Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

Solidão e Morte de Nietzsche – Vida de Frederico Nietzsche, Daniel Halevy / 7




VIDA DE FREDERICO NIETZSCHE

Autor: Daniel Halévy


Tradutor: Jerônimo Monteiro
Editora Assunção ltda.
Coleção Perfis Literários

 

Cap. 1 – OS ANOS DE INFÂNCIA Cap. 2 – OS ANOS DA JUVENTUDE
Cap. 3 – FREDERICO NIETZSCHE E RICHARD WAGNER — TRIEBSCHEN Cap. 4 – FREDERICO NIETZSCHE E RICHARD WAGNER — BAYREUTH
Cap. 5 – CRISE E CONVALESCENÇA Cap. 6 – O TRABALHO DO "ZARATUSTRA"
Cap. 7 – A   ÚLTIMA   SOLIDÃO

 

 

VII

A   ÚLTIMA   SOLIDÃO

I

ALÉM DO BEM E DO MAL

A obra lírica foi abandonada. Frederico Nietzsche não lhe dará importância por algum tempo, e quererá voltar a ela, mas serão apenas breves veleidades: "Daqui por diante —escreve, e desta vez a afirmação é exata — serei eu quem fala, e não Zaratustra."

O trabalho ficou inacabado. Nietzsche sabe-o, e as inúmeras  idéias   que   não  divulgou  entristecem-no   como  um   remorso.

Deseja tentar outra prova, e volta, sem a menor complacência, à filosofia, procurando exprimir, em termos abstratos o que, como poeta não soube dizer. Começa novos cadernos. Experimenta alguns títulos: "Vontade de domínio, nova interpretação da natureza.. .Vontade de domínio, ensaio de uma nova interpretação do Universo…" Estas fórmulas, as primeiras que encontrou, ficaram. Frederico Nietzsche torna á tomar entre as mãos e a desenvolver, aqui, o tema Schopenhaueriano. O fundo das coisas — pensa — não é uma cega vontade de viver; viver é estender-se, crescer e conquistar; o fundo das coisas, melhor definido, é uma cega vontade de domínio, e todos os fenômenos que se desenvolvem na alma humana devem ser interpretados como função desta vontade.

É um imenso trabalho de prudente reflexão. Nietzsche enfrenta-o medrosamente. Como distinguir na alma dos homens o que é força e o que, sem dúvida, é fraqueza? Talvez a cólera de Alexandre seja fraqueza e a exaltação do místico força. Nietzsche esperara que seus discípulos, filósofos ou fisiólogos, fizessem para ele esta análise; o auxílio de Heinrich von Stein ser-lhe-ia precioso. Mas, encontrando-se, como se encontra, sozinho, tem que se encarregar de todos os trabalhos. Entristece. Despojado de lirismo, o pensamento carece de atrativo para ele. Ama a força instintiva, a delicadeza, a graça, os sons ordenados e rítmicos; ama Veneza, em suma, e sonha com os dias claros que lhe permitirão fugir daquela pensão de Nice; onde a alimentação e a companhia são más.    Em 30  de março de 1885, escreve a Peter Gast:

Querido amigo: Já não me acontece ter prazer ao pensar numa troca de lugar. Desta vez, porém, ao pensar que em breve estarei em Veneza e junto de você, sinto-me animado, extasiado, e é para mim uma esperança de cura depois de uma longa e espantosa enfermidade. Fiz a seguinte descoberta: Veneza é o único lugar que até hoje me foi constantemente suave e benéfico… Sils-Maria, como lugar de passagem, me convém muito, mas como residência não. Ah, se eu pudesse organizar ali uma digna existência de solitário e de eremita!…   Mas…   Sils-Maria  está  se  tornando  moda!

Meu querido amigo e mestre, Veneza e você se acham, para mim, indissolúvelmente ligados. Nada me agrada tanto como sua persistente predileção por essa cidade. Quanto pensei em você durante todo este tempo! Lia. as memórias do velho Brosses (1739-40) sobre Veneza e sobre o Mestre que ali se admirava então, Hüsse (il detto Sassonne). Não se aborreça, porque não tenho nenhuma intenção de fazer entre vocês dois qualquer comparação  desrespeitosa.

Acabo de escrever a Malwida: graças a Peter Gast, os  senhores  comediantes,   embora pretensos  gênios  da música, deixarão, dentro em pouco, de corromper o gosto. "Dentro em pouco" é, talvez, um grande exagero. Numa época democrática poucos homens discernem a beleza: pulchrum paucorum est hominum. Alegra-me ser para você um desses poucos. Os homens profundos e ditosos que me agradam, como suas ames mélancoliques et folies (*) como meus defuntos amigos Stendhal e o abade Galiàni, não teriam podido suportar sua permanência na terra se não tivessem amado algum compositor da felicidade (Galiani sem Puccini, Stendhal sem Cimarosa e Mozart).

Ah, se soubesse como estou agora tão só no mundo! E como me é preciso representar uma comédia para não cuspir, às vezes, de pura sociedade, no rosto de alguém! Felizmente, algo da maneira cortês de meu filho Zaratustra existe também em seu aloucado pai.

Quando estiver com você, porém, e em Veneza, cessara, então, por algum tempo toda a "cortesia", e a "comédia" e a "sociedade" e todas as maldições nicenses… não é verdade, meu caro amigo?

Não se esqueça de que teremos que comer baicoli!

Cordialmente,

F. N.

Durante abril e maio, Nietzsche reside em Veneza com a satisfação que previra. Percorre as ruelas sombreadas e ruidosas e contempla a formosa cidade. Ouve a música de seu amigo. Os pórticos da praça de São Marcos o resguardam em seus passeios, e são comparados por Nietzsche àqueles pórticos de Éfeso, aos quais ia Heráclito para esquecer a agitação dos gregos e as sombrias ameaças do Império persa. "Que bem se está aqui — pensa — para esquecer o sombrio império, ó nosso. Não difamemos a nossa Europa, que ainda oferece alguns belos refúgios! Esta Piazza San Marco é o meu melhor gabinete de trabalho…" Esta curta alegria desperta suas disposições poéticas; quer cantar o triunfo e a morte de Zaratustra, arrancado ao esquecimento por algumas horas. Escreve um rascunho, logo abandonado, que é o último .

Junho leva-o de novo a Engadina. O acaso da vida de hotel proporciona-lhe um secretário, uma tal senhora Rödér, desconhecida, se oferece para ajudá-lo. Nietzsche dita e procura fixar mais exatamente seu problema. Quais são os seus fins? Criticar essa quantidade de julgamentos morais, de preconceitos e de rotinas que encadeiam os modernos europeus: avaliar seu calor vital, isto é, a quantidade de energia que exprimem, e fixar, assim, uma ordem de virtudes.    Quer, afinal, realizar a "Umwerthung aller Werthe" (fórmula que encontra então) "a reavaliação de todos os valores". Todos — escreve. Seu orgulho não se contenta com menos. Reconhece então, e consegue definir, certas formas de virtude que os moralistas profissionais não sabem observar: o domínio de si mesmo, a dissimulação dos sentimentos íntimos, a cortesia, a alegria, a exatidão na obediência e no mando, a deferência, a exigência do respeito, o gosto pelas responsabilidades e perigos — tais eram os usos e as tendências, hoje desprezadas, da antiga vida aristocrática, e as fontes de uma moral mais viril e mais produtiva do que a nossa.

 

(*)    Em francês no original nietzschiano.

 

É provável que ele fizesse, então, leituras muito sérias. Estudou os Problemas Biológicos de Rolph, nos quais pôde encontrar a análise desse crescimento vital que é o fundamento de sua metafísica. Talvez tenha relido então algum livro de Gobineau (admirava o homem e a obra); podemos, pelo menos, aventurar a conjetura. Que importam, porém as leituras e que peso têm as influências? Nietzsche tem quarenta e dois anos; passou já da idade de aprender e suas idéias estão todas nele mesmo. As leituras favorecem e alimentam suas meditações, mas não as dirigem. Seu trabalho é terrivelmente penoso e a insônia aniquila-o. Não obstante, persevera e se nega a triste alegria de beijar pela última vez sua irmã Lisbeth, que vai acompanhar o esposo para a América. "Vi-verás, pois, lá longe — escreve-lhe — e eu aqui, em uma solidão mais inatingível do que todos os Paraguai. Minha mãe terá que viver só, e todos precisaremos ter muito ânimo… Quero-te, e choro — Frederico."

Passam oito dias e novos projetos são forjados. Negocia com seu editor recolher todos os seus livros e publicá-los de novo. É um pretexto que aproveita para ir à Alemanha. "Um negócio que exige a minha presença vem ajudar os meus desejos" — escreve, e, sem demora, se dirige a Naumburg.

O encontro é penoso. O irmão e a irmã falam com ternura na véspera de uma separação que sabem ser definitiva. Nietzsche não oculta as dificuldades de sua vida. "Encontro-me sozinho diante de um imenso problema — diz ele;— é um bosque em que me perco, uma selva virgem; "Wald und Urwald". Preciso de auxílios, de discípulos, de um mestre. Ser-me-ia tão grato obedecer! Se me achasse perdido numa montanha, obedeceria ao homem que conhecesse a montanha; doente obedeceria ao médico, e se encontrasse um homem capaz de me esclarecer sobre o valor de nossas idéias morais, eu o ouviria e seguiria. Mas não encontro ninguém, nem discípulos, nem muito menos mestres… Estou só." A irmã responde com o conselho de sempre: Que volte a uma Universidade qualquer; os moços sempre o escutaram, e uma vez mais o escutarão e compreenderão. "Os moços são tão estúpidos!   —  responde  Nietzsche  —  e   os  professores   ainda o são mais. Além disso, todas as Universidades da Alemanha me repelem. Onde poderia eu ensinar?" Em Zurich, sugere a irmã. Mas ele replica: "Não posso tolerar senão uniu cidade:    Veneza."

Vai a Leipzig conversar com o seu editor, que o recebe sem consideração alguma: seus livros não se vendem. Regressa a Naumburg, diz adeus definitivo a Lisbeth, e parte. Qual será o seu refúgio no inverno? No ano passado sofrerá a ruidosa multidão de Nice. Onde irá? Talvez a Vallombrosa. Lanzky recomendara-lhe este formoso bosque dos Apeninos  toscanos   e  espera-o  em  Florença.

Antes de sair da Alemanha, Nietzsche, de passagem por Munich visita seu amigo de outros tempos, o barão de Seydlitz, que o apresenta à sua esposa e lhe mostra sua coleção de objetos japoneses. A mulher é jovem e encantadora, e a coleção interessa a Nietzsche, que descobre a arte japonesa e gosta dessas estampas, desses miúdos objetos impudicos e cheios de regozijo, tão pouco conformes ao triste gosto moderno, e ao triste gosto alemão menos ainda que a qualquer outro. Seydlitz é perito em coisas belas e em viver bem. Nietzsche inveja-o um pouco. "Talvez seja tempo, querida Lisbeth — escreve a sua irmã — de me procurares uma esposa. Filiação: alegre, bonita, jovem; em resumo: um pequeno ser corajoso à Ia Irene de Seydlitz (com a qual quase nos tratamos  por  tu."

Ei-lo já na Toscana. Lanzky recebe-o, acompanha-o e o conduz ao observatório de Arcetri, nas alturas de San Miniato, onde mora um homem excêntrico: um leitor dos seus livros. Leberecht Tempel, guardava, junto à sua mesa e aos seus estranhos instrumentos, as obras de Frederico Nietzsche, das quais sabia de memória e costumava recitar não poucas passagens. Leberecht Tempel era um caráter singularmente nobre, verídico e desinteressado. Os dois homens falaram durante meia hora, e, ao que parece, se entenderam. Nietzsche   retirou-se   muito   emocionado.

— Gostaria que este homem não tivesse conhecido os meus livros — disse a Lanzky. — É demasiado sensível, demasiado bom.    Eu lhe  causarei dano.

Pois ele sabia as terríveis conseqüências de suas idéias e temia, para os que as lessem, sofrimentos iguais aos seus.

Não permaneceu na Toscana, pois o ar rude e frio que sopra das montanhas sobre Florença, incomodava-o. De novo o assaltaram as recordações de Nice. Nice, a cidade dos cento  e vinte  dias  de sol.

De Nice escreve a sua imã, em 15 de novembro de 1885:

"Não se assombre demais, querida irmã, se o seu irmão, que tem em suas veias sangue de toupeira e de Hamlet, lhe faz sinais, não de Vallombroso, mas de Nice. Foi admirável para mim haver experimentado quase simultaneamente o ar de Leipzig, de Munich, de Florença, de Gênova e de Nice. Você não pode imaginar até que ponto Nice vence as demais neste concurso. Como no ano passado, vim parar na Pensão de Genebra, viela de Santo Estevão. Encontrei-a reformada, mobiliada de novo, pintada, muito agradável. Meu vizinho de mesa é um bispo, um "monsignore" que fala alemão. Penso muito em você.

Seu

Prinz Eichhorn."

"Eis-me de volta a Nice — escreve em outra carta — quer dizer, à razão!" Sua satisfação é tal que observa com indulgência a cidade cosmopolita, divertindo-se com o espetáculo.

Minha janela dá para o "square" dos Focenses — escreve a Peter Gast. — Que prodigioso cosmopolitismo nesta aliança de palavras/ Não o faz rir? E é muito certo, aqui viverem os focenses. Ouço no ar o rumor de triunfo e de super-heroísmo — uma voz que me inspira confiança e me diz: aqui estás tu em teu lugar… Quão longe a gente se sente, aqui, da Alemanha!  "Ausser-deutch" — é coisa que eu não saberia dizer com bastante força.

Empreende de novo as suas habituais caminhadas ao sol pelos campos brancos que dominam o mar. Sete anos de recordações ligam o seu pensamento a este mar, a estas costas, a estas montanhas. Sua fantasia desperta, ele ouve-a e segue-a. Nenhuma hora passa em vão; todas são afortunadas e deixam, como lembrança e testemunho da felicidade que trouxeram, um epigrama, um poema em prosa, uma máxima, um  "lied", ou uma  canção.

Difama os modernos, não só por gosto, mas também — pelo menos é o que pensa — cumprindo seu dever de filósofo que, falando para o futuro, deve contradizer o seu tempo. No século XVI o filósofo que elogiava a obediência e a cultura tinha razão. No século XIX, em nossa Europa desvalorizada pelos parisienses e pelos wagnerianos alemães, nesta enfraquecida Europa que procura constantemente o concurso das massas e a unanimidade, o menor esforço e o sofrimento menor — o filósofo deve elogiar outras virtudes, e deve afirmar: "Aquele que sabe ser o mais solitário, o mais escondido, o mais distante, que sabe viver para além do bem e do mal, senhor de suas virtudes e poderoso em sua vontade — esse é o verdadeiramente grande, pois que nisso reside a grandeza." E esse homem deve indagar constantemente de si mesmo: "É possível a grandeza?" — "Ist Veredlung möglich?" Não deixamos de ouvir esta pergunta, formulada  aos  vinte   e   seis   anos.            

Difama também os alemães, o que constitui o seu segundo prazer, mais íntimo e mais vivo; A Europa germanizada esqueceu a franqueza; dissimula suas malícias, seus impudores, suas astúcias. É preciso que recobre o espírito do velho mundo, o espírito daqueles franceses dos tempos antigos, que viviam com uma clarividência, uma liberdade e uma força tão belas. "É preciso mediterraneizar a música — diz ele — como também nossos modos e preferências." Através destas páginas de Nietzsche é fácil ouvir os conselhos de seus "defuntos  amigos",   Stendhal   e  o   abade  Galiani.

"Os homens de tristeza profunda — escreve — denunciam-se quando são felizes: agarram sua felicidade como se a quisessem abrasar e sufocar num acesso de ciúme… Ah! Sabem muito bem que a felicidade foge diante deles!"

Pelos fins de dezembro, na proximidade das festas cujas recordações comovem o seu fiel coração, Nietzsche viu fugir diante de si a felicidade. O prazer das idéias vivas e das belas imagens não o satisfaz por completo. Outras necessidades protestam, e afinal, se vingam; a "profunda tristeza" recobra seus direitos e seu poder. A multidão nicense já não o diverte, nem o "square" dos focenses. Que lhe importa o "Gai Saber" e seus preceitos? E a luz, e o vento, e as canções provençais? Ele é um alemão, filho de um pastor protestante, e vê aproximar-se com o coração oprimido, os veneráveis dias de Natal e São Silvestre.

Sente-se aborrecido na mesquinha pensão onde mora, com seus móveis tocados por muitas mãos, com seu quarto aviltado pela comunidade. Chegam os dias frios. Sendo pobre, não pode ter calefação. Regela-se e lamenta amargamente a falta das estufas da Alemanha. Lamentáveis lugares nos quais não se pode, sequer, estar só. À direita, um menino atormenta um piano com suas escalas; em baixo, dois amadores se exercitam ao clarim e ao violino. Cedendo ao desespero, Nietzsche escreve a sua irmã, que passa em Naumburg o último Natal:

Que estúpido é não ter ninguém aqui que possa rir comigo! Se eu estivesse melhor de saúde e fosse mais rico, gostaria de ir morar no Japão, para ter um pouco de alegria. Em Veneza sou feliz porque ali se pode viver à japonesa sem demasiado esforço. Todo O resto da Europa é pessimista e triste. A horrível perversão da música, feita por Wagner, é um caso particular da perversão e confusão universais. Aí está de novo o Natal, e dá pena pensar que tenho que continuar vivendo, como o faço há sete anos, a modo de um proscrito ou um cínico desprezador dos homens. A ninguém importa, já, minha existência. O Lama tem "algo melhor" em que pensar, ou, pelo menos, tem algo de sobra em que pensar…

   O  quê?   Não é alegre a minha carta de felicitação Pascoal?    Yiva o Lama!

Teu F.

Por que não vais para o Japão? Lá a vida é mais sensata, e tão alegre!

Oito   dias mais  tarde,   escreve  uma   carta   mais   serena, arrependido, talvez, de sua confissão:

Querida, o tempo está hoje magnífico e é forçoso que teu Fritz te faça de novo boa cara, embora tenha passado nestes últimos tempos dias e noites muito melancólicos. Por sorte, o meu Natal foi um verdadeiro dia de festa. Ao meio dia recebi os vossos amáveis presentes apressando-me a pendurar ao pescoço a corrente do relógio e a colocar no bolso do paletó o lindo calendário. Quanto ao "dinheiro", se é que vinha na carta (nossa mãe assim o escreveu) escapou-me das mãos. Perdoem a este animal cego que desfez o pacote na rua. Seguramente, alguma coisa caiu quando eu abria impacientemente as cartas. Esperemos que alguma velha, ao passar por ali tenha encontrado o "seu pequeno Menino Jesus". Depois de me inteirar de tudo o que disseram, fui à minha península de São João, fazendo a pé uma grande caminhada pela costa, e instalei-me, enfim, não longe de alguns soldados que jogavam bola. Rosas recém–abertos, gerânios nas sebes tudo verde! tudo quente! Nada do norte! Ali o teu Fritz bebeu três copos bem cheios de um doce vinho do lugar, e talvez se tenha embriagado um pouquinho. .. Pelo menos, pôs-se a falar ás ondas, e quando estas, ao desfazer-se com demasiada força desmanchavam-se em espuma e  lhes dizia como se diz às galinhas: "Psstl Psst Psst!" Depois, voltei a Nice e à noite comi principescamente na pensão, contemplando a resplandecente árvore de Natal. Acredita que encontrei um padeiro de luxo que sabe o que são os "Quackkuchen"? Disse-me ele que o rei de Wurtemberg mandara prepará-los iguais como os que me agradam, para o dia de seu aniversário. Lembrei-me disto ao escrever a palavra "príncipescaménte"… In alter Liebe,   teu  F.

N.B. Aprendi novamente a dormir ("sem narcóticos).

Janeiro, fevereiro, março de 1886: sua tristeza parece menos viva. Dá forma à sua obra, às notas que sua fantasia ditou. Faz quatro anos que deixou de publicar seus aforismos. A matéria que os seus cadernos lhe oferecem é imensa, e ele se propõe a extrair dela um volume. Todos os seus esforços são empregados em ordenar e escolher.

Teria esquecido a obra sistemática em que pensara no inverno anterior. Não. Ele sente constantemente a proximidade e a necessidade desta obra. Quer desculpar diante de si próprio a demora, sob o pretexto de que precisa se divertir com um livro leve, antes de se lançar a tão grande empresa. Encontra um título: Além do bem e do mal, e um subtítulo: Prelúdio de uma filosofia do futuro. Deste modo, anunciará a obra mais importante e constantemente adiada — engana-se a si mesmo ao ligar com um vínculo fictício a diversão  e  o  dever.                                                         

Lembremos-nos daquele entusiasmo alegre e confiado com que ele anunciava em outro tempo a conclusão de um livro. Já não existe confiança nem alegria: ele sabe que ninguém o lera. Sua ventura, porém, excede sempre à esperança, e Nietzsche, ainda desta vez não previu a prova que teria de suportar. "Além do bem e do mal" não encontra editor. Nietzsche entra em conversação com uma casa de Leipzig, que declina suas propostas; escreve a Berlim, sem melhor resultado. Seu livro é repudiado em todos os lugares. Que fará? Pensa em dividi-lo em folhetos, porque assim talvez cheguem mais facilmente ao público. E escreve um ensaio de prefácio:

Estes folhetos constituem a continuação dás Considerações Extemporâneas, que publiquei há uns dez anos para atrair "meus semelhantes" até mim. Eu era, então, bastante jovem para ir assim, pescando, com uma impaciente esperança. Hoje, depois de cem anos meço o tempo com o meu metro! "não sou, ainda bastante velho" para ter perdido toda a esperança e toda a confiança.

Não demora, porém, em abandonar esta idéia. "Já não tenho outro recurso — escreve a sua irmã — senão amarrar o meu manuscrito e guardá-lo numa gaveta."

Seguindo o seu costume, vai passar a primavera em Veneza, mas não encontra ali o seu amigo, que, na ocasião, percorre as cidades da Alemanha tentando, em vão, colocar sua música. Peter Gast compôs uma ópera: O Leão de Veneza — que é recusada, de teatro em teatro. Nietzsche escreve-lhe, consolando-o e dando-lhe coragem. Um e outro, alemães de nascimento, mediterrâneos de vocação, habitando, um em Nice e outro em Veneza, têm a mesma ambição e o mesmo infortunado destino.

Volte escreve-lhe Nietzsche volte à solidão em que ambos sabemos viver, em que só nós sabemos viver. ..    O wagnerismo é que lhe fecha o caminho, além dessa grosseria e teimosia alemãs, que desde o "Império" não têm cessado de crescer. Será preciso que nos coloquemos em guarda e em armas, para impedir que nos façam morrer de silêncio a você e a mim…

Frederico Nietzsche sente sua solidão diminuída por esta camaradagem na vida difícil. A infelicidade de Peter Gast é semelhante à sua, e isto lhe permite falar-lhe como a um irmão. Peter Gast é pobre: "Que a minha bolsa nos seja comum — diz-lhe Nietzsche — compartilhemos o que tenho…" Peter Gast perde o ânimo e duvida de si próprio. Nietzsche conhece essa angústia, sabe quanto é necessária a confiança para o homem que trabalha, e como o enfraquece depressa o desdém público.

"Coragem — escreve-lhe; — não se deixe deprimir. Esteja certo, pelo menos, de que eu creio em você; preciso de sua música — sem ela, não poderia viver…" Não duvidemos da sinceridade de Nietzsche quando fala assim. Sua capacidade de amor e de admiração, que é imensa, foi colocada neste último companheiro que lhe resta, e sua amizade transfigura a música de Peter Gast.

Na própria Veneza ele é infeliz: a luz excessiva fere-lhe os delicados nervos dos olhos. Gomo em outra ocasião em Basiléia, tem que se encerrar, com as venezianas fechadas, e negar-se o prazer dos esplêndidos dias italianos. Onde encontrará refúgio? Recorda os bosques alemães, tão vastos, sombrios e benéficos para vista, e cede à nostalgia da pátria. Embora se irrite, embora se rebele contra ela, ama-a; e como poderia não a amar? Sem sua divina música, que regulou o ímpeto de seus primeiros desejos — sua alma seria outra. Sem sua língua, difícil e esplêndido instrumento — seu pensamento seria outro. Schopenhauer e Wagner, dois alemães, foram seus verdadeiros mestres, e continuam a sê-lo (como em segredo se confessa). Seus verdadeiros discípulos, se é que existirão algum dia, nascerão na Alemanha, nesta pátria cruel que ele não pode  renegar.

Por esse tempo recebe da Alemanha notícias que o comovem: Rohde foi nomeado professor na Universidade de Leipzig. Nietzsche sente-se feliz e felicita-o em termos esquisitos. No entanto, não se pode defender de certas idéias e comparações melancólicas. "Agora — escreve a Peter Gast — a faculdade de filosofia se compõe pela metade, de meus "bons amigos" (Zarncke, Heinze, Leskian, Windisch, Rohde, etc.)".

Repentinamente, sente desejo de partir. Quer ver sua mãe abandonada pelos filhos; quer ouvir as lições do seu velho amigo; quer, afinal, enfrentar aqueles editores famosos que imprimem vinte mil volumes por ano e repudiam os seus. Abandona Veneza e parte diretamente para Leipzig.

Vai à casa de Erwin Rohde, mas escolhe mal a hora. Encontra um homem ocupado e preocupado, que recebe com desatenção e aborrecimento aquele singular personagem que frustrou sua própria vida. "Vi Nietzsche — escreve Rohde mais tarde, numas poucas linhas em que explica seu frio acolhimento. — Toda sua pessoa mostrava a marca de uma indescritível estranheza, que me inquietou profundamente. Havia nele algo que eu jamais conhecera, e daquele Nietzsche que eu conhecia, haviam desaparecido uma porção de traços. Parecia estar chegando de um país onde ninguém habitasse."

Nietzsche disse-lhe: "Queria ouvir você falar." Rohde leva-o consigo e o faz sentar-se em meio àqueles moços que ignoram a sua obra e até seu nome. Nietzsche ouve e depois se retira. "Ouvi Rohde na Universidade — escreve brevemente a sua irmã. Já não posso me comunicar com pessoa alguma. É evidente que Leipzig não é um lugar de refúgio, nem de repouso para mim".

Fugiria de Leipzig como fugira de Nice ou de Veneza, mas algumas penosas ocupações obrigam-no a ficar. Um após outro, sonda vários editores, tentando colocar seu livro, até que, enfim, sua dignidade se rebelasse, desejando que sua obra apareça, resolve pagar as despesas da impressão, não obstante a pesada  carga que isso representa.

Sua mãe espera-o em Naumburg onde, desde a partida de sua filha, vive só. Nietzsche sente por ela uma piedade vivíssima. Sabe.que está desolada com o abandono de seus filhos, e desesperada com as impiedades que ele escreve em seus livros. "Não os leia. Ignore-os — diz-lhe ele constantemente; — não é para si que os escrevo." Mas ela não pode reprimir a curiosidade, e o seu descontentamento, assim, jamais se apazigua.

Não querendo abandonar novamente a Alemanha sem lhe proporcionar nem que seja uma curta alegria, Nietzsche vai passar uma semana ao seu lado, mas não tem a força suficiente para conter a confidencia dos seus dissabores e lamenta-se, exalta-se, entristecendo com isso a pobre mulher, a quem deixa, afinal, mais infeliz do que a encontrara à sua chegada.

Ao passar por Munich procura encontrar-se novamente com o barão de Seydlitz e sua esposa, desejoso de descansar junto desses amáveis amigos. Mas o barão está ausente, e a casa fechada.

Deixando aquela Alemanha que não tornará a ver, Nietzsche viaja até à Alta Engadina, onde sempre espera encontrai" algum alívio. Mas, ao chegar ali, em pleno julho, encontra apenas brumas glaciais que lhe provocam uma grande crise do nevralgias  e  de  melancolia.

 

II

A VONTADE DE DOMÍNIO

Poderemos dizer que Nietzsche encontra amigos na Engadina? Convirá tal palavra a essas figuras incertas, essas mulheres russas, inglesas, suíças, judias, que, vendo regressar, a cada estação, aquele homem encantador, sempre doente e só, não lhe podem recusar uma fugaz simpatia? São elas: as senhoras Rõde e Marusoff; as senhoritas Zimmern e von Silas-Marschlins (esta, amiga da senhorita de Meysenbug), e outras que se deixam adivinhar, mas cujos nomes permanecem desconhecidos.

Como o julgavam estas pessoas delicadas e afáveis? Nietzsche evitava cuidadosamente as palavras que pudessem surpreendê-las ou fazer-lhes pena. Continha suas idéias perigosas; queria e sabia ser para elas um companheiro amável e instruído, refinado e discreto. Uma destas amigas, uma inglesa de saúde delicada, a quem Nietzsche visitava e distraia com freqüência, disse-lhe um dia:

— Sei que o senhor escreve, senhor Nietzsche. Gostaria de conhecer seus livros.

Nietzsche sabia que essa inglesa era uma católica fervorosa.

— Não. Não quero que a senhora os conheça. Se fôssemos acreditar no que escrevo, uma pobre criatura doente, como a senhora, não teria direito algum à vida.

E, como de outra vez ela lhe dissesse: — Já sei, senhor Nietzsche, porque hão nos deixa ler seus livros. Em um deles, o senhor escreveu: "Se vais com as mulheres, não esqueças o chicote".— Ele respondeu, com voz desolada, tomando entre as suas as mãos da senhora que assim o censurava:

— Por Deus, minha amiga! Asseguro-lhe que minhas palavras não têm esse sentido!

Admiravam-no estas mulheres? É preciso um juízo muito seguro para se atrever a admirar um autor desconhecido, e, sem dúvida, elas não tiveram tanta audácia. Estimavam e tinham certo afeto ao seu companheiro de hotel; reconheciam seu singular gênio de conversador, e na mesa redonda procuravam o lugar mais próximo ao seu. Tudo isto era muito pouco, se pensarmos em sua glória atual, mas era muito então, para ele. Graças a estas amigas, tornava a encontrar, na Engadina, algo dessa confiança que era tão necessária à sua alma, e que perdia assim que entrava na Alemanha. Durante o verão de 1886, alguns bons músicos passaram por Sils. Descobriram que Nietzsche era um ouvinte de raras qualidades, e quiseram ser ouvidos por ele. Esta gentileza comoveu-o. "Observo — escreve a Peter Gast — que nossos artistas cantam e tocam só para mim. Se isto continuasse, acabariam botando-me a perder."

Certa lenda oriental relata as aventuras de um soberano que excursionava disfarçado pelos seus domínios. Ninguém o reconhece, mas adivinham-no, e um respeito instintivo acolhe sua chegada. Nietzsche, naquele hotel da montanha, faz pensar no soberano disfarçado e adivinhado a meias.

Fraco consolo, porém. Poderiam estas mulheres adivinhar uma angústia cuja profundidade eram incapazes de medir? Nietzsche atravessava esse grave momento em que todo o homem, por muito que resista à verdade, tem, afinal, que saber o que lhe nega e lhe oferece o destino com uma inexorável constância. De boa ou má vontade, chegara o momento em que ele devia arrancar do coração as últimas esperanças. "Nestes tempos, — escreve a Peter Gast — tenho-me sentido indizivelmente triste, e as preocupações tiram-me o sono." Este dado é breve, mas, a sua irmã ele confessa mais, escrevendo-lhe páginas e páginas terríveis de força e de monotonia.

Onde estão aqueles velhos amigos aos quais antigamente me sentira tão estreitamente ligado? Habitamos mundos diferentes e falamos línguas diferentes! Como um estranho, como um proscrito, vago entre eles sem que me dirijam uma palavra ou um olhar. Calo-me, pois que ninguém compreende minhas palavras... Ah, bem posso dizer: jamais me compreenderam! É espantoso ver-se condenado ao silêncio quando se tem tanto que dizer,.. Teria eu sido criado para a solidão, para não encontrar nunca uma pessoa para me fazer ouvir? A incomunicabilidade é, em verdade, a mais espantosa das solidões. Ser diferente é trazer uma máscara de bronze mais dura do que todas as máscaras de  bronze. A amizade perfeita só é possível inter pares. Inter pares: palavras embriagadoras! Que confiança, que esperança, que perfume, que beatitude promete a um homem fatal e constantemente só! a um homem que é diferente, que jamais encontrará ninguém semelhante! E, no entanto, este homem é um bom indagador, e procurou muito… Ah, loucura fugaz destas horas em que o solitário acredita encontrar um amigo, e estreita-o entre seus braços: presente dos céus, dom inestimável! Mas não se passou ainda uma hora, quando já o repudia com repugnância e se afasta com asco de si mesmo, como se se sentisse desonrado, diminuído, doente com sua própria companhia.

Um homem profundo tem necessidade de amigos, a menos que tenha um Deus. E eu não tenho nem Deus, nem amigos. Ah, irmã! esses que você designa com essa palavra, em outro tempo foram meus amigos. Porélh, e agora?

Perdoe-me este acesso de paixão; a cansa disto foi minha última viagem.. . Minha saúde não é boa e nem  má.   Só a pobre alma é que se encontra ferida e ávida.

Dê-me alguns homens que consintam em me ouvir e me compreendam e me sentirei são  e salvo!

Aqui, tudo segue seu curso. As duas inglesas e d velha russa (a compositora) voltaram; esta última, muito doente

Nietzsche voltou a se ocupar do projeto da Wille zur Macht. Sua infeliz passagem pela Alemanha, modificara seus propósitos. Pensava: Para que escrever obras de combate? Sem aliados e sem leitores, nada posso contra o aviltamento da Europa; cumpra-se, pois o destino. Algum dia, esse aviltamento encontrará seu fim; dia longínquo, que eu não verei. Então, descobrirão meus livros e eu terei leitores. Hoje não posso lutar, pois nem sequer tenho inimigos…

Em julho, ao sair daquela Alemanha que pusera tão à prova sua capacidade de paciência, havia redigido um plano detalhado.   Em  setembro,   escreve:

Anuncio, para os próximos quatro anos, o término de minha obra em quatro volumes. Só ó título já é para dar medo: Vontade de Domínio, ensaio de uma reavaliação de todos os valores. Necessito de todas as minhas forças saúde, solidão, e bom humor e, talvez, também, uma mulher.

Para onde se retirará ele para compor essa nova obra? Gênova inspirara-lhe os dois livros de convalescente: Aurora e La Gaya Scienza; Rapallo e Nice inspiraram-lhe o Zaratustra. Agora, pensa na Córsega. Desde muito tempo sente curiosidade por essa ilha selvagem, e, nela, por uma cidade:  Corte.

Ali foi concebido Napoleão escreve. Que lugar, pois, mais apropriado para empreender a reavaliação de todos os valores?… Também para mim se trata de uma concepção.

Ah… esta obra napoleônica, cujo simples título deve assustar, começa por assustar o seu autor. Nietzsche não ignora onde o leva esta "via mala des conséquences" (*) que segue desde algum tempo. Posto que uma força ávida e conquistadora reside no coração da natureza, todo o ato que não corresponda a esta força é inexato e fraco. Di-lo e escreve-o, e tal é, exatamente, seu pensamento: o homem nunca é tão grande como quando reúne em si a presteza e o refinamento do espírito a uma certa rudeza e crueldade ingênita dos instintos.   Assim  foi   compreendida  a   virtude pelos   gregos   e   a virtú pelos italianos. Os políticos franceses do século XVII, e depois deles, Frederico II, Napoleão e Bismarck; agiram de acordo com estas máximas. Perturbado por suas dúvidas e extraviado em seu problema, Nietzsche faz firme finca-pé nesta verdade fragmentária, mas segura: É preciso ter a coragem da nudez psicológica. Exercita-se o mais possível para isso, mas fica insatisfeito. Seu espírito é invencivelmente claro, sua alma invencivelmente sonhadora, e esta definição dos homens mais fortes é pequena e gelada para os seus sonhos. Já não admirará Schiller e Mazzini que antes escolhera para mestres? Não duvidemos: jamais alma alguma foi tão constante como a sua. Mas receia, seguindo-os, ceder a uma fraqueza, e os mestres que escolheu agora chamam-se Napoleão e César Bórgia. Mais uma vez se afasta de sua missão e ilude as afirmações peremptórias.

 

(*)    Sic,  no  texto.

 

 

O editor Fritzsch concorda, mediante um auxilio pecuniário, em publicar uma segunda edição de A Origem da Tragédia, de Aurora e de La Gagá Scienza. Havia muito tempo que Nietzsche desejava acrescentar um prefácio a estas obras antigas, corrigi-las e talvez aumentá4as. Empreende imediatamente este novo trabalho e se absorve nele.

Já não irá à Córsega. Regressando à costa genovesa, detém-se em Rufa, não longe de Rapallo, acima de Portofino, cuja crista arborizada se adianta pelo mar. Torna a encontrar os passeios e os lugares em que Zaratustra lhe falara. Como se sentia triste naquele tempo! Acabava de perder seus dois últimos amigos, Lou Salomé e Paulo Rée; não obstante, prosseguia em seu trabalho, e criava, no próprio momento de sua grande dor, sua obra mais corajosa. Deixa-se comover pelo passado e cede à emoção de suas recordações.

Por esses dias recebe uma carta que é o primeiro sinal de sua próxima glória. Em agosto de 1886, desesperando de ver-se compreendido por seus compatriotas, enviara seu livro Além do Bem e do Mal a dois estrangeiros — o dinamarquês Jorge Brandes e o francês Hipólito Taine. O primeiro não respondeu, mas Taine escreveu, em 17 de outubro de 188(1, uma carta que trouxe a Nietzsche um pouco de alegria:

Meu senhor:

Ao regressar de uma viagem encontrei o livro que ò senhor teve a amabilidade de me enviar. Como o senhor diz, está cheio de "pensamentos posteriores"; a forma, tão viva, tão literária, ó estilo apaixonado, o curso com freqüência paradóxico, abrirão os olhos do leitor que deseje entender. Eu recomendaria aos filósofos especialmente o seu primeiro trecho sobre ós filósofos e a filosofia (págs. 14, 17, 20, 25); mas os historiadores e os críticos acharão também um rico espólio de idéias novas, (por exemplo, 41, 75, 76, 149, 150, etc.). O que o senhor diz do gênio e dos caracteres nacionais em seu oitavo ensaio, é extraordinariamente sugestivo, e hei de reler este pedaço, embora se encontre nele uma frase demasiado lisonjeiro para mim. O senhor me faz grande honra em sua carta, colocando-me ao lado do senhor Burckhardt, de Basiléia, a quem admiro infinitamente. Creio ter sido o primeiro em assinalar, na imprensa francesa a sua grande obra sobre a Cultura do Renascimento na Itália…

Aceite, com minha cordial gratidão, a segurança dos meus melhores sentimentos.

H.   Taine.

Paulo Lanzky foi se encontrar com Nietzsche em Ruta. Não o vendo fazia 18 meses, ficou assombrado com a mudança que observou nele. O corpo parecia prostrado, as feições alteradas. Mas o homem continuava sendo o mesmo: por amarga que fosse agora a sua vida, continuava tão afetuoso e ingênuo como antes, e tão pronto para o riso como um menino. Arrastava Lanzky consigo para a montanha que, a todos os momentos oferece pontos de vista tão grandiosos sobre o mar e os Alpes nevados. Juntos descansavam nos lugares mais belos e, logo, recolhendo alguns sarmentos de outono e alguns ramos secos, acendiam fogueiras cujas labaredas e fumarada Nietzsche acolhia com gritos  de júbilo.

Foi então, naquela hospedaria de Ruta, que Nietzsche redigiu os prefácios de Aurora e de La Gaya Scienza nos quais conta, com tão estranha vivacidade sua odisséia espiritual: Triebschen, a amizade de Wagner; Metz e a descoberta da guerra; Bayreuth, a esperança e a desilusão; o rompimento com Richard Wagner; o estraçalhamento de seu amor; os cruéis anos que atravessou, privado de lirismo e de arte; finalmente, Itália, que lhe devolve um e outra; Veneza e Gênova, as duas cidades que o salvaram, e a costa da Ligúria, berço de Zaratustra.

Quando Nietzsche escrevia assim, lutando contra a depressão — tomaria drogas que favorecessem a excitação indispensável para o trabalho? Certos testemunhos parecem afirmá-lo. Sabemos que tomava cloral e um extrato de cânhamo indico que, em pequenas doses, lhe proporcionava repouso mas que, ao contrário, o excitava se tomado em doses fortes. Embora seja possível que manejasse, em segredo, uma farnia-copéia mais complicada, como é muito freqüente com os nervosos.

Nietzsche amava aquela costa italiana. "Imagine-se — escreve a Peter Gast — uma ilhota do arquipélago grego trazida até aqui pelos ventos. É uma costa de piratas, inclinada, dissimulada, perigosa…" Propunha-se passar ali o inverno, mas não tardou em modificar seus projetos e querer regressar a Nice.   Em vão tratou Lanzky de o segurar.

—   O senhor queixa-se do seu abandono — disse-lhe. — Mas, de quem é a culpa? O senhor mesmo desalenta seus discípulos. Chama-me para cá, chama Peter Gast, e, de repente, vai-se embora!

—  A luz e o ar de Nice são-me indispensáveis — respondia. — Tenho  necessidade  da baía  dos Anjos.

Partiu só. Durante o inverno acabou de escrever os seus prefácios, releu e retocou suas obras. Ao que parece viveu num singular estado de abandono, de indecisão e de melancolia. Enviou seus manuscritos a Peter Gast, como fazia sempre, mas o seu pedido de conselho tem um desusado acento de humildade e inquietação: "Leia-me com maior desconfiança que nunca — escreve, em fevereiro de 1887 — e diga-me simplesmente: tal coisa está bem; tal não o está; isto me agrada; por que não isto  de preferência?, etc."

Lê, e suas leituras parecem dirigidas por uma curiosidade mais livre e menos ordenada pela rigidez das idéias preconcebidas. Familiariza-se com as obras dos decadentes franceses; aprecia os trabalhos de Baudelaire sobre Richard Wagner, e os Ensaios de Psicologia Contemporânea de Paul Bourget; lê os contos de Maupassant, e admira "esse grande latino". Folheia alguns volumes de Zola, e não se deixa seduzir por esse pensamento puramente popular, por essa arte absolutamente decorativa. Compra e comenta a lápis nas margens o Esboço de uma moral sem obrigação nem sanção. Guyau  verá, como Frederico Nietzsche, e ao mesmo tempo que ele, a idéia de fundar uma moral sobre as modalidades expansivas da vida; Guyau porém, interpretava-as em outro sentido, e compreendia como força do amor o que para Nietzsche era força conquistadora. O acordo inicial, não obstante, é seguro, e Nietzsche estima a obra inteligente e pura do filósofo francês. A notoriedade dos novelistas russos começava por aqueles tempos. Nietzsche interessa-se por esses poetas de uma raça jovem, violenta e sutil, cujo encanto Sempre sentiu.

"Conhece Dostoievsky? — escreve a Peter Gast — Ninguém, afora Stendhal, me satisfez e deleitou tanto. Eis aqui um psicólogo com o qual me entendo." Aponta o novo autor a todos os seus correspondentes. O fervor religioso daqueles eslavos interessa-o e merece a sua indulgência. Não é um sintoma de debilidade — pensa — mas o desvio de uma energia que não pode aceitar os frios limites da sociedade moderna e cuja rebeldia adota a forma de um cristianismo revolucionário. Aqueles bárbaros, violentados em seus instintos, perturbam-se e acusam; entram num período de crise que não  terminou   ainda.    Nietzsche   escreve:

 

"Esta consciência inquieta é uma enfermidade, mas uma enfermidade do gênero da gravidez..."

Pois que Nietzsche espera sempre. Defende obstinadamente suas idéias contra suas repugnâncias; quer que seus pensamentos permaneçam livres, benévolos e confiantes, e quando sente crescer dentro de si e subir até eles o ódio à Europa e a seus povos aviltados, quando tem medo de ceder ao seu humor amargo, controla-se em seguida, Não — repete a si mesmo — jamais foi a Europa tão rica em homens, idéias e aspirações; jamais esteve tão bem preparada para as grandes obras como o está hoje, e é preciso, contra toda a aparência, esperar tudo destas multidões, por mais que a sua fealdade pareça dever matar toda a esperança.

Durante os primeiros meses de 1887, Frederico Nietzsche entabulou relações com uma certa senhora V. P. com a qual foi a San Remo e Monte Cario. Ignoramos o nome desta mulher e não conhecemos nenhuma carta escrita por ela, ou a ela dirigida. Há em tudo isto certo mistério, e talvez amor. Pelo menos, não é despropósito supô-lo. (*)

Sem dúvida, Nietzsche acompanhava a senhora V. P. quando ouviu nos concertos do cassino de Monte Cario o prelúdio de Parsifal. Ouviu sem ódio, com a repentina indulgência de um lutador fatigado. "Gostei muito de Wagner — escreve em setembro a Peter Gast — e ainda gosto…" Sim! é claro que ainda gosta dele, quando pode falar assim da sinfonia que acaba de ouvir:

Não quero saber se esta arte pode ou deve servir a algum fim escreve a Peter Gast; contento-me, agora, em perguntar: Teria jamais Wagner feito algo melhor? E encontro a mais extremada consciência e precisão psicológica na maneira de dizer, de exprimir e de comunicar a emoção; a forma mais curta e mais direta; cada matiz sentimental definido com uma brevidade quase epigramática; uma clareza descritiva tal que, escutando esta música se pensa em um escudo maravilhosamente cinzelado; por fim, um sentimento, uma experiência musical da alma, extraordinária e sublime; uma "elevação", no sentido formidável da palavra; uma simpatia, uma penetração que entram como um punhal na alma, e uma infinita piedade pelo que descobriu e julgou no fundo desta alma.    Tais belezas se encontram em Dante e em

mais ninguém.    Que pintor pintou jamais um tão melancólico olhar de amor como Wagner nos últimos acentos do seu prelúdio?

 

(*) Os costumes são bastante livres nas pensões mediterrâneas, e sem dúvida, não conhecemos todos os episódios da vida de Frederico Nietzsche, e não nos está autorizada a hipótese. Segundo um testemunho que pudemos recolher, sua conduta na Engadina jamais deu motivo a qualquer murmúrio. Parece, pelo contrário, que evitava as moças.   (N. do A.)

 

 

Que fácil lhe seria chegar a ser um grande critico; de agudeza igual; mas muito superior amplitude de vistas, à desse Sainte-Beuve tão estimulado por ele! Nietzsche sabe que o "diletantismo da análise" (a expressão é sua) tem seduções a que ele, por sua parte, mal? consegue resistir. Seus melhores leitores observaram isso com freqüência. "Que historiador é 6 senhor!" lhe dizia em outro tempo Burckhardt, e Taine o repete, embora o cumprimento pouco satisfaça a Nietzsche. Despreza a função do historiador e do crítico. Um jovem alemão conhecido em Nice lhe diz que os professores de Tubinga o consideram como um espírito dissolvente e um negador radical. Isto entristece-o. Se se afastou violentamente do romantismo do amor e da piedade, não foi para chafurdar no romantismo inverso da violência e da energia. Admira Stendhal, mas não quer ser stendhaliano. Ais crendices cristãs nutriram sua infância; as doutrinas de Pforta amadureceram–no; Pitágoras, Platão e Wagner aumentaram e elevaram seus desejos. Quer ser poeta e moralista, inventor de virtudes, de veneração e de serenidades — nenhum de seus leitores, nenhum de seus amigos compreendeu esta intenção. Corrigindo ás provas de Aurora, relê esta antiga página, cuja verdade subsiste:

Adora-se a força de joelhos segundo o velho costume dos escravos e, no entanto, quando ê preciso determinar o grau de venerabilidade, o que importa é o grau de razão na força; é preciso avaliar em que medida foi superada a força e a que fins obedece como instrumento e como meio. Para semelhantes avaliações, porém, existem ainda muito poucos olhos; a gente chega até a considerar como uma blasfêmia a avaliação do gênio. Assim, o espetáculo mais belo se acha, talvez, condenado à obscuridade, e, apenas surgido, desaparece na noite eterna; refiro-me ao espetáculo dessa força que o gênio emprega, não em obras, mas no desenvolvimento de si mesmo como tal obra, quer dizer, no domínio de si próprio, na ordenação e seleção das inspirações, e dos esforços que surgem. O grande homem permanece invisível, como uma estrela longínqua, no que tem de mais admirável: sua vitória sobre a força fica sem testemunhas, e não é glorificada, nem cantada…

Ah! para vencer a força é preciso ter algum apoio exterior — a razão, ou a fé. Nietzsche negando a uma e a outra todos os seus direitos,  desarmou-se para o  seu  combate.

Pelos começos de março um forte tremor de terra assustou os desocupados cosmopolitas de Nice. Frederico Nietzsche admirava estes movimentos da natureza que recordam ao homem a sua insignificância. Dois anos antes, a catástrofe do Krakatoa, que fez perecer em Java duzentas mil pessoas, haviam-no entusiasmado: "Que formosura — dizia a Lanzky, que a seu pedido, lhe lia as notícias — duzentas mil pessoas destruídas de um só golpe! É magnífico! Eis aí como deveria terminar a humanidade, como terminará algum dia!" E externou o seu desejo de que uma gigantesca onda suprimisse, pelo menos, Nice e seus habitantes. "Mas — observou Lanzky — nós também seríamos suprimidos." "Que importa!" —respondeu Nietzsche.

Seu desejo, quase realizado, regozijou-o. Mas nem por isso apressou de um só dia sua partida.

Até agora escreve em 7 de março r— tenho vivido com um sentimento de ironia e de fria curiosidade em meio destes milhares de seres em estado de demência. Mas ninguém pode responder por si mesmo; talvez amanhã eu seja tão pouco razoável como qualquer outro. Há nisto um imprévi que não deixa de ter seu encanto.

Em meados de março havia terminado os seus prefácios, e, como diz num deles: "Que nos importa o senhor Nietzsche, suas doenças e suas curas? Falemos claramente, vamos direito ao problema." Está bem.. Vamos direito ao problema. Determinemos, entre os inumeráveis fins que se propôs o homem, quais são os que realmente o elevam e enobrecem; saibamos, afinal, ganhar nossa vitória sobre a força. Em 17 de março escreve um plano:

Livro primeiro — O Niilismo Europeu Livro segundo — Crítica dos valores superiores Livro terceiro — Princípio de uma nova avaliação Livro quarto — Disciplina e seleção.

É quase a mesma disposição que indicara em julho de 1886: dois livros de análise e de crítica e dois livros de doutrina  e  afirmação;  no total,  quatro  livros,  quatro  tomos.

A primavera afundava-o todos os anos em um estado de incerteza e de mal-estar; não sabia onde encontrar, entre Engadina e Nice, um lugar onde o ar fosse bastante puro e não fizesse demasiado calor; onde a luz fosse suave e não lhe molestasse os olhos. Naquele ano de 1887 deixou-se tentar pelos lagos da Itália, e, abandonando Nice, dirigiu-se ao Lago Maior. Este Mediterrâneo em miniatura, encerrado entre montanhas, agradou-lhe extraordinariamente, em princípio.    "Este lugar me parece mais formoso e emocionante do que todos os da Riviera — escreve. — Como é possível que eu tenha demorado tantos anos em descobri-lo? O mar, como todas as coisas enormes, tem algo de estúpido e de indecente que não existe aqui.

Corrige as provas da La Gaya Scienza; relê Humano, demasiado humano, e de novo se detém em considerar com ternura sua  obra desconhecida.

No entanto, se refaz. Só a próxima obra importa! Obriga-se a recomeçar suas meditações; e imediatamente se enerva e se sente esgotado. De repente renuncia a uma visita a Veneza, que havia projetado. "Minha saúde me impede — escreve a Peter Gast. — Sou indigno de ver coisas tão belas."

Para cúmulo de seus males surge uma disputa epistolar entre Erwin Rohde e êle. Nietzsche tivera ocasião de escrever algumas linhas ao amigo mais íntimo de outros tempos, e não resistira ao prazer de apontar, maliciosamente: "Só me entendo, já, com gente velha, como Taine e Burckhardt; você não é bastante velho para mim. .." Isto ofendeu a Erwin Rohde. Professor, ao passo que Nietzsche não é nada; com reputação na Europa culta, ao passo que Nietzsche continua ignorado, apesar de seus livros extravagantes — não admite a irreverência e defende sua dignidade. Sem dúvida a sua carta devia ser muito rude, pois que fê-la restituir mais tarde e a destruiu.

Este contratempo foi muito nocivo para Nietzsche. Tão minada e em ruínas se achava a sua saúde, que resolveu seguir um tratamento de banhos e massagens em um estabelecimento . especial de Coira, na Suíça, onde se entregou documente às mãos dos médicos.

No entanto, trabalhou e fez um enérgico esforço para descobrir e definir aqueles valores morais que desejava propor. Mas foi tudo em vão. Apesar de seus esforços, o problema do seu terceiro livro — Princípio de uma nova avaliação — continuava de pé diante dele. Transcrevamos aqui a definição mais precisa que nos proporciona outro plano:

Terceiro livro — Hipóteses  do  legislador.  Vincular de novo as forças desordenadas, de maneira que não se  destruam mais  em seus  choques;  permanecer atento,  ao acréscimo  real   da força.

Que quer dizer isto? Que acréscimo real, que direção real das coisas nos designam estas palavras? Um crescimento de intensidade? Então, todo o movimento da energia, sempre que esta seja intensa, .será bom. Mas não é assim que se deve entender. Nietzsche escolhe, prefere, exclui. Este acréscimo é, pois, o sinal de uma ordem, de uma hierarquia natural. Mas em toda a hierarquia se faz necessário um critério que distribua os graus. Qual será esse critério? Em outro tempo, Nietzsche teria dito: a crença que eu tenha oferecido; minha afirmação lírica. Pensará ainda assim? Sem dúvida, suas idéias pouco variam. Sua audácia, porém, está diminuída pelo sofrimento, e as prolongadas indecisões fizeram mais exigente o seu espírito crítico. Deseja, procura, e parece pedir à ciência, ao "médico filósofo", a base real que todos os seus costumes intelectuais lhe negam.

A má notícia acaba de arruinar sua coragem: Heinrich von Stein morreu, antes de fazer trinta anos, de uma paralisia do coração.

Esta noticia me pôs fora de mim escreveu Nietzsche a Peter Gast; —• eu lhe tinha realmente um grande afeto. Sempre me pareceu que me estava reservado para o futuro. Pertencia a esse pequeno grupo de homens cuja existência me regozija; e êle também tinha grande confiança em mim… Quanto rimos, aqui mesmo! Sua visita de dois dias a Sils, foi uma das mais raras e delicadas homenagens que já recebi. Isto causou aqui grande impressão. Êle dissera no hotel: Se venho aqui não é precisamente por  causa  da  Engadina.

Passam-se três semanas. Êle se queixa da amarga disposição em que se encontra, e das suscetibilidades que lhe rebaixam a alma. No entanto, anuncia outro trabalho. Que novo trabalho poderá ser este?

Não é a Vontade de domínio. Sua impaciência, aumentada pelo trabalho, se submete com dificuldade à lentidão do pensamento. Seu gênio de improvisador e polemista é o único que sobrevive de seus antigos dotes. O sr. Widmann, critico Suíço, acaba de escrever um estudo sobre o Além do Bem e do Mal, obra em que só havia visto um manual de anarquismo: "Este livro é dinamite", declara. Frederico Nietzsche quer replicar e escreve em seguida, de uma vez, em quinze dias, um, dois, três curtos ensaios cujo conjunto intitula: "Zur Genealogie der Moral" {(Para a Genealogia da Moral). Esta obra, escreve Nietzsche no frontispício, é "destinada a completar é esclarecer a anterior: Além do Bem e do Mal."

Eu disse — escreve — em suma, que me coloco para além do bem e do mal — Gut und Bóse. —Mas quererá isto- dizer que desejo me emancipar de toda categoria moral? De maneira alguma. Recuso a exaltação e a doçura a que chamam o bem; e a difamação da energia a que chamam o mal; mas a história da consciência humana — sabem os moralistas que existe tal história? — nos descobre uma porção de outros valores morais, de outras maneiras de ser bom, de outras maneiras de ser mau, e numerosos matizes de honra e desonra. Neste mesmo terreno, a realidade é movediça, e livres as iniciativas:   é preciso procurar e inventar.

Mas Nietzsche desenvolve ainda mais o seu pensamento: "Eu quis — escreve meses mais tarde, a propósito deste livro —disparar um tiro de canhão com pólvora mais sonora." Expõe a distinção entre as duas morais: uma ditada pelos amos e a outra pelos escravos; pretende reconhecer nas raízes verbais o sentido antigo do bem e do mal. Bônus, buonus, diz, vem de duonus, que significa guerreiro: malus vem de mêlas negro: os loiros arianos, antepassadas dos gregos, designavam com esta palavra a maneira habitual de trabalhar de seus escravos e vassalos, os mediterrâneos com sangue cruzado de negros e semitas. Frederico Nietzsche não recusa estas noções primitivas  do  nobre e  do vil.

Em 8 de junho, numa carta escrita de Sils-Maria, anuncia a Peter Gast a nova obra:

Estes últimos dias, que foram melhores, empreguei–os energicamente na redação de um breve ensaio que, ao que creio, põe em plena luz o problema do meu último livro. Todo o mundo se queixou de que "não se me compreendia", e os cem exemplares vendidos não me permitem duvidar de que, em realidade, não me entendem. Você sabe que em três anos gastei cerca de quinhentos táleres em despesas de impressão tudo isso, sem a menor remuneração, preciso que o saiba! E tenho quarenta e três anos e quinze livros! Mais ainda: depois de um exame e de muitas e penosas diligências que não posso dizer, comprovei ser um fato que nenhum editor alemão quer editar meus livros (mesmo que eu ceda os direitos de autor). É possível que este folheto que hoje termino faça com. que se adquiram alguns exemplares do meu livro anterior (quando penso no pobre Fritzsch, que carrega sobre si todo o peso de minha obra, sinto pena). Talvez os meus editores se beneficiem algum dia. Quanto a mim, sei muito bem que, quando me começarem a entender, já  não poderei  recolher  benefício  algum.

Em 20 de julho manda o manuscrito ao editor. Em 24 pede a devolução, por telegrama, a fim de lhe aumentar algumas páginas. Todo o verão transcorre entre doenças, tristezas e a correção de seu livro, que não cessa de retocar, aumentando-o e fazendo-o cada vez mais vivo. Pelos fins de agosto, vendo um espaço em branco na última página da primeira parte, Nietzsche acrescenta esta curiosa nota, na qual indica os problemas não estudados e que não terá, já, tempo nem forças para abordar:

NOTA — Aproveito a ocasião que esta primeira dissertação me oferece para exprimir, pública e formalmente um voto o qual, até agora, não comuniquei senão a alguns sábios, ao acaso das conversações. Seria de desejar que uma faculdade de filosofia; mediante uma série de concursos acadêmicos, coadjuvasse a propagação dos estudos  da história  da  moral.     Talvez este  livro sirva para dar um impulso vigoroso nesta direção..   Eu proporia a seguinte questão:

Que indicações nos fornecem a lingüística e especialmente as investigações etimológicas, para a história da evolução dos conceitos morais?

Por outra parte, não seria menos necessário interessar no estudo destes problemas os fisiólogos e os médicos. Realmente, antes de tudo seria preciso que todas as tabelas de valores, todos os imperativos de que falam a história e os estudos etnológicos, fossem esclarecidos e explicados pelo seu lado fisiológico, antes de se tratar de sua interpretação pela psicologia... A pergunta: "Que vale tal ou qual tabela de valores, tal ou qual moral?" precisa ser examinada dos mais diferentes pontos de vista. Em nada se deveria colocar mais discernimento e delicadeza do que no estudo da finalidade dos valores. Aquilo, por exemplo, que tenha um valor evidente no que concerne á maior capacidade de duração de uma raça, não teria, de modo algum, o mesmo valor quando se tratasse de criar um tipo de força superior. O bem da maioria e o bem da minoria são dois pontos de vista de valorização absolutamente opostos. E que a ingenuidade dos biólogos ingleses considere, se lhe agrada, o primeiro como superior em si… Todas as ciências deverão preparar, de agora em diante, a tarefa do filósofo do futuro, que consiste em resolver o problema dos valores, em determinar a hierarquia dos valores.

Chega setembro. As provas estão corrigidas, e começa a fazer frio na Engadina. O filósofo errante tem que procurar novo  refúgio  e novo trabalho.

Para dizer a verdade — escreve a Peter Gast vacilo entre Veneza e Leipzig. Talvez devesse ir trabalhar em Leipzig, pois que ainda me falta aprender muito, interrogar e ler, para o grande pensum de minha vida, que já agora não posso deixar de levar a cabo. Mas isso não seria coisa para um outono e sim para todo um inverno passado na Alemanha… E, tudo bem pesado, minha saúde me dissuade de empreender este ano semelhante tarefa. Assim, pois, será Veneza ou Nice, e, de certo ponto de vista puramente interior, talvez seja preferível. Tenho maior necessidade de viver só e recolhido do que de ler e investigar cinco mil problemas.

Peter Gast está em Veneza e Veneza, como se poderia prever, acaba ganhando a partida contra Leipzig e Nice. Nietzsche vive umas semanas ocioso e quase feliz na cidade das "cem profundas solidões". Não escreve coisa alguma. Peter Gast nos informa que os seus dias decorrem em ócio.   Não municiou às bibliotecas de Leipzig para se fechar num quarto de Veneza. Passeia, freqüenta as míseras trattorie, nas quais come ao meio-dia o mais humilde e cortês dos povos. Nas horas de mais intensa claridade, vai repousar seus olhos nas sombras da Basílica, e quando começa a declinar o dia, reinicia seus eternos passeios. Então pode, sem sofrimento, contemplar San Marco e o revoar de suas pombas, a lagoa, com suas ilhas e seus templos. No entanto, não pára de pensar em sua obra. Imagina-a lógica e livre, simples no plano, numerosa em detalhes, luminosa num certo mistério, e com certa sombra em cada linha. Desejaria, enfim, que fosse semelhante a esta cidade dileta, a esta Veneza cuja vontade soberana se alia a todos os jogos da fantasia e da graça.

Leiamos esta página de notas, escrita em novembro de 1887, e compreenderemos o quanto é sensível nela a Uombra di Venezia:

O Livro perfeito; ter em conta:

1  —A forma. O estilo. Um monólogo ideal. Tudo o que tiver uma aparência douta, absorvido nas profundezas. Todos os acentos da paixão profunda, da inquietação e também da debilidade. Cores suaves, manchas de sol a felicidade curta, a sublime serenidade. Ir além das demonstrações. Ser absolutamente pessoal sem empregar a primeira pessoa. ■. Uma espécie de memórias; dizer as coisas mais abstratas da maneira mais concreta e mais cruel. A história inteira como se tivesse sido vivida e sofrida pessoalmente… Até onde seja possível, coisas visíveis, precisas e exemplos… Nenhuma descrição; todos os problemas transpostos ao sentimento, até à paixão.

2  — Termos expressivos. Vantagem dos termos militares. Procurar expressões para substituir os termos filosóficos

Em 22 de outubro, acha-se em Nice.

Dois acontecimentos (sem dúvida, a palavra não é demasiado forte) encheram suas primeiras semanas de permanência naquela cidade: Perdeu seu mais antigo amigo e adquiriu um leitor.

O amigo perdido foi Erwin Rohde. O desentendimento iniciado na primavera anterior, consumou-se então. Nietzsche escreveu a Rohde, sem que sua intenção inicial fosse molestá-lo: "Não se afaste de mim tão à toa — dizia-lhe anunciando-lhe a remessa de seu último livro A Genealogia da Moral. — Na minha idade e na minha solidão, não posso me resignar sem pena a perder os poucos homens em quem confiava antigamente…" Não pôde, porém, limitar-se a essas palavras. Recebera de Hipólito Taine uma segunda carta muito amável (*), e Erwin Rohde, em sua carta de maio, tratara Taine com pouco respeito. Nietzsche quis defender seu correspondente francês, e acrescentou:

N. B. Suplico-lhe que julgue mais razoavelmente  ao sr. Taine. As grosserias que você diz e pensa dele, mortificam-me. Posso perdoar ao príncipe Napoleão, mas não ao amigo Rohde. É-me difícil crer que quem não compreenda esta raça de espírito severo e de grande coração, possa compreender qualquer coisa de minha obra. Por outro lado, você jamais me escreveu uma palavra que me permitisse pensar. Você percebe o destino que pesa sobre mim… Tenho quarenta e três anos vividos, e me encontro tão só como se fosse uma criança.

Todas as relações ficaram interrompidas.

O novo leitor que adquiriu foi Jorge Brandes, que acusou o recebimento da Genealogia com uma carta maravilhosamente inteligente e viva:

Respiro em seus livros um espírito novo e original. Nem sempre compreendo perfeitamente o que leio, nem sempre percebo até onde o senhor quer chegar, mas muitos pontos se acham de acordo com as minhas idéias e minhas simpatias. Como o senhor, aprecio pouco o ideal ascético; a mediocridade democrática me inspira, como ao senhor, uma repugnância profunda; aprecio o seu radicalismo aristocrático. O desprezo que o senhor sente pela moral da piedade é algo que não consigo ver muito claramente… Nada sei sobre o senhor. Vejo, com assombro, que é professor, doutor. Em todo o caso,  felicito-o de todo o coração por ser, intelectualmente, tão pouco professorO senhor pertence ao pequeno número de homens com quem eu gostaria de falar.

Ao que parece, Nietzsche devia ter sentido vivamente o consolo, o conforto que representava o haver encontrado, afinal, dois testemunhos do seu trabalho, de tão rara qualidade como Taine e Brandes. Não se inteirava, também, naqueles dias, de que Brahms lia com grande prazer Além do Bem e do Mal?   Mas a amargura tomara-lhe a alma, e a faculdade de

 

(*) Fico muito satisfeito — escrevera Taine — em saber que os meus artigos sobre Napoleão lhe hajam parecido verdadeiros, e nada pode mais exatamente resumir a minha impressão do que as duas palavras alemãs de que o senhor se serviu: Unmensch und Ubermensch, (Carta de 12 de julho de 1887.) (N. do A.)

 

sentir as impressões propícias, parecia ter-se extinguido  nele. Perdera  essa   alegria  interior,   essa   serenidade   que   resiste     a toda a prova, de que outras vezes se sentira tão orgulhoso e suas cartas não revelam senão tristeza.

É um desastre do qual só sobrevive a atividade do espírito, que se exercita com singular energia. Mal podemos enumerar os motivos que o preocupam.

Peter Gast transcreve para orquestra o seu Hino á Vida. Nietzsche vigia este trabalho, e às vezes corrige. Sobretudo, porém, admira ingenuamente esta nova forma de sua obra. Aparece, então, o Diário dos Goncourt. Ele lê esta interessantíssima novidade" e senta-se, em pensamento, àquela mesa de Magny que congrega Flaubert, Sainte-Beuve, Gautier, Taine, Gavarni e Renan. Todas essas distrações não impedem que comece resolutamente a sua grande obra, a obra decisiva, em que a sua sabedoria e não a sua cólera há de falar. A obra serena, na qual a polemica não encontrará lugar. Em poucas linhas define o seu desígnio:

Ter percorrida toda a extensão da alma moderna, ter comido em um cada um de seus recantos: meu orgulho, minha tortura, minha alegria.

Superar efetivamente o pessimismo, e, afinal, um olhar goethiano, cheio de amor e de boa vontade.

Nesta nota, Nietzsche aponta Goethe como inspirador do seu último trabalho. Para dizer a verdade, nenhuma natureza é mais dissemelhante à sua, mas esta mesma diferença é que determina a escolha. Goethe não humilhou nenhuma forma da atividade humana, nem excluiu a menor idéia de seu mundo intelectual; recebeu e administrou, como um dono benévolo, a imensa herdade das culturas humanas. Tal 6 o último ideal, o último sonho de Nietzsche. Deseja, no tini de sua vida (pois que ele conhece seu destino) derramar, como um sol descambante, as mais doces claridades; interpenetrar tudo, justificar tudo, esclarecer tudo, sem que subsisti) uma sombra à superfície das coisas, nem uma tristeza no interior das almas.

Determina, sem dificuldade, as idéias diretrizes dos dois primeiros volumes: O Niilismo Europeu e a Crítica dos Valores Superiores. Desde quatro anos não escrevera unia única linha que não pertencesse a esta análise ou a esta critica, Escreve rapidamente, e se irrita. "Um pouco de ar puro! — exclama. — Este absurdo estado em que se acha a Europa, não pode durar muito tempo…" Não é mais que uni grito logo reprimido. Nietzsche expulsa a impaciência como uma fraqueza. Com um canto de amor é que ele tem que responder aos ataques da vida. Quer voltar, e volta, realmente, a pensamentos mais serenos; e pergunta: Será certo ser absurdo o estado da Europa? Talvez exista uma razão para esses fatos,  uma  razão  que  não  percebemos.    Talvez   convenha   reconhecer nessa atonia da vontade, nesse relaxamento democrático, uma certa utilidade e um certo valor conservador. Parecem irreprimíveis e talvez sejam necessários. Embora sejam hoje deploráveis para nós, talvez acabem por ser benéficos:

Reflexão — É insensato imaginar que toda esta vitória dos valores possa ser antibiológica. É preciso procurar explicá-la por um interesse vital para a superveniência do tipo "homem", embora este deva ser alcançado pela preponderância dos fracos e deserdados. Talvez que, se as coisas fossem de outro modo, o homem já não existisse. Problema.

A elevação do tipo é perigosa para a conservação da espécie.    Por que?

As raças fortes são raças pródigas… Encontramo–nos aqui diante de um problema de economia.

Reprimindo toda a repugnância, vedando-se toda a maldição, Nietzsche quer e consegue considerar com serenidade, estas tendências à reprovação. Reflete: Deveremos negar às massas o direito de procurar suas verdades e suas crenças vitais? E, privados das massas, que seriam os senhores? Esses precisam que aquelas sejam felizes. Sejamos pacientes, suportemos que nossos escravos, rebeldes e por alguns momentos nossos amos, inventem as ilusões que lhes sejam favoráveis. Que acreditem na dignidade do trabalho! Se com isso se tornarem mais dóceis  ao trabalho,  sua  crença é  saudável.

O problema escreve Nietzsche está em fazer o homem o mais utilizável possível, e aproximá-lo, até onde seja possível, à máquina que nunca se engana: para isso é preciso armá-lo com as virtudes da máquina, e ensiná-lo a suportar o aborrecimento, a dar ao aborrecimento um encanto superior…, É preciso que os sentimentos agradáveis sejam relegados a uma categoria inferior… A forma maquinai da existência, considerada como a mais nobre e elevada, deve se adorar a si própria.

Uma cultura elevada não se pode edificar senão num vasto terreno, sobre uma sadia mediocridade fortemente consolidada.

Por muito tempo ainda, o fim único deve consistir na diminuição do homem, pois é preciso, antes de tudo, criar uma grande base sobre a qual se possa elevar a raça dos homens fortes…

O apequenamento do homem europeu é um processo ao qual não se deveriam opor entraves; antes, pelo contrário, conviria acelerá-lo ainda mais. É a força ativa que permite esperar o advento de uma raça mais forte, de  uma raça  que possua até  ao  excesso  essas  mesmas

qualidades que faltam à espécie desvalorizada (vontade, responsabilidade, certeza, faculdade de se fixar um objetivo).

Pelo fim de 1887, Nietzsche conseguira terminar o primeiro esquema do trabalho de síntese que se propusera. Concede, neste esquema, uma certa dignidade e um certo direito àqueles motivos que em outro tempo difamara. Os projetos finais de Zaratustra já nos haviam dado indicações semelhantes: "Os discípulos de Zaratustra dão aos humildes e não a si mesmos, a expectativa da felicidade… Distribuem as religiões e os sistemas segundo a hierarquia…." Com intenção semelhante, ele escreve agora: As tendências humanitárias não são antivitais, pois convém às massas que vivem com lentidão, e convindo a elas, convém à humanidade, que precisa da satisfação das massas. As tendências cristãs são igualmente benfazejas, e nada é tão desejável como a sua permanência, pois convém a todos os que sofrem, a todos os fracos, e é necessário para a saúde das sociedades humanas que o sofrimento e as debilidades inevitáveis sejam recebidas sem rebelião, submissamente e, se possível, amorosamente. "Diga o que disser do cristianismo — escrevia a Peter Gast em 1881 — não posso esquecer-me de que lhe devo as melhores experiências da minha vida espiritual, e espero não ser jamais ingrato  com ele, no fundo do  coração…"

Este pensamento e esta esperança nunca o abandonaram, e ele fica satisfeito por haver encontrado, afinal, uma palavra de justiça para o culto de sua infância — o único que se oferece às almas.

Em 14 de dezembro de 1887, Nietzsche dirige a um antigo correspondente dos dias de Basiléia, Carl Fuchs, uma carta de  acento  altaneiro:

Vai ser preciso apagar quase tudo o que escrevi. Durante estes últimos anos a veemência das minhas agitações interiores tem sido terrível. Hoje, no momento em que devo ainda mais me elevar, o meu primeiro trabalho é o de me modificar novamente, despersonalizar–me  para formas  mais   elevadas.

Sou velho? Não sei. Não sei, também, que juventude me  seria ainda necessária.

Na Alemanha se queixam muito das minhas excentricidades. Más, como ignoram onde está colocado o meu centro, é difícil que possam discernir onde e quando  sou excêntrico.

Pelas datas de suas notas, parece que Nietzsche abordava um problema diferente no mês de janeiro de 1888. Aquelas humildes multidões, cujos direitos admite e mede, não mereceriam viver se suas atividades não estivessem, em última instância,  regidas por um  grupo  selecionado,  e  não  fosse utilizada para fins gloriosos. Quais serão as virtudes desse grupo e que fins servirá? Deste modo, Nietzsche volta a encontrar-se com o problema que o atormenta. Definirá, afinal, essa grandeza desconhecida, talvez inexeqüível, à qual há tanto tempo aspira sua alma? De novo é dominado pela tristeza; uma vez mais se queixa de sua irritabilidade e de sua desconfiança, a tal ponto extremada que cada dia, à hora do correio, vacila e estremece antes de abrir  suas cartas.

Jamais a vida me pareceu tão difícil… — escreve a Peter Gast em 15 de janeiro. Já não sei me acomodar a nenhuma espécie de realidade. Quando não consigo esquecê-las, despedaçam-me… Há noites em que não me agüento mais, de angústia. E tenho ainda tanto por fazer! tudo posso dizer. É forçoso, pois, que me mantenha de pé. E para isso faço todos os esforços, pelo menos pela manhã. Nestes dias a música tem–me dado sensações que eu não sentira nunca. Alivia-me, desembriaga-me de mim mesmo. É como se eu me visse a mim próprio desde uma grande altura, como se me sentisse de uma grande altura. Assim, torna-me mais forte, e, normalmente, depois de cada serão musical (ouvi a Carmen quatro vezes), tenho uma manhã cheia de descobertas e de idéias enérgicas. É uma coisa admirável. É como se eu me tivesse banhado em um elemento mais natural. A vida sem música é simplesmente erro, cansaço, exílio.

Procuremos segui-lo em seu trabalho. No momento, limita-se a uma investigação histórica e se esforça por descobrir a classe social, a raça ou o partido que autorizem a esperança de uma humanidade mais nobre. Aqui está o europeu  moderno:

Como poderá sair dele uma raça de homens fortes? Uma raça de gostos clássicos? O gosto clássico é a vontade da simplificação, da acentuação… a nudez psicológica. .. Para se elevar daquele caos a esta organização, é preciso ver-se obrigado por uma necessidade. É preciso não poder escolher: desaparecer, ou impor-se. Uma raça dominadora não pode ter senão origens terríveis e violentas. Problemas: onde estão os bárbaros do século XX? É evidente que não poderão aparecer e impor-se senão depois de terríveis crises socialistas. E estes serão os elementos capazes da maior rudeza com relação a si mesmos, e capazes de garantir a vontade mais persistente.

Será possível discernir na Europa moderna estes elementos  predestinados  à  vitória?    Nietzsche  esforça-se  para   isso, e anota nos seus cadernos os resultados da investigação:

 

Os entraves mais favoráveis e os remédios contra o modernismo.

E, principalmente:

l.o O serviço militar obrigatório, com guerras verdadeiras,  que façam cessar toda a espécie de gracejos;

2.o A estreiteza nacional, que simplifica e concentra. Essa indicação é corroborada por estas outras:

A manutenção do estado militar é o último meio que nos deixaram, tanto para conservar as grandes tradições como para a implantação do tipo superior do homem o tipo forte. E todas as circunstâncias que perpetuam a inimizade e o afastamento entre os Estados se encontram, assim, justificadas…

Que imprevista conclusão para as polêmicas nietzschianas. Nietzsche, que havia desonrado o nacionalismo, neste grave momento procura um apoio — e encontra o nacionalismo ! Descoberta ainda mais imprevista: continuando suas investigações, Nietzsche prevê, define e aprova a constituição de um partido que não pode ser senão uma forma ou reforma da democracia positivista. Discerne as linhas gerais de duas agrupações vigorosas e sãs, suficientes para disciplinar os homens:

-Um  partido   da  paz,  nada  sentimental,   que   proíbe

a guerra a si mesmo e aos seus membros; que os proíbe, também, de recorrer aos tribunais; que provoca contra si a luta, a contradição, e a perseguição; um partido dos oprimidos, pelo menos por algum tempo; e logo o grande partido oposto aos sentimentos de rancor e de vingança.

Um partido da guerra, que, com a mesma lógica e a mesma severidade contra si mesmo, procede em sentido oposto.

Deveremos reconhecer nestes dois partidos as forças organizadas que trarão essa era trágica da Europa que Nietzsche anuncia? Talvez, mas tenhamos cuidado em hão exagerar a importância destas notas, que não passam de rápidos apontamentos; como surgiram e passaram pelo espírito de Nietzsche, devem surgir e passar diante de nós. Sua vista penetra em todos os sentidos, mas não se detém em nenhum. Nenhum puritanismo trabalhador pode satisfazê-lo, pois sabe que o esplendor das culturas humanas se acha ligado aos privilégios das aristocracias. Nenhum nacionalismo pode satisfazê-lo, amando, como ama, a Europa e suas inumeráveis tradições.

Que recurso lhe resta? Limitou-se a procurar, em sua própria época, os pontos de apoio de uma cultura mais elevada; por alguns momentos, acreditou tê-los encontrado.    Mas enganara-se, e, em vista disso, afastou-se desses pontos que impõem direções estreitas que seu espírito não tolera. Em 1875 — e a antigüidade do texto prova a permanência do conflito — escrevera: "Na vida do pensador há isto de extraordinário: duas inclinações contrárias obrigam-no a seguir, ao mesmo tempo, duas direções diferentes, mantendo-as sob seu jugo; por uma parte, ele quer saber, e, abandonando sem se cansar o terreno firme que sustem a vida dos homens, aventura-se nas regiões incertas; por outra parte, quer viver, e, sem se cansar nunca, procura um lugar onde firmar-se…

Nietzsche tinha abandonado Wagner, e errado pelas regiões incertas. Agora, procura um último refúgio seguro, e que encontra? O estreito reduto nacionalista. Mas Nietzsche se afasta dele, pois se bem possa ser um grosseiro recurso, um artifício útil para manter certa solidez nas massas, certo princípio de gosto e severidade, não pode, nem deve ser a doutrina da elite européia, elite disseminada, inexistente, sem dúvida, à qual se dirigem seus pensamentos.

Deixa, assim, de pensar no nacionalismo, que é o expediente de um século pobre, e sem se limitar, já, à investigação das crenças benfeitoras para os humildes — que lhe importam estes? — pensa em Napoleão e em Goethe, ambos superiores ao seu tempo e aos preconceitos de seus respectivos países. Napoleão desdenha a revolução, mas capta a sua energia; despreza a França, mas dirige-a; sua ambição é a conquista e a reforma da Europa. Goethe não tem grande estima pela Alemanha, e pouco se interessa pelas suas lutas: quer possuir e reanimar todas as idéias e todos os sonhos dos homens, e conservar e enriquecer a vasta herança dos valores morais que a Europa criou. Napoleão conhecia a grandeza de Goethe, e Goethe observava com alegria a vida do conquistador, ens realissimum. O soldado e o poeta — um, mantendo os homens na submissão, no esforço e no silêncio; o outro, assistindo, contemplando e glorificando — formam o par ideal que vemos reaparecer em todos os instantes decisivos da vida de Nietzsche. Este admirou a Grécia de Theogonis e de Píndaro, a Alemanha de Bismarck e de Wagner; um grande rodeio condu-lo novamente ao seu ideal, a essa Europa irrealizada, da força e da beleza, da qual Napoleão e Goethe foram, no dia seguinte ao da Revolução,  os solitários representantes.

Por uma carta dirigida a Peter Gast em 13 de fevereiro de 1887, sabemos que Nietzsche se achava, nesta data, pouco satisfeito com o seu trabalho. "Não saí das tentativas, das introduções e das promessas de toda a espécie…" — escrevia ele; e ajuntava: "O primeiro rascunho do meu Ensaio de uma Reavaliação de Valores está pronto. Afinal de contas, foi uma tortura, e nem sequer tenho coragem de pensar nele.

Dentro de dez anos farei algo melhor." Qual é a causa desta insatisfação? Ter-se-á cansado dessa tolerância, dessa condescendência para com as necessidades dos fracos e das massas, que se impusera três meses antes? Sentir-se-á impaciente por desabafar sua cólera?

As cartas que dirige então a sua mãe e sua irmã (nem todas foram publicadas), permitem-nos chegar até ele de modo muito íntimo. Escreve a essas duas mulheres de que se encontra separado, com uma ternura que torna difícil a simulação e até a coragem. Abandona-se como se encontrasse prazer em voltar a ser uma criança para elas. É doce e obediente para sua mãe, e assina sua carta: "teu vetusto filho". Fala a sua irmã como um camarada, e como se tivesse esquecido completamente todas as faltas de que antes a acusara. Sabe que ela jamais regressará do longínquo Paraguai, sente a sua falta e quer-lhe mais do que nunca, por saber que a perdeu. Lisbeth é enérgica e arrisca valentemente sua vida. Nietzsche admira nela essas virtudes que estima acima de todas e que são, a seu ver, as virtudes de sua raça, a nobre raça dos condes Nietzki. "Em tudo o que dizes e fazes — escreve-lhe — sinto intensamente que um mesmo sangue corre por nossas veias…" Ouve-a amàvelmente, mas ela não deixa de lhe dar conselhos talvez demasiado judiciosos. Já que se queixa de solidão, que procure uma cátedra, que se case. Para Nietzsche, a resposta é fácil: Onde encontrar uma esposa? E, se por acaso encontrasse alguma teria direito de lhe pedir que compartilhasse sua vida? E, não obstante, ele sabe a doçura que uma mulher traria à sua vida, e o diz.   Ouçamo-lo:

Nice, 25 de janeiro de 1888.

É preciso que eu te conte uma pequena aventura: Ontem, quando fazia o meu costumeiro passeio, ouvi, não longe de mim, uma voz e um riso cálido e franco (parecia-me estar ouvindo o teu riso), e, quando a pessoa em questão passou junto a mim, vi uma encantadora moça de olhos escuros, delicada como uma corça. Isto reanimou por um momento o meu coração, meu velho coração de filósofo solitário: pensei nos seus, conselhos matrimoniais, e, durante todo o passeio, não pude mais afastar de mim a imagem daquela jovem e amável criatura. Não há dúvida de que me seria muito proveitoso ter ao meu lado um ser tão delicioso; mas, para ela, seria igualmente proveitoso? Não faria esta moça desgraçada com as minhas idéias? E meu coração não se despedaçaria (supondo que a amasse), ao ver sofrer uma criatura tão encantadora?   Não, não! nada de casamento!

Não será por esse tempo que lhe açode ao espírito uma idéia singular e maléfica? A cada instante se representa in, mente as alegrias de que se acha privado: glória, amor, amizade;

pensa com rancor naqueles que as possuem, e, sobretudo, em Richard Wagner, cujo gênio se vira sempre tão bem recompensado. Que formosa era, quando Nietzsche a conhecera em Triebschen, aquela incomparável mulher, Cosima Liszt, que, embora casada, desafiando a maledicência do povo, viera viver com Richard Wagner, compartilhando suas lutas e ajudando-o no trabalho! Atenta e lúcida, ativa e eficaz, assegurava-lhe o repouso que até então lhe faltara. Que teria sido dele sem ela? Teria conseguido dominar seu ânimo agitado, impaciente e inquieto? Teria sido capaz de realizar aquelas grandes obras que sempre anunciava? Cosima apazigua-o e o dirige; graças a ela, termina a tetralogia, edifica Bayreuth, escreve Parsifal… Nietzsche recorda aqueles admiráveis dias de Triebschen, quando Cosima o acolhia, ouvia suas idéias e seus projetos, lia seus manuscritos e se mostrava benévola e atenta. Nietzsche exalta-se. O sofrimento e a irritação deformam suas recordações. Interroga-se: não teria amado Cosima? E ela mesma, não o teria amado? Nietzsche gostaria de acreditar nisso e, efetivamente, acaba acreditando. Sim, houve amor entre eles, e Cosima tê-lo-ia salvo como salvara Wagner, se, por um favorável acaso, o tivesse conhecido alguns anos antes. Mas o acaso sempre fora adverso a Nietzsche, e também nesta ocasião Wagner o despojara, ficando com tudo:   glória, amor e amizades.

Nas últimas obras de Frederico Nietzsche se adivinha este estranho romance. Um mito grego ajuda-o a expressar e velar o pensamento: o mito de Ariadne, Teseu e Baco. Teseu se extraviara; Ariadne, encontrando-o, conduzira-o até ao fundo do labirinto; mas" Teseu é pérfido, e abandona sobre uma rocha a mulher que o salvara; e Ariadne morreria, só e desesperada, se Baco não tivesse acudido, Baco-Dionísio, que a ama. O enigma dos três homens ,é bastante transparente: Ariadne é Cosima; Teseu, Wagner e Baco-Dionísio,   Nietzsche.

Em 31 de março escreve novamente, e a sua linguagem é a de um homem perdido:

Estou perdido, oprimido noite e dia de maneira insuportável, pelo dever que me foi imposto (mir gestellt ist), e pelas condições de minha vida, absolutamente contrárias ao cumprimento deste dever. É nisto, sem dúvida, que reside a causa da minha angústia.

… Minha saúde, graças a um inverno extraordinariamente benigno, a uma boa alimentação e aos passeios que dou, continua muito boa. Só a pobre alma está doente. Por outro lado, não ocultarei que este inverno foi muito rico em aquisições espirituais para a minha grande obra; assim, não é õ espírito que está enfermo, nem nenhuma outra coisa, com exceção da pobre alma…

No dia seguinte, Nietzsche abandona Nice. Antes de subir a Engadina, quer fazer uma tentativa em Turim, cujo  ar seco e espaçosas ruas lhe haviam elogiado. Viaja com dificuldade, perde suas maletas, irrita-se, discute com os empregados e permanece dois dias doente em Sampierdarena, perto de Gênova. Imediatamente depois, passa três dias em Gênova descansando, com o espírito ocupado pelos recursos felizes que ali encontra. "Dou graças ao meu destino — escreve a Gast — por me haver conduzido a esta cidade onde a vontade se eleva, e a covardia não é possível. Jamais me senti  tão  satisfeito  como  nesta  peregrinação  a  Gênova…"

No sábado, 6 de abril, chega a Turim, morto de cansaço. "Já não sou capaz de viajar só — escreve a Gast, na mesma carta. — Agito-me demais e tudo me afeta estupidamente…"

 

III. EM   DIREÇÃO   AS   TREVAS

 

Suspendamos nosso relato e previnamos o leitor: o pensamento de Nietzsche, cuja história temos seguido até aqui, já não tem história. Uma influência, que não vem do espírito, mas do corpo, altera-o. Dizem alguns que Nietzsche já estava louco de há muito, o que é aceitável, dada a impossibilidade de precisar o diagnóstico. Mas, pelo menos, a vontade e a reflexão não tinham desaparecido nele. Ainda sabia se conter e corrigir-se. Na primavera de 1888 perde estas faculdades; sua inteligência não se obscurecera ainda e não escreve uma só palavra que não seja penetrante e clara. Sua lucidez é extrema, mas desastrosa: só se exercita para destruir. Quando se estudam os últimos meses desta vida, é como se se assistisse ao trabalho de uma máquina de guerra que a mão humana já não governa.

Frederico Nietzsche abandona aquelas investigações morais que sustiveram, enriqueceram e elevaram a sua obra até então. Recordemos a carta dirigida a Peter Gast em fevereiro de 1888: "Encontro-me num estado de irritabilidade crônica, sobre o qual me concedo, nos melhores momentos, uma espécie de trégua, que não é, seguramente, das mais gratas, adotando, como adota, a forma de um excesso de rudeza…" Estas palavras esclarecem os três próximos livros: O Caso Wagner,   O   Crepúsculo   dos  ídolos   e   O   Anticristo.

Apressemos a história destes meses em que Nietzsche deixa inteiramente de ser ele próprio.

Em 7 de abril chegou-lhe a Turim uma carta imprevista: Jorge Brandes comunicava-lhe a intenção de consagrar a sua filosofia uma série de conferências: "Irrita-me o falo de ninguém  o  conhecer  aqui,  e quero  fazê-lo  conhecido  de   um   só golpe. "Eis aqui, em verdade, meu caro senhor, uma surpresa! — responde Nietzsche. — Como encontrou coragem para falar em público de um vir obscurissimus? Imaginará o senhor, talvez, que eu seja conhecido no meu país? Muito longe disso! Tratam-me, nele, como algo singular e absurdo que não é preciso levar a sério… A longa resistência exasperou um pouco o meu orgulho — acrescenta para terminar. — Sou um filósofo?    Que importa!"

A carta de Brandes deveria ter sido para ele uma grande alegria e, se estivesse em estado favorável, talvez fosse a sua salvação. Pelo menos, é quase seguro que deve ter-lhe dado certa satisfação; embora, para dizer a verdade, apenas se encontrem rastos dela. É tarde, e Nietzsche já entrou no caminho a que o arrasta o seu destino. Durante esses dias de fadiga e tensão, fez uma das mais importantes leituras de sua vida — a última. Desejando conhecer o modelo dessas sociedades hierarquizadas cuja renovação esperara, consegue uma tradução dás leis de Manu. Lê e sua esperança não se vê traída. Este código, que estabelece os costumes e a ordem de quatro castas; esta linguagem, tão bela, tão simples e tão humana na sua severidade; esta constante nobreza e, por fim, esta impressão de segurança e de doçura que se desprendem do conjunto do livro — entusiasmaram-no. Leiam-se certos mandamentos  de  suas primeiras páginas:

Quando nasce um menino varão, antes de se cortar o cordão umbilical, prescreve-se a seguinte cerimônia: dé-se-lhe mel e manteiga clarificada em uma colher de ouro, recitando as palavras sagradas.

Que seu pai faça cumprir a cerimônia de lhe dar um nome no décimo ou undécimo dia, ou em um dia lunar propicio, em um momento favorável, sob a influência de um astro venturoso.

Que o nome de um brâmane exprima, com o primeiro dos seus nomes, o favor propício; o de um kchatrya, o poder; o de um vaisya, a riqueza; o de um sudra, a abjeção.

Que o nome de uma mulher seja fácil de se pronunciar, doce, claro, agradável, e propício; que termine em vogais longas e seja semelhante a palavras de bênção…

Nietzsche admira e copia não poucos trechos. No velho texto hindu reconhece esse olhar goethiano, cheio de amor e de boa vontade; e nele ouve esse Canto d’amore que ele mesmo havia  querido cantar.

Mas, ao mesmo tempo em que admira, julga.    Esta ordem hindu tem por fundamento uma mitologia que jamais conseguiria enganar os sacerdotes que a interpretam.    "Estes sábios . escreve ele —não acreditam  em  nada  disso;  de  outro  modo não o poderiam inventar…"    As leis  de Manu são mentiras hábeis e formosas. Coisa indispensável: posto que a natureza é um caos, uma irrisão de todo o pensamento e( de toda a ordem, aquele que aspirar à fundação de uma ordem deverá afastar-se dela e conceber um mundo ilusório. Estes mestres construtores, os legisladores hindus, são também mestres na arte de mentir, e, se Frederico Nietzsche não se pusesse em guarda, seu gênio o teria arrastado pelo caminho da mentira.

Eis aqui o instante de uma crise da qual só conhecemos a origem e o fim. Nietzsche está só em Turim; ninguém assiste ao seu trabalho e ele a ninguém se confia. Que pensa? Estuda, sem dúvida, e medita sem cessar neste velho livro ário que lhe oferece o modelo de suas idéias. Más, se o código de Manu é o mais belo monumento de perfeição estética e social, é também o mais belo monumento de picardia intelectual, e nada há que Nietzsche possa amar mais e detestar mais. Reflete, se assombra, e suspende o trabalho. Quatro anos antes, uma dificuldade semelhante impedira-o de terminar o Zaratustra. Nem uma palavra já, do Super-homem e do Retorno Eterno. As fórmulas ingênuas foram abandonadas; más as tendências que elas encobriam: uma — lírica, ávida de instruções e de ordem, por ilusória que fosse; a outra — Crítica, ávida de destruição e de lucidez — são invariáveis e se exercitam aqui. Nietzsche vacila: afinal, que fará? Dará ouvidos àqueles brâmanes, àqueles sacerdotes, astutos condutores de homens? Não. A lealdade é uma virtude a respeito da qual não admite transações. Mais tarde, muito mais tarde, talvez dentro de alguns séculos, os homens, mais conscientes do sentido de suas vidas, da origem e do valor dos seus instintos, do mecanismo das hereditariedade — possam tentar novas legislações. Hoje não o podem, pois só conseguiriam acrescentar mentiras e hipocrisias às velhas mentiras e às velhas hipocrisias que já lhes servem de empecilho. Nietzsche se afasta das idéias que desde seis meses seguia com tanta energia, e torna a se encontrar subitamente, como quando tinha trinta anos, indiferente a tudo o que não seja o serviço da verdade.

"Tudo o que é suspeito e falso deve ser trazido à luz — escrevia então. — Não queremos construir prematuramente, não sabemos se podemos construir e se não é preferível não construir nada. Há pessimistas covardes e resignados; não queremos ser destes."

Quando assim falava, Nietzsche possuía a força suficiente para contemplar com calma um trabalho atenuado pela esperança. Essa força de sua juventude e essa serenidade dos dias de antigamente, perderam-se em 15 anos, e toda esperança o abandonou. Sua alma enferma não resiste à irritabilidade. Um acontecimento esclarece e finalmente, põe ponto final às nossas conjeturas: Nietzsche renuncia a compor :i sua grande obra e dedica-se ao trabalho de escrever um libelo.

A época da serenidade passou. Ferido de morte, Nietzsche quer devolver golpe por golpe. Volta-se contra Richard Wagner, o falso apóstolo "do Parsifal, o ilusionista que seduzira sua época. Antigamente, Nietzsche serviu-o. Agora, é preciso que o combata e o vença. A paixão é o dever impelem–no á isso. "Eu criei o wagnerianismo — pensa — eu o devo destruir." Quer libertar, mediante um ataque violento, os seus contemporâneos, que, menos fortes que ele, continuam submetidos ao prestigio daquela arte. Necessita humilhar aquele homem ao qual tanto quisera, e ao qual quer ainda; necessita difamar o mestre que tão benéfico lhe fora nos anos de juventude; necessita, enfim, (estaremos enganados?) vingar-se de uma felicidade perdida. Insulta Wagner: é um decadente, um farsante, um Cagliostro moderno. Esta indelicadeza — fato inaudito na vida de Nietzsche — bastaria para provar a sua enfermidade latente.

Não sente o menor escrúpulo. Uma alegre excitação favorece e abrevia o seu trabalho. Os alienistas conhecem estes estados singulares que precedem as últimas crises da paralisia geral- Frederico Nietzsche parece abandonar-se a uma superabundante alegria. Atribui esse bem-estar ao clima de Turim, que experimenta pela primeira vez.

Turim, meu querido amigo — escreve a Peter Gast — , é uma descoberta capital. Falo-lhe disso pensando que também você poderá aproveitar, Meu humor é bom, trabalho desde a manhã até à noite um folheto sobre a música ocupa os meus dedos digiro como um semi-deus; durmo, apesar do barulho noturno dos carros: outros tantos sintomas da adaptação de Nietzsche a Turim.

Achando-se na Engadina em julho, algumas semanas úmidas e frias fazem-lhe mal. Perde o sono. A exaltação alegre desaparece, ou se transforma em humor amargo e febril. A senhorita de Salis-Marschlins que contou suas recordações num interessante folheto, viu-o então, depois de uma separação de dez meses, e notou a mudança. Observando-o com atenção, viu que ele passeava sempre sozinho, e com estranha precipitação. Cumprimentava, também, muito depressa, detendo-se apenas um instante, ou, mais geralmente ainda, passando de largo, a grandes passos, como que espicaçado pela pressa de voltar à hospedaria para anotar as idéias que durante o caminho lhe tinham acudido ao espírito. Nietzsche fez algumas visitas à senhorita de Salis-Marschlins, e não lhe escondeu suas preocupações. Receava as aperturas pecuniárias, pois o capital que havia constituído sua pequena fortuna estava quase esgotado; e poderia, com os três mil francos de pensão que lhe concedia a Universidade de Basiléia, atender às necessidades da sua vida e à publicação, sempre onerosa, de seus  livros?    Em   vão   diminuía   suas   viagens   e   em   vão   se limitava às acomodações mais econômicas e à alimentação mais simples:   seus  recursos   chegavam  ao  fim.

Termina o O Caso Wagner, acrescenta ao seu texto uma; introdução e um post-scriptum, um segundo post-scriptum, e um epílogo. Dir-se-ia que sente a necessidade de aumentar sua obra em cada dia, e cada dia fazê-la mais áspera. Nó instante, não se acha satisfeito, e sente, depois de haver escrito, certos remorsos.                                                                                                            

Que este folheto tão ousado— escreve a Peter Gast, em 11 de agosto de 1888 — lhe tenha agradado, é para mim um considerável alivio. Há momentos, sobretudo durante a noite, em que não me sinto bastante corajoso para tantas loucuras e rudezas. Tenho dúvida com respeito a algumas passagens; talvez tenha ido demasiado longe (não nas coisas, mas no modo de as exprimir). Talvez se pudesse suprimir a nota em que falo das origens familiares de  Wagner...

Por esta mesma época, dirige à Senhorita de Meysenbug uma  carta  que dá bastante  que pensar:

Dei aos homens o livro mais profundo e isto se paga caro… Ser imortal custa algumas vezes a vida. E sempre em meu caminho o cretinismo de Bayreuth! O velho sedutor Wagner, embora morto, continua me roubando aqueles poucos homens que a minha ação podia influenciar. No entanto, na Dinamarca — é absurdo dizê-lo! celebraram-me neste inverno. O doutor Jorge Brandes, de espírito tão vivo, atreveu-se a falar de mim na Universidade de Copenhague. E com êxito brilhante! Sempre mais de trezentos ouvintes! Em Nova- York prepara-se algo semelhante. Sou o espírito mais independente que existe na Europa, e o único escritor alemão e isto já é alguma coisa!

E acrescenta, em post-scriptum: "É preciso ter uma alma grande para suportar o que escrevo. Assim, tenho a sorte -de irritar contra mim tudo o que é fraco e virtuoso." A indulgente senhorita de Meysenbug compreendeu que nestas linhas havia uma censura dirigida a ela, mas respondeu docemente, como era seu costume: "Diz que tudo o que é fraco 6 virtuoso está contra você? Não seja tão paradóxico. A virtude não é fraqueza, mas força, como já o dizem exaustivamente as palavras. E não é você a viva contradição de tudo p que diz? Pois você é virtuoso, e o exemplo de mui vida, se os homens a pudessem conhecer, havia de convencê-los melhor que seus livros. Não tenho a menor dúvida-" Nietzsche respondeu-lhe: "Li com verdadeira emoção sua encantadora carta, minha querida amiga; sem dúvida, você tem razão e eu também…"

Que vida precipitada! Durante o dia caminha, compondo suas frases e aguçando suas idéias; à noite trabalha, e muitas vezes está ainda escrevendo quando, às primeiras luzes da madrugada, o dono da hospedaria se levanta e sai sem fazer ruído, para seguir na montanha, a pista dos cabritos monteses. "Mas não serei eu também, um caçador de cabritos moriteses?" — pensa Nietzsche sem interromper o seu trabalho.

O Caso Wagner está terminado. Nietzsche começa um outro libelo, não contra um homem, mas contra as idéias, contra todas as idéias que os homens encontram para orientar seus atos. O mundo metafísico não existe, e os racionalistas sonham; não existe o mundo moral, e os moralistas sonham. Que resta, pois? "O mundo das aparências, talvez? Não! Com o mundo da verdade, abolimos o mundo das aparências". Existe, apenas, a energia renovada a cada instante: Incipiet Zaratustra. Nietzsche procura um título para este novo folheto. Sua primeira idéia é chamá-la ócios de um psicólogo. Em seguida, imagina: O Crepúsculo dos ídolos, ou a filosofia do martelo.

Em 7 de setembro manda o manuscrito ao editor, dizendo–lhe que esse livrinho deverá comover, escandalizar, pôr em tensão os espíritos e prepará-los para receber sua grande obra.

Pensa nela constantemente, e apenas terminado o segundo folheto recomeça o trabalho. Mas já não se reconhece a obra serena e goethiana que o autor projetara. Ensaia novos títulos: Nós, os imoralistas, Nós, os hiperbóreos, mas acaba de decidindo pelo título antigo: Vontade de domínio, ensaio de  uma reavaliação  de  todos  os  valores.

De 3 a 30 de setembro, em vinte e sete dias, escreve uma primeira parte: O Anticristo, e é o seu terceiro libelo. Desta vez fala claramente; indica-nos o seu sim e o seu não, sua linha reta, seu fim; exalta a mais brutal energia. Todos os imperativos morais, tenham sido ditados por Moisés ou por Manu, pelo povo ou pelas minorias selecionadas — são falsos. A Europa esteve perto da grandeza, escreve ele, quando, nos primeiros anos do século XVI foi possível esperar que César Bórgia se apoderasse do papado.

Devemos aceitar como definitivas estas idéias, por serem as  últimas  expressadas  por  Nietzsche?

Ao mesmo tempo em que escreve o Anticristo, volta aos seus Poemas Dionisíacos, esboçados em 1884, e terminados. Neles encontramos a expressão segura dos pressentimentos que então o agitavam:

Descamba o sol.

Logo  não  terás mais sede,

coração abrasado!

Uma frescura impregna o ar:

aspiro os sopros de bocas desconhecidas;

O grande frio chega…

Ao meio-dia, o sol fixo e escaldante cai sobre minha cabeça.

Eu vos saúdo, a vós que chegais,

oh ventos rápidos,

oh frescos espíritos do entardecer!

O ar circula, sereno e puro. Não me lançou um olhar oblíquo e sedutor esta noite?

Permanece firme e animoso, coração! Não me perguntes: por quê?

Anoitecer de minha vida! Descamba o sol.

Em 21 de setembro, ele se acha em Turim. Em 22 aparece nas livrarias O Caso Wagner. Aqui está, afinal, um livro de que os jornais dizem alguma coisa. Mas os seus comentários exasperam Nietzsche. Salvo um autor suíço, Carl Spitteler — ninguém o compreendeu. Cada palavra lhe permite medir a ignorância em que o público se encontra de sua obra. Desde dez anos procura e segue idéias encontradas somente por ele. Os críticos alemães não o entenderam; sabem, apenas, que um tal senhor Nietzsche, discípulo de Wagner, escrevera, havia tempo, algumas coisas em louvor de seu mestre; assim, quando lêem, agora, O Caso Wagner a única coisa que lhes ocorre dizer é que o senhor Nietzsche acaba de romper com seu mestre. Isto, no entanto, não o incomoda muito; mas, em troca, chegam-lhe ao vivo, as censuras de alguns dos poucos amigos que ainda tem. Jacob Burckhardt não se manifesta, e a senhorita de Meysenbug escreve uma carta indignada e severa:

Estas são coisas responde-lhe Nietzsche sobre, as quais não posso admitir contestação. Sou, em questões de decadência, a instância mais alta que há sobre a terra; estes homens de hoje, com seu instinto lamuriento c degenerescente, deviam sentir-se muito satisfeitos por lerem junto a si alguém capaz de lhes Oferecer um vinho generoso nos mais sombrios momentos. Seguramente, O fato de Wagner ter conseguido fazer com que acreditas sem nele é uma prova de gênio, mas este é o gênio de mentirae eu tenho a honra de ser o contrário: um gênio da verdade.

Apesar desta agitação, suas cartas exprimem num felicidade inaudita.    Não há nada que não admire.    O  outono esplêndido, as ruas, as galerias, os palácios, os cafés de Turim, são magníficos; as refeições, suculentas; os preços, módicos. Digere bem, dorme maravilhosamente. Ouve algumas operetas francesas e nada lhe parece tão perfeito como este gênero ligeiro, "paraíso de todas as delicadezas". Assiste a um concerto no qual cada obra, seja de Beethoven, Schubert, Rossaro, Goldmark, Vilbac ou Bizet — lhe parece igualmente sublime. "Não parei de chorar… — escreve a Peter Gast. — Creio que Turim, tanto do ponto de vista musical, como de todos os. outros, é a cidade mais sólida que conheço."

Poder-se-ia esperar que esta embriaguez evitasse a Nietzsche a consciência do destino que o aguarda, mas não é assim. Algumas palavras, poucas mas esclarecedoras, indicam sua clarividência. Sente a aproximação do mal. Sua razão foge-lhe. e ele percebe a fuga. Em 13 de novembro de 1888, manifesta a Peter Gast o desejo de o ver ao seu lado, e sua pena pela impossibilidade de ele vir; é essa a sua queixa constante, cuja mesma constância diminui seu alcance. Nietzsche, que o sabe, previne o amigo: "Interprete como trágico o que lhe digo." Em 18 de novembro escreve uma carta que parece transbordante de alegria. Fala das operetas que acaba de ouvir, de Judie e de Milly Meyer: "Para nossos corpos e nossas almas, querido amigo, a salvação é uma pequena intoxicação parisiense." E acrescenta, ao terminar: "Peço-lhe que também interprete como trágica esta carta."

Assim, o estado de alegria física a que o leva a demência iminente, não impede nem os pensamentos, nem a angústia. Deseja reunir pela última vez as recordações e as impressões que a vida lhe deixara, e compõe uma obra estranha, triunfal e desesperada. Vejamos os títulos dos capítulos. Porque sou tão prudente; Porque sou tão sábio; Porque escrevi tão bons livros; Porque sou uma fatalidade; Glória e Eternidade… Esta última obra tem o titulo: Ecce Homo. Que quer dizer com isso? Que é um Anticristo, ou um novo Cristo? Ambos ao mesmo tempo. Como Cristo, crucificou-se Cristo é homem e Deus; venceu as tentações a que se fizera acessível. Nietzsche é homem e super-homem: conheceu todos os desejos fracos e todos os pensamentos covardes — e repudiou-os. Ninguém antes dele fora tão terno e tão rude ao mesmo tempo; nenhuma realidade o atemorizou. Tomou sobre si não os pecados dos homens, mas todas as suas paixões em toda a sua força. "Jesus crucificado — escreve — é um anátema contra a vida; Dionísio despedaçado é uma promessa dê vida, de vida indestrutível, eternamente renascente…" O solitário cristão tinha seu Deus; Nietzsche vive só e sem Deus. O sábio antigo tinha seus amigos; Nietzsche vive só e sem amigos. O estóico tinha fé no sentido do seu esforço; Nietzsche vive no esforço e sem fé. E, no entanto, vive e consegue cantar naquele cruel momento supremo, seus hinos dionisíacos.    "Não sou um santo — escreve — mas um sátiro…    Escrevi tantos livros, e tão belos — como não deveria ser grato à vida?"

Isto não é verdade. Nietzsche não é um sátiro, mas um santo, um santo ferido que deseja morrer. É grato à vida, diz, mas isso não é certo; sua alma está cheia de amargura. Mente, mas a mentira é às vezes, uma vitória — a única que resta ao homem. Quando Arria, moribunda em conseqüência do ferimento que se infligirá a si própria, diz ao esposo, passando-lhe a arma: Pete, non dolet…, mentiu, mas esta mentira foi a sua glória. "Sua santa mentira — escrevia Nietzsche em 1879 — obscurece todas as verdades que os moribundos ,têm proferido." Não seria esta a ocasião de repetir um juízo semelhante? Frederico Nietzsche não triunfa: Ecce Homo. Está destruído, mas não o confessa. E poeta e deseja que o seu grito de agonia seja um canto; um último transporte lírico eleva sua alma e lhe dá força para mentir:

Dia de minha vida!

Eis  que resvalas já para a noite!

Já  teu  olho  brilha

meio cego;

já as gotas de  teu orvalho

saem espalhadas como lágrimas;

já se estende, serena, sobre o mar leitoso,

tua amada púrpura,

tua última e tardia serenidade

Em torno, tão só as vagas e seu jogo.

O que antes fora difícil

naufragou num azul olvido.-

Inativa, ali vaga a minha barca.

Tempestades,   viagens…   quão  esquecidos!

Os  desejos  e  as  esperanças  submergiram;

a alma e o mar estão imóveis.

Sétima solidão!

Jamais senti

tão perto de mim a doce segurança,

nem mais cálidos  os raios do sol.

E não brilha ainda a neve do meu cume?

Prateado e rápido, um peixe

resvala e foge, ao lado de meu barco

No entanto, sente chegar até ele a glória tanto tempo desejada. Jorge Brandes, que vai repetir e imprimir suas conferências, consegue-lhe um novo leitor, o sueco Augusto Strindberg. Cheio de alegria, Nietzsche dá a notícia a Peter Gast: Strindberg escreveu-me — diz "- "pela primeira vez recebo uma carta na qual encontro um acento histórico e mundial (Welthistorik)."    Em São Petersburgo preparam uma tradução do seu Caso Wagner, e em Paris, Hipólito Taine lhe arranja um correspondente: João Bourdeau, redator de Débats e da Revue des Deux Mondes. "Afinal — escreve Nietzsche — o grande canal de Panamá para a França está aberto…" Seu antigo camarada, Deussen, manda-lhe dois mil francos, oferta de um desconhecido que deseja ajudar a publicação de suas obras. A senhorita de Salis-Marschlins oferece, com o mesmo fim, mais mil. Talvez Nietzsche fosse feliz, mas já era demasiado tarde.

Gomo se passaram esses últimos dias? Ignoramo-lo. Vivia em casa de uma família modesta, que lhe proporcionava moradia e, se o quisesse, refeições. Corrigia as provas de Ecce Homo acrescentando ao texto primitivo um post-scriptum e, depois, um poema ditirâmbico; ao mesmo tempo, preparava a publicação de um novo opúsculo:   Nietzsche contra Wagner.

"Antes de lançar o primeiro volume de minha grande obra — escreve ao editor — é necessário preparar o público; é necessário criar uma verdadeira tensão; ou acontecerá o que aconteceu com o Zaratustra…." Em 8 de dezembro escreve a Peter Gast: "Reli Ecce Homo pesando cada palavra em uma balança de ouro; esta obra divide, por assim dizer, a história da humanidade em duas partes: o mais alto superlativo da dinamite."" Em 29 de dezembro escreve ao editor: "Penso como o senhor: não passemos de mil exemplares para Ecce Homo; para uma obra de grande estilo, mil exemplares já é um número pouco razoável na Alemanha. Na França, digo-Ihe com a maior seriedade, conto com uma tiragem de 80.000, ou 40.000 exemplares." Em 2 de janeiro, um novo bilhete (os caracteres da escrita são grossos e disformes): "Devolva-me  o poema:   adiante  cora  Ecce!

Segundo uma tradição difícil de comprovar, durante estes últimos dias, Nietzsche tocara freqüentemente para seus hospedeiros fragmentos de Wagner, dizendo-lhes: "Eu o conheci", e falando-lhes de Triebschen. Realmente, não é improvável que estas recordações de seus melhores dias 6 tenham visitado então, impelindo-o a contá-los àquela pobre gente que nada sabia de sua vida. Acabava de escrever, em Ecce Homo:

Já que falo aqui das horas de gás que encontrei na minha vida, sinto necessidade de exprimir minha gratidão pelo que foi, e muito, o mais profundo e mais satisfatório dos meus repousos. Tal foi, sem dúvida alguma, minha intima amizade com Richard Wagner. Faço justiça ao resto de minhas relações humanas; mas por coisa alguma deste mundo desejaria esquecer os dias de Triebschen, dias de confiança, de alegria, de sublimes acasos, de profundo olhar… Ignoro o que Wagner foi para outros.    Pelo nosso céu jamais passou uma nuvem.

Em nove de janeiro de 1889, achando-se Franz Overbeck com sua esposa à sacada de sua casinha de Basiléia, viu o velho Burckhardt bater à sua porta. Como Burckhardt não era dos seus íntimos, Overbeck teve o pressentimento de que Nietzsche, amigo comum, era a causa daquela visita. Desde algumas semanas ele vinha recebendo de Turim cartas inquietantes. Burckhardt confirmou esses temores. Trazia uma carta muito longa, e que não deixava lugar a dúvidas: Nietzsche enlouquecera: "Eu sou Fernando de Lesseps — dizia; —sou Prado; sou Chambige (os dois assassinos de que falavam, então, os jornais de Paris); fui enterrado duas vezes este outono…"

Poucos momentos depois, Overbeck recebia uma carta semelhante, e, todos os amigos de Nietzsche se inteiraram, de modo igual, da catástrofe.   Ele escrevera a todos.

Amigo Jorge! escreveu a Brandes desde que tu me descobriste, já não é raro me encontrar; o difícil, agora, é perder-me!

O  crucificado.

Peter Gast recebeu umas palavras cujo trágico significado não compreendeu:

Ao meu mestre Pietro.

Canta-me um novo canto. O mundo é claro, e todos os céus se regozijam.

O crucificado.

"Amo-te,  Ariadne"  — escreveu  a   Cosima  Wagner.

Overbeck sé pôs imediatamente em marcha. Encontrou Nietzsche vigiado pelos seus hospedeiros, martelando no piano com o cotovelo, cantando e gritando sua glória dionisíaca. Conseguiu conduzi-lo a Basiléia e fazê-lo entrar, sem muito trabalho, num sanatório, onde não demorou a vir buscá-lo sua mãe.

Ainda viveu dez anos. Os primeiros foram terríveis, e os últimos um pouco melhores. Às vezes chegou-se a ter, até, alguma esperança. De vez em quando, Nietzsche se recordava de sua obra:

— Não  escrevi  livros  muito  lindos?  — perguntava.

E quando lhe mostravam algum retrato de Wagner, dizia:

Gostei muito desse homem.

Estas voltas à consciência podiam ter sido atrozes, mas parece que não o foram. Um dia, sua irmã, que se achava sentada junto dele, não pôde conter as lágrimas.

— Porque choras, Lisbeth? — disse ele. — Acaso não somos  felizes?

A inteligência destruída não pôde ser salva, mas a alma permaneceu inalteravelmente doce e encantadora, acessível às  impressões puras.

Certo dia (um jovem, que trabalhava na edição de seus livros acompanhava-o nos curtos passeios), viu Nietzsche na beira do caminho uma mocinha cujo aspecto deve tê-lo atraído singularmente. Parou diante dela, separando com as mãos os cabelos caídos sobre o rosto, e contemplando com um sorriso aquela cândida face, disse:

— Não  se  diria  a própria  imagem  da inocência?

Frederico Nietzsche morreu em Weimar, em 25 de agosto de 1900.

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