Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

O trabalho do Zaratustra / Vida de Frederico Nietzsche, Daniel Halévy / 6




VIDA DE FREDERICO NIETZSCHE

Autor: Daniel Halévy

Tradutor: Jerônimo Monteiro
Extraído da edição da Editora Assunção ltda.
Coleção Perfis Literários

 

 O livro foi dividido em 7 páginas

Cap. 1 – OS ANOS DE INFÂNCIA Cap. 2 – OS ANOS DA JUVENTUDE
Cap. 3 – FREDERICO NIETZSCHE E RICHARD WAGNER — TRIEBSCHEN Cap. 4 – FREDERICO NIETZSCHE E RICHARD WAGNER — BAYREUTH
Cap. 5 – CRISE E CONVALESCENÇA Cap. 6 – O TRABALHO DO "ZARATUSTRA"
Cap. 7 – A   ÚLTIMA   SOLIDÃO

VI. O TRABALHO DO "ZARATUSTRA"

 

A CONCEPÇÃO DO ETERNO RETORNO

 

Frederico Nietzsche considerava Aurora como o exercício de uma convalescente que se diverte com os desejos e as idéias e encontra em cada um sua diversão de amor ou malícia. Fora um jogo e devia terminar. Agora, devo escolher entre as idéias entrevistas — pensava; devo pegar uma e exprimi-la em toda sua força — dando por encerrados os meus anos de solidão e de espera. "Em tempo de paz — escreveu — o homem de instintos belicosos se volta contra si mesmo". Apenas saído de seus combates, Nietzsche procura novas ocasiões de luta.

Até meados de julho, permanecera em Veneto, nos primeiros contrafortes dos Alpes italianos; mas não teve remédio senão procurar um abrigo menos ardente. Não esquecera aqueles altos vales alpinos que, dois anos antes, lhe proporcionaram alívio nos males e felicidade instantânea. Subiu até eles e se instalou de maneira rústica na Engadina, em Sils–Maria. Mediante um franco diário conseguiu um quarto na casa de uns camponeses, e uma pensão vizinha fornecia-lhe alimentação. Os viajantes eram raros e Nietzsche, quando se achava de humor comunicativo, ia visitar o professor ou o cura, gente simples que nunca mais esqueceu aquele professor  alemão, tão  singular,  tão instruído,  modesto   e  bondoso.

Ele refletia, então, sobre os problemas da filosofia naturalista. O sistema de Spencer era a novidade da moda. Frederico Nietzsche desprezava aquela cosmogonia que, pretendendo suplantar o cristianismo, continuava submetida a ele. Spencer ignora a providência, mas acredita no progresso.   Ensina a realidade de um acordo entre os movimentos das coisas e aspirações da humanidade; em um universo sem Deus conserva as harmonias cristãs. Frederico Nietzsche seguira escolas mais viris: ouve Empédocles, Heráclito, Spinoza, Goethe, pensadores de olhar sereno, que sabem estudar a natureza sem procurar nela nenhum assentimento de seus desejos. Continua obediente a estes mestres e sente crescer e amadurecer dentro   de si  uma  idéia  grande  e  nova.

Pelas cartas que escreve, adivinhamos a emoção de que está possuído. Sente a necessidade de estar só, e define a sua solidão. Paulo Rée quer ir contar-lhe a admiração que lhe causou  Aurora.   Quando sabe disso, Nietzsche se desespera.

Minha boa Lisbeth escreve ele a sua irmã: não posso me resolver a telegrafar a Paulo Rée, dizendo-lhe que não venha. No entanto, tenho que considerar como inimigo a qualquer pessoa que venha interromper o meu trabalho do verão, meu trabalho de Engadina; quer dizer meu próprio dever, minha "única necessidade". Um homem aqui, em meio aos pensamentos que brotam de todas as partes em torno de mim, seria uma coisa terrível; e se não puder defender melhor a minha solidão, juro que abandonarei a Europa por muitos anos. Já não tenho mais tempo para perder.

A senhorita Nietzsche preveniu Paulo Rée, que renunciou ao seu projeto.

Por fim, Nietzsche encontra aquela idéia cujo pressentimento o agitava com tanta violência. Um dia, caminhando através dos bosques de Sils-Maria, em direção a Silvaplana, sentou-se, não longe de Surlee, ao pé de uma rocha piramidal; e naquele momento, e naquele lugar, concebeu o Retorno Eterno. Pensou: o tempo, cuja duração é infinita, deve repetir, de período em período, uma disposição idêntica das coisas. Isto é fatal. Portanto, é fatal que todas as coisas voltem a ser. Dentro de tal número de dias, número incalculável, imenso, mas limitado — um homem em tudo semelhante a mim, sentado à sombra de uma rocha, encontrará de novo esta mesma idéia. E esta mesma idéia será novamente encontrada por este homem, não só uma vez, mas em número infinito de vezes, pois o movimento que repete as coisas é infinito. Devemos, portanto, abandonar toda a esperança e pensar com firmeza: nenhum céu receberá os homens, e nenhum futuro melhor os consolará. Somos a sombra de uma natureza cega e monótona, os prisioneiros de todos os momentos. Não esqueçamos, porém, que esta tremenda idéia que nos proíbe qualquer esperança, enobrece e exalta cada minuto de missa vida. Se o instante se repete eternamente e deixa de se uma coisa passageira — o mínimo sol converte em monumento eterno, dotado de valor infinito e (se a palavra divino tem algum sentido) divino.    Que tudo se repita incessantemente— escreve—–é a extrema aproximação de um mundo do futuro com um mundo do ser: ponto culminante da meditação (*)

A emoção do descobrimento foi tão viva, que ele chorou, permanecendo por longo tempo mergulhado em lágrimas. Afinal, seu esforço não fora vão. Sem fraquejar diante da realidade, sem se separar do pessimismo, mas ao contrário, levando às últimas conseqüências a idéia pessimista da realidade, Nietzsche descobrira esta doutrina do Retorno, que, conferindo eternidade às coisas mais fugitivas, restaura em cada uma delas o poderio lírico e o valor religioso necessário à alma. Em algumas linhas formula a idéia, e data-a: "Começos de agosto de 1881, em Sils-Maria, a 6.500 pés sobre o nível do mar e muitos mais sobre o nível de todas as coisas humanas."

Durante algumas semanas viveu em um estado de arroubamento e de angústia. Os místicos conhecem, sem dúvida, emoções semelhantes e seu vocabulário se adapta ao caso. Experimentava um orgulho divino, mas ao mesmo tempo, temia e espantava-se, como esses profetas de Israel que tremem diante de Deus ao receber de seus lábios a ordem de sua missão.

O homem desgraçado, tão ferido pela vida, contemplava com indizível terror a perpetuidade dos Retornos. Isto era para ele uma espera insuportável e um suplício. Amava, porém, esse suplício e se impunha a idéia do Retorno Eterno, como um asceta se impõe o martírio. Lux, mea crux — escreveu em suas notas — Crux, mea lux. Sua agitação, que o tempo não apaziguava, fez-se extrema, chegando a atemorizá-lo, pois não ignorava a ameaça que pairava sobre sua vida.

Algumas idéias se levantam em meu horizonte, e que idéias! escreve a Peter Gast em 14 de agosto. Eu próprio não suspeitava de nada semelhante. Não digo mais, pois quero manter uma calma inalterável. Ah, meu amigo! às vezes, certos pressentimentos atravessam meu : espírito. Parece-me que levo uma vida muito perigosa, pois minha máquina é daquelas que podem explodir. A intensidade dos meus sentimentos me fazer rir e tremer; por duas vezes já, me vi obrigado a permanecer no meu quarto por um motivo ridículo: tinha os olhos irritados. Por quê? Porque passeando, chorara demais, não lágrimas sentimentais, mas lágrimas de alegria; e cantava, e dizia disparates, possuído por uma nova idéia que devo propor aos homens…

A partir desse momento concebe uma nova missão. Tudo o que fez até então não passa de um desajeitado ensaio, ou uma

 

(*)    Esta  fórmula  encontra-se  no Der Wille  zur Macht, parágrafo 286. (N. do A.).

 

tentativa. Agora, porém, chegou o momento ide edificar a obra. Que obra? Nietzsche vacila: seus dons de artista, de crítico e de filósofo, seduzem-no em diversos sentidos. Colocará a sua doutrina em forma de sistema? Não, pois que é um símbolo que deve ser rodeado de lirismo e ritmo. Não poderia renovar aquela forma esquecida criada pelos pensadores da mais antiga Grécia e de que Lucrécio nos transmitiu um modelo? Frederico Nietzsche acolhe essa idéia. Agradar-lhe-ia traduzir a sua concepção da natureza em uma linguagem poética, uma prosa musical e poemática. Continua procurando, e seu desejo de uma linguagem rítmica, de uma forma viva e como que palpável, sugere-lhe uma nova idéia: não poderia introduzir no centro de sua obra uma figura humana e profética, um herói? Um nome lhe vem ao espírito: , o apóstolo persa, mistagogo do fogo. Um título, um subtítulo e quatro linhas rapidamente escritas, anunciam o poema:

MELODIA   E   ETERNIDADE

SINAL DE UMA VIDA NOVA

Zaratustra, nascido nas margens do lago Urmi abandona sua pátria aos trinta anos, dirige-se para a província Ária e, em dez anos de solidão, compõe o Zend Avesta.

Desde esse momento, seus passeios deixaram de ser solitários; Frederico Nietzsche escuta e recolhe incessantemente as palavras de Zaratustra. Em três dísticos de doce tom, quase terno, diz como este companheiro chegou até sua vida:

 

SILS-MARIA

Em setembro, a estação se tornou repentinamente fria e nevosa.  Nietzsche teve  que abandonar Engadina.

Alquebrado pela  intempérie,  sua  exaltação  decaiu,  e  começou um longo período de depressão.   Pensava  constantemente no Retorno Eterno, mas, desanimado e abatido, sentia somente o horror de sua idéia. "Revivi os dias de Basiléia .— escreve a Peter Gast. — A morte me contempla por cima do ombro…" É breve em suas queixas: uma palavra deve bastar para adivinhar seus abismos. Durante aquelas semanas de setembro e de outubro foi tentado três vezes pelo suicídio. De onde lhe vinha essa tentação? Desejaria evitar o sofrimento? Não. Ele era valente. Desejaria prevenir a destruição do seu espírito? Talvez esta segunda seja- a hipótese verdadeira.

Desceu até Gênova, e continuou sofrendo os ventos úmidos e os céus nublados de um caprichoso outono. Suportava impacientemente a falta de luz. Uma nova tristeza completava sua infelicidade: Aurora não tivera o menor êxito; os críticos haviam-na ignorado e os amigos apenas a haviam lido. Jacob Burckhardt externara uma opinião cortês e prudente: "Leio algumas partes de seu livro como se fosse um homem velho e outras com uma sensação de vertigem." Erwin Rohde, o mais querido, o mais estimado, não respondera à remessa do livro. Nietzsche escreveu-lhe de Gênova, em 21 de outubro:

Meu velho e querido amigo:

Com certeza você é detido por algum escrúpulo. Suplico-lhe sinceramente: não me escreva. Isto nada mu- daria entre nós, mas em troca, é-me insuportável pensar que, enviando um livro a um amigo, exerço sobre ele uma espécie de pressão. Que importa um livro! O que tenho a fazer importa muito mais ou então, não saberia para que vivo. — O momento é duro para mim. Sofro muito.

Amistosamente seu

F. N.

Erwin Rohde nem sequer responde a esta carta. Como explicar o fracasso de Aurora? Trata-se, sem dúvida, da velha história constante e universal; a irremediável desventura do gênio desconhecido — porque é gênio, novidade, surpresa, escândalo. No entanto, talvez consigamos descobrir algumas razões particulares. Desde que Nietzsche se separou dos círculos wagnerianos, não tem amigos; e um grupo de amigos é o intermediário mais indispensável entre um grande espírito que se exercita e a massa do público. Nietzsche encontra-se só diante dos leitores desconhecidos, aos quais suas constantes variações desconcertam; conta com a forma viva de sua obra para os atrair e conquistar, mas até essa forma lhe é desfavorável. Nenhum livro é de mais difícil acesso do que um conjunto de aforismos e pensamentos breves. O leitor tem que concentrar toda a atenção em cada página e decifrar um pequeno enigma e o cansaço não tarda em se apoderar dele. É  possível,   ademais,   que  o  povo   alemão,   pouco  sensível  à arte da prosa; pouco capaz de surpreender suas belezas, acostumado aos esforços lentos.e demorados, se achasse mal preparado para compreender uma obra tão imprevista.

Um formoso mês de novembro logra reanimar Frederico Nietzsche. "Ressurjo de entre os meus desastres" — escreve ele. Percorre a montanha, a costa genovesa, volta a subir às rochas onde imaginara as páginas de Aurora, e, aproveitando a doçura do tempo, banha-se no mar. "Sinto-me tão bem, tão orgulhoso, tão completamente príncipe Dorial — escreve a Peter Gast. — Só me falta você, querido amigo. Você e sua música."

Desde as representações dos Niebelungen em Bayreuth, ou seja, 5 anos — Nietzsche se havia privado de música. Cítve musiciam!, escrevia. Receava, se se abandonasse ao prazer dos sons, ser novamente dominado pela magia da arte wagneriana. Conseguiu, afinal, livrar-se de seus temores. Seu amigo Peter Gast havia-lhe tocado, em junho, em Rocoaro, cânticos e coros que se entretivera compondo sobre os epigramas de Goethe. Paulo Rée dissera-lhe um dia: "Nenhum músico moderno seria capaz de pôr em música versos tão ágeis." Peter Gast aceitara o repto e ganhara, segundo Nietzsche, encantado com a vivacidade dos seus ritmos. "Você deve perseverar w aconselhou-o; — trabalhe contra Wagner músico, como eu trabalho contra Wagner filósofo. Esforcemo-nos, Rée, você e eu, em libertar a Alemanha. Se você conseguir encontrar uma música adequada ao universo de Goethe (música que não existe), terá feito uma grande coisa… Esta idéia reaparece erri todas as suas cartas. Seu amigo se acha em Veneza, ele em Gênova. Nietzsche espera que naquele mesmo inverno a Itália os inspirará a ambos, alemães desarraigados, uma metafísica e uma música novas.

Aproveita a melhoria de seu estado de saúde para ir ao t.entro. Ouve a Semíramis de Rossini e quatro vezes a Julieta, de Bellini, Uma noite sentiu curiosidade de ouvir uma ópera francesa cujo  autor lhe era  desconhecido.

Hurra, meu amigo! escreve a Peter Gast fiz uma. nova e feliz descoberta: uma ópera de Georges Bizet (quem é esse homem?): Carmen. Ouve-se como uma novela curta de Merimée, espiritual, forte, emocionante em vários momentos. Um verdadeiro talento francês que Wagner não desorientou, um franco discípulo de Berlioz . Não estou longe de pensar que Carmen é a melhor ópera que existe. Tanto tempo quanto vivermos, ela fará parte de todos os repertórios da Europa.

A descoberta de Carmen é o acontecimento do seu inverno. Falava delas muitas vezes, e muitas voltava a ouvi-la. Tendo escutado aquela música  franca o apaixonada, sente-se melhor armado contra as seduções românticas, sempre poderosas sobre a sua alma. “Carmen liberta-me"    -   escreverá.

Frederico Nietzsche volta a encontrar a felicidade que gozara no ano anterior; semelhante, mas baseada numa emoção mais grave: o pleno meio-dia chega após a aurora. Pelos fins de dezembro atravessa e vence uma crise, comemorada numa espécie de poema em prosa que traduzimos aqui. É a continuação daquelas meditações e daqueles exames de consciência que escrevia, quando jovem, nos dias de São Silvestre:

Para o Ano Novo — ainda vivo, penso ainda. É preciso que viva ainda, pois ainda é preciso pensar. Sum, ergo cogito; cogito, ergo sum. Hoje é o dia em que cada um encontra liberdade para exprimir seus desejos e seu mais caro pensamento: Expressarei, pois, o desejo que se forma hoje em mim mesmo, e direi qual o pensamento que trago no coração este ano, por cima de todos; que pensamento escolhi como razão, garantia e regozijo de minha vida futura. Quero exercitar-me todos os dias em ver em cada coisa, o necessário como se fora uma beleza, e desta maneira serei um daqueles que fazem belas as coisas. Amor fati — seja este, daqui por diante, meu amorl Não quero acusar, não quero, nem mesmo acusar os acusadores. Afastar meu olhar — seja esta a minha única negativa. Em outras palavras, quero, em qualquer circunstância, ser sempre um afirmador.

Os trinta dias de janeiro se passam sem que uma nuvem escureça o seu céu. Em sinal de gratidão, Nietzsche dedicará a este esplêndido mês o quarto livro de La Gaya Scienza, que intitula Sanctus Januarius, livro admirável, rico em pensamento crítico, em íntimas sutilezas e dominado, da primeira à última página, por uma emoção sagrada:   Amor fati.

Em fevereiro, Paulo Rée, de passagem por Gênova, permanece uns dias com seu amigo, que lhe mostrou seus passeios. preferidos e o conduziu até às enseadas rochosas "onde, dentro de seiscentos ou de mil anos — escreve, caçoando, a Peter Gast — se levantará uma estátua ao autor de Aurora." Depois, Paulo Rée desceu para Roma, onde o esperava a senhorita de Meysenbug. Rée sentia certa curiosidade em penetrar o mundo wagneriano, fortemente agitado pela espera de Parsifal, o mistério cristão que se devia dar em Bayreuth, no mês de julho. Nietzsche não quis acompanhar Paulo Rée. Cuidava zelosamente de sua solidão, e a iminente representação de Parsifal fazia mais vivo o seu ardor pelo trabalho. Não tinha ele, também, uma grande obra para amadurecer? Não tinha que escrever o seu mistério anticristão, o seu poema do Retorno Eterno? Este era seu pensamento constante, pensamento que lhe proporcionava uma felicidade graças à qual podia recordar com saudade menos dolorosa o seu mestre dos dias passados. Richard Wagner parecia-lhe, a um tempo, muito afastado e muito próximo dele. Muito afastado, pelas idéias; mas que valem, para um poeta, as idéias? Muito próximo pelos sentimentos, os desejos, a emoção lírica; e não é isto o essencial? Todo o desacordo entre os líricos baseia-se apenas em matizes, pois por alguma razão habitam um mesmo universo e trabalham com a mesma coragem para dar uma significação e um valor supremos aos movimentos da alma humana. Leiamos esta página que Nietzsche escrevera naquela ocasião, e compreenderemos melhor o estado de sua alma:

Amizade Estrelar — Éramos amigos e chegamos a ser estranhos um para o outro. Mas assim está bem, e não queremos ocultar nada e nada dissimulamos; nada temos de que nos envergonhar. Somos dois navios, cada um com. seu porto e sua rota. Cruzamo-nos por acaso e celebramos juntos uma grande festa e nossos dois animosos navios repousaram tão tranqüilamente no mesmo porto e sob o mesmo sol, que ambos pareciam ter alcançado a meta que lhes era comum. Mas a força todo poderosa do nosso dever nos lançou de novo para mares e sóis diversos, e talvez nunca mais nos tornemos a ver, ou talvez nos encontremos de novo sem que nos reconheçamos: os mares e os sóis diversos nos terão transformado. Estava escrito em nossos destinos: tínhamos que nos tornar estranhos um ao outro. Razão de mais para nos respeitarmos mutuamente! Razão de mais para santificar a idéia de nossa amizade encerrada! Existe, sem dúvida, um astro afastado invisível e prodigioso, que dita uma lei comum ás nossas pequenas evoluções. Elevemo-nos até este pensamento! Nossa vida, porém, é demasiado curta e nossa vista demasiado fraca: não poderemos ser realmente amigos; teremos que nos contentar com essa possibilidade sublime… E se for necessário ser inimigos sobre-a terra, acreditamos, apesar de tudo, em nossa amizade de estrelas.

Que forma tomava, então, em seu espírito, a exposição lírica do Retorno Eterno? Ignoramo-lo. Nietzsche não gostava de falar do seu trabalho; queria acabar antes de anunciar". Não obstante, gostava que seus amigos conhecessem o novo movimento em que empenhava seu pensamento. Com este fim dirigiu uma carta à senhorita de Meysenbug, na qual trotava Wagner sem deferência, acrescentando uma promessa um tanto misteriosa: "Se não estou demasiado iludido com respeito ao  meu  futuro, será graças à minha obra que continuará o que de melhor há na obra de Wagner — e daí, talvez, o cômico da aventura…

No começo da primavera, Nietzsche, seduzido por um capricho, embarcou com o capitão de um veleiro italiano que zarpava para Messina e fez o cruzeiro do Mediterrâneo. A travessia foi terrível e Nietzsche esteve gravemente doente. Mas sua permanência em Messina foi, em compensação, grata. Escreveu versos, prazer que, desde muitos anos não experimentava. Eram impromptus e epigramas, inspirados, talvez naquelas felizes glosas goetheanas que Peter Gast pusera em música. Nietzsche procurava, então, um canto da natureza e da humanidade favorável à produção de sua grande obra. Sicília — bocal do mundo, onde mora a felicidade — segundo ensina o velho Homero, pareceu-lhe um refúgio ideal, e, esquecendo depressa sua incapacidade para suportar o calor, decidiu instalar-se em Messina por todo o verão. Alguns dias de siroco, pelos fins de abril, abateram-no, e viu-se obrigado a preparar as malas.

Recebeu, entretanto, algumas linhas da senhorita Meysenbug, que lhe pedia encarecidamerite que se detivesse em Roma. Sendo Roma uma de suas etapas normais, aceitou. Sabemos quais as razões da insistência da senhorita de Meysenbug. Esta mulher admirável não se resignara nunca à desventura de seu amigo, cujo destino em vão procurava tornar mais doce. Conhecia a delicadeza e a ternura do coração de Nietzsche, e com freqüência quisera encontrar-lhe uma companheira. Não tinha, acaso, ele mesmo lhe escrito: "Digo-lhe, confidencial-mente, que o que me faz falta é uma boa esposa"? Na primavera daquele ano de 1882, a senhorita de Meysenbug acreditou haver encontrado o que precisava (*), e era este o objeto de sua carta. A senhorita de Meysenbug possuía o gosto e o costume da bondade, mas talvez não tivesse suficientemente em conta que a bondade é uma arte difícil e na qual as derrotas são muito cruéis.

 

(*) Esta história íntima foi conhecida por poucas pessoas, na maioria desaparecidas’ hoje. Duas mulheres sobrevivem: uma, a senhora Förster-Nietzsche, publicou trechos que desejaríamos fossem mais serenos e mais claros. A outra, senhorita Salomé, escreveu um livro sobre Nietzsche no qual são indicados alguns fatos e citadas algumas cartas. A senhorita Salomé se negou a qualquer discussão sobre o assunto, que considera pertencer só a ela. As tradições orais são contraditórias e numerosas. Umas, espalhadas na sociedade romana onde se desenrolou a aventura, são menos favoráveis à senhorita Salomé, que nelas aparece como uma espécie de Maria Baschkirscheff, uma aventureira intelectual demasiado empreendedora. As outras, espalhadas na Alemanha, entre os amigos da senhorita Salomé, são muito diferentes. Tivemos em conta todas estas tradições: As primeiras influenciaram o trabalho que publicamos nos Cahiers de Ia Quinzalne, caderno doze da décima série, págs. 24 e segs. As segundas, que conhecemos mais tarde, nos parecem preferíveis. Convém, porém, afastar qualquer esperança  de  certeza.   (N. do A.)

 

 

A moça que a senhorita de Meysenbug encontrara chamava-se Lou Salomé. Tinha apenas vinte anos; era russa, de admirável inteligência e de ardor intelectual; de uma beleza não perfeita, mas esquisita e extremamente sedutora. E,  freqüente verem-se surgir de repente em Paris, Florença ou Roma, moças exaltadas, originárias de Bucarest, Filadélfia ou Kief, animadas de bárbara impaciência por se iniciarem na cultura e conquistar um lar em nossas velhas capitais. Lou Salomé, com toda a certeza, tinha qualidades muitíssimo raras. Por outro lado, sua mãe a seguia através da Europa levando seus abrigos e chalés. A senhorita de Meysenbug tomou-se de afeto por ela, deu-lhe para ler as obras de Nietzsche, que Lou Salomé pareceu entender, falou-lhe muito daquele homem extraordinário que sacrificara a amizade de Wagner para manter a sua liberdade, e disse-lhe: "É um filósofo muito rude, mas o mais sensível e afetuoso dos amigos e para quantos o conhecem, a lembrança da sua vida solitária é um motivo de tristeza…" A senhorita Salomé mostrou grande entusiasmo e interesse em conhecê-lo, e declarou que se sentia destinada a compartilhar espiritualmente uma existência como a de Nietzsche. De acordo com Paulo Rée, que, segundo parece, conhecia-a de mais longo tempo e a estimava igualmente, a senhorita de Meysenbug escreveu  a Frederico Nietzsche.

Este chegou, e ouviu o elogio da senhorita Salomé: fina, inspirada, corajosa; intransigente na investigação e na afirmação; uma heroína, por todos os acontecimentos de sua infância; em suma, a promessa de uma grande vida. Nietzsche concordou em vê-la. Ela lhe foi apresentada e conquistou-o imediatamente, certa manhã, na igreja de São Pedro. Durante seus longos meses de meditação, esquecera o prazer de conversar e ser ouvido. A jovem russa, como lhe chama era suas cartas, ouvia deliciosamente. Falava pouco, mas  o seu olhar tranqüilo, seus movimentos seguros e doces, suas menores palavras, não deixavam dúvida acerca da agilidade do seu espírito e da presença de,sua alma. Nietzsche depressa a amou; talvez desde o primeiro instante. Disse à senhorita de Meysenbug: "Da ist eine seele welche sich mit einem hauch ein Kõrperchen geschaffen hat" (Aqui está uma alma que com um sopro se transformou num corpozinho). Já a senhorita Salomé não se deixou seduzir do mesmo modo. Sentiu, não obstante, a singular qualidade do homem que lhe falava. Teve com ele longas palestras, e a violência do seu pensamento encheu de perturbação até seus sonhos. A aventura que terminou em drama — começou imediatamente.

Poucos dias depois desta primeira entrevista, a senhora o a   senhorita    Salomé    partiam    de   Roma.    Os dois, filosofou, Nietzsche e Paulo Rée, partiram com elas, ambos entusiasmados com a pequena. Nietzsche dizia a Rée: "É uma mulher admirável; case-se com ela…" — "Não — respondia Rée. — Sou pessimista, e a idéia de propagar a espécie humana me é odiosa. Você é quem se deve casar com ela; é a companheira que lhe falta…" Nietzsche afastava esta idéia. Provavelmente dizia a seu amigo o mesmo que a sua irmã: "Casar! Nunca! Teria que me acostumar a mentir." A senhora Salomé observava aqueles dois homens rondando em torno de sua filha; Frederico Nietzsche inquietava-a; preferia Paulo Rée.

As duas mulheres e os dois filósofos se detiveram em Lucerna. Frederico Nietzsche quis mostrar à sua nova amiga aquela casa de Triebschen onde conhecera  Richard Wagner. Quem não pensava no mestre, então? Levou-a até aos alamos cujas altas folhagens rodeavam os jardins; descreveu-lhe os dias inesquecíveis, as alegrias e as cóleras magníficas do grande homem. Estavam sentados à beira do lago e ele falava em voz baixa, contida, mostrando uma fisionomia transformada pela lembrança das alegrias a que renunciara. De súbito, calou-se, e  a moça, olhando-o,  viu  que chorava.

Nietzsche contou-lhe toda a sua vida: a infância, a casa pastoral, a misteriosa grandeza do pai, tão rapidamente arrebatado; os anos piedosos, as primeiras dúvidas e o horror de um mundo sem Deus no qual é preciso resolver-se a viver; a descoberta de Schopenhauer e de Wagner, o culto que lhes dedicara e que o consolara da perda de sua fé.

— Sim — disse (e a senhorita Salomé confirma estas palavras) — assim começaram minhas aventuras, que não terminaram ainda. Onde me conduzirão? No que me aventurarei ainda? Acabarei por voltar à fé, ou chegarei a uma nova crença? — E, gravemente, terminou: — Em todo o caso, é mais verossímil uma volta ao passado  do que a imobilidade.

Frederico Nietzsche não confessara ainda o seu amor. Sentia-lhe a força, no entanto, e não podia resistir mais. Mas faltou-lhe a coragem de se declarar. Por fim, pediu a Paulo Rée que falasse em seu nome, e afastou-se.

Em 8 de maio, havendo-se instalado por alguns dias em Basiléia, viu os Overbeck e se confiou a eles com estranha exaltação. Uma mulher entrara em sua vida, o que era para ele uma felicidade e para seu pensamento um bem; de agora em diante, este seria mais vivo, mais matizado, mais rico, mais rico, mais emocionante. Preferiria, seguramente, não se casar com a senhorita Salomé, desdenhando, como desdenha, todo laço carnal. Mas terá, sem dúvida, que lhe dar seu nome para deixá-la a salvo de murmúrios, e de sua união espiritual nascerá um filho espiritual: o profeta Zaratustra. É pobre, o que é desagradável e um obstáculo. Mas não poderá vender em bloco a algum editor, por uma soma considerável, toda  sua   obra Futura?    É preciso  pensar   nesta   possibilidade.

Estas efusões não deixaram de inquietar os Overbeck, que auguraram mal de uma união tão estranha e de Um entusiasmo   tão   súbito.

Frederico Nietzsche teve, afinal, a resposta de Lou Salomé: ela não queria casar-se. Um desengano sentimental que acabava de atravessar — dizia ela — deixava-a sem forças para conceber e alimentar um novo amor. Negava-se, pois aos desejos de Nietzsche. Mas a negativa vinha amenizada: a única coisa-que ela lhe podia oferecer, a amizade, o afeto espiritual — estava à  disposição  de Nietzsche.

Este regressou imediatamente a Lucerna. Viu Lou Salomé, instou para que lhe desse uma resposta mais favorável: mas a moça repetiu sua negativa e seu oferecimento. Tendo que assistir em julho às festas de Bayreuth, de que Nietzsche se empenhava em afastar-se, prometeu reunir-se a ele em seguida, e permanecer algumas semanas a seu lado. Escutaria, então, suas lições e confrontaria o último pensamento do mestre com o do discípulo emancipado. Nietzsche teve que acabar aceitando as condições e os limites que a moça impunha à sua amizade, e aconselhou-lhe a leitura de um de seus livros: Schopenhauer como educador, obra da juventude, hino à valentia de um pensador e à solidão voluntária que Nietzsche continuava aprovando.

— Leia-o — disse-lhe ele — e estará em condições de me ouvir.

Frederico Nietzsche partiu de Basiléia, regressando à Alemanha. Desejava, então, aproximar-se do seu país. Tais desejos, absorventes e súbitos eram, como sabemos, familiares nele. Um suíço que encontrara em Messina, elogiara-lhe a beleza de Grunewald, perto de Berlim. Desejando estabelecer-se ali, escreveu a respeito a Peter Gast, ao qual, seis semanas antes anunciara Messina como sua residência estival.

Visitou Grunewald, que lhe agradou bastante. Mas, na mesma ocasião, viu Berlim e alguns berlinenses, que lhe desagradaram em extremo. Percebeu que seus últimos livros não haviam sido lidos ali e que suas idéias eram totalmente ignoradas; sabia-se somente que era o amigo de Paulo Rée e, decerto, seu discípulo. Tudo isto lhe desagradou; partiu sem demora e passou umas semanas em Naumburg, onde ditou o manuscrito do seu próximo livro, La Gaya Scienztí (*). Ao que parece falou discretamente de sua nova amiga a sua mãe e a sua irmã e aos seus.. Sua alegria maravilhava-os. Não souberam a causa e ignoraram que o seu estranho Frederico guardava no coração um sentimento e uma esperança de felicidade que Lou Salomé não conseguira desalentar completamente.

A representação de Parsifal estava marcada para 27 de julho.   Frederico  Nietzsche   foi  passar  uns   dias num  povoado dos bosques turingíos, Tautenburg, pouco distante de Bayreuth, onde se iam encontrar todos os seus amigos: os Overbeck, os Seydlitz, Gersdorff, a senhorita de Meysenbug, Lou Salomé e Lisbeth Nietzsche. Era ele o único que faltava ao encontro. É provável que, naquele instante, uma única palavra do mestre bastasse para o atrair. Talvez Nietzsche tenha esperado essa palavra.. A senhorita de Meysenbug pensou em fazer uma tentativa de reconciliação, e, na verdade, chegou a nomear Nietzsche diante de Wagner; mas este impôs-lhe silêncio e saiu, batendo a porta.

 

(*)    O y na palavra Gaya,  não parece italiano.     Seguimos a ortografia de Nietzsche.    (N. do A.)         

 

Frederico Nietzsche, que sem dúvida ignorou sempre este incidente, permaneceu nos bosques em que já passara àqueles penosos dias de 1876. Que desgraçado era então! E que feliz era agora, em troca! Reprimira suas dúvidas; um grande pensamento animava-lhe o espírito e um grande amor o coração. Lou Salomé acabava de lhe dedicar, em sinal de simpatia  espiritual,  um  belo  poema:

 

AN   DEN   SGHMERZ

 

À DOR

Tendo lido estes versos, Peter Gast acreditou que fossem de Nietzsche,  que  se regozijou  com  este  erro.

Não escreveu-lhe. Essa poesia não é minha. É uma das coisas que exercem sobre mim poder tirânico e que jamais pude ler sem chorar:  tem o  acento de uma voz que eu esperava, esperava desde a minha infância.   Quem  a escreveu foi  minha  amiga  Lou,  de

quem decerto você não ouviu falar ainda. Lou é filha de um general russo; tem vinte anos; seu espírito é penetrante como o Olhar de uma águia; tem a coragem de um leão, e, no entanto, é uma menina, muito feminina e que talvez não viva muito…         

 

Releu pela última vez o seu manuscrito de La Gaya Scienza, e mandou-o ao editor. Vacilava um pouco, na ocasião de publicar esta nova coleção de aforismos. Sabia que seus amigos criticavam o número de seus volumes, demasiado grande, seus ensaios demasiado curtos e seus esboços apenas formados. Ouvia estas criticas e respondia a elas com aparente boa vontade de ser modesto. Esta boa vontade era, sem dúvida, dissimulada, pois que não podia se resolver a acreditar que, por curtos que fossem seus ensaios, e por pouco completos que fossem seus esboços, não valesse a pena serem lidos.

Pensava muito nos festivais de Bayreuth, mas dissimulava ou não confessava senão em parte o seu pesar. "Estou muito contente por estar impedido de ir — escreve a Lou Salomé. — E no entanto, se pudesse estar ao seu lado, em conversa, se pudesse dizer-lhe isto e outra coisa ao ouvido, ser-me-ia possível, até, suportar a música de Parsifal (de outro modo seria  impossível)."

Parsifal triunfou. Nietzsche acolheu a notícia em tom de troça. "Viva Cagliostro! — escreve a Peter Gast. — O velho feiticeiro conseguiu novamente um êxito prodigioso; os senhores  velhos  soluçavam…"

Assim que terminaram as festas, a jovem russa veio reunir–se a ele, acompanhada de Lisbeth. As duas moças se instalaram no hotel onde Nietzsche as esperava, e ele começou imediatamente a iniciação de sua amiga.

Lou Salomé ouvira em Bayreuth o mistério cristão, a história da dor humana, sofrida como uma prova e finalmente consolada com a bem-aventurança. Nietzsche ensinou-lhe um mistério ainda mais trágico: a dor em nossa vida e em nosso próprio destino; não esperemos passar através dele; aceitemo-lo mais plenamente do que os cristãos. Detenhamos-nos nele. desposemo-lo, amemo-lo com um amor ativo; sejamos ardentes e implacáveis como ele, rudes com os demais como para com nós próprios; aceitemo-lo com sua crueldade e brutalidade; atenuá-lo é ser covarde; e para temperar o nosso valor, meditemos no  símbolo  do Retorno  Eterno.

"São inolvidáveis para mim aquelas horas em que revelou seus pensamentos — escreve a senhorita Lou Salomé. — Confiávamos como se fossem um mistério indizivelmente penoso de dizer; só em voz baixa e com toda a aparência do mais profundo horror falava dele. E, realmente, a vida era para ele um sofrimento tão vivo, que sofria do Retorno Eterno como de uma atroz certeza." A senhorita Lou Salomé ouvia estas confissões com uma inteligência e uma emoção daquelas ropa aria à sua vida, e o diz..mque não permitem duvidar das páginas que escreveu em seguida.

Nesses dias concebeu um breve hino, que dedicou a Frederico   Nietzsche:

Encantado com a oferta, Nietzsche quis responder com outra. Fazia oito anos que se proibira de compor música, criação que o enervava e esgotava; não obstante, se impôs a tarefa de compor um ditirambo doloroso sobre os versos da senhorita Salomé. Este trabalho, demasiado emocionante, causou-lhe grandes transtornos: nevralgias, crises de dúvida, de aridez e de saciedade. Viu-se obrigado a iv para a cama. De seu próprio quarto, dirigiu a Lou Salomé curtos bilhetes: "De cama. Terrível  acesso.    Desprezo  a  vida."

Mas, estas semanas de Tautenburg têm a sua história secreta, que conhecemos mal. Lou Salomé — escreve a senhorita Nietzsche — não foi, jamais, amiga sincera de,seu irmão: tinha curiosidade em ouvi-lo, mas sua paixão e seu entusiasmo eram fingidos, e freqüentemente se sentia cansada com a terrível agitação de Nietzsche. Lou Salomé escreveu isso a Paulo Rée, de quem a senhorita Nietzsche recebeu, surpreendida, umas linhas muito singulares: "Seu irmão fatiga nossa amiga.    Abrevie o encontro, se for possível."

Sentimo-nos inclinados a crer que a senhorita Nietzsche sentia ciúmes daquela iniciação que ela não recebera, ciosa, também, da jovem eslava, de suas seduções um tanto misteriosas e da atenção com que era preciso ouvi-la se se queria dar prazer a Nietzsche.

Sem dúvida, este atemorizou Lou Salomé com a violência de suas paixões e a magnitude de suas exigências; ao oferecer-se como amiga, ela não previra as crises de uma amizade mais arrebatada que um amor tempestuoso. Nietzsche reclamava absoluta submissão a todas as suas idéias e a moça se recusava a isso. Pode se dar a inteligência, como o coração? Além disso, Nietzsche não admitia a sua orgulhosa reserva e reprovava como uma falta essa independência que ela queria conservar. Uma carta enviada a Peter Gast deixa adivinhar  estas  dissensões:

Lou ficará ainda uma semana comigo escreve em 20 de agosto de Tautenburg; é a mais inteligente de todas as mulheres. Cada cinco dias temos uma pequena cena trágica. Tudo o que sobre ela lhe escrevi é absurdo, não menos absurdo, sem dúvida do que isto que escrevo  agora.

Esta frase um pouco desconfiada e reticente, não indica um coração menos entusiasta. Lou Salomé parte de Tautenburg;. Frederico Nietzsche continua a escrever-lhe cartas, muitas das quais conhecemos; confia-lhe seus trabalhos e seus projetos: quer ir a Paris ou Viena, com intenção de estudar ciências físicas para aprofundar a teoria do Retorno Eterno, pois não é bastante que seja surpreendente e bela, é preciso que seja também verdadeira. Tal como o vemos, vê-lo-emos sempre: tentado pelo seu espírito critico quando segue uma inspiração lírica; tentado (pelo gênio lírico quando realiza suas análises críticas. Conta-lhe o êxito feliz do Hino à vida, inspirado pelos seus versos e que ele submeteu ao julgamento de amigos músicos. Um diretor de orquestra quase lhe prometeu uma audição; inclinado à esperança, ele comunica a notícia. "Por este estreito caminho — escreve-lhe — poderemos chegar juntos à posteridade, ficando, ainda, aberto qualquer outro caminho." Em 16 de setembro escreve, de Leipzig, a Peter Gast: "últimas notícias: no dia 2 de outubro, Lou vem aqui; dois meses depois partiremos para Paris, e lá permaneceremos, talvez, durante anos. Tais são os meus projetos."

Sua mãe e sua irmã criticam-no. Ele sabe, e essa hostilidade não o desgosta. "Todas as virtudes de Naumburg estão contra mim — escreve — e convém que assim seja."

Dois meses depois, a amizade rompeu-se. Que aconteceu? Quem sabe se não é difícil imaginá-lo: Lou Salomé foi reunir-se a Nietzsche em Leipzig, como prometera, mas Paulo Rée acompanhava-a. Sem dúvida, Lou desejava que Nietzsche compreendesse que a amizade sempre oferecida tinha que ser livre e sem submissões; uma simpatia e não uma consagração intelectual. Haveria Lou Salomé pensado bem nas dificuldades de semelhante empresa e nos perigos de tal ensaio? Aqueles dois homens se haviam enamorado dela. Qual foi a sua atitude entre os dois? Pode se assegurar que, ao tentar reter a ambos junto de si, não cedia a um instinto talvez inconsciente, de curiosidade intelectual e de domínio feminino? Quem o poderia dizer?    Quem, jamais, o saberá?

Frederico Nietzsche se tornou triste e desconfiado. Certo dia acreditou que seus companheiros, que falavam em voz baixa, caçoavam dele. De outra vez, chega até ele uma história pueril que, no entanto, precisamos transcrever, e que o agitou profundamente: Rée, Lou Salomé e Nietzsche haviam tirado  juntos uma fotografia.    Lou Salomé  e Rée haviam-lhe dito: "Suba nesta "charrete" de criança; nós seguraremos os varais; será o símbolo de nossa união…" Nietzsche respondera: "Não. A senhorita Lou deve sentar-se na "charrete" e Paulo Rée e eu seguraremos os varais…" Assim se fez e a senhorita Lou mandou a fotografia a muitos amigos seus, (pelo menos é o que se contava) como um símbolo de sua supremacia.

Uma idéia mais cruel não demorou a torturar Frederico Nietzsche: Lou e Rée estão de acordo contra mim — pensava; sua amizade atraiçoa-os: eles se amam e enganam-me… Assim, tudo se tornava vil e mesquinho em torno de si. A aventura espiritual que havia sonhado terminava em lamentável disputa. Perdia sua estranha e sedutora discípula e perdia o melhor e mais inteligente de seus amigos daqueles últimos oito anos. Finalmente, ferido e abatido por estes acontecimentos degradantes, e faltando, ele próprio, aos deveres da amizade, denuncia Rée e Lou Salomé: "É um espírito maravilhoso, mas débil e sem finalidade alguma. Isto, por causa de sua educação: todo. o homem deve ser educado para se tornar, de um modo ou de outro, um soldado; e a mulher, de uma forma ou de outra, a esposa de um soldado."

Nietzsche não tinha nem experiência nem resolução suficientes para cortar pela raiz essa situação infinitamente penosa. Sua irmã, que detestava a senhorita Salomé, alimentava suas suspeitas e rancores, e acabou intervindo de maneira brutal. Sem estar autorizada, segando parece, escreveu à moça uma carta que determinou a ruptura. A senhorita Salomé ofendeu-se. Conhecemos o rascunho da última carta que Frederico Nietzsche lhe dirigiu, rascunho que esclarece um pouco do acontecido:

 

Mas que cartas são essas, Lou? Meninas de escola irritadas é que escrevem assim. Que tenho eu que ver com essas misérias? Compreenda-me: desejo que você se eleve diante de mim; não quero que diminua mais ainda.

Só reprovo o ter demorado tanto em perceber o que eu desejava de você. Em Lucerna dei-lhe o meu ensaio sobre Schopenhauer dizendo-lhe que os meus pontos de vista essenciais estavam ali, e acreditando que eles seriam também os seus. Você deveria, então, ter lido e dito: Não. (Nestes assuntos odeio toda a superficialidade). Teria, assim, me poupado muitas coisas! A poesia À Dor, que você escreveu, é uma profunda negação da verdade.

Creio que ninguém pensa de você tanto mal e tanto bem como eu. Não se defenda. Eu já a defendi, diante de mim e diante dos outros melhor do que você o poderia fazer. As criaturas de sua espécie não são suportáveis pelos demais senão  quando têm um fim  elevado.

Que pobre é você em veneração, em reconhecimento, em piedade, em cortesia, em admiração e em delicadeza! (Para não falar de coisas mais elevadas.) Que responderia, se eu lhe dissesse: É corajosa? É incapaz de uma traição?

Então? Não compreende que quando um homem como eu se aproxima de você precisa fazer sobre si próprio uma grande violência?… Você conheceu um dos homens mais generosos, mais benéficos que existem; mas, contra os pequenos egoísmos e as pequenas fraquezas, meu argumento, saiba-o bem, é a repugnância. Ninguém é tão rapidamente vencido pela repugnância como eu.

No entanto, não me iludi sobre coisa alguma; vi em você esse sagrado egoísmo que nos obriga a ceder o que há de mais elevado em nós. Ajudada não sei por que malefício, você o trocou pelo seu oposto, o egoísmo do gato que só quer a vida…

Adeus, querida Lou. Não a verei mais. Defenda sua alma de semelhantes ações e consiga com outros o que comigo já é irreparável.

Não li sua carta até ao fim, mas, de qualquer modo, li  demasiado.   Seu

F. N.

 

 Frederico  Nietzsche  abandonou  Leipzig.

 

ASSIM FALAVA ZARATUSTRA

 

Sua partida foi rápida como uma fuga. Passa por Basiléia e se detém em casa de seus amigos Overbeck, que ouvem as suas queixas. Foi desenganado de seu último sonho. Todos o traíram: Lou, Rée, fracos e pérfidos; Lisbeth, sua irmã, inconsciente e grosseira. De que traição se queixa, é de que acontecimento? Não o diz, mas prossegue na sua amarga queixa. Os Overbeck desejam retê-lo ao seu lado durante alguns dias, mas ele foge. Quer trabalhar, e vencer sozinho a tristeza de ter sido enganado e a humilhação de haver-se enganado. Talvez queira, também, tirar proveito do estado de paroxismo e do sursum lírico a que o levara o seu desespero. Parte e diz a seus amigos: "Hoje entro em absoluta solidão."

Parte e para, primeiro, em Gênova. "Frio; doente. Sofro", escreve laconicamente a Peter Gast. Abandona essa cidade em que talvez o importunem as recordações de um tempo melhor, e afasta-se, seguindo a costa. Na época de que falamos, Nervi, Santa Margarida, Rapallo, Zoagli, eram lugares  desconhecidos dos turistas, simples aldeias habitadas por pescadores que ao anoitecer recolhiam seus barcos ao fundo das enseadas, e cantando remendavam suas redes. Frederico Nietzsche descobriu estes magníficos lugares e escolheu o mais magnífico, Rapallo, para nele humilhar a sua miséria. Em uma página muito simples, descreve as circunstâncias de sua permanência ali:

Passei o meu inverno de 1882-83 na graciosa baia de Rapallo que chanfra a Riviera, não longe de Gênova, entre o cabo de Portofino e Chiavari. Minha saúde não era dás melhores; o inverno, frio e chuvoso; uma pequena hospedaria (*), situada bem à beira do mar, me oferecia um abrigo bem pouco satisfatório, sob todos os pontos de vista. Apesar disso veja-se aqui um exemplo da minha máxima que afirma que tudo o que é decisivo acontece apesar de— foi neste inverno e em meio a este desconforto que nasceu o meu Zaratustra. Todas as manhãs me dirigia para o sul pelo magnífico caminho que sobe até Zoagli entre pinheiros e dominando o imenso mar, e (à medida que a saúde mo permite) chegava até Portofino, bordeando a baía de Santa Margherita. Andando por esses caminhos é que me veio toda a primeira parte do Zaratustra (fiel mir em); mais ainda, o próprio Zaratustra como tipo; ou, mais exatamente, Zaratustra caiu sobre mim   (überfiel mich…).

Em dez semanas ele concebe e termina seu poema. É uma obra nova e, se se pretender seguir a gênese de- suas idéias, surpreendente. Ele meditava, sem dúvida, uma onra lírica, um livro sagrado, mas a doutrina essencial desta obra devia ser dada pela idéia do Retorno Eterno. Pois bem, na primeira parte do Zaratustra, a idéia do Retorno Eterno não aparece. Nietzsche segue uma outra, diferente e contrária — a idéia do Super-homem, símbolo de um progresso real que modifica as coisas, promessa de uma evasão possível para além do acaso e da fatalidade.

Zaratustra anuncia o Super-homem — é o profeta de uma boa nova. Em sua solitude descobriu uma promessa de felicidade, e traz esta promessa; sua força é doce e benfazeja e prediz um grande futuro em recompensa de um grande trabalho. Em outras ocasiões, Frederico Nietzsche o fará empregar uma linguagem mais áspera. Leia-se, porém, esta primeira parte, procurando não confundi-la com as que vêm em seguida,  e  sentir-se-á  o  tom   cheio   de  santidade  e   a  doçura.

Qual seria a causa do abandono da idéia do Retorno Eterno? Nietzsche não nos diz uma única palavra capaz de esclarecer   este   mistério.     A   senhorita   Lou   Salomé   nos   assegura

 

(*)    Albergo  Ia  Posta   (dado  fornecido  por  M.   Lanzky). (N. do A.).

 

que em Leipzig, durante seus curtos estudos Nietzsche havia compreendido a impossibilidade de fundamentar em razões as suas hipóteses.   Isso, porém, não diminuía o seu valor lírico —  do qual, um ano mais tarde ele saberá tirar partido — e, de qualquer modo, não explica a aparição de uma idéia contrária. Que pensar, então? Talvez o seu estoicismo se tenha sentido   vencido   pela   traição   dos  amigos.    "Apesar   de   tudo —  escreve a Peter Gast em 3 de dezembro — não desejaria reviver estes últimos meses." Sabemos que ele não cessava de experimentar em si próprio a eficácia de seus pensamentos. Incapaz de suportar o símbolo cruel, julgou impossível propô-lo aos homens sem mentir, e inventou um símbolo novo, o   Ubermensch,    "o  Super-homem".    "Não  quero  recomeçar.—  Escreve em suas notas— (ich will das Leben nicht ivieder). Como pude suportar? Criando, fitando o Super-homem que diz sim à vida.    Ah! Eu também procurei dizer sim!"

Frederico Nietzsche quer responder ao grito da sua juventude: Ist Veredlung moglich? "É possível o enobrecimento?" E quer responder: sim. Deseja e consegue crer no Super-homem. Consegue apoderar-se dessa esperança que convém aos desígnios da sua obra. Que é que se propõe? Entre tantas veleidades que o tentam, esta é a mais forte": deseja responder ao Parsifal, obra contra obra. Richard Wagner desejou mostrar a humanidade salva de sua fraqueza pelo mistério eucarístico, o sangue impuro dos homens renovado pelo sangue eternamente vertido de Cristo. Frederico Nietzsche quer mostrar a humanidade salva de sua fraqueza pela glorificação de sua própria essência, pelas virtudes de um grupo escolhido que purifica e renova seu sangue voluntariamente. Será esse todo o seu desejo? Certamente que não. Assim falava Zaratustra é algo mais que uma resposta ao Parsifal. As idéias de Nietzsche têm origens sempre graves e longínquas. Qual será sua vontade final? Quer orientar e dirigir a atividade dos homens; quer criar costumes, indicar aos humildes sua tarefa, aos fortes, seu dever e seus mandamentos — e elevá-los a todos para um sublime destino. Desde menino, de adolescente e de moço, teve essa aspiração. Aos trinta e oito anos, neste momento de crise e decisão, torna a encontrá-la, é quer agir. O Retorno Eterno já não o satisfaz, pois não tolera o viver prisioneiro dentro da natureza cega. A idéia do Super-homem, que é um princípio de ação e uma esperança de salvação, ao contrário — seduz-o.

Qual é o sentido desta idéia? É uma realidade, ou um símbolo? Uma ilusão, ou uma esperança? Impossível dizê-lo. O espírito de Nietzsche é rápido e sempre oscilante. A veemência da inspiração que o arrasta não lhe deixa nem tempo, nem força para definir; antes de compreender perfeitamente as idéias que o agitam — ele mesmo as interpreta em diversos sentidos. Às vezes, ó Super-homem lhe parece uma realidade muito séria; com maior freqüência, porém, parece descuidar ou desdenhar toda a crença literal, e sua idéia não é senão uma fantasia lírica que ele usa para animar a baixa humanidade. É uma ilusão, Uma ilusão útil e benfazeja, diria, se ainda fosse wagneriano e se atrevesse a empregar de novo o vocabulário dos seus trinta anos. Nesses momentos gostava de repetir a máxima de Schiller: "Atreve-te a sonhar e a mentir…" Acreditamos que o  Super-homem é, sobretudo, o sonho é a mentira de um poeta lírico. Cada espécie tem seus limites, é não os pode franquear. Nietzsche sabe-o e o escreve. Foi um trabalho penoso. Um tanto refratário a conceber esperanças, Nietzsche rebelava-se freqüentemente contra a tarefa que se impusera. Todas as manhãs, ao sair de um sono que o cloral fazia doce, voltava à vida com uma horrível amargura; vencido pela tristeza e o rancor, escrevia páginas que em seguida se obrigava a ler atentamente, corrigindo ou suprimindo. Temia aquelas horas malignas em que a cólera o possuía como uma vertigem e lhe escurecia as melhores idéias. Evocava então seu herói, Zaratustra, sempre nobre, sereno e procurava junto dele alivio e conforto. Numerosas passagens do seu poema são a expressão desta angústia. Zaratustra fala-lhe:                                                        

Sim, conheço o teu perigo, Mas, por meu amor e minha esperança, te rogo: não arrojes de ti teu amor e tua esperançai

O homem nobre está sempre em perigo de se converter num insolente, num caçoísta e num destruidor. Ah! Conheci homens nobres que perderam suas mais altas esperanças, e, desde então, caluniaram todas as mais altas esperanças.

Por meu amor e minha esperança te rogo: não arrojes o herói que há em tua alma; crê na santidade de tua mais alta esperança!

O combate sente-se continuamente. Não obstante, Nietzsche avança em seu trabalho. Tem que aprender diariamente e de novo a sabedoria e moderar, destruir ou enganar seus desejos. Mas ele já está acostumado a este rude combate, c consegue trazer sua alma novamente a um estado de serenidade e fecundidade. Termina um poema que não é senão o começo de um poema mais vasto. Zaratustra, voltando às suas montanhas, abandona os homens. Ainda duas vezes terá que descer até eles, antes de lhes ditar as tábuas de sua Lei. O que ele diz, porém, é suficiente para deixar entrever as formas essenciais de uma humanidade obediente às minorias escolhidas. Ela se divide em três castas: a mais baixa, a casta popular, abandonada às suas crenças humildes; acima desta, a casta dos chefes, organizadores e guerreiros; e acima destes, a casta sagrada, os poetas que criam as ilusões e indicam os valores.    Recordemos   o   ensaio   de   Richard  Wagner   sobre   a

arte, a religião e a política, tão  admirado, havia tempo, por Nietzsche.    Nele se propõe uma hierarquia semelhante.

Em seu conjunto, a obra é serena; é a mais formosa vitória de Frederico Nietzsche. Ele reprime suas tristezas; exalta a força, não a brutalidade; a expansão, não a agressão. Nos últimos dias de fevereiro de 1882, escreve essas páginas finais que são, talvez, as mais belas e mais religiosas que o pensamento  naturalista tenha já inspirado:

Meus irmãos! Permanecei fiéis à terra, com toda a força do nosso amor! Que o vosso pródigo amor e o vosso conhecimento concordem com ò sentido da terra. Eu vos suplico e vos rogo.

Não deixeis nossa virtude voar longe das coisas terrestres e debater-se contra muros eternos! Ah! Houve sempre  tanta virtude  extraviada!

Como eu, trazei de novo á terra a virtude extraviada; sim, trazei-a à carne e à vida, a fim de que dê á terra seu sentido — um sentido humano!

Enquanto Nietzsche, na costa genovesa acabava de compor esse hino, Richard Wagner morria em Veneza. Nietzsche recebeu a notícia com grave emoção, e reconheceu uma espécie de providencial acordo na coincidência dos acontecimentos. O poeta de Siegfried morrera! Pois bem, a humanidade não ficaria um momento sem lirismo, pois que Zaratustra já havia falado!

Fazia seis anos que não dava sinal de vida a Cosima Wagner; mas, naquele momento quis lhe dizer que não esquecera nada dos dias passados e que compartilhava de sua dor. "Estou seguro de que você me aprovará" — escreveu à senhorita de Meysenbug  (*).

Em 14 de fevereiro, escreveu ao editor Schmeitzner:

Hoje tenho algo para lhe dizer: acabo de dar um passo decisivo, quero dizer, proveitoso pára o senhor mesmo. Trata-se de um opúsculo de cem páginas apenas intitulado: Assim falava Zaratustra. Um livro para todos e para ninguém. É um poema, ou um quinto evangelho, ou qualquer outra coisa que não tem nome; além disso, a mais séria, a mais feliz, também, de minhas produções— e acessível a todos…

 

(*)    Carta inédita fornecida por M. Romain Rolland  (N. do A.).

 

Escreve a Pe r Gast e à senhorita de Meysenbug, dizendo-lhes que nesse ano renunciaria a toda a sociedade e que irá diretamente de Gênova a Sils.

O mesmo fizera Zaratustra, que deixara a grande cidade regressando às montanhas. Mas, Frederico Nietzsche não é Zaratustra. É fraco, e a solidão exalta-o e espanta-o. Passam-se várias semanas. O editor Schmeitzner é lento. Nietzsche se impacienta e modifica seus projetos para o verão; deseja ouvir uma voz humana. Sua irmã, que se encontra em Roma, ao lado da senhorita de Meysenbug, adivinhando que ele está cansado e acessível, aproveita o momento para tentar uma aproximação. Nietzsche hão se defende, e promete ir a Roma.

Ei-lo em Roma. A sua velha amiga entrá-lo, imediatamente, numa brilhante sociedade, a que pertencem Lembach e – também aquela brilhante Donhoff, hoje princesa von Bulow, mulher amável e grande compositora. Frederico Nietzsche sente com desagrado quão diferente é daqueles alegres conversadores; percebe o quanto é desconhecido deles, e compreende a diferença que existe entre o seu mundo e este. "É um homem estranho, curioso e profundamente excêntrico" — pensam todos de Nietzsche. Um grande espírito? — Ninguém se atreve a lançar este julgamento audaz. E Frederico Nietzsche, tão orgulhoso quando se encontra sozinho, se admira, se perturba e se humilha. Dir-se-ia que carece da força necessária para desprezar esta gente que não o entende. Inquieta-se e começa a temer por Zaratustra, seu bem-amado filho.

"Desgosta-me pensar— escreve a Gast que lerão o meu livro e até que, possivelmente, falem dele. Quem, porém, é bastante grave para me compreender? Se eu tivesse a autoridade do velho Wagner, meus assuntos estariam em melhor situação; tal como estão as coisas, ninguém me poderá salvar dos homens de letras. Para o diabo!

Outros dissabores vêm atormentá-lo. Durante o inverno acostumara-se ao uso do cloral para combater a insônia, e privando-se dele agora, não conseguia recuperar um sono normal. O editor Schmeitzner imprime lentamente Assim falava Zaratustra. Por que esta demora? Nietzsche se informa e respondem-lhe que é preciso, primeiro, tirar quinhentos mil exemplares de um hino para as escolas dominicais. Espera ainda uma semana, sem receber nada. Pergunta de novo e dão-lhe outra desculpa: a coleção de hinos está pronta, mas ó preciso tirar e lançar um grande lote de folhetos anti-semitas. Chega junho, e o Zaratustra não apareceu ainda. Nietzsche se irrita e sofre pelo seu herói cujos passos são impedidos pela  dupla necessidade  da beatice  e  do  anti-semitismo.

Desanima de escrever e deixa depositadas na estação suas malas com os livros e manuscritos que trouxera: cento e quatro quilos de papel. Tudo em Roma o enfadava: a mesquinha plebe de bastardos filhos de padres e os padres mais feios ainda que seus bastardos; as igrejas, "cavernas de cheiro insípido". Seu ódio ao catolicismo é instintivo e vem de longe; cada vez que se aproxima dele, estremece. Não é o filósofo que julga e reprova: é o filho do pastor luterano, que não suporta a outra igreja cheia de incenso e de ídolos.

Ouve elogiar a beleza de Aquila e sente o desejo de abandonar Roma. Frederico de Hohenstaufen, imperador dos árabes e dos judeus, o inimigo dos papas, residiu ali, e Nietzsche também gostaria de fazer o mesmo. No entanto, o quarto que ocupa em Roma é formoso e bem situado — piazza Rarberini — na parte mais alta de uma casa. Ali pode esquecer a cidade; o murmúrio da água que um tritão deixa escorrer do seu búzio, disfarça o rumor humano e encobre sua tristeza. Nesse quarto, é que ele improvisou, uma noite, a mais comovedora expressão  de desespero e solidão:

Assim falava Zaratustra — Um livro para todos e para ninguém, apareceu enfim, nos primeiros dias de junho.

"Movimento-me muito — escreve Nietzsche. — Vivo numa agradável sociedade, mas assim que me sinto só, sinto-me mais emocionado que nunca." Em breve conhece a sorte de seu livro. Seus amigos apenas lhe falam dele; ninguém se interessa por esse Zaratustra, estranho profeta que ensina a incredulidade em tom bíblico. "Como é amargo!" dizem a senhorita Nietzsche e a senhorita Meysenbug, cristãs de coração, que se sentem feridas pelo livro. "É eu — escreve Nietzsche a Peter Gast — eu, que sinto o meu livro tão doce!"

O calor dispersou aquela sociedade romana. Nietzsche não sabia para onde ir. Esperara dias tão diferentes! Realmente, abrigara a convicção de que comoveria a Europa letrada e de que enfim, conquistaria um público, ou (talvez mais exatamente) que não ele tão fraco, mas sim Zaratustra, tão forte, conquistaria um grupo de discípulos e talvez de fiéis. "Para este verão — escrevia em maio a Peter Gast — tenho um projeto: escolher, no meio de qualquer bosque, um castelo preparado antigamente pelos beneditinos para as suas meditações, e enchê-lo de companheiros e de homens escolhidos… Não tenho outro remédio senão começar a procurar novos amigos”.

Mas em 23 de junho, aterrado pela perda de suas esperanças, subiu para o seu retiro predileto da Engadina.

Lisbeth Nietzsche, que regressava à Alemanha, acompanhou-o. Jamais sua irmã o viu tão brilhante e alegre como naquelas poucas horas de viagem. Improvisava epigramas, "bouts-rimés" cujos temas eram propostos por sua irmã; ria como um menino e, temendo os intrusos que teriam perturbado sua alegria, em cada estação chamava o chefe de trem e subornava-o para que os deixassem a sós.

Frederico Nietzsche não vira Engadina desde o verão de 1881, quando concebida a idéia do Retorno Eterno e as palavras de Zaratustra. Dominado pelas recordações e pela repentina solidão, arrastado por um prodigioso movimento de inspiração, escreveu em dez dias a segunda parte de sua obra.

Esta segunda parte é amarga. Frederico Nietzsche não pode reprimir por mais tempo os rancores que já no inverno anterior o haviam ameaçado; já não sabe unir a força à doçura. Antes, Zaratustra dizia: "não sou caçador de moscas", e desdenhava de seus adversários. Falou, então, como um benfeitor, e não o ouviram. Nietzsche empresta-lhe, agora, outra linguagem: "Zaratustra justiceiro — escreve em suas curtas notas — uma manifestação da justiça em sua forma mais grandiosa; da justiça que forma, que edifica, e que, portanto, tem  que destruir."

Zaratustra justiceiro só tem insultos e lamentações em seus lábios. Canta aquele canto noturno que Nietzsche improvisara uma noite em Roma para si só.

Sou luz. Ah, se fosse noite! Estar rodeado de luz é a minha solidão

Já não é aquele herói que Frederico Nietzsche criara tão superior a toda a humanidade. É um homem desesperado — é Nietzsche, em suma, demasiado fraco para exprimir outra coisa senão sua irritação e suas  queixas:

Em verdade, meus amigos, caminho entre os homens como entre fragmentos e membros de homens!

Nada tão espantoso para os meus olhos como ver os homens despedaçados e dispersos como se estivessem estendidos  num   campo   de  matança.

E quando meus olhos do presente fogem para o passado, encontram sempre o mesmo: fragmentos, membros e espantosos acasos nada de homens,

Ah, meus amigos: o presente e o passado sobre a terra são, para mim, as coisas mais insuportáveis; e não me seria possível viver se não tivesse a visão do que fatalmente há de vir.

Um visionário, um criador, futuro ele próprio, e ponte para o futuro, ah! e de certo modo, um doente também, em pé sobre essa ponte:    Isto é que é Zaratustra.

Caminho entre os homens, fragmentos do futuro, desse futuro que contemplo nas minhas visões.

Nietzsche difama os mandamentos morais que ampararam a velha humanidade e deseja aboli-los para implantar os seus. Conheceremos, afinal, esta nova Lei? Nietzsche demora em divulgá-la. "As qualidades do Super-homem se fazem cada vez mais visíveis" — escreve em suas notas. Desejaria que assim fosse, mas poderá ele acaso, invadido pelo descontentamento e pela amargura, enunciar e definir uma forma de virtude, um novo bem e um novo mal, como prometera? Pelo menos, tenta fazê-lo. Um humor áspero e violento arrasta-o, e a virtude que exalta é a força crua, não disfarçada pelos homens; é o ardor selvagem que as prescrições morais quiseram constantemente atenuar, matizar ou vencer*   Atraído por esta força, cede ao seu influxo:

Contemplo com arroubo os milagres que o ardente sol faz florescer diz Zaratustra. — Tigres, palmeiras, serpentes cascavéisEm verdade, há um futuro até para o mal e o homem não descobriu ainda o mais ardente meio-dia... Um dia, virão ao mundo dragões maiores…. Vossa alma está tão longe do que é grande, que o Super-homem lhes padeceria espantoso fim sua bondade!

Com esta enfática frase, cujas palavras são mais sonoras que fortes, parece Nietzsche querer dissimular algo que não consegue satisfazê-lo em seu pensamento: não volta a insistir sobre esse evangelho do mal, e, prefere marcar o difícil momento em que o profeta anunciará sua lei. Zaratustra deve, primeiro, terminar sua tarefa de justiceiro e de destruidor dos fracos. Tem que golpear, mas com que arma? Nesta segunda parte, Nietzsche emprega a idéia do Retorno Eterno, que desprezara na primeira, modificando, porém, o sentido e a aplicação. Já não é um exercício de vida espiritual, nem um processo de edificação interior — mas um martelo, segundo ele próprio declara, um instrumento de terror moral, um símbolo que dispersa o sono.

Zaratustra reúne seus discípulos e quer lhes comunicar a doutrina, mas sua voz desfalece e morre. Repentinamente sacudido pela piedade o próprio profeta sofre ao evocar a espantosa idéia; vacila no instante de destruir as ilusões de um futuro melhor, as esperanças de vida futura e de beatitudes espirituais que com suas nuvens escondem aos homens a miséria do seu estado.    Perturba-se.   Um corcunda, que adivinha o que se passa no seu interior, interpela-o, rindo divertida-mente: "Por que Zaratustra fala a seus discípulos de modo diferente daquele com que fala consigo próprio?" Zaratustra compreende seu erro, e procura novamente a solidão. E assim termina a segunda parte.

Em 24 de junho daquele ano de 1882, Nietzsche se havia instalado em Sils; antes de 1 de julho, escreve a sua irmã:

Suplico-lhe, suplico-lhe urgentemente, que procure Schmeitzner e obtenha dele, verbalmente ou por escrito, como achar melhor, a promessa de que, assim que receba o manuscrito, mande imprimir a segunda parte do ZaratustraEsta segunda parte ê hoje uma realidade. Por maiores esforços que você faça para a imaginar, não fará uma imagem exagerada da veemência de sua criação. Em nome do céu, peço-lhe que arrume bem as coisas com Schmeitzner;  eu sou demasiado  irritadiço para o fazer.

Schmeitzner compromete-se e cumpre a palavra. Em agosto, as provas chegam às mãos de Nietzsche, que, sem forças para este trabalho, deixa a Peter Gast e a sua irmã o cuidado de as corrigir. As coisas terríveis que disse e as mais terríveis  ainda,  que  estão  por  dizer,  aniquilam-no.

Outras preocupações se juntam à tristeza do seu pensamento. Certa conduta indiscreta de sua irmã reanimara os dissentimentos. do verão anterior; na primavera, ao reunir-se–lhe, e sabendo que ela tem certo costume de enredar as coisas, dissera-lhe: "Prometa-me não tocar de novo naquela história de Lou Salomé e de Paulo Rée." Durante três meses ela se contivera, mas, em seguida, faltou à sua promessa e falou. Ignoramos o que disse, e, de novo a obscuridade desta história nos envolve. "Lisbeth, — escreve Nietzsche à senhora Overbeck — quer se vingar a todo o custo da jovem russa. ." Sem dúvida, Lisbeth lhe relatara algum fato, ou alguma conversa que ele ignorava. Uma irritação doentia apoderou-se dele, e, sob seu influxo, escreveu a Paulo Rée a seguinte carta, da qual se achou um rascunho (embora não seja seguro que tenha sido enviada tal como aqui a lemos):

Com grande atraso, quase com um ano de atraso, vim a saber o papel que o senhor desempenhou nos acontecimentos do último verão, e jamais tive a alma tão cheia de asco como a tenho agora, ao pensar que um indivíduo da sua espécie, insidioso, embusteiro e falso, pôde, durante anos, chamar-se de meu amigo. A meu ver, isto / um crime, e não somente contra mim, mas antes e, sobretudo, contra a amizade, contra essa vazia palavra amizade.

Teria um grande prazer em lhe dar uma lição de moral prática, com um par de pistolas; talvez conseguisse, na melhor das hipóteses, interromper definitivamente seus trabalhos sobre a moral. Nestes trabalhos, é preciso ter as mãos limpas e não os dedos sujos, senhor doutor Paulo Rée!

Esta carta não é suficiente para condenar Paulo Rée. Nietzsche escreveu-a arrebatado pela cólera e atendendo a informações de sua irmã, quase sempre mais arrebatada do que verídica. A carta tem valor como testemunho precioso da impressão causada em Nietzsche pelo caso; mas é um fraco testemunho dos antecedentes mal conhecidos da questão.

Qual foi a conduta de Paulo Rée, quais as suas culpas e quais os seus direitos? Em abril de 1883, seis meses depois das dificuldades de Leipzig, Rée propusera a Nietzsche dedicar-lhe uma obra sobre as origens da consciência moral — Obra totalmente inspirada nas idéias nietzschianas. Nietzsche recusara esta homenagem pública, escrevendo a Peter Gast: "Não quero que se me confunda com ninguém". Uma carta escrita por Jorge Brandes, em 1888, mostra-nos Paulo Rée vivendo em Berlim com a senhorita Salomé "fraternalmente", segundo ambos dizem. Não é de duvidar que Rée ajudasse a senhorita Salomé, em 1893, a escrever o seu livro sobre Frederico Nietzsche, livro muito inteligente e muito nobre. Inclinamos-nos a crer que entre aqueles dois homens só houve um contratempo:    o  amor comum  que a mesma mulher lhes  inspirou.   ,

Frederico Nietzsche escreve longas cartas febris. Lamenta ver-se, depois dos quarenta anos, traído por seus amigos. Franz Overbeck, inquieto, sobe a Sils para o distrair da solidão em que ele se debate e se consome. Sua irmã, pessoa prudente, de gostos burgueses, dá-lhe conselhos em resposta às suas lamentações. "Está sozinho, é certo, mas você não procurou a solidão? Entre a serviço de alguma Universidade; quando tiver um título e alunos, será conhecido e seus livros já não cairão no vácuo…" Nietzsche ouve de mau humor estes conselhos, mas acaba aceitando-os e se dirige ao reitor da Universidade de Leipzig, o qual, sem demora, aconselha-o a que não tente, pois que nenhuma Universidade alemã poderia aceitar entre os seus professores um ateu, um anticristão declarado. "Esta resposta me devolveu a coragem" — escreve ele a Peter Gast, e manda a sua irmã uma carta em termos rudes, que ferem   Lisbeth:

Sem dúvida convém que eu seja ignorado; mais ainda: convém que eu próprio vá ao encontro da calúnia e do desprezo. Meus "próximos" são os primeiros a se porem contra mim: assim o compreendi no último verão, e, magnificamente, tive consciência de que me achava no meu caminho. Quando me ocorre pensar "não posso suportar mais a solidão" sinto-me em rebelião contra o  que há  de mais  elevado  em mim.

Em setembro dirigiu-se a Naumburg, onde tinha o propósito de se demorar algumas semanas. Sua mãe e sua irmã inspiravam-lhe sentimentos complexos que escapam à análise. Amava-os por serem seus e porque ele era terno e fiel, e infinitamente sensível às recordações. Mas cada uma de suas idéias, cada um de seus desejos afastavam-no deles e seu espírito desprezava-os. Não obstante, a velha casa de Naumburg era o único lugar do mundo onde ainda encontrava — com a condição de não se demorar nela muito tempo — certa doçura da vida.

Encontrou a mãe e a filha em plena discórdia. Lisbeth havia-se enamorado de um tal Förster, agitador, ideólogo germanista, anti-semita e que organizava uma empresa de colonização no Paraguai. Lisbeth queria casar-se com ele e segui-lo e sua mãe, desesperada, tentava retê-la. A senhora Nietzsche recebeu seu filho como um salvador e narrou-lhe os insensatos projetos de Lisbeth. Nietzsche ficou consternado. Conhecia aquele homem e suas idéias e desprezava as paixões baixas e torpes que sua propaganda suscitava; desconfiava, até, que esse tal Förster falara mal de sua obra. Que Lisbeth, sua companheira de infância seguisse aquele homem, era mais do que podia suportar. Chamou-a e falou-lhe com violência. Ela, porém, replicou  com energia.    A moça, embora  franzina

Em meados de novembro, abandona Gênova, e, seguindo a costa ocidental, põe-se em busca de um retiro para o inverno. Deixa para trás San Remo, Menton, Mônaco e detém-se em Nice, que o encanta. Encontra ali esse ar vivo, essa plenitude de luz e esses dias transparentes que tão necessários lhe são. "Luz, luz, luz! — escreve. — Eis-me aqui de novo em equilíbrio." Desagrada-lhe a cidade cosmopolita, e de início, aluga um quarto numa casa da velha cidade italiana, não Nice, mas Nizza, como ele escreve sempre. Tem por vizinhos gente do povo, trabalhadores, pedreiros, empregados e todos, falam italiano. Foi em condições semelhantes que em Gênova, em  1881,  encontrara   certa  felicidade.

Afugenta os pensamentos vãos e faz um enérgico esforço para terminar o Zaratustra. Mas eis aqui o maior de seus infortúnios: a dificuldade do seu trabalho é extrema, talvez insuperável. Terminar o Zaratustra? A obra é imensa. Trata-se de um poema invocado para fazer esquecer os poemas de Wagner; de um evangelho que deverá fazer esquecer os Evangelhos. Durante seis anos, de 1875 a 1881, Frederico Nietzsche havia examinado todas as morais e mostrado a ilusão que lhes serve de base; definiu sua idéia do universo, apresentando-o como um mecanismo cego, como uma roda que gira eternamente sem objeto. Não obstante, ele quer ser um profeta anunciador de virtudes e de fins: "Eu sou aquele que dita os valores para mil anos", diz ele nessas notas em que seu orgulho relampeja. "Imprimir sua mão nos séculos, como sobre cera; escrever sobre a vontade dos milênios como sobre o bronze, mais duro que o bronze, mais nobre que o bronze – eis aqui  (dirá Zaratustra)   a beatitude  do criador."

Que leis, que tábuas quererá Nietzsche ditar, que valores escolherá para honrá-los ou desprezá-los, e qual é o seu direito de escolher e construir uma ordem de beleza e de virtude, dentro da natureza, regida por uma ordem mecânica? Sem dúvida, Frederico Nietzsche nos responderia que o seu direito é o. direito do poeta cujo gênio, criador de ilusões, impõe à imaginação dos homens tal amor ou tal ódio, tal Bem ou tal Mal; mas não por isso deixa de reconhecer a dificuldade de sua empresa, como confessa na segunda parte, últimas páginas de seu poema: "O perigo está — diz Zaratustra — em que o meu olhar se dirige para cima ao mesmo tempo em que minha mão desejaria se agarrar e suster…  nó vazio!"

Nietzsche quer alcançar a meta que se propôs. Neste mesmo verão sentiu a trágica ameaça que pesa sobre sua vida, e sente impaciência por terminar uma obra que deverá ser, afinal, a expressão de seus últimos desejos, de seu último pensamento. Tivera a intenção de acabar o seu poema em três partes; mas duas já estão escritas e ele não disse ainda quase nada. O drama não está sequer esboçado. É preciso mostrar Zaratustra em contacto com os homens, anunciando o Retorno Eterno, humilhando os fracos, fortificando os fortes, destruindo a velha humanidade; é preciso mostrar o Zaratustra legislador, ditando suas Tábuas, morrendo, afinal, de piedade e de alegria, na contemplação de sua obra. Sigamos as notas de Nietzsche:

Zaratustra alcança, ao mesmo tempo, o extremo desespero e a maior felicidade. No mais terrível instante do contraste, sucumbe.

A história mais trágica, com um desenlace divino.

Zaratustra se faz gradualmente, maior. Sua doutrina se desenvolve à medida que ele cresce.

O Retorno Eterno brilha como um sol poente sobre a  última  catástrofe.

Na última parte, grande síntese de quem cria, ama e destrói.

No mês de agosto, Nietzsche, imaginara um desenlace. Suas disposições intimas eram, então, adversas, e o trabalho ressentira-se disso. Volta, pois ao esquema, e procura tirar partido dele. O que deseja escrever é um drama. Situa a ação num lugar antigo, numa cidade devastada pela peste. Os habitantes desejam iniciar uma nova era; procuram um legislador, e chamam Zaratustra, que desce até eles seguido de seus discípulos.

—  Vão — diz-lhes — e anunciem o Retorno Eterno… Os discípulos têm medo, e confessam-no:

—  Nós podemos suportar a tua doutrina — dizem — mas podê-lo-á também  esta  multidão?

Devemos fazer um ensaio com a verdade! — responde Zaratustra. — Essa verdade deve destruir a humanidade, pois bem, que assim seja!

Os discípulos continuam vacilando. E então, Zaratustra ordena:

— Eu pus em vossas mãos o martelo que há de forjar a humanidade — utilizai-o!

Mas os discípulos temem o povo, e abandonam seu mestre. Zaratustra, então fica só. A multidão se espanta, se irrita e enlouquece ouvindo-o:

Um homem suicida-se, outro enlouquece. Um divino orgulho de poeta anima Zaratustra: Tudo deve ser trazido à luz. Mas, no momento em que, simultaneamente, anuncia o Retorno Eterno e o Super-homem, cede à piedade.

Todos o renegam. É preciso — dizem — sepultar esta doutrina e matar Zaratustra.

não  há no  mundo alma alguma  que  me  ame  murmura este como poderia eu amar a vida?

E morre de tristeza, ao descobrir o sofrimento de que é causa.

— Por amor, causei a mais violenta dor; agora, sucumbo  à  dor  que   causei.

Partem todos, e Zaratustra, que permaneceu só, toca com a mão sua serpente: Que me aconselha a minha sabedoria? A serpente morde-o; a águia destrói a serpente, o leão se precipita sobre a águia, e Zaratustra morre presenciando a luta entre seus animais.

Quinto ato:   os louvores.

A liga de fiéis que se sacrificam sobre a tumba de Zaratustra. Os fiéis haviam fugido, c agora, vendo-o morto, tornam-se herdeiros de sua alma e elevam-no à sua altura.

Não obstante as grandes belezas que este plano deixa entrever, Frederico Nietzsche abandona-o. Desagrada-lhe mostrar a humilhação de seu herói? É provável, e, assim, vemo-lo procurando um desenlace (triunfal. Mas esbarra, principalmente, com uma dificuldade de fundo, que talvez não conceba claramente: os dois símbolos sobre os quais repousa o seu poema, o Retorno Eterno e o Super-homem, constituem, em conjunto, um desacordo que torna impossível o acabamento da obra. O Retorno Eterno é uma áspera verdade, que suprime toda esperança; o Super-homem é uma esperança e uma ilusão. Não há ponte alguma de um a outro, e a contradição é completa. Sé Zaratustra ensina o Retorno Eterno, não poderá despertar nas almas uma crença apaixonada na super-humanidade; e se ensina o Super-homem não poderá propagar o terrorismo moral do Retorno Eterno. Não obstante, obrigado a. refugiar-se neste absurdo pela desordem e premência de seus pensamentos, Nietzsche impõe a Zaratustra essa dupla tarefa.

Compreenderá claramente o problema? Ignoramo-lo. Jamais confessa estas reais dificuldades em que tropeça. Se não as vê claramente, porém, sente certo temor e procura uma saída.

Escreve um segundo plano, que não deixa de ser habilidoso : a mesma decoração, a mesma cidade açoitada pela peste, consumida pelas chamas; a mesma súplica a Zaratustra, que vai até àquele povo dizimado. Vai, porém, como benfeitor, e evita anunciar a terrível doutrina. Desde inicio, dita as suas leis e fará-las aceitar. Mais tarde, só mais tarde anunciará o Retorno Eterno. Quais são as leis que ele ditou? Frederico Nietzsche indica-as. Aqui está uma das páginas, bem raras, pela qual discernimos a ordem que ele sonhou:

A solidão necessária de quando em quando, para que o ser penetre em si mesmo e se concentre..

A Ordenação das Festas, fundada sobre um sistema de universo: festas das relações cósmicas, festa da terra, festa da amizade, do grande meio-dia.

Zaratustra explica as suas leis e as faz amar por todos; repete nove vezes as suas predicações, e anuncia, por fim, o Retorno Eterno. Fala ao povo, e suas palavras têm um acento de prece.

O grande problema. No princípio foram dadas todas as leis. Tudo está preparado para o anúncio do Super-homem grandioso e terrível instante! Zaratustra revela a doutrina do Retorno Eterno — que agora pode ser suportada; ele próprio a suporta pela primeira vez.

Momento decisivo: Zaratustra interroga toda aquela multidão  reunida para a festa:

Ao morrer, está abraçado á terra. E embora ninguém tivesse dito coisa alguma, todos souberam que Zaratustra estava morto.

É um belo desenlace, mas Nietzsche não demora em achá-lo demasiado fácil e demasiado bonito. Aquela aristocracia platônica, instituída um pouco às pressas, deixa-o em dúvidas. Corresponde exatamente aos seus desejos. Mas, corresponderá aos seus pensamentos? Hábil em destruir todas as morais anteriores, Nietzsche não acredita ter o direito de propor tão depressa uma moral nova. Inquieta-o, também, a aclamação final. Todos respondem: Sim! Será isto concebível? As sociedades humanas arrastarão sempre após si uma turba imperfeita, à qual só se fará obedecer pela força, ou pelas leis. Frederico Nietzsche não o ignora: "Sou um visionário — escreve em suas notas; — mas minha consciência ilumina inexoravelmente minha Visão e sou eu próprio quem duvida dela." Termina renunciando a este último plano. Jamais contará a vida ativa, nem a morte de Zaratustra.

Nenhum documento nos permite penetrar o segredo de sua tristeza: nenhuma carta, palavra alguma a expressam. Consideremos este silêncio como uma confissão de sua angústia c de sua humilhação. Não são, por acaso, certas? Frederico Nietzsche desejava sempre escrever uma obra clássica, — um livro de história, um sistema, um poema — digna dos antigos gregos que escolhera por mestres, mas jamais pudera dar forma a esta ambição. Ao finalizar aquele ano de 1883, acabava de fazer uma tentativa quase desesperada; a abundância e a importância de suas notas permitem-nos medir a grandeza que foi absolutamente estéril. Ele nem consegue fundar sim meia   moral  nem   compor  o  seu  poema trágico.    Frustra,  ao mesmo tempo, suas duas obras e vê desvanecer-se seu sonho. Que é ele, afinal de contas? Um infeliz, capaz, unicamente, de esforços breves, de  cantos líricos e de lamentações.

O ano de 1884 começava tristemente. Alguns dias formosos que por acaso fez em janeiro, reanimaram-no. Subitamente, ele improvisa: nada de cidades, nem de povos, nem de leis; uma desordem de queixas, apelos e de fragmentos morais que se diria escombros subsistentes da maior obra em ruínas. Tal é a terceira parte do Zaratustra. Como Nietzsche, o profeta vive só, retirado na montanha. Fala para si próprio, ilude-se, esquece que está só. Ameaça e exorta uma humanidade que nem o teme, nem o escuta. Preconiza o desprezo das virtudes habituais, o culto do valor, o amor da força e das gerações que nascem. Não desce, porém, até ela, e ninguém ouve a sua predica. O profeta sente-se triste e deseja morrer. E então, a Vida, que surpreende o seu desejo, chega até ele e reanima-o:

— Oh, Zaratustra! — diz a deusa — não estales o teu chicote, porque esse som é insuportável! Tu bem sabes que o ruído assassina os pensamentos… E se soubesses que pensamentos tão ternos me ocorrem! Ouve: não me és bastante fiel, não me amas tanto como dizes; sei que pensas me abandonar.

Zaratustra ouve a reprimenda, sorri, e demora em responder.

— Confesso — diz afinal. — Mas tu sabes tão bem como eu que.

E inclinando-se para a deusa diz-lhe algo ao ouvido. Adivinhamos á palavra segredada: Que importa que eu morra! Nada se separa e nada se aproxima, pois cada instante tem o seu retorno — cada instante é eterno.

— Como! — responde a deusa — tu sabes disso, Zaratustra?    Mas…   se ninguém o sabe!…

Seus olhares se cruzam. Olham-se. Olham juntos para o prado que ondula sob o frescor da tarde; choram, e, depois, silenciosos, ouvem e compreendem as onze sentenças do velho sino que bate meia-noite na montanha.

Uma! Oh,  homem,  alerta!
Duas! Que diz a profunda meia-noite?
Três! Tenho  dormido…   tenho  dormido!…
Quatro! De  um  pesado   sono   despertei!…
Cinco! O mundo é profundo.
Seis! Mais profundo do que o dia imaginava.
Sete! Profunda é sua dor…
Oito! Mais profunda, porém, do que a aflição, é a alegria.
Nove! A dor diz:   Passa e termina!
Dez! Mas toda a alegria deseja a eternidade…
Onze! Deseja  a profunda eternidade!
Doze!

Então, Zaratustra se põe em pé. Recobrou a segurança, a doçura e a força. Toma novamente seu cajado e desce, cantando, para os homens, Um mesmo versículo termina as sete estrofes do seu hino:

"Nunca encontrei a mulher com a qual desejaria ter filhos, afora esta mulher que amo — pois eu te amo, oh, Eternidade!

Eu te amo, oh, Eternidade!"

No começo do poema, Zaratustra entrava na grande cidade, "a vaca multicolor" (assim a chama ele) e iniciava seu apostolado. Ao fim da terceira parte, Zaratustra, desce para a grande cidade, para recomeçar, nela, seu apostolado. Frederico Nietzsche, lutador vencido, em dois anos de esforço e de canseiras — retrocedeu… Era 1872 enviava à senhorita de Meysenbug a série interrompida de suas conferências sobre o futuro das Universidades: "Isto dá uma sede terrível! — dizia — e, depois, nada para beber!" Estas mesmas palavras se podem aplicar ao seu poema.

 

A  VISITA   DE   HEINRICH   VON   STEIN

No mês de abril de 1884 Frederico Nietzsche publica simultaneamente as segunda e terceira parte do Zaratustra. Nesse  momento parece  feliz.

"Tudo chega a seu tempo — escreve a Peter Gast em 5 de março — tenho quarenta anos e me encontro exatamente no ponto que me propunha aos vinte. Foi uma grande, formosa e formidável viagem!"

"Com você — escreve a Rohde — que é um homo literatus não quero reter esta confissão: parece-me que com esse Zaratustra levei ao seu ponto de perfeição a língua alemã. Depois de Lutero e de Goethe, havia um terceiro passo a dar. Diga-me, velho e querido camarada, se a força, a flexibilidade e a beleza do som já estiveram alguma vez tão bem combinadas em nossa língua… Meu estilo é um bailado: jogo com simetria de toda espécie e até a própria escolha das vogais é um jogo."

Esta alegria dura pouco. Nietzsche não sabe que novo trabalho iniciar, e seu ardor, sem ocupação, converte-se em cansaço. Escreverá o seu sistema, ou alguma “filosofia do futuro”? Pensa nisso um instante: Mas não. Cansado de pensar e de escrever, gostaria de descansar ao som de uma bela música. Que música escolher, porém? Ah! Aquela que ele poderia amar, não existe. A italiana é suave; a alemã, pedante — nenhuma para o seu gosto. Nenhuma bastante lírica e viva, grave e delicada, rítmica, irônica e apaixonada. Carmen agrada-lhe bastante; no entanto, à Carmen prefere as composições de seu discípulo Peter Gast. "Sua música! — escreve-lhe — tenho   necessidade  de   sua  música…"

Peter Gast achava-se instalado em Veneza; Nietzsche deseja reunir-se-lhe, mas Veneza é úmida, e ele não se atreve a abandonar Nice até meados de abril. A luz chegou a ser para ele uma exigência de enfermo, cada ano mais imperiosa; um dia sem luz entristece-o;  oito dias sem luz destroem-no.

Em 21 de abril chega a Veneza. Peter Gast instala-o não longe de Rialto. A janela do seu quarto abre-se sobre o Grande Canal e dali ele pode gozar o espetáculo da admirável cidade, depois de uma ausência de quatro anos. Sua alegria é realmente a de uma criança. Vaga por aquele dédalo veneziano, animado pelas surpresas do sol e da água, pela graça de um povo discreto e alegre, os jardins imprevistos, os musgos e as flores crescidos entre as pedras. "Cem profundas solidões — anota — juntas compõem Veneza — e dai, sua magia. Um símbolo para os homens do futuro." Caminha pelas vielas estreitas, como se andasse pelas montanhas, durante quatro ou cinco horas diárias. Tão depressa se mistura com a multidão italiana, como se isola, e sem cessar reflete nas dificuldades do seu trabalho.

Pergunta a si mesmo o que escreverá. Pensara comentar, numa série de folhetos, alguns versículos do seu poema. Mas ninguém se dignou ler as palavras de Zaratustra. Seus amigos já o leram. Ele espera suas cartas, mas não recebe nenhuma — triste silêncio que o surpreende continuamente. Um jovem escritor, Heinrich. von Stein é quase o único que lhe  dirige palavras calorosas. Nietzsche renuncia ao seu propósito, sentindo o ridículo que seria comentar uma Bíblia ignorada pelo público.

Pelos meados de junho sai de Veneza. Ocupam-no diferentes projetos: pensa muito seriamente na sua "filosofia do futuro" e decide abandonar, ou pelo menos adiar o poema, para poder se dedicar a longos estudos — "cinco ou seis anos, talvez, de meditação e de silêncio" — e chegar a formular seu sistema de maneira precisa e definitiva. Dirige-se à Suíça, a fim de ler livros de ciência histórica e natural na biblioteca de Basiléia; mas a sua permanência ali é curta. O calor sufocante deprime-o; os amigos de Basiléia não o satisfazem: ou não leram o Assim falava Zaratustra, ou leram-no muito mal. "Encontrava-me entre eles como entre vacas", escreve a Peter Gast — e dirige-se para Engadina.

Em 20 de agosto recebeu umas linhas de Heinrich von Stein   anunciando-lhe   sua  chegada.

Quem era este visitante? Um homem muito jovem; pois que tinha apenas vinte e seis anos, mas não havia na Alemanha um escritor no qual se tivessem depositado maiores esperanças. Em 1878 publicara um pequeno volume intitulado Die Ideale des Materialismus, Lyrisçhe Philosophie. Frederico Nietzsche, reconhecendo neste ensaio uma tentativa análoga à sua, entabular relações com o autor, acreditando haver encontrado um espírito semelhante ao seu, e um companheiro de trabalho; uma vez mais, porém, sua esperança frustrou-se. A senhorita de Meysenbug, mais benévola do que perspicaz (era este, talvez, seu único defeito), acreditou não poder fazer nada melhor do que conduzir Heinrich von Stein para o circulo de Wagner, e lhe abriu as portas do mestre, sendo ele admitido como o fora Nietzsche dez anos antes. Von Stein viveu naquele ambiente, e em vão Nietzsche o preveniu várias vezes. "Você admira Wagner. Muito bem. Mas cuidado para que isso não dure demasiado tempo." Heinrich von Stein não soube resistir nem emancipar-se. Wagner fala e ele ouve devotadamente. Sua busca intelectual, até então inquieta e fecunda, se detém; Stein fecha seus cadernos de notas: foi conquistado por um homem demasiado grande; foi, por assim dizer, aspirado, esgotado. As obras que publicou (Stein morreu aos trinta anos) são penetrantes e sóbrias; falta-lhes, porém, uma qualidade — a mesma qualidade que deu tanto valor aos Seus primeiros ensaios: a audácia e a temeridade, o encanto   das  idéias  nascentes,  inseguras  e  apressadas.

Frederico Nietzsche continuara interessando-se por Stein, é vigiava seus trabalhos e amizades. "Heinrich von Stein — escrevia em julho de 1883 à senhora Overbeck, — é agora o adorador da senhorita Salomé. Meu sucessor neste emprego como em tantas outras coisas." O perigo em que se achava o moço fazia-lhe pena. Heinrich, no entanto, lia e apreciava os livros de Nietzsche, coisa que este sabia com natural complacência. Quando recebeu a carta de Stein, sentiu-se estranhamente  emocionado.

   Qual a razão dessa visita?   Stein parecia haver compreendido Assim falava Zaratustra; haveria  esse livro lhe inspirado um desejo de liberdade? Iria Nietzsche conquistar para a sua causa, em compensação de tantos amigos perdidos, a este que por si só valia mais que todos os outros juntos? Iria conquistar o discípulo de Wagner, o filósofo de Bayreuth? Podia, realmente, esperar esta desforra? Respondeu sem demora a Stein, dando-lhe as boas vindas, e assinou: "O solitário de Sils-Maria".

Talvez possamos atribuir a esta visita uma razão secreta que Nietzsche não suspeitara. Se Heinrich von Stein, íntimo e fiel amigo de Cosima Wagner foi procurar Nietzsche, seguramente não o fez sem a aprovação e os conselhos desta mulher tão prudente. Até aquele momento de sua vida, Nietzsche não atacara Wagner, limitando-se apenas a separar-se dele. Por outra parte, em julho de 1882 parecia consentir numa reconciliação. A tentativa da senhorita de Meysenbug, autorizada ou não por ele, fazia-o pensar. Mais tarde, em fevereiro de 1883, por motivo da morte de Wagner, Nietzsche escrevera a Cosima. Realmente, até então, soubera evitar as palavras irreparáveis, e sua última obra, o final do próprio Zaratustra, de um lirismo impreciso, permitia a esperança de um acordo. Esta era, pelo menos, a esperança de Stein, que, em maio  de 1884,  escrevia a Nietzsche:

Como desejo que o senhor venha a Bayreuth neste verão para ouvir Parsifal!… Quando penso nesta obra, imagino uma forma de beleza pura, uma aventura espiritual puramente humana, o desenvolvimento de um adolescente que se converte em homem. Para mim não há no Parsifal o menor pseudo-cristianismo, e me parece a menos tendenciosa das obras de Wagner. Expresso-lhe o meu desejo com audácia e timidez ao mesmo tempo — não porque seja wagneriano, mas porque desejo para o Parsifal um ouvinte como o senhor, e a um espectador como o senhor, desejo o Parsifal.

Cosima Wagner não errava em seu juízo. Conhecia o valor de Nietzsche. Carregando, como carregava sobre si próprio o peso de uma herança esmagadora, obrigada a manter uma glória e a continuar uma tradição, é lógico que lhe ocorresse que, atraindo de novo aquele homem raro e singular, extenuado em solitários esforços, podia ajudá-lo ao mesmo tempo em que se ajudava a si mesma. Teria sido ela quem escolhera Heinrich von Stein como emissário e conciliador? Pelo menos, é de se supor que conheceu de antemão e não desaprovou a tentativa do moço.

Se existia algum wagneriano capaz de tal empresa, era seguramente este. Stein era o mais livre dos discípulos. Não aceitava como religião definitiva o misticismo duvidoso que o Parsifal propagara, e encerrava numa mesma tradição Schiller, Goethe e Wagner, criadores de mitos, educadores de seu século e de sua raça.    O teatro de Bayreuth era para ele não a apoteose de uma obra, mas a promessa e o instrumento de obras novas — o signo de uma tradição lírica.

Que se passou na entrevista? Não é difícil imaginá-lo. Stein procurou cumprir sua delicada missão, mas pouco falou. Nietzsche é que tomou a palavra e se fez ouvir. Que disse ele? Talvez isto:                                                   ;

— Você admira Wagner? Mas quem não o admira? Eu o conheci, venerei e escutei tanto como você, mais do que você. Aprendi com ele não o estilo de sua arte, mas o estilo de sua vida: o valor da iniciativa. Sei que me acusam de ingrato. Mas esta é uma palavra que não entendo. Prossegui no meu trabalho. Sou, no melhor sentido da palavra, um discípulo. Você freqüenta Bayreuth, e sabe quanto aquilo é agradável; realmente, agradável demais. Wagner nos oferece o gozo de todas as lendas, de todas as crenças do passado, germânicas, celtas, pagas e cristãs. Mas este gozo é nefasto para um espírito que investiga. Aqui está a razão do meu afastamento. E esta é a razão pela qual você deve se afastar. Entenda-me bem. Eu não maldigo a arte nem a religião. Creio que voltará o tempo de uma e de outra. Nenhum dos antigos valores será abandonado; todos reaparecerão, transfigurados, sem dúvida mais poderosos, mais intensos, num mundo iluminado até ao fundo pela ciência. Tudo o que, em meninos e adolescentes amamos; tudo o que sustentou e exaltou a nossos pais tudo tornaremos a encontrar. Voltaremos a encontrar um lirismo e uma bondade, as virtudes mais sublimes e também as mais humildes — cada uma em sua glória e em sua dignidade. Antes, porém, é preciso concordar com a noite, é preciso renunciar e procurar… As promessas são inauditas, mas eu me sinto fraco, à força de solidão. Ajude-me. Fique, ou, pelo menos, volte aqui a seis mil pés acima de  Bayreuth!   (*).

Stein ouvia Nietzsche. Seu diário deixa ver a crescente vivacidade de suas impressões: "24, VIII, 84, Sils-Maria. Passo a noite com Nietzsche. Espetáculo desolador. — 27. Sua liberdade de espírito, sua palavra cheia de imagens; grande impressão. Neve e vento de inverno. Dores de cabeça. À noite vejo-o sofrer. — 28. Ele não dormiu, mas sente-se cheio de ardor, como um mocinho.    Dia de sol, magnífico."

O jovem emissário partiu após três dias, muito emocionado pelas horas que acabava de passar. Prometeu a Nietzsche encontrar-se com ele em Nice; pelo menos, assim o entendeu Nietzsche, e teve a sensação de haver conseguido uma grande vitória. "Um encontro como o nosso não pode deixar de ter grandes conseqüências — escreve a Stein alguns dias após sua partida. —Pelo menos, podemos ficar seguros de uniu coisa: que desde este momento, você pertence ao pequeno número daqueles cujo destino, para o bem e para o mal, se encontra ligado ao meu destino." Stein respondeu: "Os dias de Sils-Maria são para mim uma grande recordação, um grave e solene instante da vida…" Mas não escreve: "Sim, sou seu…" Fala, com prudência, de seus trabalhos e de sua profissão, que o retém.

 

(*)    Esta última frase foi tirada de uma passagem de Ecce Homo.  (N. do A.).

 

 

Achava-se o espírito de Nietzsche bastante claro para perceber esta reserva? Não parece. Fazia projetos maravilhosos e sonhava, de novo, com o claustro ideal. Escreve à senhorita de Meysenbug propondo-lhe, com simplicidade, que fosse passar o inverno  em Nice, ao seu lado.

Em setembro desce para Basiléia, e um acaso nos permite  sondar  os   abismos   de  sua  alma.

Overbeck vai visitá-lo ao hotel. Nietzsche se encontra de cama, com enxaqueca e muito deprimido. No entanto, fala, e a confusão de suas palavras inquieta o amigo. Nietzsche quer iniciá-lo no mistério do Retorno Eterno: "Um dia voltaremos a nos encontrar novamente: eu, outra vez doente como agora; você, como agora surpreendido com as minhas palavras. .."

Seu rosto está mudado. Fala em voz baixa e trêmula, como nos descrevera Lou Salomé. Overbeck ouve com doçura, evita toda a discussão e se retira com mau pressentimento. Já não voltaria a ver seu amigo até ao trágico encontro de Turim,  no  mês  de  janeiro  de  1889.

Frederico Nietzsche apenas atravessou Basiléia. Sua irmã, que não o via desde os distúrbios do outono passado, combinara com ele encontro em Zurich. Queria lhe anunciar o seu casamento, realizado  em segredo  fazia já alguns meses.

E realmente, diz-lho. Já não é a senhorita Nietzsche, mas sim a senhora Förster, que se prepara para partir para o Paraguai com os colonos que seu marido dirige. Frederico Nietzsche não discute nem a recrimina por um fato consumado; ao contrário, esforça-se por ser amável pela última vez com sua irmã, já definitivamente perdida para ele.

"Encontrei meu irmão em estado muito favorável — escreve Lisbeth — encantador e alegre. Vivemos juntos oito dias, falando e rindo de tudo."

E descreve esses dias que ela crê — ou finge crer — ditosos. Frederico Nietzsche vê na vitrina de uma livraria as obras de um poeta popular e medíocre, Freiligrath, e na capa do volume, estas palavras: 38a. Edição. "Este — exclama Nietzsche com solenidade cômica — este é um verdadeiro poeta alemão: os alemães compram seus versos!" E, sentindo-se também um bom alemão naquele dia, compra um volume, lê-o e diverte-se muito com ele, Declama os pomposos hemistíquios:

Diverte-se improvisando, sobre todos os gêneros de temas, versos à Freiligrath, e o hotel de Zurich ressoa com suas risadas infantis.

— Que é que os faz rir tanto? — pergunta um velho general aos dois irmãos. — Só de os ouvir, a gente fica com vontade de rir também.

A verdade, porém, é que Frederico Nietzsche não tinha grandes motivos para riso. Poderia, acaso, pensar sem amargura nas trinta e oito edições de Freiligrath? Naqueles dias mesmo ia à biblioteca de Zurich e percorria as coleções de revistas e jornais, procurando nelas seu nome. Que não haveria dado para ver sua obra julgada por um bom juiz, para ver seu pensamento refletido por um outro espírito! Desejo vão:

"O céu aqui está formoso, digno de Nice, e isto já dura há vários dias — escreve ele a Peter Gast em setembro. — Minha irmã está comigo; é muito agradável fazer-se bem mutuamente, quando faz tempo que não nos fazíamos senão dano… Tenho a cabeça repleta dos mais extravagantes poemas que hajam em qualquer tempo freqüentado o cérebro de um lírico. Recebi uma carta de Stein. Este ano me trouxe muitas coisas boas, e Stein é um dos seus dons mais preciosos: um  novo e  sincero  amigo.

Enfim, vivamos cheios de esperança, ou, para nos expressarmos melhor,  digamos,  com o velho Keller: Trinkt, o Augen, "was die Wimper hält Von dem goldnen  Ueberfluss  der Welt! (Bebei, ó meus olhos, o que vossas pestanas encerram Do dourado excesso do mundo!) Os dois irmãos partem de Zurich dirigindo-se, uma para Naumburg e o outro para Nice. De passagem, Nietzsche faz alto em Mento. "O lugar é magnífico — escreve, apenas instalado. — Já descobri oito passeios. Que ninguém me venha visitar.    Necessito desta absoluta tranqüilidade."

Que faz ele? Recordará o projeto que fizera nos começos do verão: "seis anos de meditação e de silêncio"? Não! A meditação longa e silenciosa supõe uma força de vontade que ele não tem. Emocionado pela esperança de ter um amigo e pela perda de uma irmã, não pode conter sua paciência lírica e, cedendo ao instinto, improvisa cantos lieder, estâncias breves, epigramas. Quase todos os poemas se encontram em suas últimas obras — versos ligeiros, dísticos mordazes, insertos na segunda edição de La Gayá Scienza, grandiosos   Cantos  Dionisíacos  —  foram  terminados   ou   concebidos durante aquelas semanas. E de novo pensa na obra ainda sem concluir, no Assim falava Zaratustra. "São inevitáveis uma quarta, uma quinta e uma sexta partes — escreve.— De qualquer modo, é forçoso que conduza meu filho Zaratustra até sua morte bem-aventurada. Realmente, ele não me dá sossego."

Outubro passou.    Nietzsche deixa Menton,  onde  se  aflige com o grande número .de doentes, e  dirige-se para Nice.

Um imprevisto companheiro logo se reúne a ele: Paulo Lanzky, um intelectual que fazia vida de vagabundo, alemão por nascimento e florentino por gosto. Um acaso pusera em suas mãos as obras de Nietzsche e ele as compreendera. Com o intuito de conhecer o endereço do autor, escrevera ao editor Schmeitzner. "O senhor Frederico Nietzsche vive solitário na Itália. Escreva-lhe para Gênova, Posta Restante" — haviam-lhe respondido. Assim fizera, e o filósofo, sem dúvida menos selvagem e solitário do que se dizia, respondera pronta e afàvelmente: "Venha a Nice neste inverno, e falaremos…" Esta troca de cartas dera-se durante o outono de 1883. Lanzky, que nó momento não se encontrava livre, desculpou-se, mas em outubro de 1884, correu ao encontro marcado. Entrementes, tivera ocasião de conhecer as duas últimas partes do Zaratustra, e publicado, em um magazine de Leipzig e na Revista Européia de Florença, resenhas muito  inteligentes   das   ditas  obras.

Na mesma manhã de sua chegada, Lanzky foi bater à porta de Nietzsche, que lhe foi aberta por um homem doce e sorridente.

Also Sie sind gekommenl — exclamou Nietzsche — (Ei-lo aqui, afinal!).

E agarrou-o por um braço, desejoso de examinar detidamente aquele leitor dos seus livros.

— Bem, vamos ver que tal é o senhor.

E fitou-o com aqueles olhos antigamente tão formosos e que o eram ainda, uma ou outra vez, embora empanados pelos prolongados sofrimentos.

Lanzky, que fora apresentar suas homenagens a um temível profeta, assombrou-se de encontrar o mais afável, mais simples e, em aparência, mais modesto dos professores alemães.

Os dois homens saíram juntos. Lanzky confessou sua surpresa.

— Mestre. ..   — disse.

— É o senhor o primeiro que me chama assim! — exclamou Nietzsche sorrindo. Mas, como sabia que era mestre, deixou-o continuar,

— Mestre, como se adivinha pouco do senhor através dos seus livros!    Explique-me…

— Não. Hoje, não. O senhor não conhece Nice. Vou fazer-lhe as honras do seu mar, de suas montanhas e dos seus passeios…     Outro dia, se quiser, falaremos.

Só voltaram para casa às seis da tarde, e Lanzky soube, pelo menos, que infatigável andarilho era o seu profeta.

Organizaram sua vida comum: Frederico Nietzsche tomava só, ai pelas seis e meia da manhã, uma xícara de café que ele mesmo preparava; às oito, Lanzky batia-lhe à porta, perguntava-lhe como passara a noite (freqüentemente dormia mal) e no que empregara a manhã. Nietzsche começava quase todos os dias folheando os jornais num salão público de leitura; em seguida, dirigia-se à praia, Lanzky reunia-se, então, a ele, ou então respeitava o seu passeio solitário. Ambos tomavam a primeira refeição na sua pensão. À tarde, passeavam juntos e à noite, Nietzsche escrevia ou Lanzky lia para ele em voz alta, em geral um livro francês: as cartas do abade Galiani, o Vermelho e Negro, A Cartuxa de Parmá ou Armancia,  de  Stendhal.

Mais de uma vez Lanzky teve que se surpreender com a maneira de ser de Frederico Nietzsche. Aquele solitário de mesa redonda construíra para si mesmo uma atitude fictícia, e quase disfarçada, uma verdadeira arte de viver cortesmente sem revelar o segredo de sua vida. Certo domingo, uma moça perguntou-lhe se  estivera  no templo.

— Não.    Hoje não estive — respondeu amavelmente.

Lanzky admirou esta resposta prudente. Frederico Nietzsche explicou-lhe: "Nem todas as verdades são boas para todos. Eu ficaria desolado se tivesse perturbado os pensamentos  dessa moça. . ."

Às  vezes,  divertia-se  anunciando  sua  glória  futura:

— Dentro de quarenta anos serei ilustre na Europa — afirmava aos seus vizinhos  de mesa.

—   Empreste-nos seus livros — pediam. E Nietzsche negava-se terminantemente.

—  Meus livros não devem ser lidos pelos primeiros que aparecem — explicava  a  Lanzky.

—  Por que os manda imprimir, então, Mestre?

E parece que a esta razoável pergunta não se deu resposta alguma satisfatória.

Nietzsche, porém, dissimulava até com o próprio Lanzky. Gostava de repetir e desenvolver diante dele o seu velho sonho de uma sociedade de amigos, espécie de falanstério idealista, semelhante àquele em que vivera Emerson. Levava-o freqüentemente até à peninsulazinha de São João:

— Aqui — dizia ele parafraseando uma frase pública — "aqui   levantaremos   nossas   cabanas"

 

Havia, até, escolhido um grupo de pequenas "vilas" que lhe pareciam adequadas ao seu desígnio.    Que hóspedes aceitaria?

Esta questão permanecia um tanto vaga, e o nome de Heinrich von Stein, o único amigo, o único discípulo que ele ardentemente desejara, nunca foi pronunciado diante de Lanzky.

Stein não anunciava a sua chegada, nem dava sinal de vida. Qual seria, no momento, o seu estado de ânimo? Ele fora a Sils-Maria para tentar a reconciliação dos dois mestres. Mas um deles lhe dissera: é necessário escolher entre os dois. Talvez Stein tivesse vacilado por um instante, mas regressara à sua Alemanha, tornara a ver Cosima Wagner, e, pois que Nietzsche exigira que escolhesse, permanecia fiel a Wagner.

Nietzsche pressentiu a nova deserção. Teve medo, e cedendo a um humilde e triste impulso, escreveu em forma de poema um doloroso apelo que dirigiu ao moço:

 

 

Heinrich von Stein viu-se obrigado a responder, e escreveu :

Querido senhor:

A um apelo como o seu só convém uma resposta: Ir entregar-me inteiramente, dedicar, como à mais nobre das tarefas, todo o meu tempo à inteligência das coisas novas que o senhor tem para dizer. Isto me é vedado. Ocorreu-me, porém, uma idéia: Todos os meses reúno em torno de mim dois amigos e leio com eles um artigo do Wagner-Lexicon, tomando-o como texto e conversando com eles sobre o mesmo. Estas conversações são cada vez mais elevadas e livres. Ultimamente, encontramos esta definição da emoção estética: uma passagem para. o impessoal, através da própria plenitude da personalidade. Creio que o senhor gostaria destas conversações, e ocorreu-me a seguinte idéia: Não seria excelente que Nietzsche nos enviasse de vez em quando um texto para as nossas palestras? Quererá o senhor comunicar-se assim conosco? Não quereria ver em uma conversação assim a introdução, o início de seu claustro ideal?

 

É á carta de um bom aluno. Stein cita Wagner não sem certa intenção, naturalmente, e indica o texto de suas meditações, essa enciclopédia wagneriana, súmula de uma teologia ridícula e pueril. Nietzsche sentiu-se exasperado; de novo encontrava diante dele, contra ele, esse adversário simulador de idéias e sedutor da juventude. Förster, que lhe arrebatava a irmã, era um wagneriano, e eis que Heinrich von Stein lhe recusa sua devoção por causa de Wagner. Somente à custa de um combate do qual saíra ferido, ele pudera conquistar uma cruel liberdade.   Escreveu a sua irmã:

"Que estúpida carta me escreveu Stein e em resposta a que poesia! Sinto-me penosamente afetado. Encontro-me novamente doente e novamente recorro ao antigo remédio (*) Odeio a todos os homens que conheci, inclusive a mim mesmo. Durmo bem, mas ao despertar tenho acessos de misantropia e rancor. E, no entanto, poucos homens existem mais bem dispostos  e  mais  benévolos   do  que   eu."

Lanzky notou, sem adivinhar a causa, a perturbação de Nietzsche. A crise foi muito forte, mas apesar de tudo, ele não se deixou esmagar e trabalhou energicamente. Nestes dias passeava a sós com mais freqüência do que à chegada de Lanzky, e este via-o caminhar com passo incerto pelo Passeio dos Ingleses, ou pelos caminhos da montanha, saltando, fazendo, às vezes, uma ou outra cabriola, e detendo-se de repente para anotar a lápis algumas palavras. Que trabalho empreendia? Lanzky ignorava-o.

Certa manhã de março, em que Lanzky, como de costume, entrou no quartinho do filósofo, encontrou-o deitado ainda, apesar  do  avançado  da  hora.

—  Estou doente — disse-lhe Nietzsche — acabo de dar é luz.

— Que está dizendo? — murmurou Lanzky, muito inquieto.

—  A quarta parte do Zaratustra está escrita.

Que nos diz esta quarta parte? Surpreenderemos, afinal, algum progresso na obra, alguma precisão de pensamento? Não. Lemos, apenas, um singular fragmento, um intermédio, como o chama Nietzsche — um episódio na vida do seu herói; estranho episódio que desconcertou a mais de um leitor. Talvez nos seja mais facilmente compreensível se pensarmos na decepção que acabava de atingir a vida de Nietzsche.

Os "homens superiores" sobem até Zaratustra e surpreendem-no na solidão de sua montanha: um velho papa, um velho historiador, um velho rei, seres desventurados, que sofrem

 

(*)    O cloral. (N. do A.)

 

por seu envilecimento e que vão pedir socorro ao sábio cuja força pressentem. — Pensemos em Stein, naquele distinto jovem extenuado pela atmosfera de Bayreuth: não foi assim que ele subiu  até  Nietzsche?

Zaratustra admite em volta de si aqueles "homens superiores"; por amor deles reprime o seu humor selvagem, fá-los sentar em sua gruta, compadece-se de suas inquietações, ouve–os e fala-lhes. — Pensemos em Nietzsche: não foi assim que ele recebeu Heinrich von  Stein?

Zaratustra, cuja alma é, no fundo, menos rude do que devia ser, deixa-se seduzir pelo mórbido encanto, pela delicadeza dos "homens superiores"; sente compaixão, esquece que sua miséria é irremediável e cede ao prazer de esperar. Serão, afinal, estes "homens superiores" os amigos que ele espera? — Pensemos em Nietzsche: não esperou certa ajuda de Stein?

Zaratustra deixa seus hospedes a sós por alguns momentos e se interna sozinho na montanha. Logo regressa à gruta e que vê? Todos os "homens superiores" de joelhos diante de um asno ao qual adoram. Ê o velho papa diz missa diante do novo ídolo. — Pensemos em Stein: Não foi em semelhante posição que o surpreendeu Nietzsche, interpretando com seus dois amigos uma bíblia wagneriana?

Zaratustra expulsa seus hóspedes: ele deseja obreiros novos para um mundo novo. Encontrá-los-á? Ao menos, chama-os:

Filhos meus, raça de meu sangue puro, minha formosa raça nova; que é o que retém meus filhos em suas ilhas?

Não será já tempo, tempo demais ao teu ouvido eu o murmuro, bom espírito das tempestades para que voltem, por fim para junto de seu pai? Não saberão, acaso, que meus cabelos embranquecem enquanto espero?

Vai, vai, espírito das tempestades, indomável e bondoso! Abandona as gargantas da tua montanha, precipita-te sobre os mares, e antes que chegue a noite, bendiz aos meus filhos.

Leva-lhes a bênção de minha alegria, a bênção desta coroa de rosas bem-aventuradas! Deixa cair estas rosas sobre as suas ilhas e que ali fiquem como um signo que interroga:   De onde pode  vir tal felicidade?

Finalmente, perguntarão: "Vive ainda nosso pai Zaratustra? Como? É verdade que ainda vive nosso pai Zaratustra? Nosso velho pai Zaratustra ama ainda a seus filhos?"

O vento sopra, o vento sopra, a lua resplandece.

Oh! meus filhos longínquos, longínquos! Por que não estais aqui junto de vosso pai? O vento sopra; nenhuma nuvem cruza o céu; o mundo dorme… Oh felicidade! Oh felicidade!

Frederico Nietzsche não conservou esta página na sua obra; talvez tenha sentido vergonha de uma confissão tão triste e tão clara.

A   quarta   parte   de   Zaratustra   não   encontrou   editor. Schmeitzner, que poucos meses antes havia dito a Nietzsche que o público não quer ler os seus aforismos",  escreveu-lhe, sem mais rodeios, que o público queria ignorar seu Zaratustra.

Nietzsche fez, de início, algumas tentativas, que o humilharam sem o menor resultado, mas logo adotou um partido mais altivo: pagou com seu dinheiro a impressão do manuscrito, cuja tiragem limitou a quarenta exemplares. Para dizer a verdade, seus amigos não eram tantos. Procurando muito, encontrou sete destinatários, dos quais nenhum era realmente digno. Quem foram esses sete? Vamos presumir, se é possível:

Sua irmã, (da qual não cessava de se queixar); a senhorita de Meysenbug, (que não entendia coisa alguma de seus livros); Overbeck, (amigo certo, leitor inteligente, mas reservado); Burckhardt, o historiador de Basiléia, (este respondia sempre aos obséquios de Nietzsche, mas era tão polido que não se descobria o que ele pensava); Peter Gast, (o discípulo fiel, a quem, talvez Nietzsche considerasse demasiado obediente e fiel); Lanzky, (bom camarada daquele inverno); Rohde, (que apenas conseguia dissimular o tédio que lhe causava estas leituras forçadas).

Tais foram, presumimos, os que receberam — embora nem todos se dessem ao trabalho de a ler — esta quarta e última parte, este intermédio que termina mas não acaba o Assim falava  Zaratustra.

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