Como Heidegger interpreta a gênese do conhecimento teórico em Ser e Tempo

Como Heidegger interpreta a gênese do conhecimento teórico em Ser e Tempo

Como Heidegger interpreta a gênese do conhecimento teórico
em Ser e Tempo?

Roberto S.
Kahlmeyer-Mertens [1]

Resumo: O texto comunica o
encaminhamento de uma pesquisa de Doutorado intitulada: Da Gênese do
conhecimento teórico em Ser e tempo.
Tem o propósito de apresentar um
aprofundamento ao problema: Como se interpreta a gênese do conhecimento teórico
nesta obra? o que se dará por meio da investigação do problema
e sua relação com o projeto da ontologia fundamental. Tais questões são
formuladas junto à temática dos §§.12-18 do referido livro. Objetivamos, de
modo geral, apresentar a hipótese de que ambigüidades e, mesmo, descuido (Versäumnis)
em torno das compreensões de manual e simplesmente-dado (entendidos estritamente no universo temático da obra de Heidegger), teriam
criado uma ruptura no modo com o qual a lida com os utensílios é apreendida.
Isto geraria conseqüências imediatas que resultariam na origem do conhecimento
teórico, enquanto modo derivado de compreensão do mundo. Nosso objetivo
específico é a explicação pontual destes conceitos e argumentos.

Palavras-chave: Metafísica, fenomenologia, Heidegger, Ser e tempo.

1
Introdução

A pesquisa tratada amplamente aborda o tema da gênese do modelo
teórico
. Partimos, assim, de uma indicação nos dada por Heidegger quando,
em Ser e tempo, o autor trata do conceito de utensílio (Zeug) ao
enfocar o homem (e sua condição de ser-no-mundo) em sua relação com os entes
que lhe vêm ao encontro:

O ente que assim nos
vem ao encontro é visualizado pré-tematicamente por um ‘conhecimento’ que,
sendo fenomenológico, aspira primordialmente o ser e partindo dessa tematização
do ser, tematiza igualmente o ente em sua causa. Essa interpretação
fenomenológica não é, pois, um conhecimento de propriedades entiativas dos
entes, mas da estrutura de seu ser (HEIDEGGER, 1993, p.108).

Afirmar que o encontro com os entes é pré-temático, significa que em um
primeiro comercium com os entes, o ser-no-mundo não os apreende como coisas capazes de sustentar qualidades ou propriedades verificáveis por meio de um
conhecimento que, em seu modo de ser, já seria reflexivo. Ele não apreende os
entes temática ou teoricamente, mas, como diz Heidegger, pré-tematicamente.
Assim, ao invés de entender a mesa como um aparato dotado de uma
superfície plana de matéria sólida de origem vegetal, que se dispõe
horizontalmente, apoiando-se em quatro hastes metálicas que a sustenta a certa
altura do chão,
o ser-no-mundo faz uso dessa (mesa) apoiando nela
seus pertences. Assim, “o ente fenomenologicamente pré-temático, ou seja, o
usado, o que se acha em produção, torna-se acessível ao transferirmo-nos para
as ocupações” (HEIDEGGER, 1993, p.108).

2
Sobre modos de ocupação cotidiana e caracterização ontológica prévia

O que Heidegger chama aqui de modos de ocupação, refere-se à
maneira com que os seres-no-mundo já sempre se inserem em seu contexto mundano.
Esse, em seu exercício de existir, se encontra desde uma ocupação. Os modos de
ocupação são, pois, maneiras de ser, desde as quais o ser-no-mundo cumpre a
tarefa de existir em relação com entes no mundo. Observa-se que, em
todos estes diversos sentidos possíveis de ocupação, vige a compreensão de um
exercício de realização, no qual o ser-no-mundo é aquele que existe enquanto se
ocupa, através de um desses modos. Nosso autor nos confirma isso ao definir o
uso que julga adequado ao termo ocupação: “A presente investigação usa a
expressão ‘ocupar-se’ para designar o ser de um possível ser-no-mundo”
(Heidegger, 1993, p. 95). Assim, ao existir, o ser-no-mundo estará também
sempre junto a entes que lhe reivindicam uso em meio aos modos de
ocupação.

Na análise do ser-aí, ou na assim chamada analítica existencial, o
ser-no-mundo é tratado como aquele que está sempre ocupado com algo, preocupado
com um afazer, aplicando-se a uma tarefa, podendo esta ser um empreender, um
impor, pesquisar, interrogar, considerar, discutir, determinar etc.(HEIDEGGER,
1993) Do mesmo modo, tudo aquilo que poderia sugerir uma ausência de ocupação,
como por exemplo: o ócio, a lassidão, o dês-compromisso ou a renúncia de
tarefas, já seria desde um modo de ocupação; precisamente, o estar ocupado em
esquivar-se de possíveis ocupações.

Destarte, podemos dizer que as ocupações (neste contexto de mundo
doravante referido como mundanidade) são caracteres constitutivos do
ser-no-mundo, e que por meio dela o ser-no-mundo está em mundo relacionando-se
com os entes em geral. Assim, tais entes constituem manuais estando sujeitos a
uma apropriação pelo uso no mundo e já pressupondo um modo de ocupar-se.

Entendemos por manuais todos os entes que se manifestam desde a ocupação,
ou daquilo que podemos tratar como paradigma do uso. Daí, um manual pode
ser um utensílio (Zeug), um instrumento, uma ferramenta (Werkzeug)
ou o que quer que se manifeste como passível de manuseio. Por manuseio não se
entenda, aqui, apenas o uso restrito à motricidade do órgão mão, mas a
possibilidade de apropriação do utensílio, seja ele qual for, em um registro de
uso. Daí, não só a mesa e a caneta, mas uma casa, uma igreja, as lápides de um
cemitério, são manuais na medida em que são utilizados pelo ser-no-mundo em um
certo contexto de uso e significado (HEIDEGGER, 1993, p. 151).

Manualidade é o modo de ser do utensílio que se revela em si mesmo ao
ser-no-mundo. Assim, “o utensílio está disponível ao manuseio, em um sentido
amplo, unicamente porque todo instrumento possui este ‘ser-em-si’ e não
simplesmente ocorre” (Heidegger, 1993, p. 111). Neste cenário, definem-se
simultaneamente modos de ocupação coerentes com as exigências das circunstâncias
conformadas nos limites deste ser-no-mundo; instituem-se, com isso,
comportamentos e procedimentos que se enredam tecendo uma conjuntura de
significados desde a qual os entes no mundo são desde sempre constituídos.

Isso ressalta que o uso cotidiano do ser-no-mundo com seus utensílios é
pré-temático, é irrefletido, de modo que este não predica nada sobre a mesa,
antes apóia o livro, os papéis e a caneta.

Contudo, Heidegger assinala que tomando sob a consideração da análise
existencial do ser-aí, a temática dos manuais na ocupação deve

(…) afastar as tendências de interpretação afluentes e concorrentes que
encobrem o fenômeno dessa ‘ocupação’. Pois o que com isso se encobre é,
sobretudo, o ente tal como ele, a partir de si mesmo, vem ao encontro na
ocupação e para ela. Esses desvios capciosos aparecem quando (…) perguntamos:
Que há de ser pré-tematizado e estabelecido como base pré-fenomenal? A resposta
comum seria: as coisas (HEIDEGGER, 1993, p. 109).

A advertência se deve
ao fato de, na aparente obviedade cotidiana que afirma haver a coisa, residir
a possibilidade do descuido que nos levaria a interpretar os entes diante da
desconsideração da conformidade na qual ele está inserido no mundo. A perda da
visão desta conjuntura de
mundo e do
papel de utilidade que os utensílios possuem conformemente, poderia sugerir que
nos ocupamos de coisas dadas em
primeira mão ou simplesmente presentes.

Daí, encontrarmos os
utensílios desprovidos de uma ocupação e suscetíveis a serem apropriados,
primeiro, como meras coisas para, só depois, aderirmos sobre estas uma função ou utilidade.

Na pronta resposta, de
que investigamos coisas, se expressa a
ambigüidade ou mesmo o descuido de entender o ente descolado da conjuntura de
mundo, onde desempenha uma função. Interpretar desta maneira, seria lançar mão
de um recorte que exclui do universo
do ser-no-mundo seu próprio mundo, pois, segundo Heidegger:

ao se interpelar (ausprechen) o ente como ‘coisa’(res), já
se recorre implicitamente a uma caracterização ontológica prévia.
Análise que já se depara com coisalidade e realidade. Desse modo, a
explicitação ontológica encontra, sempre e continuamente caracteres como
substancialidade, materialidade (…) etc (HEIDEGGER, 1993, p.109).

Uma “caracterização
ontológica prévia”
pressupõe, pois, que haveria os entes para além do
contexto existencial no qual eles se manifestam; que haveria os entes como
meras coisas possuidoras de atributos substanciais, isto é, essenciais ou
quididativas. Uma vez possuindo propriedades, essas coisas poderiam ser
conhecidas de maneira prévia, ou seja, sujeitas a um viés objetivante,
investigativo e teórico destas propriedades para, só então (uma vez de posse do
conhecimento da ‘verdade’ daquele ente), ser utilizadas adequadamente e de
maneira prática.

Ao advertir acerca de desvios capciosos, Heidegger aponta para
ambigüidades em torno do modo com que os utensílios são interpretados, em torno
destes, teria se criado uma leitura que rompe com sua dimensão utensiliar;
redundando na visão dicotômica de que teríamos estes utensílios primeiramente
apropriados de maneira teórica, para só então podermos utilizá-los na
esfera prática (como comentado acima). Posto que, a para o autor “a
visualização puramente ‘teórica’ das coisas carece de uma compreensão da
manualidade” (HEIDEGGER, 1993, p.111).

Para o filósofo, tal desvio entendido como ambigüidade tem origem
no pensamento grego. Pois, embora neste já se presenciasse a palavra pragmata, para referenciar os utensílios (denotando que os antigos possuíam compreensão
da intrínseca relação dos entes e seu uso), seria neste próprio
período em que teria ficado não esclarecido ontologicamente o caráter
pragmático destes ‘pragmatas’, isto é, a dependência de seu uso e as
circunstâncias nas quais são usados (HEIDEGGER, 1993, p.109).

Isto faz com que, com o tempo, percamos de vista que estes só são
utensílios por estarem desde sempre à mão em um contexto de utilidade, em uma
conjuntura de mundo. Esta omissão, talvez motivada pela obviedade que os gregos
reconheciam na relação imprescindível do utensílio com seu uso (observável no
parentesco da palavra “pragmata”, utensílio; e outras como “pragmatéia”, circunstâncias ou negócios), criou condições para que os
utensílios fossem caracterizados primeiramente como meras coisas, para
só depois serem apropriados como passíveis de uso, em seus supostos aspectos.
Fato somente possível pela submissão a vicissitudes históricas que desviaram o
curso desta compreensão fazendo com que estes fossem tratados como coisas (res).

O trabalho de nossa pesquisa visa a sustentar, com base em Heidegger
(1993, p.100), que esta ambigüidade e conseqüente ruptura, ainda no mundo
grego, seria responsável pela gênese de um conhecimento exclusivamente
teórico, que apreende o ente que se apresenta em seu fenômeno.

Tal modelo é registrado pelo próprio Aristóteles quando alude nas
primeiras páginas de sua Metafísica a suposta tendência do homem ao
conhecimento, conhecimento este que já se opera a partir da diferenciação entre
a aparência do ente e sua essência, esta última assumida
teoricamente como a verdade deste ente e da totalidade dos entes.

3 Da gênese
do conhecimento teórico no âmbito da instrumentalidade

O referido cria uma anterioridade conceptual que proporciona a
instauração de um modelo teórico que engendra o processo incondicional
de determinação da verdade dos entes. Heidegger associa o modelo teórico à
idéia de deficiência, na seguinte passagem:

(…) o
conhecimento (teórico) em si mesmo se funda previamente num
já-ser-junto-ao-mundo, no qual o ser do ser-aí se constitui de modo
essencial.(…) É necessário que ocorra previamente uma deficiência do
afazer que se ocupa do mundo para se tornar possível o conhecimento, no sentido
de determinação observadora de algo simplesmente dado. Abstendo-se de todo
produzir, manusear etc, a ocupação se concentra no único modo ainda restante de
ser-em, ou seja, no simples fato de demorar-se junto a … Com base nesse modo de ser para o mundo, que só permite um encontro com o ente
intramundano em sua pura aparência (eidos) e como modo dessa maneira de
ser, é que torna possível uma visualização explícita do que vem ao encontro.
Essa visualização é sempre um direcionamento para…, um encarar o ente
simplesmente dado (HEIDEGGER, 1993, p. 100).

Marlène Zarader (1990, p. 127) é quem melhor nos explica este quadro, nos
permitindo afirmar que deficiências (Defizienz) como o descuido (Versäumnis)
em torno da compreensão de manual (Zuhanden) e do ser-simplesmente-dado
(Vorhandenheit), entendidos no universo temático da obra de Heidegger,
teriam criado uma ruptura no modo com o qual o conhecimento dar-se-ia. Zarader
aponta o conhecimento teórico dos entes como conseqüência das seguintes
ocorrências:

a)      A perda do paradigma que expressa o uso segundo o qual os utensílios se
determinam (por parte da falta de clareza de seu modo de ser na conformidade do
ser-no-mundo);

b)      a apreensão do utensílio como ente simplesmente presente (ou seja,
isento de uma implicação mundana, como que suspenso de qualquer requisição de
ocupação);

c)      a diferença entre o ente presente e aquilo que Heidegger chama de
“presença do presente”, como essência deste ente (decorrente de uma pergunta
que se antecede a ocorrência deste ente, ao perguntar para além de todas as
suas circunstancialidades, pelo que há de duradouro, de essencial);

d)     a reificação da essência do ente (tratamento da essência como algo que
ocorreria também de maneira ôntica e tentativa sistemática de delimitação
desta, objetivamente);

e)      a assunção desta essência como uma verdade acessível por meio da teoria,
em detrimento da prática (advento da dicotomia entre teoria e prática);

f)       a interpretação dos entes como simplesmente-dados e sua primazia sobre
seu caráter manual, sendo estes, doravante, observados por um viés teórico e,
logo, temático (estabelecimento do primado do teórico sob o prático e do
preconceito de que o teórico é o modo mais apropriado para o conhecimento das
coisas) .

4
Considerações finais

A
desconsideração do contexto existencial do ente, bem como, do modo evidente
(pré-temático), deste em seu acontecimento imediato de fenômeno, é que cria a
citada anterioridade conceptual que põe em questão o ente, buscando, neste
ente, características fixas que não se restrinjam às circunstâncias nas quais
ele se manifesta. Neste modo de compreender, podemos identificar o anseio
metafísico do conhecimento teórico por eliminar do horizonte do ente seu
caráter transitório, finito e circunstancial, à medida que se tenta determinar
teórico e categoricamente aqueles que representariam os termos reais da
verdade de tal ente
.

Nesse ponto a
pesquisa se depara com a evidência de que o conhecimento teórico, tal qual
descrito acima seria aquele que se encontra implícito no próprio modelo teórico
do pensamento metafísico. Afinal, o anseio por determinar teórico e
categoricamente aqueles que representariam os termos reais da verdade de tal
ente
não significa outra coisa senão aquilo que Heidegger (1993, p. 27)
parafraseando Aristóteles chama de “Luta de gigantes em torno das essências”.

Resta, ainda, como
próximos passos da pesquisa buscaremos esclarecer o que teria acarretado as ambigüidades, (DREYFUS, 1983,
p.285) deficiências ou descuido (em torno da apreensão do modo com que os
entes em geral são apresentados em um contexto de uso) que teria dado origem ao
conhecimento teórico e ao conseqüente modelo da metafísica, como modo derivado
de conhecimento do mundo.

Referências
Bibliográficas

HEIDEGGER,
Martin. Sein und Zeit. Tübingen,
Max Niemeyer Verlang, 13a edição. 1976.

_________. Ser
e Tempo, vol. I e II
, Trad. de Marcia de Sá Cavalcante. Petrópolis, Vozes,
4ª edição, 1993.

BORNHEIM, Gerd.
A. Dialética: Teoria e Prática. Porto Alegre, Globo, 1977.

DREYFUS, H. L. Being-in-the-World: A Commentary on Heidegger’s
‘Being and Time’
, Division I, Cambridge, Mass MIT Press, 1991.

__________. De la technè à la technique. In Cahier de l’Herne. Martin Heidegger. Paris, L’Herne,1983.
pp.285-304.

FIGAL, Günter. Heidegger zur Einführung. Hamburg,
Junius, 1992.

KAHLMEYER-MERTENS,
R. S. Análise Estrutural do Cuidado Na Analítica Existencial de Martin
Heidegger.
Rio de Janeiro: UERJ/IFCH, 2003 (Dissertação, Mestrado em
Filosofia)

RICHARDSON. William. Heidegger: Throught
Phenomenology to Thought
.
Martinius, Nijhoff, Haia,
Holand, 1967.


[1] Doutorando em Filosofia pela Universidade do Estado
do Rio de Janeiro/UERJ, Professor na Faculdade de Formação de Professores da
UERJ e da Professor da Universidade Cândido Mendes/UCAM. Autor de Filosofia
Primeira – Estudos sobre Heidegger e outros autores.

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