DO HOMEM
Bruyère
Tradução de Brito Broca e Wilson Lousada. Fonte: Clássicos Jackson
Não nos irritemos contra os homens por vermos sua dureza, sua ingratidão, sua injustiça, seu orgulho, seu amor de si mesmos e seu desinteresse pelos outros; são assim feitos, por natureza. Não os aceitar, como são, seria o mesmo que não poder admitir que a pedra cai e que o fogo se eleva no ar.
* Os homens, em certo sentido, não são levianos, ou não o são senão nas pequenas coisas: mudam as roupas, a linguagem, as exterioridades, as conveniências, e mudam, algumas vezes, de gostos; mas não mudam nunca seus costumes, sempre maus; firmes e constantes no mal, ou na indiferença pela virtude.
* O estoicismo é um jogo do espírito e uma idéia semelhante à república de Platão. Os estóicos fingiram que podiam rir na pobreza, ser insensíveis às injúrias, à ingratidão, às perdas de quaisquer bens, como às dos parentes e dos amigos; encarar friamente a morte, como coisa indiferente que não os devia alegrar nem entristecer ; não se deixar vencer nem pelo prazer nem pela dor, sentir o ferro e o fogo, aplicados no próprio corpo, sem soltar um grito nem uma lágrima; e este fantasma de virtude e de constância, assim imaginado, foi por eles chamado um homem de sabedoria. Deixaram ao homem todos os defeitos que nele encontraram e não lhe revelaram quase nenhuma das suas fraquezas: em vez de fazerem dos vícios do homem um quadro terrível ou ridículo, com a idéia de os corrigir, deram ao homem a idéia de uma perfeição e de um heroísmo de que ele não é capaz, exortando-o ao impossível 11. Assim, o homem sábio, que não existe, ou que apenas é uma entidade imaginária, coloca-se naturalmente, e por si mesmo, acima de todos os acontecimentos e de todos os males: nem o mais doloroso ataque de gota, nem a mais aguda eólica lhe conseguiriam arrancar uma lamentação; o céu e a terra poderiam vir abaixo sem que ele os acompanhasse na queda, ficando firme sobre as ruínas do universo; enquanto isto, o homem que realmente existe perde o juízo, grita, desespera-se, faz sair lume pelos olhos, perde a respiração só porque um cachorro se perdeu ou porque uma porcelana se quebrou em pedaços.
* Inquietação de espírito, desigualdade de humor, inconstância de coração, incerteza de conduta. São todos vícios da alma, mas diferentes, e, apesar das relações que parecem existir entre eles, uns não fazem supor os outros no mesmo indivíduo.
* É difícil decidir se a irresolução torna o homem mais desgraçado do que desprezível: e, do mesmo modo, se há maior inconveniente em tomar um mau partido do que em não tomar nenhum.
* Um homem desigual não é um só homem, mas vários ; multiplica-se tantas vezes quantas muda de gostos e de maneiras, e é, assim, a cada momento, o que não era antes, e vai ser no momento seguinte o que nunca foi: sucede-se a si mesmo, como uma série de homens; e que ninguém pergunte como ele é, mas quais são as várias formas complexas de seu caráter, nem qual é o seu humor, mas de quantos humores diferentes ele é capaz. Será possível que seja Eutícrates este, de quem nos aproximamos? Não estaremos enganados? Hoje, que frieza a sua para conosco! E, ontem, era ele que nos procurava, que nos acarinhava, que conosco fazia ciúmes aos outros seus amigos. Será mesmo que ele nos reconhece? Não será o caso de lhe dizermos o nosso nome?
* Menalco 12 desce a escada, abre a porta para sair e fecha-a atrás de si; é quando se apercebe de que está ainda com o barrete de dormir, só tem metade da barba feita, tem a espada do lado direito, as meias caídas sobre os sapatos e a camisa de dormir até aos pés. Andando nas ruas, sente de repente uma. pancada no estômago ou na cabeça, sem ter a menor idéia do que possa ter sucedido, e só então, abrindo os olhos e acordando, de vez, compreende que está na frente do varal de uma carroça ou detrás de uma longa, prancha de madeira que vai à cabeça de um homem. Certa vez, foi visto bater com a cabeça na cabeça de um cego, tropeçar nas pernas do homem e cair com ele no chão, cada um para seu lado; e muitas vezes lhe sucedeu dar de cara com um príncipe, barrando-lhe a passagem, e apenas ter tempo para o reconhecer e se colar à parede cedendo-lhe o lugar. Sempre está procurando alguma coisa, misturando tudo, gritando, encolerizando-se, chamando todos os criados, uns atrás dos outros: desarrumam-lhe tudo, perdem-lhe tudo; reclama as luvas, quando as tem calçadas, parecendo-se neste ponto com aquela mulher que perdia tempo a pedir a máscara quando a tinha posta no rosto. Ao entrar numa sala, passa debaixo de um lustre ao qual se lhe prende a cabeleira, que fica suspensa no ar; todos os cortesãos o olham, e gritam e riem: Menalco olha para todos os lados e ri, ainda mais alto que os outros, procurando em toda a assembléia onde está aquele que tem as orelhas à mostra e que perdeu a cabeleira. Se vai andando pela cidade, depois de ter feito um trecho de caminho, crê de repente que se perdeu, aflige-se, pergunta aos que passam onde está e sabe por eles que está precisamente na rua onde mora: entra então em casa, mas logo sai precipitadamente crendo que entrou por engano numa casa que não é a sua. Desce do Palácio e, encontrando em baixo uma carruagem, toma-a pela sua e meto-se dentro; o cocheiro, pensando que conduz o patrão, segue para casa; Menalco chega, desce da carruagem, atravessa o pátio da casa, sobe as escadas, entra na antecâmara, atravessa o quarto e o gabinete; tudo se lhe afigura familiar, nada lhe parece estranho: senta-se, repousa, acha-se em sua casa; aparece-lhe, por fim, o dono da casa e Menalco levanta-se para o receber, trata-o com a maior civilidade, pede-lhe que se sente e crê estar fazendo as honras da casa; fala, cala-se, para seguir em silêncio seus próprios pensamentos; volta a falar; o dono da casa começa a aborrecer-se e está admirado de tudo aquilo; Menalco, por seu lado, não o está menos e não sabe o que há-de pensar; pensa que está às voltas com um importuno, com um ocioso que, por fim, se retirará; e espera, e enche-se de paciência; mas chega a noite e ele ainda não está certo do que deve pensar. Outra vez, Menalco vai visitar uma dama; mas, persuadindo-se de que é ela que está de visita em casa dele, instala-se confortavelmente numa poltrona, disposto a esperar; pouco depois pensa que a dama faz visitas bem demoradas, o espera a todo o momento vê-la levantar-se e deixá-lo em paz; mas, como a coisa vai continuando e não pode mais suportar a fome com que está, convida-a a jantar; é então que ela ri, e ri tão alto, que finalmente ele acorda. Com ele sucedem destas coisas: casa-se de manha, à noite já o esqueceu, e passa fora de casa a noite de núpcias; alguns anos mais tarde, tendo-lhe morrido a mulher nos braços, assiste ao enterro e, no dia seguinte, quando o criado lhe vem dizer que o almoço está na mesa, pergunta se a senhora está pronta e se já a foi chamar. É o mesmo que, entrando numa igreja, e tomando um cego que está à porta por um dos pilares da igreja, e a taça que ele tem na mão por uma pia de água benta, mete nela a mão e leva a mão à fronte, ficando muito surpreendido quando ouve a voz do pilar da igreja oferecendo-lhe as suas orações : entra, a seguir, na nave da igreja e, crendo ver a seus pés um genuflexório, deixa-se cair de joelhos sobre ele, pesadamente; a coisa, porém, cede sob o peso e tenta gritar; Menalco surpreende-se então ajoelhado sobre as pernas de um pobre homem, inclinado para a frente sobre o homem, com os braços apoiados nos ombros da criatura e as mãos juntas, na frente, tapando-lhe o nariz e a boca; retira-se, confuso, e vai ajoelhar-se noutro lugar, mais próprio; e, crendo tirar do bolso o livro de orações, vê que trouxe um chinelo, em vez do livro, e que por certo fez a troca em casa, sem dar por isso; mal chega fora da igreja, corre atrás dele um lacaio que, chegando-se a ele, lhe pergunta, rindo, se por acaso não vai levando consigo o’ chinelo de Monseigneur, ao que Menalco responde, mostrando-lhe o chinelo que tem: Aqui estão todos os chinelos que trago comigo; mas, procurando melhor, acaba descobrindo a par do seu chinelo, um chinelo do bispo de *** que ele tinha ido visitar, pouco antes, e encontrara doente, ao pé do fogo, tendo, ao retirar-se, apanhado o chinelo do bispo quando julgava apanhar uma de suas luvas que tinha caído no chão; e assim Menalco ao voltar a casa trazia um chinelo de menos. Tendo certa vez perdido ao jogo todo o dinheiro que tinha na bolsa, e querendo continuar a jogar, entra em seu escritório, abre um armário e dele tira a caixa do dinheiro, onde toma o que quer, julgando ter tornado a fechar a caixa dentro do cofre; mas ouve ladrar dentro do armário e espantado com o prodígio abre outra vez o cofre, e larga-se a rir, vendo que tinha fechado no armário o cachorro, em vez da caixa. Estando a jogar o tric-trac, pede de beber, e quando lhe trazem o copo, segura-o numa das mãos, enquanto com a outra segura o copo dos dados, e, como tem muita sede, engole os dados e lança a água do copo em cima da mesa do tric-trac, inundando o parceiro do jogo. Num quarto, onde é familiarmente recebido, cospe no leito e atira o chapéu para o chão, julgando fazer exatamente o contrário. Num passeio no rio, pergunta as horas que são, e quando lhe passam o relógio, para certificar-se, não pensando mais nas horas nem no relógio, joga-o ao rio como coisa que o está incomodando. Escreve uma carta, espalha por cima o pó de secar a tinta e volta a guardar o pó, repetindo isto váris vezes; depois, escreve outra carta e, tendo fechado as duas com o sinete, troca os endereços: um duque e par do Reino recebe uma das cartas e, ao abri-la, lê estas palavras: "Mestre Olivier, não deixe, logo que receber a presente, de me mandar uma provisão de feno…" Ao mesmo tempo, o seu granjeiro recebe a outra carta, que faz ler por alguém, e ouve atônito: "Monseigneur, recebi com uma submissão cega as ordens que aprouve a Vossa Grandeza..." É ainda ele que, tendo escrito uma carta, de noite, apaga a vela, quando acaba de a lacrar, e fica sem saber porque ficou escuro de repente. Menalco desce as escadarias do Louvre, cruza com alguém que sobe, e diz-lhe: Era o senhor que eu procurava; pega-lhe na mão, força-o a descer as escadas, atravessa vários pátios do palácio, entra nas salas e torna a sair, vai e volta, e, por fim, reparando na pessoa que vem atrás de si há um quarto de hora, solta-lhe a mão, volta-lhe as costas e vai embora. Muitas vezes, faz uma pergunta e quando o interlocutor se prepara para lhe dar a resposta, já ele está longe; ou então, tendo perguntado: "Como vai seu pai?" quando o outro responde que "está passando muito mal", grita-lhe, de longe, que "muito estima"/ ou ainda, se encontra um conhecido, diz-lhe que estima muito encontrá-lo, e que nesse mesmo instante vem de procurá-lo em casa para um assunto importante, e logo depois, reparando-lhe no anel, diz-lhe que é um lindo rubi e pergunta-lhe se é dos róseos-violáceos, e segue o seu caminho, deixando de falar no tal assunto importante de que queria tratar. Estando no campo, diz a um que é feliz em ter podido fugir da corte durante o outono e passar no campo toda a época em que a corte está em Fontainebleau; para outros tem outras conversas; e, depois, voltando ao primeiro diz-lhe que certamente terá passado belos dias em Fontainebleau e terá caçado muito. Começa em seguida uma nova conversa que não chega a acabar, e fica rindo para si, de alguma coisa que lhe passa pela idéia, diz qualquer coisa em resposta ao seu próprio pensamento e que ninguém compreende, canta e assovia entre dentes, recosta-se numa cadeira, solta uma espécie de suspiro, boceja, crê que está só. Quando toma parte num jantar, amontoa pedaços de pão no seu prato ao mesmo tempo que os outros convidados vão ficando sem a sua parte e sem os garfos e as facas, cujo uso ele lhes não permite por muito tempo. Há sobre a mesa uma grande colher, para maior comodidade do serviço; é certo que ele a toma, mete-a no prato e leva-a à boca, como se fosse a sua, e não atina com a razão por que lhe. escorre a sopa da boca, para a camisa e para a roupa. Esquece–se de beber durante todo o jantar; ou quando se lembra, e vê que o copo que lhe deram tem muito vinho, derrama metade para o lado, em cima do vizinho, e bebe o resto, tranqüilamente, sem perceber por que se riem, só porque deita fora o que acha que é demais. Certo dia, quando se acha retido em casa por alguma pequena indisposição e recebe uma distinta roda de homens e damas, ao lado do leito, em dado momento levanta as cobertas e cospe dentro dos lençóis. Levam-no ao mosteiro dos Chartreux e mostram-lhe um claustro ornado de pinturas, de célebre pintor; o religioso que serve de cicerone conta a história de S. Bruno, do cônego e de sua aventura e mostra o quadro onde a história está reproduzida: Menalco, que, entrementes estivera fora do claustro, entra novamente nesse momento e pergunta ao religioso se quem se danou foi S. Bruno ou o cônego. Encontrando-se com uma jovem viúva, fala-lhe do defunto marido e pergunta-lhe como foi que ele morreu; a dama que, ao falar neste assunto, volta a sentir as dores da sua viuvez, chora e soluça, e não esquece nenhum dos pormenores da doença de seu querido morto, desde o dia em que caiu doente até à agonia. E Menalco, que na aparência a tinha escutado com toda a atenção, pergunta-lhe no fim: "E a Senhora só tinha esse?" Lembra-se certo dia de pedir o jantar mais cedo e, por ser grande a pressa, levanta-se da mesa antes de comer a fruta e despede-se de todos; mas nesse dia é ele visto na cidade, em todos os lugares, menos naquele onde teria marcado o encontro que o impediu de jantar vagarosamente e que o fez sair a pé mesmo sem ter esperado a carruagem, com medo de faltar ao encontro. Por vezes grita, ralha, irrita-se desmedidamente com um dos criados; não pode compreender onde ele possa estar: que estará ele fazendo? que terá sido feito dele que não se apresenta quando é chamado? e faz o propósito de o despedir imediatamente. É quando o criado aparece e ele lhe pergunta altivamente por onde andou; e então o criado lhe responde que veio do lugar onde ele o mandou e dá-lhe exacta conta do recado que levou. A vê-lo como ele é, todos o tomariam por aquilo que não é: por estúpido, porque nunca ouve o que lhe dizem e mal responde ao que lhe perguntam; por louco, porque, além de que fala sozinho, tem às vezes certos cacoetes e movimentos involuntários da cabeça; por orgulhoso e incivil, porque, se é cumprimentado, passa sem olhar ou, se olha, passa sem retribuir o cumprimento; por inconsiderado, porque fala de falência em casa de família onde há esta, pecha, de execução e de cadafalso, a um homem cujo pai foi executado, de plebeísmo diante de plebeus que enriqueceram e querem fazer-se passar por nobres. Do mesmo modo, tendo decidido criar junto de si um filho natural, sob o nome e as aparências de um criado, como os outros, e querendo esconder a existência desse filho aos olhos da esposa, e dos filhos legítimos, é certo que, dez vezes por dia, lhe dará o nome de filho, sem pensar no que diz; e, tendo formado a resolução de casar um filho com a filha de certo homem de negócios, não deixará de dizer de vez em quando, falando de sua casa e de seus antepassados, que nunca os Menalcos fizeram ou seriam capazes de fazer um casamento com pessoa que não fosse da sua classe. Enfim, nunca está presente, nem atento ao que se diz, no grupo onde se conversa: pensa e fala ao mesmo tempo, mas aquilo de que fala muito raramente é aquilo em que está pensando, de modo que o que diz é inconseqüente e sem sentido; onde diz não, muitas vezes deve ser sim, e quando diz sim pode-se estar certo de que quer dizer não; enquanto nos dá estas respostas, tem os olhos bem abertos, mas a verdade é que não se serve deles e não está vendo a quem fala, nem ninguém, nem coisa nenhuma; e o mais que nestas condições é possível tirar dele, e isso mesmo quando está mais disposto e mais comunicável, são expressões como estas: ”Sim; na verdade; é isso; bem! deveras? certo que sim; penso que sim; certamente; vejam só!" e alguns outros monossílabos que nem sequer são empregados a propósito. Nunca está com quem parece estar: com o maior sério deste mundo, trata o lacaio por senhor; e a um amigo dá-lhe o nome do lacaio; diz Vossa Reverência dirigindo-se a um príncipe de sangue e falando a um jesuíta diz Vossa Alteza. Ouvindo missa, se acaso o padre espirra, saúda-o, de longe: "Deus o salve!" No encontro com um magistrado, homem grave por seu caráter, venerável por sua idade o dignidade, quando este o interroga sobre certo acontecimento e lhe pergunta se foi bem assim, Menalco responde: "Sim, senhorita". Uma vez, no caminho para a cidade, de volta da casa de campo, seus próprios criados fazem o projeto de o roubar e põem-no em execução; descem da carruagem, aproximam-lhe um archote dos olhos e exigem dele que entregue a bolsa, o que ele faz; chegado a casa, põe-se a contar a aventura a alguns amigos, e quando estes lhe pedem mais pormenores, diz-lhes que perguntem aos criados que assistiram a tudo.
* A incivilidade não é um vício da alma; é o efeito de muitos vícios, da tola vaidade, da ignorância dos próprios deveres, da estupidez, da distração, do desprezo pelos outros, da inveja: pelo facto de se manifestar exteriormente é ainda mais odiosa, porque é sempre um defeito visível e manifesto; é verdade, entretanto, que ofende mais ou menos conforme a causa que o determina.
* Dizer de um homem colérico, desigual, amigo de questões, enfadado, niquento, caprichoso, que ele tem mau humor, não é desculpá-lo, como se julga, mas, pelo contrário, reconhecer, sem dar por isso, que tão grandes defeitos são sem remédio.
O que se chama humor é uma coisa a que poucos homens ligam a verdadeira importância; os homens deveriam compreender que não é bastante ser bom, ma.s que é ainda preciso parecê-lo, ao menos se pretendem ser sociáveis, capazes de união com os outros, e de relações com eles, isto é, verdadeiramente homens. Não se exige, decerto, das almas que propendem para o mal que tenham doçura e condescendência; é coisa que nunca lhes falta e que empregam sempre como armadilha para surpreender a boa-fé dos simples e fazer valer seus próprios artifícios; o que seria para desejar é que os que têm bom coração se rendessem às razões dos outros e fossem fáceis e complacentes, para que fosse menos vezes verdade que são os maus que fazem mal, mas que são os bons que fazem sofrer.
* O comum dos homens passa da cólera à injúria: outros, entretanto, procedem de outro modo: ofendem, o zangam-se depois; a surpresa que sempre nos faz este procedimento não deixa lugar ao ressentimento.
* Homens há que não se empenham suficientemente em não perder uma ocasião de ser agradável aos outros: parece que não se toma um emprego senão para poder servir alguém, e, entretanto, para sempre deixar de fazê-lo ; a resposta mais pronta e que sempre vem em primeiro lugar é a recusa, e só por reflexão, às vezes, se faz uma concessão.
* Tratai de saber, primeiro, exatamente, o que podeis esperar dos homens, em geral, e de cada um deles em particular, e só depois deveis tomar lugar na sociedade dos homens.
* Se é que a pobreza é mãe dos crimes, o vício do espírito é o pai.
* É difícil que um homem mau tenha bastante espírito : um espírito reto e penetrante conduz finalmente à regra, à probidade, à virtude; pelo contrário, há falta de senso e de penetração em quem teima no que é mau e falso; em vão se tenta corrigi-lo com ditos e remoques, porque todos vêem que lhe são dirigidos e só ele não se dá por achado: são injúrias atiradas a um surdo. Seria bom, para satisfação das pessoas de bem e das exigências públicas, que um patife nunca o fosse a ponto de se ver privado de todos os sentimentos.
* Há vícios que não nos vêm de ninguém, que já trazemos ao nascer e que tornamos cada vez mais fortes pelo hábito; há outros, porém, que são em sociedade e que são estranhos à nossa natureza; nasce-se muitas vezes com um caráter fácil, complacente e cheio do desejo de agradar; mas, pelo tratamento que recebemos das pessoas com quem vivemos, ou de quem dependemos, depressa nos sentimos fora do nosso natural e da nossa justa medida; mal nos reconhecemos, então, com nosso mau humor e modo enfadado, achamo-nos de outro feitio e admirados de sermos nós mesmos, assim duros e cheios de espinhos.
* Há quem pergunte por que todos os homens não compõem uma só nação e não quiseram falar uma mesma língua, viver sob as mesmas leis, concordar nos mesmos usos e na celebração de um mesmo culto; por minha parte, pensando em como são diferentes e contrários os espíritos dos homens, o que me admira é ver que sete ou oito pessoas chegam a juntar-se sob o mesmo teto, numa mesma casa, compondo uma só família.
* Há pais cuja vida estranha parece somente ocupada em preparar, para os filhos, razões com que se consolem de sua morte.
* Tudo é estranho ao homem nos costumes, nas maneiras e na disposição de espírito com que se adapta à vida. Tal homem que viveu a vida inteira de mau modo, irritado, avaro, submetido, humilhado, escravo do trabalho e do lucro, nasceu, entretanto, com disposições para ser alegre, gozador da paz de espírito e do descanso, magnífico, de uma coragem altiva e alheio a qualquer espécie de baixeza: as necessidades da vida, porém, a situação em que se encontrou, as leis da necessidade, enfim, forçaram-lhe a própria natureza e causaram-lhe todas essas mudanças. Assim, esse homem, no fundo, e em si mesmo, não se pode definir: muitas coisas estranhas a ele o alteram, o modificam, o desconcertam. Ele não é precisamente o que é ou o que parece ser.
* A vida é curta e cheia de aborrecimentos; passamo-la quase toda a desejar o que não temos; adiamos sempre para mais tarde o repouso e alegria que cada um se promete, para uma idade, muitas vezes, em que já desapareceu o que há-de melhor na vida, a saúde e a juventude. Mas chega esse tempo esperado e encontramo-nos ainda com os mesmos desejos: e vem então a doença que toma conta de nós e nos leva; mas, se tivéssemos escapado, seria apenas para continuar a desejar, mais algum tempo.
* Quando deseja, o homem rende-se sem condições à pessoa de quem espera o que deseja: mas, estando seguro de conseguir, já entra em ajuste, ganha tempo, ou capitula.
* Está tão habituado o homem a não ser feliz, e é tão essencial que tudo que nos dá felicidade só seja conseguido à custa de mil penas, que qualquer coisa que se torna fácil para nós, só por isso, se nos torna suspeita; dificilmente compreendemos que o que nos custa pouco nos possa ser precioso, ou que, por caminhos justos, possamos atingir sem dificuldade aquilo que desejamos: dispomo-nos a acreditar que merecemos os bons êxitos que alcançamos, mas entendemos que não devemos contar com eles" senão raramente.
* O homem que se queixa de não ter nascido feliz podia, ao menos, tornar-se feliz compartilhando da felicidade de seus amigos e das pessoas que lhe são chegadas. É a inveja que não deixa que ele se aproveite deste último recurso.
* Seja o que for que eu tenha, dito, noutro lugar, é possível que os que se queixam não tenham razão: os homens parecem ter nascido para o infortúnio, a dor e a pobreza; poucos escapam a esta sina; e como, pois, devem esperar todas as desgraças, devem estar preparados para recebê-las.
* Custa tanto aos homens entenderem-se sobre seus negócios, são tão susceptíveis em matéria de interesses, por menores que sejam, tão prontos a fazerem dificuldades, querem tanto enganar os outros, quanto querem não ser enganados, dão tanto valor ao que têm, e tão pouco ao que é dos outros, que confesso não sei como se podem, mesmo assim, concluir os casamentos, os contratos, as compras, a paz, as tréguas, os tratados, as alianças.
* Para muitos, a arrogância faz as vezes de grandeza; a desumanidade, de firmeza, e a velhacaria, de prova de espírito.
Os velhacos crêem, facilmente que os outros também o são; se poucas, vezes podem ser enganados, também por pouco tempo podem enganar os outros- Sempre de boa vontade pago o preço de não ser velhaco, mesmo à custa de ser estúpido e de passar por tal.
Nunca se enganam os outros, por bem; sempre a velhacaria junta à mentira a maldade.
* Se houvesse menos pessoas para se deixarem enganar, haveria menos desses homens que passam por espertos ou entendidos, dessa espécie de homens que consideram uma vaidade ou distinção terem sabido, durante toda a vida, enganar os outros. Como se há-de querer que Erófilo, ao qual a falta de palavra, as más ações, a velhacaria, longe de o prejudicarem, sempre lhe valeram favores e benefícios daqueles mesmos a quem ele faltou com seus serviços, não tenha uma excelente opinião de si mesmo e da indústria a que se dedica?
Não se ouve outra coisa, nas ruas e nas praças das grandes cidades, da boca dos que passam, senão as palavras : citação, arresto, interrogatório, ajuste, demanda por quebra de ajuste; será que não há no mundo a menor dose de equidade? ou será que o mundo é só povoado de gente que friamente exige o que lhe não pertence ou que se recusa abertamente a entregar o que é dos outros?
Documentos escritos, especialmente feitos para que os homens se lembrem ou se convençam da palavra dada, são uma vergonha da humanidade! Ponham-se fora as paixões, o interesse, a injustiça, e só haverá calma nas grandes cidades. As necessidades e as subsistências não entram nem por um terço na agitação das cidades.
* Não há nada para levar um espírito razoável a suportar serenamente de parentes e amigos os agravos de que eles se tornaram culpados relativamente à sua pessoa, como a reflexão que pode fazer sobre os vícios da humanidade considerando como é custoso ao homem em geral ser constante, generoso, fiel, deixar-se tomar por uma amizade que seja mais forte que o interesse; conhecendo seus limites, já não exigirá dos homens que sejam capazes de atravessar os corpos, ou que voem nos ares, ou que mostrem equidade: pode então odiar os homens em geral, que mostram tão pouca virtude, mas desculpará aqueles que conhece, e mesmo poderá amá-los por motivos mais altos, procurando, por sua vez, merecer o menos possível igual indulgência da parte dos outros.
* Há certos bens que se desejam com fúria, e cuja idéia, só por si, nos arrebata e nos transporta; se, porém, chegamos a obtê-los, gozamos deles com maior calma do que teríamos pensado, e, mesmo, ocupamo-nos menos de gozá-los do que de desejar outros ainda maiores.
* Há males terríveis, e horríveis desgraças, em que mal ousamos pensar e cuja idéia basta para nos fazer estremecer; mas, se sucede que eles cheguem, descobrimos em nós recursos com que não contávamos para nos erguermos contra o infortúnio, e, nessa matéria, fazemos muito melhor do que teríamos pensado.
* Basta muitas vezes uma bonita casa que nos chega por herança, um belo cavalo, um bonito cão de que nos tornamos dono, e, menos ainda, uma tapeçaria ou um relógio de sala, para adoçar uma grande dor e «para nos" fazer sentir menos uma grande perda.
* Imagino, às vezes, que os homens se tornariam eternos sobre a terra: saberiam eles aproveitar melhor o seu estado do que o fazem agora em sua condição mortal ?
* Se a vida é miserável, é extremamente custoso suportá-la; se é feliz, custa horrivelmente perdê-la: assim, tanto faz, afinal, uma coisa como outra.
* Não há nada de melhor, que os homens tenham a conservar, do que a própria vida, e é justamente aquilo que eles menos poupam enquanto vão vivendo.
* Irene,13 transporta-se, com grandes despesas, a Epidauro, na Argólida, para ver Esculápio, em seu templo, e consultá-lo sobre seus males. Primeiro, queixa-se de que se sente abatida e cheia de fadiga, e o deus, era sua sabedoria, pronuncia o oráculo: isso é devido à grande viagem que acaba de fazer; depois, queixa-se ela de que ao jantar não tem apetite, e o deus ordena-lhe que coma pouco; acrescenta que é sujeita a insônias e ele prescreve-lhe que não deve deitar-se na cama senão à noite para dormir; pergunta ela por que será que se sente assim pesada, e qual será o remédio, e o oráculo responde que ela deve levantar-se antes do meio-dia e fazer uso das pernas para dar uns passeios; informa ainda que o vinho lhe faz mal, e o oráculo diz-lhe que beba água; que tem indigestões, ao que ele responde que faça dieta; que a vista se lhe vai tornando fraca, diz ela, que use lunetas, diz o Esculápio; que ela própria está enfraquecendo, continua, e que não é mais como era, forte e com saúde; é, diz o oráculo, porque está envelhecendo. Mas qual será o meio de se curar deste abatimento? O mais certo, Irene, será morrer, como o fizeram vossa mãe e vossa avó. — "Filho de Apoio, como pode ser que me deis semelhante conselho? Reduz-se a isso toda essa ciência que os homens proclamam e é razão da fama com que vos veneram em todo o mundo? que me ensinastes, de raro e misterioso, que eu não soubesse já, antes de aqui ter vindo, se já sabia todos esses remédios de que me falais?" E então, responde-lhe o deus: "Por que os não usastes antes de me terdes vindo procurar aqui tão longe, encurtando assim os dias que ainda vos restam com uma tão longa viagem?"
* A morte só chega uma vez, mas faz-se sentir a todos os momentos da vida: e é mais difícil suportar a apreensão da morte do que a própria morte.
* A inquietude, o receio, o desalento não afastam a morte, pelo contrário: apenas duvido que o riso excessivo convenha aos homens, que todos afinal, são mortais.
* O que há-de certo na morte apenas é suavizado pelo que nela há-de incerto; é alguma coisa de indefinido, no tempo, que tem qualquer coisa do infinito e do que nós chamamos eternidade.
* Pensemos que, assim como suspiramos no presente pela florescente juventude passada, e que não volta mais, mais tarde virá a idade caduca que nos fará lembrar com saudades a idade viril, em que estamos agora e a que não ligamos todo o interesse que ela merece.
* Os homens receiam a velhice, que, entretanto, não estão certos de chegar a atingir.
* Alimenta-se a esperança de envelhecer, ao mesmo tempo que se teme a velhice; quer isto dizer que se ama a vida e se foge da morte.
* É mais fácil ceder à natureza e temer a morte, do que fazer contínuos esforços e armar-se de razões e de reflexões, e estar continuamente em luta consigo m,esmd, para chegar a não a temer.
* Se de entre todos os homens uns morressem, e outros não, morrer seria então uma desoladora aflição.
* As longas doenças parecem estar colocadas entre a vida e a morte, a fim de que a própria morte venha como um alívio, tanto para os que morrem como para os que ficam.
* Falando no sentido humano, a morte tem um lado bom, que é de pôr fim à velhice.
* A morte que evita a idade caduca vem mais a propósito do que a morte que lhe põe termo.
* A pena com que os homens vêem o mau emprego que fizeram do tempo que já viveram nem sempre os leva a viverem melhor o tempo que ainda lhes resta para viver.
* A vida é um sono: os velhos são aqueles que tiveram um sono mais longo; só começam a acordar na hora em que é forçoso morrer; se rememoram então toda a história de sua vida, nela não encontram, muitas vezes, nem virtudes, nem ações louváveis que os distingam dos outros; confundem, na idéia, todas as idades por que passaram, não vendo nada de extraordinário que sirva para medir o tempo que viveram: a vida foi um sonho confuso, informe, e sem seqüência; sentem, entretanto, ‘ — como aqueles que acordam de um sono, — que dormiram muito tempo.
* Só contam para o homem três acontecimentos: nascer, viver, morrer: ele, porém, não se sente nascer, sofre por ter de morrer e esquece-se de viver.
* Há um tempo em que a razão não trabalha ainda, em que se vive pelo instinto, à maneira dos animais, e esse tempo não deixa na memória nenhum vestígio; há, depois, um tempo em que a razão se desenvolve, e se forma, e em que poderia agir, se não fosse obscurecida e como extinta, pelos vícios do nosso feitio e por um encadeamento de paixões que se sucedem umas às outras e conduzem à terceira e última idade do homem. A razão, que está então em plena força, devia produzir tudo que dela se espera; mas é quando ela começa, a arrefecer e a afrouxar pelos anos, pela doença e pela dor, desconcertada finalmente pela desordem da máquina que chega ao seu declínio: e é destes tempos, assim mesmo, que é feita a vida do homem.
* As crianças são altivas, desdenhosas, coléricas, invejosas, curiosas, interesseiras, preguiçosas, volúveis, tímidas, intemperantes, mentirosas, dissimuladas; riem e choram facilmente; têm alegrias imoderadas e aflições amargas, a propósito de pequenos motivos; não querem que lhes façam mal e gostam de o fazer aos outros: são já como os homens.
* As crianças não têm passado nem futuro; mas têm o que não sucede conosco, quase nunca: aproveitam e gozam o presente.
* O caráter da infância parece o mesmo em todas as crianças: os costumes, nessa idade, são aproximadamente os mesmos, e só com curiosa atenção é possível notar-lhes a diferença; esta aumenta com a razão, porque com esta crescem as paixões e os vícios, que lutam contra ela, e que são as únicas coisas que tornam os homens tão dissemelhantes entre eles e tão contrários a si mesmos.
* As crianças logo têm, das faculdades de sua alma, a imaginação e a memória, quer dizer, o que os velhos já não têm; e delas sabem fazer uso maravilhoso em seus pequenos jogos e divertimentos: é por meio delas que repetem o que ouviram dizer, alteram o que viram fazer, dão-se a todos os ofícios, seja ocupando-se efetivamente de mil pequenas obras, seja imitando simplesmente os diversos ofícios, pelo movimento e pelo gesto ; é ainda pela imaginação e pela memória que estão presentes a grandes festas e aí satisfazem sua gulodice; transportam-se para dentro de grandes palácios e de lugares encantados; ainda que estejam sós, se vêem seguidas de grande séquito, em longo cortejo; conduzem exércitos ao combate, e ganham batalhas, sentindo o prazer da vitória, falam aos reis e aos mais altos príncipes ; são elas próprias os reis, e têm seus súbditos, e possuem tesouros que podem fabricar, de pronto, com folhas de árvores ou grãos de areia; e, o que vêm a ignorar mais tarde, sabem, nessa idade, ser os árbitros de sua sorte e os senhores da sua própria felicidade.
* Não há imperfeições exteriores nem defeitos do corpo que não sejam vistos pelas crianças que deles se dão conta ao primeiro relance e os sabem designar pela palavra exata, não havendo quem melhor encontre a expressão conveniente: mais tarde, quando são homens, manifestam as mesmas imperfeições de que antes se riram.
Toda a atenção das crianças se concentra em encontrar o ponto fraco de seus mestres e de todas as pessoas a que se acham submetidas: logo que conseguem seu primeiro triunfo, fazem disso sua superioridade e tomam sobre as pessoas crescidas um ascendente a que nunca mais renunciam. O que, uma primeira vez, nos faz decair da nossa superioridade, como a vêem as crianças em nós, é o que para sempre nos impede de a readquirir.
* A preguiça, a indolência e a ociosidade, defeitos tão naturais nas crianças, desaparecem em seus jogos, onde elas se mostram vivas, aplicadas, exatas, amigas da regra e da simetria, não se perdoando umas às outras nenhuma falta, e recomeçam muitas vezes a mesma coisa, porque a não fizeram bem feita: presságio certo de que, mais tarde, poderão descuidar-se de seus deveres, mas nunca terão o menor descuido em tudo que se refere aos seus prazeres.
* Às crianças tudo parece grande, os pátios, os jardins, os edifícios, os móveis, os homens, os animais: aos homens também as coisas do mundo parecem grandes, e ouso dizer que pela mesma razão, porque são pequenos.
* As crianças começam convivendo em regime popular, em que cada um é senhor, mas, como é natural, não se acomodam muito tempo com isto, e passam ao regime monárquico: alguém se distingue entre os demais, ou por sua maior vivacidade, ou por uma melhor disposição física, ou por um conhecimento mais exato dos diferentes jogos e das pequenas regras que os regem; as outras crianças, então, concedem-lhe a primazia e forma-se um governo absoluto cuja única regra é a vontade de quem manda.
* Quem pode duvidar de que também as crianças têm suas concepções e juízos do que se passa com todas elas, e que raciocinam conseqüentemente? Se o fazem somente sobre pequenas coisas, é porque são crianças, e ainda sem grande experiência. E se o fazem em maus termos, a culpa é menos delas do que dos pais e mestres.
* Castigar as crianças por faltas que não cometeram, ou castigá-las severamente por faltas leves, mostrando–nos incompreensivos, é perder toda a confiança que lhes podíamos inspirar: elas sabem muito exatamente, e melhor que ninguém, o que merecem e quase sempre merecem apenas o castigo que esperam; sabem perfeitamente se é com razão ou sem razão que as castigamos, e para estragar uma criança tanto faz um castigo injusto como a impunidade.
* Nunca se vive bastante para chegar a tirar qualquer proveito das faltas cometidas; cometem-se faltas durante toda a vicia, e o mais que se pode conseguir, â força de errar, é morrer corrigido.
* Não há nada para nos dar a idéia de uma vida nova como ter sabido evitar um erro que se ia cometer.
* A confissão das próprias faltas é coisa que custa a todos; todos querem encobri-las atribuindo-as a outrem: é o que faz passar o diretor de consciência à frente do confessor.
* As faltas dos tolos são às vezes tão pesadas e tão difíceis de prever, que colhem os mais sábios de surpresa; e assim não são úteis senão aos próprios que as praticam.
* O espírito de partido rebaixa, os maiores homens às preocupações mesquinhas do vulgar.
* Fazemos por vaidade e para guardar as conveniências as mesmas coisas, e do mesmo modo, que faríamos por inclinação do coração ou por dever: agora, em Paris, houve um homem que morreu da febre que contraiu tratando da esposa, que ele não amava14.
* Os homens em seu íntimo querem ser estimados, mas ocultam com cuidado a vontade que têm de o ser, porque querem passar por virtuosos, e porque tirar da virtude alguma coisa além da própria virtude, isto é, estima e louvores, não é mais ser virtuoso, mas ter amor à estima e aos louvores, ou ser vão, sendo vaidoso; e é certo que os homens são vãos, mas o que mais detestam é passar pelo que realmente são.
* Um homem vaidoso acha proveito em falar bem ou mal de si mesmo; um homem modesto, porém, nunca falará de si.
* O que melhor revela o ridículo da vaidade, e como ela é um vício vergonhoso, é o fato que ela não ousa mostrar-se e se oculta muitas vezes sob aparências contrárias.
* A. falsa modéstia é o último requinte da vaidade; ela faz, decerto, que o homem vão não pareça que o é, e que, ao contrário, se faça valer pela virtude oposta ao vício fundamental de seu próprio caracter15, mas isto não passa de uma mentira. A falsa glória, por sua vez, é o escolho da vaidade: ela faz que queiramos ser estimados por coisas que, em verdade, estão em nós, mas que são frívolas e indignas de qualquer relevo, e assim a falsa glória é um erro.
* Os homens falam de tal maneira sobre o que lhes diz respeito, que espontaneamente não confessam senão pequenos defeitos, e ainda só aqueles que fazem supor, em quem os possui, belos talentos ou grandes qualidades. Assim, os que se queixam de sua falta de memória, pelo prazer de mostrarem que são capazes de muito senso e de bom julgamento mesmo estando eles próprios em causa; os que se deixam gostosamente criticar por sua distração e devaneio, convencidos de que isto corresponde a atribuir-lhes as qualidades de um belo espírito; os que dizem com a maior facilidade que são desajeitados e não sabem fazer nada com as mãos, descontando, em troca da ausência dessas pequenas habilidades, elogiosas alusões aos seus dons de espírito ou aos dons de alma que todos lhe reconhecem; os que fazem a confissão de que são preguiçosos em termos que significam sempre o seu desinteresse e a superioridade de quem já se curou de todas as ambições; os que não se envergonham de seu desleixo com o vestuário, porque esta negligência com as pequenas coisas lhes parece que pode ser tomada por um sinal de sua grande aplicação às coisas importantes e essenciais. Um militar gostará de dizer que foi apenas por excesso de espírito guerreiro, ou por simples curiosidade, que se encontrou um dia na trincheira da linha da frente, ou em qualquer outro lugar dos mais perigosos, sem ter sido mandado e sem estar de guarda; e acrescentará que até foi repreendido, dessa vez, pelo general. Em comparação, vemos às vezes um homem de boa inteligência, ou um sólido talento, que teve a felicidade de nascer com essa prudência que os outros em vão procuram adquirir, que fortificou a tempera de seu espírito por uma grande experiência, a quem o número, o peso, a diversidade, a dificuldade e a importância dos trabalhos ocupam, sem o conseguirem abater, que pela extensão de suas vistas e por sua penetração se torna senhor dos acontecimentos, que, em vez de consultar todas as reflexões que se encontram nos livros sobre o governo e a política, é talvez uma dessas almas sublimes nascidas para reger os outros, e sobre as quais essas reflexões foram feitas, esse, que é desviado, pelas grandes coisas que faz, das belas ou agradáveis que poderia ler nos livros, e que, ao contrário dos outros, nada perde em descrever e folhear, por assim dizer, sua vida e suas ações. Um homem assim pode dizer sem relutância, e sem se expor às censuras, que não conhece livro nenhum e que nunca lê.
* Muitas vezes, queremos esconder nossos fracos, ou diminuir a opinião que eles merecem, por uma confissão espontânea que deles fazemos. Assim, um dirá que é ignorante, quando de fato não sabe nada; outro que é velho, quando já passa dos sessenta anos; e ainda outro que não é rico, quando é realmente pobre.
* A modéstia não existe, ou é confundida com uma coisa inteiramente diferente, se a tomamos por um sentimento interior, que avilta o homem a seus próprios olhos, quando ela é uma virtude sobrenatural que se chama humildade. O homem, por sua natureza, faz altos e soberbos pensamentos de sua própria pessoa, e não pensa de igual modo a respeito de mais ninguém: a modéstia tem por fim fazer que os outros não sofram disso, é uma virtude de exteriorização que regula os olhares, o comportamento, as palavras, o tom de voz, e a maneira exterior de tratar os outros, como se não fosse verdade que o homem não tem os outros em nenhuma conta.
* O mundo está cheio de homens que, fazendo exteriormente e por hábito, a comparação de si próprios com os outros, decidem sempre em favor de seus próprios méritos, e agem em conseqüência.
* Dizeis que se deve ser modesto; as pessoas de bons sentimentos não desejam outra coisa; mas deveis fazer de maneira que os homens não abusem dos que cedem por modéstia e não esmaguem impiedosamente os que se dispõem a transigir.
Diz-se igualmente que é preciso ter hábitos modestos ; as pessoas de real mérito estão inteiramente de acordo com isso: mas o mundo quer adornos, é preciso dar-lhos; é ávido de coisas supérfluas, é preciso mostrar-lhas ; alguns há que não apreciam os outros senão pela camisa que têm vestida ou pela fazenda que usam; e não há muitos que se neguem a estas exigências para se saberem estimados; há mesmo lugares onde é preciso dar nas vistas: de um galão a mais ou de um galão a menos depende sejamos recebidos ou fiquemos fora da porta.
* Nossa vaidade e nossa excessiva estima por nós mesmos leva-nos a suspeitar que os outros nos olham com altivez, o que às vezes é verdade, e muitas vezes não é; uma pessoa modesta não tem esta espécie de susceptibilidade.
* Assim como devemos defender-nos dessa vaidade que nos leva a supor que os outros nos olham com interesse e com estima, e que não conversam entre si senão para. se ocuparem de nossos méritos e fazerem o nosso elogio, também devemos ter certa confiança em nós mesmos, que nos impeça de crer que quando os outros falam em voz baixa é para dizer mal de nós ou que, se riem, é para nos meter a ridículo.
Notas
11 E é este sempre o poder que o homem experimenta em si mesmo, com mais ou menos sucesso.
12 A maior parto destes traços do homem distraído devem ser atribuídos ao duque de Brancas, o homem mais distraído de seu tempo.
13 Diz-se que um médico falou nestes termos a Mme. de Montesan, nas águas de Bourbon, onde ela ia muitas vezes a fim de se tratar de doenças imaginárias.
14 Referência ao príncipe de Conti, que morreu de bexigas, por ter tratado de sua mulher, a quem sabidamente elo não amava.
15 Assim são os homens que, em todas as épocas, se querem fazer passar por "providenciais" em face do povo.
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