Nietzsche e Wagner / Vida de Friedrich Nietzsche – Daniel Halevy / 3
VIDA DE FREDERICO NIETZSCHE
Autor: Daniel Halévy
Tradutor: Jerônimo Monteiro
Extraído da edição da Editora Assunção ltda.
Coleção Perfis Literários
O livro foi dividido em 7 páginas
| Cap. 1 – OS ANOS DE INFÂNCIA | Cap. 2 – OS ANOS DA JUVENTUDE |
| Cap. 3 – FREDERICO NIETZSCHE E RICHARD WAGNER — TRIEBSCHEN | Cap. 4 – FREDERICO NIETZSCHE E RICHARD WAGNER — BAYREUTH |
| Cap. 5 – CRISE E CONVALESCENÇA | Cap. 6 – O TRABALHO DO "ZARATUSTRA" |
| Cap. 7 – A ÚLTIMA SOLIDÃO |
III
FREDERICO NIETZSCHE E
RICHARD WAGNER
— TRIEBSCHEN —
Frederico Nietzsche se instalou na Basiléia, escolheu um domicílio e visitou seus colegas. Mas pensava sem cessar em Richard Wagner. Três semanas depois de sua chegada, alguns amigos o acompanham até a margem do lago dos Quatro Cantões. Por uma manhã ele deixa-os e, sozinho, caminha muito tempo a pé, pela margem, em direção a Triebschen, refúgio do mestre. Este é o nome de um pequeno cabo que avança para as águas do lago. Uma só "vila", um só jardim, cujos altos álamos, visíveis de longe, ocupam toda a extensão. Frederico Nietzsche se detém diante do portão fechado, e toca a campainha. Espera, e olha. As árvores escondem a casa. Escuta e seu ouvido atento percebe a ressonância de um acorde que um ruído de passos cobre logo. Aproxima-se um empregado. Nietzsche entrega-lhe seu cartão e, depois, novamente só, põe-se a ouvir de novo e percebe o mesmo acorde que ressoa, doloroso, obstinado, constantemente repetido. O mestre invisível interrompe-se por um instante, mas, em seguida, recomeça a busca, levanta o tom, modula e depois, modulando ainda, volta ao acorde inicial. O criado volta e pergunta: O senhor Wagner quer saber se o visitante é esse mesmo senhor Nietzsche que ele encontrou uma noite em Leipzig. "Sim", responde o jovem. "Então, seria favor voltar à hora do almoço". Nietzsche, que tem seus companheiros esperando, escusa-se. O criado desaparece, e, pouco depois, volta com uma nova mensagem: "O Sr. Frederico Nietzsche está convidado para passar em Triebschen a segunda-feira de Pentecostes." Ele pode aceitar, e aceita.
Nietzsche vai encontrar Wagner num de seus mais belos instantes. O grande homem está só, longe do público, dos jornalistas e das multidões. Acaba de trazer e desposar a mulher que se divorciara de Hans Bulow, a filha de Lizst e da senhora d’Aguot, criatura admirável, gozando do benefício de duas raças. A aventura escandalizara todos os fariseus da velha Alemanha.
Richard Wagner está terminando sua obra no refúgio que escolhera, obra gigantesca, "suíte" de quatro dramas cada um dos quais é imenso; obra que não foi concebida para o prazer dos homens, mas para exaltação e bem-aventurança da alma; obra tão prodigiosa que nenhum público existe digno de a ouvir, nenhum grupo de cantores dignos de cantá-la; cenário nenhum assaz vasto, assaz nobre para que ela aí possa ser representada. Não importa. Richard Wagner não deseja curvar-se ao mundo, mas sim deseja que o mundo se curve diante dele. Terminara Ouro do Reno e Walkyria, e Siegfried logo estaria terminado. Ele começa a conhecer a satisfação do trabalhador que possui e considera, enfim, sua obra.
A inquietação e a cólera misturam-se à alegria, porque ele não é daqueles que se contentam com a aprovação de uma elite. Todos os sonhos humanos o comoveram e ele deseja comover todos os homens. Precisa das multidões, quer ser escutado por elas, e não cessa de chamar a si esses alemães sempre pesados e lentos em segui-lo. "Ajudem-me! — grita em seus livros — vocês começam a ser fortes. Não desdenhem nem negligenciem, por causa dessa força, aqueles que foram os seus mestres espirituais: Lutero, Kant, Schiller e Beethoven. Escutem! Eu sou o herdeiro desses mestres. Ajudem-me! Falta-me um cenário onde eu possa ser livre — Deem-mo! Falta-me um povo que me entenda — sejam vocês esse povo! Ajudem-me! É o seu dever, e em troca eu os glorificarei!"
Imaginemos esta primeira visita: Nietzsche, com suas maneiras suaves, sua voz intimidada, seu olhar violento e velado; sua fisionomia tão moça apesar dos bigodes escorridos. Wagner, no vigor dos cinqüenta e nove anos que não lhe pesam, transbordante de intuições e de experiências, de desejos e de promessas; exuberante de palavras e gestos. — Qual seria o motivo da primeira conversa? Nenhuma testemunha o poderá dizer. Sem dúvida, Richard Wagner repetiu o que dizia em seus livros, e disse imperiosamente a Frederico Nietzsche: "Você também, jovem — ajude-me!"
Quando chegou a hora de partir, como era linda a noite e viva a conversa, Wagner quis acompanhar seu visitante pelas margens do lago. Saíram e caminharam juntos, e era grande a alegria de Nietzsche. Havia muito tempo que ele sentia falta de se dedicar a alguém, de admirar, de ouvir. Não pudera satisfazer esse desejo, porque não encontrara, ainda, homem digno de ser seu mestre. Ali estava, afinal aquele para o qual nenhuma admiração, nenhum amor seriam grandes demais. Entregou-se de alma e corpo, e resolve dedicar-se a este solitário inspirado, lutar com ele contra as multidões inertes, contra a Alemanha das Universidades, das Igrejas, dos Parlamentos e das Cortes.
Qual foi a impressão de Richard Wagner? Sem dúvida, ele também se sentiu feliz. Reconhecera, desde os primeiros instantes, os extraordinários dons de seu jovem visitante. Pôde conversar com ele; conversar, quer dizer: dar e receber. Poucos homens haviam lhe proporcionado esse prazer!
Em 22 de maio, oito dias após essa primeira visita, alguns amigos muito íntimos vieram da Alemanha e Triebschen para festejar com o mestre o dia do seu sexagésimo aniversário. Frederico Nietzsche foi convidado, mas teve que recusar: preparava sua aula inaugural, e não podia se distrair desse trabalho. Queria poder exprimir, desde o primeiro momento, a idéia que ele fazia de sua ciência e do seu ensinamento. Havia tomado como tema o problema homérico no ponto em que se dividem os sábios que analisam a antiguidade, e os artistas que a amam. Queria demonstrar que os sábios devem resolver esse conflito aceitando o julgamento dos artistas.
Sua crítica, fecunda em resultados históricos úteis, reabilitou a lenda e a vasta projeção dos dois poemas. Mas nada decidiu, nada podia decidir quanto ao fundo. A Ilíada e a Odisséia continuam diante de nós com suas formas definidas, e, se a Goethe parece conveniente dizer: "Os dois poemas são obras de um só poeta" — o sábio nada poderá replicar. Sua incumbência é modesta, é útil, no entanto, e deve ser estimada. Não nos esqueçamos — diz Nietzsche terminando sua primeira lição — que faz poucos anos ainda que essas maravilhosas obras-primas helênicas jaziam enterradas num enorme amontoado de preconceitos. Salvou-as o trabalho minucioso dos nossos estudiosos. Sem dúvida, não é a filologia a criadora deste mundo encantado; não foi ela quem compôs esta música imortal. Mas não é este um escopo sério e meritório: — o de ser o seu "virtuose" e fazer soar novamente esses acentos por tão longo tempo esquecidos que se tornaram quase indecifráveis? "Como as musas que descem do céu, aparecem aos pesados e miseráveis habitantes da Beócia — do mesmo modo a filologia aparece num mundo cheio de imagens, e cores tenebrosas, cheio das mais profundas e irremediáveis dores; e sua voz consoladora nos fala das formas luminosas dos deuses e de uma longínqua e azul terra das maravilhas…"
Nietzsche foi muito aplaudido pelos burgueses da Basiléia, que em grande número tinham vindo ouvir o jovem mestre de cujo gênio muito se falara. Rejubilou-se com o sucesso, mas o seu pensamento estava longe, numa outra terra de maravilhas, longínqua e azul: Triebschen. No dia 4 de junho recebeu um bilhete de Wagner:
"Venha passar duas noites conosco. Queremos saber quem é o senhor. Meus compatriotas alemães têm-me dado muito pouco contentamento. Salve a persistente fé que tenho ainda naquilo que chamo — juntamente com Goethe e alguns outros — a liberdade alemã".
Nietzsche foi, e, desde então, se tornou familiar do mestre. E escreveu a seus amigos:
Wagner realiza aquilo que nós tanto desejamos: é um magnífico, rico e grande espírito; é um caráter enérgico, um homem encantador, digno de estima, que arde em desejos para saber tudo!… É preciso que me cale: estou cantando um estribilho…
Peço-lhes — diz ele ainda — não acreditar em nada do que os jornalistas e críticos musicais escrevem sobre Wagner. Ninguém no mundo o conhece nem o pode julgar, porque o mundo inteiro se apóia sobre fundamentos que não são os seus e se encontra perdido em sua própria atmosfera. Wagner é dominado por um idealismo tão absoluto, uma tão comovente e profunda humanidade, que eu me sinto perto dele como perto da divindade…
***
Richard Wagner escrevera, a pedido de Luís II, rei da Baviera, um curto tratado de metafísica social. Ele guardava com ciúmes e não emprestava senão a seus íntimos esta obra singular concebida para fascinar um jovem príncipe romântico. Mandou-a a Frederico Nietzsche, e acreditamos que poucas leituras o terão surpreendido tanto. Foi tal a impressão recebida que dela vemos traços até em sua última obra. Procuraremos dar uma idéia disso.
Richard Wagner começa explicando seu erro do passado: em 1848 fora socialista, não que tivesse jamais aceito o ideal de um nivelamento dos homens; seu espírito, ávido de beleza e de ordem, ou seja, de coisas superiores, não aceitava nada disso. Seu pensamento era diferente. Esperava que uma humanidade libertada das mais baixas servidões se elevaria com maior facilidade à inteligência da arte. Enganara-se, e compreendeu-o. "Meus amigos, apesar de sua grande coragem — escreveu ele — foram vencidos. A inanidade de seus esforços me provou que eles se haviam deixado dominar por um erro fundamental e pediam ao mundo o que o mundo não lhes podia dar."
Depois, seu pensamento se esclareceu. Viu que as massas são impotentes, suas agitações vãs, seu concurso ilusório. Havia acreditado que elas seriam capazes de introduzir na história um progresso cultural, e reconheceu que, ao contrário, eram incapazes de colaborar na simples manutenção da cultura adquirida; não se ressentem senão das necessidades elementares, grosseiras, e imediatas. Qualquer fim nobre é inatingível para elas. E o problema que a realidade nos manda resolver é o seguinte: como obrigar as massas a servir a uma cultura que lhes deverá ficar alheia; a servi-la com zelo e amor até ao sacrifício da vida? Tudo gira em torno desta questão, que parece insolúvel e não o é. Consideremos a natureza: ninguém compreende seus fins, e, no entanto, todos os seres lutam por esses fins. Como obtém a natureza esse apego deles à vida? Enganando suas criaturas. Coloca nelas a esperança de uma felicidade imutável e sempre diferente. Proporcionando instintos que obrigam os mais humildes animais a longos sacrifícios e sofrimentos voluntários. Criou o devotamento da mãe a seu filho, do indivíduo ao seu grupo. Envolveu em ilusões todos os seres vivos e assim os persuade a lutar e sofrer com inquebrantável constância.
A sociedade, escreveu Wagner, deve ser mantida com artifícios semelhantes. As ilusões asseguram sua duração, e o dever daqueles que governam os homens é manter e propagar essas ilusões conservadoras. O patriotismo é mais essencial. Todos os filhos do povo devem ser criados no amor ao rei — símbolo vivo da pátria, e esse amor deve transformar-se num instinto bastante forte para tornar possível a mais sublime abnegação.
A ilusão patriótica assegura a permanência do Estado, mas não é bastante para garantir uma alta cultura. Ela divide a humanidade, favorece a crueldade, o ódio e a estreiteza de pensamento. O rei, cujo olhar abrange todo o Estado, mede os seus limites e conhece os seus excessos. Uma segunda ilusão é aqui necessária: é a ilusão religiosa, cujos dogmas simbolizam a unidade profunda, o amor universal. O rei deve alimentá-la entre seus súditos.
O homem simples, se for penetrado por esta dupla ilusão, pode levar uma vida feliz e digna: é dirigido e salvo. Mas a vida do príncipe e de seus companheiros é mais grave e perigosa. Eles propagam as ilusões e, portanto, julgam-nas. A vida lhes aparece sem véus; sabem quanto ela é trágica. "O grande homem, o homem excepcional — escreveu Wagner — se encontra quase diariamente naquele mesmo estado em que o homem comum desespera de viver e recorre ao suicídio." O príncipe, e a elite o que o envolve, seus nobres, estão premunidos, por sua bravura, contra uma tentação tão desprezível. No entanto, sentem necessidade de amar, de "voltar as costas ao mundo". Desejam, para eles mesmos, uma ilusão repousante, de que sejam, simultaneamente, autores e cúmplices. A arte poderá salvá-los. É aí que ela intervém, não para exaltar o entusiasmo tolo dos povos, mas para amenizar a vida dolorosa dos nobres, e sustentar sua bravura. "A arte — escreveu Richard Wagner dirigindo-se a Luís II, — aponto-a ao meu muito caro amigo como a terra prometida e benfazeja. Se não é possível a ela elevar-nos de maneira real e completa acima da vida, eleva-nos, pelo menos, na vida real, às mais altas regiões. Ela lhe dá a aparência de um passatempo e, transformando em imagens ilusórias os seus mais desagradáveis aspectos, subtrai-nos às necessidades comuns, nos entusiasma e consola…"
Ainda ontem — escreveu Nietzsche a Gersdorff em 4 de agosto de 1869 — eu lia um manuscrito que Wagner me emprestara, "Do Estado e da Religião", um tratado cheio de grandeza que ele redigira para expor ao seu "jovem amigo", o pequeno rei da Baviera, sua maneira íntima de compreender o Estado e a Religião. Jamais alguém falou aa seu rei em termos mais dignos e mais filosóficos. Eu me sentia comovido e alvoroçado por esse idealismo que o espírito de Schopenhauer parece inspirar constantemente. Melhor do que qualquer outro mortal, o rei deve compreender o trágico da vida.
***
Em setembro, Frederico Nietzsche, depois de uma curta estadia na Alemanha, recomeçou a viver entre Basiléia e Triebschen. Em Basiléia, tinha seus trabalhos, seus alunos que o ouviam atentamente e a amável companhia dos colegas. Seu espírito, seu talento musical, sua amizade com Wagner, suas maneiras e elegância, davam-lhe certo prestígio. Convidavam-no a freqüentar as melhores casas, e ele não recusava esses convites. Mas as mais agradáveis relações não valem uma simples amizade, e Nietzsche não tinha um único amigo nesta cidade de honestos burgueses. Nunca se sentia satisfeito em Basiléia; sentia-se feliz somente em Triebschen.
Agora, eu também tenho minha Itália — escreveu a Erwin Rohde que estava em Roma — apenas, não posso freqüentá-la senão aos sábados e domingos. Minha Itália chama-se Triebschen, e já me sinto, lá, como em minha casa. Ultimamente estive lá quatro vezes, quase continuamente e, ainda por cima, quase cada semana uma carta segue o mesmo caminho. Meu caro amigo, é impossível dizer o que observo, vejo e aprendo ali. Parece-me, até, que Schopenhauer e Goethe, Pindaro e Ésquilo ainda estão vivos.
De cada vez que voltava, ficava triste. Um sentimento de solidão deprimia-o logo. E ele confiava a Erwin Rohde esse estado, ao mesmo tempo em que lhe revelava as esperanças que o trabalho lhe dava.
Na verdade, caro amigo — dizia — tenho bem poucas satisfações e é preciso que as goze sozinho, solitário, sempre solitário! Ah! eu não recearia uma boa doença, se a esse preço pudesse pagar o prazer de conversar uma noite com você. As cartas significam tão pouco! Os homens tem constantemente necessidade de parteiras e quase todos vão dar à luz nos albergues, nos colégios, onde os pequenos projetos e os pequenos pensamentos saltitam como ninhadas de gatinhos. Mas quando estamos repletos com o nosso pensamento, não há ninguém junto de nós para ajudar, e assistir durante a difícil operação. Sombrios e melancólicos, vamos depositar em qualquer buraco escuro os nossos pensamentos recém-nascidos, pesados, informes. Falta-lhes o sol da amizade.
"Estou me tornando um talento na arte dos passeios solitários" — diz ele. E acrescenta: "Minha amizade tem qualquer coisa de patológico." No entanto, ele se sente feliz no fundo da alma; ele mesmo o declara um dia, e previne seu amigo Rohde a contar suas próprias cartas.
A correspondência tem isto de irritante: a gente deseja dar o melhor de si mesmo e não dá, afinal, senão o mais efêmero e convencional, mas nunca a melodia eterna. De cada vez que me sento para escrever, a palavra de Hölderlin (o autor favorito dos meus anos de escola), me volta ao espírito: "Denn liebend giebt der Sterbliche vom Bestem!" E, enquanto me lembro, que achou você de minhas últimas cartas? Negações, contrariedades, singularidades, solidões. E, no entanto, Zeus e o divino céu de outono o sabem, uma possante corrente me conduz para idéias positivas e cada dia gozo exuberantes horas que me cumulam de ricos golpes de vista, de reais concepções — e nesses momentos de exaltadoras impressões, nunca deixo de lhe mandar uma longa carta plena de pensamento e imaginação. Atiro-a através do céu azul, esperando que o fluido que liga nossas almas a leve até você.
Poderemos nós entrever estas idéias positivas, esses ricos golpes de vista? Sem dúvida, pois que possuímos todas as notas e todos os rascunhos desse jovem que adquiriu, ao preço do esforço cotidiano, a força e a sabedoria.
Que foram para mim os anos de estudo? — escreveu ele a Ritschl — Uma luxuosa vagabundagem através dos domínios da filologia e da arte. E por isto, meu reconhecimento é enorme neste instante em que me dirijo a vós que fostes, até aqui, o "destino" de minha vida. É por isso que reconheço como foi necessária e oportuna a oferta desta cadeira que de estrela errante me transformou em estrela fixa, obrigando-me a saborear, novamente, a satisfação do trabalho amargo mas regular, do destino seguro e imutável. O trabalho do homem é muito diferente quando a santa necessidade da vocação o assiste; como o seu sono é agradável e como está tranqüila, ao despertar, a consciência daquilo que o dia exige! Não há, então, noites desagradáveis. Tenho a impressão de que pareço uma porção de páginas esparsas em um livro.
O livro, cujas idéias fundamentais Nietzsche elaborava nesse momento, era A Origem da Tragédia. — O pensamento grego constitui o centro em torno do qual ele forma seus pensamentos. Aí ele considera audaciosamente a história. Pensava que um verdadeiro historiador devia apreender, numa vista rápida, todos os conjuntos. "Todos os grandes progressos da filologia — escreveu em suas notas — são seguidos de um olhar criador." O olhar de Goethe havia descoberto uma Grécia lúcida e serena. Submissos ao seu gênio, nós continuamos a ver a imagem que ele nos apresentou. Mas nós devemos olhar e descobrir por nós próprios. Goethe fixou sua atenção nos séculos da cultura alexandrina. Nietzsche negligencia-os. Ele prefere os séculos rudes e primitivos, para onde o seu instinto, desde os dezoito anos, o havia conduzido quando ele escolhera para estudar os dísticos do aristocrata Teogônios de Megare. Sente, aí, uma energia, uma força de pensar, de agir, de suportar, de infligir castigos; uma potência de lirismo e de sonho — que fazem sua alma rejubilar.
Encontra, enfim, ou pensa encontrar, nessa velhíssima Grécia, o espírito de Richard Wagner, seu mestre. Wagner quer fazer ressurgir a tragédia e, servindo-se do teatro como de um instrumento espiritual — reanimar, na alma humana, o sentido diminuído do lirismo. Os trágicos gregos tinham uma ambição semelhante. Eles queriam tornar sua raça maior e mais nobre por meio da mais surpreendente evocação dos mitos. — Sua tarefa era sublime, e malogrou-se. Os mercadores do Pireu, as plebes urbanas, a turba dos mercados e dos portos não gostavam desta arte lírica que os obrigava a pensamentos muito elevados e a atos demasiado meritórios. As famílias nobres foram vencidas, e a tragédia cessou de existir. Richard Wagner encontrou inimigos semelhantes: os democratas, raciocinadores vulgares, amigos de prometer paz e falaz bem-estar. "Nosso mundo judaizante, nossa plebe garganta e politiqueira são hostis à arte idealista e profunda de Wagner — escreveu Nietzsche a Gersdorff. — Sua natureza cavalheiresca é-lhes contrária…" Seria a arte de Wagner vencida como o fora, em outros tempos, a de Ésquilo? É sempre essa luta que preocupa Frederico Nietzsche.
Expôs estes novos pontos de vista a seu mestre:
É preciso renovar a idéia do helenismo. Vivemos sobre lugares-comuns que são falsos. Falamos da "alegria", da "serenidade helênica"; e esta alegria e essa serenidade são frutos tardios e de fraco sabor — favores dos séculos de escravatura. A sutileza socrática, a doçura platoniana, já trazem a marca do declínio. É preciso estudar os séculos antigos, o VII e VI. Alcançaremos, assim, a força ingênua, a seiva original; Entre os poemas de Homero, que são o romance de sua infância, e os dramas de Ésquilo, que são o ato de sua virilidade, a Grécia, não sem esforço, entra na posse de seus instintos e de suas disciplinas. Estes são os tempos onde devemos beber conhecimentos, porque se assemelham aos nossos. Os gregos acreditavam então, como os europeus hoje, na fatalidade das forças naturais, e acreditavam também que o homem devia criar para si próprio suas virtudes e seus deuses. Um sentimento trágico, um pessimismo corajoso que não os desviava da vida, encorajava-os. Entre eles e nó tudo é semelhante e correspondente: pessimismo, coragem, vontade de criar uma nova beleza…
Richard Wagner interessou-se pelas idéias do moço ligando-o cada vez mais à sua vida. Certo dia, em presença de Frederico Nietzsche, ele recebeu da Alemanha a notícia de que Ouro do Reno e Valquíria, mal executadas longe de seus conselhos e de sua direção, acabavam de sofrer um duplo insucesso. Afligiu-se por ver depreciar-se e esterilizar-se sob seus olhos a obra imensa que destinara a um teatro e a um público inexistentes. Sofria. Nietzsche sentiu-se comovido por esse nobre sofrimento.
Ele assistia ao trabalho de seu mestre. Wagner compunha, então, a música do Crepúsculo dos Deuses. Página a página, a obra crescia, sem pressa nem lentidão, como que conduzida pelo transbordar igual de uma fonte invisível. Wagner, cuja atenção não era absorvida por esforço algum, escreveu, durante esses mesmos dias, uma história de sua vida. Frederico Nietzsche recebeu o manuscrito com a missão de o fazer imprimir secretamente, e fiscalizar a limitada tiragem de doze exemplares.
Reclamavam também a sua presença para ocupações mais familiares. No Natal, Wagner preparou um teatrinho de fantoches para seus filhos. Ele queria belas figuras, de anjos e demônios. A senhora Cosima Wagner pediu a Frederico Nietzsche que os comprasse em Basiléia. "Esqueço-me de que é professor, doutor e filólogo — disse-lhe ela graciosamente — não me lembro senão dos seus vinte e cinco anos."
Ele examinou as figurinhas que achou em Basiléia e, não as achando a seu gosto, escreveu a Paris para que enviassem a Triebschen os mais espantosos diabos e os mais belos anjos que se pudesse imaginar. Frederico Nietzsche, admitido à solenidade do guignol passou as festas de Natal com Wagner, sua esposa e seus filhos, na mais doce intimidade. Cosima Wagner fez-lhe um presente: deu-lhe uma edição francesa de Montaigne que ele, ao que parece, ainda não conhecia, e que logo iria admirar tanto. Foi imprudência dela. Montaigne é leitura perigosa para um discípulo.
***
"Devo fazer, este inverno, duas conferências sobre a estética dos trágicos gregos — escreveu Nietzsche em setembro a seu amigo barão de Gersdorff — e Wagner virá de Triebschen para ouvi-las."
Wagner não compareceu, mas Nietzsche foi ouvido por um público muito numeroso.
Descreveu uma Grécia desconhecida, agitada pelos mistérios, pela embriaguez do deus Dionisios, e iniciada, por essa mesma embriaguez, por essa desordem, no lirismo, no canto, na contemplação trágica. Parece que tentou definir esse romantismo eterno, sempre semelhante a si mesmo, na Grécia do século VI, como na Europa do XIII — o mesmo, sem dúvida, que inspirava Wagner no seu retiro de Triebschen. No entanto, Nietzsche evitou pronunciar seu nome.
Quando iam assistir à tragédia do grande Dionisios, os atenienses traziam na alma algumas centelhas daquela força elementar de que nasceu a tragédia. Era um irresistível impulso primaveril que explodia; era um furor, um delírio de impressões confundidas, que todos os povos primitivos, como toda a natureza, sentem ao chegar a primavera. Como entre nós os folguedos da Páscoa e do Carnaval. Agora estão encampados pela Igreja, mas, no início, foram as festas da primavera. Tudo isto deriva do mais profundo instinto. O velho sol grego movimentou multidões entusiastas, cheias de Dionisios, da mesma maneira, na Idade-Média as danças de São Jão e de São Vito, agitavam as multidões, que passeavam, dançavam, cantavam de cidade em cidade, tornando-se maior em cada uma. Podem os médicos considerar isso como doenças populares. Nós dizemos, apenas, que o drama antigo é a flor de tal doença, e que se a arte moderna não beber dessa fonte misteriosa, o mal será seu.
Em sua segunda conferência, Nietzsche estudou o fim da arte trágica. Foi um fenômeno singular. Todas as demais artes gregas declinaram lenta e gloriosamente. A tragédia não teve declínio. Desapareceu depois de Sófocles, como que destruída por uma catástrofe. Nietzsche descreve a catástrofe e cita o nome do destruidor: Sócrates.
Ele teve a coragem de acusar o mais reverenciado dos Homens. Foi ele, homem do povo, o pobre ateniense, feio e motejador, quem suprimiu a antiga poesia. Sócrates não era nem artista, nem filósofo. Não escrevia, nada ensinava — falava, apenas. Sentado na praça pública, detinha as pessoas que passavam e espantava-as com sua lógica divertida, deixava-as convictas de ignorância e absurdos; ria e as obrigava a rir delas mesmas. Sua ironia desonra as crenças nativas que davam força aos ancestrais; os mitos que sustinham suas virtudes. Ele desmoraliza a tragédia e declara: "Chega!" Eurípides fica confuso e sua inspiração se detém. O jovem Platão, que talvez viesse a ultrapassar Sófocles, dá ouvidos ao novo mestre, queima seus versos e renuncia à arte. Sócrates realizou a mais decisiva das revoluções. Desconjuntou a velha humanidade instintiva e lírica; e, pela voz de Platão, que ele seduzira, impôs a ilusão, desconhecida dos antigos, de uma natureza acessível à razão humana, penetrada por ela e para sempre harmoniosa. Frederico Nietzsche deveria inserir essas páginas em seu livro sobre A Origem da Tragédia.
Essa acusação pronunciada contra Sócrates surpreendeu os basilienses. Wagner soube-o e escreveu a Nietzsche, em fevereiro de 1870 uma carta entusiasta e muito serena:
Quanto a mim, grito: "É isso mesmo!" Você atingiu a verdade e tocou o ponto justo com um agudo dardo. Espero com admiração a continuação do seu trabalho e das lutas que você há de travar com o dogmatismo vulgar. No entanto, você me causa cuidados e desejo, de todo o coração, que não quebre o pescoço. Quero, portanto, aconselhá-lo a não expor seus audaciosos pontos de vista, dificilmente aceitáveis, em pequenas brochuras que pouco ajudam. Sinto que você está profundamente penetrado por suas idéias; é preciso reuni-las para nos dar um livro volumoso, de mais vasta ação. Então, você encontrará e dará a palavra justa sobre os divinos erros de Sócrates e de Platão, esses criadores, tão maravilhosos, que nós mesmo que discordemos deles, ainda os devemos adorar. Oh, meu amigo! As palavras se elevam como hinos quando consideramos a incompreensível harmonia dessas essências estranhas ao nosso mundo! E que orgulho nos anima, que esperança, quando, examinando-nos a nós mesmos, sentimos forte e claramente que podemos e devemos realizar qualquer obra para eles mesmo inacessível!
Nenhuma das cartas endereçadas por Nietzsche a Wagner foi publicada. Ter-se-ão? Teriam sido destruídas? Serão apenas ocultadas pela senhora Cosima Wagner, que talvez não seja incapaz de guardar rancor? Não se sabe. Sem dúvida, Nietzsche pedia a Wagner que se aliasse com ele, e que o ajudasse a tornar mais claros esses pontos realmente difíceis. Wagner respondeu-lhe:
Caro amigo,
Como é bom a gente poder escrever tais cartas! Não existe ninguém, hoje, com quem eu possa me entender tão bem como com você, excetuada uma única (*)[Senhora Cosima Wagner]. Deus sabe que seria de mim sem isso! Mas ele permitirá que nenhum projeto melhor me tente e que possa dispor de muito tempo, para que me abandone ao prazer de lutar com você contra o "socratismo"; porque, para esclarecer um tal problema devo renunciar a toda criação. É preciso que dividamos o trabalho, Você pode muito, para mim. Pode se encarregar de metade do trabalho que o destino me designou. E, fazendo isso, talvez cumpra todo o seu destino. Eu sempre me saí mal de todas as experiências filológicas. Você também se saiu mal das experiências musicais — é bem isso. Como músico, você se tornaria, pouco a pouco, o mesmo que eu me tornaria se me obstinasse em realizar trabalhos de filologia. Mas a filologia me ficou no sangue; como musicista, ela é que me dirige. Você, que é filólogo, continuando a sê-lo deixe-se dirigir pela música. Dou um sentido muito sério ao que estou dizendo. Soube, por você, como são baixas as preocupações a que se deve restringir hoje um filólogo de profissão — e você soube, por mim, em que inominável chiqueiro tem que se agitar hoje um verdadeiro e "absoluto" musicista. Exponha o que deve ser a filologia e ajude-me a preparar esta grande "Renascença" na qual Platão abraçará Homero e Homero, penetrado pelas idéias de Platão há de ser, pela primeira vez, o sublime Homero…
Nesse instante Nietzsche concebeu sua obra e se preparou para a escrever de um jacto. "Ciência, arte e filosofia crescem em mim tão bem combinadas — disse ele em fevereiro a Erwin Rohde — que ainda me vai acontecer conceber um centauro…"
Mas as necessidades profissionais interrompem esse impulso. Em março foi nomeado professor catedrático. A honra envaidece-o, e a responsabilidade preocupa-o. Ao mesmo tempo confiam-lhe uma classe de retórica superior; depois, pedem-lhe para redigir em bom latim uma mensagem de felicitações para o professor Brambach, de Friburgo, que havia, cinqüenta anos lecionava na universidade local. Nietzsche, que nunca se recusa, aplica-se em preparar sua aula e em compor a mensagem. Em abril, novo trabalho. Ritschl fundou uma revista: "Acta societatis philologicae Lipsiae", e deseja que seu melhor aluno colabore. Nietzsche não mercadeja nunca a colaboração que lhe pedem. Promete um trabalho e escreve a Rohde, para conseguir que ele colabore também:
Pessoalmente, sinto-me seriamente obrigado. E embora esse trabalho, neste momento, me venha prejudicar, não me recuso. É preciso que colaboremos no primeiro número. Você não ignora que muita gente o vai ler com curiosidade e com má vontade, É preciso, pois, que seja bom. Prometi fiel ajuda. Responda-me.
Chegam maio e junho de 1870. Frederico Nietzsche parece preocupado, sobretudo, pela redação das "Acta". Durante as férias de Pentecostes, Rohde, de volta da Itália, deteve-se em Basiléia, com grande alegria de Nietzsche. Ele desejava que Wagner conhecesse seu amigo, e levou-o a Triebschen. Foi uma bela noitada, na borda do abismo que nenhum desses homens parecia perceber. Rohde, continuando seu caminho para a Alemanha, deixou Basiléia. Ficando só, Nietzsche é vítima de um acidente idiota: torceu o pé, e teve que ir para a cama.
***
Teria ele prestado alguma atenção aos rumores de guerra que agitavam a Europa em 1870? Não parece. Era pouco curioso com respeito às novidades, e nunca lia jornais. Não que fosse indiferente à sua pátria, mas concebia-a à maneira de Goethe, como uma fonte de arte e de grandeza moral. Um dos seus pensamentos — um só — seria, talvez, inspirado pelas inquietações públicas: "Nada de guerras. O Estado se tornaria mais forte." Aí temos, sem dúvida, ao mesmo tempo que uma impressão de Nietzsche, um eco dos assuntos ventilados em Triebschen: Richard Wagner tinha seus mais ardentes admiradores entre os alemães da renânia e meridionais, onde reinava seu protetor, Luís II. Os alemães do Norte apreciavam-no pouco e os berlinenses menos ainda que todos os outros. Ele não desejava, pois, uma guerra que teria por efeito certo tornar mais pesada a ditadura prussiana. O Estado que Nietzsche designa em sua curta nota é o Prussiano. Previa e receava, como seu mestre, a hegemonia iminente de Berlim, cidade desprezada, asilo de burocratas, banqueiros, jornalistas e judeus. Em 14 de julho, convalescente, estendido numa cadeira de repouso, escrevia a seu camarada Erwin Rohde, falando de Richard Wagner e de Hans de Bulow, de arte e de amizade. Subitamente interrompeu-se no meio de uma frase, e, marcando com o salto de uma linha a interrupção de seu pensamento, escreveu:
Eis uma notícia terrível como um trovão. Está declarada a guerra franco-alemã, e o mais terrível demônio se abate sobre nossa cultura, usada até o extremo. Que iremos nós sofrer?
Amigo, caro amigo! mais uma vez nos revimos no crepúsculo da paz. Que significam, hoje, todas as nossas aspirações? Talvez estejamos no começo do fim. Que desolação! Os claustros vão se tornar necessários, e nós seremos os primeiros monges!
E assinou: "O Leal Suíço" — Esta imprevista assinatura pode se explicar de maneira literal: Frederico Nietzsche havia tido que renunciar à sua nacionalidade para poder ser nomeado professor na Universidade da Basiléia. Mas, seguramente, ela significa mais do que isso e denuncia o desapego do seu espírito e sua decisão de ficar apenas como espectador.
Como se conhecia mal a si mesmo. Ele era muito jovem, muito bravo, muito orgulhoso de sua raça para poder assistir como espectador ao drama iminente. "Leal Suíço", e, como tal, dispensado de deveres militares, instala-se agradavelmente com sua irmã Lisbeth num albergue de montanha, onde redige algumas páginas sobre o lirismo grego. Foi então que formulou, pela primeira vez, suas definições do espírito dionisíaco e do espírito apolíneo. Entrementes, as tropas alemãs passavam o Reno e conquistavam suas primeiras vitórias. Frederico Nietzsche não ouve essas novidades sem emoção. A idéia dos altos feitos nos quais ele não tomava parte, dos perigos de que ele estava preservado, perturba suas meditações.
Em 20 de julho, escrevendo à senhora Ritschl, expõe seus pensamentos de solitário. É então a expressão do receio que parece lhe inspirar a lembrança da Grécia arruinada pelo conflito de Esparta e Atenas:
Tristes analogias históricas nos mostram que as próprias tradições da cultura podem ser tragadas pelo amargar duma tal guerra nacional.
E exprime, também, a emoção que começa a penetrá-lo:
Como me envergonho desta inação em que estou, quando chegou o momento de aplicar meus conhecimentos como artilheiro! Naturalmente, preparo-me para uma enérgica resolução, caso as coisas tomem mau aspecto. Sabe que os estudantes de Kiel, de tanto entusiasmados alistaram-se em bloco?
No dia 7 de agosto, pela manhã, leu em seu jornal as notícias de Woerth: "Vitória alemã. Grandes perdas." Não pôde mais permanecer inativo. Retorna a Basiléia, solicita e obtém das autoridades suíças permissão para servir como auxiliar do corpo de saúde, e parte para a Alemanha a fim de tomar parte nessa guerra que o atrai.
Atravessa a Alsácia conquistada, vê os campos de cadáveres de Wissembourg e de Woerth; em 29 de agosto bivaca perto de Strasbourg, cujos incêndios clareiam o horizonte; depois dirige-se por Lunéville e Nancy, para o campo de Metz, convertido em imenso hospital, onde os feridos de Mars-la-Tour, de Gravelotte e Saint-Privat são tão numerosos que mal podem ser atendidos, morrendo de seus ferimentos e de males infecciosos. Alguns infelizes são entregues aos seus cuidados. Ele cumpre o seu dever com coragem e bondade. Mas sente uma emoção singular, um horror sagrado e quase entusiasta. Pela primeira vez ele considera sem repulsão o trabalho das multidões. Olha para esses milhões de seres — uns batidos e marcados pela morte, outros marchando pela estrada, ou de pé sob as armas — olha-os e não mais os despreza: compreende o seu destino. Sob a ameaça da guerra, esses homens se tornaram graves. Esqueceram seus pensamentos vãos, e marcham, cantam, obedecem aos chefes e morrem. Frederico Nietzsche é recompensado de seus trabalhos: um impulso fraternal eleva sua alma, não o deixando mais sentir a solidão. Começa a amar essas criaturas simples que o rodeiam.
Combate-se em Sedan. "Todas as minhas paixões militares despertam — escreve ele — e eu não as posso satisfazer! Estaria em Rezonville ou em Sedan, ativamente, ou passivamente, talvez. Mas a neutralidade suíça me mantém de mãos atadas."
Sua passagem pela França é rápida: recebe ordem de conduzir ao hospital de Carlsruhe os feridos que estão a seu cuidado. Parte e durante três dias e três noites permanece, com onze homens, num vagão de carga, que se mantém fechado por causa do frio e da chuva. Dois desses feridos são atacados de difteria e todos têm disenteria. "Para chegar à verdade — disse um místico alemão — a mais rápida montaria é a dor." Nietzsche recorda esta máxima de que muito gosta. Experimenta sua coragem, verifica seus pensamentos. Pensa os ferimentos dos seus homens, ouve as suas queixas, seus apelos, e não interrompe a meditação. Até então ele não tinha conhecido senão os seus livros; agora, conhece a vida. Saboreia esta amarga prova e percebe sempre alguma beleza longínqua.
"Eu também tenho minhas esperanças — escrevera ele — e graças a elas, pude ver a guerra e prosseguir nas minhas meditações sem me interromper, em presença dos piores horrores. Lembro-me de uma noite solitária em que, estendido no vagão de carga com os feridos que me haviam confiado, não deixei de explorar em pensamento os três abismos da tragédia que chamamos: "Wahn", "Wille", "Wehe" — Ilusão, Vontade, Dor. De onde tirava eu a confiante certeza de que o herói a nascer do conhecimento trágico e da alegria grega — devia suportar novamente semelhante prova?"
Chegou a Carlsruhe com seus feridos e doentes, mas contraíra o mal, e cai, atacado de disenteria e difteria. Um desconhecido, que fora seu companheiro no hospital, cuida dele com devotamento. Apenas se sentiu melhor, Nietzsche foi procurar em casa de sua família em Naumburg, não repouso, mas fuga completa ao trabalho e ao pensamento.
Sim — escreve ele a seu amigo Gersdorff, que combatia na França — sim: esta concepção das coisas, que nos é comum, sofreu a prova de fogo. Fiz a mesma experiência que você. Para mim, como para você, estas semanas permanecerão na vida como uma época em que cada um dos meus princípios será reafirmado. Arrisquei-me a morrer com eles. Agora, estou em Naumburg, mas ainda mal restabelecido. A atmosfera em que vivi ficou sobre mim, como uma nuvem sombria: ouço uma queixa interminável.
Já uma vez, em julho de 1865, durante a campanha de Sadowa, ele conhecera a guerra e sentira a sua sedução. Uma grande e simples aspiração o havia dominado; por alguns instantes, sentira-se de acordo com sua raça.
"Experimento uma emoção patriótica — escreve — e isso não é novo para mim…" Retém e cultiva essa rápida exaltação.
Quanto mudou sua alma! Já não é aquele "leal suíço" de outros tempos. É um homem entre homens, um alemão cioso da sua Alemanha. Uma guerra o transformou: ele glorifica a guerra. Ela desperta a energia dos homens, chega a inquietar seus espíritos. Obriga-os a procurar, numa ordem ideal — ordem de beleza e de dever — os fins de uma vida demasiado cruel. O poeta lírico, o sábio, incompreendidos nos séculos pacíficos, são ouvidos nos séculos guerreiros. Os homens têm necessidade deles, e sentem essa necessidade, porque é a mesma que os arregimenta por trás de seus chefes, a que os torna atentas ao gênio. Só sob a pressão da guerra é que a humanidade se torna una, e se inclina para o heróico e sublime.
Frederico Nietzsche, fraco e sofrendo ainda, recomeça a redigir as notas para o seu livro e deseja inserir nelas as suas novas idéias. Eis a Grécia: sua arte é a forma visível de uma sociedade disciplinada pela luta, desde a oficina onde trabalha o escravo — até ao "gymnasium" e o "agora", onde o homem livre joga armas. Tal esta figura alada, esta deusa da Samotrácia cujo vôo acompanha uma trirreme sangrenta — o gênio grego emana da guerra. Ele canta-a e a acompanha.
"É o povo dos mistérios trágicos — escreve Nietzsche — que dá o grande golpe das batalhas pérsicas. Ao regresso, o povo que sustentou essas guerras, tem necessidade da beberagem salutar da tragédia."
Seguimos, por essas notas, o movimento de um espírito que deseja aprender, através de uma Grécia incerta, a própria idéia do trágico. Encontramos constantemente essa palavra — trágico — tratada à maneira de um tom fundamental que o jovem pensador se exercita em repetir, como a criança que acaba de aprender uma palavra nova: "A Grécia trágica vence os Persas… O homem trágico é a própria natureza na sua mais alta força de criação e de conhecimento: ele joga com a dor…" Três fórmulas satisfazem, por um instante, sua pesquisa: "A obra de arte trágica — o homem trágico — o Estado trágico." Ele determina, assim, as três partes essenciais de seu livro, que intitulará também: O Homem Trágico.
Não entendamos mal o objeto real de suas meditações: esta sociedade, esta disciplina que ele discerne no passado são, em realidade, as formas ideais da pátria que deseja e ousa esperar. Aqui temos a Europa latina, enfraquecida pelo utilitarismo e a doçura da vida; aqui temos a Alemanha, rica em poetas, em soldados, em mitos e em vitórias. Ela é suserana das raças que fraquejam. Como exercerá essa suserania? Não podemos augurar, do seu triunfo uma nova era guerreira e trágica, cavalheiresca e lírica? Se o podemos conceber, podemos esperá-lo, e, isso é bastante para indicar o nosso dever. Como será bela esta Alemanha! Bismarck — seu chefe; Molke —seu soldado; Wagner —seu poeta… E seu filósofo existe também. Chama-se Frederico Nietzsche. Esta certeza Ele não a externa de modo algum, mas tem-na, seguramente, porque Nietzsche não tem dúvida alguma sobre seu próprio gênio.
Frederico Nietzsche exalta-se, mas não se deixa desviar por seus sonhos; imagina uma pátria ideal, mas não deixa de perceber claramente a pátria humana, muito humana, que existe. Durante outubro e os primeiros dias de novembro, isolado entre os seus, nessa Naumburg cujas virtudes provincianas Ele já não aprecia — apenas consegue suportar a vulgaridade das pessoas sem importância, dos funcionários que visita. Naumburg é uma cidade prussiana, e Nietzsche não gosta dessa Prússia robusta e baixa. Metz havia capitulado; o mais belo exército francês está aprisionado. Um delírio de orgulho empolga toda a Alemanha, e Frederico resiste a essa onda. O sentimento de triunfo é um repouso que sua exigente alma não pode conhecer. Ao contrário, Ele se inquieta e se assusta:
Receio — escreve a Gersdorff — que tenhamos que pagar nossas maravilhosas vitórias nacionais por um preço que eu, de minha parte não consentirei. Confidencialmente: sou de opinião que a moderna Prússia ê uma potência demasiado perigosa para a cultura… Á empresa é perigosa, mas devemos ser bastante filósofos para conservar nosso sangue-frio no meio das chamas e velar para que nenhum ladrão venha e diminua aquilo que, a meu ver, não se pode medir, não é comparável nem mesmo às mais heróicas ações militares, nem á nossa exaltação nacional.
Foi então que apareceu uma publicação que comoveu Nietzsche. Era a data do centenário de Beethoven, e os alemães, ocupados com a guerra, haviam se esquecido da comemoração. A voz de Richard Wagner levantou-se, só, mas bastante forte para recordar aos vencedores essa outra glória: "Alemães! Sois bravos, mas sê de também na paz: neste maravilhoso ano de 1870, nada calha melhor ao vosso orgulho de bravos do que a lembrança do grande Beethoven… Celebremos o grande desbravador de caminhos, celebremo-lo dignamente, não menos dignamente do. que a vitória da bravura alemã, porque aquele que dá alegria ao mundo eleva-se mais alto entre os homens do que aquele que conquista o mundo!"
Alemães —,sois bravos. Sêde-os também na paz — nada poderia comover mais Frederico Nietzsche.. Ele desejou aproximar-se do mestre, e, embora sofrendo ainda, deixou Naumburg..
Tornou a ver Richard Wagner, mas não ficou inteiramente satisfeito. Esse homem, magnífico nos dias de desgraça, parecia diminuído nos dias felizes. Sua alegria era de qualidade vulgar. A vitória alemã vingava-o dos assobios e das caçoadas parisienses. "Gozava" os franceses com grande contentamento. Mas declinou diversas ofertas: prometerem-lhe as mais altas funções e grandes honras se concordasse em residir em Berlim. Recusou. Não queria deixar-se entronizar cantor oficial de um império prussiano. Seu discípulo conhecia o grau desta reserva.
Em Basiléia Frederico Nietzsche encontrou um melhor confidente para a sua inquietação: o historiador Jacob Burckhardt, grande conhecedor de artes e civilizações, e que estava triste; qualquer brutalidade lhe era odiosa; detestava a guerra e suas destruições. Cidadão da última cidade que mantinha na Europa sua independência e seus costumes antigos, orgulhoso dessa independência e desses costumes, Jacob Burckhardt, burguês de Basiléia, não pode gostar das nações de trinta ou quarenta milhões de habitantes que se solidificavam ante seus olhos. Aos projetos de Bismarck e de Cavour, preferia o conselho de Aristóteles: "Façamos de modo que o número de cidadãos não passe de dez mil — ou então, eles não poderão jamais reunir-se na praça pública."
Estudara Atenas, Veneza, Florença e Siena. Tinha na mais alta estima as antigas disciplinas latinas e menosprezava as normas de agir germânicas; receava a hegemonia alemã. Burckhardt e Nietzsche eram colegas, e se encontravam freqüentemente nos intervalos das aulas. Conversavam então, e, nos dias bonitos, subiam juntos ao terraço a que açodem todos OS turistas, entre a catedral de grés vermelho e o Reno, tão Jovem ainda mas,já tão forte, passando com o longo murmúrio do suas águas contrariadas. A Universidade estava localizada na margem, entre o rio e o museu.
Os dois homens examinam constantemente o pensamento comum: como séria continuada esta tradição de cultura e de beleza, tão frágil e tantas vezes rompida — que os dois ínfimos territórios, a Ática e a Toscana, confiaram aos nossos cuidados? A França não desmerecera a tradição. Soubera manter os métodos e uma escola de bom gosto. E a Prússia, feria qualidades para tal herança? Nietzsche repetia sua esperança: "Pode ser que esta guerra tenha transformado, nossa velha Alemanha. Vejo-a mais viril, dotada de gosto mais firme, mais refinado…" Jacob Burckhardt discordava: "Não. Você pensa ainda nos gregos, para os quais a guerra era uma virtude educadora. Mas as guerras modernas são superficiais — não atingem nem corrigem o "deixa-correr" burguês da vida. São raras e sua impressão se desvanece; esquecemo-las; elas não influem no pensamento." Quais eram as respostas de Nietzsche? Uma carta enviada a Erwin Rohde deixa-nos perceber o acento mal seguro de seus propósitos: "Sinto grande inquietação pelo futuro próximo: Acredito divisar nele uma Idade Média disfarçada. Tenha cuidado, em não se entregar a esta Prússia fatal, contrária à cultura! Os homens servis e os padres crescem ai como cogumelos e vão, com sua vaidade, tornar toda a Alemanha sombria!"
Jacob Burckhardt, retirado desde muito tempo entre suas recordações e seus livros, tinha o hábito da tristeza e aceitava-a. A modo de discreto protesto contra a atitude de seus contemporâneos, pronunciou uma conferência sobre A Grandeza Histórica: "Não tomem como verdadeira grandeza — disse aos estudantes de Basiléia — tal triunfo militar, ou tal vôo do Estado. Quantas nações foram potentes, mas estão esquecidas e merecem o olvido! A grandeza histórica é mais rara: ela está toda nas obras dos homens que nós, à falta de bem lhes conhecer a natureza, chamamos — "os grandes homens". Ela é que nos legou Notre-Dame de Paris; Goethe nos deu o Fausto; Newton, sua lei do sistema solar. Isso é grande — só isso."
Frederico Nietzsche ouviu e aplaudiu: "Burckhardt está se tornando schopenhaueriano" — escreveu.
Mas não são algumas palavras sábias que contentam o seu ardor. Ele não pode renunciar tão depressa à esperança que concebeu. Quer agir para salvar sua pátria do desastre moral de que a julga ameaçada. Mas como agir? Trata-se de um povo pesadão, insensível à inquietude, um povo depreciado pela democracia, rebelde a toda a aspiração nobre. Por que artifício se poderia conservar nele o ideal em perigo, o amor pelo heroísmo e pelo sublime? Nietzsche concebe um projeto tão audacioso como extremo, que durante tempo medita sem dizer nada a ninguém. Richard Wagner trabalhava então para instituir p teatro de Bayreuth, onde queria realizar sua obra épica em inteira liberdade. Nietzsche ousou imaginar uma instituição diferente, mas da mesma ordem: uma espécie de seminário onde os jovens filósofos seus amigos — Rohde, Gersdorff Deussen, Overbeck, Romundt — se reunissem em verdadeira intimidade e, livres de necessidades, de tutela administrativa, pudessem meditar, guiados por alguns mestres, sobre os problemas do momento. Uma dupla chama, de arte e de pensamento, alimentaria, assim, no coração da Alemanha, acima das multidões e à parte do Estado, as tradições da vida espiritual.
"Teremos necessidade de claustros" — escrevera Ele em julho a Erwin Rohde. Seis meses de experiências trouxeram esta conclusão: "Aqui está, seguramente, a mais estranha Idéia QU6 este tempo de guerra e de vitória suscitou — lemos em suas notas — um anacoretismo moderno — uma impossibilidade de viver de acordo com o Estado…"
Nietzsche deixa-se arrastar por este sonho cuja irrealidade não percebe. Imagina uma reunião de solitários, parecida com o nosso Port-Royal des Champs. Ele sabe que uma tal sociedade não está de acordo com as maneiras e o gosto de seu tempo, mas julga-a necessária e acredita-se com a força necessária para a instituir e impor. Um instinto profundo inspira-o e o dirige; no velho colégio de Pforta, monacal pelas origens, pelos edifícios e pelas próprias paredes, pela persistente gravidade e pelos costumes — Ele conhecera, em criança, os aspectos de uma vida quase religiosa, e guardava consigo a lembrança e a nostalgia desse tempo. Durante seus anos de Universidade, havia procurado constantemente isolar-se do mundo, cercando-se de amigos. Estudava a Grécia e a sabedoria antiga alimentava suas inclinações monásticas. Adorava Pitágoras e Platão — um fundador e o outro poeta da mais bela confraria que os homens jamais puderam criar, a aristocracia restrita e soberana dos sábios armados e dos cavaleiros meditativos. Assim a humanidade cristã e a humanidade paga, unidas por um longínquo acordo, conspiraram, com seus pensamentos e suas aspirações.
Ele queria escrever uma carta-aberta a seus amigos conhecidos e desconhecidos, mas fá-lo-ia somente no instante favorável, e até então guardaria segredo. "Dê-me dois anos — escreveu a seu amigo Gersdorff, com entusiasmo e mistério — e você verá como se alastrará uma nova concepção da antigüidade que determinará um novo espírito na educação cientifica e moral da nação!". Pelos meados de dezembro, acreditou chegado o momento. Erwin Rohde escreveu-lhe uma carta triste — bem fraco eco das apaixonadas cartas que Nietzsche lhe havia mandado. "Teremos necessidade de claustros…" dizia Ele repetindo a mesma idéia expressa seis meses antes pelo amigo. Isso não era senão uma palavra; Nietzsche porém viu aí o sinal de acordo espontâneo, um presságio de colaboração entusiasta, e escreveu-lhe em alegre transporte :
Caro amigo,
Recebi sua carta, e respondo sem perda de um minuto. Quero lhe dizer, sobretudo, que sinto perfeitamente, como você, que nós seremos a meu ver muito fracos se, conservando nossas pobres queixas, não nos arrancarmos ao tédio por uma ação enérgica___ Compreendi,
enfim, o alcance dos julgamentos de Schopenhauer sobre a filosofia das Universidades. Não é possível haver nelas nenhuma verdade radical, é nenhuma verdade revolucionária poderá sair delas. Sacudiremos esse jugo — para mim, isso é indiscutível. E formaremos, então, uma nova Academia grega. Romundt será dos nossos.
Você conhece, desde a sua visita a Triebschen, os projetos do Bayreuth, há muito tempo, sem que o dissesse a ninguém, venho meditando se não seria conveniente rompermos com a filologia e suas perspectivas de cultura. Estou preparando um grande adhortatio para dirigir a todos aqueles que não estejam ainda completamente fartos e cansados das maneiras de ser do tempo atual. Que pena que eu deva escrever-lhe e que não possamos, de há muito, examinar em conversa cada um dos meus pensamentos! Para você, que não conhece as suas curvas e diretrizes, meu plano talvez pareça um capricho excêntrico. Mas Ele não é isso. —. Corresponde a uma necessidade.
Devemos tratar de atingir uma pequena ilha na qual não tenhamos mais necessidade de tampar os ouvidos com cera. Então, seremos os mestres uns dos outros. Nossos livros, daqui até lá, não serão senão laços para prender amigos e público para a nossa associação estética e monacal. Vivamos, trabalhemos, alegremos-nos um ao outro. Talvez só desta maneira possamos trabalhar para a união. Dir-lhe-ei (veja como são graves os meus desígnios) que já comecei a diminuir minhas despesas para constituir uma pequena reserva. Apelaremos para a loteria, a fim de constatar nossa "sorte"; quanto aos livros que pudermos escrever, exigirei os honorários mais altos possíveis, em previsão dos próximos tempos. Em breve, não desprezaremos meio algum lícito para chegar a fundar o nosso convento. Também nós, teremos o nosso dever nos dois anos próximos. Possa este plano parecer-lhe digno de meditação! Sua última carta, tão comovente, foi, para mim, o sinal de que era tempo de lhe contar meus planos.
Assim falava Fausto a Helena. Ninguém sabe coisa alguma sobre o meu projeto, e, agora, depende de você que Romundt o saiba.
Decerto, nossa escola de filosofia não é, nem uma reminiscência histórica, nem um capricho arbitrário. Não é uma necessidade o que nos impele por esse caminho? Parece que o nosso projeto de estudantes — aquela viagem que devíamos fazer juntos — volta sob uma forma nova, simbólica e mais vasta. Desta vez, ela não ficará em projeto apenas, como da outra. Quando me lembro disso, fico sempre aborrecido.
Com os melhores augúrios, seu fiel
Frater FredericUs
De 23 de dezembro a l.o de janeiro, estarei em Triebschen, perto de Lucerna.
Em 22 de dezembro, Nietzsche deixou Basiléia, sem ter ainda recebido resposta de Rohde. Encontrou a casa de Triebschen animada e cheia" de alegria com a brincadeira das crianças e os preparativos para o Natal. A senhora Wagner deu-lhe um volume de Sthendal, Os passeios em Roma, e Ele ofereceu a Wagner a água-forte de Durer, O Cavaleiro, o Cão e a Morte, sobre o qual fizera um comentário no livro que preparava então: A Origem da Tragédia — "Um espírito que se sente isolado — escrevera Ele — desesperadamente solitário, não poderia escolher um símbolo melhor do que este cavaleiro de Durer que, sozinho, com seu cavalo e seu cão, prossegue impassível o caminho tenebroso, sem se inquietar com seus horríveis companheiros, e, no entanto, sem nenhuma esperança. Nosso Schopenhauer foi esse cavaleiro de Durer. Faltava-lhe toda a esperança, mas desejava a verdade. Não existe um outro como Ele."
Nietzsche teria sido feliz na casa do mestre, se não estivesse esperando a resposta de Rohde. Essa espera mortificava-o. Ficou em Triebschen durante oito dias. Wagner não se cansou de falar de Bayreuth e de seus vastos projetos. Nietzsche, igualmente, falaria de boa vontade sobre seu pensamento. Mas queria, antes, receber a opinião do seu amigo, e essa opinião não chegava nunca. Partiu, enfim, sem nada haver recebido, e sem nada dizer.
Em Basiléia, afinal, teve a resposta tão longamente esperada: resposta honesta, afetuosa, mas negativa:
"Você me disse que os claustros são necessários hoje, e -eu o creio. Mas trata-se de uma dessas necessidades para as quais não há remédio algum. Conseguiríamos dinheiro? E mesmo que o conseguíssemos, não sei se eu o acompanharia. Não sinto em mim uma força criadora que me torne digno dessa solidão com que você me acena. Para um Schopenhauer, um Beethoven, um Wagner, já não é o mesmo; nem para você, caro amigo. Mas desde que é de mim que se trata — não. Espero uma vida diferente. Entretenhamos, no entanto, isso sim, o desejo de um tal isolamento, entre alguns amigos, num claustro das Musas. Privados de estímulo, que seria de nós?"
Se Rohde se recusava a segui-lo, quem o seguiria? Não escreveu mais seu adhortatio. Romundt não foi prevenido e parece que nem mesmo Wagner veio a saber de coisa alguma.
Sem queixas vãs, Nietzsche tratou de elaborar sozinho aquelas verdades revolucionárias para as quais quisera conseguir um nascimento menos difícil. Deu as costas à Alemanha, a esses Estados modernos que animam a servidão, atenuam os conflitos e dão-se a missão de favorecer a preguiça dos homens. Considera, novamente a Grécia primitiva, a cidade do VII e VI séculos; uma misteriosa atração leva-o sempre para aí. Será a sedução duma beleza perfeita?
Sem dúvida, é também a sedução dessa força e dessa crueldade que os modernos escondem como taras, e que os velhos helenos exerciam com alegria. Nietzsche admira a força: nos campos de batalha de Metz Ele sentira perfeitamente esse gosto e esse instinto.
"Se o gênio e a arte São os últimos fins da cultura helênica — escreveu ele — todas as formas da sociedade helênica nos devem aparecer como mecanismo necessários e como cotas para esse último fim. Procuremos saber de que meios se utiliza a vontade de arte que anima os helenos…" Ele discerne, então, e aponta um desses meios: a escravatura. "Frederico-Augusto Wolf — nota ele — demonstrou que a escravatura é necessária à cultura. Esse é um dos fortes pensamentos de meu predecessor. Aqueles que vieram em seguida foram muito fracos para poder segui-lo." Nietzsche seguiu esse pensamento, espremeu-o e dele extraiu todo o seu sentido. Essa idéia subitamente descoberta, inspira-o: é profunda e agita-o todo; é cruel, quase monstruosa, e satisfaz seu gosto romântico. Freme diante dela é "adora sua beleza sombria.
Pode ser que este conhecimento nos encha de horror — escreve — mas tal horror é o efeito quase necessário de todo o conhecimento mais profundo. Porque a Natureza permanece sempre algo espantosa, mesmo quando se dedica a criar as suas mais belas formas. Ela é feita de tal modo que a cultura, em sua marcha triunfal, não beneficia senão uma ínfima minoria de mortais privilegiados — e é necessário, se se deseja atingir o pleno desenvolvimento da arte, que as massas permaneçam escravas.
Nós, os modernos, temos o costume de opor aos gregos dois princípios, um e outro inventados para justificar uma sociedade perfeitamente servil e que não pode ouvir falar em "escravatura" sem horror e ansiedade: falamos da "dignidade do homem" e da "indignidade
"i do trabalho".
A linguagem dos gregos é outra. Eles declaram, com simplicidade, que o trabalho é uma vergonha — pois é impossível que um homem ocupado com a necessidade de ganhar a vida, venha a ser, jamais, um artista. Concluímos, pois, por esta verdade, aparentemente cruel: a escravatura é necessária à cultura, verdade que seguramente não deixa dúvida alguma sobre o valor absoluto do ser. É o abutre devorando o fígado do filho de Prometeu, a artesão da cultura. A miséria dos homens que vivem na penúria, deve ser feita mais rigorosa ainda* para que um número mínimo de homens olímpicos possa criar um mundo de arte. À sua custa, e como os resultados de um trabalho não remunerado, a classe privilegiada deve ser subtraída à luta pela vida e posta em condições de criar e de satisfazer uma nova ordem de necessidades. E se é certo que os gregos foram destruídos pela escravidão, é mais certa ainda esta outra afirmação: a falta de escravatura será a causa da destruição de nossa época.
Qual, porém, a origem da instituição da escravatura? Como se obteve a submissão do escravo, "toupeira cega da cultura"? Os próprios gregos no-lo ensinam, responde Nietzsche r "Os vencidos pertencem ao vencedor — dizem eles — com suas mulheres, filhos, seus bens e seu sangue. A força dá o primeiro "direito", e não existe direito algum que não seja, no fundo, apropriação, usurpação, poder." Desta maneira, o pensamento de Nietzsche é novamente conduzido para o seu objeto primitivo. A guerra o havia inspirado a princípio, e torna a encontrá-la. Ela é que forneceu o escravo. Na dor e na tragédia, os homens inventaram a beleza. É preciso submergi-los e mantê-los na dor e na tragédia, para conservar neles o sentido da beleza. Em páginas que têm o sabor e o ritmo de um hino, Frederico Nietzsche glorifica e invoca a guerra:
Eis aqui o Estado de vergonhoso nascimento para a maior parte dos homens, fonte de penas jamais extinta, chama que os consome em suas freqüentes crises. E, não obstante, nossas almas tudo esquecem à sua voz; à sua sangrenta chamada ás multidões se agitam e se elevam até ao heroísmo. Sim, o objeto mais alto e venerável, para as massas cegas, é talvez o Estado, que, em suas horas formidáveis imprime em todos os rostos a singular expressão da grandeza.
… Algum fio, alguma relação misteriosa existe entre o Estado e a Arte, a atividade política e a produção artística, o campo de batalha e a obra de arte. Qual é o papel do Estado? É a tenaz de aço que mantém unida a sociedade. Sem Estado, nas condições naturais — bellum omnium contra omnes — a sociedade continuaria limitada pela família e não poderia projetar ao longe suas raízes. Pela instituição universal dos Estados, esse instinto que determinara anteriormente o. bellum omnium contra omnes, concentrou-se. Em certas épocas, terríveis nuvens de guerra se acumulam sobre os povos e se descarregam em suas cabeças, de um só golpe, com raios e trovões, tanto mais fortes quanto mais raras são. Estás crises, porém, não são constantes. Entre uma e outra, a sociedade toma alento. Regenerada pela ação da guerra, eis que começa a brotar por todas as partes, que reverdece e, ao começar os bons dias, brotam em seus ramos os frutos deslumbrantes do gênio. Confesso que, se deixando o mundo grego, examino o nosso, encontro nele sinais de abastardamento que me fazem temer pela sociedade e pela arte. Certos homens, aos quais falta o sentido do Estado não o. querem servir, mas apenas servir-se dele para seus fins pessoais. Não vêem nele nada de divino e, para o utilizarem de maneira segura e racional, tomam cuidado a fim de evitar os choques guerreiros. Deliberadamente se esforçam para organizar as coisas de tal sorte que a guerra seja impossível. Por uma parte, imaginam sistemas de equilíbrio europeu; por outra, se esforçam em arrancar aos soberanos absolutos o direito de declarar a guerra, a fim de apelar mais comodamente para o egoísmo das massas e dos que as representam. Sentem a necessidade de debilitar o sentimento monárquico dos povos e debilitam-no na verdade, propagando a idéia liberal e otimista do mundo, que tem suas raízes nas doutrinas do racionalismo francês e da Revolução, isto é, em uma filosofia completamente estranha ao espírito germânico; em uma debilidade romana desprovida de sentido metafísico.
O movimento, hoje em dia triunfante, das nacionalidades e a extensão do sufrágio universal, paralela àquele movimento, padecem-me determinados, sobretudo, pelo temor à guerra; e, atrás destas diversas agitações, vejo aqueles que mais se comovem com este temor, os solitários da finança internacional que, naturalmente desprovidos de todo o instinto do Estado, subordinam a política, o Estado e a sociedade, aos fins do dinheiro e da especulação.
Para evitar que o espírito da especulação de tal modo abastarde o espírito do Estado não há senão um meio: a guerra e sempre a guerra. Na exaltação que ela provoca, se torna evidente aos homens que o Estado não se fundou para proteger os egoístas contra o. demônio da guerra, mas ao contrário, o amor à pátria e. a fidelidade aos príncipes ajudam a criar o impulso moral que é o sinal de um destino sempre mais alto… Não se considere, pois, perigoso o fato de eu entoar aqui um hino à guerra. A ressonância de seu arco de prata é terrível. Chega até nós sombria como a noite; não obstante, Apolo acompanha-a, Apoio, guia legítimo dos Estados, deus que os purifica…
Não o ocultemos, pois: a guerra é necessária ao Estado, como o escravo o é à sociedade. Ninguém poderá furtar-se a estas conclusões se tiver lealmente investigado as causas daquela perfeição que a arte grega, e somente ela, alcançou.
A guerra e sempre a guerra que exalta os povos... — tal é o grito do solitário. Apenas, porém, deixa de escrever e começa à ouvir e a olhar em torno — adverte imediatamente o pendantesco império alemão, e suas esperanças refluem; A, turbação de seu espírito se faz visível. Vacila, e num instante exprime a ilusão que persiste, e a desilusão inevitável:
Eu poderia imaginar — escreve — que os alemães haviam deflagrado esta guerra para salvar do Louvre a Vênus, segunda Elena. Esta seria a interpretação espiritual do seu combate. A bela rigidez antiga do ser inaugurado por esta guerra — é chegado o tempo de sermos graves — acreditamos ser este também o tempo da arte.
Continua escrevendo e seu pensamento se torna agora mais claro e mais triste:
Quando um Estado não pode alcançar seu mais elevado fim, cresce desmesuradamente. O império mundial dos romanos nada tem de sublime diante de Atenas. Essa beleza que deveria ir toda para as flores, condensa-se então nas folhas e nos talos, que se hipertrofiam.
Roma inquieta-o. Sem o menor amor por ela, julga-a como um opróbrio para a antigüidade. A cidade, guerreira, mas sempre plebéia; vitoriosa, mas sempre grosseira — contradiz, de certo modo, suas idéias. "Roma — escreve — é o Estado típico: a vontade não pode alcançar nele seus nobres fins. A organização é mais vigorosa, a moralidade, mais pesada. .. quem pode venerar este colosso?"
Quem pode venerar este colosso? Se dermos a estas palavras uma aplicação moderna e urgente, veremos que o colosso não é Roma, e sim a Prússia e seu império. Restrito foi o território de Atenas ou da Lacedemônia, e breve o tempo de sua duração. Mas, que importa, se o fim, que é a força e a beleza das almas — foi alcançado ! Frederico Nietzsche sente-se dominado por essa visão da Grécia das cem cidades rivais, erguendo, entre as montanhas e o mar, suas acrópoles, seus templos, suas estátuas, ressoando ao ritmo dos cânticos, gloriosa e exaltada. "O sentimento do helenismo — escreve ele — assim que se desperta torna-se agressivo e se traduz num combate contra a cultura atual."
Frederico Nietzsche sofre com estas feridas que a vida inflige a seu sonho lírico. Seus amigos ouvem-no, mas não conseguem segui-lo, O professor Franz Overbeck, que mora na sua casa e que o vê diariamente, é um espírito de escola, firme e penetrante. Alemão por nascimento e francês por educação, compreende os problemas do momento e associa-se às inquietações e intenções de Nietzsche, mas não consegue igualá-lo em ardor. Jacob Burckhardt, é grande pela inteligência e pelo caráter, mas não espera nada, ao passo que Nietzsche tem a paixão de esperar. Ali está Wagner, sem dúvida, que jamais desconcerta a paixão nem a esperança; mas. acaba de publicar uma "bufonaria aristofanesca" sobre os parisienses vencidos; a obra é grosseira. Frederico Nietzsche lê-a e censura-a. Overbeck e Burckhardt carecem de ardor e Wagner de delicadeza. Nietzsche não se confia a ninguém.
Acabava de vagar uma cadeira de filosofia na Universidade de Basiléia. Entusiasmado, Nietzsche escreve a Erwin Rohde para que se candidate a essa cadeira, pois que seguramente a conseguirá e os dois amigos poderão enfim encontrar-se novamente. Esperança demasiado bela e vã. Erwin Rohde apresenta-se candidato, mas não é aceito, e Nietzsche censura-se por havê-lo feito alimentar uma falsa esperança, e desespera-se. Sente-se arrastado "como um pequeno torvelinho em um mar morto de noite e de olvido."
Ele nunca se repusera inteiramente das provas sofridas durante a guerra, pois não havia recuperado o sono nem a saúde despreocupados e seguros. Sustinha-o uma certa força nervosa que em fevereiro lhe falta repentinamente, e as desordens surdas tomam uma forma aguda. De que natureza seriam as crises que, havia cinco meses, o vinham atormentando? Violentas nevralgias, insônias, desordens e debilidade da vista, dores no estômago, ictericia. Os médicos, sem compreender do que se tratava, aconselharam uma viagem de repouso. Frederico Nietzsche chamou sua irmã, que foi buscá-lo em Naumburg. Foi com ela fazer uma visita de despedida a Triebschen e partiu para Lugano.
Naquele tempo, a estrada de ferro não atravessava os Alpes; passava-se o São Gotardo em diligência. O acaso deu a Nietzsche um estranho companheiro, homem de idade, conversado, e que se deu a conhecer: era Mazzini. O velho humanitarista e o jovem escravista entenderam-se muito bem: um e outro tinham temperamento heróico. Mazzini citou uma frase de Goethe: "Nada de transigir. É preciso viver resolutamente, na integridade, na plenitude e na beleza. Sich des halben zu entwohnen und im Ganzen, Vollen, Schönen, resolut zu leben". Jamais Frederico Nietzsche olvidou essa enérgica máxima, nem ao homem que a havia citado, nem àquela viagem rápida e saudável, não longe dos cumes que mais tarde tanto viria a amar.
Chegou a Lugano quase curado. A formosa travessia da montanha, entre a neve e o silêncio alpinos, fora suficiente. Sua natureza era, ainda, ágil e juvenil; voltava à vida de maneira rápida e radiante e Uma ingênua alegria reavivava todo o seu ser. Passou dois ditosos meses na Suíça italiana. Um oficial prussiano, parente do general Moltke, habitava no mesmo hotel. Nietzsche emprestou-lhe seus manuscritos e lhe falava freqüentemente sobre os destinos do novo império alemão e da missão aristocrática e guerreira que lhe conferia a vitória. Os alemães que tinham ido repousar naquela primavera tão gloriosa para eles, eram numerosos e todos se reuniam com satisfação ;em torno do jovem, filósofo, para ouvi-lo.
Começava fevereiro; a guerra terminava, e as pessoas, livres de inquietação se abandonavam, pela primeira vez ao prazer do triunfo. Cantavam, dançavam, até mesmo em público, na praça do mercado, e Nietzsche não era o mais lerdo em regozijar-se com elas, cantando e dançando também.
"Quando me recordo daquilo — escreve a senhora Föster Nietzsche, que faz uma graciosa e triste descrição daqueles dias — me parece que vivo um verdadeiro sonho de carnaval."
De Lugano, Frederico Nietzsche escreve a Erwin Rohde:
Meu estado de ânimo deixa freqüentemente muito a desejar. No entanto, a inspiração voltou mais de ama vez, e meu manuscrito aproveitou com isso. Abandonei resolutamente a filologia. Podem elogiar-me, censurar-me ou prometer-me as mais altas honras — digam o que disserem, repudio-a. Cada dia penetro mais um pouco no meu domínio filosófico, e começo a acreditar em mim.
Mais ainda: se tiver que ser poeta algum dia, desde já me sinto disposto a sê-lo. Não sei, não tenho meio algum para saber até onde me orienta o meu destino, e, no entanto, quando me examino, tudo se toma harmonioso em mim, como se me houvesse orientado um gênio bom, Meus fins me são singularmente desconhecidos; nenhuma preocupação de função ou de honraria hierárquica orienta os meus esforços, mas nem por isso deixo de viver num surpreendente estado de clareza e serenidade. Que impressão esta, de ver o seu mundo diante de si — um formoso globo, redondo e completo! Tão depressa é um fragmento de uma nova metafísica, como uma nova estética, o que germina em mim; em seguida, outra idéia me reclama, um novo princípio de educação, que implica no abandono completo de nossas Universidades e ginásios. Não concebo nenhum fato sem encontrar, em seguida, um recanto, um bom lugar já há muito preparado para o receber. Este sentimento de um mundo interior que cresce em mim, experimento-o em toda a sua força quando penso* não com frieza, mas tranqüilamente e sem exagerado entusiasmo, na história destes dez últimos meses, nestes acontecimentos que considero como instrumentos para os meus desígnios. Orgulho, ou loucura, são palavras débeis para o meu estado de "insônia" mental.
Ah! como desejo a saúde! Quando alguém se impõe uma tarefa destinada a durar mais que ele próprio — que gratidão se sente por uma boa noite, por um tíbio raio de sol e até mesmo por uma digestão normal!
Em 10 de abril, Nietzsche está de regresso a Basiléia. Reúne e relê, pela última vez, suas notas e fixa o plano definitivo de sua obra. Deixa de lado suas meditações sobre a guerra, a escravidão e a cidade, das quais reproduzimos alguns trechos e (Wagner desejava-o, segundo dizem) limita-se ao seu primeiro tema: a tragédia antiga, modelo e precursora do drama musical alemão. O conselho de Wagner, insinua a senhora Förster-Nietzsche, não foi de todo desinteressado; convinha-lhe que a primeira obra de seu discípulo fosse consagrada à sua glória. Isto é verossímil; no entanto, parece que Nietzsche se deixara dominar e seduzir por demasiadas idéias e que, além de acumular matéria para um livro, entretivera-se, um pouco ao acaso, em alinhavar uma série de estudos de estética, história e política. Tinha, forçosamente que se limitar, e não sé decidia a fazê-lo. Se Wagner o induziu a isso, fez bem. Talvez a ele devamos a feliz conclusão deste livro, único verdadeiro que Nietzsche completava.
Que dirá Nietzsche neste livro? Analisará a origem e a essência do lirismo helênico, e oporá a Grécia de Esquilo, trágica e conquistadora, embriagada por seus mitos e cantos dionisíacos, cheia de ilusões — à Grécia socrática, alexandrina, ímpia, argumentadora e exangue; corruptora, ao morrer, dos povos que haviam permanecido puros em torno, do sangue puro da primeira humanidade. Em seguida, focalizará as duas Alemanhas que igualmente se enfrentam: a Alemanha dos democratas e dos sábios, e a Alemanha dos soldados e dos poetas. É preciso encolher entre elas. Nietzsche declara sua escolha: devendo a Wagner toda a serenidade do seu pensamento e todas as suas alegrias, designa-o a seus compatriotas. Enquanto em Frankfurt se assina a paz entre as duas nações, Frederico Nietzsche, "estabelecendo, igualmente, a paz consigo mesmo", termina os primeiros rascunhos de sua obra, não sem observar a coincidência das datas, pois os conflitos interiores e as revoluções de seu pensamento não lhe parecem acontecimentos menos importantes do que os conflitos exteriores e as revoluções das raças.
A paz, porém, não solucionou todos os conflitos daquele terrível ano, e os franceses começaram uma guerra civil, catástrofe que emocionou a Europa mais profundamente ainda que Froeschwiller e Sedan. Na manhã de 23 de maio, os jornais de Basiléia anunciaram a destruição de Paris e o incêndio do Louvre. Nietzsche tomou conhecimento desta notícia com um sentimento de espanto. As mais belas obras, as flores do trabalho humano, haviam sido destruídas. Mãos humana, tini povo desgraçado havia ousado cometer essa profanação.
Deste modo, todos os temores de Nietzsche se viam confirmados. Sem hierarquia e sem disciplina, escrevera ele, não pode subsistir a cultura. Nem todos têm direito de participar da beleza; a imensa maioria deve viver humildemente, trabalhando para seus amos e respeitando suas vidas. Tal é a economia que garante a força das sociedades, e, em recompensa de sua" força, a delicadeza, a graça e a beleza. Tal é a ordem que a Europa vacila em manter. Frederico Nietzsche podia sentir-se triunfante, mas nem sequer lhe ocorreu essa idéia. Com verdadeiro espanto media sua clarividência, sua solidão e sua responsabilidade. De repente, pensou em Jacob Burckhardt: que imensa devia ser a sua tristeza: Teve desejo de vê-lo, falar-lhe, ouvi-lo, fazer sua a desolação do amigo. Correu a sua casa, mas não o encontrou. Apesar da hora matinal, Burckhardt havia saído. Nietzsche percorreu as ruas como um desesperado. Finalmente, voltou a casa. Jacob Burckhardt esperava-o em seu gabinete de trabalho. Enquanto Nietzsche andava à sua procura, ele andava à procura de Nietzsche. Os dois homens permaneceram muito tempo juntos e a senhorita Nietzsche, que havia permanecido só na sala vizinha, ouvia os seus soluços através da porta.
Confessemos — escreve Nietzsche a seu amigo, o barão de Gersdorff — que todos nós, com nosso passado, somos responsáveis pelos horrores que nos ameaçam atualmente. Cometeríamos um erro se considerássemos com tranqüilidade o desencadeamento de uma guerra contra a cultura e se apenas culpássemos por isso os desgraçados que a fazem. Quando soube dos incêndios de Paris permaneci verdadeiramente oprimido durante vários dias, perdida em lágrimas e em dúvidas. A vida científica, filosófica e artística me pareceu um absurdo, pois via como um único dia era suficiente para destruir ás obras de arte mais belas — que digo? — destruir i períodos inteiros de arte. Deplorei profundamente que o valor metafísico da arte não se possa manifestar à populaça. Existe, porém, ainda uma missão mais alta a cumprir. Jamais, por mais viva que fosse a minha dor, atiraria eu a primeira pedra a esses sacrílegos que não são, a meus olhos, senão os portadores da culpa de todos, culpa sobre a qual muito há que pensar…
Nas notas autobiográficas escritas em 1878 lêem-se estas palavras: "A guerra. Minha dor mais profunda: o incêndio do Louvre."
Frederico Nietzsche havia voltado a seus antigos costumes; quase todas as semanas era hóspede dos Wagner. Não demorou, porém, em perceber que Triebschcn havia mudado depois da vitória alemã. Demasiados amigos formigavam agora em torno da casa do mestre. Demasiados desconhecidos ocupavam a mansão cuja simplicidade ele tanto amara. Estas pessoas falavam e discutiam animadamente; nem todos eram como Nietzsche teria gostado, mas, apesar disso, Wagner falava e discutia animadamente com todos. Julgando chegado o momento oportuno, havia decidido empreender a campanha para que a Alemanha construísse, enfim, a sala de que necessitava, o teatro, ou o templo de Bayreuth.
Frederico Nietzsche ouvia e tomava parte nas discussões com um ardor inquieto. A idéia de Wagner exaltava-o, mas sua alma de solitário não deixava de sentir-se mal e às vezes ferida por aquele tumulto mundano que era preciso tolerar. Wagner não sofria. Ao contrário, parecia engrandecido pela alegria de sentir a multidão mais perto dele. E Nietzsche, um pouco surpreendido, um pouco desiludido, procurava seu herói e não voltava a encontrá-lo tal como ele fora antes.
"Guiar o povo — havia ele escrito nos seus cadernos de estudante — é colocar paixões ao serviço de uma idéia." Wagner acomodava-se a esse trabalho. A serviço de sua arte e de sua glória, aceitava todas as paixões. Patrioteiro com os patrioteiros, idealista com os idealistas, francófobo até onde se quisesse; para estes, restaurador da tragédia esquiliana; para aqueles, reanimador dos antigos mitos germanos; pessimista de bom grado e cristão, se assim o desejavam. Por outro lado, sincero a cada minuto, este ser prodigioso, tão grande condutor de homens como grande poeta, manejava habilmente sua pátria.
Ninguém resistia ao seu impulso: não havia outro remédio senão ceder e segui-lo. Resolvia até os mais ínfimos detalhes dos planos do teatro cujo local acabava de ser escolhido. Estudava a organização prática da obra, e trabalhava na criação dos Vereine, em que se deviam agrupar propagandistas e subscritores. Sabia proporcionar aos seus fiéis alegrias raras e inesperadas: um dia surpreendeu-os fazendo executar para eles Unicamente, nos jardins de Triebschen, o Siegfried-Idyll, gracioso "intermezzo" composto para comemorar o feliz parto de sua esposa, belo eco dos tempos mais íntimos. Como é natural, distribuiu um papel a Nietzsche, pois era necessário que aquela voz, fogosa e difícil de se conter, eloqüente, porém não se perdesse. O jovem oferecia-se para realizar uma viagem de propaganda pelo norte da Alemanha, que demorava a se entusiasmar. Sua proposta não foi aceita, decerto porque Wagner receava a violência da sua palavra: "Não disse ele — termine e publique o seu livro." Isto causou n Nietzsche certa tristeza, e parece que, desde aquele momento, começaram as divergências entre os dois artistas.
Por outra parte, o conselho do mestre não era tão fácil do ser seguido como o parecia. A Origem da Tragédia não, encontrou editor. Frederico Nietzsche fez diversas tentativas que não deram resultado, e seu veraneio foi entristecido por esse fracasso. Em vista disso, decidiu-se a publicar alguns capítulos em revistas. "Dou o meu livro ao mundo pedaço a pedaço — escreveu, em julho, a Erwin Rohde; — que tortura, um parto semelhante!"
Em meados de outubro, vai passar uma temporada em Leipzig. Torna a ser seu mestre Ritschl e seus amigos Rohde e Gersdorff, que haviam atendido a seu convite, e com eles passa alguns agradáveis dias de conversação e companhia. No entanto, a sorte de seu livro continua incerta; todos os editores de ciência e de filologia livram-se cortesmente do autor, não se sentindo tentados por aquela estranha obra em que a erudição se amálgama ao lirismo, e os problemas da mais: antiga Grécia aos da mais recente Alemanha. "É um livro centauro", diz Frederico Nietzsche. Esta segurança mítica não satisfaz aos comerciantes de livros. Finalmente, e não sem pesar pois sustenta que seu livro é uma obra científica, vê-se obrigado a se dirigir ao editor de Richard Wagner, e, ao cabo de um mês recebe resposta favorável. Comunica imediatamente a notícia ao seu amigo Gersdorff, num tal tom de alívio que permite medir o que ele sofreu:
Basiléia, 19 de novembro de 1871.
Perdão, meu querido amigo. Devia ter-lhe agradecido muito antes. Na sua última carta, em cada uma dás palavras eu sentia a sua forte vida espiritual; parecia-me que você continuava sendo soldado na alma e que levava a arte e á filosofia em seu temperamento militar. Isso é bom. Não temos hoje nenhum direito de viver se não formos militantes, militantes que preparam um saeculum futuro do qual algo podemos adivinhar em nós mesmos em nossos melhores momentos, pois estes momentos, que são o melhor que há em nós, nos afastam do espírito de nosso tempo, no entanto devem ter, em alguma parte, não importa em que forma, seu lugar, de onde deduzo que nesses momentos sentimos passar sobre nós um suspiro confuso dos tempos que se avizinham. Nosso último encontro em Leipzig, não deixou em seu espírito a impressão de serem aqueles momentos estranhos a tudo e ligados a outro saeculum? Seja como for, isto fica: Im Ganzen, Vollen, Schõnen, resolut zu leben! Mas, para isso é preciso uma vontade forte, não concedida ao primeiro a chegar … Até hoje, Fritszch, o excelente editor, não me respondeu…
Fritszch lhe propõe dar ao seu livro o formato e o tipo de uma recente obra de Wagner: Die Bestimmung der Oper. Nietzsche se alegra com isso, e escreve cinco últimos capítulos que acentuam a tendência wagneriana da obra. Esta rápida conclusão e a correção das provas não o distraem, no entanto, de outra empresa.
A Origem da Tragédia vai aparecer. Nietzsche está seguro de que vai ser lida, compreendida e aclamada. Seus companheiros e professores sempre se inclinaram diante da força do seu pensamento. Parece nem lhe passar pela cabeça que um público mais vasto poderá permanecer insensível. Quer chegar de um só golpe ao fundo dele, e faz novos projetos para tirar de seu êxito todas as vantagens possíveis. Deseja falar, pois que a palavra é uma arma mais viva, e recorda as impressões que experimentou quando, no início de sua carreira de professor, lhe foi confiada a singular tarefa de ensinar o idioma mais delicado e as obras mais difíceis a ocasionais auditórios. Recorda o seu desígnio, talvez quimérico, de fundar aquele seminário de filólogos, aquela casa de estudo e de retiro, com a qual ainda sonha. Deseja denunciar as escolas, os ginásios, as Universidades, pesado aparelhamento de pedantismo que afoga o espírito alemão, e definir as novas e necessárias instituições destinadas não já à emancipação das massas, mas à cultura das "elites". Já em março escrevera a Erwin Rohde: "Uma idéia nova me prende, um novo princípio de educação que implica a dissolução total de nossas Universidades e ginásios." Em dezembro anuncia em Basiléia, para janeiro de 1872, uma série de conferências sobre "o futuro de nossas instituições culturais."
Em meados de dezembro acompanha Richard Wagner a Mannheim, onde se realizava uma festa de dois dias dedicada às obras do Mestre.
Ah! Pena que você não tenha estado lá — escreve d Erwin Rohde. — Que são, comparadas a estás, todas as recordações, todas as sensações da arte? Sinto-me como um homem cujo ideal se realiza. Isso, e só isto é música! Quando digo a mim mesmo certo número de homens da geração que nos seguirem — algumas centenas deles, pelo menos — se sentirão emocionados por esta música, como eu próprio me sinto, não posso augurar nada menos que uma total renovação da nossa cultura!
Regressou a sua casa de Basiléia ainda sob a impressão daqueles dias de Mannheim. Os detalhes da sua vida cotidiana causavam-lhe uma estranha e tenaz repugnância. "Tudo o que não se pode reduzir a música — escreve — me repugna e repele… Tenho horror à realidade; para dizer a verdade, não vejo nela nada de real — tudo é simples fantasmagoria." Animado por essa emoção, adquiriu uma idéia mais clara do problema que o preocupava, e formulou mais claramente O princípio que procurava.
"Ensinar e educar os homens… que quer dizer isso? Quer dizer: dispor seus espíritos de tal modo que as obras do gênio estejam garantidas, senão de ser compreendidas por todos, o que é impossível, ser ao menos por todos respeitadas."…
Como nos anos anteriores, Richard e Cosima "Wagner convidaram-no a passar o Natal em Triebschen, mas como estava inteiramente absorvido no trabalho de preparar suas conferências, desculpou-se, oferecendo a Cosima Wagner, a pretexto de escusas e homenagem, uma fantasia musical sobre a noite de São Silvestre, composta poucas semanas antes. "Estou impaciente por saber o que vão pensar dela — escreve a Rohde. — Não fui jamais julgado por uma pessoa competente." Em realidade, vários bons juizes no assunto haviam-no desencorajado de continuar em suas tentativas musicais, mas ele bem depressa esquecia aqueles pareceres contrários.
No último dia de 1871 apareceu seu livro Die Géburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik (A Origem da Tragédia segundo o espírito da Música). O subtítulo que aparece nas edições atuais: Helenismo e Pessimismo, foi acrescentado em 1885, na segunda edição. Frederico Nietzsche enviou o primeiro exemplar a Richard Wagner, e quase imediatamente recebeu dele uma carta delirante:
Querido amigo!
Jamais li um livro tão belo como o seu! Tudo nele é magnífico! Estou escrevendo muito depressa, porque a leitura me emocionou profundamente, e espero recobrar o sangue frio para relê-lo com método. Disse a Cosima: Depois de você é a ele que eu mais quero, e, depois, mas muito menos, quero a Lembach, que fez um retrato meu, tão admirável e tão verdadeiro… Adeus. Venha ver-nos o mais depressa que possa!
Seu
R. W.
E, em 10 de janeiro, Wagner escreve novamente:
Você acabou de publicar um livro que é incomparável. Todas as influências que você possa ter sofrido ficam reduzidas a nada pelo caráter do seu livro. O que o distingue de qualquer outro é a absoluta segurança com que se manifesta a penetrante individualidade. Desta ".. maneira você satisfaz o ardente desejo meu e de minha esposa: por fim, uma voz estranha falou de nós com a nossa plena aprovação! Lemos o seu livro duas vezes, da primeira à última linha — separadamente durante o di° e unidos à noite — e nos lamentamos de não ter à nossa disposição o segundo exemplar que nos prometeu. Travamos verdadeiros combates em torno deste único exemplar. Preciso dele constantemente; entre o almoço e a hora do trabalho é ele quem me põe em boa disposição, pois que, após a sua leitura, voltei a trabalhar no meu último ato. A leitura, comum ou separada, é constantemente interrompida pelas nossas exclamações. Não melivrei, ainda, da emoção experimentada. E é este o estado em que nos encontramos.
E Cosima Wagner escrevia: "Oh, que belo é o seu livro! Que belo e profundo! Que profundo e audacioso!"
Em 16 de janeiro, Nietzsche pronuncia à sua primeira conferência. Sua alegria e segurança são extremas. Sabe que Jacob Burckhardt o lê e aprova; sabe que Rohde, Gersdorff e Overbeck o admiram.
—"O que me escrevem sobre o meu livro é incrível — escreve ele a um amigo. — Contraí uma aliança com Wagner. É impossível que você possa imaginar até que ponto estamos ambos ligados, e nem quanto semelhantes são nossos pontos de vista."
Ele não demora a conceber uma segunda obra, aproveitando as conferências. Será um livro popular, uma tradução esotérica da Tragédia. Mas sobrevém, em seguida, a idéia de uma ação ainda mais decisiva. A Alemanha prepara-se para inaugurar a Universidade de Estrasburgo. Esta apoteose de professores sobre um solo conquistado pelos soldados, deixa Frederico Nietzsche indignado. Pensa em dirigir a Bismarck um folheto "sob a forma de uma interpelação no Reichstag." Têm os nossos pedantes — perguntará ele — o direito de se irem pavonear em Estrasburgo? Nossos soldados venceram os soldados franceses, e isto é glorioso. Mas humilhou nossa cultura a cultura francesa? Quem se atreverá a dizê-lo?
Passam alguns dias. De onde provirá o tom menos seguro de suas cartas? Porque não escreve sua interpelação e abandona a idéia? Não é difícil imaginar: salvo uns poucos amigos que compreenderam seu livro, ninguém o lê, ninguém o compra; nem uma revista, nem um jornal se digna fazer referências a ele. Ritschl, o professor de Leipzig, permaneceu silencioso. Frederico Nietzsche escreve-lhe: "quero conhecer a sua opinião", e recebe, em resposta, uma crítica severa e uma censura. Erwin Rohde manda um artigo à Literárisches Centralblatt, que não o publica.
"Era esta a última probabilidade de que uma voz séria se levantasse a meu favor numa publicação científica — escreve a Gersdorff; — agora", espero unicamente maldades ou asneiras. Espero, porém, que o meu livro abra lentamente um caminho através dos séculos, como já lhe disse com absoluta convicção, pois que aparecem nele, ditas pela primeira vez, certas verdades eternas, e necessariamente terão ressonância…"
Frederico Nietzsche havia previsto tão pouco essa falta de êxito que se assombra e desconcerta. Uma doença da garganta obriga-o a interromper suas conferências, mas este contratempo alegra-o. Havia-se deixado arrastar por idéias muito alias e delicadas, difíceis até mesmo para ele próprio. Desejava demonstrar que era preciso instituir duas classes de escolas: profissionais para a grande maioria, e clássicas e verdadeiramente superiores para um limitado número de alunos, indivíduos escolhidos, cujos estudos continuariam até aos trinta anos. Como formar e instruir esta "elite" isolada, retirada do comum dos homens? Deste modo tornava Nietzsche a encontrar o seu mais familiar e íntimo pensamento, aquele ideal aristocrático a que sempre o conduziam as suas meditações. Havia estudado com freqüência os seus problemas, mas, para os expor em público, necessitava de toda a sua força e de um auditório" confiante. Sentia-se diminuído pelo pouco êxito do seu livro. A indisposição, muito ligeira, durou pouco, mas ele não continuou as conferências. Em vão lhe pediram que continuasse. Negou-se terminantemente. Em vão, também, instaram com ele para que as mandasse imprimir, e todos Os rogos de Wagner foram inúteis. Nietzsche mostrou-se irredutível. Suas notas chegaram até nós incompletas e numa lamentável desordem. São os ecos e vestígios de um sonho:
A aristocracia do espírito deve conquistar a sua completa liberdade ante o Estado, que tem hoje em suas mãos as rédeas da ciência.
Mais tarde os homens se encarregarão de construir ás tábuas da nova cultura___ então, destruição dos ginásios e das universidades... um areópago para a justiça do espírito.
A cultura próxima: sua idéia dos problemas sociais. O mundo imperativo do belo e do sublime… único meio de salvação contra o socialismo…,
E, no final, estas três palavras interrogativas, melancólicas e breves, que resumem suas dúvidas, seus desejos e talvez sua obra inteira: Ist Veredlung moglich? — É possível o enobrecimento?
Frederico Nietzsche renuncia valorosamente à sua esperança, e cala-se. Perdeu sua pátria. A Prússia não será a armadura invencível de uma raça lírica; o império alemão não realizará "o mundo imperativo do belo e do sublime".
Em 30 de abril inaugura-se em Estrasburgo a nova Universidade. "Ouço daqui os seus clamores patrióticos" — escreveu ele a Rohde.
Em janeiro, Nietzsche recusou o oferecimento que lhe fizeram de um emprego que o afastaria de Basiléia. Em abril, fala de deixar Basiléia e de ir à Itália, passar dois ou três anos.
"Apareceu, por fim, a primeira nota falando de meu livro. — escreve — e pareceu-me muito boa. Mas onde? Numa publicação italiana! A Revista Européia! Isto é agradável e simbólico."
Segunda causa de tristeza: Richard Wagner deixa Triebschen e vai instalar-se em Bayreuth. A partida é anunciada numa carta de Cosima Wagner. "Sim, Bayreuth!:.. Adeus querido Triebschen, onde foi concebida A Origem da Tragédia, e tantas outras coisas que talvez jamais recomecem!"
Três anos antes, na mesma estação primaveril, Nietzsche havia aventurado a sua primeira visita a Triebschen; agora, deseja voltar ainda uma vez, e assim faz, encontrando a casa desolada. Alguns móveis cobertos, dispersos, se assemelham a ruínas de outros tempos. Os objetos miúdos, os "bibelôs" familiares, desapareceram. A luz; crua e dura, entra pelas janelas sem cortinas. Wagner e sua esposa acabam de arrumar as bagagens, atirando os últimos livros às últimas cestas. Afinal, atendem-no para pedir-lhe que ajude, ao que ele logo acede. Ele mesmo embrulha e arruma as cartas, os preciosos manuscritos, as partituras. De súbito, sente faltar-lhe coragem: assim, pois, tudo acabou, e não haverá mais Triebschen… Três anos de sua vida… e que anos! — os mais inesperados, os mais emocionantes, os mais deliciosos — desaparecem num dia! É preciso renunciar ao passado, e, sem pensar, seguir o mestre. É preciso olvidar Triebschen e pensar somente em Bayreuth. Apenas se pronuncia, este nome mágico fascina e perturba Nietzsche. As horas de Triebschen haviam sido tão formosas! Horas de trégua e de meditação, de trabalho e de silêncio. Um homem e uma mulher de gênio, um acompanhamento infantil, um infinito de conversações deliciosas, de beleza — tudo isto Triebschen lhe havia dado. Que lhe daria Bayreuth? As multidões correrão para lá; que trarão as multidões?
Frederico Nietzsche abandona os livros que estava embrulhando. O grande piano de cauda permanecia no meio do salão. Abrindo-o, preludiou nele por alguns momentos, e, subitamente, pôs-se a improvisar.
E então, Cosima e Richard Wagner, deixando de trabalhar, ouviram. Uma inesquecível e pungente rapsódia ressoou largamente no salão vazio. Era o adeus.
Em novembro de 1888, já vencido pela loucura, Frederico Nietzsche volta o pensamento para aquela época. "Já que estou recordando — escreveu — os mais doces consolos de minha vida, devo expressar minha gratidão para aquilo que foi por muito tempo a minha mais profunda e preciosa alegria: minha intimidade com Richard Wagner. Faço justiça ao resto de minhas amizades; mas não posso, em absoluto, apagar de minha vida os dias de Triebschen, dias de confiança, de felicidade, de sublimes instantes — de profundos Olhares, Ignoro o que Wagner terá sido para os outros, mas, pelo nosso céu jamais passou uma nuvem.
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