MANUEL ODORICO MENDES

MANUEL ODORICO MENDES

MANUEL ODORICO MENDES (S. Luís do Maranhão, 1799-1864) foi esforçado campeão das idéias liberais na imprensa e na Câmara dos Deputados, de que fêz parte em mais de uma legislatura. Faleceu em Londres viajando por estrada de ferro.

Como poeta original acompanhou a escola filintista, primando na correção da linguagem; e concluiu esmeradas traduções, entre as quais têm primazia as das obras de Virgílio e da Ilíada de Homero.

Tempestade – DESCRITA POR VIRGILIO

Disse; um revés do conto a cava serra
Ao lado impele: os turbinosos ventos
Feitos num grupo, dada a porta, ruem
As terras varejando. Ao mar carregam,
E horríficos revolvem-lhe às entranhas
Noto mais Euro, o de borrascas fértil
Africo, às praias vastas ondas rolam.
Homens gritam, zunindo a enxárcia ringe.
Some-se ao nauta o céu, tolda-se o dia;
Pousa no pélago atra noite; os poios
Toam (605) o éter fuzila em crebros raios:
Tudo ameaça aos varões presente a morte.
Frígido, arrepiado, Enéias geme,
Alça as palmas e exclama: "Afortunados
Oh! três e quatro vezes, de llio às abas (606)
Os que aos olhos paternos feneceram!
Ó dos Dânaus fortíssimo Tidides,
A alma em Tróia vertendo-me essa destra,
Não ficar eu nos campos, onde o bravo
Heitor de Eácida às lançadas, onde
Sarpédon jaz magnânimo, onde o Símois
Corpos e elmos de heróis e escudos tantos
Arrebatados na corrente volve!" (607)
Bradava; a sibiliar ponteiro Bóreas
Rasga o pano e a mareta aos astros joga.
Remos estralam; cruza a proa e o bordo
Rende; escarpado fluido monte empina-se,
As naus já do escarcéu pendem, já descem
Num sorvedouro à terra entre marouços:
Remoinha o esto na revolta areia. (608)
Três rouba Noto e avexa nuns abrolhos,
Abrolhos que Aras Ítalos nomeiam,
Latentes na água, ao lume o dorso imano/
Três no parcel (que lástima!) Euro esbarra,
Encalha em vaus, de marachões rodeia. (609)
Uma, em que Oronte fido (610) e os Lícios vinham,
Do vértice abatendo úmido rolo,
Mesmo à vista do herói, d’avante em popa
Fere-a; do baque o prono mestre volto (611)
Cai de cabeça. O vagalhão três vezes
Torce-a, revira, um vórtice a devora,

Raros no vasto pego a nadar surdem;
Tábuas, alfaias, armaduras troicas, (612)
Preia das ondas. A tormenta escala
A nau robusta de Ilioneu, de Abante,
As de Aletes grandevo (613) e Acates forte:
Todas, frouxadas as junturas, sorvem
A inimiga torrente e em fendas gretam.
Mugir seu reino e um temporal desfeito,
Cachões do imo a brotar, sentiu Netuno;
Torvo, agastado, providente exalta
A plácida cabeça. A frota esparsa
Vê sossobrando, opressos os Troianos
Da marejada (614) e da ruína etérea.
De Juno irosa o dolo o irmão percebe,
Euro e Zéfiro chama: "Herdastes, ventos,
Tal presunção que sem meu nume, ousados,
Terra e céus confundis e equóreas brenhas?
Eu vos… Mas insta abonançar as vagas;
Caro mo pagareis, guardo o castigo.
Ao rei vosso intimai, já, já, que em lote
Não lhe coube este império, que o terrível
Tridente é meu. Tem êle enormes fragas,
Euro, vossas mansões; nessa aula, (615) ufano
Sobre enclaustrados ventos reine Eolo".
Nem cessa, e o mar se lança, e em fuga as nuvens,
Abre o sol…

(Virgílio Brasileiro, Livro I, vv. 93 a 159).

 

  • (605) — toam = trovoam, trovejam.
  • (606) de llio às abas = nas cercanias de ílio, ou Tróia.
  • (607) — volver aí significa transportar, fazer rolar, arrastar.
  • (608) esto (calor, fervor, do lat. aestu-) guarda também o sentido que se depara aqui, de preamar, agitação das ondas, enchente, efervescência; da mesma raiz de estio, estival, estuar, estuante, estuário, estuoso etc.
  • (609) vaus = baixios; marachões = recifes.
  • (610) fido = fiel, leal: — "ó certo e fido amigo" (Lus., VIII, 85); — "as infidas gentes" (Lus., II, 1); da mesma raiz; pérfido: — "…um pérfido inimigo" (Lus., I, 71). (611) — o prono mestre volto — prono = inclinado, dobrado para a frente; volto — volvido, voltado, virado: "Está volta contra o Oriente" (Arrais, ap. Morais, s. v.).

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