipicamente patriarcal. O pai era comediógrafo de fama local e exerceu influência sobre a sua formação literária; a mãe, espírito inclinado ao misticismo religioso, sobre a sua formação moral. Gógol teve uma infância feliz e fêz medíocres estudos no liceu de Néjin, onde sobressaiu, principalmente, pelo seu talento de ator. Em 1828 vai para São Petersburgo. Era, como bom ucraniano, humorista e sonhador, imaginativo e realista, mas, o que contrastava com os de sua região, pouco expansivo, irritadiço e pouco sentimental. Obtém modesto emprego e sonha com ser um grande ator. Estréia na literatura com um idílio em versos "Hans Kuchelgarten", mal recebido pela crítica. Destrói esse malfadado trabalho e pensa em ir para o estrangeiro. Em Lübeck desiste da viagem e é então que, estimulado pelas lendas populares e por tudo quanto é ucraniano, escreve "Noites ãe vigília numa fazenda próxima de Dikanka" (1831-32), que lhe granjeia fama. Torna-se amigo de Púchkin. Ensina, História em um Instituto para moças e em 1834 passa para a Universidade, mas sem nenhum êxito acadêmico. Publica em 1835 um segundo volume de histórias "Mirgorod" em que já se revela um observador realís-tico. Uma terceira coletânea de "Arabescos" (em dois volumes) traz o seu famoso "Diário de um louco". Graças a maior amizade que desfruta junto a Púchkin, publica as suas melhores obras: "O Inspetor Geral" (comédia) e "Almas Mortas". A peça teatral representada, sátira amarga contra a sociedade de seu tempo, excita grande reação contra Gógol e o escritor deixa a Rússia em 1836 e leva até I848 uma vida errante. Viaja pela Alemanha, França e Itália. "Almas mortas" representa o* que de melhor se produziu na ficção russa em seu tempo.

Nicolau Gógol

"Extratos escolhidos de minha correspondência com menu amigos" aparece em I846 e causa escândalo, devido à revelação das verdadeiras convicções do autor, conservador e místico, e devido ao tom de profeta com que exorta a Rússia a regenerar-se e a ajudá-lo, a êle próprio na sua regeneração" escreve Ehrhard em sua "Literatura Russa". Gógol viaja à Terra Santa e sente funda decepção (1848). Há dentro dele o artista e o asceta em luta. A 12 de fevereiro de 1852, Gógol queima toda a segunda parte das "Almas Mortas". A saúde abalada, esgotado pelo sacrifício e pelos jejuns, morre a 21 de fevereiro de 1852. "Almas mortas" fixaram os traços característicos do romance russo. Por muito tempo, as gerações de escritores russos beberam inspiração nessa obra admirável, que ensinou ao próprio Dostoievski.

O DIÁRIO DE UM LOUCO

3 de outubro

Deu-se, hoje, um fato estranho. Levantei-me um pouco tarde e quando Mavra me trouxe as botas limpas, perguntei-lhe que horas eram. Ouvindo que já passava bastante das dez, tratei de vestir-me às pressas. Confesso que teria de bom grado deixado de ir ao escritório, já prevendo a carranca que me faria o chefe da seção. Já faz tempo que êle vive me dizendo: "Que diabo está lhe acontecendo, irmão; você está sempre com tamanha confusão na cabeça? Você não faz outra coisa senão agitar-se como se estivesse sobre carvões em brasa e atrapalha tanto os processos que o próprio satanás não os desembrulharia; você escreve os cabeçalhos com letras minúsculas e se esquece de pôr a data e o número de ordem". Maldito tolo! Certamente tem inveja de mim porque estou no gabinete do diretor e aparo as penas de Sua Excelência. Enfim, não teria ido à repartição se não fosse a esperança de ver o caixa para, talvez, pedir àquele judeu um adiantamento, embora pequeno, sobre o meu ordenado. Muito bom também êle! Deus do Céu, antes que êle faça qualquer adiantamento, é mais fácil vir o juízo final! Pode-se suplicar quanto se queira, rebentar e estar em extrema necessidade, mas dinheiro o diabo do velho não solta. E, contudo, em casa, a cozinheira lhe dá bofetões. Isto é sabido por todos. Por mim, na verdade, não compreendo que interêsse haja em prestar serviço numa tal repartição. Não há vantagem. Na administração estadual, nos tribunais, ou nas recebedorias é outra coisa: lá há sujeitos que escrevinham num canto, com casacas apertadas e sujas e caras que dá vontade de cuspir nelas. Mas indague um pouco que espécie de casas eles alugam no campo! Que adianta oferecer a eles, digamos, uma taça de porcelana dourada. "Isto", dirão, "é presente para doutor"; mas aceitarão uma parelha de cavalos, uma pequena carruagem, ou uma peliça de castor de trezentos rublos. Têm um ar de bondade, falam tão delicadamente: "Por favor, um canivete para limpar a peninha" e, deste modo, limpam o requerente a ponto de deixar-lhe apenas a camisa no corpo. Entretanto, em nossa repartição há tamanha distinção e asseio que maiores não se poderiam desejar numa administração estadual; as mesas não de acaju e os dirigentes usam todos o tratamento "senhor". Realmente, confesso que se o serviço não tivesse esse caráter decoroso, já teria, desde muito tempo, abandonado a repartição.

Vesti o meu velho capote e apanhei o guarda-chuva, porque chovia a cântaros. Nas ruas não havia ninguém, a não ser as habituais mulheres do povo, que se protegiam com as saias, negociantes provincianos sob os grandes guarda-chuvas e cocheiros. De gente boa, somente um colega funcionário que se apressava. Vi-o numa esquina. Apenas o avistei, disse a mim mesmo: "Não, meu caro, você nesse andar não vai, na verdade, à repartição; você está é correndo atrás daquela criatura que caminha à sua frente e lhe está olhando as perninhas". Que grande tolo nosso colega funcionário! Palavra de honra,nenhum oficial lhe leva a palma; passa uma mulher de chapéu e êle logo tenta conquistá-la. Enquanto eu assim pensava, vi uma carruagem parar diante da loja pela qual eu eslava passando. Reconheci-a imediatamente. Era a carruagem do nosso diretor. "Mas êle o que viria fazer nesta loja?", disse a mim mesmo. "Sem dúvida, é a filha dele". Então, encostei-me rente ao muro. O lacaio abriu a portinhola e ela desceu voando, qual um passarinho. Como olhava de um lado e de outro, como resplandeciam os seus olhos!… Deus do Céu estou perdido, completamente perdido! Por que tinha ela saído com aquele tempo? Digam, depois, que a paixão das mulheres pelos seus trapos hão é exemplar! Não me reconheceu e eu também procurei embuçar-me como melhor pude, porque o meu capote está surrado e fora de moda. Agora os capotes usam-se com golas mais longas e a do meu é, ao invés, curta e dupla e, além disso, a fazenda não é a que conviria. A sua cachorrinha não conseguiu enfiar-se em tempo na porta e ficou na rua. Conhecia aquela cachorrinha. Chamava-se Maggie. Após um instante apenas, ouvi, de repente, uma vòzinha fina: "Bom dia, Maggie". Ora essa! Quem falava assim? Olhei em redor e vi duas senhoras que vinham vindo sob o mesmo guarda-chuva: uma de meia idade e a outra jovem; mas tinham já passado; contudo, ouvi ainda: "Que vergonha, Maggie!" Com os diabos! Notei então, que Maggie se farejava com outro cãozinho que seguia as senhoras. "Oh", disse comigo mesmo, "estou talvez embriagado? Todavia, isto não me acontece com freqüência. "Não, Fidèle, você não tem razão em julgar-me mal" (vi com meus olhos o que dizia Maggie) "estive, au, au! estive, au, au, au! muito doente!" Ah, cachorrinha tratante! Reconheço que fiquei bastante espantado ouvindo-a falar à maneira dos homens. Mas, depois de ter pensado bem no caso, deixei de me espantar. Realmente, no mundo, já houve vários fatos semelhantes. Diz-se que, na Inglaterra, uma vez um peixe deu à praia e pronunciou duas palavras numa linguagem tão estranha que os sábios, desde há três anos, estão estudando o caso, sem chegar a qualquer conclusão. Li também, nos jornais, sobre duas vacas que foram a um empório e pediram uma libra de chá. Mas confesso que me espantei muito mais ouvindo Maggie dizer: "Eu lhe escrevi, Fidèle; vê-se que Polkan não lhe levou a minha carta!" Que eu não receba mais o meu ordenado se eu tinha alguma vez ouvido dizer que os cães sabem escrever! Só mesmo um nobre pode escrever corretamente. Sem dúvida, há também uns caixeiros e até uns criados que assinam o nome de vez em quando, mas na maioria dos casos aquilo é puramente mecânico; eles não têm nem pontuação e nem estilo. A coisa me espantou seriamente.

(1) Gorohovaia: Rua da Ervilha.

(2) Mechtchanskaia: R. dos Burgueses.

(3) Stoliarnaia: R. dos Marinheiros.

Reconheço que, desde há algum tempo, ouço e vejo, às vezes, coisas que ninguém nunca viu ou ouviu. "Agora", disse a mim mesmo, "seguirei esta vil cachorrinha e saberei quem é e o que pensa". Abri o guarda-chuva e fui atrás das duas damas. Elas entraram na Goroho-vaia (1) viraram na Mechtchanskaia (2), desta passaram para a Stoliarnaia (3) e, enfim, para a ponte Koruch-kin; por último, pararam diante de uma casa grande. "Conheço esta casa", disse comigo mesmo, "é a casa de Zverkof". Que coisa desajeitada, que espécie de gente mora ali, quantas cozinheiras, quantos estrangeiros! Nossos colegas funcionários nela vivem como cães, uns sobre os outros. Nela mora também um meu amigo, grande tocador de tromba. As senhoras subiram ao quinto andar. "Está bem", disse a mim mesmo, "por esta vez não irei lá, mas recordarei bem o lugar para, na próxima ocasião, tirar proveito."

4 de outubro

Hoje é quarta-feira; estive, pois, no gabinete do diretor. Fui mais cedo de propósito, sentei-me e aparei todas as penas. O diretor deve ser um homem inteligentíssimo. O gabinete está cheio de estantes repletas de livros. Li alguns títulos: tudo erudição, uma erudição que nossos colegas não alcançam, todos livros em francês ou em alemão. E o rosto dele próprio, xi, que dignidade lhe brilha no olhar! Não aconteceu ainda ouvi-lo dizer uma palavra mais que o necessário. Somente alguma vez, enquanto lhe apresentam papéis, pergunta: "Que tempo faz?" "Frio, Excelência". Ah, êle não é como um de nós! É um homem de Estado. Começo, porém, a perceber que me quer bem de modo especial. Se também a sua filha, … ah, canalha!… Nada, nada, quieto! Li a "Petite Abeille". Que gente tola os franceses! Que pretendem eles? Palavra de honra, gostaria de fustigá-los todos. Li também uma descrição divertida de um baile, escrita por um fazendeiro de Kursk. Os

fazendeiros de Kursk escrevem muito bem. Depois disso, vi que já era meio-dia e meia e o diretor ainda não saíra de seus aposentos. Mas, lá pela uma e meia, sucedeu algo que nenhuma pena poderia descrever. Abriu-se a porta e eu crendo que fosse o diretor, levantei-me de um salto com toda a papelada. Era ela, ao invés, ela própria! Santo Deus, como estava vestida! Com um vestido todo branco, tal qual um cisne; xi, como estava galante! O seu olhar era um raio de sol! Palavra de honra, um raio de sol! Cumprimentou-me e disse: "O senhor viu meu pai?" Oh, que voz! Um canarinho, sem tirar nem pôr! "Excelência", teria desejado dizer, "não queira mandar-me punir, mas se realmente quer, castigue-me pelo menos com a sua própria mãozinha de filha de general". Ao invés, o diabo me carregue, a língua não me obedeceu, de modo que disse apenas: "Não, não esteve aqui". Ela olhou atentamente para mim, para os livros e derrubou o lencinho. Precipitei-me para apanhá-lo, escorreguei no maldito soalho e quase bati o nariz no chão, mas consegui manter o equilíbrio e apanhei o lencinho. Deus do Céu, que lencinho! Transparente, de cambraia, âmbar, âmbar, na verdade! Cheirava a generalato. Ela agradeceu e sorriu apenas, a ponto da sua doce boquinha mal se entreabrir, e depois saiu. Fiquei lá por mais de uma hora, até que veio um criado dizer-me: "Vá para casa, Aksenti Ivanovitch, o patrão não vem mais". De minha parte, não posso suportar a criadagem: fica folgadamente na antecâmara e se enfada até de inclinar a cabeça para cumprimentar. Mas isto não é tudo: uma vez, um destes cretinos teve a ousadia de me oferecer uma pitada de rapé. "Mas você não sabe, tolo criado, que eu sou um funcionário e de origem nobre!" Todavia, apanhei o chapéu e eu próprio vesti o meu capote, porque aqueles senhores não há possibilidade que lhe dêem ajuda, e fui-me embora. Em casa fiquei deitado na cama, na maior parte do tempo. Depois escrevi alguns versos belíssimos: "Longe da amada uma hora, um ano inteiro parece-me; a esta vida que me desola, aí, estou pronto a renunciar". Parece uma poesia de Púchkin. À noite, envolto no meu capote,postei-me diante da residência de Sua Excelência e esperei bastante tempo para ver se ela não saía, a fim de contemplá-la mais uma vez. Mas não, não saiu.

6 de novembro

O chefe da seção zangou-se. Apenas me viu chegar, chamou-me e começou a dizer: "Escute um pouco, meu caro, o que você está tramando?" "Como, explique-se? Não estou tramando nada", respondi. "Vamos pense bem! Você já, não é por dizer, passou dos quarenta e seria tempo de pôr juízo! Mas o que você pensa? Você imagina que eu não estou a par de todas as suas maro teiras? É evidente que você gosta da filha do diretor! Pois bem, tome sentido, reflita somente sobre quem você é! Você não é senão um zero, menos que um zero. Quanto à inteligência você não vale nem meio copeque e quanto à cara, olhe-se um pouco ao espelho. Mas como pode você somente pensar numa tal eventualidade?" O diabo o leve, pois sua cara assemelha-se a uma redoma de farmácia e tem na cabeça um topete de cabelos crespos, fixados com pomada. Crê que tudo lhe é permitido. Entendo, entendo porque me faz cara de poucos amigos. É invejoso; talvez tenha percebido os sinais de preferência que me são dados. Eu cuspo nele! Grande coisa, deveras, conselheiro da corte! (4) Seu relógio tem uma corrente de ouro, encomenda sapatos de trinta rublos, que o inferno o trague! E eu, sou plebeu, sou filho de alfaiate ou de suboficial? Nobre, sou! E por que não? Posso ainda fazer carreira. Tenho somente quarenta e dois anos, ou seja a idade em que a carreira, viu de regra, começa apenas. Espere, meu bem! Tam-bém eu serei coronel e, talvez, com a ajuda de Deus, algo mais. Alcançarei também eu reputação e maior que a sua. Mas o que você se meteu na cabeça, que a não ser você não existe no mundo gente como se deve? Dê também a mim uma casaca na moda, deixe-me usar uma gravata como a sua e, então, você não poderá nem sequer atar os meus sapatos. Mas faltam-me os meios, eis a dificuldade!

(4) Conselheiro de côrte: título da hierarquia administrativa, dois graus acima do de conselheiro titular.

8 de novembro

Estive no teatro. Representavam uma peça popular. Ri tanto. Houve também uma espécie de "vaudeville" com estrofes pequenas e divertidas sobre os homens da lei e, principalmente, sobre escrivães, em estilo bastante livre. Espanta-me que a censura as tenha feito passar. Sobre os comerciantes, então, dizem sem rodeios que são embrulhões e que seus filhos levam uma vida libertina, insinuando-se assim entre os nobres. Quanto aos jornalistas houve também uma pequena estrofe jocosa, dizendo que eles criticam a todos e, portanto, o próprio autor pedia a proteção do público. Hoje em dia, os autores escrevem peças agradabilíssimas. Gosto de teatro. Quando tenho dinheiro, não deixo de lá ir. E vejam só, dentre os colegas funcionários há tais cretinos que ao teatro não vão nem mesmo se lhes derem uma entrada de graça. Havia também uma artista que cantava de maneira deliciosa. Lembrou-me aquele ser divino … ah, canalha!… nada … quieto!

9 de novembro

Fui à repartição às oito. O chefe de seção fingiu não perceber a minha chegada. Eu também não me dei por achado. Examinei e conferi papéis. Às quatro saí. Passei diante do gabinete do diretor, mas não se via ninguém. Passei a maior parte do tempo deitado na cama. 

11 de novembro

Estive hoje na sala do diretor, para êle aparei vinte e três penas e para ela, ai de mim, para Sua Excelência, quatro. Êle gosta muito que haja penas de reserva. Ih, que inteligência deve ser! Está sempre calado, creio que medita sobre tudo. Gostaria de saber o que mais lhe interessa, que idéias passam por aquela cabeça. Gos

de tudo. Estas cartas me revelarão tudo. Os cães são uma raça hábil, que entende de política, por isso encontrarei aqui, como certeza, tudo quanto me serve: o retrato e os negócios particulares, daquele homem. E talvez encontre também algo sobre aquela que … nada, quieto! Ã noitinha, voltei para casa e fiquei, na maior parte do tempo, estendido na cama.

13 de novembro

Ânimo, vejamos! A carta é bastante legível; contudo, parece que há sempre algo de canino na caligrafia. Mas vejamos!

"Cara Fidèle! mas ainda não consigo acostumar-me com o seu nome burguês. Não podiam ter-lhe dado outro nome um pouco melhor? Fidèle, Rosa, como é vulgar! Deixemos, porém, isso de lado. Estou muito contente porque decidimos escrever-nos".

A carta é corretíssima. A pontuação e até a letra "iat" (5) estão bem colocadas em toda parte. Nem mesmo o nosso chefe de seção escreve tão bem, apesar de sempre repetir que estudou em não sei que universidade. Continuemos:

"Parece-me que partilhar com outrem os próprios pensamentos, sentimentos e impressões seja um dos maiores confortos".

Hum … este conceito foi tirado de um livro traduzido do alemão; não me lembro, contudo, do título. "Digo-o por experiência, embora só conheça o mundo fechado entre as paredes de nossa casa. Será que a minha vida não transcorre alegremente? A patroazi-nha a quem o pai chama Sophy, me quer muito bem".

5) Iat: A letra "iat" que correspondia ao som "e", confun-dia-se facilmente com a letra "ie" (e), designativa de som seme-lhante, abolida na ortografia soviética, que para o som "ie" mantem só o sinal "e".

Ai de mim!… nada, nada, quieto. "O pai também me faz festa com muita freqüência. Dão-me chá e café com creme. Ah, ma chère, devo dizer-lhe que não gosto nada dos ossos grandes já taria de ver mais de perto a vida destes senhores, todos seus problemas e intrigas da corte, observar todas estas personagens e como se comportam em seu meio, eis o que eu gostaria de ver! Diversas vezes quis entabular conversa com Sua Excelência; mas, o diabo me carregue, a língua não me ajuda: depois de dizer se faz calor ou frio, não sei falar mais nada. Quisera dar uma espiada na saleta, cuja porta, de vez em quando, encontra-se aberta e dentro da qual se vê uma outra porta que dá nos cômodos internos. Oh, que móveis de luxo! Que espelhos e que porcelanas! Gostaria de dar uma olhada lá no aposento de Sua Excelência, eis o que eu gostaria de olhar! Observar, no seu quarto de toalete, todos os vasos, os cristais, as flores de conturbante perfume e as suas vestes espalhadas, mais parecidas com um sopro de brisa que com vestidos. Agradar-me-ia dar uma espiada no quarto de dormir … Lá há maravilhas, imagino; lá, imagino, é o paraíso! Ver o pequeno escabêlo sobre o qual ela apoia os pèzinhos quando se levanta e como aqueles pèzinhos são calçados com meias brancas como a neve … Ai de mim! Nada, nada … Quieto!

Mas hoje veio-me uma idéia, tal qual um clarão: lembrei-me da conversa dos dois cãezinhos, que ouvi no Nevski Prospekt. "Muito bem", pensei. "Agora saberei tudo. É preciso apoderar-se das cartas que os dois cãezinhos trocarem entre si. Por meio delas, certamente, saberei alguma coisa". Confesso que uma vez cheguei mesmo a chamar Maggie e a dizer-lhe: "Escute, Maggie, aqui estamos nós dois sozinhos e, quando você quiser, lhe abrirei a porta sem dar na vista; diga-me um pouco o que você sabe a respeito da sua patroazinha, como é ela? Juro-lhe que ninguém, saberá de nada". Mas a astuta cachorrinha pôs o rabo entre as pernas, encolheu-se toda e, afinal, deslizou de mansinho para a porta, como se não tivesse ouvido nada. Desde há muito tempo, já suspeitava que o cão era mais inteligente do que o homem; estava mesmo persuadido que pudesse muito bem falar, mas que era apenas teimoso. Êle é um grande político: nada lhe escapa, observa os mínimos movimentos do homem. Não, aconteça seja lá o que fôr, amanhã vou a casa de Zverkof, interrogo Fidèle e, se tiver oportunidade, apanho todas as cartas que Maggie lhe escreveu.

12 de novembro

Às duas da tarde, pus-me a caminho a fim de ver, sem mais delongas, Fidèle e interrogá-la. Não posso suportar os repolhos cujo mau cheiro exala de todos os armazéns da Mechtchanskaia; ademais de todas as portas vem mau cheiro, de modo que eu, tapando o nariz, me apressava quanto podia. Além disso, há também os humildes artesãos, com suas oficinas que vomitam fumaça e fuligem, a ponto de não se poder mesmo passear em semelhante lugar. Subindo ao sexto andar, toquei a campainha e uma moça não muito feia, com o rosto coberto de sardas miúdas, veio abrir a porta. Reconheci-a. Era aquela mesma que eu havia encontrado junto com a senhora mais velha. Ela corou um pouco e eu logo compreendi: você, pombinha, procura um namorado. "Que deseja", perguntou. "Desejaria falar com o seu cachorro". Que tola, aquela moça! Percebi logo que era tola! Naquele instante, a própria cachorrinha acorria latindo; eu queria agarrá-la, mas a maldita por pouco não me mordeu o nariz. Eu, porém, vi num canto o lugar onde dormia. Era isto que eu procurava! Aproximei-me, remexi a palha da caixa de madeira e, com grande alegria, retirei de lá um pacotinho de minúsculas folhas de papel. A abominável cachorrinha, vendo isto, me mordeu na barriga da perna em primeiro lugar e depois, quando farejou que eu havia apanhado as folhas de papel, começou a ganir e a acariciar-me, mas eu disse: "Não, meu bem, adeus!" e deitei a correr. Creio que a mocinha me tomou por um louco, porque assustou-se muito. Chegando em casa, queria me pôr ao trabalho e ler logo as cartas, com a luz da vela enxergo mal, de fato. Mas Mavra teve a idéia de lavar o soalho. Estas tolas finlandesas são sempre limpas em excesso. Por isso saí a passeio, pensando no que acontecera. Agora,, finalmente, irei conhecer todas as intrigas, os pensa mentos, todas as causas secretas e poderei ter uma idéia

descarnados que o nosso Polkan rói na cozinha. Só são bons os ossos de carne de caça e também estes se ainda ninguém lhes chupou o tutano. Um prato realmente bom é o que se obtém misturando diversos molhos, à condição, porém, que não haja nem alcaparra e nem legumes; mas nada é mais indigno que o hábito de se dar aos cães miolo de pão amassado em forma de bolinhas. Um homem que está à mesa e manejou toda sorte de sujeira, de repente começa a amassar o miolo do pão com tais mãos, depois nos chama e nos atira na boca uma bolinha. Sei que seria pouco delicado recusar e assim acabamos engolindo aquilo, com nojo, mas engu-limos …"

Só o diabo sabe que embrulhada é esta! Quantas tolices! Como se não houvesse nada de melhor a escrever! Vejamos se na página seguinte há algo mais interessante.

"De muito bom grado a informo de quanto acontece aqui em casa. Já lhe falei daquele digno senhor que Sophy chama papai. É um homem muito estranho …" Ah, finalmente, eis-nos no ponto desejado! Queria

dizer eu; os cães têm golpe de vista político. Vejamos, pois, de que tipo é este pai: ‘… homem estranho. Quase nunca fala. Está quase sempre calado, mas, uma semana atrás, começou de repente a falar sozinho, sem parar: ‘Hei de obtê-la ou não?" Pegou num papel, cruzou os braços e continuou a dizer: "Hei de obtê-la ou não?" Em dado momento dirigiu-se a mim, perguntando: "Que lhe parece, Maggie, obtê-la-ei ou não?" Não pude entender nada, farejei-lhe os sapatos e fui-me embora. No dia seguinte, ma chère, o pai voltou para casa muito alegre. Durante toda a manhã recebeu visitar de personagens em uniformes, que se congr| tulavam com êle. À mesa estava contente cot nunca". Depois do jantar, pegou-me ao colo disse: "Olhe, Maggie, eis a tal coisa." Vi uma espécie de fita. Farejei-a, mas realmente não senti nenhum perfume. Depois, lambi-a devagar, tinha um gosto meio salgado."

Hum! essa cachorrinha me parece até demais … Queira Deus não apanhe! Então, êle é ambicioso! Preciso tomar boa nota disto.

"Até logo, ma chère! … devo fugir, etc, etc, .. . Amanhã acabarei de escrever esta carta … Bom dia, pois! Aqui estou novamente. Hoje a minha patroazinha Sophy …"

Ah, bem! Vejamos como é Sophy. Nada, nada… continuemos:

Eh. canalha!.

"… a minha patroazinha Sophy estava muito agitada. Preparava-se para ir ao baile e isto me causava prazer, porque enquanto ela estivesse fora, poderia escrever-lhe. A minha Sophy não cabe em si de contente sempre que pode ir a algum baile, apesar de que, todas as vezes, enquanto se apronta acaba por encole-rizar-se. Realmente, não compreendo, ma chère, que prazer se possa sentir em ir a um baile. Sophy volta para casa às seis da manhã e, pelo seu aspecto cansado, percebo que lá não lhe deram nem que comer. Por mim, francamente, não agüentaria nem sequer um instante. Se eu não tivesse minha perdiz ao molho ou minha asa de frango assado … não sei mesmo o que faria. Também é bom mingau de aveia. Mas cenouras, nabos e alcachofras nunca serão do meu agrado".

Estilo extremamente desigual! Vê-se que isto não à carta de gente. Começa como se deve e acaba à maneira canina. Vejamos esta outra cartinha. Longa.

Hum! Está também sem data.

"Ali, minha querida, como se pressente a primavera que se aproxima! O coração me bate como

na ânsia da espera. Sinto nos ouvidos um murmúrio contínuo e, com freqüência, levantando uma patinha, fico assim à escuta, para o lado da porta, por longo tempo. Devo dizer-lhe que tenho diversos admiradores. Com freqüência, à janela, os observo um a um. Ah, se você visse alguns, que horror! Há um de feições vulgaríssimas, pateta a mais não poder, com a imbecilidade refletida no focinho, que caminha pela rua com grande pose, imaginando ser quem sabe quem e crendo que, desta maneira, todos devam dar-lhe atenção. Mas eu não lhe ligo nenhuma: é como se nem existisse. E que horrível buldogue vem sob a minha janela! Se se levantasse sobre as patas traseiras — e, sem dúvida, o vilão não sabe fazê-lo — ultrapassaria de uma cabeça inteira o pai de minha Sophy, que, entretanto, é alto e forte. Esta espécie de bestalhão é um descarado a mais não poder. Rosnei para êle, mas ficou impassível: nem sequer se mexeu! Fica só com a língua de fora e com as orelhas abaixadas e olha para cima: que ignorante! Mas não pense por isso, ma chère, que o meu coração seja igualmente insensível a qualquer outra assiduidade? Ai de mim, não … Se você visse um belo cavalheiro chamado Trésor, que escala o muro da casa vizinha; ah, ma chère, que focinho êle tem!. . .

Diabo!… Quantas asneiras! Não compreendo como se pode encher tantas páginas com tais tolices! Mas dêem-me uma criatura humana! Eu quero uma criatura humana, anelo pelo alimento que deve confortar e inebriar a minh’alma e, ao invés, tenho que ler estas sensaborias… Pulemos uma página, talvez encontra algo melhor:

‘Sophy estava sentada à sua mesa e costurava alguma coisa. Eu estava à janela porque gosto de ver os transeuntes. De repente, chegou um criado e anunciou: "Teplof!" "Faça-o em

trar", exclamou Sophy e me abraçou com transporte. "Ah, Maggie, Maggie! Se você soubesse quem é: um rapaz moreno, um fidalgo da corte e com uns olhos! Negros e ardentes como fogo!" e Sophy correu para o seu quarto. Após um instante, entrou um jovem fidalgo da corte, com suíças negras; aproximou-se do espelho, alisou os cabelos e, em seguida, olhou em torno pela sala. Eu, rosnando, voltei ao meu lugar. Sophy voltou logo e respondeu alegremente à sua reverência; eu, como se nada fosse, continuei a olhar pela janela, mas virei um pouco a cabeça para ouvir a conversa de ambos. Ah, ma chère, de que tolices falavam! Comentavam que certa dama, em pleno baile, executara uma figura de dança em lugar de outra. Que um tal Bobof assemelhava-se bastante, com seus bofes de camisa, a uma cegonha e que por pouco não caíra. Que uma tal Lidina crê ter olhos celestes, quando são apenas verdes e assim por diante. Comparando esse fidalgo com Trésor, que diferença meu Deus! Êle tem o rosto largo e liso, com suíças em torno como se fossem um lenço negro, enquanto que Trésor tem o focinho fino e, no meio da testa, uma mancha sem pêlo. Sua cintura nem se compara com a do fidalgo. Do mesmo modo os olhos, os gestos, as maneiras. Que diferença! Não compreendo, ma chère, o que ela vê no seu Teplof, que está assim tão encantada …"

Também eu digo que isto não é tanto assim. Não pode ser que esteja enamorada deste modo por Teplof. Prossigamos:

"Se ela gosta deste fidalgo da corte, direi que, dentro em pouco, gostará também, digamos, do funcionário que está no gabinete do pai. Se você visse, ma chère, que desengonçado êle é!. Tal qual uma tartaruga na sua concha. .."

Quem será tal funcionário?

"Tem um nome muito esquisito. Está sempre lá aparando as penas. Tem cabelos que parecem feno. O pai sempre lhe dá ordens, como se fosse "um criado…"

Parece-me que esta cachorrinha ordinária alude a mim. Mas onde é que eu tenho cabelos como feno?

"Sophy, quando o olha, não pode conter o riso."

Você mente maldita cachorrinha! Língua execrável! Como se eu ignorasse que tudo isto é fruto da inveja, como se eu ignorasse quem está metido nisto tudo. Estas são intrigas do chefe da seção. Quando um homem se entrega a um ódio implacável, faz todo o possível para prejudicar e não pode deixar de prejudicar. Em todo o caso, vejamos esta outra carta. Talvez tudo fique esclarecido.

"Ma chère Fidèle, desculpe-me pelo longo silêncio. Estava totalmente apaixonada. Como está certo quem definiu o amor como uma segunda vida! Além do mais, aqui em casa há grandes alterações. O fidalgo da corte vem agora todos os dias. Sophy está loucamente apaixonada. 0 pai está contentíssimo. Antes, ouvi o nosso Grigori — que varre o chão e fala sempre sozi nho — dizer que logo será o casamento, porque o pai quer, de qualquer maneira, casar Sophy com um general, ou justamente com um fidalgo da corte, ou com um coronel do exército…"

Com os diabos! Não posso continuar … Sempre fidalgos da corte e generais. Gostaria de ser também general, não porém para aspirar à mão, etc; não, gostaria de ser general somente para vê-los cortejar-mo e fazer-me toda sorte de mesuras e cerimônias e para

depois dizer-lhes: cuspo em vocês dois. Para o inferno, é uma coisa intolerável! Rasguei em pedaços miúdos as missivas da tola cachorrinha.

3 de dezembro

Tolices! É impossível, aquele casamento não se fará! Que importa se êle é fidalgo da corte ? É claro que isto não passa de um título: não é algo de visível e palpável. Evidentemente se alguém é fidalgo da corte, nem por isso possui mais um olho no meio da testa. Certamente seu nariz não é de ouro, mas como o meu e o de todos os demais; sem dúvida, usa o nariz para cheirar e não para comer, para espirrar e não para tossir. Já faz bastante tempo que procuro deslindar de onde derivam tantas diferenças. Quem diz, por exemplo, que eu sou conselheiro titular (6) e em base a que? Pode ser que, ao invés, eu seja um conde ou um general e que somente pareça ser conselheiro titular. Eu próprio, talvez, nem sei que diabo sou. Além disso, na história se encontram muitos exemplos semelhantes: um homem qualquer e não um que já é nobre, mas um burguês apenas ou simples-mente um camponês, de repente descobre-se que é um grande príncipe ou um barão ou quem sabe o que ainda. Se, pois, de um simples camponês pode surgir algo de importante, de um que já é nobre, o que não poderá resultar? Eu, por exemplo, um belo dia apareço em uniforme de general: uma dragona de cá, outra de lá, uma faixa azul a tiracolo e então? Que atitude tomará, então, a minha bela? Que dirá seu próprio pai, nosso diretor? Oh, êle sim que é ambicioso! É um maçon, um verdadeiro maçon; embora finja ser isto ou aquilo, compreendi logo que é um maçon: quando estende a mão, de apenas dois dedos. Mas é mesmo certo que eu não posso me tornar, de repente, general governador, inten-dente, ou coisa semelhante? Por que sou conselheiro titular, pagaria para saber? Por que justamente conse-lheiro titular?

(6) Conselheiro titular: Vide nota 4. Um dos títulos mais da hierarquia russa.

5 de dezembro

Hoje, estive a manhã toda lendo os jornais. Na Espanha estão acontecendo coisas estranhas. Não compreendo bem do que se trata. Dizem que o trono está vago e que os altos dignitários não sabem como proceder quanto ao sucessor e daí surgirem perturbações da ordem. A mim isto parece impossível. Como pode um trono ficar vago? Dizem que deverá ocupar o trono certa "dona". Uma "dona" não pode ocupar o trono. Não pode de maneira alguma. No trono deve sentar-se o rei. Mas, dizem, não há rei. É impossível que não haja rei. Um Estado não pode existir sem rei. O rei existe, somente estará quem sabe onde, incógnito. Talvez esteja mesmo lá, mas, por razões de família ou por causa de ameaças de potências limítrofes, tais como a França e outras, se mantenha escondido, ou também pode haver quem sabe que outros motivos.

8 de dezembro

Hoje eu queria ir mesmo à repartição mas, por diversas considerações, não fui lá. Não me saíram ainda da cabeça os negócios da Espanha. Como é possível que uma "dona" seja proclamada rainha? Não o permitirão. Não o permitirá, entretanto, a Inglaterra. E, depois, a situação política de toda a Europa, o imperador da Áustria… Confesso que tais fatos me causaram tal inquietação e tamanho abatimento que não consegui fazer nada durante todo o dia. Mavra disse-me, à mesa. que me achava demasiado distraído. Na minha distração devo ter atirado ao chão dois pratos que se quebraram À tarde, saí a passeio. Mas sem nenhum resultado Depois, na maior parte do tempo, fiquei deitado na cama, pensando nos negócios da Espanha.

(7) Executor: uma espécie de ecônomo de uma repartição.

43 de abril de 2.000

Este é o dia do meu maior triunfo? A Espanha tem, afinal, o seu rei. Apareceu o rei. Tal rei sou eu. Somente hoje é que o percebi. Confesso que foi como um clarão que me iluminasse. Parece impossível que até hoje eu tenha podido crer e imaginar ser conselheiro titular! Não sei como pude meter-me na cabeça uma idéia tão louca. Mas, agora, tudo se me afigura claro, como se fosse na palma da minha mão. Não sei porque, antes tudo me parecia, de certo modo confuso. E a causa é, suponho, que comumente se nos afigura o cérebro humano colocado na cabeça, quando o vento nô-lo traz das regiões do Mar Cáspio. Tanto para principiar, revelei a Mavra quem sou. Quando ela ouviu que estava perante o rei da Espanha, bateu as mãos e quase morreu de medo. A boba não viu ainda um rei da Espanha. Mas eu procurei tranqüilizá-la, garantindo que se, às vezes, não me havia limpado bem as botas, eu não estava aborrecido por isso. Como essa gente é ignorante! Com elas não se pode falar de coisas elevadas. Espantou-se porque está convencida que todos os reis da Espanha devem ser parecidos com Felipe II. Mas eu lhe fiz notar que não tenho nada de parecido com êle. Não fui à repartição. Que vá para o diabo! Não, meus caros, vocês não mais me apanharão: não copiarei mais seus sujos papéis!

86 de martoubro, entre dia e noite

Hoje veio o executor (7) dizer-me que vá à reparti-ção, são mais de três semanas, disse êle, que lá não vou. Tanto para tirar uma desforra, eu fui. O chefe da seção pensava que eu o teria cumprimentado e lhe apresentado desculpas; lancei-lhe, ao invés, um olhar de pouco caso, nem muito irado e nem muito benévolo e sentei-me à minha mesa, sem dignar-me dar atenção a quem quer que seja. Olhei toda aquela chusma administrativa e pensei que somente vocês soubessem quem está aqui… Deus do céu que confusão não haveria! O próprio chefe dos seus começaria a fazer-me as profundas reverências que agora faz ao diretor. Deram-me certos papéis para que eu fizesse um extrato. Mas eu não os toquei nem mesmo com as pontas dos dedos. Pouco depois começou uma grande agitação. Disseram que vinha vindo o

diretor. Muitos funcionários porfiavam em ir-lhe ao encontro para serem por êle notados. Eu, porém, nem me abalei. Quando atravessou a seção, todos abotoaram febrilmente a casaca; eu, porém, nem me mexi! Quem é esse diretor para que eu me ponha de pé na sua presença? Nunca! Que espécie de diretor é aquele? Aquele é uma rolha, não um diretor. Uma simples rolha de tapar garrafas, nada mais. Mas o engraçado foi quando me passaram uns papéis para assinar. Imaginavam que eu ia assinar ao pé da página; como escrivão que eu era não podia assinar diferentemente. Ao invés, escrevi bem em evidência, no ponto em que assina o diretor da repartição: "Fernando VIII". Só vendo o silêncio de veneração que se seguiu! Eu, porém, fiz um sina} e acrescentei: "Não é necessário que me rendam qualquer homenagem!" e saí. Fui diretamente ao gabinete do diretor. Êle não estava lá. O criado não queria que eu passasse, mas disse-lhe umas coisas que o deixaram boquiaberto. Continuei sem hesitar em direção ao quarto de toalete. Ela estava sentada diante do espelho, levantou-se precipitadamente e recuou. Eu porém, não lhe revelei que era o rei da Espanha. Somente a adverti da felicidade que a esperava, uma felicidade que ela nem sequer podia imaginar e acrescentei que apesar das tramas dos inimigos, nós dois nos pertenceríamos. Não quis dizer mais nada. Fui-me embora. Qh, que criatura insidiosa é a mulher! Compreendi somente agora quem é a mulher. Até aqui ninguém sabia do que a mulher gosta: fui o primeiro a descobri-lo. A mulher está apaixonada pelo diabo. Estou falando seriamente, tudo tolice o que os cientistas dizem, que ela é feita deste ou daquele modo: na realidade, ela só ama o diabo, Vejam-na de um camarote de primeira assestar o binóculo. Bem, vocês crêem que ela está observando aquele senhor obeso, que ostenta uma decoração? Nada disso, Está, ao contrário, olhando o diabo escondido atrás do mesmo. E agora o diabo foi se meter atrás daquele sujeito de e lhe faz sinal com o dedo. E, porúltimo, ela se casai-á com êle, casar-se-á sem dúvida Vejam todos esses pais de alto bordo a meterem-se em toda a parte, a treparem até a Corte, a proclamarei que são patriotas e mais isto e mais aquiio? Pois o que eles pretendem são rendas e nada mais! Vendem tudo por dinheiro; não passam de uns ambiciosos, uns vendilhões de Cristo! Tudo, afinal, provém da ambição, ambição porque existe sob a língua uma bexiguinha contendo um vermezinho do tamanho de uma cabeça de alfinete. Tudo isto é trabalho de um barbeiro da Gorohovaia. Não me recordo do nome; mas é mais do que sabido que êle e uma parteira querem fazer triunfar em toda a terra o maometismo e por isso é que se diz que uma grande parte do povo francês já adotou a religião de Maomé.

Data nenhuma. É um dia sem data.

Estive, em incógnito, no Nevski Prospekt. Por ali passou o czar, de carruagem. Toda a gente tirou o chapéu e eu também; não dei o menor sinal de que sou o rei da Espanha. Achei pouco condizente com a minha digni dade dar-me a conhecer diante de todos e, de fato, em primeiro lugar é preciso apresentar-se à Corte. Mas não tenho ainda o traje nacional espanhol e isto me impede

fazê-lo. Se eu arranjasse pelo menos um manto! Queria mandá-lo fazer por um alfaiate, mas refleti que esta gente é imbecil; descuida-se do seu trabalho e entrega-se à especulação e, na sua maior parte, dedica-se à pavimentação das ruas. Resolvi transformar num manto meu uniforme novo, que só usei um par de vezes. Não queria que aqueles vilões me estragassem o serviço; portanto, decidi fazer tudo por mim mesmo, fechado no quarto para que ninguém me visse. Comecei por cortá-lo todo, porque o modelo deve ser completamente diferente.

Não me lembro da data. Mas não havia nem mesmo mês.

Só o diabo sabe o que havia.

O manto está pronto. Mavra deu um grito quando Porém não estou ainda decidido a apresentar-me à Corte. Acontece que não vieram os emissários da Espanha. E sem estes não convém. A minha dignidade ficaria prejudicada. Espero-os de um momento para outro.

Dia 1

0 atraso dos emissários me espanta muito. Que motivos os detêm? Será a França? Sim, aquela é a nação mais insolente. Fui ao correio para saber se chegaram os emissários; mas o diretor é um tolo muito grande e não sabe nada. "Não", disse, "aqui não há emissários espanhóis, mas se quiser expedir cartas, podemos despachá-las pela tarifa oficial." Com os diabos! Para que cartas? Uma carta é coisa tola. Só os farmacêuticos escrevem cartas …

Madri, 30 de fevereiro

Eis-me, enfim, na Espanha e a coisa foi tão rápida que mal tive tempo de voltar a mim. Hoje, pela manhã, chegaram finalmente os emissários espanhóis e eu subi com eles na carruagem. Pareceu-me estranha a grande velocidade em que íamos. Corríamos tanto que em meia. hora apenas atravessamos a fronteira espanhola. É verdade que, atualmente, existem estradas de ferro que atravessam toda a Europa e que com os navios se viaja a grande velocidade. Estranho país a Espanha! Logo que entrei na primeira sala, notei numerosas pessoas de cabeça raspada. Mas eu compreendi logo que deviam ser os Grandes de Espanha ou, então, soldados que costumam raspar a cabeça. De maneira muito estranha comportou-se o chanceler do governo, que me tomou pela mão, empurrou-me dentro de um pequeno quarto e disse : "Fique aqui quieto e se ainda lhe vier a idéia de que é o rei da Espanha, tratarei eu de fazer-lhe passar a mania. Eu, porém, pensando que esta era apenas uma prova, continuei como dantes; então o chanceler do governo me deu duas bordoadas que me doeram tanto que quase gritei. Não o fiz, contudo, porque refleti que este é um hábito da cavalaria, uma cerimônia de investidura. sabido que na Espanha se conservam ainda tradições da cavalaria. Quando fiquei só, decidi cuidar dos negócios de Estado. Descobri que a China e a Espanha formam um todo e que, apenas por ignorância, são consideradas dois países distintos. Convido quem quer que seja a escrever "Espanha" num papel, sairá "China". Estou, entretanto, assustado com algo que deverá acontecer amanhã. Às sete horas em ponto terá lugar um fenômeno estranho: a terra sentar-se-á na lua. Também o célebre químico inglês Wellington escreveu a respeito "isso. Confesso que fiquei bastante perturbado ao refletir na maciez e flexibilidade da lua. Normalmente, a lua se fabrica, e bastante mal, em Hamburgo. Admira-me que a Inglaterra não tenha notado isso. É produzida por um tanoeiro coxo, realmente sem competência, que de lua nada entende. Põe nela resina e óleo vegetal, o que explica o horrível fedor que há por toda a terra, que obriga a tapar o nariz. Por esta mesma razão a lua é um globo tão mole que os homens não podem viver nela e lá moram agora somente narizes. Isto explica ainda o fato que não conseguirmos ver o próprio nariz: é que todos os narizes estão na lua (8). Considerando que a terra é matéria pesada e pode, ao sentar-se, transformar em papinhas os nossos narizes, apoderou-se de mim tamanha agitação a ponto de, após ter calçado as meias e os sapatos, correr até a sala do Conselho de Estado para ordenar à polícia que não deixe a terra sentar-se na lua. Na sala do Conselho havia numerosos grandes de cabeça raspada, gente experta, tanto que quando eu disse: "Senhores, salvemos a lua porque a terra quer sentar-se nela", todos procuraram precipitadamente executar a minha real vontade e diversos queriam subir pelas paredes para alcançar a lua; mas em tal momento chegou o grande chanceler. Ao vê-lo, todos fugiram. Eu porém fiquei, como convinha a um rei. Entretanto, o chanceler, com meu grande espanto, bateu-me e me empurrou novamente em meu quarto. Tal é a força, na Espanha, das tradições nacionais.

(8) Nariz: Outro conto fantástico de Gógol. Refere-se a um nariz que se torna independente, destacando-se do seu dono.

Janeiro do mesmo ano, que segue a fevereiro.

Não chego ainda a compreender que espécie de país é a Espanha. Os costumes populares e a etiqueta da corte são deveras extraordinários. Não entendo, não entendo mesmo nada. Hoje me rasparam a cabeça, não obstante eu gritasse com todas as forças que não tinha vontade alguma de tornar-rne frade. Não sei o que houve comigo quando começaram a me derramar água fria na cabeça. Nem me posso lembrar. Nunca me vi em semelhante inferno. Estava a ponto de endoidecer e só por milagre me contiveram. Não entendo absolutamente o que significa este extravagante costume. Tolo e insensato costume! Não compreendo a ignorância dos reis precedentes que não o aboliram. Pensando bem, chego a suspeitar que caí nas mãos da Inquisição e que aquele que julguei ser o grande chanceler seja, pelo contrário, o grande inquisidor em pessoa. Mas não compreendo realmente como possa um rei ser submetido à Inquisição. Mas não será por causa da França e, em particular, de Polignac (9) ? Que tratante esse Polignac! Jurou perder-me. E assim me persegue sem tréguas. Mas eu bem sei que é o inglês que o instiga. O inglês é um político fenomenal; por toda a parte estende a sua rede de intrigas. Quem não sabe que quando a Inglaterra toma uma pitada de rapé, é a França que espirra?

(9) Polignac: Jules Armand, príncipe de Polignac (1780-18-17», presidente do Conselho francês no momento em que se desenvolvit o enredo deste conto.

Dia 25

Hoje o grande inquisidor veio ao meu quarto. Eu, porém, reconhecendo o seu passo, escondi-me sob uma cadeira. Êle não me viu e começou a chamar-me. Primeiro gritou: "Onde você está?" Não me mexi. Depois: "Axenti Ivanovitch! Conselheiro titular! Fidalgo! "E eu sempre calado." "Fernando VIII, rei da Espanha!" Nesta altura, quis aparecer, mas depois refleti. "Não, meu caro, você não me pega! Conheço-o bem: começará de novo a jogar-me água fria na cabeça". Mas êle me viu e me fêz sair do esconderijo a bordoadas. Dói de modo infernal aquele maldito bastão! Mas do tudo fui compensado por uma descoberta que fiz: percebi que qualquer galo tem a Espanha sob as asas. O grando inquisidor, entretanto, foi-se embora furioso, ameaçando-me de mais castigos. Mas eu não dei nenhuma importância aos seus furores, pois sei que êle é apenas um autômato, um instrumento nas mãos do inglês.

/349

Não, não tenho mais forças para suportar tudo isto. Meu Deus, como me atormentam! Derramam-me água fria na cabeça. Não me dão importância alguma, não me vêem, não me escutam. Que mal lhes fiz! Por que me fazem sofrer? Que querem de mim, pobrezinho? Que lhes posso dar? Não tenho nada. Não agüento mais, todas as torturas me infligem, arde-me a cabeça e tudo roda em volta de mim. Salvem-me! Tirem-me-daqui! Dêem-me uma "troika" (10) com cavalos velozes como o vento. A postos, cocheiro, retini guizos, arrojai-vos cavalos e levai-me para longe deste mundo. Cada vez mais longe, que não haja mais nada, mais nada. Eis que o céu flutua, uma estrelinha brilha lá longe, flutua a floresta com suas árvores sombrias ao luar; um nevoeiro azulado espalha-se sob nós; uma corda ressoa no nevoeiro; de um lado o mar, do outro, a Itália; eis que aparecem também as choupanas russas. Não é a minha casa que azuleja lá embaixo? Não é a minha mãe que está sentada à janela? Mãezinha, salve o seu pobre filho! Derrame uma lágrima sobre sua cabecinha doente! Veja como o fazem sofrer! Aperte contra o peito seu pobre órfão! Para êle não há lugar no mundo! Perseguem-no! Mãezinha, tenha pena do seu filhinho doente!… Mas vocês sabem que o rei da Argélia tem uma verruga justamente sob o nariz?

10) Troika: grande trenó, usado na Rússia, puxado por três cavalos.

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