Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

Nietzsche – Cartas de 1886




Traduzido da versão em inglês


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Tradução de Miguel Duclós

1

Sils Maria, 14 de julho, carta a Franz Overbeck

Querido amigo,

Também teria gostado muito de revê-lo este ano, mas sei que não será possível. Meu plano de passar o verão na floresta de Thuringian e o outono em Munique está soçobrando pela força maior (ou menor) de minha doença. Presentemente, a vida na Alemanha me é inteiramente prejudicial; seu efeito é o envenamento e a debilitação. E em qualquer momento que eu lá esteja meu desprezo pela humanidade cresce em proporções perigosas.[..]

Até agora Fritzsch não foi capaz de entrar num acordo com Schmeitzner. Mas provavelmente ainda irá, já que ele parece ter grande apreço em ter o “Nietzsche inteiro” tanto quanto o “Wagner inteiro” em sua editora – um ajuntamento que profundamente me agrada . De modo geral, R. W. [Wagner] foi, de longe, o único – ou pelo menos o primeiro – que teve alguma simpatia pelo que sou. (O que para minha desgraça Rohde, por exemplo, parece não ter a mínima idéia, não importando o sentimento de obrigação que ele tenha em relação a mim). Nesta atmosfera universitárias as melhores pessoas se degeneram. Eu sempre sinto que o poder maior e mais oculto de tipos como R. é a extrema indiferença generalizada e a falta de fé suas próprias coisas. Que alguém como eu esteja vivendo com problemas diu noctuque incubando e tenha sua agonia e felicidade nisto somente – quem se importaria com isto? R. Wagner, como mencionei, teve, e é por isso que Tribschen [onde Wagner morava] me entreteve tanto, ao passo que agora eu não tenho mais nenhum lugar ou pessoa que me entretenha. – [...]

Carta 2

Sils-Maria, 06 de Agosto de 1886. Carta a Franz Overbeck

Querido amigo,

Se ao menos eu pudesse lhe dar uma idéia dos meus sentimentos de solidão! Não existe ninguém a quem eu me sinta próximo, tanto entre os vivos quanto entre os mortos. Isto é inimaginavelmente apavorante. Apenas o constante exercício de aprender como tolerar este sentimento, e o desenvolvimento passo-a-passo, desde a infância, da minha capacidade de tolerá-lo – permitem-me compreender como eu ainda não pereci em razão disto. De resto, a tarefa pela qual vivo me desafia claramente: é a realidade de uma tristeza inimaginável, ainda que transformada pela consciência de que há nela grandiosidade – se é que a grandiosidade persiste por algum tempo na tarefa de um mortal. -

Fielmente, seu F.N

Carta 3

Sils-Maria, 24 de setembro de 1886. Carta a Malwilda von Meysenbug

Considerado amigo,

Este é o meu último dia aqui em Sils-Maria; todos os pássaros voaram; o céu de outono está escuro; está ficando frio, – então o “ermitão de Sils-Maria” terá de seguir seu caminho.

[..]Eu acabei de lhe enviar um livro. Seu título é Alem do Bem e do Mal: prelúdio a uma filosofia do porvir. (Perdoe-me! Não se subentende que você deva lê-lo, e muito menos me dar sua opinião. As pessoas ousarão lê-lo, eu suponho, por volta do ano 2000…)[..]

Carta 4

Nice (França), 14 de Novembro de 1886. Carta a Franz Overbeck.

Querido amigo, [...]A antinomia da minha situação atual, da forma da minha existência, consiste nisto: tudo que eu preciso para ser um philosophus radicalis – a liberdade profissional, esposa, filhos, sociedade, pátria, fé, etc. etc. – é da mesma forma minha privação, na medida em que tenho a boa sorte de ser uma criatura viva e não meramente uma máquina de análise ou um aparelho objetivador. Eu devo acrescentar que esta justaposição de necessidades e privações é levada a extremos pela falta de uma saúde ao menos moderamente estável. Porque nos meus momentos de saúde eu sinto a privação de forma menos aguçada. Além disto, eu não sei absolutamente nada sobre como reunir as cinco condições que poderiam devolver minha delicada saúde para o mínimo tolerável. Finalmente, seria a pior situação possível se, para conseguir estas cinco condições de saúde, eu tivesse de me privar das oito liberdades do philosophus radicalis. Isto me atinge como o preço mais concreto da minha situação especialmente delicada… Perdoe-me! Ou melhor, pode gargalhar disto![...]

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